Endocrinológica e MetabólicaDistúrbios da glândula tiroideiaPublicado (Premium)

Distúrbios da glândula tiroideia

Matriz PNA:MD · MecanismosD · DiagnósticoGD · Gestão

Atualizado em 18 de julho de 2026 · 26 perguntas neste tema

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Em resumo

A disfunção tiroideia é, com a diabetes, o problema endocrinológico mais prevalente na prática clínica e um dos temas mais testados de toda a endocrinologia na PNA — a matriz classifica-o com relevância A (alto rendimento), com competências de mecanismos de doença, diagnóstico e gestão. A maioria das perguntas não pede que reconheças uma doença rara: pede que interpretes corretamente um padrão de TSH e T4 livre, que decidas se uma tirotoxicose é por hiperfunção ou por destruição glandular (o papel discriminador da captação de radioiodo), e que apliques regras terapêuticas concretas. Há três coisas que tens mesmo de dominar: (1) a lógica em degraus do diagnóstico e as armadilhas dos padrões discordantes (hipotiroidismo central, doente eutiroideu, biotina); (2) a distinção tiroidite vs Graves vs nódulo tóxico e as suas consequências terapêuticas; (3) as duas emergências — tempestade tiroideia (com a regra do iodeto pelo menos 1 hora depois do antitiroideu) e coma mixedematoso (hidrocortisona antes da levotiroxina). O nódulo tiroideu e o carcinoma têm capítulos próprios neste lote: aqui trata-se exclusivamente da função.

Síntese, transporte e ativação periférica

O ciclo do iodo dentro do tirócito

  1. Captação: o simportador sódio-iodeto (NIS), na membrana basolateral, concentra iodeto contra gradiente (é este transportador que permite tratar e diagnosticar com radioiodo — e é também a razão pela qual a mama lactante e o estômago captam iodo).
  2. Efluxo apical para o coloide (pendrina e outros transportadores). Mutações da pendrina causam a síndrome de Pendred: bócio com disormonogénese e surdez neurossensorial.
  3. Organificação: a peroxidase tiroideia (TPO), na presença de peróxido de hidrogénio, oxida o iodeto e ioda resíduos de tirosina da tiroglobulina (MIT e DIT).
  4. Acoplamento: DIT + DIT → T4; MIT + DIT → T3. Também catalisado pela TPO.
  5. Endocitose do coloide e proteólise libertam T4 e T3 para a circulação. A glândula secreta maioritariamente T4.

Dois destes passos são alvos terapêuticos e explicam a farmacologia inteira: as tionamidas inibem a TPO (bloqueiam organificação e acoplamento), e o iodeto em doses farmacológicas inibe agudamente a organificação (é este o efeito de Wolff-Chaikoff) e bloqueia sobretudo a libertação hormonal — é este bloqueio da libertação que explica o efeito clínico rápido do Lugol/SSKI.

Wolff-Chaikoff e Jod-Basedow: o iodo tem duas faces

  • Wolff-Chaikoff: uma carga aguda de iodo inibe a organificação e a libertação. Numa tiroide normal há escape em poucos dias (por regulação negativa do NIS). Numa tiroide já lesada — Hashimoto, pós-radioiodo, pós-tiroidectomia parcial, recém-nascido — não há escape e instala-se hipotiroidismo.
  • Jod-Basedow: numa glândula com autonomia (bócio multinodular, adenoma tóxico, Graves latente), o substrato extra permite hiperprodução e desencadeia tirotoxicose.

A mesma carga de iodo, portanto, dá hipotiroidismo num doente e tirotoxicose noutro — o que decide é o estado prévio da glândula. Este é um mecanismo muito rentável em exame.

Transporte plasmático

Mais de 99% da T4 e da T3 circulam ligadas: TBG (globulina de ligação à tiroxina, a principal), transtirretina e albumina. Só a fração livre é biologicamente ativa e só ela é regulada.

Consequência prática: tudo o que altera a TBG altera as hormonas totais sem alterar as livres nem o estado clínico.

↑ TBG (→ T4 total ↑, T4 livre normal)↓ TBG (→ T4 total ↓, T4 livre normal)
Gravidez, estrogénios/contracetivos orais, tamoxifenoAndrogénios, glucocorticoides em dose alta
Hepatite agudaSíndrome nefrótica, enteropatia perdedora de proteínas
Porfíria aguda intermitenteCirrose, doença sistémica grave

É por isto que doseamos T4 livre e não T4 total. A vinheta clássica: grávida ou mulher sob contracetivo com T4 total elevada, assintomática, TSH normal — não há doença.

Desiodases: onde a T3 é realmente feita

Cerca de 80% da T3 circulante provém da conversão periférica da T4, não da secreção tiroideia.

  • D1 (fígado, rim, tiroide) — desiodação do anel externo: T4 → T3. É a desiodase inibida pelo propiltiouracilo, pela amiodarona, pelo propranolol em dose alta e pelos glucocorticoides. Guarda esta lista: é exatamente o cocktail da tempestade tiroideia.
  • D2 (cérebro, hipófise, tecido adiposo castanho, músculo) — gera T3 intracelular. É a D2 hipofisária que determina a retroalimentação, e é a razão pela qual a TSH reflete tão fielmente o estado tiroideu do sistema nervoso central.
  • D3 (placenta, cérebro fetal, hemangiomas, tecidos em stress) — desiodação do anel interno: inativa, gerando rT3 a partir da T4 e T2 a partir da T3. A sua ativação no doente crítico explica o padrão de T3 baixa com rT3 elevada.

A T3 liga-se a recetores nucleares (TRα, TRβ) que atuam como fatores de transcrição — daí a latência de dias a semanas entre a correção bioquímica e a melhoria clínica, e a inutilidade de reavaliar a TSH duas semanas depois de ajustar a levotiroxina.


Mecanismos do hipotiroidismo

Tiroidite de Hashimoto

Doença autoimune órgão-específica com infiltração linfocítica (centros germinativos, células de Hürthle/oxifílicas) e destruição progressiva do parênquima. Os anticorpos anti-TPO estão presentes em cerca de 90-95% dos casos e os anti-tiroglobulina numa proporção menor; ambos são sobretudo marcadores, sendo a destruição mediada predominantemente por linfócitos T citotóxicos e citocinas. Associa-se a outras doenças autoimunes (vitiligo, doença celíaca, diabetes tipo 1, doença de Addison, anemia perniciosa) e integra as síndromes poliglandulares autoimunes. Predomínio feminino marcado; risco aumentado na trissomia 21 e na síndrome de Turner.

Consequências fisiopatológicas que explicam a clínica

A hormona tiroideia regula a termogénese, a expressão de recetores β-adrenérgicos, o turnover proteico e lipídico e a atividade da Na⁺/K⁺-ATPase. Na sua ausência:

  • ↓ taxa metabólica basal → intolerância ao frio, aumento ponderal moderado, obstipação, bradipsiquismo.
  • ↓ expressão do recetor de LDL hepáticohipercolesterolemia (LDL elevada). Toda a dislipidemia de novo merece uma TSH.
  • Acumulação de glicosaminoglicanos hidrófilos na derme → mixedema (edema não godé), macroglossia, rouquidão, hipoacusia.
  • ↓ contratilidade e cronotropismo → bradicardia, derrame pericárdico, baixa voltagem no ECG; ↑ CK de origem muscular com mialgias.
  • ↓ clearance de água livre (secreção inapropriada de ADH, ↓ débito cardíaco) → hiponatrémia.
  • Hiperprolactinemia por aumento do TRH → galactorreia e amenorreia. Explica também o bócio e, na criança, a pseudopuberdade precoce de Van Wyk-Grumbach.
  • ↓ depuração de cortisol e de fármacos; ↓ eritropoiese → anemia normocítica (ou macrocítica se anemia perniciosa associada).

Mecanismos da tirotoxicose

Doença de Graves

O mecanismo é elegante e muito perguntado: autoanticorpos IgG dirigidos ao recetor da TSH (TRAb), na sua forma estimuladora, comportam-se como agonistas do recetor. Estimulam continuamente a adenilciclase, escapando à retroalimentação — daí bócio difuso, hipercaptante e hipervascularizado, com hiperprodução mantida e TSH profundamente suprimida.

A orbitopatia e a dermopatia (mixedema pré-tibial) partilham um mecanismo comum: os fibroblastos orbitários e pré-tibiais expressam TSHR e o recetor do IGF-1, que forma um complexo funcional com o TSHR. A estimulação leva à diferenciação em adipócitos e à produção de ácido hialurónico, com expansão do tecido conjuntivo e da gordura retro-orbitária dentro de uma órbita óssea inextensível → proptose, congestão venosa, diplopia por espessamento dos músculos retos e, no extremo, neuropatia óptica compressiva. É este mecanismo que o teprotumumab (anticorpo monoclonal anti-recetor do IGF-1) explora.

O tabaco é o fator de risco modificável mais forte para a orbitopatia e para o seu agravamento — a informação sobre cessação tabágica é parte do tratamento.

Nódulos autónomos

No adenoma tóxico e em nódulos do bócio multinodular tóxico, mutações somáticas ativadoras do TSHR (ou da subunidade Gsα, gene GNAS) mantêm a via do AMP cíclico ligada sem ligando. O resultado é autonomia funcional: o nódulo produz hormona, suprime a TSH e, por consequência, suprime o restante parênquima — o que explica a imagem cintigráfica de nódulo «quente» com glândula circundante apagada. Como estes nódulos hiperfuncionantes são quase sempre benignos, um nódulo quente não requer citologia aspirativa.

Tiroidites: tirotoxicose por destruição

Aqui não há síntese aumentada — há libertação passiva de hormona pré-formada de folículos rompidos. Daí três consequências obrigatórias:

  1. A captação de radioiodo é baixa (a glândula está lesada e a TSH suprimida).
  2. A tirotoxicose é autolimitada (dura enquanto durarem as reservas, tipicamente semanas).
  3. Tionamidas não servem — não há o que bloquear. Trata-se sintomaticamente.

O curso é trifásico: tirotoxicose → eutiroidismo → hipotiroidismo (transitório na maioria, definitivo numa minoria) → recuperação.

Na De Quervain, admite-se um mecanismo pós-vírico com resposta inflamatória granulomatosa, dor cervical intensa irradiada ao ouvido/mandíbula e VS e PCR muito elevadas. Nas tiroidites silenciosa e pós-parto o infiltrado é linfocítico, indolor, anti-TPO frequentemente positivos, e a fisiopatologia pós-parto reflete o rebound imunitário após a imunotolerância da gravidez.

Amiodarona: um fármaco, dois mecanismos opostos

A amiodarona contém cerca de 37% de iodo por peso e tem semivida muito longa (meses), pelo que os efeitos persistem após a suspensão.

Tipo 1Tipo 2
MecanismoJod-Basedow: excesso de substrato numa glândula com autonomia préviaTiroidite destrutiva por toxicidade direta sobre o tirócito
GlândulaBócio nodular ou Graves subjacenteHabitualmente normal
EcodopplerVascularização aumentadaVascularização ausente/reduzida
Captação de radioiodoBaixa a normal (mas frequentemente suprimida pela carga de iodo — limita a utilidade do exame)Muito baixa
Interleucina-6Normal ou pouco elevadaTende a estar elevada (marcador imperfeito)
TratamentoTionamida (± perclorato de potássio, onde disponível)Glucocorticoide

Na prática, muitos casos são mistos e tratam-se com ambos. Independentemente do tipo, a amiodarona inibe a D1 e o transporte celular de T4, produzindo, mesmo no doente eutiroideu, um padrão típico: T4 total e livre no limite superior ou ligeiramente altas, T3 baixa-normal, rT3 alta e TSH transitoriamente elevada nos primeiros 3 meses — isto não é doença e não se trata.

Efeitos periféricos do excesso hormonal

Aumento da termogénese e do consumo de oxigénio, aumento do número e sensibilidade dos recetores β-adrenérgicos (daí a eficácia do bloqueio β mesmo sem catecolaminas elevadas), aumento do turnover ósseo com predomínio da reabsorção (osteoporose, hipercalciúria, por vezes hipercalcémia ligeira), encurtamento do período refratário auricular (fibrilhação auricular), aumento do débito cardíaco com queda das resistências periféricas (pressão diferencial alargada) e catabolismo proteico muscular (miopatia proximal).

O algoritmo em degraus

No doente ambulatório e clinicamente estável, o teste inicial é sempre a TSH isolada. Só se a TSH estiver alterada se avança para a T4 livre. Pedir painéis completos de rotina gera resultados discordantes que confundem mais do que esclarecem.

Exceções em que se pede TSH + T4 livre desde o início:

  • Suspeita de doença hipofisária/hipotalâmica (a TSH isolada é inútil e enganadora);
  • Gravidez e planeamento de gravidez;
  • Doente hospitalizado grave (se realmente indispensável);
  • Doente sob amiodarona ou nos primeiros meses após início/ajuste de tratamento antitiroideu (a TSH pode manter-se suprimida durante semanas a meses após a normalização das hormonas periféricas — nesta fase é a T4 livre que guia).

Os padrões — a tabela que resolve metade das perguntas

TSHT4 livreInterpretação
Hipotiroidismo primário franco
normalHipotiroidismo subclínico
ou normalHipotiroidismo central — a armadilha; ou doente eutiroideu/recuperação de doença aguda
Tirotoxicose (hipertiroidismo franco ou tiroidite)
normalTirotoxicose subclínica — pedir T3 livre/total (pode ser tirotoxicose T3, típica do adenoma tóxico e do início do Graves)
normal ou Tirotoxicose central (tirotropinoma), resistência às hormonas tiroideias, interferência analítica (biotina, anticorpos heterofílicos), má adesão com toma recente de várias doses de levotiroxina
↑ ligeiranormal, doente a recuperar de doença agudaFase de recuperação da síndrome do doente eutiroideu — repetir a 6 semanas antes de rotular

Regra de ouro: um padrão discordante repete-se antes de se tratar. TSH ligeiramente elevada isolada normaliza espontaneamente numa proporção substancial de doentes na repetição às 6-12 semanas.


Diagnóstico do hipotiroidismo

Clínica (e porque é pouco fiável)

Fadiga, intolerância ao frio, aumento ponderal, obstipação, pele seca, queda de cabelo, rouquidão, mialgias, cãibras, bradipsiquismo, depressão, menorragia ou oligomenorreia, infertilidade. Ao exame: bradicardia, edema não godé (periorbitário, mãos), fase de relaxamento lenta dos reflexos osteotendinosos (sinal clássico), pele seca e fria, síndrome do túnel cárpico, derrame pericárdico ou pleural.

O problema é que a sensibilidade e a especificidade destes sinais são baixas — nenhum permite diagnosticar sem análise. O bócio pode existir (Hashimoto bocioso) ou a glândula pode ser impalpável (forma atrófica, pós-ablativa).

Confirmação laboratorial e etiologia

  • TSH ↑ + T4 livre ↓ confirma hipotiroidismo primário. Repetir para confirmar antes de iniciar tratamento vitalício, sobretudo se a elevação for ligeira.
  • Anticorpos anti-TPO: confirmam etiologia autoimune. Utilidade real em três cenários — hipotiroidismo subclínico (a positividade aumenta muito o risco de progressão para franco e inclina para tratar), gravidez (associados a perda gestacional e a tiroidite pós-parto) e bócio difuso. Não há qualquer indicação para os repetir em série: não se titulam para monitorizar.
  • Ecografia: não é necessária no hipotiroidismo. Só se pede se houver bócio, nódulo palpável ou assimetria — e aí a orientação passa para o capítulo do nódulo.
  • Achados de apoio que aparecem nas vinhetas: hipercolesterolemia, CK elevada, hiponatrémia, anemia normocítica, hiperprolactinemia, bradicardia com baixa voltagem no ECG.

Suspeitar de hipotiroidismo central

Quando a T4 livre está baixa e a TSH não está elevada (baixa, normal ou apenas ligeiramente aumentada). Procurar ativamente: cefaleias, alterações do campo visual (hemianopsia bitemporal), amenorreia/perda de libido, hipotensão ortostática, hipoglicemia, hipocortisolismo, história de hemorragia pós-parto grave (Sheehan), traumatismo cranioencefálico, cirurgia ou irradiação hipofisária, imunoterapia com anti-CTLA-4.

O passo seguinte é avaliar o restante eixo hipofisário (cortisol matinal ± ACTH, prolactina, gonadotrofinas, IGF-1) e pedir RM da região selar. E há uma regra terapêutica ligada a este diagnóstico que raramente escapa às provas: corrigir primeiro a insuficiência suprarrenal — dar levotiroxina antes de glucocorticoide acelera o metabolismo do cortisol e pode precipitar uma crise adrenal.


Diagnóstico da tirotoxicose

Clínica

Perda de peso com apetite conservado ou aumentado, intolerância ao calor e sudorese, palpitações, tremor fino, ansiedade e irritabilidade, insónia, hiperdefecação (não é diarreia verdadeira), fraqueza muscular proximal, oligomenorreia. Ao exame: taquicardia sinusal ou fibrilhação auricular, pressão diferencial alargada, pele quente e húmida, tremor, hiper-reflexia, retração palpebral e lid lag (estes últimos ocorrem em qualquer tirotoxicose, por hiperatividade simpática — não são sinais específicos de Graves).

Sinais que apontam especificamente para Graves: proptose/exoftalmia verdadeira, oftalmoplegia, quemose, mixedema pré-tibial, acropaquia tiroideia, bócio difuso com sopro ou frémito.

No idoso, a apresentação pode ser apática: sem hiperatividade adrenérgica, apenas perda de peso, fadiga, depressão, fibrilhação auricular ou insuficiência cardíaca de novo. É uma armadilha frequente.

Confirmação e diferenciação etiológica

Confirmada a tirotoxicose (TSH suprimida com T4 livre e/ou T3 elevadas), a pergunta seguinte é sempre a mesma: hiperfunção ou destruição/exógena? Há duas estratégias equivalentes.

Estratégia 1 — dosear TRAb. Rápida, não implica radiação, elegível na gravidez e na amamentação. TRAb positivos com quadro compatível estabelecem o diagnóstico de Graves e dispensam a cintigrafia. É a primeira escolha quando a clínica já é sugestiva (mulher jovem, bócio difuso, orbitopatia).

Estratégia 2 — cintigrafia com captação de radioiodo (I-123 ou tecnécio-99m). É o discriminador chave quando o quadro é ambíguo, quando há nódulos, ou quando os TRAb são negativos.

Padrão cintigráficoDiagnóstico
Captação difusa e aumentadaDoença de Graves
Múltiplas áreas quentes alternando com frias, glândula heterogéneaBócio multinodular tóxico
Nódulo único quente com supressão do restante parênquimaAdenoma tóxico
Captação globalmente muito baixa/ausenteTiroidite (subaguda, silenciosa, pós-parto, amiodarona tipo 2), tirotoxicose factícia, excesso de iodo/contraste recente

Quando a captação é baixa, o passo seguinte distingue as três hipóteses:

  • Dor cervical + VS/PCR muito elevadas + febre e pródromo víricotiroidite subaguda de De Quervain; antes de assumir este diagnóstico, excluir tiroidite aguda supurativa — dor unilateral com eritema, calor e flutuação, febre alta com arrepios, leucocitose com neutrofilia e função tiroideia normal (a De Quervain cursa com tirotoxicose), com coleção na ecografia; é infeção, trata-se com antibiótico e drenagem, não com AINE nem corticoide;
  • Indolor, pós-parto até 12 meses, anti-TPO positivostiroidite pós-parto; indolor fora do puerpério → tiroidite silenciosa;
  • Tiroglobulina baixa/indetetável, glândula não palpável, contexto de acesso a hormona (profissional de saúde, uso para emagrecer)tirotoxicose factícia. A tiroglobulina é o teste que fecha este diagnóstico: alta ou normal-alta nas tiroidites, baixa na ingestão exógena.
  • Contraste iodado ou amiodarona recentes → tirotoxicose induzida por iodo; nota que a sobrecarga de iodo suprime a captação e torna a cintigrafia pouco informativa neste contexto — a ecografia com Doppler é então mais útil (vascularização aumentada no tipo 1, ausente no tipo 2).

Contraindicações e cuidados

A cintigrafia e a captação de radioiodo estão contraindicadas na gravidez e na amamentação. Nestes casos usam-se TRAb e, se necessário, ecografia com Doppler.


Armadilhas analíticas que a PNA gosta de testar

Biotina. Suplementos de biotina em doses altas (usados para cabelo e unhas, ou na esclerose múltipla) interferem com os imunoensaios baseados no sistema estreptavidina-biotina. O padrão típico é uma TSH falsamente baixa com T4 livre e T3 falsamente elevadas e, por vezes, TRAb falsamente positivos — um Graves que não existe. A abordagem correta é suspender a biotina e repetir (alguns dias são suficientes, dada a semivida curta), ou repetir num ensaio com plataforma diferente. Perguntar sempre por suplementos numa tirotoxicose bioquímica sem clínica correspondente.

Anticorpos heterofílicos e anti-ratinho podem dar TSH falsamente elevada. Macro-TSH (TSH ligada a IgG) dá TSH muito elevada com T4 livre normal e doente assintomático.

Síndrome do doente eutiroideu (baixa T3). No doente crítico, séptico, em jejum prolongado ou pós-operatório, a ativação da D3 e a inibição da D1 produzem T3 baixa, rT3 alta, T4 normal ou baixa nos casos mais graves e TSH normal ou baixa. Na convalescença a TSH sobe transitoriamente. Não é doença tiroideia e não se trata — a alteração é adaptativa e o grau de queda da T4 correlaciona-se com a gravidade da doença de base, não com uma indicação terapêutica. A regra é simples: não pedir provas de função tiroideia no doente crítico salvo forte suspeita clínica.

Interferência farmacológica: glucocorticoides em dose alta, dopamina e análogos da somatostatina suprimem a TSH; a fenitoína, a carbamazepina, a rifampicina e o fenobarbital aceleram o metabolismo da T4; a heparina (incluindo a de baixo peso molecular) pode elevar falsamente a T4 livre em alguns métodos.

Interpretar TSH + T4 livre: os cinco padrões Passo 1: TSH isolada no ambulatório estável. Só se alterada se avança para a T4 livre. TSH T4 livre ↓ (baixa) T4 livre normal T4 livre ↑ (alta) TSH ↑ TSH normal TSH ↓ Hipotiroidismo PRIMÁRIO franco >99% dos casos. Hipotiroidismo SUBCLÍNICO Repetir a 6-12 semanas. TSH normal/↑ + T4L ↑ Padrão raro e discordante: tirotropinoma, resistência às hormonas, interferência (biotina). Repetir sem biotina. ! Hipotiroidismo CENTRAL A armadilha: a TSH não sobe apesar da T4L baixa. Avaliar restante eixo hipofisário + RM selar. DDx: doente eutiroideu. Eutiroideu Sem disfunção tiroideia. Tirotoxicose SUBCLÍNICA Pedir T3 (tirotox. T3). TIROTOXICOSE franca Hipertiroidismo ou tiroidite → ver abaixo. Regra de ouro: repetir sempre um padrão discordante antes de tratar (6-12 semanas). Tirotoxicose confirmada: a captação de radioiodo discrimina Captação ALTA — hiperfunção verdadeira Difusa e aumentada → doença de Graves Múltiplas áreas quentes → BMN tóxico Nódulo único quente → adenoma tóxico Também: Jod-Basedow (iodo/contraste) Responde a antitiroideus e a radioiodo Captação BAIXA ou ausente Tiroidites: subaguda, silenciosa, pós-parto, amiodarona tipo 2 — Tg normal ou alta Tirotoxicose factícia — Tg baixa Excesso de iodo ou contraste recente NÃO responde a antitiroideus nem radioiodo Alternativa sem radiação: TRAb positivos com quadro compatível confirmam Graves — obrigatório na gravidez e na amamentação, em que a cintigrafia está contraindicada.

Hipotiroidismo — levotiroxina bem feita

Escolha do fármaco

A levotiroxina (LT4) em monoterapia é o tratamento de referência (ATA 2014). Fundamento: semivida longa (cerca de 7 dias, permitindo toma única diária e níveis estáveis) e conversão fisiológica periférica em T3 pelas desiodases, respeitando a regulação tecidual.

Não usar de rotina: extratos tiroideus dessecados de origem animal (razão T3:T4 não fisiológica, potência variável), liotironina (T3) isolada, nem combinações LT4+LT3 fora de contextos muito selecionados e sob orientação de especialista. Em exame, a resposta é sempre levotiroxina.

Dose

Antes de iniciar levotiroxina, excluir insuficiência suprarrenal concomitante sempre que haja suspeita — não apenas no hipotiroidismo central, mas também no hipotiroidismo primário autoimune, pela associação com doença de Addison na síndrome poliglandular autoimune tipo 2. Sinais de alerta: hiperpigmentação, hipotensão ortostática, hipoglicemia, hipercaliémia, perda ponderal desproporcionada, avidez por sal — não os atribuas todos ao próprio hipotiroidismo. Nesses casos, dosear cortisol matinal ± ACTH e repor glucocorticoide antes da levotiroxina, porque a reposição tiroideia acelera o metabolismo do cortisol e pode precipitar uma crise adrenal.

SituaçãoDose inicial
Adulto jovem e saudável, hipotiroidismo francocerca de 1,6 µg/kg/dia de peso corporal (dose de substituição plena)
Idoso ou doença coronária conhecidaComeçar baixo e subir devagar (tipicamente 12,5-25 µg/dia), com incrementos a cada 4-6 semanas
Hipotiroidismo subclínicoDose baixa (habitualmente 25-75 µg/dia, conforme o grau de elevação da TSH)
Pós-tiroidectomia totalSubstituição plena desde o início

O fundamento do «baixo e devagar» no idoso e no coronário é fisiopatológico: a reposição rápida aumenta a frequência cardíaca, a contratilidade e o consumo miocárdico de oxigénio, podendo precipitar angina, arritmia ou enfarte.

Como tomar — a parte que dá perguntas

  • Em jejum, 30 a 60 minutos antes do pequeno-almoço, com água. Em alternativa aceitável, ao deitar, pelo menos 3 horas após a última refeição. O essencial é a consistência.
  • Separar pelo menos 4 horas de: cálcio, ferro, sais de magnésio, hidróxido de alumínio, sucralfato, colestiramina, sevelamer, multivitamínicos.
  • Reduzem a absorção: inibidores da bomba de protões (por aumento do pH gástrico), café tomado ao mesmo tempo, produtos de soja, dietas ricas em fibra. Malabsorção verdadeira: doença celíaca, gastrite atrófica autoimune, infeção por H. pylori, cirurgia bariátrica — considerar sempre estas causas perante necessidade crescente e inexplicada de dose.
  • Aumentam a necessidade de dose: estrogénios (↑TBG), gravidez, fenitoína, carbamazepina, fenobarbital, rifampicina (indutores), sertralina, inibidores da tirosina cinase.

A vinheta clássica: doente estável há anos que passa a ter TSH elevada — procura novo IBP, novo suplemento de ferro ou cálcio, início de contracetivo, gravidez, celíaca ou má adesão, antes de subires a dose às cegas.

Monitorização

  • Reavaliar a TSH 6 a 8 semanas após início ou ajuste de dose. Mais cedo é inútil: a TSH precisa deste tempo para reequilibrar, dada a semivida da LT4 e a inércia do eixo.
  • Alvo no hipotiroidismo primário: TSH dentro do intervalo de referência, tipicamente na metade inferior-média. No idoso muito idoso, aceita-se um alvo mais permissivo, próximo do limite superior.
  • Atingido o alvo: controlo aos 6 meses e depois anualmente.
  • No hipotiroidismo central a TSH é inútil para monitorizar — titula-se pela T4 livre, mantendo-a na metade superior do intervalo de referência. Esta é uma pergunta clássica.
  • Evitar sobretratamento (TSH suprimida): risco de fibrilhação auricular e perda de massa óssea, sobretudo na mulher pós-menopáusica e no idoso.

Quando tratar o hipotiroidismo subclínico

Esta decisão é das mais perguntadas do capítulo. A síntese defensável (ATA 2014, ETA 2013):

Tratar sempre:

  • TSH > 10 mU/L (mesmo assintomático) — maior risco de progressão para hipotiroidismo franco e de eventos cardiovasculares;
  • Gravidez ou mulher a tentar engravidar / em procriação medicamente assistida — com limiares próprios e após confirmação em segunda colheita, porque muitas elevações ligeiras normalizam espontaneamente (ver secção de situações especiais).

Considerar tratar quando a TSH está entre o limite superior do normal e 10 mU/L, ponderando:

  • Sintomas compatíveis (ensaio terapêutico de alguns meses, com reavaliação honesta — se não houver benefício, suspende-se);
  • Anti-TPO positivos (maior probabilidade de progressão) — critério válido fora da gravidez; na gravidez deixou de orientar a decisão de tratar;
  • Idade mais jovem (< 65-70 anos); bócio; dislipidemia ou risco cardiovascular elevado; insuficiência cardíaca.

Tendência a não tratar: doente idoso (particularmente acima dos 80 anos) e assintomático, em que uma TSH ligeiramente elevada pode ser adaptativa e o risco do sobretratamento supera o benefício esperado; e elevações ligeiras isoladas ainda não confirmadas em segunda colheita.

Mensagem transversal: confirmar sempre em segunda análise com 6-12 semanas de intervalo antes de assumir um diagnóstico e um tratamento vitalício.


Tirotoxicose — controlo sintomático imediato

Independentemente da causa, e enquanto se aguarda o diagnóstico etiológico:

  • Bloqueador β: propranolol (bloqueia também, em dose alta, a conversão periférica T4→T3), ou atenolol/metoprolol pela comodidade posológica. Controla taquicardia, tremor, ansiedade e sudorese.
  • Se broncospasmo ou asma grave: antagonista dos canais de cálcio não di-hidropiridínico (diltiazem, verapamilo) como alternativa.
  • Antes de rotular uma tiroide dolorosa como De Quervain, excluir tiroidite aguda supurativa — infeção bacteriana da glândula, mais frequente na criança (fístula do seio piriforme) e no imunodeprimido. Sugerem-na dor unilateral com eritema e calor cutâneo, flutuação, febre alta com arrepios, leucocitose com neutrofilia marcada e função tiroideia habitualmente normal (ao contrário da De Quervain, que cursa com tirotoxicose); a ecografia mostra coleção. O tratamento é antibioterapia e drenagem — o corticoide isolado agrava a infeção. Disfagia progressiva, estridor ou desvio traqueal obrigam a referenciação cirúrgica imediata.
  • Na tiroidite, o bloqueador β é o tratamento — associado a AINE para a dor da De Quervain, ou prednisolona em curso descendente se a dor for intensa ou refratária. Não se dão tionamidas.

Doença de Graves — três opções definitivas

1. Antitiroideus de síntese (tionamidas)

  • Metimazol/tiamazol é o preferido em praticamente todas as situações: semivida mais longa (toma única diária), início de ação mais rápido em dose equipotente e muito menor risco de hepatotoxicidade grave que o propiltiouracilo.
  • Propiltiouracilo (PTU) reserva-se para três situações: primeiro trimestre da gravidez, tempestade tiroideia (pelo bloqueio adicional da conversão periférica) e intolerância ao metimazol quando não se pretende terapêutica ablativa.
  • Duração no Graves: 12 a 18 meses, seguida de suspensão com monitorização. A remissão obtém-se em cerca de metade dos doentes; a recidiva é mais provável se bócio volumoso, tirotoxicose grave, TRAb persistentemente elevados no fim do tratamento, idade jovem e tabagismo.
  • Reavaliar T4 livre (não TSH) às 4-6 semanas iniciais, porque a TSH permanece suprimida durante semanas a meses.
  • Antes de iniciar: hemograma com leucograma e provas hepáticas basais.
  • Educação obrigatória do doente (ver Complicações): suspender o fármaco e fazer hemograma urgente se febre, odinofagia ou úlceras orais.

2. Radioiodo (I-131)

  • Ablativo, eficaz, ambulatório. O objetivo assumido é frequentemente o hipotiroidismo definitivo, que se repõe com levotiroxina.
  • Contraindicado na gravidez e na amamentação; excluir gravidez antes de administrar e evitar conceção durante alguns meses após.
  • Precaução na orbitopatia: o radioiodo pode agravar a orbitopatia de Graves, sobretudo em fumadores e em doença ativa. Em orbitopatia ativa moderada-grave, preferir outra modalidade; em orbitopatia ligeira ativa, se se optar por radioiodo, dá-se profilaxia com glucocorticoide oral. Cessação tabágica sempre.
  • Habitualmente pré-tratar com tionamida os doentes idosos ou com comorbilidade cardíaca, suspendendo-a poucos dias antes, para evitar a exacerbação transitória por libertação hormonal.
  • Não eficaz na tiroidite (a captação é baixa).

3. Cirurgia — tiroidectomia total

Indicações preferenciais:

  • Bócio volumoso com sintomas compressivos ou retrosternal;
  • Nódulo suspeito ou carcinoma concomitante;
  • Orbitopatia moderada-grave ativa;
  • Hiperparatiroidismo primário associado que também requeira cirurgia;
  • Recusa ou contraindicação ao radioiodo; necessidade de controlo rápido; gravidez com tirotoxicose não controlável ou intolerância a ambas as tionamidas (idealmente no 2.º trimestre).

Preparação: eutiroidismo com tionamida antes da cirurgia e, no Graves, iodeto de potássio nos 7-10 dias prévios para reduzir a vascularização glandular e o risco hemorrágico. Complicações a conhecer: hipoparatiroidismo com hipocalcémia, lesão do nervo laríngeo recorrente (disfonia) e do ramo externo do laríngeo superior, hematoma cervical compressivo, e hipotiroidismo definitivo obrigatório com necessidade de levotiroxina para toda a vida.


Bócio multinodular tóxico e adenoma tóxico

A diferença essencial em relação ao Graves: não há remissão espontânea nem induzida por tionamidas — a autonomia é estrutural (mutações somáticas), não imunitária. Por isso as tionamidas servem apenas para preparar o doente, e o tratamento é definitivo: radioiodo ou cirurgia.

  • Adenoma tóxico: o radioiodo é muito eficaz e, como o parênquima restante está suprimido (e portanto não capta), o risco de hipotiroidismo pós-tratamento é menor do que no Graves. Alternativa: lobectomia.
  • Bócio multinodular tóxico: radioiodo (podem ser necessárias doses mais altas ou repetidas) ou tiroidectomia total se bócio grande, compressivo ou com suspeita de malignidade.

Tratamento por etiologia — quadro de decisão

EtiologiaTratamento corretoErro a evitar
GravesTionamida 12-18 meses, ou radioiodo, ou cirurgiaEsquecer o bloqueador β inicial e a cessação tabágica
Adenoma / BMN tóxicoRadioiodo ou cirurgia (definitivo)Esperar remissão com tionamida isolada
Tiroidite subaguda (De Quervain)AINE ± prednisolona; bloqueador βDar tionamida ou radioiodo
Tiroidite silenciosa / pós-partoBloqueador β na fase tóxica; LT4 se hipotiroidismo sintomático na 2.ª faseTratar como Graves
FactíciaSuspender a hormona; apoioInvestigação ablativa desnecessária
Amiodarona tipo 1Tionamida (± perclorato)Corticoide isolado
Amiodarona tipo 2GlucocorticoideTionamida isolada
Tirotoxicose subclínicaTratar se TSH < 0,1 mU/L com idade ≥ 65 anos, doença cardíaca, FA, osteoporose ou pós-menopausa sem terapêutica de reposição; vigiar nos restantesIgnorar por «só ser subclínica» num idoso com FA

Fibrilhação auricular na tirotoxicose

Controlo de frequência com bloqueador β (podem ser necessárias doses altas pelo aumento da depuração), tratamento da causa e ponderação de anticoagulação segundo o risco tromboembólico avaliado pelas escalas habituais — a tirotoxicose por si não é um item das escalas, mas confere risco acrescido e o juízo clínico é individual. Uma proporção importante reverte espontaneamente a ritmo sinusal nas semanas a meses após o eutiroidismo, pelo que a cardioversão eletiva se adia habitualmente até à normalização da função tiroideia.

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