Distúrbios da glândula tiroideia
Atualizado em 27 de setembro de 2026 · 33 perguntas neste tema
A tiroide adoece de três maneiras: produz hormona a mais, produz a menos, ou forma nódulos. As duas primeiras leem-se quase sempre num par de valores, a TSH e a T4 livre, porque a hipófise amplifica qualquer desvio da hormona periférica: TSH alta com T4 livre baixa é hipotiroidismo primário, TSH suprimida com hormonas altas é tirotoxicose. O padrão que engana é o central, com T4 livre baixa e uma TSH que não sobe.
O hipotiroidismo é frequente na mulher e com a idade. Onde há iodo suficiente, a causa habitual é a tiroidite de Hashimoto, com anticorpos anti-tiroperoxidase em mais de 95%. Instala-se devagar, com cansaço, intolerância ao frio, obstipação, pele seca e ganho de peso modesto, e trata-se com levotiroxina ajustada pela TSH. No idoso e no coronário começa-se com doses baixas; no central ajusta-se pela T4 livre e dá-se glucocorticoide antes da levotiroxina se a suprarrenal estiver em dúvida. O subclínico só se trata com certeza quando a TSH passa de 10 mU/L.
Tirotoxicose é hormona a mais; hipertiroidismo é a glândula a produzi-la. A doença de Graves explica a maioria dos casos, com bócio difuso, orbitopatia e anticorpos anti-recetor da TSH; o bócio multinodular tóxico é a causa do idoso e o adenoma tóxico é um nódulo que funciona sozinho. As tiroidites libertam hormona já feita, com captação baixa, e não respondem a antitiroideus. Na Graves começa-se por metimazol durante 12 a 18 meses; o radioiodo e a cirurgia ficam para a recidiva, para o nódulo tóxico e para situações escolhidas. O radioiodo só leva corticoide profilático quando há orbitopatia ativa ou fatores de risco para ela.
Os nódulos existem em muitos adultos e poucos são malignos. Pede-se primeiro a TSH: se estiver baixa, a cintigrafia mostra um nódulo quente, benigno. Se não, a ecografia classifica o risco e decide a punção, e a citologia decide a cirurgia. O carcinoma papilar é o mais frequente e tem excelente prognóstico; o medular obriga a pesquisar o RET e o anaplásico mata em meses.
Na gravidez a TSH desce no primeiro trimestre e as hormonas totais sobem sem doença. Quem toma levotiroxina aumenta a dose logo com o teste positivo, a Graves trata-se com propiltiouracilo até às 16 semanas na dose mínima, a cintigrafia e o radioiodo estão contraindicados, e os anticorpos anti-recetor da TSH atravessam a placenta.
Há duas emergências. Na tempestade tiroideia dá-se bloqueador beta, propiltiouracilo, iodo pelo menos uma hora depois da tionamida e hidrocortisona. No coma mixedematoso dá-se levotiroxina endovenosa, hidrocortisona desde o início e suporte ventilatório. E sob antitiroideu, febre ou dor de garganta são agranulocitose até o hemograma dizer o contrário.
Tirotoxicose é o estado de excesso de hormona tiroideia, qualquer que seja a origem. Hipertiroidismo é a tirotoxicose causada por produção excessiva da própria glândula. A distinção decide o tratamento: só a hiperprodução responde a antitiroideus e a radioiodo.
Causas
| mecanismo | causas | captação na tiroide |
|---|---|---|
| Hiperprodução autónoma ou autoimune | doença de Graves; bócio multinodular tóxico; adenoma tóxico | alta |
| Hiperprodução pela carga de iodo | efeito Jod-Basedow num bócio com autonomia ou numa Graves latente; amiodarona tipo 1 | baixa ou normal, porque o iodo dilui o marcador |
| Destruição da glândula | tiroidite subaguda, silenciosa e pós-parto; amiodarona tipo 2; interferão alfa, interleucina 2, inibidores da tirosina cinase | baixa |
| Hormona exógena | levotiroxina em excesso, iatrogénica ou factícia | baixa |
| Tecido tiroideu fora da tiroide | struma ovarii; metástases funcionantes de carcinoma folicular | baixa na tiroide |
| Estímulo do recetor da TSH | tirotropinoma, com TSH não suprimida; tirotoxicose gestacional e tumores produtores de gonadotrofina coriónica | alta |
Epidemiologia
- A doença de Graves explica 60 a 80% das tirotoxicoses. Atinge até 2% das mulheres e é dez vezes menos frequente no homem; começa tipicamente entre os 20 e os 50 anos, mas também surge no idoso.
- O bócio multinodular tóxico é a causa típica do idoso com bócio antigo, e é mais frequente nas regiões com carência ligeira de iodo.
- A tiroidite subaguda tem o pico entre os 30 e os 50 anos e é três vezes mais frequente na mulher.
- Tirotoxicose subclínica: TSH persistentemente abaixo do intervalo de referência com T4 livre e T3 normais. Grau 1 com TSH entre 0,1 e 0,39 mU/L; grau 2 com TSH abaixo de 0,1 mU/L.
Síntese e controlo da hormona
- O simportador de sódio e iodeto capta o iodo; a tiroperoxidase oxida-o, organifica-o na tiroglobulina e acopla as iodotirosinas em T4 e T3.
- A T4 é sobretudo um precursor. As desiodases tipo 1 (tiroide, fígado, rim) e tipo 2 (hipófise, cérebro, gordura castanha) convertem-na em T3, a forma ativa. A tipo 3 inativa a T4 e a T3 e é a principal fonte de T3 reverso; existe na placenta e ativa-se no doente grave.
- Inibem a conversão periférica de T4 em T3: propiltiouracilo, propranolol em dose alta, glucocorticoides, amiodarona e contrastes orais.
Os fármacos antitiroideus e o iodo
- As tionamidas (metimazol, o seu precursor carbimazol, e propiltiouracilo) inibem a tiroperoxidase: travam a síntese mas não a libertação da hormona já armazenada. O propiltiouracilo inibe também a conversão de T4 em T3, com ganho que só conta na tirotoxicose muito grave; a sua semivida é de 90 minutos, contra 6 horas do metimazol.
- O iodeto em dose farmacológica bloqueia a libertação de hormona e inibe transitoriamente a síntese (efeito Wolff-Chaikoff). A glândula normal escapa a este bloqueio; a que tem tiroidite autoimune não escapa e fica hipotiroideia.
- Numa glândula com áreas autónomas o iodo é substrato: é o efeito Jod-Basedow. Por isso, na tempestade tiroideia, o iodeto só se dá depois da tionamida.
Doença de Graves
- Doença autoimune em que anticorpos estimuladores do recetor da TSH fazem crescer a glândula e produzir hormona sem controlo. Coexistem anticorpos anti-tiroperoxidase e anti-tiroglobulina em até 80%.
- Suscetibilidade genética (HLA-DR, CTLA-4 e outros genes imunorreguladores, e o próprio gene do recetor): concordância de 20 a 30% em gémeos monozigóticos contra menos de 5% nos dizigóticos.
- Fatores ambientais: stress, subida brusca da ingestão de iodo, período pós-parto (risco três vezes maior) e fase de reconstituição imune sob antirretrovirais ou alemtuzumab. O tabaco é fator de risco menor para a Graves e maior para a orbitopatia.
- Orbitopatia: linfócitos T infiltram os músculos extraoculares e as citocinas ativam os fibroblastos, que produzem glicosaminoglicanos que retêm água. O recetor da TSH, expresso na órbita, parece ser o antigénio partilhado. O aumento dos músculos e da gordura sobe a pressão intraorbitária e dá proptose, diplopia e, no extremo, compressão do nervo ótico. Tardiamente os músculos fibrosam.
Nódulos autónomos
- Adenoma tóxico: mutações somáticas ativadoras do recetor da TSH, ou menos vezes da subunidade Gs, em mais de 90%. O nódulo funciona sozinho e o resto da glândula fica suprimido. É quase sempre benigno.
- Bócio multinodular tóxico: autonomia funcional num bócio de longa data; as mutações do adenoma raramente se encontram.
Tiroidites
- A destruição dos folículos liberta tiroglobulina e hormona pré-formada: tirotoxicose com captação baixa. Esgotada a reserva, segue-se uma fase de hipotiroidismo e depois a recuperação. É o curso trifásico, que dura cerca de seis meses na subaguda.
- A subaguda é granulomatosa e atribuída a vírus (papeira, coxsackie, influenza, adenovírus, ecovírus). A silenciosa, incluindo a pós-parto, assenta em autoimunidade prévia.
- A aguda supurativa é bacteriana ou fúngica; na criança e no adulto jovem a porta de entrada típica é uma fístula do seio piriforme, quase sempre à esquerda.
Amiodarona
- Tem cerca de 39% de iodo em peso, acumula-se na gordura e mantém o iodo alto mais de seis meses depois de suspensa. Também inibe as desiodases.
- Tipo 1: efeito Jod-Basedow sobre um bócio nodular ou uma Graves latente.
- Tipo 2: tiroidite destrutiva numa glândula previamente normal; o risco sobe com a dose acumulada.
De onde vêm os sintomas
- Aumento da sensibilidade adrenérgica (taquicardia, tremor, ansiedade), aumento do metabolismo (perda de peso com apetite mantido, intolerância ao calor) e aumento da reabsorção óssea, com hipercalciúria e hipercalcemia ligeira em até 20%.
Comum a todas as tirotoxicoses
| sintomas | sinais |
|---|---|
| hiperatividade, irritabilidade, insónia | taquicardia; fibrilhação auricular no idoso |
| intolerância ao calor, sudação | tremor fino |
| palpitações | bócio |
| cansaço e fraqueza | pele quente e húmida, onicólise |
| perda de peso com apetite aumentado | fraqueza muscular proximal, hiperreflexia |
| diarreia, poliúria | retração palpebral e atraso palpebral |
| oligomenorreia, perda da líbido | ginecomastia |
- Cerca de 5% aumentam de peso, porque comem mais.
- A manifestação cardiovascular mais frequente é a taquicardia sinusal. O débito alto dá pulso amplo e pressão diferencial alargada, e agrava angina ou insuficiência cardíaca em quem já tem doença cardíaca. A fibrilhação auricular é mais frequente acima dos 50 anos.
- Alopecia difusa em até 40%, que persiste meses depois do eutiroidismo.
- Paralisia periódica hipocaliémica: sobretudo em homens asiáticos, mas ocorre noutras etnias.
- A retração palpebral e o olhar fixo aparecem em qualquer tirotoxicose, por hiperatividade simpática. A orbitopatia verdadeira é própria da Graves.
Próprio da doença de Graves
- Bócio difuso, duas a três vezes o tamanho normal, firme, por vezes com frémito ou sopro nos polos inferiores.
- Orbitopatia: surge no ano anterior ou seguinte ao diagnóstico em 75%, e em 10% ocorre sem hipertiroidismo. Começa por sensação de areia, desconforto e lacrimejo. Proptose em cerca de um terço, unilateral em até 10%, edema periorbitário, hiperemia e quemose; diplopia em 5 a 10%, tipicamente a olhar para cima e para fora. A compressão do nervo ótico no vértice da órbita dá edema papilar, defeitos de campo e, sem tratamento, perda definitiva da visão.
- Dermopatia (mixedema pré-tibial) em menos de 5%, quase sempre com orbitopatia moderada a grave: placa endurecida, rosada ou violácea, em casca de laranja. Acropaquia em menos de 1%.
Próprio das outras causas
- Bócio multinodular tóxico: idoso, bócio nodular, fibrilhação auricular, palpitações ou perda de peso; a T3 sobe mais do que a T4. Uma carga de iodo (contraste) pode desencadeá-lo.
- Adenoma tóxico: nódulo palpável, em regra acima de 3 cm quando dá tirotoxicose, sem sinais de Graves.
- Tiroidite subaguda: dor cervical intensa que irradia para a mandíbula ou o ouvido, glândula pequena e muito dolorosa, febre, precedidas semanas antes por infeção respiratória alta. Confunde-se com faringite.
- Tiroidite silenciosa: bócio pequeno e indolor, sem sinais inflamatórios.
- Tiroidite aguda supurativa: dor, febre, disfagia, eritema sobre a tiroide, bócio doloroso e assimétrico, adenopatias.
- Tiroidite de Riedel: bócio pétreo, indolor, fixo, que comprime esófago, traqueia, veias do pescoço ou nervos laríngeos recorrentes; associa-se à doença relacionada com IgG4.
Laboratório
- A TSH é o teste inicial. Se estiver baixa, doseiam-se a T4 livre e a T3.
- Na Graves a TSH está suprimida e as hormonas altas. Em 2 a 5% sobe só a T3 (tirotoxicose por T3), sobretudo onde o iodo é escasso. O inverso, só a T4 alta, vê-se na tirotoxicose induzida pelo iodo.
- Achados acessórios que confundem: bilirrubina, transaminases e ferritina altas, anemia microcítica, trombocitopenia, hipercalcemia ligeira.
- Antes de iniciar antitiroideu: hemograma com fórmula leucocitária e perfil hepático de base.
Encontrar a causa
- Anticorpos anti-recetor da TSH: sensíveis e específicos, fazem o diagnóstico de Graves e dispensam a cintigrafia. Tirotoxicose com orbitopatia e bócio difuso é Graves sem mais exames.
- Cintigrafia e captação (tecnécio 99m ou iodo 123) quando a causa não é evidente: captação difusa e alta na Graves, vários focos no bócio multinodular, nódulo único com o resto suprimido no adenoma, captação baixa na tiroidite, na hormona exógena e na carga de iodo. Na subaguda a captação é inferior a 5%.
- Ecografia com Doppler: fluxo aumentado na hiperfunção e reduzido na tiroidite destrutiva. Antes de tratamento definitivo de um bócio nodular, a ecografia procura nódulos frios que possam precisar de punção.
- Tiroglobulina: baixa na hormona exógena, alta na tiroidite.
- Na tiroidite a razão entre T4 e T3 é maior do que na Graves ou na autonomia, em que a T3 sobe desproporcionadamente.
- Subaguda: velocidade de sedimentação alta, leucocitose possível, anticorpos negativos. Silenciosa: velocidade de sedimentação normal e anti-tiroperoxidase positivos. Supurativa: função normal, velocidade de sedimentação e leucócitos altos; a punção mostra polimorfonucleares e o exame cultural identifica o agente.
- Amiodarona: a captação é pouco útil, porque o iodo a suprime; o Doppler com vascularização aumentada favorece o tipo 1 e a ausente favorece o tipo 2. Os anticorpos costumam estar presentes no tipo 1 com Graves e ausentes no tipo 2.
- Tiroidite de Riedel: a punção costuma ser insuficiente e o diagnóstico exige biópsia cirúrgica.
Padrões que não fecham
- Hormonas altas com TSH normal ou alta: tirotropinoma (bócio difuso, subunidade alfa alta, tumor na ressonância hipofisária), resistência às hormonas tiroideias, ou interferência analítica.
- Biotina em dose alta: nos imunoensaios com estreptavidina e biotina dá TSH falsamente baixa e T4 e T3 falsamente altas. Suspende-se e repete-se pelo menos dois dias depois.
- Anticorpos heterófilos: TSH falsamente alta; repete-se noutro método ou em diluições seriadas.
- Doente grave: a TSH pode descer abaixo de 0,1 mU/L, sobretudo sob dopamina ou glucocorticoides. Não se pede a função tiroideia ao doente agudo sem suspeita forte.
Diagnóstico diferencial clínico
- Ataques de pânico, mania, feocromocitoma, perda de peso de causa neoplásica. TSH e hormonas livres normais excluem a tirotoxicose; TSH normal exclui a Graves como causa de um bócio difuso.
Controlo dos sintomas
- Bloqueador beta em todos os que o toleram: propranolol 20 a 40 mg de 6 em 6 horas, ou um cardiosseletivo de ação longa como o atenolol. Controla os sintomas enquanto o antitiroideu não atua e trata a paralisia periódica até se corrigir a tirotoxicose.
- Fibrilhação auricular: pondera-se a anticoagulação, e muitas vezes reverte a ritmo sinusal com o controlo da tirotoxicose, o que acontece em cerca de metade dos doentes. Na tirotoxicose precisa-se de menos varfarina e de mais digoxina.
Doença de Graves
Há três opções, e na Europa o antitiroideu é a primeira linha no diagnóstico de novo.
| opção | como | a favor | contra |
|---|---|---|---|
| Metimazol | 12 a 18 meses | pode curar; não destrói a glândula | remissão em 40 a 50%; recidiva frequente |
| Radioiodo | dose única, repetível | definitivo, sem cirurgia | hipotiroidismo quase certo; pode agravar a orbitopatia; contraindicado na gravidez e na amamentação |
| Tiroidectomia total ou quase total | cirurgião com volume elevado | rápida; resolve o bócio | lesão do recorrente, hipoparatiroidismo, hipotiroidismo certo |
Antitiroideu
- Metimazol em todos os que escolhem antitiroideu, exceto no primeiro trimestre da gravidez, na tempestade tiroideia e nas reações menores ao metimazol em quem recusa radioiodo ou cirurgia, situações em que se usa propiltiouracilo.
- Dose inicial de metimazol de 10 a 30 mg numa toma diária, conforme a gravidade; manutenção de 2,5 a 10 mg. Reavalia-se às 4 a 6 semanas e ajusta-se pela T4 livre, porque a TSH fica suprimida durante meses.
- Mantém-se 12 a 18 meses e suspende-se se a TSH e os anticorpos anti-recetor da TSH estiverem normais. Os anticorpos doseiam-se antes de parar.
- Recidivam mais os mais novos, os homens, os fumadores, e os que têm anticorpos ou T4 livre muito altos ou bócio grande. Seguem-se de perto no primeiro ano depois de parar e depois pelo menos uma vez por ano.
- Com anticorpos persistentemente altos aos 12 a 18 meses: continuar o metimazol e repetir os anticorpos 12 meses depois, ou passar a tratamento definitivo. Quem não remite e prefere pode manter metimazol em dose baixa a longo prazo.
- Instruções escritas: febre, odinofagia, aftas ou icterícia obrigam a parar o fármaco e a fazer hemograma e perfil hepático no próprio dia. A contagem periódica de leucócitos não é recomendada por rotina, porque a agranulocitose é súbita.
- Reações cutâneas menores tratam-se com anti-histamínico sem suspender. Depois de uma reação grave não se prescreve a outra tionamida.
Radioiodo
- Suspende-se o metimazol 2 a 3 dias antes; pode retomar-se 3 a 7 dias depois em quem tem risco de agravamento. No idoso e no cardíaco prepara-se antes com antitiroideu e bloqueador beta.
- O efeito completo demora 2 a 3 meses; se o hipertiroidismo persistir aos 6 meses, repete-se a dose. Na prática procura-se a ablação: o hipotiroidismo é o resultado esperado e trata-se com levotiroxina.
- Contraindicado na gravidez e na amamentação; a gravidez adia-se pelo menos 6 meses.
- Evita-se na orbitopatia ativa moderada a grave, que prefere cirurgia ou antitiroideu.
- Doses de prednisona na profilaxia: 0,3 a 0,5 mg/kg por dia, retirada em 3 meses, no risco alto; 0,1 a 0,2 mg/kg por dia, retirada em 6 semanas, no risco baixo.
Cirurgia
- Tiroidectomia total ou quase total. Antes: eutiroidismo com metimazol, iodeto de potássio durante 10 dias para reduzir a vascularização e o risco de tempestade, e correção do défice de vitamina D. O antitiroideu para no dia da cirurgia e o bloqueador beta retira-se gradualmente.
- Depois: levotiroxina 1,6 µg/kg por dia, menos no idoso, com TSH às 6 a 8 semanas; cálcio e paratormona para detetar hipoparatiroidismo.
- Prefere-se quando há bócio grande ou compressivo, nódulo suspeito, orbitopatia ativa moderada a grave, ou desejo de gravidez a curto prazo.
Bócio multinodular tóxico e adenoma tóxico
- Não remitem: o antitiroideu controla mas não cura.
- O radioiodo é em regra o tratamento de escolha; o hipotiroidismo é menos frequente do que na Graves (menos de 10% em 5 anos no adenoma), porque o tecido normal está suprimido e não capta.
- Cirurgia: tiroidectomia total ou quase total no bócio multinodular; lobectomia ipsilateral no adenoma. Prepara-se com metimazol até ao eutiroidismo, sem iodeto, que aqui alimentaria a síntese.
- Metimazol a longo prazo no idoso ou doente com esperança de vida limitada, ou em quem o prefere. Ablação por radiofrequência ou etanol em casos selecionados.
Tiroidites
- Subaguda: bloqueador beta e anti-inflamatório não esteroide. Se não responder em poucos dias ou se a dor for moderada a grave, prednisona 40 mg por dia durante 1 a 2 semanas, com redução ao longo de 2 a 4 semanas ou mais. Levotiroxina em dose baixa se a fase hipotiroideia for prolongada.
- Silenciosa: bloqueador beta; corticoide só em casos graves. Levotiroxina na fase hipotiroideia, a retirar ao fim de 6 a 9 meses.
- Aguda supurativa: antibiótico orientado pelo Gram e pelo exame cultural do aspirado, e drenagem cirúrgica se houver abcesso.
- Riedel: cirurgia para aliviar a compressão; o tamoxifeno pode ajudar.
Amiodarona
- Tipo 1: metimazol em dose alta (40 mg por dia até ao eutiroidismo, que leva em regra 3 a 6 meses); perclorato de potássio acrescenta-se raramente.
- Tipo 2: prednisona 40 mg por dia durante 2 a 4 semanas, com redução em 2 a 3 meses.
- Formas mistas, incertas ou graves: metimazol e corticoide juntos. Sem resposta ao tratamento médico: tiroidectomia.
- Suspender ou não a amiodarona decide-se com a cardiologia; suspendê-la não tem efeito rápido, porque se acumula nos tecidos.
Tirotoxicose subclínica
- TSH persistentemente abaixo de 0,1 mU/L: trata-se a partir dos 65 anos, na doença cardíaca ou com fatores de risco cardiovascular, na osteoporose, na mulher pós-menopáusica sem estrogénios nem bisfosfonatos, e quando há sintomas. Considera-se nos restantes.
- TSH entre 0,1 mU/L e o limite inferior: considera-se a partir dos 65 anos, na doença cardíaca, na osteoporose e com sintomas. Abaixo dos 65 anos e sem estas condições, vigia-se.
- Quem não trata repete TSH, T4 livre e T3 cada 6 a 12 meses. O tratamento segue a causa: antitiroideu na Graves, radioiodo ou cirurgia no nódulo autónomo.
Da doença
- Sem tratamento a doença agrava-se; antes das terapêuticas atuais a mortalidade da Graves era de 10 a 30%.
- Fibrilhação auricular, insuficiência cardíaca de débito alto no idoso ou no cardíaco, e osteoporose com aumento ligeiro do risco de fratura, também na tirotoxicose subclínica.
- Cerca de 15% dos que entram em remissão ficam hipotiroideus 10 a 15 anos depois, pela destruição autoimune.
Orbitopatia
- Agrava nos primeiros 3 a 6 meses, estabiliza nos 12 a 18 meses seguintes e melhora parcialmente, sobretudo nos tecidos moles. Em até 5% o curso é fulminante.
- O radioiodo agrava-a numa pequena proporção, sobretudo em fumadores; o antitiroideu e a cirurgia não a alteram.
| gravidade | tratamento |
|---|---|
| Todas | eutiroidismo mantido, deixar de fumar (também o tabagismo passivo), lágrimas artificiais, óculos escuros, cabeceira elevada |
| Ligeira e ativa | selénio durante 6 meses (selenito de sódio 200 µg por dia) |
| Moderada a grave e ativa | metilprednisolona endovenosa, 4,5 g em 12 semanas (0,5 g semanal durante 6 semanas e 0,25 g semanal durante 6 semanas), com micofenolato durante 24 semanas |
| Segunda linha | novo ciclo de metilprednisolona, prednisona oral com ciclosporina ou azatioprina, radioterapia orbitária, rituximab, tocilizumab, teprotumumab |
| Neuropatia ótica | metilprednisolona 0,5 a 1 g em três dias seguidos ou, de preferência, em dias alternados; descompressão orbitária urgente se não responder em 1 a 2 semanas |
- Estabilizada a doença, a cirurgia corrige a diplopia e o aspeto.
Dos antitiroideus
- Efeitos menores (erupção, urticária, febre, artralgias) em 1 a 5%.
- Agranulocitose em 0,1 a 1%, em regra nos primeiros 3 meses. Para-se o fármaco e não se volta a dar nenhuma tionamida.
- Hepatotoxicidade: necrose hepatocelular com o propiltiouracilo, que pode ser fulminante e é a razão de se evitar fora das suas indicações; colestase com o metimazol.
- Vasculite com anticorpos anti-citoplasma dos neutrófilos (ANCA), sobretudo com o propiltiouracilo, com poliartrite, púrpura e por vezes hemorragia alveolar; pode surgir após meses ou anos.
Dos tratamentos definitivos
- Hipotiroidismo depois do radioiodo: pelo menos 10 a 20% no primeiro ano e depois 5% por ano; é o resultado pretendido, e obriga a TSH anual.
- Raramente, tiroidite rádica dolorosa 1 a 2 semanas depois do radioiodo.
- O risco global de cancro depois do radioiodo no adulto não aumenta.
Idoso e doente com cardiopatia
- Apresentação apática, com fibrilhação auricular e insuficiência cardíaca; a causa é mais vezes o bócio multinodular tóxico.
- Prepara-se com antitiroideu e bloqueador beta antes do radioiodo, pelo pequeno risco de tempestade depois da dose.
- A tirotoxicose subclínica merece tratamento a partir dos 65 anos com TSH abaixo de 0,1 mU/L.
Carga de iodo
- O contraste iodado pode desencadear tirotoxicose num bócio nodular com autonomia; não se dá antitiroideu profilático por rotina a todos os que fazem contraste.
- A tirotoxicose induzida pelo iodo trata-se com bloqueador beta, isolado ou com metimazol (20 a 40 mg por dia).
Amiodarona
- Função tiroideia antes de começar, nos primeiros 3 meses e depois de 3 em 3 a 6 em 6 meses.
- A tirotoxicose é mais frequente onde o iodo é escasso (cerca de 10%) do que onde é abundante (cerca de 2%).
Imunoterapia e outros fármacos
- Interferão alfa: disfunção tiroideia em até 5%, sob a forma de tiroidite indolor, hipotiroidismo ou Graves, sobretudo em mulheres com anti-tiroperoxidase prévios. Interleucina 2, inibidores da tirosina cinase e inibidores de checkpoint dão tiroidite indolor; o alemtuzumab dá Graves na reconstituição imune.
| termo | TSH | T4 livre | onde está a falha |
|---|---|---|---|
| Hipotiroidismo primário | alta | baixa | tiroide |
| Hipotiroidismo subclínico | alta | normal | tiroide, compensada pela TSH |
| Hipotiroidismo central | baixa, normal ou ligeiramente alta | baixa | hipófise ou hipotálamo |
- O hipotiroidismo subclínico divide-se em ligeiro (TSH entre 4,0 e 10,0 mU/L) e grave (TSH acima de 10 mU/L). Os sintomas tornam-se mais evidentes quando a TSH passa de 10 mU/L.
Epidemiologia
- A carência de iodo continua a ser uma causa comum no mundo. Com iodo suficiente, predominam a tiroidite de Hashimoto e as causas iatrogénicas.
- Incidência anual do hipotiroidismo autoimune de até 4 por 1000 mulheres e 1 por 1000 homens; idade média ao diagnóstico de 60 anos.
- Hipotiroidismo subclínico em 6 a 8% das mulheres (10% acima dos 60 anos) e 3% dos homens. Com anti-tiroperoxidase positivos, cerca de 4% por ano progridem para hipotiroidismo franco.
Causas
| grupo | causas |
|---|---|
| Autoimune | tiroidite de Hashimoto (com bócio) e tiroidite atrófica |
| Iatrogénico | radioiodo, tiroidectomia, radioterapia cervical |
| Fármacos | amiodarona (até 13% onde o iodo é abundante), outras cargas de iodo e contrastes, lítio, antitiroideus, interferão alfa, inibidores da tirosina cinase, inibidores de checkpoint |
| Carência de iodo | endémica, com bócio |
| Infiltração | amiloidose, sarcoidose, hemocromatose, esclerodermia, tiroidite de Riedel |
| Transitório | tiroidite silenciosa e pós-parto, subaguda; primeiros meses depois do radioiodo |
| Central | tumores hipofisários, cirurgia ou radioterapia da hipófise, síndrome de Sheehan, hipofisite (incluindo a dos inibidores de CTLA-4), bexaroteno |
- O hipotiroidismo congénito afeta cerca de 1 em 2000 a 3000 recém-nascidos e deteta-se no rastreio neonatal.
Tiroidite de Hashimoto
- Infiltração linfocítica da tiroide com centros germinativos, atrofia folicular com metaplasia oxifílica e fibrose. A destruição é mediada sobretudo por linfócitos T CD8 citotóxicos, e as citocinas locais tornam as células mais suscetíveis à apoptose.
- Os anticorpos anti-tiroperoxidase e anti-tiroglobulina são marcadores, com papel patogénico secundário: a sua passagem pela placenta não afeta a tiroide fetal.
- Até 20% têm anticorpos que bloqueiam o recetor da TSH, que dão hipotiroidismo e atrofia; a sua passagem transplacentária pode dar hipotiroidismo neonatal transitório. Raramente coexistem anticorpos estimuladores e bloqueadores e a função oscila.
- A forma atrófica é, em regra, a fase final da Hashimoto.
- Suscetibilidade: HLA-DR3, DR4 e DR5, e polimorfismos do CTLA-4, partilhados com outras doenças autoimunes. Associações com diabetes tipo 1, doença de Addison, anemia perniciosa, vitiligo e doença celíaca; mais frequente nas síndromes de Turner e de Down. A ingestão alta de iodo e baixa de selénio aumentam o risco.
Fases do processo
- A destruição é gradual: primeiro a TSH sobe e mantém a T4 livre normal (subclínico); depois a T4 livre desce (franco).
- Na hipotiroidia a desiodase tipo 2 é induzida e converte mais T4 em T3, e por isso a T3 está normal em cerca de 25%. Não serve para o diagnóstico.
Hipotiroidismo central
- Surge quase sempre com outras deficiências hipofisárias. A TSH pode estar baixa, normal ou até ligeiramente alta, porque a hipófise lesada segrega TSH imunorreativa mas biologicamente inativa.
De onde vêm os sintomas
- Mixedema: glicosaminoglicanos acumulam-se na derme e retêm água, e a pele espessa sem deixar godé.
- Pele pálida e amarelada pela acumulação de caroteno; sudação reduzida.
- Coração: contratilidade e frequência baixas, débito baixo e resistência periférica alta, com hipertensão sobretudo diastólica.
- Prolactina muitas vezes ligeiramente alta, com alterações da líbido e galactorreia.
- Lípidos: colesterol e triglicéridos altos; creatina cinase alta; anemia normocítica ou macrocítica.
- Acumulação de líquido nas cordas vocais e na língua, com rouquidão, e no ouvido médio, com hipoacusia de condução.
| sintomas | sinais |
|---|---|
| cansaço, fraqueza | pele seca e áspera, extremidades frias |
| pele seca | face, mãos e pés edemaciados (mixedema) |
| intolerância ao frio | alopecia difusa |
| queda de cabelo | bradicardia |
| dificuldade de concentração e de memória | edema periférico |
| obstipação | relaxamento lento dos reflexos |
| aumento de peso com apetite reduzido | síndrome do túnel cárpico |
| dispneia, rouquidão | derrames das serosas |
| menorragia, depois oligomenorreia ou amenorreia | |
| parestesias, hipoacusia |
- Instala-se de forma insidiosa; muitos só reconhecem os sintomas quando voltam ao eutiroidismo.
- O aumento de peso é modesto e deve-se sobretudo à retenção de líquido.
- A Hashimoto pode apresentar-se por bócio firme e irregular, e raramente é dolorosa.
- Rarefação do terço externo das sobrancelhas, pouco específica.
- Fertilidade reduzida e mais abortos; hiperprolactinemia com galactorreia.
- Derrame pericárdico em até 30%, raramente com repercussão. A dispneia pode vir de derrame pleural, fraqueza dos músculos respiratórios, menor estímulo ventilatório ou apneia do sono.
- Rigidez, cãibras e dores musculares, pseudomiotonia; raramente ataxia cerebelosa reversível, demência ou psicose.
- Podem coexistir sinais de outras doenças autoimunes (vitiligo, anemia perniciosa, Addison, alopecia areata, diabetes tipo 1).
Laboratório
- TSH normal exclui hipotiroidismo primário, mas não o central.
- TSH alta: doseia-se a T4 livre para separar o franco do subclínico. A T4 livre isolada é pior como rastreio, porque não deteta o subclínico. A T3 não se pede.
- Confirmado o hipotiroidismo, os anticorpos anti-tiroperoxidase e anti-tiroglobulina estabelecem a causa autoimune, presentes em mais de 95% dos casos. Os anticorpos contra o recetor da TSH não são necessários por rotina.
- Achados associados: creatina cinase, colesterol e triglicéridos altos, anemia normocítica ou macrocítica, que regridem com a levotiroxina salvo se houver ferropenia.
Hipotiroidismo subclínico
- Uma TSH alta com T4 livre normal repete-se com T4 livre e anti-tiroperoxidase, de preferência 2 a 3 meses depois, porque muitas normalizam sozinhas.
- Quem tem anti-tiroperoxidase positivos, ou ecografia hipoecogénica ou heterogénea, deve ter a TSH doseada.
Hipotiroidismo central
- Suspeita-se com T4 livre baixa e TSH inapropriadamente normal ou baixa, ou com outros sinais de doença hipofisária.
- Avalia-se todo o eixo hipofisário, sobretudo o cortisol, e faz-se ressonância da sela turca.
Armadilhas
- Doença não tiroideia (doente agudo ou grave): o padrão mais frequente é T3 baixa com T4 e TSH normais e T3 reverso alto. No doente muito grave a T4 também desce, o que tem mau prognóstico. A TSH pode passar de 20 mU/L na fase de recuperação. Não se trata com hormona, vigia-se durante a recuperação.
- Má adesão sob levotiroxina: TSH alta com T4 livre normal ou alta, porque se tomam os comprimidos nos dias antes da análise. Imita a secreção inapropriada de TSH.
- Nos primeiros meses depois do radioiodo pode haver hipotiroidismo transitório; aí a T4 livre é melhor guia do que a TSH, que esteve suprimida.
Diagnóstico diferencial
- O bócio assimétrico da Hashimoto pode confundir-se com bócio multinodular ou carcinoma, que também podem ter anticorpos: a ecografia mostra se há nódulo discreto, e o nódulo vai a punção.
- O hipotiroidismo transitório das tiroidites (fase hipotiroideia da subaguda, silenciosa ou pós-parto) recupera sozinho.
Levotiroxina no hipotiroidismo franco
- Sem função residual, a dose de substituição é de cerca de 1,6 µg/kg por dia (tipicamente 100 a 150 µg). Depois do tratamento da Graves costuma bastar menos (75 a 125 µg), porque persiste alguma autonomia.
- Abaixo dos 60 anos e sem doença cardíaca começa-se com 50 a 100 µg. No idoso e no coronário começa-se com 12,5 a 25 µg, com aumentos iguais cada 2 a 3 meses.
- Toma-se em jejum, pelo menos 30 minutos antes do pequeno-almoço, ou ao deitar, 2 horas depois da última refeição. Cálcio, ferro e inibidores da bomba de protões separam-se 4 horas ou mais.
- A TSH reavalia-se cerca de 2 meses depois de iniciar ou mudar a dose, com ajustes de 12,5 ou 25 µg. O alvo é a TSH normal, idealmente na metade inferior do intervalo. Estável, a TSH doseia-se uma vez por ano.
- A melhoria clínica demora 3 a 6 meses depois de a TSH normalizar.
- A semivida da T4 é de 7 dias: quem esquece uma dose pode tomar duas no dia seguinte.
- No hipotiroidismo central a TSH não serve: titula-se pela T4 livre, mantida na metade superior do intervalo.
- A combinação com liotironina não mostrou benefício em estudos prospetivos; a liotironina isolada e os extratos de tiroide animal não se usam.
O que aumenta a necessidade de levotiroxina
- Má absorção: doença celíaca, cirurgia do intestino delgado, gastrite atrófica ou por Helicobacter pylori, toma com a refeição.
- Fármacos: sequestrantes dos ácidos biliares, sulfato ferroso, cálcio, sevelâmero, sucralfato, inibidores da bomba de protões, hidróxido de alumínio, rifampicina, carbamazepina, fenitoína, amiodarona, inibidores da tirosina cinase, estrogénios orais e moduladores seletivos do recetor de estrogénio.
- Gravidez.
Hipotiroidismo subclínico
| situação | conduta |
|---|---|
| TSH acima de 10 mU/L, abaixo dos 65 a 70 anos | levotiroxina, mesmo sem sintomas |
| TSH abaixo de 10 mU/L com sintomas, abaixo dos 65 anos | prova terapêutica; rever 3 a 4 meses depois de a TSH normalizar e parar se não houver melhoria |
| Bócio difuso ou nodular persistente, ou depois de hemitiroidectomia | levotiroxina |
| Acima dos 80 a 85 anos com TSH até 10 mU/L | vigiar, em regra sem tratar |
| Mulher que deseja engravidar ou grávida | ver tiroide e gravidez |
- Dose de cerca de 1,5 µg/kg por dia sem doença cardíaca; 25 a 50 µg no idoso e no cardíaco, subindo 25 µg cada 14 a 21 dias.
- Alvo: TSH na metade inferior do intervalo (0,4 a 2,5 mU/L) na maioria dos adultos; acima dos 70 a 75 anos aceita-se cerca de 1 a 5 mU/L.
- Quem não trata repete a função tiroideia cada 6 meses durante 2 anos e depois anualmente.
- A levotiroxina não emagrece quem tem TSH abaixo de 10 mU/L.
Cirurgia
- A cirurgia eletiva adia-se até ao eutiroidismo. A cirurgia urgente é em regra segura no hipotiroidismo não tratado.
- Coma mixedematoso, a forma extrema, com mortalidade de 20 a 40%.
- Sobretratamento: a TSH suprimida por excesso de levotiroxina aumenta o risco de fibrilhação auricular e reduz a densidade óssea.
- Reposição rápida no coronário agrava ou desencadeia angina; em alguns não é possível a substituição completa, mesmo com tratamento antianginoso otimizado.
- Infertilidade e aborto; na grávida, prejuízo do desenvolvimento neurológico fetal.
- Linfoma da tiroide, que nasce muitas vezes sobre uma Hashimoto e se apresenta como massa de crescimento rápido.
- Encefalopatia de Hashimoto: síndrome que responde aos corticoides, com mioclonias e anti-tiroperoxidase positivos, de relação causal incerta.
- O hipotiroidismo congénito sem tratamento precoce deixa lesão neurológica definitiva; com tratamento precoce o quociente de inteligência é normal.
- Com tratamento adequado, as alterações analíticas e clínicas regridem.
Idoso
- Precisa de cerca de 20% menos levotiroxina do que o adulto jovem. Começa-se baixo e sobe-se devagar; acima dos 70 a 75 anos aceita-se uma TSH mais alta, e acima dos 80 a 85 anos com TSH até 10 mU/L vigia-se.
Amiodarona e lítio
- O hipotiroidismo por amiodarona é mais frequente na mulher e com anti-tiroperoxidase positivos. Trata-se com levotiroxina sem suspender a amiodarona, e monitoriza-se pela TSH, porque a T4 costuma estar alta.
- No início da amiodarona é esperado um padrão transitório: T4 alta, T3 baixa, T3 reverso alto e subida transitória da TSH, até 20 mU/L, que normaliza em 1 a 3 meses.
Imunoterapia
- Os inibidores de CTLA-4 dão hipofisite em até 20%, com hipotiroidismo central e insuficiência suprarrenal e gonadal: a TSH não sobe, e o cortisol trata-se primeiro.
Doente sem via oral
- Pela semivida longa, alguns dias sem levotiroxina não têm consequência. Se a interrupção se prolongar, passa-se a via endovenosa com cerca de 75% da dose oral.
- Nódulo da tiroide: lesão distinta do parênquima envolvente na imagem. Uma área palpável sem correspondência ecográfica não é nódulo.
- Palpáveis em cerca de 5% dos adultos; na ecografia encontram-se em 19 a 68% das pessoas, na maioria com menos de 1 cm. São mais frequentes na mulher, com a idade e onde falta iodo.
- Maligno em 7 a 15%.
- O bócio multinodular substitui a maior parte do parênquima por nódulos, em regra hiperplásicos; o risco de cancro por nódulo é semelhante ao do nódulo solitário.
- O carcinoma da tiroide é a neoplasia endócrina mais frequente e é duas vezes mais comum na mulher. A incidência subiu à custa de pequenos carcinomas papilares, sem mudança da mortalidade: é sobrediagnóstico. Em autópsias há carcinoma papilar microscópico em até 25% das glândulas.
Tipos histológicos
| tipo | origem | frequência | disseminação |
|---|---|---|---|
| Papilar | células foliculares | 80 a 85% dos diferenciados | linfática, para os gânglios cervicais |
| Folicular (incluindo o oncocítico) | células foliculares | cerca de 5% | hematogénica: osso, pulmão, sistema nervoso |
| Pouco diferenciado e anaplásico | células foliculares | raros | local e à distância, rápida |
| Medular | células C, produtoras de calcitonina | cerca de 5% | gânglios e à distância; esporádico ou familiar |
| Linfoma | linfócitos | cerca de 1% | local |
| Metástases | mama, melanoma, pulmão, rim | raras |
- Radiação ionizante na infância ou adolescência (radioterapia da cabeça e pescoço, radiação de corpo inteiro, poeiras radioativas): aumenta nódulos benignos e malignos, carcinomas multicêntricos e mais precoces.
- TSH: os carcinomas diferenciados mantêm o recetor da TSH e respondem-lhe, o que fundamenta a supressão da TSH no tratamento e a estimulação pela TSH antes do radioiodo.
- Via RET, RAS e BRAF: ativada em até 70% dos papilares. A mutação BRAF V600E é a alteração mais frequente do papilar e associa-se a perda de captação de iodo. Os rearranjos RET/PTC são mais frequentes nos tumores depois da radiação de Chernobil.
- Folicular: mutações RAS e rearranjo PAX8 com PPAR-gama.
- Anaplásico: acumula as mutações dos diferenciados e acrescenta TP53, promotor do TERT e beta-catenina.
- Medular familiar: mutação germinativa pontual do RET, na neoplasia endócrina múltipla tipo 2A e 2B e na forma familiar isolada; precedido de hiperplasia das células C.
- Nódulos quentes: mutações ativadoras do recetor da TSH ou da Gs, quase sempre benignos.
- Síndromes familiares com carcinoma diferenciado: tumor hamartomatoso PTEN (doença de Cowden), polipose adenomatosa familiar, complexo de Carney, síndrome de Werner.
- A maioria é assintomática e descobre-se no exame físico ou, cada vez mais, por acaso numa imagem (ecografia das carótidas, ressonância cervical).
- O bócio multinodular grande dá compressão: disfagia, dispneia e estridor inspiratório (em regra só com redução de mais de 70% do calibre traqueal) e pletora. O sinal de Pemberton (congestão da face ao elevar os braços) indica bócio que ocupa o estreito torácico superior.
- Dor súbita num nódulo é em regra hemorragia, mas pode ser neoplasia invasiva.
O que aumenta o risco de malignidade
| na história | no exame |
|---|---|
| radiação da cabeça e pescoço antes dos 18 anos | nódulo fixo às estruturas vizinhas |
| exposição a radiação ionizante na infância ou adolescência | adenopatia cervical lateral |
| carcinoma papilar em dois ou mais familiares de primeiro grau, neoplasia endócrina múltipla tipo 2 ou outras síndromes | paralisia de corda vocal |
| idade abaixo dos 20 ou acima dos 65 anos | |
| crescimento rápido, rouquidão | |
| sexo masculino |
Sequência
- TSH em todos.
- TSH baixa: cintigrafia (de preferência com iodo 123). O nódulo quente é quase nunca maligno e não vai a punção.
- TSH normal ou alta: não se faz cintigrafia; faz-se ecografia, que confirma o nódulo (cerca de 15% dos nódulos palpáveis não se confirmam), procura outros e classifica o padrão.
- Punção aspirativa por agulha fina, guiada por ecografia, conforme o padrão e o tamanho.
Classificação ecográfica europeia (EU-TIRADS 2017)
Sinais de alto risco: forma não oval (mais alto que largo), margens irregulares, microcalcificações e hipoecogenicidade marcada num nódulo sólido.
| categoria | aspeto | risco de malignidade | punção se |
|---|---|---|---|
| 1 | sem nódulos | ||
| 2, benigno | quisto puro ou nódulo totalmente espongiforme | cerca de 0% | não se punciona |
| 3, risco baixo | oval, margens regulares, iso ou hiperecogénico, sem sinal de alto risco | 2 a 4% | maior que 20 mm |
| 4, risco intermédio | oval, margens regulares, ligeiramente hipoecogénico, sem sinal de alto risco | 6 a 17% | maior que 15 mm |
| 5, risco alto | pelo menos um sinal de alto risco | 26 a 87% | maior que 10 mm |
- Os gânglios cervicais avaliam-se sempre, e obrigatoriamente nos nódulos de risco intermédio e alto. Gânglio suspeito: punciona-se o gânglio e o nódulo mais suspeito.
- Nódulo de alto risco com menos de 10 mm, sem gânglios suspeitos: vigilância ativa, se o doente a aceitar.
Citologia (sistema de Bethesda 2023)
| categoria | risco médio de malignidade | conduta habitual |
|---|---|---|
| I, não diagnóstica | 13% | repetir a punção guiada por ecografia |
| II, benigna | 4% | vigilância clínica e ecográfica |
| III, atipia de significado indeterminado | 22% | repetir, teste molecular, lobectomia diagnóstica ou vigilância |
| IV, neoplasia folicular | 30% | teste molecular ou lobectomia diagnóstica |
| V, suspeita de malignidade | 74% | teste molecular, lobectomia ou tiroidectomia quase total |
| VI, maligna | 97% | lobectomia ou tiroidectomia quase total |
- A punção repetida dá diagnóstico em cerca de metade das não diagnósticas, que vêm sobretudo de lesões quísticas.
- A citologia não distingue o adenoma do carcinoma folicular: a diferença está na invasão da cápsula ou dos vasos, que só a histologia mostra.
- Não há recomendação a favor nem contra a calcitonina por rotina no estudo do nódulo.
Nódulo benigno e bócio
- Vigilância ecográfica; nova punção se crescer. A levotiroxina para suprimir a TSH não reduz os nódulos onde há iodo suficiente e não se usa.
- Quistos recidivam depois de aspiração; a ablação com etanol serve os sintomáticos.
- Bócio multinodular não tóxico: a maioria vigia-se. Evitam-se contrastes e outras cargas de iodo, pelo risco de Jod-Basedow. Cirurgia na compressão; radioiodo quando a cirurgia está contraindicada.
Carcinoma diferenciado (papilar e folicular)
- Ecografia cervical antes da cirurgia em todos, à procura de gânglios suspeitos.
- Microcarcinoma papilar (até 1 cm) intratiroideu sem metástases: a vigilância ativa é uma opção.
- Tumores acima de 1 cm e até 4 cm, intratiroideus, sem metástases: lobectomia ou tiroidectomia quase total.
- Acima de 4 cm, com extensão extratiroideia ou metástases: tiroidectomia quase total, com esvaziamento dos gânglios afetados. Achados agressivos depois de uma lobectomia levam a completar a tiroidectomia.
- Radioiodo: sem benefício nos tumores até 2 cm limitados à tiroide nem nos de baixo risco até 4 cm; reduz a recidiva nos de risco mais alto. Faz-se com a TSH alta, por suspensão da hormona ou por TSH recombinante, depois de dieta pobre em iodo.
- Supressão da TSH conforme o risco de recidiva: baixo risco 0,5 a 2,0 mU/L; intermédio 0,1 a 0,5 mU/L; alto risco ou doença metastática abaixo de 0,1 mU/L.
- Seguimento com tiroglobulina e ecografia cervical (a primeira cerca de 6 meses depois), porque a maioria das recidivas é ganglionar. Os anticorpos anti-tiroglobulina falseiam o doseamento.
Carcinoma medular
- Cirurgia. Pesquisa de mutação do RET em todos, com aconselhamento genético da família. Antes da cirurgia exclui-se feocromocitoma em quem tem mutação do RET.
- Não capta iodo: o radioiodo não serve. A calcitonina é o marcador de doença residual.
Anaplásico e linfoma
- Anaplásico: muito agressivo, com morte da maioria nos 6 meses seguintes ao diagnóstico; radioterapia e terapêuticas sistémicas.
- Linfoma (sobretudo difuso de grandes células B): muito sensível à radioterapia; evita-se a cirurgia como tratamento inicial.
- Papilar: mais de 80% diagnosticados nos estádios I e II, com sobrevida semelhante à esperada. A mortalidade específica a 20 anos no baixo risco é de 1%. Pode dar metástases pulmonares volumosas com poucos sintomas.
- Micrometástases ganglionares (menos de 2 mm) não mudam o prognóstico; vários gânglios de 2 a 3 cm dão 25 a 30% de recidiva.
- Folicular: prognóstico pior quando há metástases à distância, idade acima dos 50 anos, tumor acima de 4 cm, histologia oncocítica e invasão vascular marcada.
- Pior prognóstico em geral com idade acima dos 65 anos e no homem.
- Medular: mais agressivo na neoplasia endócrina múltipla tipo 2B do que na 2A.
- Complicações da tiroidectomia: lesão do nervo laríngeo recorrente (temporária em cerca de 7%, definitiva em menos de 1%), hipoparatiroidismo (definitivo em até 6%), hemorragia e edema laríngeo; raras nas mãos de cirurgiões com volume elevado.
O que a gravidez muda
- A gonadotrofina coriónica estimula fracamente o recetor da TSH: a TSH desce no primeiro trimestre, e a T4 livre pode subir ligeiramente.
- Os estrogénios sobem a globulina de ligação da tiroxina: sobem as hormonas totais, mas as livres ficam normais. Não é doença.
- A necessidade de hormona e de iodo aumenta, e a placenta tem desiodase tipo 3.
- A tolerância imune da gravidez faz baixar os anticorpos, que sobem de novo no pós-parto.
Intervalos de referência
- Usam-se intervalos por trimestre e por laboratório. Na falta deles, a TSH considera-se normal entre 0,1 e 4,0 mU/L.
Epidemiologia
- Hipotiroidismo subclínico em cerca de 3,2 a 3,5% das grávidas; o principal fator de risco é a autoimunidade tiroideia.
- O risco absoluto que o hipotiroidismo subclínico não tratado acrescenta a complicações como aborto, pré-eclâmpsia, descolamento da placenta, parto pré-termo ou restrição do crescimento é pequeno, de 1 a 5 pontos percentuais.
- A tirotoxicose gestacional transitória é a causa mais frequente de TSH suprimida no início da gravidez, sobretudo com hiperemese e gravidez múltipla.
- Tiroidite pós-parto em cerca de 8% das puérperas.
TSH alta
- Doseia-se a T4 livre e os anti-tiroperoxidase.
- TSH acima de 10 mU/L: trata-se logo.
- Subclínico ligeiro no primeiro trimestre: pode considerar-se uma confirmação ao fim de 1 a 3 semanas antes de tratar, porque sem tratamento só persiste em cerca de 41% quando se repete por volta das 3 semanas, sobretudo com TSH abaixo de 6 mU/L. Quem decide não tratar repete dentro de 3 semanas para excluir progressão.
- Hipotiroxinemia isolada (T4 livre baixa com TSH normal) não se trata; excluem-se ferropenia e carência de iodo.
TSH baixa
- Doseia-se a T4 livre; se estiver alta, os anticorpos anti-recetor da TSH. A T3 ajuda a distinguir as causas, mas não se usa para monitorizar, porque a T3 materna não reflete a fetal.
- A cintigrafia está contraindicada; a ecografia não distingue a tirotoxicose gestacional da Graves.
- Na hiperemese sem outros sinais de hipertiroidismo não se pede a função tiroideia.
- TSH baixa com hormonas normais repete-se cada 2 a 4 semanas até normalizar.
| característica | tirotoxicose gestacional transitória | doença de Graves |
|---|---|---|
| Sintomas antes da gravidez | nenhuns | frequentes |
| Náuseas e vómitos | frequentes | pouco habituais |
| História pessoal ou familiar | em regra ausente | frequente |
| Bócio | ausente | difuso, possível |
| Orbitopatia | ausente | possível |
| T3 livre | normal ou pouco alta | alta |
| Anticorpos anti-recetor da TSH | normais | altos |
| TSH | normaliza em regra até ao 3.º trimestre | suprimida durante a gravidez |
No pós-parto
- Tiroidite pós-parto contra Graves pós-parto: a tirotoxicose nos primeiros 6 meses, mais curta e mais ligeira, sugere tiroidite; anticorpos anti-recetor da TSH positivos e uma razão entre T3 total e T4 total acima de 20 confirmam Graves. A cintigrafia só em casos graves e duvidosos, com interrupção temporária da amamentação.
- Iodo: suplemento de iodeto de potássio de 150 a 200 µg por dia desde a preconceção, durante toda a gravidez e enquanto durar a amamentação exclusiva (Direção-Geral da Saúde).
- Mulher com hipotiroidismo que planeia engravidar: TSH no intervalo normal mas abaixo de 2,5 mU/L antes de conceber; quem toma liotironina ou extratos de tiroide passa a levotiroxina isolada.
- Mulher com Graves que planeia engravidar: engravidar só depois de eutiroideia, confirmada por duas análises normais com pelo menos 6 semanas de intervalo. Quem toma metimazol passa a propiltiouracilo quando tenta engravidar. Depois de radioiodo adia-se a gravidez pelo menos 6 meses, e os anticorpos anti-recetor da TSH sobem durante 1 a 3 anos, o que aumenta o risco fetal; a cirurgia faz descer os anticorpos mais depressa.
- Anti-tiroperoxidase positivos com função normal: nem levotiroxina, nem selénio, nem corticoides ou imunoglobulina. Informa-se do risco de tiroidite pós-parto.
Hipotiroidismo
- Quem já toma levotiroxina aumenta a dose logo com o teste de gravidez positivo, por exemplo com duas tomas diárias extra por semana. A maioria precisa de cerca de 25% mais até às 12 semanas e de 50% mais até às 20 semanas. O risco de excesso é maior com TSH prévia abaixo de 1,5 mU/L ou dose prévia acima de 100 µg.
- Alvo: TSH no intervalo normal mas abaixo de 2,5 mU/L. TSH cada 4 semanas até meio da gravidez e pelo menos uma vez por volta das 30 semanas.
- Hipotiroidismo franco descoberto antes da gravidez: levotiroxina 1,5 a 1,7 µg/kg por dia, adiando a conceção até ao eutiroidismo.
- Subclínico: TSH acima de 10 mU/L trata-se sempre. O ligeiro diagnosticado no primeiro trimestre pode tratar-se, por decisão partilhada; o diagnosticado depois do primeiro trimestre não se trata e repete-se a TSH 4 a 6 semanas depois. Quando se trata, 25 a 75 µg por dia conforme a TSH e o peso.
- Depois do parto volta-se à dose anterior à gravidez e repete-se a função ao fim de 6 semanas. Quem começou levotiroxina na gravidez por subclínico pode tentar suspendê-la.
- Os suplementos pré-natais e o ferro tomam-se separados da levotiroxina.
Hipertiroidismo
- Tirotoxicose gestacional transitória e subclínica: sem antitiroideu; hidratação, controlo da hiperemese e propranolol para as palpitações.
- Graves ou nódulo autónomo com tirotoxicose franca: trata-se, com a dose mínima de antitiroideu que mantenha a T4 livre no terço superior do intervalo ou ligeiramente acima, porque abaixo disso aumenta o risco de hipotiroidismo fetal. Função materna cada 2 a 4 semanas.
- Propiltiouracilo até às 16 semanas: o metimazol associa-se a embriopatia (aplasia cutis, atresia das coanas, fístula traqueoesofágica). Troca-se o metimazol por propiltiouracilo logo que a gravidez se confirma, na proporção de 1 para 20. Depois das 16 semanas não há fármaco preferido; o propiltiouracilo mantém o risco de hepatotoxicidade.
- Pode suspender-se o antitiroideu no primeiro trimestre quando o risco de recidiva é baixo: mais de 6 meses de tratamento, TSH normal com menos de 10 mg de metimazol ou menos de 200 mg de propiltiouracilo por dia, e anticorpos abaixo de 3 vezes o limite superior.
- Sob antitiroideu, ecografia fetal mensal a partir das 18 a 20 semanas.
- Tiroidectomia só se o tratamento médico falhar ou não puder usar-se, de preferência no segundo trimestre. O radioiodo está contraindicado.
- Na amamentação são seguros até 20 mg por dia de metimazol ou 450 mg por dia de propiltiouracilo.
Tiroidite pós-parto
- Fase tóxica: bloqueador beta na dose mínima eficaz (propranolol ou metoprolol na amamentação); nunca antitiroideu.
- Fase hipotiroideia: levotiroxina se houver sintomas, se amamentar ou se planear gravidez nos 6 meses seguintes.
- Normalizada a função, repete-se ao fim de um ano ou se surgirem sintomas.
- Graves mal controlada: aborto, hipertensão induzida pela gravidez, restrição do crescimento fetal, morte fetal, convulsões na descendência, e tempestade tiroideia e insuficiência cardíaca na mãe.
- Hipertiroidismo fetal e neonatal pelos anticorpos maternos: raro se os anticorpos estiverem abaixo de 3 vezes o limite superior. Anunciam-no restrição do crescimento, frequência cardíaca fetal acima de 160 por minuto, idade óssea avançada e bócio fetal. Trata-se o feto através do antitiroideu materno.
- Hipotiroidismo e bócio fetais por excesso de antitiroideu.
- Risco de anomalias congénitas acrescido de cerca de 3% com o propiltiouracilo e de 5% com o metimazol.
- O pós-parto é um período de risco elevado de recidiva da Graves; a mulher em remissão doseia a função às 4 a 6 semanas e aos 4 a 6 meses depois do parto.
Tiroidite pós-parto
- Ocorre nos 12 meses seguintes ao parto, ou a um aborto. Forma clássica trifásica: tirotoxicose indolor entre o 1.º e o 6.º mês, hipotiroidismo entre o 4.º e o 8.º mês, e recuperação ao longo de mais 2 a 3 meses; muitas vezes só se reconhece uma fase.
- Fatores de risco: tiroidite pós-parto prévia, anti-tiroperoxidase positivos, outras doenças autoimunes, história familiar.
- Recorre em 70% das gravidezes seguintes. Entre 10 e 50% ficam com hipotiroidismo definitivo, mais com multiparidade, glândula hipoecogénica, hipotiroidismo inicial grave, anti-tiroperoxidase positivos, idade materna mais alta e aborto prévio.
- Exacerbação rara e potencialmente fatal da tirotoxicose, com falência de vários sistemas. A mortalidade nas séries atuais é de 8 a 25%, por insuficiência cardíaca, arritmia ou hipertermia.
- Surge num hipertiroidismo não tratado ou mal tratado, desencadeada por doença aguda (infeção, AVC, traumatismo, cetoacidose diabética), cirurgia (sobretudo da tiroide) ou radioiodo.
- Febre alta.
- Cardiovascular: taquicardia desproporcionada, fibrilhação auricular ou outras arritmias, insuficiência cardíaca de débito alto.
- Sistema nervoso: agitação, delírio, psicose, convulsões, estupor, coma.
- Digestivo e hepático: náuseas, vómitos, diarreia, icterícia.
- O diagnóstico é clínico: tirotoxicose grave com sinais de descompensação sistémica. Não se espera pelas análises para tratar.
- Existem escalas de pontos que somam a temperatura, o grau de disfunção neurológica, a disfunção digestiva e hepática, a frequência cardíaca, a insuficiência cardíaca, a fibrilhação auricular e a presença de um desencadeante; ajudam, mas sobrediagnosticam e não substituem o juízo clínico.
- Procura-se sempre o desencadeante, a começar pela infeção.
- Diferencial: sépsis, hipertermia maligna e síndrome maligna dos neurolépticos, intoxicação simpaticomimética, feocromocitoma.
Em cuidados intensivos, com todas as medidas ao mesmo tempo e uma ordem que não se troca entre a tionamida e o iodo:
| fármaco | dose | para quê |
|---|---|---|
| Propranolol | 60 a 80 mg oral cada 4 horas (alternativa: esmolol em perfusão) | controla a frequência e os sintomas adrenérgicos; em dose alta trava a conversão de T4 em T3 |
| Propiltiouracilo | 500 a 1000 mg de carga, depois 250 mg cada 4 horas, oral, por sonda ou retal | trava a síntese e a conversão de T4 em T3 (alternativa: metimazol 60 a 80 mg por dia) |
| Iodo (solução saturada de iodeto de potássio) | 5 gotas oral cada 6 horas, só 1 hora depois da tionamida | bloqueia a libertação de hormona |
| Hidrocortisona | 300 mg endovenosa de carga, depois 100 mg cada 8 horas | previne a insuficiência suprarrenal relativa e reduz a conversão |
- Arrefecimento com paracetamol e mantas de arrefecimento, reposição de volume, suporte nutricional e ventilatório, tratamento do desencadeante (antibiótico se houver infeção). A colestiramina reduz a recirculação das hormonas.
- Cuidado com o bloqueador beta na insuficiência cardíaca: controlar a frequência é importante, mas o efeito inotrópico negativo pode descompensar; o esmolol permite titular.
- Forma extrema do hipotiroidismo, com mortalidade de 20 a 40% mesmo com tratamento intensivo; o prognóstico não depende dos valores de T4 e de TSH.
- Quase sempre em idosos, com hipotiroidismo não diagnosticado ou mal cumprido.
- Desencadeantes, em regra o que deprime a respiração: fármacos (sedativos, anestésicos, antidepressivos), pneumonia, insuficiência cardíaca, enfarte, hemorragia digestiva, AVC, sépsis e exposição ao frio.
- A hipoventilação, com hipoxia e hipercapnia, é central no mecanismo; a hipoglicemia e a hiponatremia dilucional contribuem.
- Diminuição do estado de consciência, por vezes com convulsões.
- Hipotermia, que pode chegar aos 23 °C.
- Hipoventilação, bradicardia, hiponatremia, hipoglicemia, e os restantes sinais do hipotiroidismo (mixedema, pele seca, relaxamento lento dos reflexos).
- Levotiroxina endovenosa: bólus de 200 a 400 µg como carga, seguido de 1,6 µg/kg por dia, reduzido em 25% por via endovenosa. Sem preparação endovenosa, a mesma carga por sonda nasogástrica, com absorção incerta.
- Pode acrescentar-se liotironina, porque a conversão de T4 em T3 está diminuída (5 a 20 µg de carga e depois 2,5 a 10 µg cada 8 horas, menos no cardíaco), à custa de risco de arritmia.
- Hidrocortisona endovenosa 50 mg cada 6 horas, porque a reserva suprarrenal está diminuída no hipotiroidismo profundo.
- Suporte ventilatório com gasimetrias seriadas, em regra necessário nas primeiras 48 horas.
- Aquecimento: mantas para evitar mais perdas; aquecimento externo ativo só abaixo dos 30 °C, porque pode causar colapso cardiovascular.
- Antibiótico de largo espetro precoce até se excluir infeção, e tratamento do desencadeante.
- Soro hipertónico ou glicose endovenosa na hiponatremia ou hipoglicemia graves; evitam-se fluidos hipotónicos, que agravam a retenção de água.
- O metabolismo dos fármacos está lento: evitam-se sedativos ou reduzem-se as doses.
Referências
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- Direção-Geral da Saúde. Aporte de iodo em mulheres na preconceção, gravidez e amamentação. Orientação n.º 011/2013. Lisboa: DGS; 2013.
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