Dislipidemias e distúrbios do metabolismo das lipoproteínas
Atualizado em 28 de setembro de 2026 · 14 perguntas neste tema
As dislipidemias são alterações da concentração das lipoproteínas do plasma: excesso de partículas que contêm ApoB (LDL, VLDL e os seus remanescentes, lipoproteína(a)), excesso de triglicéridos, ou défice de HDL. Quase todas resultam de uma predisposição poligénica somada a fatores do ambiente (dieta rica em gordura saturada, obesidade, álcool, diabetes, fármacos); uma minoria são doenças monogénicas, das quais a hipercolesterolemia familiar é a mais frequente e a mais importante.
A dislipidemia não dá sintomas: encontra-se a rastrear, ou por sinais que só aparecem nas formas graves (xantomas tendinosos, arco corneano precoce, xantomas eruptivos, soro leitoso) ou por uma complicação, que é a doença cardiovascular aterosclerótica prematura ou a pancreatite aguda. O perfil lipídico faz-se sem jejum na maioria das pessoas, e antes de rotular a doença como primária exclui-se sempre uma causa secundária, a começar pelo hipotiroidismo, a síndrome nefrótica, a colestase, a diabetes e os fármacos.
A partícula que causa a aterosclerose é a que contém ApoB, e o LDL é o alvo do tratamento. O valor a atingir não é universal: depende da categoria de risco cardiovascular, que se define pela doença já estabelecida ou por condições de alto risco e, nas pessoas aparentemente saudáveis, pelo SCORE2 ou pelo SCORE2-OP. Desde a atualização europeia de 2025 as categorias usam estes calculadores, a lipoproteína(a) mede-se uma vez na vida e acima de 50 mg/dL pesa como modificador de risco.
O tratamento assenta na estatina de alta intensidade, associada à ezetimiba, aos inibidores da PCSK9 ou ao ácido bempedoico quando não chega; depois de uma síndrome coronária aguda intensifica-se logo no internamento. Nos triglicéridos muito altos o objetivo passa a ser evitar a pancreatite. O que não se pode falhar: a hipercolesterolemia familiar, que exige tratamento precoce e rastreio em cascata da família; os triglicéridos acima de 880 mg/dL, pelo risco de pancreatite; e a fraqueza muscular sob estatina com creatina cinase muito elevada, que é rabdomiólise até prova em contrário.
- As lipoproteínas transportam no sangue lípidos pouco solúveis (triglicéridos, colesterol, vitaminas lipossolúveis). Têm um núcleo de triglicéridos e ésteres de colesterol, envolto por fosfolípidos, colesterol livre e apolipoproteínas.
- Classificam-se pela densidade, que é inversa do tamanho e do conteúdo em lípidos: quilomícrons (os maiores e mais leves), VLDL, IDL, LDL e HDL (as menores e mais densas). A lipoproteína(a) é uma LDL com uma apolipoproteína a mais.
Fenótipos
| padrão | partícula em excesso | o que importa |
|---|---|---|
| Hipercolesterolemia isolada | LDL | é o alvo terapêutico principal |
| Hipertrigliceridemia isolada | VLDL, e quilomícrons nas formas graves | nos valores muito altos o problema é a pancreatite |
| Dislipidemia mista | VLDL e LDL, ou remanescentes | diabetes, síndrome metabólica, hiperlipidemia familiar combinada, disbetalipoproteinemia |
| HDL baixo | nenhuma | marcador de risco, não é alvo terapêutico |
| Lipoproteína(a) elevada | Lp(a) | pode coexistir com um perfil convencional normal |
- Da classificação clássica por tipos ficam dois nomes: o tipo I, que é a quilomicronemia familiar, e o tipo III, que é a disbetalipoproteinemia.
- A dislipidemia é muito frequente e a maioria dos doentes tem uma combinação de predisposição poligénica com fatores do ambiente. Pelo menos metade da variação do LDL na população é genética.
As apolipoproteínas
| apolipoproteína | onde está | função |
|---|---|---|
| ApoB-48 | quilomícrons, feitos no intestino | estrutural; não liga o recetor de LDL |
| ApoB-100 | VLDL, IDL, LDL e lipoproteína(a), feitas no fígado | estrutural e ligando do recetor de LDL |
| ApoA-I | HDL | estrutural; ativa a LCAT, que esterifica o colesterol |
| ApoC-II | quilomícrons e VLDL | cofator obrigatório da lipoproteína lipase |
| ApoC-III | quilomícrons, VLDL e HDL | inibe a lipoproteína lipase |
| ApoE | remanescentes, IDL e HDL | ligando para a captação hepática dos remanescentes |
- Cada partícula de VLDL, IDL, LDL ou lipoproteína(a) leva uma única molécula de ApoB-100. Medir a ApoB é contar partículas aterogénicas, e por isso a ApoB é mais fiel do que o LDL quando os triglicéridos estão altos.
Via exógena e via endógena
- Exógena: os lípidos da dieta saem do enterócito em quilomícrons (ApoB-48) pela linfa. Nos capilares do tecido adiposo e do músculo, a lipoproteína lipase, ativada pela ApoC-II, hidrolisa os triglicéridos e liberta ácidos gordos. Os remanescentes são captados pelo fígado através da ApoE. Após 12 horas de jejum quase não há quilomícrons no plasma.
- Endógena: o fígado exporta triglicéridos em VLDL (ApoB-100). A lipoproteína lipase converte-a em IDL; parte é captada pelo fígado e o resto é transformado em LDL pela lipase hepática. Cerca de 70% da LDL é retirada pelo recetor de LDL do fígado.
O eixo do recetor de LDL e da PCSK9
- O recetor capta a LDL pela ApoB-100, liberta-a no endossoma e volta à superfície. A PCSK9 liga-se ao recetor e manda-o para o lisossoma, pelo que há menos recetores.
- Mutações da PCSK9 com ganho de função causam hipercolesterolemia familiar; com perda de função baixam o LDL 30 a 40% e protegem da doença coronária ao longo da vida.
- Estatina: inibe a HMG-CoA redutase, baixa o colesterol dentro do hepatócito e aumenta a expressão do recetor de LDL, que depura mais LDL do plasma.
- Ezetimiba: inibe o transportador NPC1L1 do enterócito e reduz a absorção de colesterol em quase 60%; o fígado responde com mais recetores.
- Resinas: sequestram os ácidos biliares no intestino; o fígado gasta colesterol a fazer ácidos biliares e aumenta os recetores, mas a produção de VLDL sobe e os triglicéridos também.
- Ácido bempedoico: inibe a ATP-citrato liase, a montante da HMG-CoA redutase. É um pró-fármaco cuja enzima de ativação não existe no músculo esquelético.
HDL e transporte reverso
- A ApoA-I recebe colesterol das células pelo transportador ABCA1, a LCAT esterifica-o, e o colesterol volta ao fígado diretamente (recetor SR-BI) ou trocado com partículas com ApoB pela CETP.
- O HDL baixo acompanha os triglicéridos altos, a obesidade e a insulinorresistência. Subir o HDL com fármacos não reduziu eventos, e é por isso que o HDL é marcador e não alvo.
Aterogénese
- As partículas com ApoB entram na parede arterial e ficam retidas na íntima, onde desencadeiam a placa. O risco depende da concentração e do tempo de exposição: é por isso que a forma familiar dá doença décadas mais cedo.
- A relação entre o LDL e os eventos é contínua. Cada redução de 1 mmol/L (cerca de 39 mg/dL) de LDL reduz os eventos vasculares major em cerca de 20% ao longo do tratamento.
Lipoproteína(a)
- É uma LDL com a apolipoproteína(a) ligada à ApoB-100, homóloga do plasminogénio. Tem efeito aterogénico, pró-inflamatório e antifibrinolítico.
- O nível é mais de 90% genético, varia com a etnia e muda pouco ao longo da vida; pode subir depois da menopausa. As estatinas não o alteram.
- Associa-se sobretudo a enfarte e a estenose aórtica.
Causas secundárias e o seu mecanismo
| causa | mecanismo | perfil |
|---|---|---|
| Hipotiroidismo | menos recetores de LDL no fígado | LDL alto |
| Síndrome nefrótica | produção hepática de VLDL aumentada | colesterol e triglicéridos altos |
| Doença renal crónica | menor lipólise e depuração dos remanescentes | triglicéridos ligeiramente altos |
| Colestase | colesterol livre regressa ao plasma como lipoproteína X | colesterol muito alto |
| Obesidade, insulinorresistência, diabetes tipo 2 | mais ácidos gordos no fígado, mais VLDL, menos lipólise | triglicéridos altos, HDL baixo, LDL pequenas e densas |
| Álcool | menos oxidação hepática de ácidos gordos | triglicéridos altos, com HDL muitas vezes alto |
| Estrogénios orais | mais VLDL e mais HDL | triglicéridos e HDL altos em simultâneo |
| Síndrome de Cushing, corticoides | mais VLDL | triglicéridos altos, HDL baixo |
| Outros fármacos | tiazidas, ciclosporina, isotretinoína, bloqueadores beta, antirretrovirais | variável |
- A dislipidemia é assintomática. Descobre-se num rastreio, numa análise por outro motivo, ou por uma complicação.
- Quando há sinais, apontam para uma causa:
| achado | onde | o que sugere |
|---|---|---|
| Xantomas tendinosos | tendão de Aquiles, dorso das mãos | hipercolesterolemia familiar |
| Arco corneano antes dos 45 anos | córnea | hipercolesterolemia familiar |
| Xantomas cutâneos na infância | mãos, punhos, cotovelos, joelhos, nádegas | forma homozigótica |
| Xantomas eruptivos | costas, nádegas, faces de extensão | quilomicronemia |
| Lipemia retiniana | vasos da retina opalescentes | triglicéridos muito altos |
| Xantomas palmares e tuberoeruptivos | pregas das palmas; cotovelos, joelhos | disbetalipoproteinemia |
| Amígdalas aumentadas cor de laranja | orofaringe | doença de Tangier |
| Opacificação da córnea | córnea | défice de LCAT |
- A apresentação clínica, quando existe, é a das complicações: doença coronária, AVC isquémico ou doença arterial periférica em idade jovem, estenose aórtica, ou dor abdominal de pancreatite aguda.
O perfil lipídico
- Colesterol total, HDL, triglicéridos e LDL. O jejum não é necessário na maioria das pessoas: sem jejum os triglicéridos sobem em média cerca de 27 mg/dL, o que raramente tem significado clínico. Na síndrome metabólica, na diabetes e na hipertrigliceridemia o LDL calculado interpreta-se com cautela.
| medida | como se obtém | quando falha |
|---|---|---|
| LDL pela fórmula de Friedewald | colesterol total menos HDL menos triglicéridos a dividir por 5, em mg/dL | não se usa com triglicéridos acima de 400 mg/dL; subestima com triglicéridos acima de 177 mg/dL e com LDL muito baixo; inválida na disbetalipoproteinemia |
| LDL medido diretamente | método enzimático | quando o calculado não é fiável |
| Colesterol não-HDL | colesterol total menos HDL | válido sem jejum e com triglicéridos altos; soma todas as partículas aterogénicas |
| ApoB | medida direta | preferível com triglicéridos altos, diabetes, obesidade ou LDL muito baixo |
- O alvo de não-HDL é o alvo de LDL mais 30 mg/dL.
Excluir a causa secundária
Antes de chamar primária a uma dislipidemia pede-se: TSH, glicemia ou hemoglobina glicada, creatinina, proteinúria e provas hepáticas; e revê-se o álcool e a medicação.
Lipoproteína(a)
- Mede-se pelo menos uma vez na vida em todos os adultos, no primeiro perfil lipídico ou no seguinte. Uma segunda medição é razoável depois da menopausa se o valor anterior estava perto do limiar.
- O risco começa a subir a partir de 30 mg/dL (62 nmol/L) e é clinicamente relevante acima de 50 mg/dL (105 nmol/L), crescendo com o valor. Acima de 180 mg/dL (430 nmol/L) o risco ao longo da vida aproxima-se do da hipercolesterolemia familiar heterozigótica.
- É prioritária na forma familiar, na doença cardiovascular prematura sem outra explicação, na história familiar de doença prematura ou de lipoproteína(a) alta, e no risco moderado perto do limiar de decisão.
Suspeitar de uma forma primária
| achado | pensar em |
|---|---|
| LDL acima de 190 mg/dL no adulto, sem causa secundária | hipercolesterolemia familiar |
| LDL acima de 400 mg/dL numa criança ou jovem | forma homozigótica |
| Triglicéridos persistentemente acima de 750 mg/dL com pancreatite | quilomicronemia familiar |
| Colesterol e triglicéridos altos em paralelo, xantomas palmares | disbetalipoproteinemia |
| Fenótipo misto que varia no doente e na família, ApoB desproporcionada ao LDL | hiperlipidemia familiar combinada |
| Hipercolesterolemia grave com pais normais | formas recessivas: sitosterolemia, hipercolesterolemia autossómica recessiva, défice de lipase ácida lisossómica |
| LDL abaixo de 60 mg/dL num adulto saudável | hipolipidemia hereditária |
Estimar o risco antes de olhar para o LDL
- Nas pessoas com doença aterosclerótica, diabetes, doença renal crónica, forma familiar ou hipertensão grave, a categoria define-se pela própria condição e não se usa calculadora.
- Nas pessoas aparentemente saudáveis usa-se o SCORE2 (40 a 69 anos) ou o SCORE2-OP (70 a 89 anos): estimam o risco de eventos cardiovasculares fatais e não fatais a 10 anos, usam o colesterol não-HDL, e estão calibrados para quatro grupos de países; Portugal está no grupo de risco moderado.
- Na diabetes tipo 2 sem doença aterosclerótica usa-se o SCORE2-Diabetes.
- Os calculadores não servem para quem já tem doença aterosclerótica nem para quem já faz hipolipemiante, e não se recalcula o risco com o perfil lipídico obtido sob tratamento.
As categorias de risco (atualização europeia de 2025)
| categoria | quem |
|---|---|
| Muito alto | doença aterosclerótica documentada, clínica ou inequívoca em imagem (placa significativa em coronariografia, angio-TC ou ecografia carotídea ou femoral, índice de cálcio coronário muito alto, por exemplo acima de 300); diabetes com lesão de órgão (microalbuminúria, retinopatia ou neuropatia), ou com três ou mais fatores de risco major, ou tipo 1 de início precoce com mais de 20 anos de duração; TFG abaixo de 30 mL/min/1,73 m²; forma familiar com doença aterosclerótica ou com outro fator major; SCORE2 ou SCORE2-OP de 20% ou mais |
| Alto | colesterol total acima de 310 mg/dL, LDL acima de 190 mg/dL ou pressão arterial de 180/110 mmHg ou mais; forma familiar sem outro fator major; diabetes sem lesão de órgão com 10 ou mais anos de duração ou outro fator de risco; TFG de 30 a 59; SCORE2 ou SCORE2-OP de 10% a menos de 20% |
| Moderado | diabetes em jovens (tipo 1 abaixo dos 35 anos, tipo 2 abaixo dos 50) com menos de 10 anos de duração e sem outros fatores; SCORE2 ou SCORE2-OP de 2% a menos de 10% |
| Baixo | SCORE2 ou SCORE2-OP abaixo de 2% |
Modificadores de risco
Pesam sobretudo no risco moderado e perto dos limiares de decisão, e podem reclassificar para cima:
- história familiar de doença cardiovascular prematura (homem abaixo dos 55 anos, mulher abaixo dos 60);
- lipoproteína(a) acima de 50 mg/dL e proteína C reativa de alta sensibilidade persistentemente acima de 2 mg/L;
- doença inflamatória crónica imunomediada, infeção por VIH, doença psiquiátrica major, menopausa precoce, pré-eclâmpsia ou outra doença hipertensiva da gravidez, apneia obstrutiva do sono, obesidade, sedentarismo, privação social;
- aterosclerose subclínica em imagem ou índice de cálcio coronário elevado. Um índice zero associa-se a risco baixo nas pessoas de risco baixo a moderado. A imagem não é exame de rastreio, e sob estatina o cálcio pode subir por estabilização da placa.
Estilo de vida
- Eliminar as gorduras trans e substituir as saturadas por insaturadas; saturadas abaixo de 10% da energia total, e abaixo de 7% se houver hipercolesterolemia. Trocar amidos refinados e açúcares simples por alimentos ricos em fibra.
- Para os triglicéridos: reduzir o álcool, os açúcares simples e o peso, e fazer exercício aeróbio.
- O exercício pouco baixa o LDL, mas traz benefício cardiovascular próprio.
- Os fitoesteróis (até 2 g por dia) baixam o LDL cerca de 10%, sem prova de redução de eventos. Suplementos e vitaminas sem eficácia e segurança demonstradas não se recomendam para reduzir o risco (arroz vermelho fermentado, alho, óleo de peixe de venda livre e outros).
Os alvos
| categoria | LDL | não-HDL | ApoB |
|---|---|---|---|
| Muito alto | abaixo de 55 mg/dL e redução de pelo menos 50% | abaixo de 85 | abaixo de 65 |
| Alto | abaixo de 70 mg/dL e redução de pelo menos 50% | abaixo de 100 | abaixo de 80 |
| Moderado | abaixo de 100 mg/dL | abaixo de 130 | abaixo de 100 |
| Baixo | abaixo de 116 mg/dL | sem alvo definido | sem alvo definido |
- No risco alto e muito alto o alvo é duplo: o valor absoluto e a redução relativa desde o basal.
- LDL abaixo de 40 mg/dL pode considerar-se em quem tem eventos vasculares recorrentes sob estatina na dose máxima tolerada e na doença polivascular (coronária e periférica, por exemplo).
- Os alvos da atualização de 2025 são os de 2019; o que mudou foi a forma de chegar à categoria.
Quando iniciar fármaco em prevenção primária
| categoria | fármaco recomendado | fármaco a considerar |
|---|---|---|
| Muito alto | LDL de 70 mg/dL ou mais | LDL de 55 a 69 |
| Alto | LDL de 100 ou mais | LDL de 70 a 99 |
| Moderado | LDL de 100 a 189 | |
| Baixo | LDL de 116 a 189 |
Sempre depois de otimizar o estilo de vida. Na prevenção secundária, o fármaco inicia-se em simultâneo com o estilo de vida, seja qual for o LDL.
Estatinas
- Alta intensidade, com redução esperada de cerca de 50%: atorvastatina 40 a 80 mg e rosuvastatina 20 a 40 mg. Recomenda-se a estatina de alta intensidade até à dose máxima tolerada para chegar ao alvo.
- Regra dos 6%: duplicar a dose acrescenta apenas cerca de 6% de redução. Associar rende mais do que titular.
- O benefício é de classe e depende da redução absoluta do LDL. As estatinas também baixam os triglicéridos em proporção.
- Não trazem benefício na hemodiálise nem na insuficiência cardíaca como indicação isolada.
O escalonamento
- Estilo de vida, em todos e em simultâneo.
- Estatina de alta intensidade até à dose máxima tolerada.
- Reavaliar o perfil 4 a 6 semanas depois de iniciar ou mudar.
- Fora do alvo: ezetimiba.
- Ainda fora do alvo no risco muito alto ou alto: inibidor da PCSK9, ou ácido bempedoico. A escolha depende de quanto falta baixar, da preferência do doente, da disponibilidade e do custo.
As outras moléculas
| fármaco | mecanismo | redução do LDL | o que reter |
|---|---|---|---|
| Ezetimiba 10 mg | inibe o NPC1L1 | cerca de 18 a 20% | primeira associação; em monoterapia só na intolerância à estatina e na sitosterolemia |
| Anticorpos anti-PCSK9 (evolocumab, alirocumab) | bloqueiam a PCSK9 circulante | 50 a 60% | subcutâneos a cada 2 a 4 semanas; reduzem eventos; baixam ligeiramente a lipoproteína(a) |
| Inclisirano | pequeno ARN de interferência que impede a síntese de PCSK9 | cerca de 50% | subcutâneo, espaçado; estudos de eventos em curso |
| Ácido bempedoico 180 mg | inibe a ATP-citrato liase | cerca de 23% isolado, 18% sobre estatina, 38% com ezetimiba | recomendado em quem não pode tomar estatina; reduz eventos cerca de 13%; sobe o ácido úrico (cautela na gota) |
| Resinas (colestiramina, colesevelam) | sequestram ácidos biliares | moderada | não absorvidas; sobem os triglicéridos; causam obstipação e distensão |
Síndrome coronária aguda
- É sempre risco muito alto. A estratégia é baixar cedo e muito: o risco de novo evento é maior no primeiro ano, e a subida gradual por degraus atrasava o alvo até 12 semanas.
- Quem já fazia hipolipemiante: intensificar durante o próprio internamento.
- Quem não fazia: estatina de alta intensidade logo no internamento e, se é previsível que sozinha não chegue ao alvo, associar ezetimiba antes da alta.
- Reavaliar às 4 a 6 semanas e manter o tratamento para toda a vida.
Monitorização
- Perfil lipídico 4 a 6 semanas depois de cada mudança, e depois periodicamente.
- Transaminases antes de iniciar. A monitorização por rotina já não se recomenda; subidas até 3 vezes o limite superior sem sintomas não obrigam a parar.
- Creatina cinase antes de iniciar; não se monitoriza por rotina, e mede-se se houver sintomas musculares.
- Perante falha aparente, pensar primeiro em má adesão.
Doença cardiovascular aterosclerótica
- Doença coronária, AVC isquémico e doença arterial periférica. A lipoproteína(a) acrescenta risco de enfarte e de estenose aórtica.
Efeitos adversos das estatinas
| quadro | clínica | creatina cinase | conduta |
|---|---|---|---|
| Mialgia | dor sem fraqueza | normal | não obriga a parar; reavaliar, mudar de estatina ou de dose |
| Miopatia | dor com fraqueza | elevada | se abaixo de 10 vezes o limite e com sintomas, suspender até normalizar e reintroduzir em dose mais baixa |
| Rabdomiólise | fraqueza, urina escura, lesão renal | acima de 10 vezes o limite, muitas vezes acima de 40 | suspender, avaliar a função renal, vigiar a creatina cinase |
| Miopatia necrosante imunomediada | fraqueza que se mantém depois de parar | elevada | anticorpos anti-HMG-CoA redutase |
- A rabdomiólise é rara (1 a 3 casos por 100 000 doentes-ano). Nos ensaios cegos contra placebo as queixas musculares são pouco ou nada mais frequentes com estatina do que com placebo.
- Se a creatina cinase basal já está acima de 4 vezes o limite, não se inicia e repete-se.
- Aumentam o risco muscular: idade avançada, fragilidade, insuficiência renal e fármacos que interferem com o metabolismo da estatina.
- Fígado: a insuficiência hepática por estatina é excecional; a esteatose não é contraindicação e não piora.
- Diabetes de novo: pequeno excesso, maior com estatinas potentes em dose alta, no idoso e com excesso de peso ou insulinorresistência, largamente superado pelo benefício cardiovascular.
- Não aumentam o risco de cancro, e não se demonstrou efeito sobre a demência.
Interações
- Sinvastatina, lovastatina e atorvastatina dependem do CYP3A4. Fluvastatina, pravastatina, pitavastatina e rosuvastatina têm menos interações.
- Inibidores relevantes do CYP3A4: claritromicina, antifúngicos azólicos, inibidores da protease do VIH, ciclosporina (que sobe todas as estatinas), verapamilo, diltiazem, amiodarona e sumo de toranja.
- Genfibrozil com estatina evita-se, pelo risco de miopatia; se for preciso um fibrato, usa-se o fenofibrato.
Idoso
- As estatinas previnem eventos também acima dos 75 anos. Na prevenção secundária trata-se como no adulto mais novo.
- Com insuficiência renal ou risco de interações, começa-se em dose baixa e titula-se até ao alvo.
Doença renal crónica
- TFG de 30 a 59: alto risco; abaixo de 30 ou em diálise: muito alto.
- Na doença não dialítica, estatina ou estatina com ezetimiba.
- Em diálise não se inicia estatina, porque os ensaios não mostraram benefício; quem já a fazia ao entrar em diálise pode continuar.
- No transplantado, atenção à ciclosporina.
Diabetes
- Categoria pela duração, pela lesão de órgão e pelos outros fatores. Usar não-HDL e ApoB, porque o LDL subestima as partículas pequenas e densas.
- Estatina não se recomenda à mulher com diabetes que planeia engravidar ou não usa contraceção eficaz.
Mulher e gravidez
- Não se usam hipolipemiantes na gravidez nem na amamentação, por falta de dados de segurança; as resinas podem considerar-se.
- Na mulher com LDL acima de 160 mg/dL ou com vários fatores de risco recomenda-se outro método em vez da contraceção oral.
- A terapêutica hormonal da menopausa não é prevenção cardiovascular.
Infeção por VIH
- O risco cardiovascular é cerca do dobro e as equações convencionais subestimam-no.
- Estatina para todas as pessoas com VIH a partir dos 40 anos em prevenção primária, seja qual for o risco estimado e o LDL (atualização de 2025). A escolha da estatina faz-se pelas interações com os antirretrovirais: a pitavastatina 4 mg não interagiu.
Doente oncológico
- Com risco alto ou muito alto de cardiotoxicidade por antraciclinas, considera-se estatina para reduzir a disfunção ventricular.
- Doença autossómica codominante com LDL muito alto desde o nascimento, por menor depuração hepática da LDL.
- Heterozigótica: cerca de 1 em 250 a 300 pessoas, uma das doenças monogénicas mais frequentes; só uma pequena fração está diagnosticada e tratada. Mais frequente em populações fundadoras.
- Homozigótica: cerca de 1 em 300 000.
- Cada filho e cada irmão de um doente heterozigótico tem 50% de probabilidade de a ter.
| gene | defeito | nota |
|---|---|---|
| LDLR | recetor de LDL com menos função | a grande maioria dos casos |
| APOB | ApoB-100 com menor afinidade para o recetor | ApoB defeituosa familiar |
| PCSK9 | ganho de função, mais degradação do recetor | rara |
- Com menos recetores, a LDL sai do plasma mais devagar e a IDL também, pelo que ainda se forma mais LDL. O LDL sobe até a produção igualar a depuração residual.
- Os homozigóticos, ou heterozigóticos compostos, têm LDL de cerca de 400 a mais de 1000 mg/dL: os que não têm recetor funcional ficam no topo e quase não respondem a estatina nem a inibidores da PCSK9, porque ambos atuam aumentando recetores.
- Formas recessivas a considerar quando os pais têm colesterol normal: hipercolesterolemia autossómica recessiva (proteína adaptadora do recetor), sitosterolemia (ABCG5 ou ABCG8, absorção excessiva de esteróis vegetais) e défice de lipase ácida lisossómica.
Heterozigótica
- LDL de cerca de 190 a 400 mg/dL com triglicéridos em regra normais.
- Xantomas tendinosos (Aquiles, dorso das mãos) e arco corneano, em alguns doentes e não em todos.
- Sem tratamento, cerca de metade dos homens tem um enfarte antes dos 60 anos; as mulheres também têm risco muito aumentado.
- História familiar de hipercolesterolemia ou de doença coronária prematura, do lado de onde veio a mutação.
Homozigótica
- Xantomas cutâneos na infância (mãos, punhos, cotovelos, joelhos, calcanhares, nádegas).
- Aterosclerose acelerada que começa na raiz da aorta, com estenose aórtica valvular ou supravalvular e estenose dos óstios coronários; morte súbita não é rara. Sem tratamento, os que não têm recetor funcional raramente passam da segunda década.
Sitosterolemia
- Hipercolesterolemia grave, xantomas e aterosclerose prematura, com hemólise, esplenomegalia e macrotrombócitos. Responde mal à estatina e bem à dieta, às resinas e à ezetimiba.
Quando pensar
- Doença coronária antes dos 55 anos no homem ou dos 60 na mulher.
- Familiares com doença cardiovascular prematura ou com xantomas tendinosos.
- LDL acima de 190 mg/dL no adulto; na criança, acima de 175 mg/dL, ou 135 com história familiar e 115 com variante conhecida num progenitor.
- Familiares em primeiro grau de um doente.
Como se confirma
- O diagnóstico é clínico: LDL muito alto sem causa secundária (excluir hipotiroidismo, síndrome nefrótica e colestase), com história familiar de hipercolesterolemia ou de doença prematura, e sinais físicos.
- Os critérios da rede holandesa de clínicas de lípidos somam pontos pela história familiar, pela história pessoal de doença prematura, pelos xantomas e pelo arco corneano, pelo valor de LDL e pela mutação; usa-se um sistema de forma consistente.
- A sequenciação de LDLR, APOB e PCSK9 confirma, facilita o rastreio em cascata e identifica quem tem mais risco do que o LDL faria prever. Um teste genético negativo não exclui a forma clínica.
- Forma homozigótica: suspeitar numa criança ou jovem com LDL acima de 400 mg/dL sem causa secundária, sobretudo com xantomas cutâneos e ambos os pais com hipercolesterolemia.
- Medir a lipoproteína(a), que agrava o risco.
Diagnóstico diferencial
| entidade | o que a distingue |
|---|---|
| Hipercolesterolemia poligénica | LDL moderadamente alto, sem padrão dominante na família |
| Hipotiroidismo, síndrome nefrótica, colestase | a causa secundária, que se procura antes |
| Hiperlipidemia familiar combinada | triglicéridos também altos, fenótipo variável, sem xantomas tendinosos |
| Formas recessivas | pais com colesterol normal |
- Rastreio em cascata: a partir do caso índice, testam-se os familiares em primeiro grau e depois o círculo seguinte, com teste genético dirigido à variante quando é conhecida. É a forma mais eficaz de encontrar doentes, porque metade dos familiares em primeiro grau está afetada.
- Rastreio na criança: o diagnóstico faz-se idealmente entre 1 e 10 anos, e o desempenho do LDL é ótimo entre 1 e 9 anos. Pode ser em cascata ou universal, a uma idade definida.
- A criança diagnosticada leva ao rastreio dos pais (rastreio inverso).
- Na forma homozigótica o diagnóstico deve fazer-se entre o nascimento e os 2 anos.
Heterozigótica no adulto
- Sem doença nem outro fator major é alto risco: alvo de LDL abaixo de 70 mg/dL e redução de pelo menos 50%. Com doença aterosclerótica ou outro fator major é muito alto: abaixo de 55 mg/dL e redução de pelo menos 50%.
- A calculadora de risco não se aplica.
- Dieta pobre em saturadas e trans, mas o fármaco é sempre necessário: estatina potente, depois ezetimiba, e inibidor da PCSK9 se não chegar. O inibidor da PCSK9 também se recomenda a quem não tolera estatina.
- O estilo de vida nunca adia o fármaco.
Homozigótica
- Começar o mais cedo possível; alvo de LDL de 115 mg/dL ou menos desde o diagnóstico na criança.
- Tentar estatina, ezetimiba e inibidor da PCSK9, que ajudam quem tem recetor residual.
- Evinacumab (anticorpo anti-ANGPTL3, reduz o LDL perto de 50% por uma via que não depende do recetor): considerar a partir dos 5 anos quando o alvo não se atinge.
- Aférese de LDL quando o LDL se mantém alto apesar da terapêutica máxima; o transplante hepático é o último recurso.
Criança e adolescente (consenso europeu de 2026)
| situação | LDL que leva a investigar ou tratar |
|---|---|
| Sem história familiar nem variante conhecida | acima de 175 mg/dL |
| História familiar de doença prematura ou pai ou mãe com colesterol alto | acima de 135 mg/dL |
| Pai ou mãe com variante confirmada | acima de 115 mg/dL |
- Estatina idealmente a partir dos 6 anos, e o mais tardar aos 10, na heterozigótica. Iniciar aos 6 anos em vez de aos 18 atrasa em cerca de uma década a idade em que se acumula a exposição que dá doença.
- Alvos: 135 mg/dL ou menos dos 6 aos 9 anos (115 se houver fatores de risco major) e 115 mg/dL ou menos dos 10 aos 17.
- Os fitoesteróis podem acrescentar-se a partir dos 6 anos.
Gravidez
- Não se usam hipolipemiantes na gravidez nem na amamentação, e a estatina evita-se quando se planeia engravidar; as resinas podem considerar-se.
- Os triglicéridos associam-se ao risco cardiovascular independentemente do LDL, porque os remanescentes das partículas ricas em triglicéridos também são aterogénicos.
- Acima de 880 mg/dL (10 mmol/L) o risco de pancreatite é clinicamente significativo, e a prevenção da pancreatite passa a ser o objetivo; pode haver pancreatite entre 440 e 880 mg/dL.
- A maioria das hipertrigliceridemias graves é poligénica com fatores secundários; a quilomicronemia monogénica é rara.
| doença | frequência | transmissão |
|---|---|---|
| Hiperlipidemia familiar combinada | cerca de 1 em 100 a 200 | poligénica |
| Disbetalipoproteinemia | cerca de 1 em 10 000 | em regra recessiva, genótipo ApoE2/E2 |
| Quilomicronemia familiar | cerca de 1 em 1 milhão | autossómica recessiva |
- Produção excessiva de VLDL: dieta rica em hidratos de carbono, álcool, obesidade e insulinorresistência, síndrome nefrótica, síndrome de Cushing e a hiperlipidemia familiar combinada.
- Lipólise diminuída: défice de lipoproteína lipase, de ApoC-II, de ApoA-V ou de GPIHBP1 (a proteína que ancora a enzima ao endotélio), na quilomicronemia familiar; a insulinorresistência reduz também a lipólise.
- Depuração de remanescentes diminuída: a ApoE2 liga-se mal aos recetores, e os remanescentes acumulam-se na disbetalipoproteinemia. Só uma minoria dos homozigóticos E2/E2 (cerca de 0,5% da população) tem a doença: é preciso um segundo fator, como diabetes, obesidade, hipotiroidismo, álcool ou défice de estrogénios.
- Com triglicéridos altos, a troca de lípidos entre partículas dá HDL baixo e LDL pequenas e densas, a dislipidemia aterogénica da diabetes tipo 2.
Quilomicronemia
- Dor abdominal recorrente por pancreatite aguda, na infância ou no adulto.
- Xantomas eruptivos: pápulas amarelo-esbranquiçadas em grupos nas costas, nádegas e faces de extensão dos membros.
- Lipemia retiniana e hepatoesplenomegalia.
- O plasma é turvo; deixado em repouso, os quilomícrons sobem e formam uma camada cremosa.
- A doença coronária prematura não é típica da quilomicronemia monogénica.
Disbetalipoproteinemia
- Adulto, raramente antes da menopausa na mulher.
- Colesterol e triglicéridos elevados em grau semelhante; HDL normal ou baixo.
- Xantomas palmares (coloração amarelo-alaranjada das pregas das palmas e dos punhos) e tuberoeruptivos (cotovelos, joelhos, nádegas), quase patognomónicos.
- Doença coronária e sobretudo doença arterial periférica prematuras.
Hiperlipidemia familiar combinada
- Na mesma família e no mesmo doente, ao longo do tempo, alterna LDL alto, triglicéridos altos, ou os dois. Associa-se a doença coronária prematura: cerca de 20% dos doentes com doença coronária antes dos 60 anos têm esta forma.
Hipertrigliceridemia familiar
- Triglicéridos altos com LDL normal ou baixo, HDL baixo e ApoB normal. O risco coronário não está claramente aumentado; o problema é a pancreatite quando se somam fatores secundários.
- Glicemia em jejum sempre que os triglicéridos estão altos, e as restantes causas secundárias (TSH, creatinina, proteinúria, provas hepáticas, álcool, estrogénios, corticoides, retinoides).
| doença | como se reconhece |
|---|---|
| Quilomicronemia familiar | triglicéridos quase sempre acima de 1000 mg/dL, persistentes, com pancreatite; suspeitar acima de 750 mg/dL. Diagnóstico clínico; a atividade da lipoproteína lipase após heparina e a genética confirmam |
| Disbetalipoproteinemia | colesterol e triglicéridos altos em paralelo; LDL real baixo; confirma-se pelo genótipo ApoE2/E2 ou pelo excesso de remanescentes. A fórmula de Friedewald não é válida |
| Hiperlipidemia familiar combinada | triglicéridos de 200 a 600 e colesterol de 200 a 400 mg/dL, HDL abaixo de 40 no homem e de 50 na mulher, ApoB alta, desproporcionada ao LDL, história familiar de dislipidemia ou doença prematura |
| Hipertrigliceridemia familiar | triglicéridos altos, ApoB normal, familiares com o mesmo padrão |
Triglicéridos muito altos: prevenir a pancreatite
- Eliminar o álcool, reduzir a gordura da dieta (menos quilomícrons) e os açúcares simples, perder peso, exercício, controlar a diabetes, rever fármacos.
- Se os triglicéridos se mantêm acima de 500 mg/dL apesar disso: fibrato ou ácidos gordos ómega 3 em dose alta (3 a 4 g por dia).
- Quilomicronemia familiar: gordura muito restrita (até cerca de 15 g por dia) com suplementos de vitaminas lipossolúveis e apoio de nutricionista; os fibratos rendem pouco. Volanesorsen (oligonucleótido antissentido contra a ApoC-III), 300 mg por semana, considera-se com triglicéridos acima de 750 mg/dL para baixar os triglicéridos e o risco de pancreatite; exige vigiar as plaquetas. No défice de ApoC-II, o plasma fresco congelado fornece o cofator na fase aguda.
- Na pancreatite hipertrigliceridémica aguda, a insulina endovenosa corrige muitas vezes a hipertrigliceridemia.
Triglicéridos moderados: reduzir o risco cardiovascular
- A estatina é o fármaco de primeira escolha para reduzir o risco no doente de alto risco com triglicéridos altos.
- Icosapento de etilo (éster purificado do ácido eicosapentaenoico), 2 g duas vezes por dia, associado a estatina, considera-se no doente de risco alto ou muito alto com triglicéridos em jejum de 135 a 499 mg/dL. As misturas de ácido eicosapentaenoico com docosa-hexaenoico não reduziram eventos, e os suplementos de venda livre não são equivalentes.
- Fenofibrato ou bezafibrato podem considerar-se, mas os fibratos não reduziram eventos major em doentes sob estatina e não servem para baixar o LDL.
- Fibratos: aumentam a litíase biliar, podem subir a creatinina (cautela na doença renal) e potenciam a varfarina.
Disbetalipoproteinemia e hiperlipidemia combinada
- Tratar os fatores agravantes; ambas respondem à dieta e à perda de peso. Estatina em primeira linha; na disbetalipoproteinemia também ezetimiba, fibratos e inibidores da PCSK9 quando não chega.
- Pancreatite aguda: a hipertrigliceridemia causa 1 a 4% dos casos, e até cerca de 10% nalgumas séries; os triglicéridos estão em regra acima de 1000 mg/dL, e muitos doentes têm diabetes não diagnosticada ou descontrolada. Depois do episódio, a prevenção é manter os triglicéridos abaixo de 500 mg/dL.
- Doença cardiovascular na hiperlipidemia familiar combinada e na disbetalipoproteinemia, esta com predomínio periférico.
- Na gravidez a produção de VLDL aumenta, e a quilomicronemia é particularmente difícil de controlar.
- LDL abaixo de 60 mg/dL num adulto saudável, sem desnutrição nem doença crónica grave, sugere uma causa hereditária.
- HDL baixo é muito frequente e quase sempre secundário: obesidade, insulinorresistência, triglicéridos altos, tabagismo, alguns fármacos. É um bom marcador de risco, mas não é alvo de tratamento.
- As formas hereditárias de HDL muito baixo são raras e muitas vezes não aumentam claramente o risco aterosclerótico.
| doença | defeito | o que a identifica |
|---|---|---|
| Abetalipoproteinemia | MTP (proteína de transferência de triglicéridos), recessiva | lípidos muito baixos, sem ApoB; diarreia e atraso de crescimento na infância; défice de vitamina E com ataxia e retinopatia pigmentar; pais com lípidos normais |
| Hipobetalipoproteinemia familiar | ApoB truncada | LDL e ApoB baixos, esteatose; na forma homozigótica os pais têm LDL baixo |
| Défice de PCSK9 | perda de função | LDL baixo e menos doença coronária |
| Doença de Tangier | ABCA1 | HDL e ApoA-I abaixo de 5 mg/dL, amígdalas cor de laranja, hepatoesplenomegalia, neuropatia |
| Défice de LCAT | LCAT | HDL abaixo de 10 mg/dL, opacificação da córnea; na forma completa, anemia hemolítica e doença renal progressiva |
- A abetalipoproteinemia trata-se com dieta pobre em gordura e vitamina E em dose alta, o mais cedo possível, para evitar a lesão neurológica.
Referências
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- Mach F, Baigent C, Catapano AL, Koskinas KC, Casula M, Badimon L, et al. 2019 ESC/EAS Guidelines for the management of dyslipidaemias: lipid modification to reduce cardiovascular risk. Eur Heart J. 2020;41(1):111-88.
- Visseren FLJ, Mach F, Smulders YM, Carballo D, Koskinas KC, Bäck M, et al. 2021 ESC Guidelines on cardiovascular disease prevention in clinical practice. Eur Heart J. 2021;42(34):3227-337.
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- Conwell DL, Banks PA, Greenberger NJ. Acute and chronic pancreatitis. In: Jameson JL, Fauci AS, Kasper DL, Hauser SL, Longo DL, Loscalzo J, editors. Harrison's principles of internal medicine. 21st ed. New York: McGraw-Hill; 2022. Cap. 348.
- Disorders of lipid metabolism. In: Wing EJ, Schiffman FJ, editors. Cecil essentials of medicine. 10th ed. Philadelphia: Elsevier; 2022. Cap. 71.
- Grundy SM, Stone NJ, Bailey AL, Beam C, Birtcher KK, Blumenthal RS, et al. 2018 AHA/ACC/AACVPR/AAPA/ABC/ACPM/ADA/AGS/APhA/ASPC/NLA/PCNA Guideline on the Management of Blood Cholesterol. Circulation. 2019;139(25):e1082-143.
14 perguntas sobre Dislipidemias e distúrbios do metabolismo das lipoproteínas
Ler consolida, treinar é o que fixa. Cada pergunta tem justificação alínea a alínea, no formato da Prova Nacional de Acesso.
Criar conta e treinar