Deficiência e excesso de vitaminas e oligominerais
Atualizado em 18 de julho de 2026 · 7 perguntas neste tema
As carências vitamínicas e de oligominerais são, na PNA, um tema de relevância C mas de rendimento desproporcionado: as perguntas são quase sempre de reconhecimento sindrómico a partir de uma vinheta com um contexto de risco (alcoolismo, cirurgia bariátrica, dieta vegan estrita, má absorção, nutrição parentérica) e um conjunto de sinais muito característicos. A competência exigida pela matriz é D (diagnóstico), pelo que o esforço deve concentrar-se em ligar rapidamente o contexto ao défice e em conhecer o teste que confirma. Há quatro blocos que tens mesmo de dominar: a encefalopatia de Wernicke (tríade e a regra da tiamina antes da glicose), a distinção B12 versus folato (só a B12 dá manifestações neurológicas, e o folato isolado corrige a anemia enquanto a neuropatia progride), o escorbuto (hemorragia perifolicular e pelos em saca-rolhas) e as armadilhas por excesso (neuropatia sensitiva pela piridoxina, hipertensão intracraniana e teratogenicidade pela vitamina A, mielopatia por cobre secundária a excesso de zinco). Este capítulo trata o reconhecimento clínico; a abordagem hematológica detalhada das anemias carenciais está no capítulo de Hematologia.
Princípio geral: o diagnóstico é clínico-contextual, o laboratório confirma
Nos défices de micronutrientes a anamnese vale mais do que o doseamento. Perante uma vinheta, procura sempre três elementos antes de escolher a resposta: (1) o contexto de risco, (2) o sinal patognomónico ou quase, (3) o teste que discrimina entre os dois diagnósticos plausíveis. As perguntas de PNA raramente pedem "qual o défice"; pedem "qual o próximo passo" ou "qual o exame que confirma".
Um segundo princípio, que é sobretudo de segurança: em suspeita de encefalopatia de Wernicke não se espera pelo doseamento. A tiamina é praticamente atóxica e o atraso terapêutico converte um quadro reversível numa amnésia definitiva. O mesmo raciocínio se aplica à vitamina K numa coagulopatia com hemorragia ativa, mas com duas ressalvas de segurança: a vitamina K só corrige o TP em 6-24 h, porque exige síntese hepática de novo dos fatores II, VII, IX e X — na hemorragia grave ou com instabilidade hemodinâmica administra-se em simultâneo concentrado de complexo protrombínico (ou plasma fresco congelado, se indisponível), que corrige em minutos, e a vitamina K isolada não é tratamento da hemorragia ativa grave; e a fitomenadiona IV tem de ser diluída e perfundida lentamente (habitualmente ≥20-30 min), pelo risco de reação anafilactoide fatal com a administração em bólus.
Tiamina (B1): a síndrome que não pode falhar
Encefalopatia de Wernicke
A tríade clássica é confusão + ataxia da marcha + alterações oculomotoras (nistagmo, parésia do reto externo, oftalmoplegia). A armadilha de exame é assumir que a tríade tem de estar completa: está presente numa minoria dos doentes, e a apresentação mais frequente é a confusão isolada num doente de risco. Os critérios de Caine (usados nas recomendações da EFNS de 2010) propõem o diagnóstico clínico quando estão presentes dois de quatro: défice dietético, alterações oculomotoras, disfunção cerebelosa e estado confusional ou alteração da memória.
Fisiopatologia: a tiamina é cofator do complexo piruvato desidrogenase, do complexo α-cetoglutarato desidrogenase e da transcetolase. Sem ela, o piruvato não entra no ciclo de Krebs, acumula-se e converte-se em lactato — daí a acidose láctica que pode acompanhar o quadro — e as regiões de maior consumo oxidativo (corpos mamilares, tálamo medial, substância cinzenta periaqueductal) sofrem primeiro.
Diagnóstico: é clínico. A RM pode mostrar hipersinal em T2/FLAIR nos corpos mamilares, tálamo medial e região periaqueductal — é específica mas pouco sensível, pelo que uma RM normal não torna o diagnóstico improvável e nunca deve atrasar o tratamento. A atividade da transcetolase eritrocitária e a tiamina sérica são exames de confirmação retrospetiva.
A regra que cai em exame: tiamina ANTES da glicose. Administrar glicose a um doente depletado consome a tiamina residual como cofator da glicólise e pode precipitar ou agravar a encefalopatia. Na prática: tiamina parentérica em dose alta — a EFNS recomenda 200 mg IV três vezes por dia antes de qualquer aporte de hidratos de carbono, e muitos protocolos hospitalares usam 500 mg IV de 8/8 h durante 2-3 dias no quadro estabelecido, com desmame subsequente —, imediatamente antes ou em simultâneo com o soro glicosado, nunca depois. Corrigir também o magnésio, que é cofator da transcetolase — a hipomagnesémia explica a falência de resposta à tiamina.
Beribéri
- Húmido: insuficiência cardíaca de alto débito com edema, taquicardia, pressão diferencial alargada e extremidades quentes e bem perfundidas — o contrário do choque cardiogénico. Cardiomegalia com resposta rápida à tiamina.
- Seco: polineuropatia simétrica distal, sensitivo-motora, com predomínio nos membros inferiores.
- Beribéri shoshin: forma fulminante com colapso cardiovascular e acidose láctica.
Niacina (B3): pelagra
As 3 D: dermatite (simétrica, nas áreas fotoexpostas, hiperpigmentada e descamativa, com o colar de Casal no pescoço), diarreia e demência (que na prática é um espectro de confusão, irritabilidade e défice cognitivo). A quarta D é a morte, se não tratada.
Para além da desnutrição, há três causas que aparecem repetidamente nas vinhetas porque desviam o triptofano (precursor da niacina):
| Causa | Mecanismo |
|---|---|
| Dieta baseada em milho não tratado por nixtamalização | Niacina presente mas quimicamente ligada e não biodisponível |
| Doença de Hartnup | Defeito do transporte intestinal e renal de aminoácidos neutros, incluindo triptofano |
| Tumor neuroendócrino do intestino (síndrome carcinoide) | Triptofano desviado para a via da serotonina |
| Isoniazida | Inibe a piridoxina, cofator da conversão de triptofano em niacina |
O diagnóstico é clínico, apoiado pela resposta rápida à niacinamida; o doseamento de metabolitos urinários da niacina é confirmatório mas pouco disponível.
Piridoxina (B6): a vitamina com dois lados
Por défice: neuropatia periférica, dermatite seborreica, queilite, glossite, anemia sideroblástica (a B6 é cofator da ALA-sintase, primeiro passo da síntese do heme) e, no lactente, convulsões refratárias aos antiepilépticos que respondem a piridoxina. Fármacos implicados: isoniazida, hidralazina, penicilamina, cicloserina.
Por excesso: neuropatia sensitiva com ataxia sensorial e sinal de Romberg, por ganglionopatia dos gânglios das raízes dorsais. Ocorre com suplementação crónica em doses muito superiores às necessidades diárias, e a força muscular está tipicamente preservada. É uma armadilha clássica: um doente com "neuropatia" e um frasco de complexo B na mesa de cabeceira. A recuperação é lenta e pode ser incompleta.
B12 versus folato: a distinção mais testada do capítulo
Ambos os défices produzem anemia megaloblástica com VGM elevado, neutrófilos hipersegmentados, reticulócitos baixos e sinais de eritropoiese ineficaz (LDH elevada, bilirrubina indireta elevada, haptoglobina baixa). O que os separa:
| Défice de B12 | Défice de folato | |
|---|---|---|
| Reservas | Anos | Semanas a meses |
| Neurológico | Sim — degenerescência combinada subaguda (cordões posteriores e feixes corticospinais), parestesias, ataxia sensitiva, Romberg, Babinski, défice cognitivo, alterações do humor | Não no adulto |
| Ácido metilmalónico | Elevado | Normal |
| Homocisteína | Elevada | Elevada |
| Contexto | Vegan estrito, gastrite atrófica/anemia perniciosa, gastrectomia ou bypass, ressecção/doença ileal, metformina, IBP prolongados, sobrecrescimento bacteriano | Alcoolismo, gravidez, hemólise crónica, metotrexato, sulfassalazina, antiepilépticos |
| Feto | — | Defeitos do tubo neural |
O ácido metilmalónico é o discriminador: está elevado apenas no défice de B12, porque a B12 é cofator da metilmalonil-CoA mutase. A homocisteína sobe em ambos, porque ambos participam na remetilação da homocisteína em metionina.
A armadilha do folato. Dar folato a um doente com défice de B12 corrige a anemia (repõe o tetrahidrofolato necessário à síntese de ADN) mas não corrige a via da metilmalonil-CoA: a lesão neurológica progride sem o sinal de alarme hematológico. Daí duas regras: nunca repor folato sem excluir défice de B12, e lembrar que a ausência de anemia ou de macrocitose não torna improvável o défice de B12 — cerca de um quarto dos doentes com manifestações neurológicas tem hemograma normal, e a coexistência de ferropénia ou de talassémia pode normalizar o VGM.
Quando a B12 sérica é limítrofe, o passo seguinte é dosear ácido metilmalónico e homocisteína. Confirmado o défice, procura-se a causa: anticorpos anti-fator intrínseco (muito específicos, pouco sensíveis) e anti-célula parietal, gastrina e endoscopia com biópsias na suspeita de anemia perniciosa.
Vitamina C: escorbuto
O defeito é a hidroxilação da prolina e da lisina no colagénio, com colagénio instável e fragilidade capilar e do tecido conjuntivo. Sinais que devem fazer o diagnóstico numa vinheta:
- Hemorragia perifolicular e hiperqueratose folicular nos membros inferiores
- Pelos em saca-rolhas (corkscrew hairs)
- Gengivite hipertrófica com gengivorragia e mobilidade dentária (só em quem tem dentes)
- Equimoses fáceis, má cicatrização, reabertura de cicatrizes antigas
- Artralgias, hemartroses e, na criança, hemorragia subperióstea com dor e recusa da marcha (pseudoparalisia)
- Anemia (multifactorial: hemorragia, défice de ferro por menor absorção, coexistência de défice de folato)
Contextos: idoso isolado com dieta de "chá e torradas", alcoolismo, doença psiquiátrica grave, perturbação do espectro do autismo com seletividade alimentar extrema, tabagismo pesado. O doseamento de ascorbato leucocitário é o melhor marcador de reservas, mas o diagnóstico assenta na clínica e na resposta rápida à reposição (a hemorragia gengival melhora em dias).
Lipossolúveis: o que confirma cada uma
Vitamina A — a sequência clínica é cegueira noturna → xerose conjuntival → manchas de Bitot (placas espumosas na conjuntiva bulbar) → xerose corneana → queratomalácia. O retinol sérico só desce tardiamente e é um reagente de fase aguda negativo, pelo que deve ser interpretado com a PCR. Nota: uma cegueira noturna que não responde à vitamina A deve fazer pensar em défice de zinco associado.
Vitamina D — a 25-hidroxivitamina D é o marcador de reservas (não o calcitriol, que pode estar normal ou até elevado por hiperparatiroidismo secundário). O padrão bioquímico da osteomalacia é: 25(OH)D baixa, PTH elevada, fosfatase alcalina elevada, cálcio normal-baixo, fósforo baixo. Radiologicamente, pseudofraturas de Looser no adulto e alargamento com irregularidade das metáfises no raquitismo.
Vitamina E — suspeitar em ataxia progressiva com arreflexia e perda vibratória e proprioceptiva num doente com má absorção crónica; o diagnóstico diferencial inclui a ataxia de Friedreich e a mielopatia por défice de cobre ou de B12. Dosear α-tocoferol corrigido para os lípidos séricos.
Vitamina K — a assinatura é um TP/INR prolongado com TTPa normal ou pouco alterado (os fatores II, VII, IX e X são dependentes da vitamina K, e o VII tem a semivida mais curta). Dois testes discriminam:
| Situação | Correção com plasma na mistura | Resposta à vitamina K |
|---|---|---|
| Défice de vitamina K | Sim | Sim — o TP normaliza |
| Doença hepática | Sim | Não ou parcial (falta capacidade de síntese) |
| Inibidor / anticoagulante | Não corrige | Depende |
A distinção adicional útil é o fator V: sintetizado no fígado mas independente da vitamina K — está normal no défice de vitamina K e baixo na insuficiência hepática.
Oligominerais: pistas diagnósticas
Zinco — dermatite periorificial (peri-oral, peri-anal) e acral, bem demarcada, por vezes bolhosa ou psoriasiforme, com alopécia e diarreia. Na forma hereditária (acrodermatite enteropática) manifesta-se ao desmame, quando cessa o leite materno. Adquirida: alcoolismo, doença de Crohn, cirurgia bariátrica, nutrição parentérica sem suplementação, queimaduras extensas. Outros sinais: disgeusia, má cicatrização, hipogonadismo, atraso de crescimento. O zinco sérico é influenciado pela albumina e pela inflamação — uma resposta clínica rápida à reposição é frequentemente mais informativa.
Cobre — o quadro é anemia (normo ou macrocítica, por vezes sideroblástica) com neutropenia e/ou mielopatia com ataxia sensitiva e paraparésia espástica, indistinguível clinicamente da degenerescência combinada subaguda. Confirma-se com cobre sérico e ceruloplasmina baixos (e cobre urinário baixo). Pergunta sempre pelo zinco: o zinco induz a metalotioneína no enterócito, que sequestra o cobre e impede a sua absorção. As fontes clássicas são suplementos de zinco e creme fixador de próteses dentárias usado em excesso; a cirurgia bariátrica é a outra causa maior.
Iodo — bócio com TSH elevada em zona de carência; no recém-nascido, o rastreio da TSH deteta o hipotiroidismo congénito antes do cretinismo (atraso mental, surdez neurossensorial, baixa estatura). A iodúria é o marcador populacional, não individual.
Selénio — cardiomiopatia dilatada num doente com nutrição parentérica prolongada ou em zona endémica (doença de Keshan).
Diagnóstico dos excessos
Hipervitaminose A aguda: cefaleia intensa, náuseas e vómitos, papiledema — o quadro é o de hipertensão intracraniana secundária ao retinoide, clinicamente indistinguível da idiopática (o rótulo de idiopática é impróprio quando existe causa identificada) — seguido de descamação cutânea. Perante papiledema, a neuroimagem, incluindo estudo venoso para excluir lesão ocupante de espaço e trombose dos seios venosos, precede sempre a punção lombar; só depois se documenta a pressão de abertura elevada com LCR de composição normal. Crónica: dor óssea e hiperostoses, artralgias, alopécia, queilite, pele seca, hepatomegalia com elevação das transaminases e, na evolução, fibrose hepática e hipertensão portal. Suspeita reforçada se o doente toma isotretinoína ou acitretina ou megadoses de suplementos.
Hipervitaminose D: hipercalcémia com PTH suprimida, hipercalciúria, poliúria, obstipação, náuseas, lesão renal aguda e nefrocalcinose. Cálcio corrigido >3,5 mmol/L (~14 mg/dL) ou qualquer hipercalcémia sintomática é emergência — hidratação endovenosa com soro fisiológico imediata. Atenção à cinética: o colecalciferol acumula-se no tecido adiposo e a hipercalcémia pode persistir semanas a meses após suspender o suplemento, pelo que suspender não é tratar — associam-se glucocorticoides, restrição de cálcio e de exposição solar, e vigilância prolongada da calcémia e da função renal. Confirma-se com 25(OH)D muito elevada. O diagnóstico diferencial faz-se com hipercalcémia de doenças granulomatosas e linfomas (aí o excesso é de 1,25(OH)₂D por 1α-hidroxílase extrarrenal) e com malignidade (PTHrP).
Excesso de piridoxina: ver acima — neuropatia sensitiva pura.
Excesso de iodo: Wolff-Chaikoff (bloqueio da organificação, hipotiroidismo, típico com amiodarona ou contraste iodado em tiroide suscetível) ou Jod-Basedow (hipertiroidismo em bócio multinodular autónomo exposto a carga de iodo).
Referências
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7 perguntas sobre Deficiência e excesso de vitaminas e oligominerais
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