Digestiva e HepatobiliarInsuficiência vascular mesentéricaPublicado (Premium)

Insuficiência vascular mesentérica

Matriz PNA:D · Diagnóstico

Atualizado em 16 de julho de 2026 · 8 perguntas neste tema

Fazer perguntas deste tema
Em resumo

A insuficiência vascular mesentérica engloba um espetro que vai da emergência com mortalidade elevada (isquemia mesentérica aguda) ao quadro indolente da angina intestinal crónica e à colite isquémica, geralmente benigna. O fio condutor para o exame é o reconhecimento precoce: numa forma, a pista clássica é a dor abdominal desproporcionada ao exame objetivo; noutra, a tríade dor pós-prandial, medo de comer e emagrecimento. Distinguir estas entidades muda por completo a urgência e a via de tratamento.

O diagnóstico da insuficiência vascular mesentérica vive de um princípio: alto índice de suspeição. Nas guidelines da World Society of Emergency Surgery (WSES 2022), a recomendação forte de abertura é que dor abdominal grave e desproporcionada aos achados do exame objetivo deve ser assumida como isquemia mesentérica aguda até prova em contrário. Cada entidade tem, porém, um percurso diagnóstico próprio.

Isquemia mesentérica aguda

Clínica. O sinal-âncora é a dor desproporcionada ao exame: dor intensa, difusa, mal localizada, num abdómen que numa fase inicial está mole, pouco doloroso à palpação e sem defesa. Esta dissociação entre uma queixa dramática e um exame inocente é o achado clássico e a razão de tantos diagnósticos tardios. A presença de irritação peritoneal (defesa, Blumberg) já sugere enfarte transmural com necrose, uma fase tardia. Procurar o contexto: fibrilhação auricular ou fonte embólica (embolia), doença aterosclerótica e angina intestinal prévia (trombose), doente crítico em baixo débito (NOMI), estado protrombótico (TVM).

Laboratório. Não há marcador precoce fiável. O lactato elevado e a acidose metabólica são marcadores tardios, que traduzem já necrose e má perfusão sistémica; um lactato normal não exclui isquemia numa fase inicial. Leucocitose acentuada, hemoconcentração e elevação de amílase, LDH e CK são inespecíficos. O D-dímero tem elevado valor preditivo negativo: um D-dímero normal torna a isquemia mesentérica aguda improvável, mas é pouco específico e não serve para confirmar.

Imagem. A angio-TC (angiotomografia com contraste endovenoso, protocolo com fase arterial e venosa) é o exame de eleição e deve ser realizada sem atraso perante suspeita, segundo a WSES 2022. Identifica o defeito de repleção arterial (êmbolo/trombo), a trombose venosa e sinais de sofrimento da parede: espessamento ou, pelo contrário, adelgaçamento, pneumatose intestinal, gás no sistema porta, ausência de realce da parede e ascite. Erro frequente: atrasar a TC para colher gasometria ou por recear a nefrotoxicidade do contraste; a suspeita clínica de isquemia mesentérica justifica o contraste, porque o custo do atraso é o enfarte intestinal. A radiografia simples do abdómen não é recomendada para avaliar isquemia mesentérica (só ajuda a excluir perfuração ou obstrução). A angiografia digital ficou reservada a intervenção endovascular.

Isquemia mesentérica crónica

O diagnóstico é sobretudo clínico-imagiológico. A história de dor pós-prandial, medo de comer e emagrecimento num doente com fatores de risco vascular deve levantar a hipótese. Confirma-se a estenose com angio-TC ou angio-RM dos vasos mesentéricos, ou eco-Doppler mesentérico (bom rastreio, muito operador-dependente, com velocidades de pico sistólico elevadas na estenose). O achado típico é a estenose significativa de dois ou mais dos três vasos esplâncnicos. Como é uma doença de exclusão em doentes que já foram investigados por emagrecimento, é frequente terem feito antes endoscopia alta e baixa normais. Erro frequente: atribuir o emagrecimento a neoplasia oculta e não valorizar o padrão pós-prandial da dor.

Colite isquémica

Suspeita-se em idoso com dor abdominal de início súbito, urgência para defecar e retorragia ou diarreia sanguinolenta ligeira a moderada, tipicamente após um evento de hipoperfusão. A hemorragia é habitualmente autolimitada e não causa instabilidade hemodinâmica; hemorragia maciça deve fazer pensar noutra causa. A TC com contraste endovenoso e oral é o primeiro exame (ACG 2015), mostrando espessamento segmentar da parede do cólon com distribuição típica nas zonas de watershed. A colonoscopia (de preferência sem preparação agressiva, nas primeiras 48 horas) confirma o diagnóstico e permite biópsia: mucosa edemaciada, friável, com hemorragia submucosa e, por vezes, o "single-stripe sign" (faixa linear de ulceração). A ACG recomenda ainda angio-TC se houver suspeita de isquemia do cólon direito isolada (que partilha vascularização com o delgado pela AMS e tem pior prognóstico) ou sempre que não se possa excluir isquemia mesentérica aguda arterial.

Erro frequente: confundir colite isquémica com colite infecciosa ou doença inflamatória intestinal. A distribuição segmentar em território de watershed, o contexto de hipoperfusão e a poupança do reto (irrigado por colaterais da circulação sistémica) apontam para a etiologia isquémica.

Insuficiência vascular mesentérica Três síndromes distintas: aguda (emergência), crónica (angina intestinal) e colite isquémica Síndrome Mecanismo / pista Diagnóstico Conduta Isquemiamesentérica aguda EMERGÊNCIA Dor abdominaldesproporcionadaao exame objetivo Embolia da AMS (mais comum): fibrilhação auricular, súbito Trombose da AMS: aterosclerose, angina prévia NOMI: baixo débito, vasopressores, digoxina Trombose venosa (indolente): hipercoagulabilidade Angio-TC = exame de eleição (sem atraso). Lactato/acidose são marcadores TARDIOS; lactato normal não exclui isquemia. Anticoagulação + revascularização + resseção do intestino inviável. Emergência cirúrgica. Isquemiamesentérica crónica (angina intestinal) Aterosclerose: estenose de ≥2 dos 3 vasos esplâncnicos. Tríade: dor pós-prandial + medo de comer (sitofobia) + emagrecimento Angio-TC, angio-RM ou eco-Doppler. Estenose de ≥2 dos 3 vasos esplâncnicos. Revascularização (endovascular/stent como 1.ª linha). + controlo de fatores de risco. Colite isquémica A MAIS COMUM Do CÓLON (não do delgado). Hipoperfusão em zonas de watershed (ângulo esplénico, junção retossigmoideia). Dor + retorragia / diarreia com sangue. TC com contraste + colonoscopia. Geralmente TRANSITÓRIA: suporte — fluidos, repouso intestinal; antibiótico se grave. Não confundir: isquemia da AMS vs colite isquémica Isquemia da AMS = intestino delgado; grave, emergência CIRÚRGICA de alta letalidade. Colite isquémica = cólon; a forma mais comum, geralmente benigna e de tratamento de suporte.
Esquema original InovaQB, síntese da isquemia mesentérica aguda e crónica e da colite isquémica.

Referências

  1. Bala M, Catena F, Kashuk J, et al. Acute mesenteric ischemia: updated guidelines of the World Society of Emergency Surgery. World J Emerg Surg. 2022;17:54.
  2. Bala M, Kashuk J, Moore EE, et al. Acute mesenteric ischemia: guidelines of the World Society of Emergency Surgery. World J Emerg Surg. 2017;12:38.
  3. Björck M, Koelemay M, Acosta S, et al. Editor's Choice - Management of the Diseases of Mesenteric Arteries and Veins: Clinical Practice Guidelines of the European Society of Vascular Surgery (ESVS). Eur J Vasc Endovasc Surg. 2017;53(4):460-510.
  4. European Society for Vascular Surgery (ESVS). 2025 Clinical Practice Guidelines on the Management of Diseases of the Mesenteric and Renal Arteries and Veins. Eur J Vasc Endovasc Surg. 2025.
  5. Brandt LJ, Feuerstadt P, Longstreth GF, Boley SJ. ACG Clinical Guideline: Epidemiology, Risk Factors, Patterns of Presentation, Diagnosis, and Management of Colon Ischemia (CI). Am J Gastroenterol. 2015;110(1):18-44.
  6. Society for Vascular Surgery. Clinical practice guidelines on chronic mesenteric ischemia. J Vasc Surg. 2021.

8 perguntas sobre Insuficiência vascular mesentérica

Ler consolida, treinar é o que fixa. Cada pergunta tem justificação alínea a alínea, no formato da Prova Nacional de Acesso.

Criar conta e treinar