Digestiva e HepatobiliarDoenças hepáticas genéticas, metabólicas e infiltrativasPublicado (Premium)

Doenças hepáticas genéticas, metabólicas e infiltrativas

Matriz PNA:MD · MecanismosD · Diagnóstico

Atualizado em 16 de julho de 2026 · 12 perguntas neste tema

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Em resumo

Sob o rótulo de doença hepática crónica escondem-se várias entidades genéticas, metabólicas e infiltrativas que se reconhecem menos pela histologia e mais pelo padrão das provas laboratoriais e por pistas extra-hepáticas. Saber qual o metal que se acumula (ferro na hemocromatose, cobre na doença de Wilson), qual a proteína que falta (alfa-1-antitripsina) ou que via metabólica está desregulada (MASLD) permite chegar ao diagnóstico com poucos exames dirigidos. Este capítulo organiza a abordagem médica destas doenças, com ênfase no raciocínio diagnóstico diferencial pelas análises e nas armadilhas típicas de exame.

Cada uma destas doenças tem um mecanismo central que explica quer a lesão hepática quer as manifestações à distância. Compreender esse mecanismo permite antecipar o quadro clínico e interpretar as provas.

Hemocromatose: perda da regulação da hepcidina. A hepcidina, hormona produzida no fígado, é o regulador-mestre do ferro: liga-se à ferroportina (o único exportador celular de ferro) nos enterócitos e macrófagos e degrada-a, reduzindo a entrada de ferro na circulação. A proteína HFE participa na sinalização que estimula a produção de hepcidina em resposta às reservas de ferro. Na hemocromatose HFE, a hepcidina é inapropriadamente baixa para a carga de ferro existente. A ferroportina mantém-se ativa, a absorção intestinal continua elevada e o ferro plasmático sobe. Quando a capacidade de fixação da transferrina é ultrapassada, aparece ferro não ligado à transferrina, altamente reativo, que é captado pelos hepatócitos, células acinares pancreáticas, miócitos cardíacos e outras. O ferro em excesso catalisa a formação de radicais livres (reação de Fenton), com peroxidação lipídica, ativação das células estreladas e fibrose progressiva. Isto explica a tríade clássica tardia: cirrose, diabetes (destruição das células beta, a "diabetes bronzeada" quando se junta a hiperpigmentação cutânea), artropatia (deposição articular, típica na 2.ª e 3.ª metacarpofalângicas), a que se somam miocardiopatia e hipogonadismo hipogonadotrófico por deposição hipofisária.

Doença de Wilson: falha da excreção biliar de cobre. A ATPase ATP7B tem duas funções no hepatócito: transportar cobre para a via secretora, onde é incorporado na apoceruloplasmina para formar ceruloplasmina, e mobilizar o cobre para excreção na bílis, a principal via de eliminação do cobre no organismo. Com ATP7B defeituosa, o cobre acumula-se no hepatócito e a ceruloplasmina circulante desce (proteína sem cobre é instável e degradada). O cobre intra-hepatocitário gera stress oxidativo e lesão mitocondrial. Quando a capacidade de armazenamento hepático é excedida, ou perante necrose hepatocitária, liberta-se cobre livre para o sangue, que se deposita no cérebro (núcleos da base, originando a componente neuropsiquiátrica), na córnea (anéis de Kayser-Fleischer, cobre na membrana de Descemet) e nos túbulos renais. Uma libertação maciça de cobre pode desencadear hemólise intravascular Coombs-negativa, e a combinação de insuficiência hepática aguda com anemia hemolítica Coombs-negativa e fosfatase alcalina baixa é muito sugestiva de crise de Wilson.

Défice de alfa-1-antitripsina: dois mecanismos opostos. A variante Z origina uma proteína mal enrolada que polimeriza dentro do retículo endoplasmático do hepatócito, formando inclusões que resistem à degradação. A doença hepática é assim uma doença de acumulação (ganho de função tóxico), com hepatite, fibrose e risco de carcinoma. No pulmão o problema é o oposto: a proteína retida não chega à circulação, o parênquima fica sem antiprotease e a elastase dos neutrófilos destrói as paredes alveolares, causando enfisema panlobular de predomínio basal, agravado pelo tabaco.

MASLD: lipotoxicidade sobre resistência à insulina. A resistência à insulina aumenta a lipólise periférica e o fluxo de ácidos gordos livres para o fígado, ao mesmo tempo que estimula a lipogénese de novo. A esteatose simples é relativamente inócua; a progressão para MASH ocorre quando os lípidos que se acumulam se tornam tóxicos (diacilgliceróis, ceramidas, colesterol livre), gerando stress oxidativo e do retículo endoplasmático, ativação inflamatória e apoptose. A lesão repetida ativa as células estreladas e conduz a fibrose, cirrose e risco de carcinoma hepatocelular, que na MASLD pode surgir mesmo sem cirrose estabelecida.

Síndrome de Gilbert: conjugação reduzida. Uma inserção no promotor do gene UGT1A1 reduz a expressão da enzima que conjuga a bilirrubina. A bilirrubina não conjugada acumula-se ligeiramente, sobretudo em situações que aumentam a produção ou reduzem a atividade enzimática: jejum, stress, febre, esforço físico. Não há hemólise nem colúria, porque a bilirrubina não conjugada não passa para a urina.

Infiltrativas: substituição e colestase. Na amiloidose a deposição de fibrilhas nos espaços de Disse comprime sinusoides e hepatócitos; a colestase manifesta-se por elevação marcada da fosfatase alcalina, muitas vezes com aminotransferases quase normais. Nas doenças granulomatosas (sarcoidose, tuberculose) os granulomas provocam um padrão colestático semelhante.

O diagnóstico destas doenças assenta em reconhecer o padrão bioquímico e confirmá-lo com o teste dirigido. Na maioria dos casos os autoanticorpos e as serologias víricas são negativos, o que ajuda a orientar para uma causa metabólica ou genética.

Hemocromatose. A porta de entrada são os índices de ferro em jejum. A chave é a saturação da transferrina elevada (> 45%), acompanhada de ferritina alta. A saturação da transferrina reflete a sobrecarga verdadeira e sobe cedo; a ferritina isolada é menos específica porque também é reagente de fase aguda (sobe na inflamação, síndrome metabólica, consumo de álcool). Perante saturação da transferrina reproduzível ≥ 45%, o passo seguinte é o teste genético HFE: a homozigotia C282Y confirma o diagnóstico. Segundo a orientação da AASLD, considera-se sobrecarga significativa nos homozigóticos C282Y quando a ferritina excede cerca de 300 ng/mL no homem e 200 ng/mL na mulher, com saturação ≥ 45%. A biópsia hepática deixou de ser necessária para o diagnóstico; reserva-se para estimar fibrose quando a ferritina é muito elevada (por exemplo > 1000 ng/mL) ou as transaminases estão alteradas, situações de maior risco de cirrose. A RM hepática com quantificação de ferro (T2*/R2) é útil para medir e seguir a sobrecarga de forma não invasiva. Deve rastrear-se a hemocromatose em familiares de 1.º grau.

Erro frequente: pedir ferritina isolada e interpretar uma ferritina alta com saturação normal como hemocromatose. Na hemocromatose hereditária a saturação da transferrina está elevada; ferritina alta com saturação normal aponta antes para inflamação, síndrome metabólica ou doença hepática de outra causa.

Doença de Wilson. Suspeitar em qualquer doente jovem (habitualmente < 40 anos, mas a idade não exclui) com doença hepática inexplicada, sobretudo se houver sintomas neurológicos (tremor, distonia, disartria) ou psiquiátricos. O rastreio inicial combina ceruloplasmina sérica baixa e cobre urinário de 24 horas elevado. O exame com lâmpada de fenda procura anéis de Kayser-Fleischer, quase constantes na forma neurológica mas ausentes numa parte dos doentes com doença apenas hepática. Nenhum teste isolado é suficiente; por isso se usa o score de Leipzig (Ferenci, 2003), que integra anéis de Kayser-Fleischer, ceruloplasmina, cobre urinário, presença de sintomas neurológicos, hemólise Coombs-negativa, cobre hepático em biópsia e análise das mutações ATP7B. As orientações EASL favorecem este score; a AASLD usa uma abordagem clínica e bioquímica algorítmica. O cobre hepático quantificado na biópsia e o estudo genético ATP7B confirmam os casos duvidosos.

Nota clínica: a ceruloplasmina é reagente de fase aguda e pode estar falsamente normal na inflamação, na gravidez ou com estrogénios; uma ceruloplasmina normal não exclui Wilson se a clínica for sugestiva.

Défice de alfa-1-antitripsina. Doseia-se o nível sérico de alfa-1-antitripsina (baixo) e, sobretudo, determina-se o fenótipo/genótipo Pi (PiZZ na forma clássica), porque o nível pode ser enganador (é reagente de fase aguda e pode normalizar em contexto inflamatório). A histologia mostra glóbulos PAS-positivos resistentes à diástase no citoplasma dos hepatócitos, o achado característico, mas a biópsia não é obrigatória para o diagnóstico. Pesquisar sempre doença pulmonar associada.

MASLD. É um diagnóstico de esteatose (imagem ou histologia) com pelo menos um critério cardiometabólico e após excluir consumo relevante de álcool e outras causas. A ecografia deteta esteatose mas é pouco sensível em graus ligeiros. O passo decisivo é estratificar a fibrose, que determina o prognóstico: começa-se pelo FIB-4 (idade, AST, ALT, plaquetas) e, nos casos indeterminados ou de risco, avança-se para a elastografia (rigidez hepática) ou testes séricos como o ELF. A biópsia reserva-se para dúvida diagnóstica ou avaliação de MASH com fibrose.

Síndrome de Gilbert. Diagnóstico clínico e laboratorial: hiperbilirrubinemia não conjugada ligeira e isolada, com hemograma, reticulócitos, LDH e haptoglobina normais (excluindo hemólise) e restantes provas hepáticas normais. Não exige teste genético nem biópsia. A bilirrubina sobe tipicamente no jejum, febre ou esforço.

Infiltrativas. O padrão bioquímico é colestático anictérico (fosfatase alcalina e GGT elevadas com aminotransferases pouco alteradas) e hepatomegalia. Na suspeita de amiloidose, a biópsia com coloração pelo vermelho do Congo mostra depósitos com birrefringência verde-maçã sob luz polarizada; o tipo de amiloide deve ser caracterizado. A sarcoidose e a tuberculose mostram granulomas (não caseosos na sarcoidose, caseosos com necrose na tuberculose).

Doenças hepáticas metabólicas: ferro, cobre e AAT Três doenças de sobrecarga ou défice — reconhecer pelo padrão laboratorial dirigido PARÂMETRO HEMOCROMATOSE (ferro) DOENÇA DE WILSON (cobre) DÉFICE DE ALFA-1- ANTITRIPSINA GENE / HERANÇA IDADE / CLÍNICA PROVA- CHAVE TRATA- MENTO Gene HFE; homozigotia C282Y. Autossómica recessiva. Gene ATP7B. Autossómica recessiva. Gene SERPINA1. Fenótipo PiZZ. Adulto tardio. Cirrose, diabetes «bronzeada», artropatia (2.ª/3.ª MCF), miocardiopatia, hipogonadismo. Jovem < 40 anos. Doença hepática + neuropsiquiátrica, anéis de Kayser-Fleischer, hemólise Coombs-negativa. Doença hepática + enfisema panlobular precoce. Saturação da transferrina > 45% + ferritina alta → teste genético HFE. Ceruloplasmina baixa + cobre urinário 24h alto + Kayser-Fleischer. Score de Leipzig. Nível de AAT baixo + fenótipo PiZZ. Glóbulos PAS-positivos diástase- resistentes no hepatócito. Flebotomia terapêutica seriada. Quelantes (trientina/ D-penicilamina) ou zinco. Suporte; transplante nos casos avançados. Diagnósticos diferenciais frequentes MASLD (nova nomenclatura 2023) Causa mais comum de doença hepática crónica. Esteatose → MASH → fibrose. Síndrome de Gilbert Bilirrubina NÃO conjugada, benigna; sobe em jejum. Sem hemólise.
Esquema original InovaQB, síntese das doenças hepáticas metabólicas (EASL hemocromatose/Wilson; nomenclatura MASLD 2023).

Referências

  1. Rinella ME, Lazarus JV, Ratziu V, et al. A multisociety Delphi consensus statement on new fatty liver disease nomenclature (AASLD-EASL-ALEH). J Hepatol / Hepatology. 2023.
  2. European Association for the Study of the Liver (EASL), EASD, EASO. EASL-EASD-EASO Clinical Practice Guidelines on the management of metabolic dysfunction-associated steatotic liver disease (MASLD). J Hepatol. 2024.
  3. U.S. Food and Drug Administration. Aprovação acelerada do resmetirom (Rezdiffra) para esteato-hepatite associada a disfunção metabólica (MASH) não cirrótica com fibrose moderada a avançada (F2-F3). 2024.
  4. Bacon BR, Adams PC, Kowdley KV, Powell LW, Tavill AS. Diagnosis and management of hemochromatosis: 2011 practice guideline by the American Association for the Study of Liver Diseases (AASLD). Hepatology. 2011.
  5. European Association for the Study of the Liver (EASL). EASL Clinical Practice Guidelines on haemochromatosis. J Hepatol. 2022.
  6. European Association for the Study of the Liver (EASL). EASL Clinical Practice Guidelines: Wilson's disease. J Hepatol. 2012.
  7. European Association for the Study of the Liver (EASL), European Reference Network (ERN). EASL-ERN Clinical Practice Guidelines on Wilson's disease. J Hepatol. 2025.
  8. Ferenci P, Caca K, Loudianos G, et al. Diagnosis and phenotypic classification of Wilson disease (score de Leipzig). Liver Int. 2003.
  9. American Gastroenterological Association, em colaboração com AASLD, EASL e Alpha-1 Foundation. Multi-Society Expert Panel Consensus Guidance on adults with alpha-1 antitrypsin deficiency-associated liver disease. Gastroenterology. 2025.

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