Desequilíbrios hidroelectrolíticos e ácido-base
Atualizado em 28 de setembro de 2026 · 43 perguntas neste tema
A natremia mede a relação entre a água e o sódio, não o sódio total do corpo. A água regula-se pela hormona antidiurética (vasopressina) e pela sede; o volume regula-se pelo sódio total, através da renina, da aldosterona e dos peptídeos natriuréticos. Por isso um doente com hiponatremia pode estar desidratado, euvolémico ou edemaciado, e o valor do sódio não diz nada sobre o volume.
A hiponatremia é a alteração eletrolítica mais frequente no hospital. O tratamento decide-se pelos sintomas e pelo tempo de instalação: com sintomas graves dá-se logo soro hipertónico a 3%, em bólus de 150 mL, até o sódio subir 5 mEq/L; na crónica a correção não passa de 10 mEq/L nas primeiras 24 horas, porque a subida rápida provoca desmielinização osmótica. A hipernatremia é quase sempre de quem não consegue beber, e corrige-se com água livre sem baixar o sódio mais de 10 mEq/L por dia.
Mais de 98% do potássio está dentro das células, e a caliemia muda em minutos por redistribuição (insulina, estímulo beta-2, pH) antes de o rim, que controla o conteúdo total, ter tempo de agir. A hipercaliemia com alterações do ECG é uma emergência: cálcio endovenoso para proteger o coração, insulina com glicose e salbutamol para deslocar o potássio para dentro das células, e ligantes intestinais, diuréticos ou diálise para o remover. A hipocaliemia repõe-se de preferência por via oral; por via endovenosa, devagar, em soro fisiológico e com monitorização quando o ritmo sobe, e sempre com o magnésio corrigido.
No cálcio, o primeiro passo é o valor corrigido pela albumina e o segundo é a paratormona: alta ou inapropriadamente normal numa hipercalcemia é hiperparatiroidismo primário, suprimida aponta para neoplasia ou para excesso de vitamina D. O magnésio e o fósforo caem no alcoólico, no desnutrido que volta a comer e na cetoacidose em tratamento, e a hipomagnesemia torna a hipocaliemia e a hipocalcemia refratárias.
A gasometria lê-se sempre pela mesma ordem: pH, distúrbio primário, compensação esperada, hiato aniónico corrigido pela albumina e, se estiver alargado, a comparação entre a subida do hiato e a descida do bicarbonato. A compensação não normaliza o pH, com a exceção da alcalose respiratória crónica, e um valor fora do esperado é um segundo distúrbio. A acidose com hiato alargado é um ácido novo (lactato, cetoácidos, urémia, tóxicos); com hiato normal é bicarbonato perdido pelo intestino ou pelo rim.
- Hiponatremia: sódio abaixo de 135 mEq/L. É a alteração eletrolítica mais frequente no hospital, em até 22% dos doentes internados.
- Cerca de dois terços dos casos diagnosticados são adquiridos no hospital, muitas vezes com soros hipotónicos no pós-operatório.
| gravidade bioquímica (guideline europeia de 2014) | sódio |
|---|---|
| Ligeira | 130 a 135 mEq/L |
| Moderada | 125 a 129 mEq/L |
| Profunda | abaixo de 125 mEq/L |
- Aguda: documentada há menos de 48 horas. Crónica: há 48 horas ou mais. Quando não se sabe, trata-se como crónica.
Água e volume regulam-se por sistemas diferentes
- A osmolalidade defende-se pela água: a sede e a hormona antidiurética, que no tubo coletor abre canais de água (aquaporinas) pelo recetor V2.
- O volume defende-se pelo sódio total: renina, angiotensina, aldosterona e peptídeos natriuréticos.
- A hipovolemia e o enchimento arterial insuficiente da insuficiência cardíaca e da cirrose libertam hormona antidiurética mesmo com osmolalidade baixa. O corpo defende o volume à custa da tonicidade, e a hiponatremia aparece se o doente beber água.
- Quase toda a hiponatremia é hormona antidiurética em excesso, ou rim mais sensível a ela, com ingestão de água livre. A exceção é a baixa ingestão de soluto.
Tonicidade
- Só os solutos que não atravessam livremente as membranas movem água. A ureia e o etanol sobem a osmolalidade medida mas não a tonicidade e não causam hiponatremia.
- A glicose e o manitol puxam água das células e baixam o sódio sem hipotonicidade.
Causas pela volemia
| volemia | causas |
|---|---|
| Hipovolemia | perdas extrarrenais (vómitos, diarreia, drenagens, suor, queimaduras); perdas renais: tiazidas, insuficiência suprarrenal primária e hipoaldosteronismo, nefropatias perdedoras de sal, diurese osmótica (glicose, cetonas, bicarbonato), perda cerebral de sal |
| Euvolemia | SIADH, hipotiroidismo moderado a grave, insuficiência suprarrenal secundária, polidipsia primária, baixa ingestão de soluto (potomania da cerveja, dietas muito restritivas) |
| Hipervolemia | insuficiência cardíaca, cirrose, síndrome nefrótica, lesão renal aguda e doença renal crónica |
SIADH
- É a causa mais frequente de hiponatremia euvolémica: hormona antidiurética que a hipotonicidade não suprime, sem estímulo de volume que a explique.
- Causas: doença pulmonar (pneumonia, tuberculose), sistema nervoso central (hemorragia subaracnoideia, meningite, tumores, traumatismo), neoplasias (o carcinoma de pequenas células do pulmão dá 75% da SIADH de causa maligna), fármacos (inibidores seletivos da recaptação da serotonina, os mais frequentes, carbamazepina, tricíclicos, antipsicóticos, vincristina, ciclofosfamida, opioides, MDMA), náusea, dor e pós-operatório.
- A água retida expande ligeiramente o volume e o rim escapa com natriurese: o doente fica clinicamente euvolémico, com sódio urinário alto e ácido úrico baixo.
Tiazidas
- São a causa medicamentosa mais frequente de hiponatremia, sobretudo nas primeiras 2 semanas, na mulher idosa e no verão. Os anti-inflamatórios e os inibidores seletivos da recaptação da serotonina somam risco.
- Não impedem o rim de concentrar a urina, e a hormona antidiurética atua por inteiro. Os diuréticos de ansa bloqueiam o mecanismo de contracorrente e causam hiponatremia menos vezes.
Adaptação do cérebro
- Na hiponatremia aguda a água entra nos neurónios e há edema cerebral. O cérebro defende-se perdendo iões e depois osmólitos orgânicos, uma adaptação que fica completa em cerca de 48 horas: é esse o tempo que separa aguda de crónica.
- Na correção os osmólitos voltam a entrar devagar, e uma subida rápida do sódio num cérebro adaptado lesa os oligodendrócitos: é a síndrome de desmielinização osmótica.
| gravidade dos sintomas (guideline europeia de 2014) | sintomas |
|---|---|
| Moderadamente graves | náusea sem vómitos, confusão, cefaleia |
| Graves | vómitos, dificuldade cardiorrespiratória, sonolência profunda, convulsões, coma |
- Os sintomas são do edema cerebral e dependem mais da velocidade de instalação do que do valor.
- A aguda pode evoluir depressa para convulsões, herniação e morte, e dar insuficiência respiratória por edema pulmonar neurogénico. As mulheres antes da menopausa têm mais risco de encefalopatia.
- Contextos de hiponatremia aguda: pós-operatório com soros hipotónicos, exercício de resistência (a maratona), MDMA, polidipsia, tiazida recente, irrigação com glicina na ressecção transuretral da próstata.
- Na crónica os sintomas aparecem em regra abaixo de 125 mEq/L. A dita assintomática dá alterações da marcha e da atenção, quedas e fraturas, e vale a pena corrigi-la.
1. É hipotónica?
- Osmolalidade efetiva abaixo de 275 mOsm/kg confirma a hiponatremia hipotónica, a verdadeira.
- Hiperglicemia: o sódio desce 1,6 a 2,4 mEq/L por cada 100 mg/dL de glicose; a guideline europeia soma 2,4 mEq/L ao sódio por cada 100 mg/dL acima de 100.
- Pseudo-hiponatremia: erro do laboratório com hipertrigliceridemia ou hiperproteinemia graves, com osmolalidade normal.
2. Urina, pela ordem da guideline europeia
- Osmolalidade urinária de 100 mOsm/kg ou menos: a urina está diluída como deve, e o problema é água a mais para o soluto (polidipsia primária, potomania da cerveja, dieta pobre em soluto).
- Acima de 100: sódio urinário de 30 mEq/L ou menos aponta para volume arterial efetivo baixo (perdas extrarrenais, insuficiência cardíaca, cirrose, síndrome nefrótica).
- Acima de 30: avaliam-se o volume e os diuréticos. Hipovolemia sugere diurético, insuficiência suprarrenal primária, nefropatia perdedora de sal ou perda cerebral de sal; euvolemia sugere SIADH, hipotiroidismo ou insuficiência suprarrenal secundária.
- A urina vem antes do exame do volume porque a volemia avaliada à cabeceira engana, sobretudo no idoso. A prova de que era hipovolemia é o sódio corrigir com soro fisiológico.
Laboratório
- Glicose, ureia, creatinina, potássio (a hipercaliemia sugere insuficiência suprarrenal ou hipoaldosteronismo), ácido úrico, TSH e cortisol da manhã, com osmolalidade, sódio e potássio urinários.
- Ácido úrico abaixo de 4 mg/dL apoia SIADH; na hipovolemia tende a estar alto.
Critérios de SIADH
| essenciais | suplementares |
|---|---|
| Osmolalidade efetiva abaixo de 275 mOsm/kg | Ácido úrico abaixo de 4 mg/dL |
| Osmolalidade urinária acima de 100 mOsm/kg | Ureia sérica abaixo de 21,6 mg/dL |
| Euvolemia clínica | Sem correção com soro fisiológico |
| Sódio urinário acima de 30 mEq/L com ingestão normal de sal e água | Excreção fracionada de sódio acima de 0,5% |
| Sem insuficiência suprarrenal, tiroideia, hipofisária ou renal | Correção com restrição hídrica |
| Sem diuréticos recentes |
- Sob tiazida não se chama SIADH: espera-se 1 a 2 semanas depois de a suspender.
- No fumador pede-se TC do tórax, porque a radiografia pode não mostrar o carcinoma de pequenas células.
SIADH contra perda cerebral de sal
| SIADH | perda cerebral de sal | |
|---|---|---|
| Volume extracelular | normal ou ligeiramente expandido | baixo, com natriurese inapropriada |
| Sódio urinário | alto | alto |
| Contexto | qualquer das causas de SIADH | hemorragia subaracnoideia, traumatismo craniano, craniotomia, meningite, encefalite |
| Tratamento | restringir água | repor sal e volume |
Sintomas graves, aguda ou crónica (guideline europeia de 2014)
- 150 mL de NaCl a 3% em 20 minutos; mede-se o sódio aos 20 minutos e repete-se o bólus, até duas vezes, ou até o sódio subir 5 mEq/L.
- Se os sintomas melhoram com essa subida, para-se a solução hipertónica e trata-se a causa. Se não melhoram, continua-se o 3% para subir 1 mEq/L por hora até melhorarem, até o sódio subir 10 mEq/L no total ou chegar a 130, e procura-se outra causa.
- Sintomas moderadamente graves: um único bólus de 150 mL de NaCl a 3% em 20 minutos, com alvo de subir 5 mEq/L em 24 horas.
- O objetivo imediato é tirar o cérebro do perigo, não normalizar o sódio.
Limites de correção
| limite | |
|---|---|
| Primeiras 24 horas (guideline europeia) | 10 mEq/L |
| Cada 24 horas seguintes | 8 mEq/L, até 130 mEq/L |
| Alto risco de desmielinização (painel americano de 2013) | 8 mEq/L em qualquer período de 24 horas |
| Em 48 horas | 18 mEq/L |
- Alto risco: sódio de 105 mEq/L ou menos, alcoolismo, desnutrição, hipocaliemia, doença hepática avançada.
- O sódio mede-se de 2 em 2 a de 4 em 4 horas durante a correção, porque a resposta é imprevisível. Uma diurese que sobe de repente para mais de 100 mL por hora anuncia uma subida rápida.
- Repor potássio também sobe o sódio, e conta para o limite.
Quanto sódio dar
- Défice de sódio: 0,6 (0,5 na mulher) vezes o peso vezes a diferença entre o sódio pretendido e o atual. O NaCl a 3% tem 513 mEq/L.
- Exemplo: mulher de 60 kg, sódio 118, alvo de subir 6 em 24 horas: 0,5 × 60 × 6 dá 180 mEq, e 180 a dividir por 513 dá cerca de 350 mL de NaCl a 3% em 24 horas. A fórmula é só um ponto de partida; quem decide é o sódio medido.
Hiponatremia crónica sem sintomas graves, pela causa
- Hipovolemia: soro fisiológico ou cristaloide equilibrado a 0,5 a 1 mL/kg por hora. Reposto o volume, a hormona antidiurética cai e o sódio pode subir muito depressa.
- SIADH:
- Tratar a causa e suspender o fármaco.
- Restrição hídrica, primeira linha, guiada pela razão entre o sódio mais o potássio urinários e o sódio plasmático: acima de 1, menos de 500 mL por dia; cerca de 1, 500 a 700 mL; abaixo de 1, menos de 1 litro.
- Segunda linha: ureia oral 0,25 a 0,50 g/kg por dia, ou furosemida em dose baixa (20 mg duas vezes por dia) com cloreto de sódio oral.
- Tolvaptano, antagonista do recetor V2: inicia-se no hospital, sem restrição hídrica e com o sódio medido de perto, porque cerca de 10% sobrecorrigem; o uso prolongado associa-se a alterações hepáticas.
- Hipervolemia (insuficiência cardíaca, cirrose): restrição hídrica e tratamento da doença de base.
- No soro fisiológico, a SIADH excreta o sal e retém a água: quando a urina é mais concentrada do que o soro, o sódio pode até descer.
Síndrome de desmielinização osmótica
- Resulta de corrigir depressa uma hiponatremia crónica (mais de 8 a 10 mEq/L em 24 horas, ou mais de 18 em 48 horas). Atinge classicamente a ponte, mas também o cerebelo, o tálamo, o putâmen e o córtex.
- Surge um ou mais dias depois da sobrecorreção: paraparesia ou tetraparesia, disfagia, disartria, diplopia, síndrome de encarceramento, perda de consciência.
- Pode acontecer mesmo com correção lenta nos doentes de alto risco.
Sobrecorreção e o seu resgate
- Acontece quando o estímulo da hormona antidiurética desaparece de repente: volume reposto na hipovolemia, hidrocortisona na insuficiência suprarrenal secundária, reposição de potássio, doente com potomania que volta a comer, tolvaptano.
- Se o sódio subir acima do limite: suspender o tratamento ativo e baixar de novo o sódio com glicose a 5%, 10 mL/kg numa hora, e desmopressina 2 µg endovenosa, não repetida antes de 8 horas.
Prognóstico
- A hiponatremia associa-se a mais mortalidade e a internamentos mais longos, e é um marcador de gravidade na insuficiência cardíaca e na cirrose.
- Hipernatremia: sódio acima de 145 mEq/L. Significa sempre hipertonicidade e células a perder água, e é um fator de risco independente de mortalidade nos cuidados intensivos.
- A sede é tão sensível que a hipernatremia é rara em quem está consciente e tem água à mão. Quase sempre há alguém que não consegue beber ou pedir água: o idoso, com sede diminuída ou dependente, o doente com alteração da consciência, o entubado, o lactente.
| mecanismo | causas |
|---|---|
| Perdas extrarrenais de água | febre, exercício, calor, queimaduras extensas, ventilação mecânica; diarreia osmótica e gastroenterites virais (fezes com menos sódio e potássio do que o plasma) |
| Diurese osmótica | hiperglicemia, excesso de ureia (alimentação entérica rica em proteína), manitol, diurese pós-obstrutiva |
| Diurese de água | diabetes insípida central; nefrogénica por lítio, hipercalcemia, hipocaliemia ou causa genética; diabetes insípida gestacional |
| Ganho de sódio | soro hipertónico, bicarbonato de sódio, raramente excesso de mineralocorticoide |
| Sede ausente | lesão dos osmorrecetores do hipotálamo (tumor, traumatismo, hidrocefalia, cirurgia da comunicante anterior) |
- O cérebro adapta-se a uma hipernatremia com mais de 48 horas acumulando osmólitos. É isso que torna perigosa a correção rápida: a água entra nos neurónios e causa edema cerebral e convulsões, sobretudo na criança.
- Sintomas sobretudo neurológicos: sede, letargia, fraqueza, fasciculações, confusão, convulsões e coma. A alteração do estado de consciência é a manifestação mais frequente.
- Na aguda, a retração brusca do cérebro pode romper vasos e dar hemorragias parenquimatosas, subaracnoideias ou hematomas subdurais, sobretudo na criança.
- Pode dar rabdomiólise.
- Com défice grande de água, ou perdas mistas de água e sódio, há também hipovolemia com hipotensão ortostática.
- Registar a água que entra e a urina que sai, e medir osmolalidade plasmática e urinária e eletrólitos urinários.
| achado | leitura |
|---|---|
| Urina escassa (menos de 500 mL por dia) e osmolalidade urinária acima de 800 mOsm/kg | o rim concentra como deve: a perda é extrarrenal |
| Poliúria com excreção de soluto acima de 750 a 1000 mOsm por dia | diurese osmótica (glicose, ureia, manitol) |
| Poliúria com urina diluída | diabetes insípida |
- Na diabetes insípida, a resposta à desmopressina separa as duas formas: a osmolalidade urinária sobe na central; na nefrogénica sobe menos de 50%, ou menos de 150 mOsm/kg.
- Com hipernatremia, o estímulo osmótico já está presente: a prova de restrição hídrica está contraindicada.
Défice de água
- Défice de água: água corporal (0,6 do peso no homem, 0,5 na mulher) vezes o sódio a dividir por 140, menos 1.
- Exemplo: homem de 70 kg com sódio de 160: 42 L × (160/140 − 1), cerca de 6 L.
- Ao défice somam-se as perdas insensíveis e as perdas que continuam (urina e tubo digestivo), que na diabetes insípida se medem todos os dias.
Ritmo
- Na crónica, o sódio não desce mais de 10 mEq/L por dia, e o défice repõe-se em regra em 48 horas, mais se o sódio for acima de 160.
- A exceção é a hipernatremia aguda, de menos de 48 horas, por carga de sódio: pode corrigir-se a 1 mEq/L por hora.
- No adulto, se o ritmo foi ultrapassado, não se volta a subir o sódio.
Que água
- De preferência água oral ou por sonda nasogástrica; senão glicose a 5% endovenosa, com glicemias.
- Soro hipotónico (NaCl a 0,45%) quando há também défice de sódio; soro fisiológico só com hipotensão franca.
- Na síndrome hiperosmolar hiperglicémica, o sódio não desce mais de 10 mEq/L em 24 horas.
A causa
- Diabetes insípida central: desmopressina.
- Nefrogénica por lítio: amilorido 2,5 a 10 mg por dia; as tiazidas e os anti-inflamatórios reduzem a poliúria da nefrogénica a longo prazo, e não têm lugar na hipernatremia aguda.
- Corrigir a hiperglicemia, a hipercalcemia, a hipocaliemia, a diarreia, e retirar o fármaco.
O potássio em dois tempos
- Normal entre 3,5 e 5,0 mEq/L. Mais de 98% está dentro das células, sobretudo no músculo; cerca de 90% do que se ingere sai pela urina.
- Em minutos manda a redistribuição: a insulina, os agonistas beta-2 e a alcalose empurram o potássio para dentro das células.
- A prazo manda o rim: a secreção é nas células principais do tubo coletor cortical, onde o sódio que entra pelo canal epitelial de sódio (ENaC) cria a carga negativa que puxa o potássio. Aumentam-na a aldosterona e a maior chegada de sódio e fluxo ao néfron distal, que é o que faz os diuréticos perder potássio.
- Hipocaliemia: potássio abaixo de 3,5 mEq/L, em até 20% dos doentes internados.
Causas
| grupo | causas |
|---|---|
| Redistribuição | insulina, agonistas beta-2 (broncodilatadores, tocolíticos), alcalose, paralisia periódica (familiar ou tireotóxica), tratamento da anemia megaloblástica, hipotermia |
| Perdas extrarrenais | diarreia, laxantes, fístulas, adenoma viloso, sudação extrema |
| Perdas renais | diuréticos (as tiazidas mais do que os de ansa); vómitos, em que se perde pouco potássio pelo estômago e muito pelo rim, pela alcalose e pelo hiperaldosteronismo secundário; hiperaldosteronismo primário e secundário; Cushing e ACTH ectópica; alcaçuz; síndrome de Liddle; Bartter e Gitelman; acidose tubular renal tipos 1 e 2; cetoacidose; hipomagnesemia; aminoglicosídeos, anfotericina, cisplatina |
| Ingestão baixa | rara sozinha: anorexia nervosa, álcool, dietas extremas |
- Pseudo-hipocaliemia: leucocitose muito alta (leucemia), em que as células captam o potássio no tubo de colheita.
- A hipomagnesemia faz perder potássio pelo rim e impede a sua entrada no músculo: sem corrigir o magnésio, o potássio não se mantém.
- Músculo: fraqueza, paralisia flácida que sobe dos membros ao tronco e aos músculos respiratórios, mialgias, rabdomiólise; íleo paralítico no músculo liso.
- Coração: arritmias auriculares e ventriculares, e mais toxicidade da digoxina.
- ECG: ondas T achatadas e largas, infradesnivelamento de ST, ondas U mais amplas e QT prolongado, mais marcados abaixo de 2,7 mEq/L.
- Rim: poliúria por diabetes insípida nefrogénica, alcalose metabólica, nefropatia intersticial crónica.
- Intolerância à glicose, porque a libertação de insulina depende do potássio.
- A causa quase sempre se vê na história: fármacos (diuréticos, laxantes), dieta (alcaçuz), diarreia, vómitos, fraqueza periódica. Medem-se a pressão arterial, o equilíbrio ácido-base, o magnésio e o potássio urinário.
O rim está a perder potássio?
| teste | perda extrarrenal (rim a poupar) | perda renal |
|---|---|---|
| Potássio urinário ocasional | abaixo de 20 mEq/L | acima de 40 mEq/L |
| Razão potássio/creatinina urinárias | abaixo de 13 mEq/g | acima |
| Potássio na urina de 24 horas | abaixo de 15 mEq | acima |
Os padrões
| padrão | pensar em |
|---|---|
| Hipertensão, hipocaliemia, alcalose | excesso de mineralocorticoide: medir renina e aldosterona (hiperaldosteronismo primário com renina suprimida; estenose da artéria renal com as duas altas; Cushing, alcaçuz e Liddle com as duas baixas) |
| Pressão normal e alcalose | vómitos (cloreto urinário abaixo de 10 mEq/L na bulimia), diuréticos, Gitelman (hipomagnesemia e hipocalciúria), Bartter (hipercalciúria) |
| Acidose com hiato aniónico normal | diarreia (hiato aniónico urinário negativo) ou acidose tubular renal tipo 1 ou 2 (positivo) |
- Hipocaliemia com hipertensão é hiperaldosteronismo primário até prova em contrário.
Quanto falta
- Sem redistribuição, a descida de 4 para 3 mEq/L corresponde a um défice de 300 a 400 mEq, e 2 mEq/L a cerca de 600 mEq, num adulto de 70 kg. Repõe-se ao longo de 24 a 48 horas, com potássio medido várias vezes.
Oral primeiro
- O cloreto de potássio oral é a base e a via mais segura. Usa-se citrato ou bicarbonato de potássio se houver acidose metabólica, e fosfato de potássio se houver também hipofosfatemia.
- Corrige-se sempre o magnésio.
Endovenoso, quando é preciso
- Só quando a via oral não serve ou há complicações graves: arritmia, paralisia, rabdomiólise.
- Em soro fisiológico, nunca em glicose: a insulina libertada pela glicose baixa ainda mais o potássio.
- Em veia periférica, concentração até 40 mEq/L; acima dá dor e flebite.
| via | ritmo | condições |
|---|---|---|
| Periférica | habitualmente até 10 mEq/h | monitorização cardíaca contínua acima de 10 mEq/h |
| Central | 10 a 20 mEq/h | monitorização cardíaca contínua, em unidade diferenciada; potássio abaixo de 2,5 mEq/L ou sintomas graves |
| Central, excecional | até 40 mEq/h | só na ameaça imediata de vida, com monitorização cardíaca contínua |
- Limita-se a quantidade preparada de cada vez (por exemplo 20 mEq em 100 mL de soro fisiológico), para não se infundir uma dose grande por engano.
A causa
- Diuréticos poupadores de potássio (amilorido, espironolactona) nas perdas renais que persistem, com cuidado na doença renal.
- Paralisia periódica tireotóxica: propranolol 3 mg/kg, que corrige sem hipercaliemia de ressalto.
Cetoacidose diabética (consenso de 2024 das sociedades americana e europeia da diabetes e do grupo britânico de diabetes em internamento)
- O défice total é de 3 a 6 mEq/kg, mas o potássio à entrada está quase sempre normal ou alto, porque a acidose e a falta de insulina o tiram das células. A insulina, a correção da acidose e os soros vão baixá-lo 1 a 2 mEq/L em 48 horas.
| potássio à entrada | conduta |
|---|---|
| Abaixo de 3,5 mEq/L | adiar a insulina; potássio a cerca de 10 mEq/h até passar de 3,5 (mais depressa exige acesso central) |
| 3,5 a 5,0 mEq/L | insulina, e potássio nos soros para manter 4 a 5 mEq/L |
| Acima de 5,0 mEq/L | insulina sem potássio; potássio de 2 em 2 horas |
- Tem de haver diurese antes de dar potássio.
Doente sob digoxina
- A hipocaliemia aumenta a toxicidade da digoxina, e a reposição é mais urgente.
- Hipercaliemia: potássio de 5,5 mEq/L ou mais, em até 10% dos internados; acima de 6,0 em cerca de 1%, com mortalidade claramente maior.
- A causa de fundo mais frequente é a excreção renal diminuída, muitas vezes com um fármaco por cima.
| grupo | causas |
|---|---|
| Pseudo-hipercaliemia | hemólise na colheita, garrote e punho cerrado, trombocitose, leucocitose, arrefecimento da amostra |
| Saída das células | acidose de hiato normal (a láctica e a cetoacidose quase não deslocam potássio), hiperosmolalidade (glicose sem insulina, manitol), betabloqueantes não seletivos, intoxicação digitálica, succinilcolina, lise tumoral, rabdomiólise, hemólise, queimaduras |
| Excreção renal baixa | lesão renal aguda oligúrica; doença renal crónica, em regra só com filtração abaixo de 10 a 20 mL/min; hipoaldosteronismo hiporreninémico do diabético; insuficiência suprarrenal primária; pouca chegada de sódio distal (insuficiência cardíaca, hipovolemia) |
| Fármacos | inibidores da enzima de conversão da angiotensina e antagonistas do recetor da angiotensina, espironolactona e eplerenona, amilorido e triamtereno, trimetoprim, pentamidina, anti-inflamatórios, ciclosporina e tacrolimus, heparina, drospirenona |
| Aporte | substitutos de sal com potássio, suplementos, transfusão maciça, sempre em quem já excreta mal |
- A hipercaliemia fora de proporção com a filtração faz pensar em hipoaldosteronismo ou em doença do tubo distal.
- É uma emergência pelos efeitos no coração: bradicardia sinusal, paragem sinusal, ritmos idioventriculares lentos, taquicardia e fibrilhação ventriculares, assistolia.
- Pode dar paralisia ascendente, com insuficiência respiratória.
| ECG | potássio aproximado |
|---|---|
| Ondas T apiculadas, altas, estreitas e simétricas | 5,5 a 6,5 mEq/L |
| Perda da onda P, PR longo | 6,5 a 7,5 mEq/L |
| QRS alargado | 7,0 a 8,0 mEq/L |
| Onda sinusoidal | acima de 8,0 mEq/L, iminência de fibrilhação ventricular ou assistolia |
- A sequência é muito pouco sensível: na instalação aguda o ECG altera-se por volta de 6 mEq/L, mas na doença renal crónica pode estar normal até 8 ou 9.
- Na hipercaliemia grave pode surgir um padrão de Brugada, com bloqueio de ramo direito aparente e supradesnivelamento de ST em pelo menos duas derivações precordiais.
- Primeiro decide-se se é emergência: ECG imediato. Alterações do ECG, ou potássio de 6,5 mEq/L ou mais mesmo com ECG normal, pedem tratamento já, com monitorização contínua.
- Se o doente está bem, o ECG é normal e há razão para suspeitar de pseudo-hipercaliemia, repete-se a colheita, sem garrote prolongado nem punho cerrado.
- Depois a causa: fármacos, dieta e suplementos, função renal, diurese, volemia, glicose, gasometria, hemograma, creatinina quinase, e sódio e potássio urinários.
- Sódio urinário abaixo de 20 mEq/L: pouca chegada de sódio ao néfron distal limita a excreção de potássio; o soro fisiológico ou a furosemida podem resolvê-lo.
Classificação (Conselho Europeu de Ressuscitação, 2025)
- Moderada: 6,0 a 6,4 mEq/L. Grave: 6,5 mEq/L ou mais.
- Internamento, monitorização cardíaca contínua e três passos encadeados, sem pausa entre eles.
1. Proteger o coração
- Cálcio endovenoso, se há alterações do ECG: cloreto de cálcio a 10%, 10 mL em 5 minutos, ou gluconato de cálcio a 10%, 30 mL em 10 minutos.
- Atua em 1 a 3 minutos e dura 30 a 60 minutos; repete-se se o ECG não melhora ou volta a alterar-se.
- Não baixa o potássio: sobe o limiar do potencial de ação e restaura a excitabilidade.
- Sob digoxina, com cautela: 10 mL de gluconato a 10% em 100 mL de glicose a 5%, em 20 a 30 minutos.
2. Deslocar o potássio para dentro das células
| fármaco | dose | início e duração |
|---|---|---|
| Insulina com glicose | 10 U de insulina rápida com 25 g de glicose, endovenosas | começa em 10 a 20 minutos, pico aos 30 a 60, dura 4 a 6 horas |
| Salbutamol nebulizado | 10 a 20 mg | começa em cerca de 30 minutos, pico aos 90, dura 2 a 6 horas |
- Insulina com glicose na hipercaliemia moderada e grave. Se a glicemia antes do tratamento for abaixo de 7 mmol/L (126 mg/dL), segue-se glicose a 10% a 50 mL/h durante 5 horas, porque a hipoglicemia é frequente. Com glicemia de 200 a 250 mg/dL, dá-se a insulina sem glicose.
- O salbutamol soma efeito ao da insulina, mas cerca de 20% dos doentes em diálise não respondem: nunca sozinho. Cautela na doença coronária.
- O bicarbonato não tem lugar no tratamento agudo fora da paragem cardíaca, em que se dão 50 mmol.
3. Remover o potássio
- Ciclossilicato de zircónio sódico 10 g oral (ERC 2025); o patirómero é alternativa, e tem como efeito adverso a hipomagnesemia.
- O poliestirenossulfonato de sódio (15 a 30 g) é lento, até 24 horas, e pode causar necrose intestinal: só quando não há alternativa.
- Diuréticos de ansa ou tiazidas se o rim responde e o doente não está hipovolémico; soro fisiológico no hipovolémico com pouca diurese.
- Hemodiálise: o método mais eficaz, na hipercaliemia refratária e no rim que não funciona.
- E suspendem-se as fontes de potássio e os fármacos que o retêm.
Hipercaliemia crónica
- Dieta pobre em potássio e sem substitutos de sal, suspender anti-inflamatórios, diuréticos (tiazidas ou de ansa, conforme a função renal), bicarbonato de sódio se houver acidose metabólica.
- Os ligantes novos (patirómero, ciclossilicato de zircónio) mantêm a normocaliemia e permitem continuar o bloqueio do sistema renina-angiotensina-aldosterona na doença renal e cardíaca.
Regulação
- Cálcio total normal de 8,9 a 10,1 mg/dL (2,2 a 2,5 mmol/L); cerca de 50% ionizado e o resto ligado sobretudo à albumina.
- A paratormona sobe a reabsorção renal de cálcio, a reabsorção óssea e a síntese renal de calcitriol, que por sua vez aumenta a absorção intestinal.
- Cálcio corrigido: somar 0,8 mg/dL por cada 1 g/dL de albumina abaixo de 4,1 g/dL.
Causas, pela paratormona
| paratormona | causas |
|---|---|
| Alta ou inapropriadamente normal | hiperparatiroidismo primário (adenoma, hiperplasia, raramente carcinoma); hiperparatiroidismo terciário da doença renal; hipercalcemia hipocalciúrica familiar; lítio |
| Suprimida | neoplasia: péptido relacionado com a paratormona em tumores sólidos (sobretudo pulmão e rim), metástases líticas (mama, mieloma), calcitriol nos linfomas; granulomatoses (sarcoidose, tuberculose); intoxicação por vitamina D; hipertiroidismo; imobilização; síndrome de leite e alcalinos; tiazidas; vitamina A |
- A hipercalcemia crónica do ambulatório é quase sempre hiperparatiroidismo primário; a segunda causa é a neoplasia, em regra já conhecida e mais grave.
- Ligeira (até 11 a 11,5 mg/dL): em regra assintomática, descoberta em análises; queixas vagas de concentração, humor ou depressão.
- Mais grave (acima de 12 a 13 mg/dL), sobretudo se aguda: letargia, estupor, coma; náuseas, anorexia, obstipação, pancreatite; poliúria e polidipsia por perda da capacidade de concentrar a urina, com desidratação.
- Crónica: litíase renal, úlcera péptica, dor óssea e fraturas.
- ECG: bradicardia, bloqueio auriculoventricular e QT curto.
- Confirmar pelo cálcio corrigido (ou ionizado).
- Paratormona intacta, a análise que decide, com creatinina e fósforo.
- Paratormona alta ou inapropriadamente normal, com fósforo baixo: quase sempre hiperparatiroidismo primário. Antes de operar exclui-se a hipercalcemia hipocalciúrica familiar: razão entre a depuração do cálcio e a da creatinina abaixo de 0,01, sobretudo com história familiar de hipercalcemia ligeira; a cirurgia não a trata.
- Paratormona suprimida: péptido relacionado com a paratormona para a hipercalcemia maligna humoral, calcitriol para as granulomatoses e os linfomas, e procura da neoplasia.
- Ligeira e assintomática: sem tratamento imediato; trata-se a causa. Até cerca de 12 mg/dL basta em regra hidratar.
- Sintomática, ou acima de 12: tratamento imediato. A partir de 15 mg/dL, correção rápida com todas as armas.
| medida | dose | notas |
|---|---|---|
| Soro fisiológico | 4 a 6 L podem ser precisos nas primeiras 24 horas | primeiro passo, porque o doente está desidratado; aumenta a excreção de cálcio |
| Furosemida | só depois de repor o volume, e se houver sobrecarga | |
| Calcitonina | 4 a 8 UI/kg, subcutânea ou intramuscular, de 6 em 6 a 12 em 12 horas | atua em horas; perde o efeito ao fim de cerca de 24 horas (taquifilaxia); ponte até ao bifosfonato |
| Ácido zoledrónico | 4 mg endovenoso | começa a atuar em 1 a 3 dias; normaliza o cálcio em 60 a 90% |
| Pamidronato | 60 a 90 mg endovenoso em 2 a 4 horas | alternativa |
| Denosumab | 120 mg subcutâneo | na refratária aos bifosfonatos |
| Glucocorticoides | hidrocortisona 100 a 300 mg por dia endovenosa, ou prednisona 40 a 60 mg por dia, 3 a 7 dias | nas mediadas por calcitriol (sarcoidose, linfoma) e no mieloma |
| Diálise | na hipercalcemia grave com insuficiência renal |
- Confirma-se pelo cálcio corrigido pela albumina ou pelo ionizado.
| paratormona | causas |
|---|---|
| Baixa (hipoparatiroidismo) | pós-cirurgia da tiroide ou das paratiroides, a causa mais frequente no adulto; autoimune; radiação; infiltração; hipomagnesemia; mutações ativadoras do recetor sensor de cálcio |
| Alta (hiperparatiroidismo secundário) | défice de vitamina D, doença renal crónica, resistência à paratormona (pseudo-hipoparatiroidismo), pancreatite aguda, rabdomiólise, lise tumoral, queimaduras, síndrome do osso faminto depois da paratiroidectomia, metástases osteoblásticas, fármacos (bifosfonatos, fenitoína) |
- A hipocalcemia do hipoparatiroidismo é a mais grave, porque falta a defesa principal.
- A hipomagnesemia grave (abaixo de 1 mg/dL) bloqueia a secreção de paratormona, e a menos grave torna os tecidos resistentes a ela.
- Na alcalose respiratória aguda o cálcio liga-se mais à albumina e o ionizado desce com o total normal.
- Ligeira e crónica pode ser assintomática.
- Irritabilidade neuromuscular: parestesias dos dedos e periorais, cãibras, espasmo carpopedal, broncospasmo, laringospasmo, convulsões.
- Sinal de Chvostek: a percussão do nervo facial à frente da orelha contrai os músculos periorais; existe em cerca de 10% das pessoas normais.
- Sinal de Trousseau: a braçadeira insuflada 20 mmHg acima da sistólica durante 3 minutos provoca o espasmo do carpo; é mais específico.
- ECG: QT longo.
- Medir albumina, fósforo, magnésio e paratormona, e depois a vitamina D.
- Paratormona baixa ou inapropriadamente baixa: hipoparatiroidismo; a história (cirurgia do pescoço, doença autoimune) dá quase sempre a causa. Fósforo alto.
- Paratormona alta: procurar o défice de vitamina D pela 25-hidroxivitamina D; na doença renal ou na suspeita de resistência, o calcitriol.
- Magnésio baixo: corrigir primeiro e reavaliar.
Aguda e sintomática
- Gluconato de cálcio a 10%, 10 mL (90 mg de cálcio elementar), diluído em 50 mL de glicose a 5% ou soro fisiológico, endovenoso em 5 minutos.
- Se persiste: perfusão contínua, por exemplo 900 mg de cálcio (10 ampolas de gluconato) em 1 L em 24 horas.
- Corrigir a hipomagnesemia, se existir.
Crónica
- Hipoparatiroidismo: cálcio 1000 a 1500 mg por dia de cálcio elementar, repartido, com vitamina D (colecalciferol ou ergocalciferol) ou calcitriol 0,25 a 2 µg por dia. O alvo é o cálcio no limite inferior do normal, sem hipercalciúria.
- Défice de vitamina D: suplementar vitamina D, com dose conforme a gravidade e a causa.
- Normal de 1,7 a 2,4 mg/dL (0,7 a 1 mmol/L). Só 1% do magnésio do corpo está no líquido extracelular, pelo que o valor plasmático pode subestimar o défice.
- O rim regula-o: 60% é reabsorvido no ramo ascendente espesso de Henle, 20% no proximal e 5 a 10% no distal.
Hipomagnesemia
| grupo | causas |
|---|---|
| Absorção intestinal | má absorção, inibidores da bomba de protões, défice de vitamina D |
| Perdas digestivas | diarreia prolongada, vómitos, fístulas e drenagens |
| Perdas renais | álcool, diuréticos de ansa e tiazidas, cisplatina, aminoglicosídeos, anfotericina B, ciclosporina, cetuximab; Gitelman e Bartter; diabetes mal controlada; hipercalcemia |
| Redistribuição | recuperação da cetoacidose, realimentação, osso faminto depois da paratiroidectomia, pancreatite |
Hipermagnesemia
- Rara sem insuficiência renal, porque o rim excreta grandes quantidades. Surge com aporte excessivo (laxantes e antiácidos com magnésio, sobretudo com íleo; sulfato de magnésio endovenoso, como na pré-eclâmpsia) ou libertação dos tecidos (rabdomiólise, queimaduras).
Hipomagnesemia
- Sintomas em regra só abaixo de 1,2 mg/dL (0,5 mmol/L): tremor, tetania, convulsões, fraqueza, ataxia, nistagmo, delirium.
- Arritmias supraventriculares e ventriculares, incluindo torsade de pointes; PR e QT longos; mais toxicidade da digoxina.
- Hipocaliemia e hipocalcemia refratárias, que só corrigem com o magnésio.
Hipermagnesemia
- Acima de 4,8 mg/dL (2 mmol/L): vasodilatação e bloqueio neuromuscular, com hipotensão, náuseas, letargia, fraqueza e hiporreflexia.
- Acima de 4 mmol/L: insuficiência respiratória, paralisia, coma; bradicardia, bloqueio cardíaco e, perto de 10 mmol/L, assistolia.
Hipomagnesemia
- Ligeira e assintomática: sais de magnésio orais, 20 a 30 mmol por dia repartidos; doses maiores dão diarreia.
- Grave: endovenosa, por exemplo 50 mmol por dia em perfusão contínua com função renal normal, e 50 a 75% menos com filtração reduzida. Mede-se o magnésio de 12 em 12 a 24 em 24 horas, durante vários dias, porque o rim perde parte do que se dá e o défice intracelular demora a repor.
- Torsade de pointes: sulfato de magnésio 1 a 2 g endovenoso, mesmo com magnésio normal.
- Repor também o potássio, o cálcio e o fosfato quando estão baixos.
Hipermagnesemia
- Parar a fonte, hidratar e forçar a diurese se o rim funciona.
- Cálcio endovenoso (100 a 200 mg em 1 a 2 horas) melhora os sintomas temporariamente.
- Hemodiálise na insuficiência renal.
- O fósforo regula-se pela reabsorção no túbulo proximal, que a paratormona e o FGF23 (fator de crescimento dos fibroblastos 23) diminuem.
Hipofosfatemia
| mecanismo | causas |
|---|---|
| Redistribuição para as células | realimentação do desnutrido ou do alcoólico, sobretudo com glicose; insulina na cetoacidose; alcalose respiratória; catecolaminas; osso faminto |
| Perda renal | hiperparatiroidismo, défice de vitamina D, síndrome de Fanconi, álcool, diuréticos, acetazolamida, síndromes genéticas com FGF23 alto |
| Absorção baixa | jejum prolongado, antiácidos com alumínio |
Hiperfosfatemia
- Acima de 5,5 mg/dL (1,8 mmol/L) no adulto: insuficiência renal, hipoparatiroidismo, carga rápida de fosfato (lise tumoral, rabdomiólise, laxantes e enemas com fosfato, fosfato endovenoso) e acidose grave.
- Na doença renal crónica, a retenção de fosfato estimula a paratormona e o FGF23 e é a base do hiperparatiroidismo secundário.
Hipofosfatemia
- A grave é quase só do internado com doença séria e depleção prévia. Falta ATP a todas as células.
- Fraqueza muscular, rabdomiólise, insuficiência respiratória e disfunção cardíaca (a partir de 1,5 a 2,5 mg/dL, reversíveis com fosfato), hemólise, disfunção plaquetária e leucocitária.
- Confusão, convulsões e paralisia são prováveis só abaixo de 0,8 mg/dL.
- Crónica: dor óssea, osteomalacia, pseudofraturas, fraqueza proximal, raquitismo na criança.
Hiperfosfatemia
- Os efeitos agudos vêm da precipitação de fosfato de cálcio e da hipocalcemia: tetania, convulsões, nefrocalcinose com lesão renal aguda, calcificações pulmonares e cardíacas.
Hipofosfatemia
- Grave (abaixo de 2 mg/dL) com depleção prévia: corrigir já. Fosfato endovenoso (de sódio ou potássio), 0,2 a 0,8 mmol/kg em 6 horas; doses acima de 20 mmol em 6 horas só com fósforo abaixo de 1,5 mg/dL e função renal normal. Mede-se cálcio e fósforo de 6 em 6 a 12 em 12 horas, e corrige-se primeiro uma hipocalcemia.
- Moderada (1,5 a 2,5 mg/dL): fosfato oral, 750 a 2000 mg por dia de fósforo elementar, repartido.
- Cetoacidose: o fosfato só se dá com fraqueza muscular ou compromisso respiratório e fósforo abaixo de 1,0 mmol/L (3,1 mg/dL).
- Realimentação: começar a alimentação devagar e repor fósforo, potássio e magnésio antes e durante.
Hiperfosfatemia
- Expansão de volume para aumentar a excreção, quelantes do fosfato no intestino (sevelâmero, hidróxido de alumínio) e, na grave com insuficiência renal ou hipocalcemia sintomática, hemodiálise precoce.
- O pH depende da razão entre o bicarbonato, que o rim regula, e a pressão parcial de CO₂ (PaCO₂), que o pulmão regula. Em equilíbrio, a PaCO₂ anda à volta de 40 mmHg e o bicarbonato de 24 a 25 mEq/L.
- Acidemia é pH abaixo de 7,35 e alcalemia acima de 7,45. Acidose e alcalose são os processos, que podem coexistir com pH normal.
- Um distúrbio metabólico primário provoca uma resposta respiratória previsível em minutos a horas; um respiratório provoca uma resposta renal que leva 2 a 3 dias a ficar completa, e é isso que separa o agudo do crónico.
- A compensação não normaliza o pH. A única exceção é a alcalose respiratória crónica.
- Hiato aniónico: sódio menos cloro e bicarbonato. Os aniões que não se medem são sobretudo a albumina, e por isso a hipoalbuminemia baixa o hiato.
Os passos
- pH: acidemia ou alcalemia. Um pH normal não exclui distúrbio.
- Distúrbio primário: o parâmetro que se moveu no sentido do pH. Nos metabólicos o bicarbonato e a PaCO₂ andam no mesmo sentido; se andam em sentidos opostos há um distúrbio misto.
- Compensação esperada: calcula-se e compara-se. Fora do intervalo é um segundo distúrbio.
- Hiato aniónico, sempre, mesmo com pH normal, corrigido pela albumina: soma-se 2,5 mEq/L por cada 1 g/dL de albumina abaixo de 4,5. O normal é de cerca de 10 a 12 mEq/L, conforme o laboratório.
- Com hiato alargado, compara-se a subida do hiato com a descida do bicarbonato (tomando 10 e 25 como normais). Se forem parecidas, a acidose é pura. Se o bicarbonato está mais alto do que a subida do hiato permitia, há também alcalose metabólica; se está mais baixo, há também acidose de hiato normal.
Compensações esperadas
| distúrbio | primário | compensação esperada |
|---|---|---|
| Acidose metabólica | bicarbonato baixo | PaCO₂ esperada: 1,5 × HCO₃⁻ + 8 (± 2), a fórmula de Winter |
| Alcalose metabólica | bicarbonato alto | a PaCO₂ sobe cerca de 0,7 mmHg por cada 1 mEq/L de subida do bicarbonato |
| Acidose respiratória aguda | PaCO₂ alta | o bicarbonato sobe 1 mEq/L por cada 10 mmHg |
| Acidose respiratória crónica | PaCO₂ alta | o bicarbonato sobe 3,5 a 4 mEq/L por cada 10 mmHg, raramente acima de 38 |
| Alcalose respiratória aguda | PaCO₂ baixa | o bicarbonato desce 2 mEq/L por cada 10 mmHg |
| Alcalose respiratória crónica | PaCO₂ baixa | o bicarbonato desce 4 a 5 mEq/L por cada 10 mmHg |
Outros índices
| índice | como se lê |
|---|---|
| Hiato osmolar (osmolalidade medida menos a calculada) | a calculada é 2 × Na + glicose/18 + ureia/6, em mg/dL; acima de 10 a 15 mOsm/kg há um osmol que não se mede: metanol, etilenoglicol, etanol, isopropanol, manitol |
| Hiato aniónico urinário (sódio mais potássio menos cloro na urina) | negativo: o rim excreta amónio e a perda é digestiva; positivo: o rim não acidifica, acidose tubular |
| Cloreto urinário na alcalose metabólica | baixo: vómitos, diuréticos já suspensos, responde ao soro; acima de 20 mEq/L sem diuréticos: excesso de mineralocorticoide |
- A gasometria venosa chega para seguir o pH e o bicarbonato na cetoacidose; a arterial é precisa para a oxigenação e para a PaCO₂ quando decide, na insuficiência respiratória.
Exemplos resolvidos
- Cetoacidose. Diabética tipo 1 com vómitos: sódio 138, cloro 100, bicarbonato 10, PaCO₂ 23, pH 7,26, glicose 480 mg/dL. Acidemia com bicarbonato baixo: acidose metabólica. Winter: 1,5 × 10 + 8 dá 23, entre 21 e 25, compensação adequada. Hiato: 138 menos 110 dá 28, alargado. O hiato subiu 18 e o bicarbonato desceu 15: acidose de hiato alargado sem outro distúrbio que se veja. Sódio corrigido pela glicose: 138 mais 2,4 × 3,8, cerca de 147.
- Doença pulmonar obstrutiva crónica estável. PaCO₂ 60, bicarbonato 31, pH 7,34. Acidose respiratória. Esperado na crónica: 24 mais 3,5 a 4 por cada 10 mmHg, 20 mmHg acima de 40, dá 31 a 32. Está em 31: crónica compensada.
- O mesmo doente agudizado. PaCO₂ 75, bicarbonato 32, pH 7,25. Se fosse crónica pura, o bicarbonato estaria em 36 a 38 (24 mais 3,5 a 4 × 3,5). Está em 32: a PaCO₂ subiu mais depressa do que o rim acompanhou, agudização sobre crónica.
- Vómitos. Sódio 140, cloro 92, bicarbonato 36, PaCO₂ 48, pH 7,50, cloreto urinário 8. Alcalose metabólica. Esperado: 40 mais 0,7 × 12, cerca de 48: compensação adequada. Hiato 12, normal. Cloreto urinário baixo: responde ao soro.
- Salicilatos. Sódio 140, cloro 103, bicarbonato 15, PaCO₂ 22, pH 7,46. Hiato 22, alargado. Winter daria 1,5 × 15 + 8, entre 28,5 e 32,5, e a PaCO₂ está em 22: acidose metabólica de hiato alargado com alcalose respiratória, o padrão do adulto intoxicado.
- Vómitos com cetoacidose alcoólica. pH 7,42, bicarbonato 25, PaCO₂ 40, hiato 30. A gasometria parece normal, mas o hiato subiu 20 e o bicarbonato não desceu nada: acidose metabólica de hiato alargado com alcalose metabólica.
- Diarreia. Sódio 136, cloro 114, bicarbonato 14, PaCO₂ 29, pH 7,31; na urina sódio 30, potássio 20 e cloro 80. Acidose metabólica com hiato 8, normal; Winter dá 27 a 31, adequada. Hiato aniónico urinário de menos 30, negativo: o rim está a excretar amónio, perda digestiva.
- Três mecanismos: produção de um ácido novo (lactato, cetoácidos), perda de bicarbonato (diarreia) ou excreção renal de ácido insuficiente (doença renal).
Hiato aniónico alargado
| causa | pistas |
|---|---|
| Acidose láctica tipo A | hipoperfusão ou hipoxia: choque, sépsis, hemorragia, anemia grave, monóxido de carbono; isquemia intestinal no idoso vasculopata |
| Acidose láctica tipo B | sem hipoperfusão: metformina, linezolida, propofol, cianeto, insuficiência hepática, neoplasias, défice de tiamina, convulsões |
| Cetoacidose diabética | glicose de 200 mg/dL ou mais (ou diabetes conhecida), beta-hidroxibutirato de 3 mmol/L ou mais, pH abaixo de 7,3 ou bicarbonato abaixo de 18; com inibidores do SGLT2 (cotransportador sódio-glicose 2) a glicose pode estar quase normal |
| Cetoacidose alcoólica e de jejum | alcoólico que deixou de comer e vomita; glicose variável; muitas vezes distúrbios mistos |
| Etilenoglicol | anticongelante; hiato osmolar, cristais de oxalato na urina, lesão renal aguda |
| Metanol | hiato osmolar; alterações visuais e cegueira, lesão do putâmen |
| Salicilatos | no adulto, acidose com alcalose respiratória |
| Ácido piroglutâmico | doente grave ou desnutrido sob paracetamol |
| Urémica | doença renal avançada, filtração abaixo de 15 mL/min |
| D-lactato | intestino curto; o lactato de rotina é normal, porque só mede o L-lactato |
- O isopropanol sobe o hiato osmolar mas não o aniónico, porque se transforma em acetona.
Hiato aniónico normal (hiperclorémica)
| grupo | causas |
|---|---|
| Digestiva | diarreia, fístulas e drenagens pancreáticas ou do intestino delgado, ureterossigmoidostomia e condutos ileais |
| Renal | acidoses tubulares; doença renal crónica moderada (filtração abaixo de 30 mL/min) |
| Outras | inibidores da anidrase carbónica (acetazolamida, topiramato), soro fisiológico em grande quantidade, recuperação da cetoacidose com perda de cetoaniões na urina |
Acidoses tubulares renais
| tipo 1, distal | tipo 2, proximal | tipo 4, hipoaldosteronismo | |
|---|---|---|---|
| Defeito | não secreta hidrogeniões no distal | perde bicarbonato no proximal | pouca aldosterona ou resistência a ela |
| Potássio | baixo | baixo | alto |
| pH urinário | acima de 5,5 | abaixo de 5,5 em equilíbrio | em regra abaixo de 5,5 |
| Bicarbonato | pode descer até 10 | 16 a 18 | ligeiramente baixo |
| Associações | litíase e nefrocalcinose, hipercalciúria, hipocitratúria | síndrome de Fanconi, osteomalacia, sem litíase; acetazolamida, topiramato | diabetes com doença renal ligeira a moderada, anti-inflamatórios, IECA, ARA, espironolactona, trimetoprim, heparina |
- Respiração de Kussmaul: aumento da ventilação, sobretudo do volume corrente.
- Coração: contratilidade intrínseca diminuída, vasodilatação periférica com venoconstrição central e edema pulmonar com pequena sobrecarga.
- Sistema nervoso central: cefaleia, letargia, estupor e coma.
- Crónica: perda de massa óssea e catabolismo muscular; na doença renal crónica acelera a progressão.
- Um bicarbonato baixo pode ser acidose metabólica ou compensação de uma alcalose respiratória crónica: o pH separa-as.
Hiato alargado, por ordem
- História de fármacos e tóxicos; gasometria para ver se há alcalose respiratória associada (salicilatos).
- Diabetes: glicose, beta-hidroxibutirato no sangue. As tiras de nitroprussiato só detetam acetoacetato e subestimam a cetose.
- Álcool: beta-hidroxibutirato.
- Ureia e creatinina: urémia.
- Lactato e o contexto: hipotensão, choque, isquemia, fármacos.
- Hiato osmolar e sedimento urinário (oxalato): metanol, etilenoglicol.
Hiato normal
- Hiato aniónico urinário: negativo na diarreia, positivo na acidose tubular. Engana quando o rim excreta outros aniões (cetoaniões, hipurato): aí usa-se o hiato osmolar urinário, em que valores bem acima de 100 mOsm/kg indicam amónio alto.
- O pH urinário sozinho não separa: na diarreia a urina pode ter pH acima de 6, pelo amónio que o rim produz em quantidade.
- Com hipocaliemia, pH urinário acima de 5,5 e hiato urinário positivo: tipo 1. Com hipercaliemia: tipo 4.
- Tratar a causa: soros e insulina na cetoacidose, perfusão e controlo do foco na láctica.
- Bicarbonato na cetoacidose: só com pH abaixo de 7,0, em quantidade limitada, e nunca em bólus; o alvo não é normalizar.
- Na acidose láctica e na cetoacidose, os aniões metabolizam-se de volta a bicarbonato quando a causa corrige, e bicarbonato a mais dá alcalose de ressalto.
- Hiato normal e acidose urémica, em que não há aniões metabolizáveis: alcalinos orais ou endovenosos, devagar, até cerca de 22 mEq/L.
- Doença renal crónica: o KDIGO 2024 sugere tratar, com dieta e, se preciso, bicarbonato de sódio oral, para evitar que o bicarbonato desça abaixo de 18 mEq/L, sem ultrapassar o normal; corrigir até ao normal não mostrou reduzir a falência renal.
- Acidose tubular tipo 1: corrigir primeiro o potássio; depois alcalinos, 1 a 2 mmol/kg por dia, de preferência citrato de potássio. Tipo 2: difícil, com 3 a 5 mmol/kg por dia e potássio. Tipo 4: corrigir a hipercaliemia, que por si só melhora a acidose.
- Etilenoglicol e metanol: fomepizol (15 mg/kg, depois 10 mg/kg de 12 em 12 horas), que bloqueia a desidrogenase alcoólica, e hemodiálise com pH abaixo de 7,3, hiato osmolar acima de 20 ou lesão de órgão; tiamina e piridoxina no etilenoglicol.
- Salicilatos: carvão ativado, alcalinizar a urina acima de pH 7,5 com bicarbonato (subir o pH urinário de 6,5 para 7,5 aumenta a depuração cinco vezes), vigiar o potássio, e hemodiálise na intoxicação grave.
- Precisa de dois tempos: um gerador (perda de ácido, sobretudo clorídrico pelo estômago, ou ganho de álcali) e um mantenedor, porque o rim normal excreta o bicarbonato a mais com facilidade.
- O rim mantém a alcalose quando há depleção de volume, de cloreto e de potássio com filtração reduzida (cloreto urinário baixo), ou hiperaldosteronismo autónomo com hipocaliemia (cloreto urinário normal).
| grupo | causas |
|---|---|
| Volume contraído, pressão normal, responde ao soro | vómitos e aspiração gástrica, adenoma viloso, cloridorreia congénita; diuréticos (depois de suspensos); estado pós-hipercápnico |
| Não responde ao soro, pressão normal | diuréticos em uso, Bartter, Gitelman, défice de magnésio, depleção grave de potássio |
| Volume expandido, hipertensão, excesso de mineralocorticoide | renina alta (estenose da artéria renal, hipertensão acelerada, tumor secretor de renina); renina baixa (hiperaldosteronismo primário, Cushing, défices enzimáticos suprarrenais, alcaçuz); síndrome de Liddle |
| Carga de álcali | bicarbonato ou citrato (transfusões) com volume efetivo baixo; síndrome de leite e alcalinos |
- Parecida com a hipocalcemia: confusão, obnubilação, parestesias, cãibras, tetania e tendência a convulsões.
- Agrava arritmias e, na doença pulmonar obstrutiva crónica, a hipoxemia pela hipoventilação compensadora.
- Acompanha-se muitas vezes de hipocaliemia e de hipofosfatemia.
- Avaliar a volemia, a pressão arterial (deitado e de pé), o potássio e o cloreto urinário.
| achado | leitura |
|---|---|
| Cloreto urinário baixo | depleção de cloreto e volume: vómitos, diuréticos já suspensos, pós-hipercapnia; responde ao soro |
| Vómitos em curso | cloreto urinário abaixo de 15 mEq/L com sódio e potássio urinários altos e urina alcalina (pH 7 a 8), pela bicarbonatúria |
| Hipertensão, renina baixa, cloreto urinário acima de 20 mEq/L sem diuréticos | excesso primário de mineralocorticoide |
| Pressão normal, sódio, potássio e cloreto urinários altos | diuréticos em uso, Bartter ou Gitelman, défice de magnésio; rastreio de diuréticos na urina, e cálcio urinário (baixo no Gitelman, alto no Bartter) |
- Corrigir o gerador: antiemético, inibidor da bomba de protões na aspiração gástrica, suspender os diuréticos.
- Corrigir o mantenedor:
- Responde ao soro: soro fisiológico com cloreto de potássio.
- Insuficiência cardíaca que não tolera soro: acetazolamida 125 a 250 mg endovenosa, com vigilância do potássio.
- Depleção grave de potássio: a alcalose só corrige com a reposição de potássio.
- Hiperaldosteronismo primário: retirar o adenoma ou espironolactona na hiperplasia bilateral.
- Liddle: amilorido ou triamtereno.
- Gitelman e Bartter: potássio, magnésio e poupadores de potássio.
Acidose respiratória
- PaCO₂ acima de 45 mmHg por hipoventilação alveolar.
| grupo | causas |
|---|---|
| Centro respiratório | opioides, sedativos, anestésicos, AVC, traumatismo, hipoventilação da obesidade |
| Via aérea | obstrução alta, asma grave, anafilaxia |
| Parênquima | doença pulmonar obstrutiva crónica, síndrome de dificuldade respiratória aguda, pneumoconioses |
| Neuromuscular e caixa torácica | miastenia, Guillain-Barré, distrofias, poliomielite, cifoescoliose |
| Ventilação mecânica | mal ajustada, hipercapnia permissiva |
- No agudo, o bicarbonato sobe pouco, pelos tampões das células; depois de 24 a 48 horas o rim retém bicarbonato.
Alcalose respiratória
- PaCO₂ abaixo de 35 mmHg por hiperventilação. É o distúrbio ácido-base mais frequente no doente grave.
| grupo | causas |
|---|---|
| Sistema nervoso central | ansiedade, dor, febre, AVC, meningite, tumor |
| Hipoxemia | altitude, pneumonia, edema pulmonar, embolia pulmonar, anemia grave |
| Fármacos e hormonas | salicilatos, teofilina, progesterona na gravidez |
| Outras | sépsis por Gram-negativos (muitas vezes antes da febre e da hipotensão), insuficiência hepática, ventilação mecânica, recuperação de uma acidose metabólica |
Acidose respiratória
- Aguda: ansiedade, dispneia, confusão, psicose e coma; é mais sintomática do que a acidose metabólica, porque o CO₂ atravessa a barreira hematoencefálica depressa.
- Crónica: sonolência diurna, perda de memória, asterixis, tremor e mioclonias, cefaleia e papiledema.
Alcalose respiratória
- Tonturas, palpitações, parestesias das extremidades e periorais; a descida aguda da PaCO₂ baixa o fluxo cerebral e o cálcio ionizado, com Chvostek e Trousseau positivos.
- Na doença coronária, arritmias e angina.
- Na síndrome de hiperventilação, a PaCO₂ fica em 15 a 30 mmHg sem hipoxemia.
- O diagnóstico é gasométrico: pH e PaCO₂. A compensação diz se é aguda ou crónica, e um bicarbonato fora do esperado indica um distúrbio metabólico sobreposto.
| distúrbio | bicarbonato esperado |
|---|---|
| Acidose respiratória aguda | sobe 1 por cada 10 mmHg |
| Acidose respiratória crónica | sobe 3,5 a 4 por cada 10 mmHg |
| Alcalose respiratória aguda | desce 2 por cada 10 mmHg |
| Alcalose respiratória crónica (mais de 3 a 5 dias) | desce 4 a 5 por cada 10 mmHg, e o pH pode chegar ao normal |
- Na acidose respiratória, a espirometria, os volumes pulmonares e a avaliação neuromuscular dizem se a causa é pulmonar.
- A síndrome de hiperventilação é diagnóstico de exclusão: afastar embolia pulmonar, doença coronária e hipertiroidismo.
Acidose respiratória
- Tratar a causa e ventilar: via aérea, oxigenação e, se preciso, ventilação invasiva; antídoto no opioide.
- Na hipercapnia crónica, oxigénio titulado, porque o excesso agrava a hipoventilação.
- Baixar a PaCO₂ devagar na hipercapnia crónica: a descida rápida deixa o bicarbonato alto e dá alcalose pós-hipercápnica, que se corrige com soro, cloreto e potássio.
- O bicarbonato não trata a hipoventilação.
Alcalose respiratória
- Tratar a causa: oxigénio na hipoxemia, que reverte a hiperventilação, ajuste do ventilador.
- Na síndrome de hiperventilação, tranquilizar e respirar num circuito fechado (o saco de papel) nas crises, depois de excluídas as causas orgânicas e a hipoxemia.
- Gravidez: a progesterona aumenta a ventilação e baixa a PaCO₂ 5 a 10 mmHg; a alcalose respiratória crónica compensada é fisiológica.
- Criança e salicilatos: na criança predomina a acidose metabólica; no adulto, a alcalose respiratória.
- Insuficiência hepática: a alcalose respiratória acompanha a gravidade e o amoníaco.
Referências
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- Galway University Hospitals. Potassium chloride intravenous infusion for adults [Internet]. Galway: Medinfo Galway; [citado 2026 set 28]. Disponível em: https://www.medinfogalway.ie/ivguides/potassium-chloride-intravenous-infusion-adults
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