Diabetes mellitus
Atualizado em 28 de setembro de 2026 · 51 perguntas neste tema
A diabetes mellitus é a hiperglicemia crónica por defeito na secreção de insulina, na sua ação, ou em ambas. A tipo 2 é cerca de 90% dos casos e nasce da resistência à insulina com falência progressiva da célula beta; a tipo 1, 5 a 10%, é a destruição autoimune dos ilhéus, com défice absoluto e necessidade de insulina desde o primeiro dia. Em Portugal atinge 14,2% dos adultos entre os 20 e os 79 anos, e quase metade não sabe que a tem.
A tipo 1 estreia com poliúria, polidipsia e emagrecimento, muitas vezes já em cetoacidose; a tipo 2 é quase sempre silenciosa e encontra-se em análises. O diagnóstico faz-se com jejum de 126 mg/dL, prova de tolerância às 2 horas de 200, HbA1c de 6,5% ou glicemia ocasional de 200 com sintomas, e no doente assintomático confirma-se sempre. A hiperglicemia intermédia é onde a norma portuguesa e o critério internacional divergem.
Na tipo 2 o tratamento assenta no estilo de vida e num fármaco escolhido pelo coração, pelo rim e pelo peso, e não só pela glicemia: com doença cardiovascular, insuficiência cardíaca ou doença renal, o inibidor do SGLT2 ou o agonista do recetor do GLP-1 entram seja qual for a HbA1c. A tipo 1 trata-se com insulina em esquema basal-bólus ou bomba, cada vez mais com sistemas automatizados. A tensão, os lípidos e o tabaco tratam-se ao mesmo tempo, porque é o pacote que reduz os eventos macrovasculares.
As complicações agudas são a cetoacidose, o estado hiperosmolar e a hipoglicemia; as crónicas atingem a retina, o rim, o nervo, o pé e as grandes artérias, e rastreiam-se desde o diagnóstico na tipo 2 e aos 5 anos na tipo 1. O que não se pode falhar: diagnosticar sem confirmação, esquecer que a cetoacidose pode ser euglicémica, dar insulina com potássio abaixo de 3,5, parar a insulina quando a glicemia desce em vez de juntar glicose, e suspender a insulina basal na tipo 1 em dia de doença.
Grupo de doenças metabólicas com hiperglicemia crónica, por defeito na secreção de insulina, na sua ação, ou em ambas. A norma portuguesa reconhece quatro tipos clínicos, etiologicamente distintos.
| Tipo 1 | Tipo 2 | Gestacional | Outros tipos específicos | |
|---|---|---|---|---|
| Defeito | destruição das células beta, autoimune na maioria e idiopática numa minoria | resistência à insulina com falência progressiva da célula beta | as células beta não compensam a resistência à insulina da gravidez | processo etiopatogénico identificado |
| Défice de insulina | absoluto | relativo | relativo | variável |
| Peso no total | 5 a 10% | cerca de 90% | detetada pela primeira vez na gravidez | raros |
| Quem | sobretudo infância e adolescência, mas surge em qualquer idade | adulto com obesidade, sobretudo abdominal, hipertensão e dislipidemia | grávida, em regra no segundo ou terceiro trimestre | conforme a causa |
| Descompensação típica | cetoacidose, muitas vezes a primeira manifestação | estado hiperosmolar | hiperglicemia fetal e macrossomia | variável |
- A diabetes autoimune de instalação lenta no adulto é uma tipo 1: a classificação internacional põe dentro da tipo 1 toda a diabetes por destruição autoimune da célula beta, seja qual for a idade.
- A tipo 2 é clinicamente silenciosa na maioria dos casos e é encontrada em análises de rotina ou num internamento por outra causa.
Em Portugal
- Prevalência estimada de 14,2% entre os 20 e os 79 anos em 2024, cerca de 1,2 milhões de pessoas; em 44% a doença ainda não estava diagnosticada.
- A hiperglicemia intermédia atinge cerca de 28,8% da mesma faixa etária, e mais de metade só é identificada pela prova de tolerância à glicose oral.
- A diabetes é a grande causa de doença renal crónica terminal, de amputação não traumática dos membros inferiores e de perda de visão evitável no adulto.
O que a insulina faz
- É a hormona anabólica: leva o transportador GLUT4 à membrana do músculo e do tecido adiposo, aumentando a captação de glicose; trava a produção hepática de glicose, que é o que segura a glicemia em jejum; estimula a lipogénese e trava a lipólise.
- O glucagon é o seu antagonista. Na diabetes há insulina a menos, em quantidade ou em eficácia, muitas vezes com glucagon a mais.
Tipo 1
- Predisposição genética, sobretudo pelos haplótipos HLA DR3 e DR4, e um desencadeante ambiental ainda mal definido.
- A destruição dos ilhéus é feita por linfócitos T, incluindo citotoxicidade direta por linfócitos T CD8. Os autoanticorpos (anti-descarboxilase do ácido glutâmico, GAD65; anti-IA-2; anti-insulina; anti-transportador de zinco 8, ZnT8) são marcadores do processo autoimune, não os seus efetores.
- Os sintomas só aparecem quando está perdida uma fração grande da massa beta, 70 a 90% conforme as séries, e é por isso que a estreia parece súbita numa doença que levou anos. Uma infeção ou a puberdade, ao aumentar as necessidades de insulina, costumam precipitá-la.
- Depois do diagnóstico pode surgir uma fase de lua de mel, com necessidades baixas de insulina, que dura semanas a um ano e não é cura: mantém-se a insulina em dose baixa.
Tipo 2
A sequência explica porque é que o diagnóstico chega tarde:
- Resistência à insulina, sobretudo por obesidade visceral e sedentarismo.
- Hiperinsulinemia compensatória, com glicemia ainda normal.
- As células beta deixam de compensar e sobe primeiro a glicemia pós-prandial (tolerância diminuída à glicose).
- Cai mais a secreção, sobe a produção hepática de glicose e sobe a glicemia em jejum.
- Diabetes estabelecida, com falência beta progressiva.
- A insulina residual chega para travar a cetogénese, e por isso a descompensação típica é o estado hiperosmolar e não a cetoacidose.
- Glucotoxicidade e lipotoxicidade: a hiperglicemia crónica e os ácidos gordos livres elevados pioram a função dos ilhéus. Melhorar o controlo melhora muitas vezes a função beta.
Os oito defeitos e o fármaco que responde a cada um
| Órgão | Alteração | Onde atuam os fármacos |
|---|---|---|
| Célula beta | secreção de insulina diminuída | sulfonilureias, agonistas do recetor do GLP-1 |
| Célula alfa | glucagon aumentado | agonistas do recetor do GLP-1, inibidores da DPP-4 |
| Fígado | produção de glicose aumentada | metformina, pioglitazona |
| Músculo | captação de glicose diminuída | exercício, pioglitazona |
| Tecido adiposo | lipólise aumentada | pioglitazona, perda de peso |
| Intestino | efeito incretina diminuído | agonistas do recetor do GLP-1, inibidores da DPP-4 |
| Rim | reabsorção de glicose aumentada | inibidores do cotransportador de sódio e glicose tipo 2 (SGLT2) |
| Cérebro | apetite aumentado | agonistas do recetor do GLP-1 |
Incretinas
- O peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1 (GLP-1) e o polipeptídeo insulinotrópico dependente da glicose (GIP) são libertados pelo intestino depois da refeição, aumentam a secreção de insulina só quando a glicemia está acima do jejum e o GLP-1 suprime o glucagon.
- É essa dependência da glicose que explica porque é que os fármacos desta via (agonistas do recetor do GLP-1 e inibidores da dipeptidil peptidase 4, DPP-4) não causam hipoglicemia por si próprios.
Como a hiperglicemia faz o quadro clínico
- Acima do limiar renal de reabsorção, à volta de 170 a 180 mg/dL, a glicose passa para a urina e arrasta água: diurese osmótica, poliúria, polidipsia, desidratação.
- A perda de peso com fome é o catabolismo por falta de insulina, típico da tipo 1.
- Na cronicidade, a lesão do endotélio e dos nervos passa pelos produtos finais de glicação avançada, pela via dos polióis, pela proteína cinase C e pelo stress oxidativo.
- Tipo 1: poliúria, polidipsia e perda de peso ao longo de dias a semanas, com cansaço; na criança, enurese de novo. Cerca de um quarto dos doentes já está em cetoacidose quando se apresenta.
- Tipo 2: na maioria assintomática, encontrada em análises. Quando há sintomas são os mesmos, mais arrastados.
- Pistas menos óbvias: candidíase vulvovaginal ou balanite de repetição, infeções cutâneas, visão turva flutuante (alteração osmótica do cristalino, que resolve com o controlo), cicatrização lenta.
- Sinais de resistência à insulina: obesidade abdominal, acantose nigricans no pescoço e nas axilas, síndrome do ovário poliquístico.
- Às vezes a primeira manifestação já é uma complicação: enfarte, úlcera do pé, retinopatia, doença renal.
Sinais de alarme
| Sinal | Pensar em |
|---|---|
| Respiração de Kussmaul, hálito cetónico, vómitos, dor abdominal | cetoacidose |
| Idoso confuso ou em coma, com desidratação profunda | estado hiperosmolar |
| Confusão, sudorese ou convulsão num doente com insulina ou sulfonilureia | hipoglicemia |
| Úlcera do pé com celulite, crepitação, osso exposto ou pé frio | pé diabético infetado ou isquémico |
| Perda súbita de visão | hemorragia do vítreo ou descolamento tracional da retina |
Os quatro critérios
Em plasma venoso, qualquer um basta. São iguais na norma portuguesa e no critério internacional.
| Teste | Diabetes | Condição |
|---|---|---|
| Glicemia de jejum | 126 mg/dL ou mais | jejum de pelo menos 8 horas sem calorias |
| Prova de tolerância à glicose oral, às 2 horas | 200 mg/dL ou mais | 75 g de glicose |
| Hemoglobina glicada (HbA1c) | 6,5% ou mais | método certificado |
| Glicemia ocasional | 200 mg/dL ou mais | só com sintomas clássicos ou crise hiperglicémica |
Confirmação
- Norma portuguesa: no assintomático não se diagnostica com um único valor de glicemia de jejum ou de HbA1c; confirma-se numa segunda análise uma a duas semanas depois. Aconselha-se um só parâmetro; se a glicemia de jejum e a HbA1c forem pedidas ao mesmo tempo e ambas estiverem no limiar de diabetes, o diagnóstico fica feito; se discordarem, repete-se a que estava alterada.
- Critério internacional: dois testes alterados, na mesma colheita ou em colheitas diferentes.
- Sem confirmação: sintomas clássicos com glicemia ocasional de 200 ou mais, ou uma crise hiperglicémica.
- O glucómetro capilar serve para desconfiar e para tratar, não para diagnosticar.
Hiperglicemia intermédia
| Norma portuguesa | Critério internacional | |
|---|---|---|
| Anomalia da glicemia de jejum | 110 a 125 mg/dL | 100 a 125 mg/dL |
| Tolerância diminuída à glicose | 140 a 199 mg/dL às 2 horas | 140 a 199 mg/dL às 2 horas |
| HbA1c | não é critério | 5,7 a 6,4% |
Quando a HbA1c engana
Usam-se os critérios glicémicos.
- Renovação dos eritrócitos aumentada (hemólise, hemorragia recente, transfusão, eritropoetina): HbA1c falsamente baixa.
- Anemia por falta de ferro: HbA1c falsamente alta.
- Hemoglobinopatias e variantes da hemoglobina, défice de glicose-6-fosfato desidrogenase, hemodiálise, infeção por VIH em tratamento.
- Gravidez: a diabetes gestacional diagnostica-se pela glicemia, nunca pela HbA1c.
Distinguir tipo 1 de tipo 2
| Tipo 1 | Tipo 2 | |
|---|---|---|
| Início | agudo, dias a semanas | insidioso, anos |
| Hábito | em regra magro, mas a obesidade não exclui | excesso de peso |
| Cetose | frequente, pode estrear assim | rara |
| Péptido C | baixo ou indetetável | normal ou alto |
| Autoanticorpos | positivos | negativos |
- Pedem-se autoanticorpos no adulto com traços de tipo 1: idade jovem, perda de peso não intencional, cetoacidose ou necessidade de insulina pouco depois do diagnóstico.
- O péptido C interpreta-se com a glicemia medida ao mesmo tempo; muito cedo na doença ou logo a seguir a uma cetoacidose pode enganar.
Diagnóstico diferencial da hiperglicemia
- Hiperglicemia de stress na doença aguda: confirma-se a diabetes depois da fase aguda; a HbA1c à entrada ajuda.
- Fármacos: glicocorticoides, antipsicóticos de segunda geração, tiazidas, inibidores da calcineurina, estatinas.
- Endocrinopatias, doença do pâncreas exócrino e formas monogénicas.
Rastreio da tipo 2 (critério internacional)
- Todos a partir dos 35 anos.
- Antes, em qualquer idade, com índice de massa corporal de 25 kg/m² ou mais (23 na ascendência asiática) e pelo menos um fator de risco: familiar em primeiro grau com diabetes, hipertensão, colesterol HDL abaixo de 35 mg/dL ou triglicerídeos acima de 250 mg/dL, síndrome do ovário poliquístico, sedentarismo, doença cardiovascular, acantose nigricans ou outra condição de resistência à insulina.
- Também: antipsicóticos de segunda geração (no início, 12 a 16 semanas depois e anualmente), corticoterapia prolongada, infeção por VIH, pancreatite (3 a 6 meses depois de uma aguda e anualmente na crónica).
- Resultado normal: repetir pelo menos de 3 em 3 anos. Pré-diabetes: anualmente. Depois de uma diabetes gestacional: para toda a vida, de 1 a 3 anos.
Prevenção primária
- Estilo de vida em primeiro lugar: perder pelo menos 5 a 7% do peso e fazer 150 minutos por semana de atividade moderada. No grande ensaio americano de prevenção, a intervenção intensiva no estilo de vida, com meta de 7% de perda de peso, baixou a incidência de diabetes em 58% em 3 anos, mais do que a metformina.
- Metformina considera-se no risco mais alto: sobretudo entre os 25 e os 59 anos com índice de massa corporal de 35 ou mais, glicemia de jejum de 110 ou mais, HbA1c de 6,0% ou mais, e depois de diabetes gestacional. Com uso prolongado, vigiar a vitamina B12.
- Pré-diabetes é também risco cardiovascular: tratam-se tensão, lípidos e tabaco.
Rastreio das complicações
Na tipo 2 começa ao diagnóstico, porque a doença já existia há anos; na tipo 1, 5 anos depois.
| Complicação | Como | Periodicidade |
|---|---|---|
| Retinopatia | retinografia nos cuidados de saúde primários (norma portuguesa) | anual; na tipo 1 o primeiro rastreio é aos 5 anos |
| Doença renal | razão albumina/creatinina urinária e taxa de filtração glomerular estimada, sempre as duas | anual |
| Neuropatia | sensibilidade térmica ou álgica, diapasão de 128 Hz, monofilamento de 10 g | anual |
| Pé | exame dos pés e classificação do risco de ulceração | anual, e mais vezes conforme o risco de ulceração |
| Risco cardiovascular | tensão arterial em cada consulta, perfil lipídico | ao diagnóstico e anual |
- A mulher com diabetes que está grávida ou quer engravidar é orientada para a oftalmologia, antes da gravidez ou no máximo no primeiro trimestre.
Outros cuidados
- Vacina antigripal anual, antipneumocócica e contra a hepatite B (abaixo dos 60 anos no critério americano; acima, caso a caso).
- Consulta de saúde oral pelo menos uma vez por ano: a periodontite e o mau controlo glicémico agravam-se mutuamente.
- Cessação tabágica e educação estruturada para a autogestão.
Alvos
| Alvo | Para quem |
|---|---|
| HbA1c abaixo de 7% | a maioria dos adultos |
| Abaixo de 6,5% | quem o atinge com segurança, sem hipoglicemia nem peso excessivo do tratamento |
| Abaixo de 7,0 a 7,5% | idoso saudável, com função e cognição preservadas |
| Abaixo de 8,0% | idoso com fragilidade, défice cognitivo ou comorbilidades graves |
| Tempo entre 70 e 180 mg/dL acima de 70% | com monitorização contínua da glicose |
| Tempo abaixo de 70 mg/dL abaixo de 4%; abaixo de 54 mg/dL abaixo de 1% | com monitorização contínua (abaixo de 70 menos de 1% no idoso) |
- A HbA1c avalia-se pelo menos duas vezes por ano, e de 3 em 3 meses se fora do alvo ou após mudança de terapêutica.
- Uma ou mais hipoglicemias de nível 2 ou 3 obrigam a rever o plano e a desintensificar.
Estilo de vida
Base de tudo: plano alimentar, atividade física, perda de peso quando há excesso, cessação tabágica, educação estruturada.
Tipo 2: o fármaco escolhe-se pelo fenótipo
- As indicações cardíacas e renais são independentes da HbA1c: o fármaco com benefício de órgão entra mesmo com a glicemia controlada, e sem ter de passar primeiro pela metformina.
- Pode começar-se logo com associação, para chegar mais depressa ao alvo.
- Reavalia-se de 3 em 3 a de 6 em 6 meses, sem inércia terapêutica.
| Situação dominante | Escolha |
|---|---|
| Doença cardiovascular aterosclerótica, ou risco alto | agonista do recetor do GLP-1, inibidor do SGLT2 ou ambos, com benefício demonstrado |
| Insuficiência cardíaca, com fração de ejeção reduzida ou preservada | inibidor do SGLT2 |
| Insuficiência cardíaca com fração preservada e obesidade | agonista do recetor do GLP-1 ou duplo agonista dos recetores do GIP e do GLP-1 |
| Doença renal crónica (filtração de 20 a 60 ou albuminúria) | inibidor do SGLT2 ou agonista do recetor do GLP-1 com benefício renal |
| Doença renal avançada, filtração abaixo de 30 | agonista do recetor do GLP-1 para o controlo glicémico |
| Obesidade | agonista do recetor do GLP-1 ou duplo agonista |
| Esteato-hepatite ou fibrose hepática | agonista do recetor do GLP-1; pioglitazona ou duplo agonista como alternativa |
| Custo determinante | metformina, sulfonilureia, pioglitazona, insulina humana |
As classes
| Classe | Eficácia | Hipoglicemia | Peso | A reter |
|---|---|---|---|---|
| Metformina | alta | não | neutra | intolerância digestiva; défice de vitamina B12; contraindicada abaixo de filtração 30, metade da dose entre 30 e 44 |
| Inibidores do cotransportador de sódio e glicose tipo 2 (SGLT2) | intermédia a alta | não | desce | protegem coração e rim; efeito glicémico mínimo abaixo de filtração 45, mas iniciam-se a partir de 20 pelo benefício de órgão; cetoacidose euglicémica, micoses genitais, gangrena de Fournier rara, depleção de volume |
| Agonistas do recetor do GLP-1 | alta a muito alta | não | desce muito | benefício cardiovascular (dulaglutido, liraglutido, semaglutido) e renal (semaglutido); náuseas e vómitos; não iniciar com risco alto de pancreatite; litíase biliar; vigiar retinopatia; risco de aspiração na anestesia |
| Duplo agonista GIP e GLP-1 (tirzepatida) | muito alta | não | desce muito | a maior perda de peso |
| Inibidores da DPP-4 | intermédia | não | neutra | neutros no cardiovascular; a saxagliptina aumentou internamentos por insuficiência cardíaca; penfigoide bolhoso |
| Pioglitazona | alta | não | sobe | não usar na insuficiência cardíaca (retenção de líquidos); fraturas; útil na esteato-hepatite |
| Sulfonilureias | alta | sim | sobe | baratas; cuidado no idoso, na doença renal e com insulina |
| Insulina | a mais alta, sem teto | sim | sobe | a mais potente; análogos com menos hipoglicemia do que a humana |
- Inibidor da DPP-4 com agonista do recetor do GLP-1 não se associa: é a mesma via e não acrescenta descida.
- Ao juntar um fármaco novo, revê-se a dose de sulfonilureia e de insulina para evitar hipoglicemia.
Insulina na tipo 2
- Considera-se a qualquer altura se houver sintomas de hiperglicemia, HbA1c acima de 10% ou glicemia de 300 mg/dL ou mais, e sempre na crise hiperglicémica.
- Fora disso, o agonista do recetor do GLP-1 é preferível à insulina como primeiro injetável.
- Quando se usa insulina, associa-se um agonista do recetor do GLP-1, e mantêm-se os outros fármacos com benefício de órgão.
- Sinais de excesso de basal: diferença grande entre a glicemia ao deitar e a da manhã, hipoglicemias e variabilidade alta.
Tipo 1
- Insulina desde o diagnóstico e para sempre, em esquema basal-bólus com múltiplas injeções ou em perfusão subcutânea contínua; preferem-se os análogos.
- Educação para ajustar o bólus aos hidratos de carbono, corrigir pela glicemia, gerir os dias de doença e o exercício.
- Monitorização contínua da glicose desde o início. Os sistemas de administração automatizada de insulina, que ajustam a perfusão pela leitura do sensor, baixam a HbA1c e aumentam o tempo no alvo; a norma portuguesa manda considerá-los em todas as pessoas com tipo 1, depois de um programa de educação terapêutica com equipa multidisciplinar.
- Glucagon prescrito a todos os que fazem insulina, com a família a saber usá-lo.
- Os antidiabéticos orais não substituem a insulina.
Risco cardiovascular: o pacote inteiro
| Alvo | Medida |
|---|---|
| Tensão arterial | abaixo de 130/80 mmHg, se tolerado; inibidor da enzima de conversão ou antagonista do recetor da angiotensina com albuminúria ou doença coronária; nunca os dois juntos |
| Colesterol LDL, 40 a 75 anos sem doença aterosclerótica | estatina de intensidade moderada; alta intensidade com fatores de risco adicionais, para LDL abaixo de 70 mg/dL e redução de 50% |
| Colesterol LDL, doença aterosclerótica | estatina de alta intensidade, LDL abaixo de 55 mg/dL; ezetimiba ou inibidor da PCSK9 se não chegar |
| Antiagregação | ácido acetilsalicílico 75 a 162 mg em prevenção secundária; clopidogrel se alergia |
| Tabaco | cessação |
- Agudas: cetoacidose, estado hiperosmolar e hipoglicemia.
- Crónicas microvasculares: retinopatia, doença renal, neuropatia. Macrovasculares: doença coronária, cerebrovascular e arterial periférica.
- Baixar a glicemia protege sobretudo o microvascular; reduzir eventos macrovasculares exige o pacote inteiro (tensão, lípidos, peso, tabaco e os fármacos com benefício de órgão), e o controlo precoce tem benefício que persiste anos depois (efeito de legado).
- A doença cardiovascular é a principal causa de morte na diabetes.
- Depois de uma cetoacidose, a mortalidade no ano seguinte é cerca de 13 vezes a da população da mesma idade, e 49 vezes entre os 15 e os 39 anos: a alta leva sempre educação e consulta marcada.
Gravidez
| Diabetes prévia | Diabetes gestacional | |
|---|---|---|
| O que é | tipo 1 ou 2 conhecida antes da conceção, ou valores de diabetes detetados na gravidez | hiperglicemia detetada pela primeira vez na gravidez, abaixo dos limiares de diabetes |
| Risco dominante | malformações e aborto, por hiperglicemia na organogénese | macrossomia, distocia de ombros, hipoglicemia neonatal |
| Prevenção | consulta pré-concecional: HbA1c abaixo de 6,5%, ácido fólico, rever fármacos | rastreio universal e controlo desde o diagnóstico |
- Rastreio em Portugal, em dois tempos: glicemia de jejum na primeira consulta (126 ou mais é diabetes na gravidez; 92 a 125 é diabetes gestacional, com a nuance dos 92 a 99 sem fatores de risco, que se repetem antes das 20 semanas); abaixo de 92, prova com 75 g às 24 a 28 semanas, com colheitas às 0, 1 e 2 horas e limiares de 92, 180 e 153 mg/dL; um valor chega. Já não se faz a prova com 50 g.
- Alvos de autovigilância: jejum até 95, uma hora depois do início da refeição até 140 e duas horas até 120 mg/dL.
- Primeiro dieta e exercício; se não chegar em 1 a 2 semanas, insulina ou metformina. A insulina não atravessa a placenta; a metformina atravessa.
- Na diabetes prévia: suspender antes da conceção os inibidores da enzima de conversão, os antagonistas do recetor da angiotensina e as estatinas; os antidiabéticos não insulínicos passam a insulina, com ou sem metformina. A mulher com tipo 1 e HbA1c acima de 7% deve ser proposta para perfusão subcutânea de insulina antes da gravidez (norma portuguesa).
- Oftalmologia antes de engravidar ou no primeiro trimestre: a intensificação rápida do controlo pode agravar a retinopatia de forma transitória.
- Depois de uma gestacional: suspende-se a terapêutica no parto, prova com 75 g às 6 a 8 semanas e rastreio para toda a vida.
Idoso
- Alvo individualizado: abaixo de 7,0 a 7,5% no idoso saudável, abaixo de 8,0% no idoso frágil ou com défice cognitivo; no muito doente o objetivo é evitar hipoglicemia e sintomas, não um número.
- Rastrear síndromes geriátricas (queda, défice cognitivo, depressão, polimedicação) e hipoglicemias em cada consulta.
- Fármacos com baixo risco de hipoglicemia; desintensificar e simplificar quando o tratamento pesa mais do que rende.
Doente internado
- Pedir HbA1c à entrada se não houver nos 3 meses anteriores.
- Iniciar insulina com hiperglicemia persistente de 180 mg/dL ou mais, confirmada duas vezes em 24 horas. Alvo de 140 a 180 mg/dL no doente crítico, com perfusão endovenosa de insulina; de 100 a 180 mg/dL no não crítico, se sem hipoglicemia.
- No não crítico que come: basal, prandial e correção; que não come: basal com correção. A correção isolada, sem basal (a antiga escala móvel), não se usa.
- Hipoglicemia abaixo de 70 mg/dL obriga a rever o plano.
Cirurgia e doença aguda
- HbA1c abaixo de 8% antes de cirurgia eletiva, se possível; glicemia de 100 a 180 mg/dL no perioperatório.
- Antidiabéticos orais suspensos no dia da cirurgia; inibidores do SGLT2 suspensos 3 dias antes (4 para a ertugliflozina), pelo risco de cetoacidose euglicémica; nos agonistas do recetor do GLP-1, orientação sobre a suspensão antes da anestesia, pelo risco de aspiração.
- Na véspera, análogo basal a 75 a 80% da dose (NPH a metade).
- Doença aguda, desidratação ou jejum prolongado: suspender o inibidor do SGLT2 e a metformina se houver hipoperfusão; a metformina evita-se também na insuficiência cardíaca descompensada.
- Dias de doença na tipo 1: nunca parar a insulina basal, medir glicemia e cetonas com frequência, manter a hidratação e procurar ajuda se as cetonas subirem ou os vómitos persistirem.
Corticoterapia
- Com prednisolona de manhã, a glicemia é normal ou pouco elevada em jejum e sobe à tarde, com pico ao fim do dia: uma glicemia de jejum normal não exclui a hiperglicemia por corticoide, e mede-se depois do almoço e antes do jantar.
- Trata-se com insulina ajustada ao tipo, à dose e ao horário do corticoide, com mais insulina prandial e de correção; com dexametasona ou corticoide contínuo pode ser precisa insulina basal. Revê-se todos os dias.
São as formas com processo etiopatogénico identificado: defeitos genéticos da célula beta, defeitos genéticos da ação da insulina, doenças do pâncreas exócrino, endocrinopatias e diabetes induzida por fármacos ou químicos. São raras no total, mas cada uma muda o tratamento.
| Entidade | Pista | Consequência |
|---|---|---|
| Diabetes monogénica do jovem (MODY) | início classicamente antes dos 25 anos, sem obesidade, transmissão autossómica dominante em gerações sucessivas, autoanticorpos negativos, péptido C preservado | teste genético; tratamento conforme o gene |
| Diabetes neonatal | diagnóstico nos primeiros 6 meses de vida | teste genético em qualquer idade atual; formas dos canais de potássio respondem a sulfonilureia em dose alta |
| Doença do pâncreas exócrino | pancreatite crónica, fibrose quística, hemocromatose, pancreatectomia, cancro do pâncreas | perde-se também glucagon, e a hipoglicemia é mais perigosa |
| Endocrinopatias | síndrome de Cushing, acromegalia, feocromocitoma, glucagonoma | tratar a doença de base pode resolver |
| Fármacos | glicocorticoides, antipsicóticos de segunda geração, tiazidas, inibidores da calcineurina, inibidores de checkpoint imunitário (que podem dar diabetes insulinopénica com cetoacidose) | rastrear quem os inicia |
- Pensar em MODY no jovem sem as características da tipo 1 nem da tipo 2 e com diabetes em gerações sucessivas: autoanticorpos negativos e péptido C preservado anos depois do diagnóstico.
- Glucocinase (GCK): hiperglicemia de jejum ligeira, estável e não progressiva, subida pequena na prova de tolerância (menos de 54 mg/dL às 2 horas); complicações microvasculares raras.
- HNF1A: defeito secretor progressivo, estreia na adolescência ou no adulto jovem, limiar renal da glicose baixo (glicosúria precoce), subida grande na prova (mais de 90 mg/dL).
- HNF4A: semelhante à HNF1A, com macrossomia e hipoglicemia neonatal transitória na história.
- Pancreatite: rastrear diabetes 3 a 6 meses depois de uma aguda e anualmente na crónica; fibrose quística, anualmente a partir dos 10 anos, de preferência com prova de tolerância.
| Forma | Tratamento |
|---|---|
| GCK | em regra nenhum fora da gravidez |
| HNF1A e HNF4A | sulfonilureia em primeira linha |
| Neonatal por canais de potássio | sulfonilureia em dose alta, em vez de insulina, em 30 a 50% dos casos |
| Pancreática | insulina muitas vezes; enzimas pancreáticas; atenção à hipoglicemia |
| Por glicocorticoide | insulina ajustada ao perfil do corticoide |
| Por inibidor de checkpoint | avaliar logo a necessidade de insulina, pelo risco de cetoacidose |
As duas crises hiperglicémicas agudas graves. Partilham a falta de insulina, o excesso de hormonas contrarreguladoras e a perda de água e eletrólitos; distinguem-se pela cetose.
| Cetoacidose | Estado hiperosmolar | |
|---|---|---|
| Doente típico | tipo 1, jovem; também tipo 2 com défice de insulina e sob inibidor do SGLT2 | tipo 2, idoso, muitas vezes com demência ou dependência que limita o acesso à água |
| Instalação | horas a poucos dias | dias a semanas |
| Défice de água | frequentemente 3 a 5 L | em média 9 a 10 L |
| Mortalidade intra-hospitalar | cerca de 3% | cerca de 5%; 8% nas formas mistas |
- Mais de um terço das crises tem forma mista, com critérios das duas.
- Cerca de 10% das cetoacidoses são euglicémicas (glicemia abaixo de 200 mg/dL).
Fisiopatologia
- Cetoacidose: défice de insulina, absoluto ou relativo, com excesso de glucagon, catecolaminas, cortisol e hormona de crescimento. Sobe a produção hepática de glicose, a lipólise liberta ácidos gordos e o fígado converte-os em corpos cetónicos (beta-hidroxibutirato e acetoacetato): acidose metabólica com hiato aniónico aumentado.
- Estado hiperosmolar: há insulina residual que chega para travar a cetogénese mas não para controlar a glicemia; a diurese osmótica sem água suficiente leva à hiperosmolalidade e à alteração da consciência.
- O potássio total está depletado (3 a 6 mmol/kg), mas o sérico está normal ou alto à entrada, porque a acidose e a falta de insulina o tiram das células. A insulina, a correção da acidose e os fluidos fazem-no cair.
- O sódio medido baixa com a hiperglicemia, cerca de 1,6 mmol/L por cada 100 mg/dL de glicose acima do normal: um sódio normal numa hiperglicemia grave significa grande défice de água.
Precipitantes
- Infeção, sobretudo urinária e pneumonia, e omissão ou insuficiência da insulina: as mais frequentes. No utilizador de bomba, erro de gestão e infeção mais do que avaria.
- Doença aguda: enfarte, acidente vascular cerebral, pancreatite, tromboembolismo pulmonar, traumatismo, cirurgia; álcool e drogas.
- Fármacos: glicocorticoides, antipsicóticos de segunda geração, inibidores do SGLT2 (sobretudo na tipo 1 e na tipo 2 insulinopénica, com dieta muito pobre em hidratos, jejum, desidratação ou álcool), inibidores de checkpoint imunitário.
- Estreia da diabetes.
- No estado hiperosmolar a infeção é o precipitante em 30 a 60%, e o doente que não consegue beber é o terreno.
Cetoacidose euglicémica
Inibidores do SGLT2 (hoje a maioria dos casos), gravidez, jejum ou ingestão muito reduzida, álcool, insuficiência hepática, insulina dada antes da chegada.
| Cetoacidose | Estado hiperosmolar | |
|---|---|---|
| Comum | poliúria, polidipsia, perda de peso, desidratação | poliúria, polidipsia, perda de peso, desidratação |
| Próprio | náuseas, vómitos e dor abdominal em mais de metade; respiração de Kussmaul com hálito cetónico | alteração da consciência frequente, até ao coma; sinais neurológicos focais ou convulsões possíveis |
| Consciência | em regra alerta, alterada nos graves | alterada com frequência |
- Taquicardia e hipotensão acompanham a hipovolemia grave.
- A dor abdominal pode imitar pancreatite ou víscera perfurada; se não passar com a correção da desidratação e da acidose, investiga-se, porque pode ser o precipitante.
Critérios (consenso internacional de 2024)
| Cetoacidose | Estado hiperosmolar | |
|---|---|---|
| Glicemia | 200 mg/dL ou mais, ou diabetes conhecida (qualquer glicemia) | 600 mg/dL ou mais |
| Cetonas | beta-hidroxibutirato de 3,0 mmol/L ou mais, ou cetonúria de 2 cruzes ou mais | beta-hidroxibutirato abaixo de 3,0 ou cetonúria abaixo de 2 cruzes |
| Ácido-base | pH abaixo de 7,3, bicarbonato abaixo de 18 mmol/L, ou ambos | pH de 7,3 ou mais e bicarbonato de 15 ou mais |
| Osmolalidade | variável | efetiva acima de 300 mOsm/kg (ou total acima de 320) |
- Osmolalidade efetiva: o dobro do sódio somado à glicose, ambos em mmol/L.
- Na cetoacidose os três componentes têm de estar presentes; no estado hiperosmolar, os quatro.
- O hiato aniónico não entra nos critérios. Continua a ser útil para reconhecer a acidose, mas um terço das cetoacidoses tem distúrbios mistos, e depois do soro fisiológico aparece acidose hiperclorémica com hiato normal.
Gravidade da cetoacidose
| Ligeira | Moderada | Grave | |
|---|---|---|---|
| pH | acima de 7,25 e abaixo de 7,30 | 7,00 a 7,25 | abaixo de 7,00 |
| Bicarbonato | 15 a 18 mmol/L | 10 a menos de 15 | abaixo de 10 |
| Beta-hidroxibutirato | 3 a 6 mmol/L | 3 a 6 mmol/L | acima de 6 |
| Consciência | alerta | alerta ou sonolento | estupor ou coma |
| Onde tratar | enfermaria ou observação | cuidados intermédios | cuidados intensivos |
Não é preciso cumprir todas as variáveis; o local decide-se clinicamente. Vão para cuidados intensivos a cetoacidose grave, o estado hiperosmolar, a alteração da consciência e o precipitante crítico (enfarte, hemorragia digestiva, sépsis).
Avaliação inicial
- Glicemia, ionograma, ureia e creatinina, gasometria venosa, hemograma e beta-hidroxibutirato no sangue (capilar ou laboratorial), que é preferível às cetonas na urina: a tira de urina mede o acetoacetato, subestima a cetose no início e sobrestima-a na recuperação.
- Eletrocardiograma (potássio, isquemia); procurar infeção e outros precipitantes.
- Leucocitose e amilase alta são frequentes sem infeção nem pancreatite; a lipase ajuda se houver suspeita.
Diagnóstico diferencial da cetose
Cetose de jejum (ingestão abaixo de cerca de 500 kcal por dia), cetoacidose alcoólica (com ou sem hiperglicemia), cetose da gravidez e da hiperémese; e outras acidoses com hiato aumentado (láctica, urémica, intoxicações por salicilatos, metanol ou etilenoglicol).
- Educação estruturada a todas as pessoas com tipo 1 e a quem já teve uma crise: nunca suspender a insulina basal, medir cetonas no sangue quando a glicemia sobe ou há doença intercorrente, hidratar, procurar ajuda cedo.
- Quem faz inibidor do SGLT2 e tem risco de cetoacidose: conhecer os sinais, ter tiras de beta-hidroxibutirato, evitar dietas cetogénicas, suspender em doença aguda, jejum ou cirurgia.
- Na alta de uma crise, corrigir de imediato o esquema que falhou (HbA1c alta, fármaco precipitante) em vez de o deixar para a consulta.
Três pilares ao mesmo tempo: fluidos, insulina e potássio, e o tratamento do precipitante. Glicemia capilar de 1 em 1 ou de 2 em 2 horas; eletrólitos, fósforo, creatinina, beta-hidroxibutirato e pH venoso de 4 em 4 horas (osmolalidade no estado hiperosmolar).
Fluidos
- Soro fisiológico ou cristaloide equilibrado (lactato de Ringer, por exemplo), que resolve a cetoacidose mais depressa e dá menos acidose hiperclorémica.
- Sem compromisso cardíaco ou renal: 500 a 1000 mL por hora nas primeiras 2 a 4 horas; no choque, 1 L por hora com monitorização. Depois, conforme a tensão, a frequência, o balanço e o sódio, corrigindo o défice em 24 a 48 horas.
- Idoso, insuficiência cardíaca ou diálise: bólus pequenos, de 250 mL, com reavaliação.
Insulina
- Cetoacidose moderada ou grave: insulina rápida em perfusão endovenosa de dose fixa, 0,1 U/kg por hora; um bólus de 0,1 U/kg só se a perfusão se atrasar.
- Cetoacidose ligeira não complicada: pode usar-se análogo rápido por via subcutânea (0,1 U/kg de hora a hora ou 0,2 U/kg de 2 em 2 horas).
- Estado hiperosmolar sem cetose significativa: perfusão a 0,05 U/kg por hora; com cetose significativa (forma mista), 0,1 U/kg por hora.
- Pode dar-se insulina basal subcutânea cedo (0,15 a 0,3 U/kg) durante a perfusão, o que encurta a crise e evita o ressalto.
Glicose no soro
- Na cetoacidose a glicemia desce para abaixo de 250 mg/dL em 4 a 8 horas, antes de a cetose resolver. Nesse momento junta-se glicose a 5 ou 10% e baixa-se a insulina para 0,05 U/kg por hora, sem a parar: o que falta tratar é a cetose.
- Manter a glicemia entre 150 e 200 mg/dL na cetoacidose e entre 200 e 250 mg/dL no estado hiperosmolar até à resolução.
- Na cetoacidose euglicémica, a glicose entra logo desde o início, com a insulina.
Potássio
Começa-se quando há diurese, cerca de 0,5 mL/kg por hora.
| Potássio sérico | Conduta |
|---|---|
| Abaixo de 3,5 mmol/L | adiar a insulina; potássio a cerca de 10 mmol por hora (mais depressa só por via central) até passar de 3,5 |
| 3,5 a 5,0 mmol/L | potássio no soro (20 a 30 mmol por litro chegam na maioria), para manter 4 a 5 mmol/L |
| Acima de 5,0 mmol/L | insulina sem potássio, e potássio de 2 em 2 horas |
- Medir o potássio 2 horas depois de iniciar a insulina e depois de 4 em 4 horas. A hipocaliemia grave durante o tratamento triplica a mortalidade.
Bicarbonato e fosfato
- Bicarbonato só com pH abaixo de 7,0, até passar de 7,0. Por rotina não traz benefício e tem riscos: hipocaliemia, acidose paradoxal no sistema nervoso central, edema cerebral.
- Fosfato só com fraqueza muscular, compromisso respiratório ou cardíaco e fósforo abaixo de 1,0 mmol/L; a reposição rápida pode dar hipocalcemia.
Resolução
| Critérios | |
|---|---|
| Cetoacidose | beta-hidroxibutirato abaixo de 0,6 mmol/L e pH venoso de 7,3 ou mais ou bicarbonato de 18 ou mais; idealmente glicemia abaixo de 200 mg/dL |
| Estado hiperosmolar | osmolalidade abaixo de 300 mOsm/kg, diurese acima de 0,5 mL/kg por hora, consciência recuperada e glicemia abaixo de 250 mg/dL |
- Nem o hiato aniónico (confundido pela acidose hiperclorémica do soro) nem as cetonas na urina (sobem enquanto o beta-hidroxibutirato se converte em acetoacetato) servem para dar a cetoacidose por resolvida.
Passagem para insulina subcutânea
- Quando a crise resolveu e o doente come: insulina basal subcutânea 1 a 2 horas antes de parar a perfusão, porque a insulina endovenosa dura minutos e o doente volta a fazer cetose se ficar descoberto.
- Sem insulina prévia: dose total de 0,5 a 0,6 U/kg por dia (0,3 com fragilidade ou doença renal), com 40 a 60% como basal e o resto como bólus às refeições.
- Não iniciar nem manter o inibidor do SGLT2 no internamento; na tipo 1 os antidiabéticos não insulínicos não entram.
Particularidades do estado hiperosmolar
- A glicemia não deve descer mais de 90 a 120 mg/dL por hora, o sódio não mais de 10 mmol/L em 24 horas e a osmolalidade 3 a 8 mOsm/kg por hora, pelo risco de edema cerebral e de desmielinização osmótica.
- A subida inicial do sódio medido, à medida que a glicose desce, não é indicação para soro hipotónico: o soro a 0,45% só entra se a osmolalidade não descer apesar de balanço positivo e insulina adequada.
- Do tratamento: hipoglicemia, hipocaliemia, acidose hiperclorémica com hiato normal, trombose, lesão renal aguda, sobrecarga de volume.
- Edema cerebral: raro no adulto, mais frequente na criança; associa-se a descidas rápidas da osmolalidade e a excesso de água livre.
- Desmielinização osmótica no estado hiperosmolar corrigido depressa.
- A mortalidade depende sobretudo do precipitante e da idade. Depois de uma cetoacidose, a mortalidade a um ano é cerca de 13 vezes a da população da mesma idade.
| Nível | Definição | Significado |
|---|---|---|
| 1 | glicose abaixo de 70 mg/dL | alerta, que obriga a agir |
| 2 | glicose abaixo de 54 mg/dL | clinicamente significativa |
| 3 | qualquer valor, com alteração mental ou física que exige ajuda de outra pessoa | grave |
- É o principal limite ao controlo glicémico e só é frequente com insulina, sulfonilureias ou meglitinidas; com os outros fármacos é rara.
- A hipoglicemia de nível 3 associa-se a quedas, arritmias, declínio cognitivo e mortalidade.
- Excesso de insulina em relação à glicose disponível: refeição falhada ou atrasada, exercício sem ajuste, álcool (trava a gliconeogénese), dose errada, doença renal (a insulina e as sulfonilureias acumulam), perda de peso.
- A hipoglicemia por sulfonilureia pode durar horas ou dias e recorrer depois de corrigida.
- Hipoglicemia não percebida: hipoglicemias repetidas baixam o limiar da resposta autonómica e o doente perde os sinais de alarme; acontece sobretudo na tipo 1 de longa duração e no idoso. Aumenta muito o risco de nível 3.
- A neuropatia autonómica e os bloqueadores beta atenuam os sinais adrenérgicos.
- Autonómicos, primeiro: tremor, palpitações, ansiedade, sudorese, fome, parestesias.
- Neuroglicopénicos, depois: confusão, alteração do comportamento, défices focais, convulsões, coma.
- Nível 2 sem sintomas nenhuns sugere hipoglicemia não percebida.
- Os bloqueadores beta e a neuropatia autonómica atenuam os sinais adrenérgicos.
- Consciente, glicose abaixo de 70 mg/dL: 15 g de glicose (qualquer hidrato com glicose serve, mas evitam-se alimentos gordos ou proteicos na primeira dose), medir 15 minutos depois e repetir se persistir; depois, refeição ou lanche.
- Inconsciente ou incapaz de engolir: glucagon (intranasal ou pronto a injetar, preferíveis às formulações que se reconstituem) ou glicose endovenosa. Nunca glicose oral a quem não está alerta.
- Sulfonilureia: vigilância prolongada, com glicose endovenosa contínua se necessário; o octreótido suprime a secreção de insulina nos casos refratários.
Prevenção
- Rever as hipoglicemias em todas as consultas; rastrear a não perceção pelo menos uma vez por ano.
- Glucagon prescrito a todos os que fazem insulina ou têm risco alto, com a família a saber usá-lo.
- Monitorização contínua da glicose em quem tem risco alto.
- Uma ou mais hipoglicemias de nível 2 ou 3: rever o plano, desintensificar ou trocar de classe.
- Algumas semanas sem hipoglicemias, com alvos temporariamente mais largos, melhoram a contrarregulação e a perceção.
- Microvasculares, específicas da diabetes: retinopatia, doença renal, neuropatia. Dependem sobretudo da duração e do grau de hiperglicemia.
- Macrovasculares: doença coronária, cerebrovascular e arterial periférica. Dependem do conjunto dos fatores de risco.
- Pé diabético: soma de neuropatia, isquemia e infeção; primeira causa de amputação não traumática.
- Outras: infeções (otite externa maligna, mucormicose rinocerebral, colecistite e pielonefrite enfisematosas), esteatose e esteato-hepatite, capsulite adesiva e contratura de Dupuytren, gastroparesia, disfunção erétil, depressão.
Retinopatia
- Não proliferativa: microaneurismas, hemorragias, exsudados duros, manchas algodonosas, anomalias venosas.
- Proliferativa: neovasos, com risco de hemorragia do vítreo, descolamento tracional da retina e glaucoma neovascular.
- Edema macular: pode existir em qualquer estádio e é a grande causa de perda de visão central.
- Em Portugal: retinografia anual nos cuidados de saúde primários, com leitura automática e depois humana; sem retinopatia ou com não proliferativa mínima, repete ao fim de um ano; moderada, consulta em menos de 2 meses; grave ou proliferativa, em menos de 1 mês; proliferativa de alto risco, hemorragia do vítreo ou descolamento tracional, em menos de 15 dias.
Doença renal
| Albuminúria (razão albumina/creatinina) | Categoria |
|---|---|
| Abaixo de 30 mg/g | normal ou ligeiramente aumentada (A1) |
| 30 a 299 mg/g | moderadamente aumentada (A2) |
| 300 mg/g ou mais | gravemente aumentada (A3) |
- Confirma-se em duas de três amostras em 3 a 6 meses, porque o exercício, a febre, a infeção urinária, a menstruação e a hiperglicemia a sobem de forma transitória; de preferência na primeira urina da manhã.
- Na vigilância, uma descida da filtração acima de 20% (acima de 30% depois de iniciar um fármaco hemodinâmico) ou a duplicação da razão excedem a variabilidade e obrigam a avaliar.
- Pensar noutra causa de doença renal se houver sedimento ativo, proteinúria que sobe depressa, descida rápida da filtração ou ausência de retinopatia na tipo 1 de longa duração.
- Referenciar à nefrologia com filtração abaixo de 30, descida rápida, albuminúria a subir depressa ou dúvida sobre a causa.
Neuropatia
- Polineuropatia distal simétrica, sensitiva, em meia e em luva: dor ou parestesias, ou perda silenciosa da sensibilidade protetora. Avalia-se a sensibilidade térmica ou álgica, a vibratória com diapasão de 128 Hz e a protetora com monofilamento de 10 g.
- Autonómica: taquicardia de repouso, hipotensão ortostática, gastroparesia, obstipação ou diarreia, bexiga neurogénica, disfunção erétil, hipoglicemia não percebida, isquemia silenciosa.
- Excluir outras causas: défice de vitamina B12 (sobretudo com metformina), hipotiroidismo, álcool, insuficiência renal.
Pé
Classificação do risco de ulceração (norma portuguesa):
| Risco | Critério | Vigilância |
|---|---|---|
| Baixo | sem fatores de risco | anual, equipa de nível I (cuidados de saúde primários) |
| Médio | neuropatia | semestral, nível I ou II |
| Alto | isquemia, ou neuropatia com deformidade, ou úlcera cicatrizada ou amputação prévia | de 1 a 3 meses, nível II ou III |
- Com perda de sensibilidade, úlcera ou amputação prévia, os pés inspecionam-se em todas as consultas.
- Avaliação vascular com pulsos; com claudicação, dor em repouso ou pulsos diminuídos, índice tornozelo-braço com pressões nos dedos (a calcificação da média pode dar índices falsamente normais).
Retinopatia
- Controlo da glicemia, da tensão e dos lípidos atrasa a progressão.
- Antiangiogénicos intravítreos (anti-VEGF) em primeira linha no edema macular que atinge o centro e baixa a acuidade.
- Fotocoagulação panretiniana na proliferativa de alto risco; os antiangiogénicos são alternativa.
- Laser focal e corticoides intravítreos no edema que persiste.
- A retinopatia não contraindica o ácido acetilsalicílico.
Doença renal
- Glicemia e tensão abaixo de 130/80 mmHg; a guideline americana encoraja sistólica abaixo de 120 quando o risco renal é alto e é tolerada.
- Bloqueio do eixo renina-angiotensina com albuminúria (A2 e A3 com diabetes), na dose máxima tolerada; manter a não ser que a creatinina suba mais de 30% em 4 semanas; nunca associar inibidor da enzima de conversão, antagonista do recetor e inibidor direto da renina.
- Inibidor do SGLT2 na tipo 2 com doença renal e filtração de 20 ou mais, mantido até à diálise.
- Agonista do recetor do GLP-1 com benefício renal.
- Antagonista não esteroide do recetor mineralocorticoide (finerenona) na tipo 2 com filtração acima de 25, potássio normal e albuminúria acima de 30 mg/g apesar do bloqueio máximo; potássio 1 mês depois.
- Estatina; proteína de 0,8 g/kg por dia no estádio 3 ou mais.
Neuropatia
- Dor: gabapentinoides, inibidores da recaptação da serotonina e noradrenalina (duloxetina), tricíclicos ou bloqueadores dos canais de sódio; podem associar-se. Opioides não, incluindo tramadol.
- Controlo glicémico previne na tipo 1 e atrasa a progressão na tipo 2.
Pé diabético
- Educação para autoinspeção diária, calçado terapêutico no pé de risco, cessação tabágica.
- Úlcera: equipa multidisciplinar, alívio de carga, desbridamento, tratamento da infeção e revascularização quando há isquemia.
Referências
- Direção-Geral da Saúde. Norma n.º 002/2011: Diagnóstico e classificação da diabetes mellitus. Lisboa: DGS; 2011.
- Direção-Geral da Saúde. Norma n.º 005/2011: Diagnóstico sistemático do pé diabético. Lisboa: DGS; 2011.
- Direção-Geral da Saúde. Norma n.º 016/2018: Rastreio da retinopatia diabética. Lisboa: DGS; 2018.
- Direção-Geral da Saúde. Norma n.º 006/2024: Organização dos cuidados de saúde dirigidos às pessoas com diabetes mellitus tipo 1. Lisboa: DGS; 2024.
- Observatório Nacional da Diabetes. Diabetes: factos e números, os anos de 2022, 2023 e 2024. 11.ª ed. Lisboa: Observatório Nacional da Diabetes; 2026.
- Sociedade Portuguesa de Diabetologia. Consenso diabetes e gravidez: atualização 2025. Rev Port Diabetes. 2025;20(3):85-129.
- American Diabetes Association Professional Practice Committee. Standards of Care in Diabetes-2026. Diabetes Care. 2026;49(Suppl 1).
- Umpierrez GE, Davis GM, ElSayed NA, Fadini GP, Galindo RJ, Hirsch IB, et al. Hyperglycemic crises in adults with diabetes: a consensus report. Diabetes Care. 2024;47(8):1257-75.
- Kidney Disease: Improving Global Outcomes (KDIGO) CKD Work Group. KDIGO 2024 clinical practice guideline for the evaluation and management of chronic kidney disease. Kidney Int. 2024;105(4S):S117-S314.
- Kidney Disease: Improving Global Outcomes (KDIGO) Diabetes Work Group. KDIGO 2022 clinical practice guideline for diabetes management in chronic kidney disease. Kidney Int. 2022;102(5S):S1-S127.
- Marx N, Federici M, Schütt K, Müller-Wieland D, Ajjan RA, Antunes MJ, et al. 2023 ESC Guidelines for the management of cardiovascular disease in patients with diabetes. Eur Heart J. 2023;44(39):4043-140.
- Powers AC, et al. Diabetes mellitus: diagnosis, classification, and pathophysiology; management and therapies; complications; hypoglycemia. In: Jameson JL, Fauci AS, Kasper DL, Hauser SL, Longo DL, Loscalzo J, editors. Harrison's principles of internal medicine. 20th ed. New York: McGraw-Hill; 2018. Cap. 396-399.
- Wing EJ, Schiffman FJ, editors. Cecil essentials of medicine. 10th ed. Philadelphia: Elsevier; 2022. Diabetes mellitus.
51 perguntas sobre Diabetes mellitus
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