Hepatite tóxica, medicamentosa e imunomediada
Atualizado em 28 de setembro de 2026 · 11 perguntas neste tema
A lesão hepática por fármacos e a hepatite autoimune chegam da mesma maneira, com transaminases altas, icterícia ou falência hepática aguda num fígado até então são, e separam-se pelo mecanismo e pelo tratamento. Entre as duas há uma zona de fronteira, a hepatite de tipo autoimune desencadeada por fármacos.
A lesão por fármacos pode ser intrínseca, previsível e dependente da dose, cujo exemplo é o paracetamol, ou idiossincrática, imprevisível e rara em cada doente, em que o fármaco mais frequente na Europa é a amoxicilina com clavulanato e os suplementos e produtos de ervanária pesam cada vez mais. É um diagnóstico de exclusão: pergunta-se por todos os fármacos, incluindo os de venda livre e os suplementos, calcula-se o padrão pela razão R e excluem-se as hepatites virais, a obstrução biliar e a hepatite autoimune. Trata-se suspendendo o fármaco. A icterícia numa lesão hepatocelular, a lei de Hy, anuncia cerca de 10% de morte ou transplante.
Na intoxicação por paracetamol, o metabolito reativo esgota a glutationa e necrosa a zona 3. Com hora conhecida, a paracetamolemia a partir das 4 horas, no nomograma, decide o antídoto; quando a hora é desconhecida, a ingestão foi escalonada ou já passaram 8 horas, a N-acetilcisteína começa logo. Dada nas primeiras 8 horas, protege quase sempre, e os critérios do King's College dizem quem vai precisar de transplante.
A hepatite autoimune atinge sobretudo mulheres, apresenta-se de forma assintomática, crónica ou aguda, e confirma-se com IgG elevada, autoanticorpos e biópsia. Ao contrário da lesão por fármacos, exige imunossupressão: prednisolona com azatioprina ou micofenolato na indução, e manutenção prolongada, muitas vezes para toda a vida.
O que não se pode falhar é a N-acetilcisteína adiada à espera de um resultado, o fármaco mantido num doente com icterícia e a imunossupressão parada quando as transaminases normalizam.
- Lesão hepática causada por um medicamento de prescrição ou de venda livre, um produto de ervanária ou um suplemento, depois de excluídas as outras causas.
- Há dois tipos:
- Intrínseca (direta): previsível, dependente da dose, atinge a maioria dos expostos acima de um limiar e surge em horas a dias. O paracetamol é o exemplo que importa.
- Idiossincrática: imprevisível, atinge uma pequena fração dos expostos, sem relação clara com a dose (embora quase sempre com fármacos tomados acima de 50 a 100 mg por dia), e com latência de dias a meses.
- Para se falar de lesão por fármacos é preciso atingir um destes limiares: alanina aminotransferase (ALT) de 5 vezes o limite superior do normal ou mais; fosfatase alcalina de 2 vezes ou mais, sem doença óssea; ou ALT de 3 vezes ou mais com bilirrubina total acima de 2 vezes. Se as análises já eram anormais antes do fármaco, o limite superior é substituído pelo valor basal.
- A forma idiossincrática tem uma incidência de cerca de 14 a 19 casos por 100 000 habitantes por ano nos estudos populacionais europeus.
- A amoxicilina com clavulanato é o fármaco mais implicado na Europa e nos Estados Unidos, mas o risco individual é baixo, cerca de 1 em 2300 utilizadores. A azatioprina e o infliximab têm o risco por utilizador mais alto, cerca de 1 em 130 a 150.
- Os antibióticos e os antiepiléticos somam mais de 60% dos casos. Os suplementos e produtos de ervanária já são a segunda classe nos Estados Unidos, com cerca de 20% dos casos.
- É a causa mais frequente de falência hepática aguda no Ocidente: o paracetamol responde por mais de metade dos casos, a forma idiossincrática por 13 a 15%.
Metabolismo e lesão
- A maioria dos fármacos passa por oxidação no citocromo P450 (fase I) e depois por conjugação com glucuronido ou sulfato, ou por inativação pela glutationa (fase II).
- Quase toda a hepatotoxicidade nasce de um metabolito reativo da fase I; a depleção de glutationa agrava-a.
- Os metabolitos reativos causam stress oxidativo, lesam a mitocôndria e o retículo endoplasmático e ligam-se a proteínas, formando adutos.
- Na forma idiossincrática, os adutos funcionam como haptenos: apresentados por certos alelos HLA, ativam a imunidade adaptativa, com linfócitos T citotóxicos contra o hepatócito. Isto explica a recorrência mais rápida e grave na reexposição.
- Outros alvos: as bombas canaliculares de sais biliares (colestase), a mitocôndria (esteatose microvesicular e acidose láctica, como no valproato) e o endotélio sinusoidal (síndrome de obstrução sinusoidal, com a quimioterapia em doses altas).
Suscetibilidade
- Genética: HLA-DRB1*15:01 na amoxicilina com clavulanato, HLA-B*57:01 na flucloxacilina.
- Idade: a idade avançada aumenta o risco da isoniazida, da amoxicilina com clavulanato e da nitrofurantoína; o jovem faz mais padrão hepatocelular, o idoso mais colestático.
- O álcool favorece a lesão pela isoniazida, pelo metotrexato e pelo halotano.
- A doença hepática prévia não torna a lesão em geral mais frequente, mas pode torná-la mais grave.
Adaptação
- Com a isoniazida, o valproato, a fenitoína e as estatinas surgem muitas vezes subidas ligeiras e transitórias das transaminases que regridem sem parar o fármaco. Sem sintomas nem progressão, não obrigam a suspender.
Fármacos a conhecer
| fármaco ou grupo | padrão típico | nota |
|---|---|---|
| Amoxicilina com clavulanato | colestático ou misto | muitas vezes começa depois de suspenso o antibiótico |
| Isoniazida | hepatocelular, semelhante a hepatite viral | latência até 6 meses; risco sobe com a idade e o álcool |
| Nitrofurantoína, minociclina, hidralazina, metildopa | hepatocelular, com autoanticorpos | quadro de tipo autoimune; latência longa na nitrofurantoína |
| Valproato | hepatocelular com esteatose microvesicular | sobretudo na criança e nas doenças mitocondriais |
| Fenitoína, carbamazepina, cotrimoxazol | variável, com hipersensibilidade | febre, exantema e eosinofilia |
| Esteroides anabolizantes | colestase sem inflamação | colestase prolongada; adenomas |
| Extrato de chá verde | hepatocelular agudo | suplementos para emagrecer |
| Amiodarona, metotrexato, tamoxifeno | esteatose e esteato-hepatite | pode evoluir para fibrose |
| Inibidores de pontos de controlo imunitário | hepatite imunomediada | mais com anti-CTLA4 e com associações |
- Vai de subidas assintomáticas das transaminases à hepatite com icterícia e à falência hepática aguda.
- Sintomas inespecíficos: cansaço, anorexia, náuseas, dor no hipocôndrio direito, colúria; prurido nas formas colestáticas.
- Latência: na maioria dos casos nos primeiros 6 meses depois de começar o fármaco, tipicamente entre 5 e 90 dias. A nitrofurantoína, a minociclina e as estatinas podem dar latências mais longas.
- Hipersensibilidade (febre, exantema, artralgias, eosinofilia) numa minoria, típica da fenitoína e do cotrimoxazol.
- DRESS (reação a fármacos com eosinofilia e sintomas sistémicos): atinge o fígado em 60 a 100% dos casos e tem mortalidade de cerca de 10%.
- Outras apresentações: colestase pura (estrogénios, anabolizantes), esteatose, granulomas, síndrome de obstrução sinusoidal, hiperplasia nodular regenerativa e tumores (adenomas com os androgénios e os contracetivos orais).
É um diagnóstico de exclusão: não há marcador específico, e juntam-se a cronologia, o padrão bioquímico, o que se sabe do fármaco e a exclusão das outras causas.
Anamnese
- Todos os fármacos, com datas de início e de fim, incluindo venda livre, chás, suplementos, ervanária, anabolizantes e drogas; muitos doentes não os referem se não lhes perguntarem.
- Suspender tudo o que não for essencial e consultar a LiverTox (base de dados norte-americana de hepatotoxicidade) para o perfil de cada fármaco.
Padrão bioquímico
A razão R calcula-se com a primeira análise disponível: é a ALT em múltiplos do limite superior do normal, dividida pela fosfatase alcalina em múltiplos do limite superior do normal.
| R | padrão | exemplos |
|---|---|---|
| 5 ou mais | hepatocelular | isoniazida, nitrofurantoína, chá verde, paracetamol |
| entre 2 e 5 | misto | amoxicilina com clavulanato, cotrimoxazol |
| 2 ou menos | colestático | amoxicilina com clavulanato, anabolizantes, estrogénios |
- A AST pode substituir a ALT no cálculo; a gama-glutamiltransferase substitui mal a fosfatase alcalina.
- Uma AST desproporcionada à ALT pede creatina cinase, para afastar lesão muscular.
Exclusão das outras causas
- Hepatocelular: hepatites A, B, C e E (a hepatite C aguda pode ter ainda anticorpos negativos: pedir o ARN), vírus de Epstein-Barr, citomegalovírus e herpes; hepatite autoimune; isquemia; doença de Wilson no jovem; álcool.
- Colestático ou misto: ecografia para a obstrução biliar; anticorpo antimitocondrial; colangiorressonância se a ecografia não esclarecer.
- A biópsia considera-se quando a lesão progride ou não resolve depois de parar o fármaco, ou quando se suspeita de hepatite autoimune.
Causalidade
- RUCAM (método de avaliação de causalidade de Roussel Uclaf): pontua sete domínios, que são a latência, a evolução depois de suspender, os fatores de risco (idade, álcool, gravidez), os fármacos concomitantes, a exclusão de outras causas, a hepatotoxicidade já descrita do fármaco e a resposta à reexposição.
- O total vai de menos 9 a mais 10: acima de 8, altamente provável; 6 a 8, provável; 3 a 5, possível; 1 a 2, improvável; 0 ou menos, excluída.
- A melhoria depois de suspender apoia o diagnóstico; a reexposição confirma-o, mas é perigosa e não se faz de propósito.
Gravidade
- Lei de Hy: lesão hepatocelular (ALT ou AST acima de 3 vezes o normal) com bilirrubina total acima de 2 vezes o normal, sem colestase inicial nem outra causa. Destes doentes, cerca de 10% morrem ou precisam de transplante.
- A razão normalizada internacional (INR), a encefalopatia, a bilirrubina e a albumina medem a gravidade. Uma INR a subir pede contacto com um centro de transplante.
- Prescrever só o necessário e rever a lista de fármacos e suplementos em cada consulta, sobretudo no idoso polimedicado.
- Lembrar aos doentes que os suplementos não passam pelos testes de segurança exigidos aos medicamentos, e pedir-lhes que os declarem.
- A vigilância mensal de rotina das análises não demonstrou eficácia para a maioria dos fármacos; o aviso ao doente para parar e consultar perante náuseas, cansaço, colúria ou icterícia protege mais.
Antituberculosos
- Vigiar a ALT durante o tratamento da tuberculose latente com isoniazida em quem tem risco: álcool crónico, outros hepatotóxicos, hepatite viral ou outra doença hepática, ALT basal alterada, hepatotoxicidade prévia à isoniazida, gravidez e os 3 meses depois do parto.
- Suspender a isoniazida se a ALT passar de 3 vezes o normal com sintomas (náuseas, dor abdominal, icterícia, cansaço inesperado) ou de 5 vezes sem sintomas.
- Suspender também se a bilirrubina passar de 1,5 vezes o normal com ALT acima de 3 vezes, ou se o tempo de protrombina passar de 1,5 vezes o normal.
- Nos esquemas antituberculosos sem fatores de risco, sugere-se controlo de 2 em 2 semanas nas primeiras 8 semanas e depois de 4 em 4.
Depois de um episódio
- Não voltar a dar o fármaco responsável e registá-lo no processo como reação adversa.
- Notificar ao INFARMED, pelo Portal RAM.
- Suspender o fármaco suspeito é o passo que importa. A maioria recupera sozinha em dias a semanas, mas a lesão pode continuar a piorar durante algum tempo depois de parar.
- Suspende-se ao primeiro sinal de reação, ou quando as transaminases chegam a 5 vezes o normal. Manter o fármaco apesar de sintomas e sinais de lesão associa-se a desfechos fatais.
- Doente com icterícia: vigilância apertada das análises. Encefalopatia ou coagulopatia: internamento e contacto com um centro de transplante.
Terapêuticas específicas
| situação | conduta |
|---|---|
| Paracetamol | N-acetilcisteína |
| Valproato | L-carnitina endovenosa, 100 mg/kg em 30 minutos (máximo 6 g), depois 15 mg/kg de 4 em 4 horas |
| Falência hepática aguda idiossincrática no adulto | N-acetilcisteína cedo, com encefalopatia de grau I ou II; avaliação para transplante |
| Hipersensibilidade marcada ou quadro de tipo autoimune | pode considerar-se corticoide |
- Os corticoides não se usam por rotina: não há ensaios que os sustentem na lesão idiossincrática.
- O ácido ursodesoxicólico usa-se muitas vezes na colestase prolongada, mas o benefício não está provado.
- Na criança, a N-acetilcisteína na falência hepática aguda que não é por paracetamol não mostrou benefício.
- A maioria recupera clínica e bioquimicamente.
- Falência hepática aguda em cerca de 10% dos doentes; depois de lá chegar, menos de 30% recuperam sem transplante e mais de 40% são transplantados.
- A forma hepatocelular com icterícia tem o pior prognóstico; a colestática recupera mais devagar e a mista tem a menor mortalidade.
- Cronicidade em cerca de 6%, sobretudo nas formas colestáticas e mistas. Bilirrubina acima de 2,8 vezes e fosfatase alcalina acima de 1,1 vezes o normal no segundo mês preveem-na.
- Síndrome de ductopenia (desaparecimento dos ductos biliares), com colestase persistente: carbamazepina, levofloxacina, amoxicilina com clavulanato.
- Formas crónicas raras: hepatite crónica de tipo autoimune, fibrose e cirrose (metotrexato, amiodarona), hiperplasia nodular regenerativa (oxaliplatina).
Doente sob imunoterapia oncológica
Os inibidores de pontos de controlo imunitário (anti-CTLA4, anti-PD1 e anti-PDL1) causam hepatite imunomediada, mais com os anti-CTLA4 e com as associações. Antes de começar: análises hepáticas basais, serologias virais e exclusão de hepatite autoimune. Durante: análises de 2 em 2 semanas nas primeiras 8 a 12 semanas, depois de 4 em 4.
| grau | ALT | conduta |
|---|---|---|
| 1 | até 3 vezes o normal | manter a imunoterapia com vigilância |
| 2 | 3 a 5 vezes | suspender a dose e vigiar 2 vezes por semana; se persistir mais de 2 semanas, corticoide e parar o fármaco |
| 3 e 4 | 5 a 20 vezes; acima de 20 | parar a imunoterapia, vigilância diária, metilprednisolona 1 a 2 mg/kg por dia; sem resposta em 2 a 3 dias, juntar micofenolato de mofetil |
- O infliximab não se usa nesta hepatite. Internar se a bilirrubina chegar a 2,5 mg/dL ou a INR a 1,5.
- Excluir a progressão das metástases hepáticas, que imita a lesão; a biópsia ajuda.
Idoso
- Mais reações adversas em geral, mais formas colestáticas e maior risco com a isoniazida, a amoxicilina com clavulanato e a nitrofurantoína. Rever sempre os fármacos e os suplementos perante uma alteração hepática inexplicada.
Criança
- Os antiepiléticos e os antimicrobianos são as causas mais frequentes; a minociclina é o antibiótico mais implicado, e não a amoxicilina com clavulanato.
- Maior suscetibilidade ao valproato e ao propiltiouracilo, e risco de síndrome de Reye com o ácido acetilsalicílico.
Doença hepática prévia
- A lesão não é em geral mais frequente, mas pode ser mais grave. Exceções com risco aumentado: metotrexato, isoniazida, antirretrovirais, e a hepatite B crónica durante os antituberculosos.
- Hepatotoxicidade intrínseca, dependente da dose, por ingestão única, habitualmente intencional, ou por sobredosagem não intencional repetida durante vários dias.
- É a causa mais frequente de falência hepática aguda nos Estados Unidos e em parte da Europa, com mais de metade dos casos.
- Metade é intencional; a outra metade resulta de tomas de 4 a 10 g por dia durante vários dias, com várias preparações que contêm paracetamol ou com associações de paracetamol e opioide. Há casos descritos com 2 a 4 g por dia.
- Dose potencialmente tóxica numa ingestão aguda no adulto: 10 g ou 200 mg/kg, o que for menor. Uma dose única de 10 a 15 g pode dar lesão; a doença fulminante fatal associa-se em regra a 25 g ou mais.
- Em dose terapêutica, o paracetamol é conjugado sobretudo com glucuronido e sulfato (fase II) e eliminado sem toxicidade.
- Uma fração pequena é oxidada pelo CYP2E1 num metabolito reativo, o NAPQI (N-acetil-p-benzoquinona imina), que a glutationa neutraliza.
- Na sobredosagem, a conjugação satura, forma-se mais NAPQI e a glutationa esgota-se: o NAPQI liga-se às proteínas do hepatócito e da mitocôndria e causa necrose centrolobular (zona 3).
- Agravam a toxicidade:
- a indução do CYP2E1: álcool crónico, isoniazida, fenobarbital;
- a falta de glutationa: jejum, desnutrição, doença febril sem alimentação, álcool crónico.
- No etílico crónico, a dose tóxica pode baixar para cerca de 2 g.
- A N-acetilcisteína fornece grupos sulfidrilo que repõem a glutationa e neutralizam o NAPQI; por isso protege tanto mais quanto mais cedo se dá.
| tempo depois da ingestão | quadro |
|---|---|
| 4 a 12 horas | náuseas, vómitos, diarreia, dor abdominal, por vezes choque; os sintomas podem ser ligeiros |
| 24 a 48 horas | os sintomas atenuam-se e a lesão hepática torna-se evidente |
| 3 a 5 dias | máximo das alterações: transaminases muitas vezes acima de 10 000 UI/L, falência hepática, lesão renal e miocárdica |
| depois | recuperação sem sequelas, ou morte e transplante |
- Lesão renal aguda em quase 75% das formas graves, quase sempre autolimitada.
- Transaminases altíssimas com bilirrubina ainda baixa são a assinatura desta lesão hiperaguda: perante este padrão pergunta-se pelo paracetamol, mesmo que o doente o negue.
Paracetamolemia e nomograma
- Doseia-se a partir das 4 horas depois de uma ingestão única de hora conhecida e marca-se no nomograma de Rumack-Matthew; antes das 4 horas o valor não é interpretável.
- A linha original começava em 200 mg/L às 4 horas. As linhas de tratamento atuais são mais baixas: 150 mg/L às 4 horas nos Estados Unidos, no Canadá, na Austrália e na Nova Zelândia; 100 mg/L às 4 horas no Reino Unido desde 2012, para todos os doentes.
- O nomograma não se usa quando a ingestão foi escalonada (ao longo de uma hora ou mais), quando a hora é desconhecida, nas tomas repetidas supraterapêuticas nem nas apresentações de libertação modificada, que pedem doseamentos repetidos.
- Uma paracetamolemia indetetável não exclui a intoxicação em quem chega tarde: o fármaco pode já ter sido eliminado.
Restante avaliação
- Transaminases, bilirrubina, INR, função renal, glicemia, gasometria com lactato; salicilatos e outros tóxicos quando a ingestão é intencional; teste de gravidez na mulher em idade fértil.
- Diferencial das transaminases muito altas: hepatite isquémica, hepatite viral aguda, hepatite autoimune aguda, doença de Wilson fulminante, cogumelos (Amanita phalloides).
- Dose máxima habitual no adulto de 4 g por dia; a agência norte-americana do medicamento recomendou baixá-la para 3 g, e para menos no consumo crónico de álcool.
- Avisar o etílico crónico, o desnutrido e quem está em jejum de que doses próximas das habituais podem ser tóxicas.
- Na doença hepática não alcoólica, incluindo a cirrose, o paracetamol em dose recomendada é bem tolerado e não se associou a descompensação.
- A dupla exposição (antigripais, associações com opioides) é a causa clássica da intoxicação não intencional: ensinar a ler a composição.
- Na tentativa de suicídio, avaliação psiquiátrica antes da alta.
Descontaminação
- Carvão ativado 50 g no adulto acordado e colaborante, se chegar nas primeiras 2 horas depois de uma dose tóxica; até às 4 horas nas ingestões acima de 30 g.
Quando dar N-acetilcisteína
| situação | conduta |
|---|---|
| Menos de 8 horas desde a ingestão, hora conhecida | esperar a paracetamolemia das 4 horas; tratar se estiver na linha ou acima dela |
| Mais de 8 horas, ou resultado impossível antes das 8 horas | começar logo, sem esperar o resultado, e decidir a continuação quando ele chegar |
| Ingestão escalonada, hora desconhecida, tomas repetidas supraterapêuticas | começar logo, sem usar o nomograma |
| Lesão hepática já instalada | dar na mesma: há benefício mesmo tardio |
- Dada nas primeiras 8 horas, a N-acetilcisteína previne a lesão hepática em praticamente todos os doentes; depois a eficácia cai, mas mantém algum efeito até às 24 a 36 horas.
Esquemas endovenosos
- Três bolsas, o esquema clássico e o mesmo da criança: 150 mg/kg em 1 hora, depois 50 mg/kg em 4 horas e 100 mg/kg em 16 horas, 300 mg/kg em 21 horas.
- Duas bolsas, adotado na Austrália e na Nova Zelândia desde 2019: 200 mg/kg em 4 horas e depois 100 mg/kg em 16 horas. Dá a mesma dose total, com eficácia semelhante e menos reações anafilactoides, porque a carga entra mais devagar.
- Nas ingestões maciças, com paracetamolemia acima do dobro da linha, dobra-se a segunda bolsa para 200 mg/kg em 16 horas, com conselho de toxicologia.
- As reações anafilactoides (rubor, exantema, broncospasmo, angioedema) são mais frequentes com paracetamolemias baixas. Suspende-se a perfusão, tratam-se os sintomas e retoma-se mais devagar; não contraindicam o antídoto.
- No fim da perfusão, mantém-se a N-acetilcisteína enquanto as transaminases estiverem a subir ou a INR for 2 ou mais; para-se quando as transaminases descem, a INR é inferior a 2 e o doente está bem.
Centro de Informação Antivenenos
- Em Portugal, o CIAV do INEM atende pelo 800 250 250.
- Os sobreviventes raramente ficam com lesão hepática crónica, mas podem repetir a sobredosagem.
- Falência hepática aguda: coagulopatia, encefalopatia, hipoglicemia, acidose, lesão renal e edema cerebral; cuidados intensivos e contacto precoce com um centro de transplante.
Quando falar com um centro de transplante
- pH arterial abaixo de 7,30 ou bicarbonato abaixo de 18 mmol/L;
- INR acima de 3,0 ao segundo dia ou acima de 4,0 depois;
- oligúria ou creatinina elevada;
- alteração do estado de consciência;
- hipoglicemia;
- lactato elevado que não corrige com fluidos.
Critérios do King's College na intoxicação por paracetamol
Mau prognóstico sem transplante se houver:
- pH arterial abaixo de 7,30, seja qual for o grau de encefalopatia; ou
- os três seguintes: tempo de protrombina acima de 100 segundos (INR acima de 6,5), creatinina acima de 3,4 mg/dL (300 µmol/L) e encefalopatia de grau III ou IV.
Um lactato arterial precoce acima de 3,5 mmol/L identifica também os doentes que vão provavelmente precisar de transplante.
Critérios do King's College nas outras causas
- Tempo de protrombina acima de 100 segundos (INR acima de 6,5), ou três de cinco: idade abaixo de 10 ou acima de 40 anos; causa por hepatite não A não B, halotano ou reação idiossincrática a fármaco; icterícia mais de 7 dias antes da encefalopatia; tempo de protrombina acima de 50 segundos (INR acima de 3,5); bilirrubina acima de 17,5 mg/dL (300 µmol/L).
- Etílico crónico, desnutrido ou em jejum: mais NAPQI e menos glutationa; a toxicidade surge com doses mais baixas.
- Criança: a intoxicação acidental é frequente; o tratamento segue os mesmos princípios, com as doses por peso e o mesmo esquema de N-acetilcisteína.
- Tomas repetidas supraterapêuticas (10 g ou 200 mg/kg ou mais em 24 horas, tomados como terapêutica): o nomograma não se aplica e a decisão faz-se pelas transaminases e pela paracetamolemia.
- Doença inflamatória crónica do fígado, imunomediada, com necrose e inflamação dos hepatócitos que progride para fibrose e cirrose se não for tratada.
- Rara, mas em aumento: incidência global de cerca de 1,3 por 100 000 por ano e prevalência de cerca de 16 por 100 000.
- Predomínio feminino, de 3 a 4 para 1. Picos na infância e adolescência e entre a quarta e a sexta décadas; cada vez mais diagnosticada no idoso.
- Cerca de 20% têm outra doença autoimune no diagnóstico: tiroidite (8 a 18%), doença inflamatória intestinal (4 a 22%) e doença celíaca (cerca de 4%, contra 0,4% na população); também síndrome de Sjögren, diabetes tipo 1, vitiligo e artrite reumatoide.
- Sem tratamento, a mortalidade é alta: nas formas graves chega aos 40% aos 6 meses.
- Perda de tolerância aos antigénios do próprio hepatócito, num indivíduo geneticamente predisposto, desencadeada por um fator ambiental: vírus (hepatites A, B ou C autolimitadas) ou fármacos, como a minociclina.
- Predisposição genética: HLA-DR3 e HLA-DR4 (alelos DRB1*03:01 e DRB1*04:01).
- Imunidade celular: linfócitos T CD4 sensibilizados a proteínas da membrana do hepatócito e falha dos linfócitos T reguladores; o mimetismo molecular é o mecanismo proposto.
- Imunidade humoral: hipergamaglobulinemia policlonal e autoanticorpos, que ajudam no diagnóstico mas não se demonstrou que causem a lesão. O anti-LKM1 reconhece o citocromo P450 2D6.
- Histologia: infiltrado linfoplasmocitário portal que ultrapassa a placa limitante e ataca os hepatócitos periportais (hepatite de interface), com plasmócitos, rosetas de hepatócitos e, nas formas agudas, necrose lobular e centrilobular. A lesão dos ductos biliares e os granulomas são raros.
- Apresentação muito variável:
- assintomática, com transaminases alteradas numa análise, em cerca de um quarto;
- crónica, com cansaço, mal-estar, anorexia, amenorreia, acne, artralgias e icterícia;
- aguda, semelhante a hepatite viral, por vezes com falência hepática aguda;
- doença já avançada em 20 a 33% no diagnóstico, por vezes revelada por ascite ou hemorragia varicosa.
- Manifestações extra-hepáticas: artrite, vasculite cutânea, eritema nodoso, pleurite, pericardite, síndrome seca.
- Transaminases entre 100 e 1000 UI/L, oscilantes; fosfatase alcalina normal ou pouco elevada; bilirrubina de 3 a 10 mg/dL nas formas graves.
Suspeita-se perante qualquer elevação de transaminases sem causa, seja qual for a subida, e perante qualquer cirrose sem causa, mesmo com transaminases normais. O diagnóstico junta quatro elementos, porque nenhum chega sozinho.
Laboratório
- IgG elevada em 85 a 95%, mas só em 25 a 39% das formas agudas: uma IgG normal não exclui.
- Autoanticorpos por imunofluorescência indireta em cortes de tecido de roedor, com o anti-SLA/LP por ensaio de fase sólida; se negativos, repetir com diluição mais baixa (1:40 no adulto, 1:10 na criança).
| perfil | autoanticorpos | quem |
|---|---|---|
| Tipo 1 | antinucleares e anti-músculo liso | a forma mais frequente, em qualquer idade |
| Tipo 2 | anti-LKM1 e anti-LC1 (citosol hepático) | sobretudo crianças pequenas, cerca de 10% dos casos pediátricos, com mais falência hepática aguda |
| Anti-SLA/LP | antigénio hepático solúvel | pode coexistir com os dois tipos; específico |
- No adulto já não se recomenda subdividir pelo perfil de autoanticorpos, porque não muda a conduta; na criança continua a ter valor.
- O anti-LKM1 aparece também nalguns doentes com hepatite C crónica.
Biópsia
- É necessária para o diagnóstico: hepatite de interface com infiltrado linfoplasmocitário, classificada como provável, possível ou improvável, com graduação da atividade e estadiamento da fibrose.
Critérios simplificados
| variável | 1 ponto | 2 pontos |
|---|---|---|
| Antinucleares ou anti-músculo liso | 1:40 ou mais | 1:80 ou mais; ou anti-LKM1 de 1:40 ou mais; ou anti-SLA/LP positivo |
| IgG | acima do normal | acima de 1,1 vezes o normal |
| Histologia | compatível | típica |
| Ausência de hepatite viral | sim |
- 6 pontos: hepatite autoimune provável; 7 ou mais: definitiva. Os autoanticorpos contam no máximo 2 pontos.
- Usam-se com cautela nas formas agudas, nas variantes, na doença hepática concomitante e na hepatite induzida por fármacos.
Diagnóstico diferencial
- Hepatites virais (incluindo a E), doença de Wilson no jovem, fígado gordo não alcoólico, doença alcoólica (podem coexistir), doença celíaca, lúpus.
- Hepatite de tipo autoimune induzida por fármacos (nitrofurantoína, minociclina, hidralazina, metildopa, estatinas, infliximab): o que a distingue é a evolução, porque resolve ao parar o fármaco e não recidiva depois de tirar os corticoides. Cerca de 9% das hepatites autoimunes parecem desencadeadas por fármacos.
- Variantes com colangite biliar primária ou colangite esclerosante primária: pensar sempre que há colestase. No adulto com colestase pedem-se primeiro o anticorpo antimitocondrial e os antinucleares específicos da colangite biliar (anti-gp210, anti-sp100), e colangiorressonância se forem negativos.
Não há prevenção primária. A prevenção é das complicações da doença e do tratamento:
- Vacinar contra as hepatites A e B todos os suscetíveis, se possível antes da imunossupressão; as restantes vacinas seguem o plano nacional.
- Hepatite B: com AgHBs positivo, antiviral durante a imunossupressão; com anti-HBc positivo e AgHBs negativo, profilaxia se o risco de reativação for alto, ou AgHBs e ADN viral de 3 em 3 meses se for baixo ou moderado.
- Rastrear doença da tiroide e doença celíaca no diagnóstico.
- Densitometria no início do tratamento; cálcio e vitamina D sob corticoide prolongado.
- A atividade da tiopurina metiltransferase pode medir-se antes da azatioprina, que se usa com cautela quando está baixa.
- Aconselhamento sobre o micofenolato, que é teratogénico, a mulheres e homens.
- Na cirrose: ecografia, com ou sem alfafetoproteína, de 6 em 6 meses para o carcinoma hepatocelular, e endoscopia para varizes se a elastografia der 20 kPa ou mais ou as plaquetas forem 150 000/µL ou menos.
Tratam-se todos os doentes com doença ativa, incluindo os que têm fibrose avançada ou cirrose compensada. O objetivo é a remissão bioquímica completa.
Indução
- Prednisolona (ou prednisona) de pelo menos 0,5 mg/kg por dia, até 1 mg/kg por dia nas formas mais graves, com redução progressiva conforme a resposta.
- Associada a um de dois poupadores de corticoide, ambos de primeira linha:
- azatioprina, começando com 50 mg por dia cerca de 2 semanas depois do corticoide e com a bilirrubina abaixo de 6 mg/dL, e subindo até 1 a 2 mg/kg por dia;
- micofenolato de mofetil, 1,5 a 2 g por dia, que pode começar ao mesmo tempo que o corticoide. Num ensaio aleatorizado deu mais respostas completas aos 6 meses do que a azatioprina (72% contra 32%), com menos efeitos adversos graves.
- A azatioprina nunca se usa sozinha na indução.
- Budesonida: as recomendações europeias de 2025 retiraram-na da primeira linha e contraindicam-na na cirrose. Pode ponderar-se a troca para budesonida no doente sem cirrose, dependente de prednisolona, que sofre os efeitos dos corticoides.
Resposta
| termo | definição |
|---|---|
| Resposta bioquímica completa | normalização das transaminases e da IgG até aos 6 a 12 meses |
| Resposta insuficiente | sem resposta completa aos 6 a 12 meses |
| Ausência de resposta | descida das transaminases inferior a 50% às 4 semanas |
- A ausência de resposta obriga a rever a adesão e o diagnóstico. Na resposta insuficiente à azatioprina, confirma-se a adesão (metabolitos da tiopurina), otimiza-se a dose e depois passa-se ao micofenolato; tacrolímus, infliximab ou rituximab ficam para centros diferenciados.
Manutenção
- Azatioprina ou micofenolato sozinhos, ou com prednisolona até 5 mg por dia, na dose que mantém a resposta.
- A maioria precisa de tratamento prolongado, muitas vezes para toda a vida. Só se tenta parar num doente escolhido, com resposta completa estável há pelo menos 2 anos sob monoterapia em dose baixa, com redução gradual e análises pelo menos de 3 em 3 meses no primeiro ano.
- Depois de uma recidiva após a primeira suspensão, não se volta a tentar. As recidivas e agudizações tratam-se com um curso curto de corticoide e ajuste da manutenção.
Hepatite autoimune aguda grave
- Sem falência hepática: corticoide cedo (prednisolona 0,5 a 1 mg/kg por dia ou metilprednisolona endovenosa em dose equivalente); sem melhoria em 3 a 7 dias, referenciar a um centro de transplante.
- Com falência hepática aguda: discutir logo com o centro de transplante.
- A cirrose descompensada por hepatite autoimune avalia-se para transplante.
Hepatite de tipo autoimune induzida por fármacos
- Suspender o fármaco. Se a hepatite for grave, a função hepática estiver comprometida ou não houver melhoria em 30 dias, prednisolona 0,5 mg/kg por dia com redução rápida até parar em 1 a 2 meses.
- Sem tratamento: cirrose em até metade das formas ligeiras ao fim de 15 anos, e mortalidade até 40% aos 6 meses nas formas graves.
- Com tratamento: sobrevida aos 10 anos de 80 a 98%; sem cirrose, próxima da da população geral.
- Cirrose e hipertensão portal, com as suas complicações.
- Carcinoma hepatocelular menos frequente do que noutras cirroses, com incidência anual de 1,1 a 1,9% na cirrose por hepatite autoimune; vigia-se na mesma.
- Recidiva frequente com a redução ou a suspensão da imunossupressão, e agudizações quando se abandona o tratamento.
- Complicações do tratamento: dos corticoides, aspeto cushingoide, hipertensão, diabetes e osteoporose; da azatioprina, citopenias e hepatotoxicidade; do micofenolato, teratogenicidade.
- Transplante: a hepatite autoimune é cerca de 8% dos transplantes hepáticos na Europa; pode recidivar no enxerto, mas a sobrevida aos 5 anos é de cerca de 79%.
- A ansiedade e a depressão são frequentes e pesam na adesão: avaliam-se por rotina.
Gravidez
- Mantêm-se a azatioprina e o corticoide durante a gravidez e a amamentação; interromper o tratamento é o maior risco.
- O micofenolato suspende-se pelo menos 3 meses antes da conceção, e não se usa numa hepatite autoimune que surja na gravidez.
- As agudizações são raras na gravidez (cerca de 13%) e frequentes no pós-parto (cerca de 41%, em média 11 semanas depois do parto), e pedem intensificar a imunossupressão.
- Mais diabetes gestacional, doença hipertensiva da gravidez, prematuridade e baixo peso ao nascer; a cirrose exige vigilância conjunta com a obstetrícia.
Criança
- O tipo 2 (anti-LKM1, anti-LC1) é mais frequente do que no adulto, cerca de 10% dos casos, surge mais cedo e com mais falência hepática aguda.
- A colangite esclerosante autoimune, a variante com colangite esclerosante, chega a 20% das doenças hepáticas autoimunes da criança e associa-se sobretudo aos antinucleares e anti-músculo liso, isto é, ao perfil do tipo 1, com mais doença inflamatória intestinal. Por isso pede-se colangiorressonância a todas as crianças com hepatite autoimune, com ou sem enzimas de colestase elevadas, e repete-se se persistir atividade ou colestase.
- Na variante com colangite esclerosante junta-se ácido ursodesoxicólico à imunossupressão.
- O tratamento é o do adulto, mas a prednisolona desce para 2,5 a 5 mg por dia na manutenção, para proteger o crescimento. A doença celíaca é mais frequente do que no adulto.
Idoso
- Formas mais ligeiras e mais assintomáticas, mas mais cirrose no diagnóstico. Com atividade pelo menos moderada, tratamento habitual e redução rápida dos corticoides; na forma ligeira assintomática sem fibrose avançada, pode vigiar-se sem tratar.
Referências
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11 perguntas sobre Hepatite tóxica, medicamentosa e imunomediada
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