Endocrinológica e MetabólicaDoenças das glândulas paratiroideias e homeostase do cálcioPublicado (Premium)

Doenças das glândulas paratiroideias e homeostase do cálcio

Matriz PNA:MD · MecanismosD · DiagnósticoGD · Gestão

Atualizado em 18 de julho de 2026 · 12 perguntas neste tema

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Em resumo

A homeostase do cálcio é um dos temas em que a PNA gosta de testar raciocínio fisiopatológico e não memorização: quase todas as perguntas se resolvem a partir de um único par de valores — a calcémia e a PTH — desde que se saiba interpretar o que é uma PTH "inapropriadamente normal". Apesar de o tema ter relevância B na matriz, as glândulas paratiroideias aparecem com frequência disfarçadas noutros contextos: a hipercalcémia do doente oncológico internado, a hipocalcémia pós-tiroidectomia, a nefrolitíase de repetição, a doença renal crónica. As competências pedidas são MD, D e GD, ou seja, tens de perceber o mecanismo, chegar ao diagnóstico bioquímico e saber tratar. Há quatro coisas que tens mesmo de dominar: a correção do cálcio para a albumina, a dicotomia PTH alta vs PTH suprimida, a sequência terapêutica da crise hipercalcémica (hidratação primeiro, diuréticos de ansa não são tratamento de rotina) e o reconhecimento da hipercalcémia hipocalciúrica familiar, onde operar é inútil e prejudicial. A osteoporose e a doença de Paget têm capítulos próprios — aqui só as referimos quando são consequência da doença paratiroideia.

A PTH e os três órgãos efetores

As quatro paratiroides derivam das bolsas faríngeas (3.ª e 4.ª) e as suas células principais secretam PTH em resposta à queda do cálcio ionizado. A PTH tem semivida curta (minutos) e atua no recetor PTH1R, acoplado à proteína Gs → adenilciclase → AMP cíclico. Guarda esta via: é ela que explica o pseudo-hipoparatiroidismo.

A PTH sobe o cálcio por três mecanismos, dois diretos e um indireto:

1. Osso (efeito rápido e sustentado)

A PTH não atua no osteoclasto — o osteoclasto não tem PTH1R. Atua no osteoblasto/célula do estroma, que responde aumentando a expressão de RANKL e diminuindo a de osteoprotegerina (o recetor-armadilha do RANKL). O RANKL liga-se ao RANK dos precursores osteoclásticos e desencadeia osteoclastogénese e reabsorção. Daí sai cálcio e fosfato para a circulação.

Este é o ponto que explica um paradoxo terapêutico: a PTH contínua é catabólica para o osso; a PTH intermitente (teriparatido, uma injeção diária) é anabólica. É o mesmo hormónio, muda o padrão de exposição.

2. Rim (efeito rápido)

  • Túbulo distal / ansa: ↑ reabsorção de cálcio.
  • Túbulo proximal: ↓ reabsorção de fosfato, por internalização dos cotransportadores NaPi-2a e NaPi-2cfosfatúria. É por isto que no hiperparatiroidismo primário o fósforo sérico está baixo apesar de estar a sair fosfato do osso.
  • Túbulo proximal: também inibe a reabsorção de bicarbonato → tendência para acidose metabólica hiperclorémica ligeira → daqui vem o achado clássico da razão cloro/fósforo aumentada (classicamente >33, com o cloro em mEq/L e o fósforo em mg/dL) que aponta para hiperparatiroidismo primário.
  • Túbulo proximal: ↑ atividade da 1-α-hidroxilase.

3. Intestino (efeito lento, indireto)

A PTH não atua diretamente no intestino. Atua via calcitriol, que é quem aumenta a absorção intestinal de cálcio e de fosfato.


A vitamina D e a ativação em dois passos

Esta cascata é matéria de pergunta garantida:

  1. Pele: o 7-desidrocolesterol é convertido em colecalciferol (vitamina D₃) pela radiação UVB. O ergocalciferol (D₂) vem da dieta.
  2. Fígado: 25-hidroxilação (CYP2R1) → 25-hidroxivitamina D (calcidiol). Semivida longa (semanas), pouco regulada — por isso é este o metabolito que se doseia para avaliar o status de vitamina D. Nunca doseies o calcitriol para diagnosticar défice de vitamina D: erro clássico, porque no défice o calcitriol pode estar normal ou até alto, empurrado pela PTH.
  3. Rim (túbulo proximal): 1-α-hidroxilação (CYP27B1) → 1,25-di-hidroxivitamina D (calcitriol), a forma ativa. Este é o passo estreitamente regulado:
    • Estimulado por PTH, hipofosfatémia e hipocalcémia.
    • Inibido por FGF23, hiperfosfatémia e pelo próprio calcitriol (retroação negativa).
  4. A via de inativação é a 24-hidroxilase (CYP24A1), estimulada por FGF23 e calcitriol.

O calcitriol atua num recetor nuclear (VDR) e faz duas coisas: aumenta a absorção intestinal de cálcio e de fosfato e exerce retroação negativa direta sobre a transcrição do gene da PTH. Nota a assimetria: a PTH sobe o cálcio e baixa o fosfato; o calcitriol sobe ambos.

Porque é que isto importa clinicamente

O 1-α-hidroxilase extrarrenal, expresso nos macrófagos ativados dos granulomas e em alguns linfomas, escapa à regulação por PTH e por fosfato. Produz calcitriol de forma desregulada — é o mecanismo da hipercalcémia da sarcoidose, da tuberculose e do linfoma. E é por isso que estas hipercalcémias respondem a corticoides, que inibem essa hidroxilase.


O FGF23: o terceiro eixo

Produzido pelos osteócitos em resposta à carga de fosfato e ao calcitriol, o FGF23 precisa do correcetor Klotho (abundante no rim). Faz:

  • Fosfatúria (internaliza NaPi-2a/2c) — mesmo efeito renal que a PTH sobre o fosfato;
  • Inibe a 1-α-hidroxilase e estimula a 24-hidroxilase → baixa o calcitriol;
  • Tende a suprimir a PTH (efeito atenuado na doença renal crónica, porque o rim urémico perde Klotho — resistência ao FGF23).

Na doença renal crónica, a subida do FGF23 é a primeira alteração detetável do metabolismo mineral, antes de o fósforo subir e antes de a PTH subir. A cascata é: ↓ nefrónios → retenção de fosfato → ↑ FGF23 → ↓ calcitriol → ↓ absorção intestinal de cálcio → hipocalcémia → hiperparatiroidismo secundário. Se a estimulação se prolongar, a hiperplasia paratiroideia torna-se nodular e monoclonal, perde recetores de CaSR e de VDR, e ganha autonomia — hiperparatiroidismo terciário.


O CaSR: o conceito unificador

O recetor sensor do cálcio (CaSR) é um recetor acoplado à proteína G que mede diretamente a concentração de cálcio extracelular. Está em dois sítios que interessam:

  • Célula principal da paratiroide: a ativação do CaSR (cálcio alto) inibe a secreção de PTH. É um recetor que, quando ativado, desliga a hormona — ao contrário do padrão habitual.
  • Ramo ascendente espesso da ansa de Henle: a ativação do CaSR inibe a reabsorção de cálcio e de magnésio (por inibição do NKCC2 e da diferença de potencial transepitelial) → calciúria. É por isto que a hipercalcémia por si só causa perda renal de cálcio e um estado de diabetes insipidus nefrogénica.

Agora percebe as doenças a partir do recetor:

Alteração do CaSRConsequênciaFenótipo
Mutação inativadora heterozigóticaA glândula "vê" menos cálcio do que existe; o rim reabsorve cálcio avidamenteHipercalcémia hipocalciúrica familiar — hipercalcémia ligeira, PTH normal/ligeiramente alta, hipocalciúria
Mutação inativadora homozigóticaIdem, extremoHiperparatiroidismo neonatal grave
Mutação ativadoraGlândula desliga-se com cálcio normal; rim perde cálcioHipocalcémia autossómica dominante — hipocalcémia com PTH baixa/normal e hipercalciúria
Ativação farmacológica (cinacalcet, etelcalcetido)↓ PTH, ↓ cálcioTratamento do hiperparatiroidismo secundário/terciário e do carcinoma da paratiroide
Bloqueio pelo lítio (desloca a curva para a direita)É preciso mais cálcio para suprimir a PTHHipercalcémia PTH-dependente ligeira

Mecanismos da hipercalcémia da malignidade

Três mecanismos com PTH suprimida, mais uma exceção rara:

  1. Humoral, por PTHrP (~80% dos casos) — o mecanismo dominante. O péptido relacionado com a PTH partilha os primeiros aminoácidos com a PTH e liga-se ao mesmo PTH1R, pelo que reproduz o quadro bioquímico do hiperparatiroidismo (hipercalcémia, hipofosfatémia, hipercalciúria) mas com PTH suprimida. Típico dos carcinomas epidermoides (pulmão, cabeça e pescoço, esófago, colo do útero), carcinoma renal, mama. Diferença relevante: o PTHrP não estimula eficazmente a 1-α-hidroxilase, pelo que o calcitriol está baixo — ao contrário do hiperparatiroidismo primário, onde está alto.
  2. Osteólise local — metástases ósseas com produção local de citocinas e RANKL. Mieloma múltiplo, mama, linfoma.
  3. Produção tumoral de calcitriollinfomas (Hodgkin e não-Hodgkin). Calcitriol alto, 25(OH)D normal.
  4. Secreção ectópica de PTH verdadeira — extraordinariamente rara; é a única hipercalcémia paraneoplásica PTH-dependente (PTH elevada), pelo que constitui a exceção à regra dos três mecanismos anteriores.

O magnésio: o mecanismo mais testado da hipocalcémia

O magnésio tem um efeito bifásico e paradoxal:

  • A hipomagnesémia grave (tipicamente <1 mg/dL, ~0,4 mmol/L) faz duas coisas ao mesmo tempo: inibe a secreção de PTH (por ativação paradoxal da via do CaSR na ausência de Mg intracelular, necessário à exocitose dependente de proteínas G) e induz resistência periférica óssea e renal à PTH. Resultado: hipocalcémia com PTH baixa ou inapropriadamente normal.
  • Consequência clínica de alto rendimento: a hipocalcémia não corrige enquanto o magnésio não for reposto. Um doente alcoólico, com diarreia crónica, sob inibidor da bomba de protões de longa duração, sob diuréticos de ansa, ou a receber cisplatina/anfotericina/aminoglicosídeos, com hipocalcémia refratária a cálcio endovenoso — a resposta é dosear e repor magnésio. Na hipomagnesémia sintomática ou grave, repõe-se por via endovenosa — habitualmente 1 a 2 g de sulfato de magnésio em 15 minutos, seguidos de perfusão — sempre em perfusão lenta, porque o bólus rápido causa rubor, hipotensão e bradicardia. ⚠️ Na insuficiência renal, reduzir a dose, porque o magnésio se acumula: vigiar os reflexos osteotendinosos — a arreflexia rotuliana é o primeiro sinal de hipermagnesémia e impõe suspender de imediato — e dosear a magnesémia seriadamente. Como o magnésio intracelular se repõe devagar, a magnesémia normaliza antes do défice corporal, pelo que a reposição se mantém alguns dias.
  • A hipermagnesémia (por exemplo, na doente sob sulfato de magnésio para pré-eclâmpsia) também suprime a PTH, ativando o CaSR.

O pseudo-hipoparatiroidismo

Resistência à PTH ao nível do PTH1R/Gs. No tipo 1A, a mutação inativadora do GNAS (subunidade Gsα) herdada da mãe produz o fenótipo completo: osteodistrofia hereditária de Albright (baixa estatura, face redonda, obesidade, braquidactilia com 4.º metacarpo curto, calcificações subcutâneas) associada a resistência a múltiplas hormonas que usam Gs (TSH, gonadotrofinas). Quando a mesma mutação é herdada do pai, o imprinting faz com que haja apenas o fenótipo somático sem resistência hormonal — o pseudo-pseudo-hipoparatiroidismo, com cálcio e PTH normais.

Bioquimicamente: cálcio baixo, fosfato alto, PTH alta. É a combinação que distingue de imediato do hipoparatiroidismo verdadeiro (onde a PTH está baixa) e do défice de vitamina D (onde o fosfato tende a estar baixo).

Passo 0: confirmar que a hipercalcémia existe

Antes de qualquer estudo etiológico, repete a calcémia e corrige-a para a albumina (ou mede o cálcio ionizado). Uma proporção não negligenciável de "hipercalcémias" desaparece com uma segunda colheita bem feita — sem garrote prolongado, que causa estase venosa e hemoconcentração.

⚠️ Exceção que tens de saber: isto aplica-se ao doente estável com hipercalcémia ligeira. Na hipercalcémia grave (>14 mg/dL) ou sintomática — alteração do estado de consciência, desidratação, lesão renal aguda — não se adia o tratamento à espera da confirmação: colhem-se cálcio, albumina, PTH, fósforo, creatinina e magnésio na mesma punção em que se inicia o soro fisiológico. A colheita para PTH tem de ser feita antes de a fluidoterapia diluir os valores, mas a perfusão não espera pelo resultado.


Passo 1: dosear a PTH — o teste que divide o algoritmo

O doseamento de PTH intacta (imunoensaio de 2.ª ou 3.ª geração) é o exame do algoritmo. Deve ser colhido em simultâneo com o cálcio.

PTHInterpretação
Elevada ou inapropriadamente normal (dentro do intervalo mas com hipercalcémia)Hipercalcémia PTH-dependente → hiperparatiroidismo primário, HHF, lítio
Suprimida (tipicamente <20 pg/mL)Hipercalcémia PTH-independente → prosseguir estudo

A armadilha que separa quem percebe de quem decorou: uma PTH "normal" num doente hipercalcémico é patológica. Fisiologicamente, uma calcémia de 11,5 mg/dL deveria suprimir a PTH para valores praticamente indetetáveis. Uma PTH de 45 pg/mL (intervalo de referência, digamos, 15–65) neste contexto é inapropriadamente normal e faz o diagnóstico de hiperparatiroidismo primário. Cerca de um em cada cinco doentes com hiperparatiroidismo primário tem PTH dentro do intervalo de referência.


Passo 2A: PTH elevada — caracterizar o hiperparatiroidismo primário

Perfil bioquímico clássico

ParâmetroHiperparatiroidismo primário
Cálcio sérico↑ (frequentemente só 0,5–1 mg/dL acima do normal)
PTH↑ ou inapropriadamente normal
Fósforo↓ ou no limite inferior
CloroLigeiramente ↑ (razão Cl/P classicamente >33)
BicarbonatoLigeiramente ↓ (acidose hiperclorémica)
25(OH)DFrequentemente baixa (consumo aumentado)
1,25(OH)₂DNormal ou alta
Calciúria de 24 hNormal ou ↑
Fosfatase alcalinaNormal, ou ↑ se doença óssea significativa
MagnésioNormal ou ligeiramente ↓

Estudo obrigatório antes de decidir cirurgia

  • Cálcio urinário de 24 h com creatinina (e cálculo da excreção fracionada de cálcio) — obrigatório, para excluir HHF e para o critério cirúrgico.
  • Creatinina e taxa de filtração glomerular estimada.
  • 25(OH)D — o défice concomitante agrava a PTH e tem de ser reposto antes de reavaliar.
  • Densitometria óssea (DXA) em três locais: coluna lombar, anca e terço distal do rádio. O terço distal do rádio é indispensável porque é osso predominantemente cortical, o local onde a PTH mais destrói — e onde a perda pode ser evidente com coluna e anca normais. Esquecer o rádio é erro de exame.
  • Imagem vertebral (radiografia da coluna dorsolombar ou VFA na DXA) para procurar fratura vertebral morfométrica, muitas vezes assintomática.
  • Imagem renal (ecografia ou TC de baixa dose) para nefrolitíase ou nefrocalcinose silenciosas.

O quadro clínico

Hoje, a maioria dos doentes é assintomática, detetada por uma calcémia pedida em análises de rotina. Isto mudou completamente a apresentação da doença face às descrições históricas. Ainda assim, tens de saber a mnemónica clássica:

"Ossos dolorosos, pedras (renais), gemidos abdominais e alterações psíquicas" — dores ósseas, nefrolitíase, obstipação/náuseas/úlcera péptica/pancreatite, e depressão/letargia/dificuldade de concentração.

Acrescenta os sintomas de qualquer hipercalcémia: poliúria e polidipsia (diabetes insipidus nefrogénica por interferência do cálcio com a aquaporina-2), desidratação, fraqueza muscular proximal, hipertensão arterial, encurtamento do intervalo QT.


Passo 2B: PTH suprimida — procurar a causa

A sequência lógica é:

  1. Doseia PTHrP se há suspeita de neoplasia. Elevado → hipercalcémia humoral da malignidade.
  2. Doseia 25(OH)D e 1,25(OH)₂D:
    • 25(OH)D muito alta → intoxicação por vitamina D (suplementação excessiva).
    • 1,25(OH)₂D alta com 25(OH)D normal → produção extrarrenal: linfoma, sarcoidose, tuberculose e outras granulomatoses.
  3. Eletroforese de proteínas séricas e urinárias com imunofixação e cadeias leves livres → mieloma múltiplo (suspeita reforçada por anemia, insuficiência renal, hiato aniónico baixo, VS muito elevada, lesões líticas).
  4. TSH (hipertiroidismo), cortisol/ACTH (insuficiência suprarrenal), revisão da medicação (tiazidas, lítio, vitamina D e A, cálcio/antiácidos — síndrome leite-alcalinos, teriparatido), história de imobilização prolongada.

Uma pista prática: no doente oncológico conhecido, com hipercalcémia de instalação rápida e sintomática, e com PTH suprimida, a hipercalcémia da malignidade é o diagnóstico até prova em contrário e é um marcador de mau prognóstico.


O erro capital: localização não é diagnóstico

Este é provavelmente o ponto mais testado do capítulo.

Os exames de localização das paratiroides — cintigrafia com sestamibi (⁹⁹ᵐTc-MIBI, idealmente com SPECT/TC), ecografia cervical, TC 4D, PET com colina — servem exclusivamente para planear a cirurgia. NUNCA fazem o diagnóstico de hiperparatiroidismo primário, e nunca o excluem.

O diagnóstico é bioquímico: cálcio alto com PTH alta ou inapropriadamente normal. Ponto. Só depois de o diagnóstico estar feito e de estar decidido operar é que se pede localização. Uma cintigrafia negativa num doente com bioquímica inequívoca não afasta a doença (é frequente em hiperplasia das quatro glândulas e em adenomas pequenos) nem contraindica a cirurgia — leva o cirurgião a fazer exploração cervical bilateral em vez de abordagem minimamente invasiva. E uma captação num doente sem bioquímica de hiperparatiroidismo não autoriza operar.

A combinação sestamibi + ecografia concordantes é o que permite a paratiroidectomia minimamente invasiva focada, habitualmente com doseamento intraoperatório de PTH (a queda ≥50% relativamente ao valor basal mais alto, aos 10 minutos após a excisão, indica remoção do tecido responsável — critério de Miami; critérios mais estritos exigem também a normalização do valor absoluto, mas aumentam os falsos negativos).


Diagnóstico da hipocalcémia

O algoritmo é simétrico e igualmente simples.

  1. Confirma com correção para a albumina ou cálcio ionizado.
  2. Doseia PTH, fósforo, magnésio, creatinina e 25(OH)D em simultâneo.
QuadroPTHFósforo25(OH)DDiagnóstico
Pós-tiroidectomia, autoimune, DiGeorge↓ ou inapropriadamente normalnormalHipoparatiroidismo
Alcoolismo, diarreia, IBP, diuréticos, cisplatina↓ ou normalvariávelnormalHipomagnesémia
Baixa exposição solar, má-absorção, idoso institucionalizadoDéfice de vitamina D (hiperparatiroidismo secundário)
TFG baixavariávelDoença renal crónica
Baixa estatura, braquidactilia, história familiarnormalPseudo-hipoparatiroidismo

A leitura rápida: PTH baixa com fósforo alto = hipoparatiroidismo. PTH alta com fósforo alto = pseudo-hipoparatiroidismo ou doença renal crónica (usa a creatinina para separar). PTH alta com fósforo baixo = défice de vitamina D.

Outras causas a não esquecer: pancreatite aguda (saponificação do cálcio na gordura peripancreática), síndrome de lise tumoral (hiperfosfatémia maciça), rabdomiólise, sépsis, transfusão maciça (citrato), quelantes (foscarnet, EDTA), bifosfonatos e denosumab em doente com défice de vitamina D não corrigido, e metástases osteoblásticas (próstata, mama).

Sinais clínicos

  • Sinal de Chvostek — percussão do nervo facial anteriormente ao pavilhão auricular provoca contração da musculatura facial homolateral. Pouco sensível e pouco específico: está ausente em cerca de um terço dos doentes com hipocalcémia e é positivo em 10 a 25% de pessoas normocalcémicas. Não faças o diagnóstico só com ele.
  • Sinal de Trousseau — insuflar a braçadeira acima da pressão sistólica durante 3 minutos provoca espasmo carpal (flexão do punho e das metacarpofalângicas, extensão das interfalângicas, adução do polegar: a "mão de parteiro"). Mais sensível e mais específico do que o de Chvostek.
  • ECG: prolongamento do intervalo QT (por prolongamento do segmento ST) — a alteração eletrocardiográfica da hipocalcémia. O espelho na hipercalcémia é o encurtamento do QT.
  • Outros: parestesias peribucais e acrais, laringospasmo, broncospasmo, convulsões, irritabilidade, papiledema; na doença crónica, calcificações dos gânglios da base, cataratas subcapsulares, pele seca, unhas quebradiças, esmalte dentário hipoplásico.

Hiperparatiroidismo primário: operar ou vigiar

A paratiroidectomia é o único tratamento curativo

Nenhum fármaco cura o hiperparatiroidismo primário. A cirurgia normaliza a calcémia em mais de 95% dos casos quando feita por cirurgião experiente, melhora a densidade mineral óssea (sobretudo na coluna e na anca) e reduz o risco de nefrolitíase.

Critérios de cirurgia no doente assintomático

O doente sintomático — nefrolitíase, fratura de fragilidade, hipercalcémia sintomática, doença óssea manifesta — tem indicação cirúrgica sem discussão. A pergunta de exame é sobre o assintomático. Os critérios das declarações internacionais (Quarto Workshop 2014, revistos no Quinto Workshop 2022 — que atualizou o critério de hipercalciúria) são:

DomínioCritério
Idade<50 anos
Calcémia>1,0 mg/dL acima do limite superior do normal
EsqueléticoT-score ≤ −2,5 em qualquer local (coluna, anca total, colo do fémur ou terço distal do rádio) ou fratura vertebral por imagem
Renal — funçãoTFG estimada <60 mL/min/1,73 m²
Renal — imagemNefrolitíase ou nefrocalcinose (mesmo silenciosas)
Renal — bioquímicaHipercalciúria: >250 mg/24 h na mulher, >300 mg/24 h no homem (Quinto Workshop 2022; o Quarto Workshop 2014 usava >400 mg/dia com perfil litogénico aumentado)

Basta um critério. Nas mulheres pós-menopáusicas o T-score aplica-se; nas pré-menopáusicas e nos homens com menos de 50 anos usa-se o Z-score ≤ −2,5.

Nota importante: a cirurgia é uma opção razoável mesmo sem critérios, se o doente a preferir, se a vigilância não for exequível, ou se houver sintomas neurocognitivos atribuíveis — mas a melhoria destes últimos é menos previsível e não deve ser prometida.

Vigilância quando não se opera

Se o doente não cumpre critérios e opta por vigiar:

  • Cálcio sérico anual;
  • Creatinina/TFG anual;
  • DXA (3 locais) a cada 1–2 anos;
  • Imagem renal e vertebral se houver suspeita clínica.

Medidas gerais: hidratação adequada (evitar depleção de volume), não restringir o cálcio da dieta — a restrição estimula ainda mais a PTH e piora o osso; manter uma ingestão normal (cerca de 1000 mg/dia). Repor a vitamina D até uma 25(OH)D adequada (habitualmente >30 ng/mL, com precaução e monitorização da calcémia e da calciúria) — a ideia antiga de que não se dá vitamina D no hiperparatiroidismo primário está ultrapassada. Evitar tiazidas e lítio sempre que possível; evitar imobilização prolongada.

Quando a cirurgia não é opção — tratamento médico

FármacoEfeitoIndicação
Cinacalcet (calcimimético)Baixa o cálcio e a PTH; não melhora a densidade ósseaDoente com hipercalcémia significativa não candidato a cirurgia; carcinoma da paratiroide
Bifosfonatos (alendronato)Melhoram a densidade óssea; efeito pequeno sobre a calcémiaDoente cujo problema dominante é o osso
Associação dos doisCobre ambos os problemasCasos selecionados

A lógica de escolha é limpa: cinacalcet para o cálcio, bifosfonato para o osso. Confundir os dois é erro clássico.

Aspetos técnicos da cirurgia

  • Adenoma único (a maioria) com sestamibi e ecografia concordantes → paratiroidectomia minimamente invasiva focada com monitorização intraoperatória da PTH.
  • Hiperplasia das quatro glândulas (suspeitar sempre em contexto de MEN1, MEN2A ou história familiar) → paratiroidectomia subtotal (3,5 glândulas), hoje a operação-índice. A total com autotransplante de tecido no antebraço mantém-se opção na hiperplasia não-MEN1 (nomeadamente no hiperparatiroidismo terciário da doença renal crónica), mas deixou de ser recomendada no MEN1 pelas guidelines de 2025, por recidiva equivalente à subtotal com mais hipoparatiroidismo permanente.
  • Carcinoma da paratiroide (suspeitar perante calcémia muito elevada, PTH desproporcionadamente alta, massa cervical palpável, rouquidão) → excisão em bloco da glândula com o lobo tiroideu homolateral, sem violar a cápsula.

Antes de qualquer cirurgia cervical: avaliação da voz e, se indicado, laringoscopia para documentar a mobilidade das cordas vocais.


Tratamento da hipercalcémia aguda

O tratamento depende do valor, dos sintomas e da velocidade de instalação, não só do número.

  • Ligeira (<12 mg/dL) e assintomática — não requer tratamento urgente. Hidratar oralmente, suspender fármacos culpados (tiazidas, lítio, suplementos de cálcio e vitamina D), evitar imobilização, tratar a causa.
  • Moderada (12–14 mg/dL) — se crónica e assintomática, pode ser abordada como a ligeira; se aguda ou sintomática, trata-se como grave.
  • Grave (>14 mg/dL) ou sintomática — emergência (ver secção das complicações para a sequência detalhada).

O princípio unificador é que o doente hipercalcémico está sempre depletado de volume: a hipercalcémia causa diabetes insipidus nefrogénica e vómitos, a desidratação reduz a taxa de filtração glomerular, o rim excreta menos cálcio, e a calcémia sobe ainda mais. Quebrar este ciclo com soro fisiológico é o primeiro passo de qualquer tratamento.


Tratamento da hipocalcémia

Hipocalcémia aguda sintomática

Indicações para cálcio endovenoso: tetania, laringospasmo, convulsões, arritmia, prolongamento acentuado do QT, ou cálcio ionizado muito baixo mesmo sem sintomas.

  • Gluconato de cálcio a 10%: 1 a 2 ampolas (10–20 mL = 90–180 mg de cálcio elementar) diluídas em 50–100 mL de dextrose a 5% ou soro fisiológico, em perfusão lenta de 10 a 20 minutos. Se a causa persistir, seguir com perfusão contínua de 0,5–1,5 mg/kg/h de cálcio elementar (tipicamente 10 ampolas em 900 mL de dextrose a 5% a 50 mL/h, ajustando ao doseamento). Dosear a calcémia — idealmente a ionizada — de 4 em 4 a 6 em 6 horas durante a perfusão. Alvo: limite inferior do normal com o doente assintomático, e não a normalização plena, sob pena de hipercalcémia iatrogénica. Vigiar o local de punção: mesmo o gluconato provoca lesão tecidular e calcinose se extravasar. Iniciar em paralelo a terapêutica oral (cálcio + calcitriol) para permitir o desmame da perfusão.
  • Prefere-se o gluconato ao cloreto de cálcio por via periférica: o cloreto é muito mais irritante e provoca necrose se extravasar. O cloreto reserva-se para acesso central.
  • Nunca administrar cálcio na mesma linha que bicarbonato ou fosfato — precipita.
  • Monitorização cardíaca obrigatória, sobretudo no doente digitalizado (o cálcio potencia a toxicidade digitálica).
  • Corrigir o magnésio primeiro ou em simultâneo se estiver baixo — sem isso o cálcio não normaliza.
  • Cuidado com a hiperfosfatémia: se o produto cálcio-fósforo estiver muito elevado (lise tumoral, rabdomiólise), a administração agressiva de cálcio pode causar calcificação metastática. Nestes casos, trata-se primeiro o fosfato e só se dá cálcio se houver sintomas.

Hipocalcémia crónica

A base é cálcio oral (carbonato ou citrato) em doses fracionadas com as refeições, mais vitamina D. A escolha do metabolito depende do mecanismo:

SituaçãoQue vitamina D usarPorquê
Défice de vitamina D com paratiroides e rim normaisColecalciferol (D₃)O doente ativa-a sozinho
HipoparatiroidismoCalcitriol ou alfacalcidolFalta a PTH que estimula a 1-α-hidroxilase; a D₃ nativa não é convertida em quantidade suficiente
Doença renal crónicaCalcitriol/alfacalcidol ou análogos (paricalcitol)Falta o rim funcionante

O carbonato de cálcio precisa de acidez gástrica — no doente sob inibidor da bomba de protões, prefere-se o citrato de cálcio.


Hipoparatiroidismo crónico: objetivos de tratamento (contraintuitivos)

Aqui está uma armadilha de raciocínio importante. No hipoparatiroidismo, o objetivo NÃO é normalizar o cálcio. Sem PTH, o rim perde a capacidade de reabsorver cálcio no túbulo distal; normalizar a calcémia sérica implica uma carga filtrada que gera hipercalciúria maciça, com nefrolitíase, nefrocalcinose e perda progressiva de função renal.

Os alvos (declaração do Segundo Workshop Internacional sobre Hipoparatiroidismo, 2022, e guideline da European Society of Endocrinology, 2015) são:

  • Cálcio sérico no limite inferior do normal ou ligeiramente abaixo, com o doente assintomático;
  • Calciúria de 24 h dentro do intervalo normal (evitar hipercalciúria);
  • Fósforo dentro do normal e produto cálcio × fósforo controlado (classicamente abaixo de 55 mg²/dL²);
  • Magnésio normal;
  • Vigilância periódica da função renal e imagem renal para nefrocalcinose.

Os diuréticos tiazídicos (com restrição de sódio) são úteis precisamente porque aumentam a reabsorção distal de cálcio e reduzem a calciúria — uma das poucas situações em que a propriedade hipercalcemiante da tiazida é terapêutica.

Nos doentes que não conseguem controlo com cálcio e análogos da vitamina D em doses altas, ou que desenvolvem complicações renais, existe terapêutica de substituição com PTH recombinante — historicamente a rhPTH(1-84), e mais recentemente análogos de ação prolongada (palopegteriparatido). A disponibilidade destes fármacos tem variado entre países e ao longo do tempo; para efeitos de exame, o que interessa é reconhecer o conceito de substituição hormonal no hipoparatiroidismo refratário.


Hiperparatiroidismo secundário da doença renal crónica

A sequência de tratamento segue a lógica KDIGO (atualização de 2017 da guideline CKD-MBD):

  1. Controlar o fósforo — restrição dietética de fosfatos (sobretudo aditivos alimentares) e quelantes do fósforo. Preferir quelantes sem cálcio (sevelamer, carbonato de lantânio) para não agravar a carga de cálcio e a calcificação vascular.
  2. Repor a vitamina D nativa se houver défice de 25(OH)D.
  3. Baixar a PTH quando persistentemente elevada e a subir: calcitriol/análogos da vitamina D ativa e/ou calcimiméticos (cinacalcet oral, etelcalcetido endovenoso em hemodiálise).
  4. Paratiroidectomia no hiperparatiroidismo grave refratário ao tratamento médico.

Nota: a guideline KDIGO não define um alvo numérico rígido de PTH em diálise, mas aponta para valores aproximadamente 2 a 9 vezes o limite superior do ensaio — e valoriza mais a tendência do que um valor isolado.

Referências

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