Endocrinológica e MetabólicaDistúrbios da adeno-hipófise e hipotálamoPublicado (Premium)

Distúrbios da adeno-hipófise e hipotálamo

Matriz PNA:MD · MecanismosD · DiagnósticoGD · Gestão

Atualizado em 18 de julho de 2026 · 10 perguntas neste tema

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Em resumo

A adeno-hipófise é o nó de comando de cinco eixos endócrinos, e quase toda a sua patologia se reduz a duas perguntas: há hormona a mais (adenoma funcionante) ou há hormona a menos (hipopituitarismo)? Na matriz PNA este tema tem relevância C — raramente domina uma prova, mas aparece de forma previsível e sempre pelos mesmos ângulos, porque são ângulos que separam quem percebeu o mecanismo de quem decorou listas. Tens de dominar quatro pontos: distinguir a hiperprolactinemia do prolactinoma verdadeiro da que resulta do efeito de haste ou de fármacos; saber que o prolactinoma se trata com agonista dopaminérgico mesmo quando é macroadenoma (contraria a intuição cirúrgica, e é exatamente por isso que é testado); diagnosticar acromegalia com IGF-1 e não com GH isolada; e nunca falhar a regra de ouro de que o glicocorticoide se repõe antes da levotiroxina. A apoplexia hipofisária é a única emergência verdadeira do capítulo e reconhece-se em três linhas de vinheta.

Porque é que um adenoma se torna autónomo

A maioria dos adenomas hipofisários é monoclonal: expandem-se a partir de uma única célula que perdeu o travão da retroalimentação. Duas alterações moleculares vale a pena reter, porque explicam a clínica:

  • Mutações ativadoras de GNAS (gsp), presentes numa fração relevante dos somatotrofinomas: a subunidade Gsα fica constitutivamente ativa, a adenilato-ciclase produz AMPc sem estímulo, e o somatotrofo secreta GH e prolifera independentemente do GHRH. A mesma via, em mosaico somático, produz a síndrome de McCune-Albright.
  • Mutações de USP8 numa parte dos corticotrofinomas da doença de Cushing, que estabilizam o receptor do EGF e mantêm a transcrição da POMC.

O ponto conceptual que a PNA testa não é o gene: é que o adenoma não obedece à retroalimentação. Daí que os testes de supressão (glicose na acromegalia, dexametasona no Cushing) sejam diagnósticos — o tecido normal suprime, o adenoma não.


Hiperprolactinemia: quatro mecanismos distintos

Este é o bloco mais rentável do capítulo. Só há quatro maneiras de subir a prolactina, e cada uma tem uma assinatura própria.

1. Produção autónoma — prolactinoma. O lactotrofo tumoral secreta PRL independentemente da dopamina. Regra prática muito útil: existe correlação grosseira entre o tamanho do tumor e o valor da PRL. Um microprolactinoma dá tipicamente valores modestos a intermédios; um macroprolactinoma dá valores muito altos, frequentemente >250 ng/mL (ng/mL = µg/L) e não raro na ordem dos milhares.

2. Desinibição — efeito de haste. Qualquer lesão que comprima a haste ou o hipotálamo (macroadenoma não funcionante, craniofaringioma, metástase, granuloma, aneurisma) interrompe a chegada de dopamina ao lactotrofo. O lactotrofo normal, libertado do travão, sobe a PRL — mas só até onde a sua capacidade secretora normal permite. Daí a elevação moderada, tipicamente inferior a ~100 ng/mL (a maioria dos autores usa 100-150 ng/mL como zona de fronteira).

A pergunta clássica: macroadenoma de 3 cm + PRL de 60 ng/mL. Isto não é um prolactinoma — é um tumor não funcionante com efeito de haste. Um macroprolactinoma de 3 cm produziria PRL na casa das centenas ou milhares. A consequência terapêutica é decisiva: efeito de haste trata-se com cirurgia; prolactinoma trata-se com agonista dopaminérgico. Errar aqui é operar um doente que devia ter sido medicado, ou medicar um tumor que ia continuar a crescer.

3. Estimulação ou depuração alterada — hiperprolactinemia secundária. Antes de pedir uma RM, exclui sempre as causas banais:

CausaMecanismo
Antipsicóticos (risperidona, paliperidona, amissulprida, haloperidol)Bloqueio do receptor D2 no lactotrofo. Causa farmacológica mais frequente e a que dá valores mais altos
Metoclopramida, domperidonaAntagonismo D2
Antidepressivos (alguns ISRS, tricíclicos), verapamilo, opioides, estrogéniosEstimulação indireta / interferência dopaminérgica
Hipotiroidismo primárioTRH estimula o lactotrofo (e explica a hiperplasia hipofisária que mimetiza adenoma na RM)
Gravidez e amamentaçãoEstrogénios → hiperplasia lactotrófica fisiológica
Insuficiência renal crónica↓ depuração e ↑ produção
Cirrose, lesão da parede torácica, convulsão, stress da punçãoDiversos

Os valores em causas secundárias são habitualmente moderados, com a exceção importante dos antipsicóticos, que podem ultrapassar os 200 ng/mL e imitar um prolactinoma.

4. Artefactos do imunoensaio — os dois que separam quem estudou.

  • Efeito gancho (hook effect): em macroprolactinomas com PRL extremamente elevada, o excesso de antigénio satura simultaneamente o anticorpo de captura e o de deteção, impedindo a formação do sanduíche que gera sinal. Resultado: um doente com PRL real de dezenas de milhares recebe um valor falsamente normal ou apenas ligeiramente elevado. Quando há um macroadenoma volumoso e a PRL não bate certo com o tamanho, pede a repetição com diluição seriada da amostra (habitualmente 1:100); a PRL diluída dispara. Muitos laboratórios já usam ensaios com passo de lavagem que evitam o fenómeno, mas a pergunta continua a ser feita.
  • Macroprolactina: complexos de PRL com IgG, biologicamente inativos mas detetados pelo ensaio. Doente assintomático com hiperprolactinemia persistente → pedir precipitação com polietilenoglicol (PEG); se a recuperação de PRL monomérica for baixa, trata-se de macroprolactinemia e não se trata nada.

A consequência clínica da hiperprolactinemia é sempre a mesma: a PRL inibe a secreção pulsátil de GnRH, causando hipogonadismo hipogonadotrófico — amenorreia/oligomenorreia e infertilidade na mulher, disfunção erétil, perda de libido e ginecomastia no homem, e perda de massa óssea em ambos.


Acromegalia: o mecanismo do excesso de GH

O somatotrofinoma secreta GH de forma autónoma e não pulsátil. A GH atua no fígado, induzindo a produção de IGF-1, que é o verdadeiro mediador do crescimento tecidual. As duas consequências práticas:

  • A GH tem semivida curta e secreção fisiologicamente pulsátil, com picos noturnos e no exercício. Uma GH isolada elevada não prova nada e uma GH normal não exclui. A IGF-1 tem semivida longa e integra a exposição das últimas 24 horas — é por isso o marcador de rastreio.
  • Nas crianças e adolescentes, antes do encerramento das cartilagens de conjugação, o excesso de GH produz gigantismo (crescimento linear). Depois do encerramento, produz acromegalia (crescimento apenas apendicular e de tecidos moles).

O excesso de GH tem ainda um efeito metabólico direto, distinto do IGF-1: é contra-insular — aumenta a lipólise e induz resistência à insulina, daí a intolerância à glicose e a diabetes na acromegalia. É também o mecanismo pelo qual a GH suprime normalmente com a glicose oral (a hiperglicemia trava a GH), princípio em que assenta a PTGO diagnóstica.


Doença de Cushing: o eixo ACTH

O corticotrofinoma secreta ACTH com perda parcial, mas não total, da sensibilidade ao cortisol. Duas consequências mecanicistas explicam todos os testes:

  • Perde a supressão com dose baixa de dexametasona (1 mg noturno) — daí o rastreio.
  • Mantém supressão parcial com dose alta e mantém resposta ao CRH/desmopressina, ao contrário da secreção ectópica de ACTH (carcinoma pulmonar de pequenas células, tumores carcinoides brônquicos e tímicos), que é habitualmente totalmente autónoma.

A elevação do ACTH mantém pigmentação e hiperplasia suprarrenal bilateral. Quando um doente com doença de Cushing é submetido a suprarrenalectomia bilateral, a perda abrupta do feedback do cortisol pode desencadear crescimento agressivo do corticotrofinoma com hiperpigmentação marcada — a síndrome de Nelson. O detalhe completo do diagnóstico diferencial do hipercortisolismo (ACTH-dependente vs independente, pseudo-Cushing) pertence ao capítulo da suprarrenal; aqui interessa o eixo e a localização.


Hipopituitarismo: porque é que as hormonas caem por esta ordem

Quando um processo expansivo, isquémico ou infiltrativo destrói gradualmente a adeno-hipófise, as linhagens não caem ao mesmo tempo. A ordem típica é:

GH → gonadotrofinas (LH/FSH) → TSH → ACTH → prolactina

A explicação mais aceite é a distribuição espacial dos tipos celulares (somatotrofos e gonadotrofos ocupam sobretudo as asas laterais, mais vulneráveis à compressão) e a maior reserva funcional dos corticotrofos e tirotrofos. A regra prática é excelente: o défice de GH e o hipogonadismo aparecem primeiro e são os mais sensíveis; a insuficiência adrenal secundária e o hipotiroidismo central aparecem tarde e são os mais perigosos. Uma mulher com amenorreia e um homem com queda de libido podem ser a primeira manifestação de um macroadenoma.

A prolactina é a exceção sistemática: na destruição gradual e compressiva é a última linhagem a cair, mas sobe quando o problema é compressão da haste. Atenção: esta ordem descreve a destruição lenta (macroadenoma, radioterapia). Na necrose isquémica aguda da síndrome de Sheehan não há gradiente temporal — o défice de PRL instala-se de imediato e a agalactia é tipicamente o primeiro sinal. Uma PRL indoseável num contexto de hipopituitarismo aponta para destruição extensa; uma PRL moderadamente alta aponta para compressão.

Causas a ter presentes: macroadenoma e cirurgia/radioterapia hipofisária (as mais frequentes); apoplexia; síndrome de Sheehan (necrose isquémica pós-parto por hemorragia obstétrica, numa hipófise fisiologicamente hipertrofiada e com irrigação portal de baixa pressão); hipofisite linfocítica e a crescentemente frequente hipofisite induzida por inibidores de checkpoint imunitário; hemocromatose (deposição de ferro no gonadotrofo → hipogonadismo hipogonadotrófico, muitas vezes o primeiro sinal endócrino); doenças infiltrativas (sarcoidose, histiocitose de células de Langerhans, tuberculose, granulomatose com poliangeíte); traumatismo cranioencefálico e hemorragia subaracnoideia; metástases (mama, pulmão — com tropismo característico para a neuro-hipófise, daí a DI); e causas genéticas (mutações de PROP1, PIT1/POU1F1, síndrome de interrupção da haste).

Armadilha fisiopatológica de ouro: na insuficiência adrenal secundária falta ACTH, mas a aldosterona está preservada — é regulada pelo sistema renina-angiotensina e pelo potássio, não pelo ACTH. Por isso, ao contrário da doença de Addison, não há hipercaliémia nem hiperpigmentação (não há excesso de POMC). Há, isso sim, hiponatrémia, por libertação não osmótica de ADH e por incapacidade de excretar água livre na ausência de cortisol.

Passo zero: quando pensar em doença hipofisária

Três portas de entrada:

  1. Síndrome de excesso hormonal — galactorreia/amenorreia, fácies e mãos que mudaram, obesidade central com estrias violáceas e miopatia proximal.
  2. Efeito de massa — cefaleia, hemianopsia bitemporal, diplopia por atingimento do seio cavernoso.
  3. Défice hormonal — fadiga, hipotensão, hipogonadismo, hiponatrémia inexplicada, hipoglicemia.

A imagem de eleição é a RM da sela turca com gadolínio e cortes finos dinâmicos. Os adenomas captam contraste mais lentamente que a hipófise normal, pelo que aparecem hipocaptantes na fase precoce. A TC só se usa quando a RM está contraindicada, na urgência (apoplexia, para excluir hemorragia) e para ver calcificações (craniofaringioma). A campimetria (perimetria computorizada) é obrigatória sempre que a lesão toca ou comprime o quiasma.


Hiperprolactinemia: a sequência correta

O erro clássico é pedir a RM primeiro. A sequência é:

  1. Confirmar a hiperprolactinemia com nova colheita (a punção venosa e o stress podem elevar ligeiramente a PRL; não é preciso jejum prolongado nem colheitas seriadas na maioria dos casos).
  2. Excluir as causas fisiológicas e farmacológicas: teste de gravidez, TSH e T4 livre, creatinina/TFG, função hepática e revisão exaustiva da medicação (antipsicóticos e antieméticos em primeiro lugar).
  3. Considerar macroprolactina se o doente estiver assintomático → precipitação com PEG.
  4. Só então RM selar.
  5. Se houver macroadenoma volumoso com PRL desproporcionadamente baixa → repetir com diluição para excluir efeito gancho.

Interpretar o valor

PRL (ng/mL = µg/L)Interpretação mais provável
Ligeiramente acima do normal (até ~50)Fármacos, hipotiroidismo, stress, macroprolactina
~50-100Fármacos (sobretudo antipsicóticos), efeito de haste, microprolactinoma
>150-250 com adenoma na RMProlactinoma muito provável
MilharesMacroprolactinoma

O limite superior do normal ronda ~25 ng/mL na mulher e ~20 ng/mL no homem, com variação entre laboratórios — usa sempre o intervalo do teu laboratório.

Regra de decisão que a PNA adora: tamanho do tumor desproporcionado para o valor da PRL → não é prolactinoma, é efeito de haste por lesão não lactotrófica.


Acromegalia: IGF-1 primeiro, PTGO depois

O diagnóstico é frequentemente tardio (a evolução é insidiosa, com atraso médio de vários anos), pelo que as pistas são retrospetivas: aumento do número do sapato e do anel, prognatismo com má oclusão e diastemas, macroglossia, hiperidrose, pele espessa, síndrome do túnel cárpico bilateral, artralgias, apneia obstrutiva do sono, HTA de novo, diabetes de novo. Comparar fotografias antigas é um dos gestos clínicos mais rentáveis.

Passo 1 — Rastreio: IGF-1 sérico, ajustado à idade e ao sexo. A GH aleatória não serve por causa da pulsatilidade. Uma IGF-1 normal para a idade torna a acromegalia ativa improvável. Atenção aos falsos baixos de IGF-1: desnutrição, doença hepática, diabetes mal controlada, hipotiroidismo e estrogénio oral baixam a IGF-1.

Passo 2 — Confirmação: prova de tolerância à glicose oral (PTGO) com 75 g e doseamentos seriados de GH. Em indivíduos saudáveis a hiperglicemia suprime a GH. Na acromegalia não suprime. O nadir de GH usado historicamente como corte foi 1 µg/L; com os ensaios ultrassensíveis atuais, as recomendações mais recentes usam um corte mais baixo, da ordem de 0,4 µg/L (o valor exato depende do ensaio — verifica sempre o do laboratório). Se a IGF-1 é claramente elevada e a clínica é típica, alguns centros dispensam a PTGO. Ressalva importante: a PTGO não se faz — nem é interpretável — no doente com diabetes mellitus já estabelecida ou hiperglicemia marcada, porque a supressão fisiológica da GH pela glicose está à partida alterada (o nadir não suprimido não distingue acromegalia de diabetes e gera falsos positivos), além de a sobrecarga de 75 g ser indesejável. Nesses doentes o diagnóstico e o seguimento apoiam-se na IGF-1 ajustada à idade, repetida se necessário, e na clínica.

Passo 3 — RM selar para localizar o adenoma (habitualmente macroadenoma ao diagnóstico) e avaliar invasão do seio cavernoso.

Passo 4 — Avaliar comorbilidades e restantes eixos: glicémia/HbA1c, perfil lipídico, tensão arterial, ecocardiograma, estudo do sono, campimetria, e — pela associação a neoplasia colorretal — colonoscopia ao diagnóstico.

Se a RM for normal apesar de bioquímica inequívoca, considera secreção ectópica de GHRH (tumor neuroendócrino brônquico ou pancreático): doseia GHRH e faz imagem torácica/abdominal — nesse caso a hipófise mostra hiperplasia difusa, não adenoma.


Doença de Cushing: confirmar o hipercortisolismo, depois localizar

O algoritmo completo pertence ao capítulo da suprarrenal. Aqui interessa a parte hipofisária.

Etapa 1 — provar hipercortisolismo com pelo menos dois testes de rastreio concordantes: cortisol livre urinário de 24 h, cortisol salivar noturno e supressão com 1 mg de dexametasona à noite.

Etapa 2 — medir o ACTH:

  • ACTH suprimido → causa suprarrenal (adenoma, carcinoma, hiperplasia) → TC das suprarrenais.
  • ACTH normal ou elevado → causa ACTH-dependente: doença de Cushing (hipófise) ou secreção ectópica.

Etapa 3 — distinguir hipofisário de ectópico:

  • RM selar, com uma regra de decisão por tamanho: adenoma ≥10 mm com testes dinâmicos concordantes dispensa o BIPSS; lesões <6 mm obrigam a BIPSS; entre 6 e 9 mm a maioria dos peritos recomenda igualmente BIPSS. A razão é dupla: cerca de metade dos corticotrofinomas são microadenomas <6 mm e podem não ser visíveis, e até ~10% da população geral tem um incidentaloma hipofisário, pelo que uma lesão pequena na RM não prova nada por si.
  • Cateterismo bilateral dos seios petrosos inferiores (BIPSS) — o padrão de referência quando a RM não é conclusiva. Colhe-se ACTH simultaneamente nos seios petrosos e na periferia. Um gradiente centro:periferia ≥2 em condições basais ou ≥3 após estímulo com desmopressina (ou CRH, hoje indisponível em vários países) indica origem hipofisária; a ausência de gradiente aponta para fonte ectópica → prosseguir com TC torácica/abdominal e imagem funcional. É um exame invasivo, de centros diferenciados, e só faz sentido depois de o hipercortisolismo estar bioquimicamente provado — se o doente estiver eucortisolémico no momento do exame, o resultado é inválido.

Hipopituitarismo: testes basais e testes dinâmicos

A regra é: para as hormonas com ritmo previsível, o doseamento basal chega; para as que exigem um estímulo, é preciso teste dinâmico.

EixoAvaliação basalTeste dinâmico e quando o usar
CorticotróficoCortisol sérico às 8-9 h (com ACTH simultâneo). Valor claramente baixo confirma; valor claramente normal-alto torna o défice improvável; zona cinzenta é frequenteHipoglicemia insulínica (ITT) é o padrão de referência, mas é o teste mais perigoso do capítulo — induz deliberadamente glicémia <40 mg/dL. Contraindicada em cardiopatia isquémica, arritmia, epilepsia ou convulsões prévias, idade avançada e, sobretudo, quando já existe insuficiência adrenal documentada ou cortisol matinal claramente baixo (o diagnóstico já está feito e a ausência de contrarregulação torna a hipoglicemia prolongada e potencialmente fatal). Requisitos: médico presente durante todo o teste, acesso venoso permanente, glicose hipertónica e hidrocortisona preparadas à cabeceira, ECG prévio. Parar e tratar de imediato perante alteração do estado de consciência, convulsão ou dor torácica, mesmo com as colheitas incompletas. Alternativas: teste do glucagon; teste do Synacthen (ACTH 250 µg) avalia a reserva suprarrenal e pode ser falsamente normal nas primeiras semanas após lesão hipofisária, porque a suprarrenal ainda não atrofiou
TirotróficoT4 livre baixa com TSH baixo ou inapropriadamente normal. Nunca uses o TSH isolado para monitorizar um doente hipofisárioNão é necessário
GonadotróficoHomem: testosterona matinal com LH/FSH. Mulher pré-menopáusica: ciclos regulares tornam o défice improvável; se amenorreia, estradiol baixo com LH/FSH baixos ou normais. Pós-menopausa: gonadotrofinas não elevadas é já anormalRaramente necessário
SomatotróficoIGF-1 baixa apoia mas normal não exclui no adultoITT (padrão de referência), teste do glucagon ou macimorelina. Se houver ≥3 outros défices hipofisários e IGF-1 baixa, muitos centros dispensam o teste
LactotróficoPRL. Baixa = destruição extensa; moderadamente alta = efeito de haste

Armadilhas a evitar no diagnóstico:

  • Doseamentos hormonais colhidos durante doença aguda ou sob corticoterapia são não interpretáveis.
  • A biotina em suplemento interfere com muitos imunoensaios (podendo falsear TSH, T4 livre e outras hormonas) — suspender vários dias antes.
  • O estrogénio oral aumenta a globulina de ligação e pode falsear o cortisol total; nessas doentes o resultado tem de ser lido com cautela.
  • Numa doente com T4 livre baixa e TSH normal, o erro comum é assumir "síndrome do doente eutiroideu" e ignorar o hipotiroidismo central.

Prolactinoma: o medicamento vence a cirurgia

Este é o ponto mais testado do capítulo, precisamente porque contraria a intuição de que um tumor grande se opera.

Primeira linha, incluindo em macroadenomas com compressão quiasmática: agonista dopaminérgico. Os lactotrofos mantêm receptores D2 funcionantes; a estimulação D2 reduz a síntese de PRL e provoca involução celular, com redução do volume tumoral na maioria dos macroprolactinomas e melhoria dos campos visuais frequentemente em dias a semanas.

FármacoNotas
CabergolinaPreferida. Maior afinidade D2, administração 1-2×/semana, melhor tolerância e maior eficácia na normalização da PRL e na redução tumoral
BromocriptinaAlternativa. Toma diária, mais náuseas e hipotensão ortostática. Mantém-se a opção com maior experiência acumulada na gravidez

Titulação lenta, toma ao deitar e com alimento para minimizar náuseas e hipotensão. Efeitos adversos a conhecer: náuseas, hipotensão ortostática, congestão nasal, e — sobretudo com doses altas e prolongadas — perturbações do controlo dos impulsos (jogo patológico, hipersexualidade, compras compulsivas), que devem ser ativamente perguntadas ao doente e à família. A preocupação com valvulopatia deriva das doses muito superiores usadas na doença de Parkinson; nas doses endocrinológicas o risco é considerado baixo, mas mantém-se vigilância ecocardiográfica em tratamentos prolongados com doses mais altas.

Monitorização: PRL às 4-6 semanas e depois periodicamente; RM de controlo em macroadenomas (tipicamente aos 3-6 meses e depois espaçada); campimetria se havia compromisso visual. Após vários anos (habitualmente ≥2-3) com PRL normal, tumor não visível ou muito reduzido e ausência de invasão, pode tentar-se a suspensão gradual, com vigilância — a recidiva é frequente, sobretudo nos macroadenomas.

Quando é que se opera um prolactinoma?

  • Intolerância ou resistência ao agonista dopaminérgico (ausência de normalização da PRL e de redução tumoral com dose máxima tolerada).
  • Apoplexia com compromisso visual.
  • Fístula de LCR — nota importante: em macroprolactinomas invasivos da base do crânio, a rápida redução tumoral induzida pelo fármaco pode desmascarar uma erosão óssea e provocar rinorreia de LCR.
  • Compressão quiasmática que não melhora sob agonista dopaminérgico. Perante défice visual, inicia-se o fármaco e repete-se a campimetria formal em 1-2 semanas (mais cedo se houver agravamento subjetivo): a resposta costuma ser evidente nesse prazo. Ausência de melhoria campimétrica ao fim de 1-2 semanas, ou qualquer agravamento do campo ou da acuidade sob tratamento, é indicação para cirurgia descompressiva sem mais atrasos — a recuperação visual é tanto menor quanto mais prolongado o défice e mais estabelecida a atrofia.
  • Preferência informada da doente com desejo de gravidez em macroadenoma volumoso, caso a caso.

Microprolactinoma assintomático numa mulher pós-menopáusica sem galactorreia: pode simplesmente vigiar-se, sem tratamento. Se o objetivo for apenas proteger o osso e restabelecer o ciclo numa mulher sem desejo de gravidez, a contraceção estroprogestativa é uma alternativa razoável ao agonista dopaminérgico em microadenomas.

Hiperprolactinemia induzida por antipsicótico: nunca suspendas o antipsicótico por tua iniciativa. Articula com a Psiquiatria a mudança para um fármaco poupador de prolactina (aripiprazol, quetiapina, olanzapina). Introduzir um agonista dopaminérgico num doente psicótico pode agravar a psicose e só se faz em concertação.


Acromegalia: a cirurgia é a primeira linha

Ao contrário do prolactinoma, aqui a lógica inverte-se.

1.ª linha — cirurgia transesfenoidal (endoscópica, por cirurgião com volume elevado). É o único tratamento potencialmente curativo e a resposta é melhor nos microadenomas e nos tumores não invasivos do seio cavernoso. Em macroadenomas invasivos as taxas de remissão são substancialmente menores, mas a redução de massa melhora a resposta subsequente ao tratamento médico. Em tumores muito volumosos, alguns centros usam análogo da somatostatina pré-operatório para facilitar a cirurgia.

2.ª linha — tratamento médico, quando a cirurgia não é curativa, não é possível ou o doente a recusa:

ClasseFármacosMecanismo e notas
Análogos da somatostatina (1.ª geração)Octreotido LAR, lanreotido autogelAgonistas dos receptores SSTR2/SSTR5 → ↓ secreção de GH e efeito antitumoral com redução do volume. Adversos: diarreia, esteatorreia, dor abdominal, litíase/lama biliar, e alguma piora da glicémia
Agonistas SSTR por via oralOctreotido oral (Mycapssa), paltusotina (Palsonify)Alternativa oral aos injetáveis. Octreotido oral sobretudo em doentes já controlados com análogo injetável; paltusotina é um agonista SSTR2 não peptídico de toma oral única diária, aprovada pela FDA em setembro de 2025 (ensaios PATHFNDR-1 e PATHFNDR-2). Perfil de adversos maioritariamente gastrintestinal
Análogo multirreceptorPasireotidoMaior afinidade SSTR5; útil em não respondedores, mas com hiperglicemia frequente e por vezes marcada
Antagonista do receptor da GHPegvisomantBloqueia o receptor periférico da GH → normaliza a IGF-1 com alta eficácia, mas não reduz o tumor e faz subir a GH sérica (por isso a monitorização é feita pela IGF-1, nunca pela GH). Vigiar transaminases e o volume tumoral por RM
Agonista dopaminérgicoCabergolinaEficácia modesta; útil como adjuvante em doentes com IGF-1 apenas ligeiramente elevada, sobretudo se houver cossecreção de PRL

3.ª linha — radioterapia (estereotáxica/radiocirurgia ou fracionada) para doença residual persistente. O efeito é lento (anos) e a complicação a longo prazo mais previsível é o hipopituitarismo progressivo, que obriga a reavaliação hormonal anual indefinidamente.

Objetivos de tratamento: IGF-1 normalizada para a idade e GH aleatória controlada, com controlo das comorbilidades (HTA, diabetes, apneia do sono, cardiomiopatia) e vigilância colonoscópica. O controlo bioquímico melhora a mortalidade, que na acromegalia não tratada é aumentada sobretudo por causa cardiovascular.


Adenoma não funcionante e doença de Cushing

Adenoma não funcionante com efeito de massa (défice visual, cefaleia, hipopituitarismo): cirurgia transesfenoidal. Sem efeito de massa e sem crescimento, vigilância (ver Situações especiais).

Doença de Cushing: cirurgia transesfenoidal seletiva é a primeira linha. Se falhar — reintervenção, radioterapia, tratamento médico (inibidores da esteroidogénese como cetoconazol, metirapona ou osilodrostat; pasireotido dirigido ao corticotrofinoma; mifepristona em contextos selecionados) e, em último recurso, suprarrenalectomia bilateral com o risco de síndrome de Nelson. O detalhe pertence ao capítulo da suprarrenal.

Após cirurgia curativa de um corticotrofinoma, o eixo suprimido demora meses a mais de um ano a recuperar: o doente sai com glicocorticoide de substituição e desmama-se lentamente, com sintomas de abstinência de esteroides que não devem ser confundidos com recidiva.


Hipopituitarismo: substituir, por esta ordem

A REGRA DE OURO

No panhipopituitarismo, repõe-se o glicocorticoide ANTES da levotiroxina.

A razão é mecanicista e tem de ficar decorada: a tiroxina acelera o metabolismo hepático do cortisol e aumenta a taxa metabólica global. Num doente com insuficiência adrenal secundária não reconhecida, iniciar levotiroxina primeiro esgota a reserva de cortisol e precipita uma crise adrenal, potencialmente fatal. Na prática: hidrocortisona primeiro (idealmente alguns dias antes), levotiroxina depois — ou, se houver urgência, ambas em simultâneo, mas nunca a tiroxina isolada.

Substituição por eixo

EixoSubstituiçãoMonitorização
ACTHHidrocortisona oral, dose fisiológica repartida (maior fração de manhã) — a menor dose que controle os sintomas. Alternativas: prednisolona. Não é necessário mineralocorticoide (a aldosterona está preservada)Clínica, não analítica: peso, tensão arterial, energia, ausência de sinais de excesso. O ACTH não serve para titular
TSHLevotiroxina, iniciada depois do glicocorticoide. Substituição plena ≈1,6 µg/kg/dia no adulto jovem sem comorbilidades; no idoso e em qualquer doente com cardiopatia isquémica conhecida ou suspeita, começar com 12,5-25 µg/dia e titular em incrementos de 12,5-25 µg a cada 4-6 semanas, vigiando angina, palpitações e arritmia — a subida abrupta do consumo miocárdico de oxigénio pode precipitar isquemia ou fibrilhação auricularT4 livre na metade superior do intervalo de referência. Nunca titular pelo TSH — está intrinsecamente baixo
LH/FSHHomem: testosterona. Mulher pré-menopáusica: estrogénio + progestativo (progestativo obrigatório se útero intacto). Se o objetivo for fertilidade, não bastam esteroides sexuais: é preciso gonadotrofinas (hCG ± FSH) ou GnRH pulsátilTestosterona sérica, hematócrito e PSA no homem; sintomas e densitometria
GHGH recombinante em adultos com défice confirmado e sintomático (composição corporal, qualidade de vida, densidade óssea). Contraindicada em neoplasia ativaIGF-1 no intervalo normal para a idade
PRLNão se substitui

Educação do doente — a parte que salva vidas

  • Cartão/pulseira de insuficiência adrenal.
  • Regras dos dias de doença (sick day rules): duplicar (ou triplicar, conforme a gravidade) a dose de glicocorticoide na doença febril intercorrente.
  • Se vómitos ou diarreia impedirem a toma oral → hidrocortisona parentérica imediata e recurso ao hospital. Todos os doentes devem ter kit de hidrocortisona injetável e saber usá-lo.
  • Dose de stress em cirurgia, trauma ou parto.
  • Reavaliação hormonal periódica indefinida em quem fez radioterapia, porque o hipopituitarismo aparece anos depois.

Erro clássico de exame: doente com hipopituitarismo conhecido, febril, hipotenso e hiponatrémico, a quem se dá soro e antibiótico mas não se dá hidrocortisona. A hidrocortisona não pode esperar pelo resultado do cortisol.

Hipopituitarismo: ordem de perda e regra de reposição Ordem típica de perda hormonal Destruição lenta e compressiva da adeno-hipófise 1 · GH somatotrofo — o primeiro a cair 2 · Gonadotrofinas (LH / FSH) amenorreia, queda da libido 3 · TSH hipotiroidismo central 4 · ACTH insuficiência adrenal secundária 5 · Prolactina a última; sobe se houver efeito de haste GH e gonadotrofinas caem primeiro — são os défices mais sensíveis. ACTH e TSH caem tarde, mas são os mais perigosos. Regra de ouro da reposição Panhipopituitarismo — por que ordem substituir Glicocorticoide SEMPRE ANTES da levotiroxina A tiroxina acelera o metabolismo hepático do cortisol e sobe a taxa metabólica. Se o défice de ACTH não foi reconhecido, esgota a reserva de cortisol e precipita uma crise adrenal, potencialmente fatal. Na prática 1. Hidrocortisona primeiro — idealmente alguns dias antes. 2. Levotiroxina só depois. Se urgente: as duas em simultâneo — nunca a tiroxina isolada. Titular a hidrocortisona pela clínica e a levotiroxina pela T4 livre — nunca pelo TSH. Não é preciso mineralocorticoide. Emergência a não esquecer: apoplexia hipofisária Cefaleia súbita em trovoada + oftalmoplegia (III) + défice visual. Hidrocortisona em dose de stress já, antes de qualquer resultado hormonal. TC na urgência para excluir HSA; a RM é superior.

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