Endocrinológica e MetabólicaAvaliação nutricional e desnutriçãoPublicado (Premium)

Avaliação nutricional e desnutrição

Matriz PNA:MD · MecanismosD · DiagnósticoP · Prevenção

Atualizado em 18 de julho de 2026 · 9 perguntas neste tema

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Em resumo

A desnutrição relacionada com a doença (DRD) é a comorbilidade mais prevalente e mais subdiagnosticada do doente hospitalizado: afeta cerca de um em cada três internados e agrava de forma independente a mortalidade, a taxa de infeção, a duração do internamento e o custo do episódio. Na matriz PNA este tema tem relevância B e competências MD, D e P, o que significa que as perguntas tendem a testar o mecanismo (porque é que a inflamação torna a desnutrição refratária ao simples aumento do aporte calórico), o raciocínio diagnóstico (aplicar os critérios GLIM 2019 a uma vinheta) e a prevenção (rastreio sistemático à admissão, escolha da via de suporte). Há três pontos que tens mesmo de dominar: o algoritmo GLIM em dois passos — rastreio positivo, depois ≥1 critério fenotípico + ≥1 critério etiológico; o facto de a albumina e a pré-albumina não serem marcadores nutricionais fiáveis (são proteínas negativas de fase aguda) — é a armadilha clássica; e a síndrome de realimentação, com a hipofosfatémia como marca e a tiamina administrada antes das calorias. As carências específicas de vitaminas e oligoelementos são tratadas no capítulo próprio; aqui são referidas apenas de passagem.

Esta é a secção que explica porquê, e é a que separa quem decora critérios de quem responde a uma vinheta nova. A ideia central: a desnutrição por inanição e a desnutrição da doença são metabolicamente opostas em vários pontos, e é essa oposição que dita o tratamento.

Adaptação à inanição pura — o organismo a defender-se bem

No jejum sem doença, o organismo executa um programa de poupança de proteína extraordinariamente eficiente.

  1. Primeiras horas (pós-absortivo, até ~24 h) — queda da insulina, subida do glucagon. Glicogenólise hepática sustenta a glicémia; as reservas de glicogénio (cerca de 70-100 g no fígado) esgotam-se em menos de um dia. O glicogénio muscular não contribui para a glicémia porque o músculo não tem glicose-6-fosfatase.
  2. Dias 1-3 — predomina a gliconeogénese hepática a partir de alanina e glutamina musculares, glicerol e lactato. É a fase de maior perda de azoto: a excreção urinária de azoto pode atingir ~10-12 g/dia. O ciclo glicose-alanina é o mecanismo pelo qual o músculo «paga» a glicose do cérebro.
  3. Após ~3-7 dias — adaptação cetónica — a lipólise acelera, o fígado produz β-hidroxibutirato e acetoacetato, e o cérebro converte-se progressivamente a corpos cetónicos como substrato dominante. A necessidade de gliconeogénese cai, e com ela a proteólise; a excreção de azoto desce progressivamente, atingindo cerca de 3-4 g/dia apenas na inanição prolongada, ao fim de várias semanas — a conversão do cérebro a corpos cetónicos como substrato dominante completa-se ao longo de 2-3 semanas. A tiroide contribui com uma queda da T3 (síndrome do doente eutiroideu), reduzindo a taxa metabólica basal — outra medida de poupança.
  4. Fase terminal — quando as reservas de gordura se esgotam, a proteólise volta a acelerar de forma não compensada; a morte por inanição sobrevém tipicamente quando se perde grosseiramente metade da massa proteica corporal, muitas vezes por falência muscular respiratória ou infeção.

A mensagem: na inanição pura, o organismo protege o músculo. É por isso que estes doentes recuperam bem quando se lhes dá comida.


Resposta inflamatória — o programa que sabota a adaptação

Na doença aguda ou crónica, a resposta de fase aguda impede a adaptação cetónica poupadora de proteína. Os mediadores centrais são as citocinas pró-inflamatórias — IL-1, IL-6, TNF-α — e as hormonas de contra-regulação — cortisol, catecolaminas, glucagon — a que se juntam mediadores tumorais específicos.

Os efeitos que tens de saber explicar:

  • Resistência à insulina e hiperglicémia de stress. As citocinas e o cortisol induzem resistência periférica à insulina; a gliconeogénese hepática mantém-se elevada mesmo com hiperglicémia e mesmo com aporte exógeno de glicose — é gliconeogénese «não suprimível». Daqui decorre um facto contraintuitivo: dar mais glicose a um doente séptico não desliga a proteólise.
  • Proteólise muscular acelerada via sistema ubiquitina-proteassoma. A ativação das ligases E3 específicas do músculo (atrogina-1/MAFbx e MuRF1) degrada as proteínas miofibrilares; simultaneamente há inibição da via IGF-1/PI3K/Akt/mTOR, ou seja, menos síntese. Perde-se dos dois lados. A miostatina/activina contribui como travão adicional da hipertrofia. A resistência anabólica — a mesma dose de aminoácidos gera menos síntese proteica do que num indivíduo saudável — é o conceito-chave e explica por que motivo as recomendações proteicas sobem na doença.
  • Redirecionamento da síntese hepática. O fígado desvia capacidade de síntese das proteínas de transporte (albumina, transtirretina/pré-albumina, transferrina, proteína de ligação ao retinol) para as proteínas de fase aguda positivas (proteína C reativa, fibrinogénio, haptoglobina, ferritina, α1-antitripsina). Este é o mecanismo que fundamenta a armadilha diagnóstica da albumina — ver secção do diagnóstico.
  • Aumento da permeabilidade capilar e redistribuição de fluidos. A albumina extravasa para o interstício; combinada com a menor síntese e com a hemodiluição da fluidoterapia, a albuminémia cai rapidamente por razões que nada têm que ver com o estado nutricional.
  • Anorexia central. IL-1 e TNF-α atuam no hipotálamo, mimetizando a sinalização anorexigénica da leptina na via melanocortina/POMC (a leptinémia está, ela própria, baixa, pela perda de massa gorda), e o GDF-15 (fator de diferenciação de crescimento 15, muito estudado na caquexia neoplásica e na doença crónica), através do recetor GFRAL no tronco cerebral, reforça a saciedade e a náusea. Ou seja, a doença reduz o aporte no exato momento em que aumenta as necessidades.
  • Termogénese aumentada. Nas neoplasias e na sépsis, a ativação do tecido adiposo castanho e a via UCP-1, com browning do tecido adiposo branco, aumenta o gasto energético de repouso. A lipólise acelera por ação da ATGL e da lipase hormono-sensível.

Inanição versus doença — a tabela que resolve muitas perguntas

Inanição puraDRD com inflamação
Taxa metabólica de repouso↓ (adaptativa)↑ (ou normal, mas inapropriadamente alta para o aporte)
Substrato dominanteCorpos cetónicosGlicose + aminoácidos
CetoseMarcadaSuprimida (a insulina, ainda que ineficaz na periferia, inibe a cetogénese)
ProteólisePoupada após adaptaçãoAcelerada e persistente
Compartimento perdidoSobretudo gorduraGordura e massa magra, com perda muscular desproporcionada
Excreção urinária de azotoBaixa (adaptada)Alta
Resposta ao aporte nutricionalReverteAtenua, não reverte
Água corporalRelativamente preservadaExpansão do extracelular, edema

Como a desnutrição destrói a função — o elo com a clínica

O músculo esquelético é o maior reservatório de aminoácidos do organismo e é sacrificado para alimentar a gliconeogénese e a síntese de proteínas de fase aguda. As consequências funcionais decorrem diretamente daí:

  • Músculos respiratórios — a perda de massa do diafragma e dos intercostais reduz a capacidade vital e a pressão inspiratória máxima, compromete a tosse e a limpeza de secreções, e dificulta o desmame ventilatório.
  • Miocárdio — atrofia com redução do débito cardíaco e da massa ventricular; nos casos extremos, bradicardia e prolongamento do QT.
  • Sistema imunitário — atrofia do tecido linfoide, linfopenia, redução da imunidade celular (resposta cutânea de hipersensibilidade retardada diminuída, ou anergia), disfunção de neutrófilos e do complemento. Daqui vem o excesso de infeções nosocomiais.
  • Barreira intestinal — o enterócito depende de glutamina luminal; o jejum prolongado provoca atrofia das vilosidades, perda de altura vilositária e alteração das junções apertadas, com translocação bacteriana. É o argumento fisiopatológico central para preferir a via entérica e para manter, quando possível, «alimentação trófica» mesmo em pequeno volume.
  • Cicatrização — a síntese de colagénio exige aminoácidos, zinco, vitamina C e cobre; o défice traduz-se em deiscência de anastomoses e de feridas operatórias.
  • Pele e anexos — atrofia, úlceras de pressão, alopécia, unhas quebradiças.
  • Sistema nervoso — apatia, depressão, irritabilidade; no idoso, agravamento de défice cognitivo. É clássica a descrição de irritabilidade e obsessão com comida em estudos de restrição alimentar experimental.

O compartimento hídrico — porque é que o peso engana

À medida que se perde massa celular, a água corporal total aumenta em proporção do peso e desloca-se para o compartimento extracelular. Contribuem a hipoalbuminémia (queda da pressão oncótica), a retenção de sódio mediada pelo hiperaldosteronismo secundário e a disfunção da bomba Na⁺/K⁺-ATPase por depleção de potássio e de magnésio. O resultado é edema que mascara a perda ponderal — o doente pode ter perdido 12 kg de tecido e apenas 4 kg de peso registado. Esta é uma armadilha de vinheta muito comum: perda ponderal «modesta» num doente com ascite ou anasarca deve ser interpretada com desconfiança, e o GLIM recomenda explicitamente ajustar a interpretação do peso quando há edema ou derrames de grande volume.

O diagnóstico de desnutrição é clínico e estruturado, não laboratorial. A referência atual é o algoritmo GLIM (Global Leadership Initiative on Malnutrition), publicado em 2018/2019 pelas quatro grandes sociedades de nutrição clínica (ESPEN, ASPEN, PENSA, FELANPE), precisamente para acabar com a proliferação de definições incompatíveis. A atualização de consenso a cinco anos (2025) reafirma o algoritmo sem alterar os cortes de perda ponderal, de IMC ou de gravidade, mas clarifica a operacionalização do critério etiológico de inflamação: o juízo clínico é suficiente para o documentar, ficando a PCR reservada aos casos de incerteza. Identifica ainda quatro áreas por resolver — uniformização do rastreio, adaptação a cuidados intensivos, avaliação da ingestão/assimilação e diagnóstico no doente obeso.

O algoritmo GLIM em dois passos

Passo 1 — Rastreio. Aplicar uma ferramenta validada a todos os doentes. Só se o rastreio for positivo se avança para a avaliação diagnóstica.

Passo 2 — Diagnóstico. Exige pelo menos um critério fenotípico E pelo menos um critério etiológico. Esta conjunção é o ponto mais testado de toda a secção — um critério fenotípico isolado (por exemplo, IMC de 18 kg/m² num indivíduo constitucionalmente magro, sem redução de ingestão nem doença inflamatória) não faz o diagnóstico.

Critérios fenotípicos (basta 1)Critérios etiológicos (basta 1)
Perda ponderal involuntária: >5% nos últimos 6 meses, ou >10% além dos 6 mesesRedução da ingestão ou da assimilação: ≤50% das necessidades energéticas durante >1 semana; ou qualquer redução durante >2 semanas; ou situação gastrointestinal crónica com impacto na absorção
IMC baixo: <20 kg/m² se <70 anos; <22 kg/m² se ≥70 anosCarga inflamatória / doença: doença aguda com lesão, ou doença crónica associada a inflamação
Massa muscular reduzida, por método de composição corporal ou, na sua ausência, por antropometria ou exame físico

Passo 3 — Graduar a gravidade em moderada (estádio 1) ou grave (estádio 2) pelos cortes fenotípicos apresentados na secção de definição.


Ferramentas de rastreio — qual, para quem

O rastreio é uma triagem: tem de ser rápido, feito por qualquer profissional e com elevada sensibilidade (é preferível um falso positivo, que apenas gera uma avaliação a mais, do que um falso negativo).

FerramentaContexto de eleiçãoComponentesCorte de risco
MUST (Malnutrition Universal Screening Tool)Comunidade, cuidados primários, hospital — o mais universalIMC + perda ponderal não intencional em 3-6 meses + efeito de doença aguda (previsão de ausência de aporte >5 dias)0 = risco baixo; 1 = médio; ≥2 = alto
NRS-2002 (Nutritional Risk Screening)Hospital de agudos — recomendado pela ESPENPré-rastreio de 4 perguntas; depois pontua estado nutricional (0-3) + gravidade da doença (0-3) + 1 ponto se idade ≥70 anos≥3 = em risco nutricional
MNA-SF (Mini Nutritional Assessment — Short Form)Idoso (≥65 anos), lar, geriatria6 itens: ingestão, perda ponderal, mobilidade, stress/doença aguda, problema neuropsicológico, IMC (ou perímetro geminal se não houver IMC)12-14 = normal; 8-11 = em risco; 0-7 = desnutrido
SARC-FRastreio de sarcopenia, não de desnutrição5 itens (força, apoio para andar, levantar da cadeira, subir escadas, quedas)≥4 = suspeita de sarcopenia

O SGA (Subjective Global Assessment) não é propriamente um rastreio mas uma avaliação estruturada por história e exame físico, com classificação em A (bem nutrido), B (moderadamente desnutrido ou em risco) e C (gravemente desnutrido). Continua a ser um bom comparador de referência e a versão gerada pelo doente, o PG-SGA, é a preferida em oncologia.


A avaliação clínica propriamente dita

História alimentar e ponderal

Quantificar: quanto peso, em quanto tempo, e de forma intencional ou não. Perguntar pela ingestão atual em relação à habitual (a formulação «que percentagem da sua refeição costuma comer?» é prática), por sintomas que limitam a ingestão (anorexia, náuseas, disgeusia, xerostomia, mucosite, odinofagia, disfagia, saciedade precoce, dor abdominal pós-prandial, diarreia), por restrições impostas (dietas terapêuticas mal indicadas, jejuns repetidos para exames), e por fatores sociais — isolamento, pobreza, luto, dependência para as compras e para cozinhar são causas frequentes e reversíveis no idoso. Rever fármacos: opioides, metformina, digoxina, inibidores seletivos da recaptação da serotonina, quimioterápicos, e polimedicação em geral.

Exame físico focado — a parte que se esquece

É o exame que mais rapidamente identifica desnutrição grave à cabeceira, e é frequentemente objeto de vinheta com fotografia.

  • Perda de gordura subcutânea: região orbitária (olhos encovados, «cavados»), prega tricipital, região torácica com costelas salientes.
  • Perda de massa muscular: depressão da fossa temporal (músculo temporal), clavículas e acrómios proeminentes com «degrau» deltoideu, escápulas aladas, atrofia da eminência tenar e das interósseas dorsais da mão (sulcos entre os metacarpos), quadricípite e geminais adelgaçados.
  • Edema: maleolar, pré-tibial, sagrado no acamado; ascite. Interpretar sempre em conjunto com o peso.
  • Sinais de carência específica (detalhados no capítulo de vitaminas e oligoelementos): queilite angular, glossite, petéquias perifoliculares, dermatite, coiloníquia, hiperqueratose folicular.
  • Estado funcional: capacidade de se levantar de uma cadeira sem apoio das mãos, marcha.

Antropometria

Peso, altura e IMC são o básico — com a ressalva do edema e da impossibilidade de pesar o acamado. Quando não se consegue medir a altura, usam-se estimativas por altura do joelho ou envergadura. Dois perímetros são muito úteis, sobretudo no idoso e na comunidade: o perímetro braquial (MUAC) e o perímetro geminal — este último é o proxy de massa muscular usado no MNA-SF, com um corte habitualmente citado de <31 cm. A prega tricipital estima gordura subcutânea, mas tem má reprodutibilidade interobservador.

Composição corporal

  • DXA — referência prática para massa magra apendicular; acessível, baixa radiação.
  • Bioimpedância (BIA) — barata e à cabeceira, mas os valores de massa magra são pouco fiáveis quando há alteração do estado de hidratação (exatamente o cenário do doente internado). O ângulo de fase é o parâmetro mais robusto e tem valor prognóstico.
  • Tomografia computorizada ao nível de L3 — mede a área muscular esquelética e é oportunística: aproveita-se um exame já feito por outra razão. É o método de eleição em investigação oncológica.
  • Ecografia do quadricípite e ressonância magnética — em crescimento, sobretudo em cuidados intensivos.

Função muscular

A dinamometria de preensão palmar é o teste funcional mais custo-efetivo e o que define a sarcopenia provável no EWGSOP2 (2019): cortes de <27 kg no homem e <16 kg na mulher. Alternativa: o teste de levantar da cadeira cinco vezes, patológico se >15 segundos. Para confirmar sarcopenia usa-se massa muscular esquelética apendicular (por DXA ou BIA); para graduar a gravidade, o desempenho físico — velocidade da marcha ≤0,8 m/s, SPPB ≤8 pontos, ou teste timed up-and-go ≥20 segundos. Vale a pena reter que a força cai antes da massa e recupera mais depressa do que ela: é um argumento a favor de usar a função como desfecho.


Albumina e pré-albumina — a armadilha central deste capítulo

Se houver um ponto a levar deste capítulo para a prova, é este. A albumina, a pré-albumina (transtirretina), a transferrina e a proteína de ligação ao retinol são proteínas negativas de fase aguda, não marcadores de estado nutricional. Numa vinheta com um doente séptico ou pós-operatório e albumina de 2,4 g/dL, a interpretação correta não é «hipoalbuminémia por desnutrição».

Porquê:

  1. Redirecionamento hepático — a inflamação desvia a síntese para as proteínas de fase aguda positivas.
  2. Extravasamento capilar — a permeabilidade aumentada transfere albumina para o interstício em horas.
  3. Diluição — a fluidoterapia agressiva baixa a albuminémia sem alterar a massa albuminada.
  4. Perdas — síndrome nefrótica, enteropatia perdedora de proteínas, queimaduras extensas, drenagem de ascite.
  5. Menor síntese por doença hepática, independentemente do estado nutricional.
  6. Cinética — a albumina tem semivida de cerca de 20 dias, ou seja, é demasiado lenta para refletir mudanças agudas; a pré-albumina tem semivida de aproximadamente 2 dias, e por isso foi popularizada como marcador «sensível» — mas essa rapidez limita-se a torná-la um bom marcador de inflamação em movimento, não de nutrição. É por isso que a albumina sobe quando a inflamação cede, mesmo sem qualquer intervenção nutricional, e é por isso que persistem estudos a mostrar que aumentar o aporte não corrige a albuminémia num doente inflamado.

A posição da ASPEN (2021) é explícita: as proteínas viscerais não devem ser usadas como marcadores de estado nutricional nem para monitorizar a resposta ao suporte nutricional. Reconhece-se-lhes, isso sim, valor prognóstico — a albumina baixa prediz mau resultado, mas fá-lo porque marca gravidade de doença, não porque marque desnutrição.

De forma consistente, o GLIM não inclui qualquer análise laboratorial nos seus critérios. Onde a inflamação precisa de ser objetivada, sugere-se a PCR (e a albumina apenas como marcador de suporte da inflamação, nunca de nutrição).

Que análises servem, então?

  • PCR — para documentar e seguir a carga inflamatória (critério etiológico).
  • Fósforo, potássio, magnésio, sódio — antes de iniciar suporte, para estratificar o risco de realimentação.
  • Hemograma com linfócitos (a linfopenia acompanha a desnutrição, mas é inespecífica), ferro/ferritina/transferrina, vitamina B12, folato, vitamina D, zinco — orientados pela clínica, para as carências específicas.
  • Glicémia, função renal e hepática, tempo de protrombina — contexto e segurança.
  • Calorimetria indireta — o padrão de referência para medir o gasto energético de repouso, em vez de o estimar por fórmulas. Está longe de estar disponível em todos os hospitais, mas é a resposta correta quando a pergunta é «qual o método mais rigoroso para determinar as necessidades energéticas deste doente crítico?».

Balanço azotado — um cálculo que ainda aparece

Balanço de azoto = (proteína ingerida em g / 6,25) − (azoto ureico urinário das 24 h + fator de perdas insensíveis, habitualmente ~4 g). Um balanço negativo indica catabolismo. É pouco usado na prática por dificuldades de colheita e por ser inválido na insuficiência renal, mas o conceito — 6,25 g de proteína contêm 1 g de azoto — é matéria de exame.

A competência P da matriz cobre aqui duas coisas distintas: prevenir que a desnutrição se instale (rastreio sistemático e intervenção precoce) e prevenir o dano iatrogénico do próprio suporte nutricional. Vale a pena tratá-las separadamente.

Rastreio sistemático — a intervenção com maior retorno

O princípio: rastrear todos, avaliar os positivos, tratar os desnutridos, reavaliar periodicamente.

Quando rastrear

  • Nas primeiras 24-48 horas de qualquer internamento hospitalar, independentemente do motivo de admissão. É a recomendação transversal da ESPEN e o padrão de acreditação hospitalar.
  • Repetir semanalmente durante o internamento, porque o risco muda (e porque, como vimos, o próprio internamento faz perder peso).
  • Na consulta de cuidados primários, oportunisticamente em idosos, em doentes com doença crónica, e sempre que a família refere perda de peso ou de apetite.
  • Na admissão a lar/ERPI e periodicamente depois.
  • No pré-operatório, com antecedência suficiente para intervir (ver secção de situações especiais).

Com que ferramenta — MUST na comunidade e como opção universal, NRS-2002 no hospital de agudos, MNA-SF no idoso. Qualquer uma serve, desde que seja usada consistentemente e desencadeie uma ação. Um rastreio que fica registado e não gera consulta de nutrição não previne nada.

Quem rastreia — qualquer profissional treinado; na prática, a enfermagem no momento da admissão. O rastreio deve estar integrado no processo clínico eletrónico com alerta automático, para não depender da memória de quem admite.


Prevenir a desnutrição hospitalar — as medidas «de sistema»

Muita da DRD hospitalar é evitável e não exige nutrição artificial. As medidas com melhor relação custo-benefício:

  • Abolir jejuns desnecessários. É a causa iatrogénica número um. Jejuns repetidos por exames adiados, «nada por boca» prescrito por rotina e mantido por inércia, jejuns de 12 horas antes de cirurgia quando as guidelines permitem líquidos claros até 2 horas e sólidos até 6 horas antes da indução.
  • Proteger a hora da refeiçãoprotected mealtimes»): não fazer colheitas, visitas médicas nem transporte para exames durante as refeições.
  • Registar a ingestão — mapa de ingestão alimentar simples, para deteção precoce da queda do aporte.
  • Rever as dietas terapêuticas restritivas. Dietas hipossalinas, hipoproteicas ou «para diabéticos» prescritas de forma acrítica reduzem a palatabilidade e o aporte. No idoso frágil, o benefício da restrição é quase sempre inferior ao dano da subnutrição.
  • Enriquecimento alimentar (fortificação): acrescentar azeite, manteiga, leite em pó, queijo, ovo às refeições habituais para aumentar a densidade energética sem aumentar o volume. Deve ser sempre a primeira linha, antes de suplementos.
  • Adequar a textura e tratar a disfagia (avaliação por terapia da fala, espessantes, posicionamento), tratar a xerostomia e as candidíases orais, corrigir próteses dentárias mal ajustadas.
  • Ajuda às refeições no doente dependente — parece trivial e é das medidas mais eficazes em geriatria.
  • Tratar sintomas que limitam o aporte: antieméticos, laxantes, analgesia adequada, tratamento da mucosite.

A escada terapêutica do suporte nutricional

A lógica é sempre usar a via menos invasiva que consiga atingir o objetivo, subindo degrau a degrau.

1. Dieta oral otimizada e enriquecida — descrito acima.

2. Suplementos nutricionais orais (SNO) — indicados quando a dieta otimizada não atinge as necessidades. A dose considerada eficaz nos estudos é habitualmente de pelo menos 400 kcal/dia e 30 g de proteína/dia, mantida durante pelo menos um mês e depois reavaliada. Devem ser tomados entre as refeições, não em substituição delas — o erro clássico é o doente tomar o suplemento à hora do almoço e comer menos, com ganho líquido nulo. A adesão melhora com variedade de sabores e formatos, e com produtos de pequeno volume e alta densidade.

3. Nutrição entérica (NE) — quando a via oral é impossível, insegura (disfagia com risco de aspiração) ou insuficiente, e o tubo digestivo é funcionante.

  • Sonda nasogástrica para necessidade previsível < 4 a 6 semanas.
  • Gastrostomia endoscópica percutânea (PEG) ou jejunostomia para necessidade prolongada (> 4-6 semanas): doença neurológica com disfagia persistente, neoplasia da cabeça e pescoço em tratamento, esclerose lateral amiotrófica.
  • Via pós-pilórica (nasojejunal) quando há gastroparésia, refluxo grave, pancreatite aguda grave com intolerância gástrica ou risco elevado de aspiração.

4. Nutrição parentérica (NP) — quando o tubo digestivo não funciona, não está acessível ou é insuficiente. Indicações típicas: obstrução intestinal mecânica, íleus prolongado, isquémia mesentérica, fístula de alto débito, síndrome do intestino curto, vómitos incoercíveis, intolerância documentada à NE. Pode ser total (NPT) ou complementar da via entérica quando esta não atinge o alvo.

«Se o intestino funciona, usa-o» — o porquê

A preferência pela via entérica sobre a parentérica não é dogma, é fisiologia:

EntéricaParentérica
Trofismo da mucosaMantém a altura vilositária e a barreiraAtrofia vilositária, ↑permeabilidade
ImunidadePreserva o GALT e a IgA secretoraDeprime o tecido linfoide associado ao intestino
InfeçãoMenor taxa de infeção globalInfeção de cateter venoso central
MetabólicoPassagem hepática primeira, resposta hormonal fisiológica (incretinas)Hiperglicémia, alterações hepáticas
Custo e complexidadeBaixosElevados, requer acesso central e equipa

A vantagem mais consistentemente demonstrada da NE sobre a NP em ensaios e meta-análises é a redução das complicações infeciosas, mais do que da mortalidade. Cuidado com o exagero na formulação: a NP é segura e salva vidas quando indicada — o erro é usá-la em vez da entérica quando o intestino está disponível, ou usá-la «para complementar» precocemente sem necessidade.

Uma nota importante: a ausência de ruídos hidroaéreos ou de emissão de gases não é, por si só, contraindicação para iniciar NE no pós-operatório. E na pancreatite aguda grave a doutrina inverteu-se: onde antigamente se colocava o pâncreas «em repouso» com NPT, hoje a nutrição entérica precoce é a recomendada, com menos infeção da necrose e menos mortalidade — é uma das mudanças de paradigma a nomear explicitamente.


Objetivos quantitativos de referência

Valores de partida, a ajustar sempre à situação clínica e, idealmente, à calorimetria indireta:

  • Energia: aproximadamente 25-30 kcal/kg/dia no doente hospitalizado estável.
  • Proteína: 1,0-1,5 g/kg/dia na maioria dos doentes agudos; ≥1,0 g/kg/dia no idoso (e até 1,2-1,5 g/kg/dia no idoso doente ou em recuperação), pela resistência anabólica; no doente crítico, progressão até cerca de 1,3 g/kg/dia. As exceções restritivas são a doença renal crónica sem diálise e a insuficiência hepática descompensada com encefalopatia refratária — e mesmo aqui as restrições são hoje muito mais contidas do que eram (ver situações especiais).
  • Fluidos: cerca de 30 mL/kg/dia no adulto, menos no idoso e nos doentes com insuficiência cardíaca ou renal.
  • Exercício: o treino de resistência progressivo é o estímulo anabólico mais eficaz e potencia a resposta ao aporte proteico. Prescrever nutrição sem mobilização é desperdiçar metade da intervenção.

Prevenção na comunidade e transição de cuidados

O ponto de maior fuga do sistema é a alta hospitalar: o doente sai com o diagnóstico de desnutrição feito, e o plano evapora-se. Medidas concretas:

  • Incluir o estado nutricional e o plano na carta de alta, com objetivos mensuráveis (peso-alvo, prescrição de SNO com dose e duração, data de reavaliação).
  • Assegurar seguimento em cuidados primários ou consulta de nutrição — a continuação de SNO após a alta é onde está boa parte do benefício demonstrado.
  • Referenciar para apoio social quando o determinante é económico ou funcional: apoio domiciliário, refeições ao domicílio, apoio nas compras.
  • Educar o cuidador, que é quem executa o plano.

E, do lado ético, há um limite que convém ter claro: em doença avançada, terminal ou demência grave, a colocação de PEG não demonstrou prolongar a sobrevida nem reduzir as pneumonias de aspiração, e a orientação atual é privilegiar a alimentação cuidadosa assistida por via oralcomfort feeding»). A decisão deve ser partilhada, informada, e enquadrada nos objetivos de cuidados.

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  12. Loscalzo J, Fauci AS, Kasper DL, Hauser SL, Longo DL, Jameson JL, editores. Harrison's Principles of Internal Medicine. 21.ª ed. Nova Iorque: McGraw Hill; 2022.

9 perguntas sobre Avaliação nutricional e desnutrição

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