Doença de Paget e outras displasias ósseas
Atualizado em 18 de julho de 2026 · 7 perguntas neste tema
A doença de Paget do osso é uma osteodistrofia focal de remodelação acelerada e desorganizada que, na maioria dos casos, chega ao médico não como queixa mas como achado laboratorial ou radiológico incidental. Tem relevância C na matriz da PNA, mas ocupa um lugar estratégico desproporcional à sua raridade: é o protótipo da pergunta "fosfatase alcalina elevada com cálcio e fósforo normais" e serve de eixo para o diagnóstico diferencial das lesões escleróticas e das restantes displasias ósseas. O leitor tem de sair deste capítulo a dominar quatro coisas: (1) o perfil bioquímico discriminador (fosfatase alcalina total ↑, cálcio e fósforo normais) e o que o separa da osteomalacia e das metástases osteoblásticas; (2) os padrões radiológicos clássicos e o papel da cintigrafia óssea para mapear a extensão; (3) as bandeiras vermelhas da transformação sarcomatosa; (4) as indicações de tratamento e o esquema com bifosfonatos endovenosos. Fica ainda a armadilha semântica obrigatória: a doença de Paget mamária não tem qualquer relação com a doença óssea.
Esta é a secção nuclear do capítulo e a competência que a matriz exige. O diagnóstico da doença de Paget assenta em três pilares — bioquímico, radiológico e cintigráfico — e a biópsia é raramente necessária.
Pilar 1: a assinatura bioquímica
O achado que define o problema
Fosfatase alcalina (FA) total elevada, com cálcio e fósforo séricos NORMAIS.
Esta tríade é o ponto discriminador central de toda a matéria. A FA sobe porque os osteoblastos hiperactivos a produzem; o cálcio e o fósforo mantêm-se normais porque a formação e a reabsorção continuam acopladas — não há libertação líquida de mineral.
A magnitude da elevação é grosseiramente proporcional à extensão e atividade da doença. Uma lesão monostótica pequena (por exemplo, num único corpo vertebral) pode cursar com FA normal — a normalidade da FA torna improvável doença extensa ativa, mas não exclui doença localizada.
Confirmar que a FA é de origem óssea
A FA total é uma mistura de isoenzimas — óssea, hepática, intestinal, placentar. Perante uma FA elevada isolada, o passo obrigatório é provar que é óssea:
| Estratégia | Interpretação |
|---|---|
| GGT (ou 5'-nucleotidase) | Normal → origem hepatobiliar torna-se improvável, aponta para osso. Elevada → investigar fígado/vias biliares primeiro |
| Isoenzima óssea da FA (bone-specific ALP) | Confirma diretamente a origem; mais sensível na doença monostótica |
Esta é uma das sequências diagnósticas mais testáveis do tema: FA alta + GGT normal = pensa osso.
Outros marcadores de remodelação
- Formação: P1NP (pró-peptídeo N-terminal do pró-colagénio tipo I) — o mais sensível para monitorizar resposta ao tratamento; a osteocalcina é pouco útil no Paget.
- Reabsorção: CTX e NTX séricos ou urinários; a hidroxiprolina urinária é histórica e já não se usa.
Na prática, a FA total é suficiente para diagnóstico e seguimento na esmagadora maioria dos casos; os marcadores mais finos reservam-se para doença monostótica com FA normal ou para monitorização em contexto especializado.
O que NÃO deve estar alterado
- Cálcio total e ionizado: normais. Uma hipercalcémia num doente com Paget obriga a procurar outra causa — hiperparatiroidismo primário concomitante (relativamente frequente nesta faixa etária), imobilização prolongada, neoplasia.
- Fósforo: normal. Hipofosfatémia aponta para osteomalacia, hiperparatiroidismo ou doenças mediadas por FGF23 (incluindo a displasia fibrosa extensa).
- PTH: normal na maioria; pode subir de forma secundária se houver défice de vitamina D associado, cenário a corrigir antes de tratar.
- 25-OH-vitamina D: deve ser doseada e reposta antes de qualquer bifosfonato endovenoso.
Pilar 2: a radiografia — os padrões que têm de ser reconhecidos
A radiografia convencional é o exame que estabelece o diagnóstico. Os achados são suficientemente característicos para dispensar biópsia na larguíssima maioria dos casos.
Sinais gerais (qualquer osso)
- Aumento do volume do osso — o osso pagético é maior do que o contralateral. É o sinal mais específico e o que melhor separa de metástases.
- Espessamento cortical com perda da definição entre cortical e medular.
- Trabéculas grosseiras, espessas e desorganizadas.
- Deformidade — arqueamento das diáfises, protrusão acetabular, remodelação da bacia.
Sinais por localização
| Local | Achado clássico | Fase |
|---|---|---|
| Crânio | Osteoporose circunscrita — grande área lítica bem delimitada, tipicamente frontal ou occipital | Lítica |
| Crânio | Aspeto em algodão (cotton-wool) — focos escleróticos algodonosos sobre díploe espessado | Esclerótica |
| Ossos longos | Frente lítica em chama de vela / folha de erva (blade of grass) a avançar da epífise para a diáfise | Lítica |
| Ossos longos | Linhas de fissura (fissure fractures) — bandas de radiotransparência transversais e incompletas na cortical convexa (lateral do fémur, anterior da tíbia) | Mista/esclerótica |
| Vértebra | Vértebra em moldura (picture-frame) — esclerose periférica com centro relativamente poupado; ou vértebra de marfim, com aumento de volume do corpo | Mista/esclerótica |
| Pélvis | Espessamento da linha ileopectínea (brim sign), protrusão acetabular | Mista |
Discriminador crítico: a vértebra de marfim pode ser Paget, metástase (próstata, mama), linfoma ou osteomielite crónica. A favor de Paget: corpo vertebral aumentado de volume e trabéculas grosseiras espessadas. A favor de metástase: contornos preservados, envolvimento do pedículo, múltiplas lesões noutras vértebras.
Pilar 3: a cintigrafia óssea — mapear, não diagnosticar
A cintigrafia óssea com difosfonatos marcados com tecnécio-99m é mais sensível do que a radiografia para detetar lesões e é o exame de eleição para mapear a extensão da doença. As lesões pagéticas captam intensamente e de forma homogénea, extensa e contínua, ocupando todo o segmento ósseo afetado — em contraste com o padrão focal, aleatório e multifocal das metástases.
Sequência prática recomendada (alinhada com a Endocrine Society 2014 e com a guideline britânica de 2019):
- FA elevada de origem óssea + suspeita clínica → radiografia do local suspeito ou sintomático.
- Diagnóstico radiográfico estabelecido → cintigrafia óssea de corpo inteiro para determinar quantos e quais os ossos envolvidos (relevante porque identifica locais de risco que mudam a decisão de tratar: crânio, coluna, ossos de carga, articulações adjacentes).
- Lesões captantes na cintigrafia sem correspondente radiográfico → radiografar esses locais para confirmar (a cintigrafia é sensível mas inespecífica: capta artrose, fratura, metástase).
A cintigrafia não deve ser usada para monitorizar a resposta ao tratamento — para isso serve a FA.
Quando pedir TC ou RM
A imagem em corte transversal está reservada para complicações, não para diagnóstico:
- RM — suspeita de compressão medular ou radicular, invaginação basilar, e sobretudo suspeita de degenerescência sarcomatosa (massa de partes moles, destruição cortical, edema medular).
- TC — planeamento cirúrgico, avaliação do rochedo e do canal auditivo, caracterização de lesões líticas.
- Biópsia óssea — só quando a imagem é atípica e não permite distinguir de neoplasia. Deve ser evitada de rotina: o osso pagético é hipervascular e a biópsia sangra.
Diagnóstico diferencial — os dois eixos que a PNA testa
Eixo A: fosfatase alcalina elevada
| Entidade | FA | Cálcio | Fósforo | Pista adicional |
|---|---|---|---|---|
| Doença de Paget | ↑↑ | Normal | Normal | GGT normal; radiografia característica |
| Osteomalacia / défice de vitamina D | ↑ | ↓ ou baixo-normal | ↓ | 25-OH-D ↓, PTH ↑, zonas de Looser |
| Hiperparatiroidismo primário | ↑ ou normal | ↑ | ↓ | PTH ↑ inapropriada, hipercalciúria |
| Metástases osteoblásticas | ↑ | Normal ou ↑ | Normal | PSA, mamografia; lesões focais múltiplas sem expansão óssea |
| Doença hepatobiliar / colestase | ↑ | Normal | Normal | GGT ↑, bilirrubina, prurido |
| Fratura em consolidação | ↑ transitória | Normal | Normal | Contexto traumático, normaliza em semanas |
| Gravidez (3.º trimestre) | ↑ | Normal | Normal | Isoenzima placentar |
Eixo B: lesão óssea esclerótica
- Metástases osteoblásticas — sobretudo próstata (homem) e mama (mulher); também pulmão de pequenas células, carcinoide, linfoma de Hodgkin. Lesões focais, múltiplas, sem aumento do volume ósseo; a captação cintigráfica é multifocal e "aos saltos".
- Displasia fibrosa — doente jovem, lesão com aspeto em vidro despolido (ground glass) e halo esclerótico, deformidade em cajado de pastor no colo femoral; a FA pode estar elevada, o que gera confusão. A idade resolve quase sempre a dúvida.
- Osteomielite crónica / esclerosante — esclerose com sequestro, invólucro, trajeto fistuloso, história de infeção ou de traumatismo aberto.
- Linfoma ósseo — vértebra de marfim, massa de partes moles desproporcionada à destruição óssea, sintomas B.
- Osteopetrose — esclerose difusa e simétrica de todo o esqueleto, não focal; FA normal ou elevada (o que sobe de forma característica é a fosfatase ácida e a CK-BB); sinal do "osso dentro do osso".
- Mielofibrose — esclerose difusa, esplenomegália, esfregaço leucoeritroblástico com dacriócitos.
Erro clássico de exame: assumir que uma FA elevada num homem idoso com dor lombar e lesões escleróticas é sempre Paget. Doseia o PSA. As duas entidades partilham faixa etária e localização (pélvis, coluna lombar) e podem coexistir.
Referências
- Singer FR, Bone HG 3rd, Hosking DJ, Lyles KW, Murad MH, Reid IR, et al. Paget's disease of bone: an Endocrine Society clinical practice guideline. J Clin Endocrinol Metab. 2014;99(12):4408-22.
- Ralston SH, Corral-Gudino L, Cooper C, Francis RM, Fraser WD, Gennari L, et al. Diagnosis and management of Paget's disease of bone in adults: a clinical guideline. J Bone Miner Res. 2019;34(4):579-604.
- Ralston SH. Clinical practice. Paget's disease of bone. N Engl J Med. 2013;368(7):644-50.
- Reid IR, Miller P, Lyles K, Fraser W, Brown JP, Saidi Y, et al. Comparison of a single infusion of zoledronic acid with risedronate for Paget's disease. N Engl J Med. 2005;353(9):898-908.
- Corral-Gudino L, Tan AJ, Del Pino-Montes J, Ralston SH. Bisphosphonates for Paget's disease of bone in adults. Cochrane Database Syst Rev. 2017;12:CD004956.
- Loscalzo J, Fauci AS, Kasper DL, Hauser SL, Longo DL, Jameson JL, editores. Harrison's Principles of Internal Medicine. 22.a ed. Nova Iorque: McGraw Hill; 2025.
- Boyce AM, Collins MT. Fibrous dysplasia/McCune-Albright syndrome: a rare, mosaic disease of Gs alpha activation. Endocr Rev. 2020;41(2):345-70.
- Javaid MK, Boyce A, Appelman-Dijkstra N, Ong J, Defabianis P, Offiah A, et al. Best practice management guidelines for fibrous dysplasia/McCune-Albright syndrome: a consensus statement from the FD/MAS international consortium. Orphanet J Rare Dis. 2019;14(1):139.
- Marini JC, Forlino A, Bachinger HP, Bishop NJ, Byers PH, De Paepe A, et al. Osteogenesis imperfecta. Nat Rev Dis Primers. 2017;3:17052.
- Whyte MP. Hypophosphatasia - aetiology, nosology, pathogenesis, diagnosis and treatment. Nat Rev Endocrinol. 2016;12(4):233-46.
- Pauli RM. Achondroplasia: a comprehensive clinical review. Orphanet J Rare Dis. 2019;14(1):1.
- Kliegman RM, St Geme JW, editores. Nelson Textbook of Pediatrics. 22.a ed. Filadélfia: Elsevier; 2024.
7 perguntas sobre Doença de Paget e outras displasias ósseas
Ler consolida, treinar é o que fixa. Cada pergunta tem justificação alínea a alínea, no formato da Prova Nacional de Acesso.
Criar conta e treinar