Doenças do esófago
Atualizado em 28 de setembro de 2026 · 25 perguntas neste tema
As doenças do esófago dividem-se pelo mecanismo, e é o mecanismo que o sintoma denuncia. A disfagia para sólidos e líquidos desde o início é motora; só para sólidos, e progressiva, é estrutural; intermitente, com impactação, é um anel ou uma esofagite eosinofílica. A odinofagia faz pensar em infeção ou comprimido, e a dor torácica esofágica imita a angina.
A doença de refluxo é a mais frequente. Na forma típica sem sinais de alarme, diagnostica-se pela resposta ao inibidor da bomba de protões, sem exames; a norma portuguesa fecha a lista de quem faz endoscopia e de quem faz monitorização do refluxo. Para provar que há refluxo mede-se sem tratamento; para perceber porque persistem os sintomas num refluxo já provado mede-se sob tratamento, com impedância. A complicação que pesa é o esófago de Barrett, que se vigia a intervalos fixados pelo comprimento e cuja displasia se trata por via endoscópica. A hérnia do hiato de deslizamento importa pelo refluxo que causa; a paraesofágica importa pelo volvo, e opera-se quando dá sintomas.
A esofagite eosinofílica é a doença imunoalérgica do homem jovem atópico que chega à urgência com um bolo alimentar impactado: diagnostica-se pela biópsia e trata-se com inibidor, corticoide tópico deglutido, dieta ou dupilumab, deixando a dilatação para a estenose. Na acalásia, o esfíncter não relaxa e o corpo perde a peristalse; a manometria de alta resolução define o subtipo, a endoscopia exclui o tumor que a imita, e o tratamento baixa a pressão do esfíncter por dilatação ou miotomia.
Os divertículos, os anéis e as membranas veem-se melhor no esofagograma. As esofagites infeciosas pertencem ao imunodeprimido e distinguem-se pelo aspeto das lesões e pelo sítio da biópsia. O que não se pode falhar é a rotura do esófago depois de vómitos, que imita o enfarte e a pancreatite e cuja sobrevivência depende de ser tratada nas primeiras 24 horas, e a disfagia progressiva com emagrecimento, que é neoplasia até prova em contrário.
Onde e como engasga
- Disfagia orofaríngea: dificuldade em iniciar a deglutição, tosse ou engasgamento ao engolir, regurgitação nasal, sialorreia. Aponta para doença neuromuscular ou para o divertículo de Zenker.
- Disfagia esofágica: sensação de o alimento parar no tórax. A localização referida pelo doente é pouco fiável: cerca de 30% das obstruções distais são sentidas no pescoço.
- Odinofagia (dor ao engolir): é rara no refluxo e faz pensar em esofagite infeciosa ou por comprimido.
| Padrão | Aponta para |
|---|---|
| Sólidos e líquidos desde o início | perturbação motora (acalásia) |
| Só sólidos, progressiva, com emagrecimento | obstrução estrutural: neoplasia, estenose péptica |
| Só sólidos, intermitente, com impactação | anel de Schatzki, esofagite eosinofílica |
| Disfagia com dor torácica, episódica | espasmo distal, esófago hipercontrátil |
| Regurgitação de alimentos antigos, halitose | divertículo de Zenker, acalásia avançada |
Exames
- Endoscopia digestiva alta: o exame inicial perante disfagia ou sinais de alarme. Vê a mucosa, permite biopsar e dilatar. Na disfagia de causa não esclarecida biopsa-se mesmo com mucosa normal, à procura de esofagite eosinofílica.
- Esofagograma baritado: mais sensível do que a endoscopia para estenoses difusas e anéis; mostra a morfologia (bico de pássaro, divertículos, hérnia). Raramente dispensa a endoscopia.
- Manometria de alta resolução: disfagia sem lesão na endoscopia, suspeita de perturbação motora, e sempre antes de cirurgia antirrefluxo.
- Monitorização do refluxo (pHmetria ou impedância-pHmetria): prova a existência de refluxo; as indicações estão no bloco da doença de refluxo.
- Refluxo de conteúdo gástrico que causa sintomas incomodativos ou lesão (esofagite, estenose, esófago de Barrett). Algum refluxo é fisiológico, ligado ao mecanismo da eructação.
- É a doença esofágica mais frequente: 10 a 15% dos adultos nos Estados Unidos referem pirose crónica.
- A norma portuguesa (DGS 019/2017) classifica-a pelo consenso de Montreal:
| Síndromes | Inclui |
|---|---|
| Esofágicas | sintomas típicos (pirose, regurgitação) ou dor torácica; com ou sem lesão (esofagite, estenose péptica, Barrett, adenocarcinoma) |
| Extraesofágicas com associação estabelecida | tosse, laringite e asma de refluxo |
| Extraesofágicas com associação proposta | faringite, sinusite, fibrose pulmonar idiopática, otite média recorrente |
- Só uma minoria tem esofagite na endoscopia (cerca de um terço); a maioria tem doença de refluxo não erosiva.
A barreira antirrefluxo
A junção esofagogástrica é um esfíncter complexo: o esfíncter esofágico inferior e os pilares do diafragma que o rodeiam. Falha por três mecanismos:
- Relaxamentos transitórios do esfíncter: reflexo vagovagal desencadeado pela distensão gástrica, sem deglutição. Explicam cerca de 90% dos episódios de refluxo em quem não tem hérnia do hiato.
- Hipotonia do esfíncter (por exemplo na esclerodermia).
- Rotura anatómica da junção, com a hérnia do hiato à cabeça: o esfíncter sobe para o tórax, perde o reforço dos pilares, e o conteúdo retido no saco herniário reflui a cada deglutição.
Agravam o refluxo, qualquer que seja o mecanismo: obesidade abdominal, gravidez, estados de hipersecreção gástrica, esvaziamento gástrico lento, peristalse comprometida e refeições volumosas.
Depuração e lesão
- O ácido que reflui é devolvido ao estômago pela peristalse e o resto é neutralizado pelo bicarbonato da saliva. Peristalse ineficaz ou pouca saliva prolongam a exposição.
- A esofagite resulta de uma resposta inflamatória mediada por citocinas ao ácido e à pepsina, mais do que de lesão cáustica direta. A hipersecreção ácida raramente é o fator dominante; a exceção é a síndrome de Zollinger-Ellison, com esofagite grave em cerca de metade dos doentes.
- A bílis persiste no refluxo apesar dos antissecretores e é apontada como cofator do Barrett e do adenocarcinoma.
- A gastrite crónica por Helicobacter pylori com atrofia e hipocloridria pode ter efeito protetor.
- A exposição crónica pode substituir o epitélio escamoso por epitélio colunar com metaplasia intestinal: o esófago de Barrett.
- Pirose: ardor retrosternal que sobe do epigastro, após as refeições, ao deitar ou no esforço; alivia com antiácido.
- Regurgitação: retorno sem esforço de conteúdo ácido ou alimentar à boca, sem náuseas. Distingue-se do vómito (náusea e esforço) e da ruminação (regurgitação e nova deglutição repetidas depois da refeição).
- Menos frequentes: dor torácica, disfagia, sialorreia reflexa (boca que se enche de líquido salgado).
- A intensidade da pirose correlaciona-se mal com a gravidade da esofagite.
- Extraesofágicas: tosse crónica, rouquidão, asma, erosões dentárias. A associação não prova causalidade.
Sinais de alarme (pedem endoscopia)
Disfagia ou odinofagia, perda involuntária de 5% do peso, hemorragia digestiva ou anemia, vómitos persistentes (lista completa no diagnóstico).
Diagnóstico diferencial
Esofagites infeciosa, medicamentosa e eosinofílica, úlcera péptica, dispepsia funcional, cólica biliar, perturbações motoras e, antes de tudo, doença coronária.
Diagnóstico clínico
Com pirose e regurgitação típicas e sem sinais de alarme, o diagnóstico assenta na história e na resposta ao inibidor da bomba de protões (IBP). Havendo resposta, não se pedem exames (norma DGS 019/2017).
Indicações de endoscopia (norma DGS 019/2017)
- Sintomas que persistem, recidivam ou agravam sob tratamento.
- Disfagia ou odinofagia.
- Perda involuntária de 5% do peso associada aos sintomas.
- Hemorragia digestiva ou anemia.
- Massa, estenose ou úlcera em exames de imagem.
- Rastreio de esófago de Barrett em pessoas selecionadas.
- Vómitos persistentes.
- Sintomas recorrentes depois de procedimento antirrefluxo, cirúrgico ou endoscópico.
- Recorrência dos sintomas ao suspender o IBP em quem tem mais de 50 anos e nunca fez endoscopia, mesmo sem alarme.
Duas regras da mesma norma: com mucosa normal ou aspeto de esofagite péptica não se biopsa para diagnosticar refluxo; e na esofagite as endoscopias de seguimento só se pedem se os sintomas mudarem ou persistirem sob tratamento. Na dúvida diagnóstica, a endoscopia rende mais feita 2 a 4 semanas depois de suspender o IBP.
Classificação de Los Angeles
| Grau | Achado |
|---|---|
| A | erosões até 5 mm, limitadas às pregas |
| B | erosões maiores de 5 mm, sem continuidade entre pregas |
| C | erosões contínuas entre duas ou mais pregas, em menos de 75% da circunferência |
| D | erosões em 75% ou mais da circunferência |
Pelo consenso de Lyon 2.0, a esofagite B, C ou D, o Barrett confirmado por biópsia e a estenose péptica são prova conclusiva de refluxo. O grau A não é conclusivo e precisa de outros dados.
Monitorização do refluxo
Faz-se por pHmetria de 24 horas ou por impedância-pHmetria, sempre precedida de manometria para localizar o esfíncter e posicionar a sonda. Mede a exposição ácida: a percentagem do tempo com pH abaixo de 4.
| Pergunta | Exame | Em que condições |
|---|---|---|
| Há refluxo? (doença não provada) | pHmetria, ou impedância-pHmetria | sem IBP |
| Porque persistem os sintomas? (refluxo já provado, sintomas refratários) | impedância-pHmetria | sob IBP otimizado |
- Sem IBP (Lyon 2.0): exposição ácida acima de 6% confirma a doença, abaixo de 4% exclui-a, e entre 4 e 6% é inconclusiva. Mais de 80 episódios de refluxo apoiam o diagnóstico e menos de 40 são normais.
- Sob IBP, só a impedância serve, porque deteta também o refluxo pouco ácido que o IBP não elimina. Exposição ácida de 4% ou mais ou mais de 80 episódios apesar do tratamento indicam refluxo refratário, que pede escalada. Se não houver refluxo, os sintomas são hipersensibilidade ao refluxo ou pirose funcional.
- A monitorização sem IBP pode prolongar-se até 96 horas com cápsula sem fios, que aumenta a rentabilidade.
Indicações (norma DGS 019/2017):
- Confirmar o diagnóstico antes de cirurgia ou tratamento endoscópico, quando a endoscopia não mostra esofagite nem complicação.
- Sintomas atípicos ou extraesofágicos: antes da prova terapêutica sem sintomas típicos, e para avaliar a causalidade.
- Recidiva dos sintomas depois de cirurgia antirrefluxo.
- Por impedância-pHmetria: sintomas sugestivos com endoscopia e pHmetria normais, suspeita de refluxo não ácido, e sintomas típicos sem resposta ao IBP.
- Não se faz para diagnosticar refluxo em quem já tem esófago de Barrett.
Manometria
Não diagnostica refluxo. Pede-se para esclarecer disfagia sem lesão endoscópica e, obrigatoriamente, antes de cirurgia antirrefluxo, para excluir acalásia, ausência de contratilidade ou esclerodermia.
Medidas gerais
- Perda de peso se há excesso ponderal: a medida com mais fundamento.
- Sintomas noturnos: elevar a cabeceira da cama e evitar refeições nas 2 a 3 horas antes de deitar.
- Evitar os alimentos que o doente reconhece como desencadeantes; a evidência para dietas restritivas é fraca.
Fármacos
- IBP em primeira linha (norma DGS 019/2017), tomado 30 a 60 minutos antes da refeição. Não há diferenças relevantes de eficácia entre os IBP.
- Antiácidos e alginatos: alívio rápido mas transitório, sem cura da esofagite; para sintomas intermitentes ou como complemento.
- Antagonistas H2: menos eficazes do que o IBP, com taquifilaxia em semanas.
| Situação | Esquema (norma DGS 019/2017) |
|---|---|
| Síndrome esofágica com resposta às 4 a 8 semanas | reduzir gradualmente até suspender |
| Recorrência depois de suspender | manutenção com a menor dose eficaz, diária ou intermitente |
| Esofagite | dose superior à de manutenção durante 8 semanas, depois manutenção |
| Resposta incompleta a uma toma diária | passar a duas tomas |
| Síndrome extraesofágica com sintomas típicos | uma ou duas tomas diárias, avaliar a resposta até às 12 semanas |
| Depois de dilatar uma estenose péptica | IBP de manutenção, para reduzir novas dilatações |
- Na esofagite LA C ou D, manutenção indefinida ou cirurgia (ACG 2022).
- A suspensão faz-se de forma gradual: numa minoria há hipersecreção de ressalto.
- Efeitos do uso prolongado de IBP: hipomagnesemia, défice de vitamina B12 e de ferro, infeção por Clostridioides difficile, nefrite intersticial rara. Usa-se a menor dose que controla a doença.
Cirurgia antirrefluxo
- Indicações (norma DGS 019/2017): alternativa em quem precisa de tratamento prolongado; e doença refratária com refluxo comprovado e correlação entre sintomas e refluxo documentada.
- Técnica habitual: fundoplicatura de Nissen laparoscópica, que envolve o esófago distal com o fundo gástrico. Eficácia semelhante ao IBP na esofagite.
- Exige manometria prévia. Efeitos adversos: disfagia, incapacidade de eructar, distensão e flatulência.
Referenciação (norma DGS 019/2017)
| Prazo máximo | Para | Quem |
|---|---|---|
| 30 dias | gastrenterologia ou cirurgia geral | hemorragia com repercussão clínica, carcinoma ou displasia de alto grau, estenose esofágica |
| 120 dias | gastrenterologia | doença refratária ao tratamento médico; indicação para monitorização do refluxo |
| 120 dias | cirurgia geral | indicação cirúrgica |
- Esofagite erosiva e hemorragia: menos frequentes desde os IBP.
- Estenose péptica: disfagia progressiva para sólidos; trata-se por dilatação com IBP de manutenção.
- Esófago de Barrett: a complicação histológica mais grave, precursora do adenocarcinoma, e cuja incidência não diminuiu com os IBP.
- Adenocarcinoma do esófago: a sua incidência subiu em paralelo com a da doença de refluxo.
- A doença é crónica: os sintomas recorrem com frequência depois de suspender o tratamento.
Gravidez
- A pirose é muito frequente, pelo relaxamento do esfíncter mediado pela progesterona e pela pressão do útero.
- Começa-se pelas medidas gerais e por antiácidos, alginatos ou sucralfato; os antagonistas H2 e os IBP usam-se quando os sintomas persistem.
Esclerodermia
A esclerose sistémica destrói a muscular própria e deixa o esfíncter hipotónico e o corpo sem contratilidade: refluxo grave com má depuração do ácido. O mesmo padrão manométrico aparece, em cerca de metade dos casos, sem doença do tecido conjuntivo.
- Substituição do epitélio escamoso do esófago distal por epitélio colunar com metaplasia intestinal, que se estende pelo menos 1 cm acima da junção esofagogástrica.
- Prevalência de 1 a 2% na população geral e de 8 a 13% em quem tem refluxo crónico.
- Risco de progressão para displasia de alto grau ou adenocarcinoma de 0,3 a 0,8% por ano, pela sequência metaplasia, displasia de baixo grau, displasia de alto grau, adenocarcinoma.
- Grupo de maior risco: homem, branco, obeso, a partir da sexta década.
- Endoscopia: mucosa cor de salmão acima da junção; confirmação histológica da metaplasia intestinal.
- Extensão descrita pela classificação de Praga: C (extensão circunferencial) e M (extensão máxima), em centímetros.
- Biópsias: primeiro de todas as lesões visíveis, depois aleatórias nos quatro quadrantes a cada 2 cm de segmento.
- Uma linha Z irregular ou segmento colunar com menos de 1 cm não se biopsa nem se vigia.
- A displasia de baixo grau confirma-se por um segundo patologista experiente.
Quem procurar (ESGE 2023)
Não se rastreia a população geral. Pode procurar-se o Barrett em quem tem 50 anos ou mais, refluxo crónico e pelo menos um fator de risco: raça branca, sexo masculino, obesidade, tabagismo, familiar em primeiro grau com Barrett ou adenocarcinoma.
Sem displasia: vigilância (ESGE 2023)
| Extensão máxima | Intervalo |
|---|---|
| menos de 1 cm | sem vigilância |
| 1 a menos de 3 cm | 5 anos |
| 3 a menos de 10 cm | 3 anos |
| 10 cm ou mais | vigilância num centro especializado |
- Pode parar-se a vigilância a partir dos 75 anos ou com esperança de vida inferior a 5 anos.
- IBP em dose padrão diária; os sintomas tratam-se como em qualquer doença de refluxo. Não se usa aspirina nem anti-inflamatórios como quimioprevenção.
Com displasia ou lesão visível
- Displasia de baixo grau confirmada em duas endoscopias e por segundo patologista: ablação endoscópica.
- Displasia de alto grau sem lesão visível: ablação.
- Lesão visível: resseção endoscópica (mucosa ou submucosa), que é diagnóstica e terapêutica, seguida de ablação de todo o epitélio de Barrett restante.
- O carcinoma intramucoso bem ou moderadamente diferenciado, sem invasão linfovascular, cura-se por resseção endoscópica.
- Durante e depois da erradicação mantém-se supressão ácida adequada.
Passagem de vísceras abdominais, sobretudo do estômago, para o mediastino através do hiato esofágico do diafragma.
| Tipo | Anatomia | Frequência |
|---|---|---|
| I, de deslizamento | a junção esofagogástrica e o cárdia sobem para o tórax | 95% ou mais |
| II, paraesofágica pura | o fundo gástrico hernia ao lado do esófago; a junção fica no lugar | rara |
| III, mista | a junção e o fundo sobem | a mais frequente das paraesofágicas |
| IV | hernia outro órgão além do estômago, em regra o cólon | rara |
- Os tipos II a IV chamam-se em conjunto hérnias paraesofágicas (ou gigantes).
- A hérnia de deslizamento aumenta com a idade. As paraesofágicas surgem mais tarde (idade mediana de 61 anos, contra 48 nas de deslizamento) e são quatro vezes mais frequentes na mulher.
- A evolução natural é de crescimento: muitas hérnias de tipo I passam a tipo III.
- Fase final: estômago intratorácico, com rotação de 180 graus sobre o eixo longitudinal.
- Desgaste da membrana frenoesofágica, que fixa a junção ao diafragma, com alargamento do hiato. A pressão abdominal repetida (obesidade abdominal, gravidez) e a tração do encurtamento esofágico durante a deglutição fazem-na ceder ao longo dos anos; há também predisposição hereditária.
- A hérnia de deslizamento aumenta com a pressão abdominal, a deglutição e a respiração.
- Porque dá refluxo: separa o esfíncter do reforço dos pilares, faz perder o ângulo de His, retira o esfíncter do ambiente de pressão abdominal positiva, e o conteúdo retido no saco reflui a cada deglutição.
- Porque as paraesofágicas são perigosas: o estômago roda à medida que sobe (volvo organoaxial), com risco de obstrução, isquemia, estrangulamento e perfuração. Erosões na zona comprimida pelo hiato causam perda crónica de sangue (lesões de Cameron).
- Tipo I: muitas vezes assintomática; quando dá sintomas, são os da doença de refluxo. O seu significado clínico é a propensão para o refluxo.
- Paraesofágicas: plenitude pós-prandial, dor retrosternal depois das refeições, disfagia, regurgitação, dispneia e pneumonias de aspiração. Muitas são assintomáticas ou pouco sintomáticas.
- Anemia ferropénica em cerca de um terço dos doentes com hérnia paraesofágica.
- Volvo gástrico agudo: obstrução gástrica aguda que evolui para isquemia, perfuração e sépsis, muitas vezes sem aviso prévio. É emergência cirúrgica.
- Radiografia do tórax em pé: nível hidroaéreo por trás da silhueta cardíaca sugere hérnia paraesofágica ou estômago intratorácico.
- Esofagograma baritado: o melhor exame para a anatomia e para distinguir os tipos (onde está a junção). Deteta sempre a paraesofágica, que é fixa; a de deslizamento pode reduzir-se durante o exame.
- Endoscopia: em retroflexão, a hérnia de deslizamento vê-se como bolsa com pregas gástricas acima da impressão dos pilares, com pelo menos 2 cm entre os pilares e a junção escamocolunar; a paraesofágica, como segundo orifício ao lado da junção. Avalia esofagite, Barrett e erosões de Cameron.
- Manometria antes da cirurgia, para excluir perturbação motora.
Tipo I, de deslizamento
- Trata-se a doença de refluxo: medidas gerais e IBP.
- A hérnia de deslizamento sem refluxo não se opera.
- A cirurgia segue as indicações da cirurgia antirrefluxo: redução da hérnia, encerramento dos pilares e fundoplicatura.
Paraesofágicas (tipos II a IV)
| Situação | Conduta |
|---|---|
| Sintomática | reparação cirúrgica eletiva |
| Obstrução aguda ou volvo | cirurgia urgente |
| Assintomática | vigilância aceitável; decide-se com a idade e as comorbilidades |
- Razão para operar os sintomáticos: a reparação eletiva tem mortalidade inferior a 1%, e a de urgência muito maior. O risco de encarceramento ao longo da vida da hérnia assintomática parece ser inferior a 5%, o que não justifica operar todas.
- Técnica: via laparoscópica, redução do estômago e excisão do saco, encerramento dos pilares, e fundoplicatura por rotina. A rede de reforço do hiato continua controversa.
- A anemia corrige-se em mais de 90% dos doentes depois da reparação.
- A recidiva radiológica depois de reparar uma hérnia gigante é frequente (25 a 40%); a recidiva assintomática não se reopera.
- Volvo gástrico com obstrução aguda, isquemia e estrangulamento, perfuração e sépsis.
- Hemorragia, aguda ou crónica (erosões de Cameron), com anemia ferropénica.
- Aspiração e pneumonia de repetição.
- Da hérnia de deslizamento: as da doença de refluxo (esofagite, estenose, Barrett).
- Doença crónica imunomediada do esófago, com sintomas de disfunção esofágica e inflamação com predomínio de eosinófilos.
- Prevalência crescente, por maior incidência e por maior reconhecimento: nos Estados Unidos, 4 a 8 casos por 10 000 habitantes.
- Predomina no homem branco entre os 30 e os 40 anos, mas atinge crianças e adultos.
- A maioria tem atopia: alergia alimentar mediada por IgE, asma, eczema ou rinite alérgica.
- Hoje é uma das principais causas de disfagia e de impactação alimentar no adulto jovem.
- Os alergénios (sobretudo alimentares; os aeroalergénios contribuem) atravessam uma barreira epitelial com defeitos, intrínsecos ou adquiridos, e desencadeiam uma resposta imunitária de tipo 2 (interleucinas 4, 5 e 13), com eosinófilos entre as células efetoras.
- É uma hipersensibilidade tardia, mediada por linfócitos, em que a IgE é dispensável. Por isso os testes cutâneos e a IgE específica não identificam os alimentos responsáveis.
- Há suscetibilidade genética (por exemplo loci da linfopoietina estromal tímica e da calpaína 14).
- A inflamação persistente leva a remodelação e fibrose da lâmina própria: com o atraso diagnóstico, a doença passa de um fenótipo inflamatório a um fenótipo fibroestenótico, com anéis fixos, estenose e esófago de pequeno calibre. O risco de estenose acompanha a duração da doença não tratada.
- Adolescente e adulto: disfagia para sólidos e impactação alimentar; também pirose e dor torácica.
- Criança pequena: recusa alimentar, dificuldade em progredir para sólidos, má progressão ponderal, vómitos, dor abdominal.
- Os doentes adaptam-se: comem devagar, cortam em pedaços pequenos, bebem muito às refeições, evitam carne e pão. Estas adaptações escondem a disfagia e atrasam o diagnóstico, e têm de ser perguntadas.
- Eosinofilia periférica em 25 a 50%, pouco específica.
Critérios (ACG 2025)
- Sintomas de disfunção esofágica.
- 15 ou mais eosinófilos por campo de grande ampliação na biópsia esofágica.
- Exclusão de outras causas de eosinofilia esofágica.
- Já não se exige a prova prévia com IBP: o IBP passou a ser um dos tratamentos e deixou de ser filtro diagnóstico.
Endoscopia e biópsias
- Achados: anéis fixos, sulcos longitudinais, exsudados brancos, edema com perda do padrão vascular, estenose, mucosa em papel crepe. Podem faltar.
- Colhem-se pelo menos 6 biópsias de pelo menos dois níveis (proximal ou médio e distal), dirigidas aos achados, porque a doença é salteada.
- Na impactação alimentar, biopsa-se na mesma endoscopia, depois de retirar o bolo.
Diagnóstico diferencial da eosinofilia esofágica
Doença de refluxo, hipersensibilidade a fármacos, doenças do tecido conjuntivo, síndrome hipereosinofílica, doença de Crohn, gastroenterite eosinofílica, infeção.
Escolhe-se, com o doente, uma terapêutica anti-inflamatória de cada vez, e avalia-se a resposta com endoscopia e biópsias 8 a 12 semanas depois (12 a 24 semanas no dupilumab). A doença é crónica: o tratamento eficaz mantém-se.
| Opção | Notas |
|---|---|
| IBP | resposta histológica em 30 a 50% |
| Corticoide tópico deglutido (budesonida ou fluticasona) | resposta histológica em cerca de 60 a 70%; budesonida orodispersível 1 mg duas vezes por dia durante 6 a 12 semanas, depois 0,5 ou 1 mg duas vezes por dia |
| Dieta de eliminação empírica | leite isolado, ou 2, 4 ou 6 alimentos (leite, trigo, ovo, soja, frutos de casca rija e amendoim, peixe e marisco), com reintrodução sequencial e nutricionista |
| Dupilumab (anti-recetor da interleucina 4) | sem resposta ao IBP, a partir de 1 ano de idade; útil com várias doenças atópicas |
| Dilatação endoscópica | trata a estenose e alivia a disfagia; complemento, não substitui o tratamento anti-inflamatório |
- Os corticoides sistémicos não se recomendam.
- Os testes alérgicos não orientam a dieta.
- A dilatação procura um calibre de cerca de 16 mm, por etapas; o esófago rígido lacera com facilidade.
- Sem tratamento de manutenção, a recidiva é a regra.
- Impactação alimentar: urgência; se não passa espontaneamente, remove-se por endoscopia. Não se usam enzimas amaciadoras de carne.
- Estenose, esófago de pequeno calibre e, raramente, perfuração, espontânea ou ao dilatar ou desimpactar.
- A remissão prolongada com tratamento de manutenção reduz as impactações e as dilatações.
- Acalásia: o esfíncter esofágico inferior não relaxa na deglutição e o corpo do esófago perde a peristalse. É rara, com incidência de 1 a 3 por 100 000, e surge sobretudo entre os 25 e os 60 anos.
- Espasmo esofágico distal: contrações prematuras com relaxamento normal do esfíncter. Mais raro do que a acalásia quando definido com rigor.
- Esófago hipercontrátil (em martelo pneumático): contrações de amplitude excessiva com latência normal.
- Ausência de contratilidade e motilidade esofágica ineficaz: peristalse ausente ou fraca com esfíncter que relaxa, frequentes na esclerodermia e no refluxo grave.
Acalásia primária
- Perda das células ganglionares do plexo mioentérico, que atinge os neurónios inibitórios (óxido nítrico e péptido intestinal vasoativo) e, mais tarde, os excitatórios (colinérgicos).
- Os neurónios inibitórios medeiam o relaxamento do esfíncter e a sequência da peristalse: sem eles, o esfíncter não abre e o corpo perde a propagação.
- Causa provável: processo autoimune desencadeado por infeção latente por vírus herpes simples tipo 1 em pessoas geneticamente suscetíveis.
- Com a evolução, o esófago dilata, torna-se sigmoide, e o esfíncter hipertrofia.
Acalásia secundária e pseudoacalásia
- Doença de Chagas (Trypanosoma cruzi, América do Sul e Central): destruição dos gânglios autonómicos de vários órgãos, incluindo o coração, anos depois da infeção.
- Opioides crónicos: padrão manométrico semelhante.
- Pseudoacalásia: infiltração tumoral da junção (carcinoma do fundo gástrico ou do esófago distal), ou síndrome paraneoplásica com anticorpos antineuronais. Até 5% dos casos suspeitos.
Espasmo distal
Contrações com latência curta (prematuras), sinal de disfunção dos neurónios inibitórios do plexo, com relaxamento do esfíncter preservado.
Acalásia
- Disfagia para sólidos e líquidos, desde o início.
- Regurgitação de alimentos não digeridos e saliva, que o esófago dilatado retém.
- Dor torácica retrosternal constritiva, mais cedo na doença, e às vezes uma "pirose" que é equivalente de dor.
- Perda de peso.
- Doença avançada: bronquite, pneumonia ou abcesso pulmonar por aspiração.
Espasmo distal e esófago hipercontrátil
Dor torácica e disfagia intermitentes. A dor esofágica imita a angina: não relacionada com o esforço, prolongada, ligada às refeições, alivia com antiácidos, acompanhada de pirose, disfagia ou regurgitação, acorda o doente. Nenhum destes traços exclui doença coronária.
Exames na acalásia
- Endoscopia obrigatória antes de tratar: exclui tumor e estenose da junção (pseudoacalásia). Com suspeita alta de pseudoacalásia e endoscopia inconclusiva, faz-se TC ou ecoendoscopia; o risco é maior acima dos 55 anos, com sintomas há menos de 12 meses e perda de mais de 10 kg.
- Esofagograma baritado: esófago dilatado que esvazia mal, nível hidroaéreo e afilamento distal em bico de pássaro; esófago sigmoide na doença avançada. O esofagograma cronometrado, que mede o esvaziamento, é preferível ao convencional.
- Manometria de alta resolução: o exame mais sensível e o que define o subtipo, porque deteta a doença antes da dilatação.
Classificação de Chicago 4.0
A pressão integrada de relaxamento mede quanto o esfíncter relaxa; o limite superior do normal é de 15 mmHg em decúbito (12 mmHg sentado) no sistema mais usado.
| Diagnóstico | Relaxamento do esfíncter | Corpo do esófago |
|---|---|---|
| Acalásia tipo I | insuficiente | 100% de peristalse falhada, sem pressurização |
| Acalásia tipo II | insuficiente | 100% de peristalse falhada, com pressurização panesofágica em 20% ou mais das deglutições |
| Acalásia tipo III (espástica) | insuficiente | contrações prematuras (espásticas) em 20% ou mais das deglutições, sem peristalse normal |
| Obstrução ao fluxo da junção | insuficiente | peristalse presente; só é relevante com sintomas e confirmação por esofagograma ou por distensibilidade da junção |
| Espasmo esofágico distal | normal | contrações prematuras (latência distal inferior a 4,5 s) em 20% ou mais |
| Esófago hipercontrátil | normal | contrações excessivas (integral de contração distal acima de 8000 mmHg·s·cm) em 20% ou mais |
| Ausência de contratilidade | normal | 100% de peristalse falhada |
| Motilidade esofágica ineficaz | normal | mais de 70% de deglutições ineficazes, ou 50% ou mais falhadas |
- Na acalásia não há peristalse normal em nenhum dos tipos: nos tipos I e II todas as deglutições falham; no tipo III, as que não falham são prematuras.
- O que separa o espasmo distal da acalásia tipo III é o relaxamento do esfíncter, normal no espasmo.
- "Esófago em saca-rolhas" no esofagograma aparece tanto no espasmo distal como na acalásia tipo III.
Diagnóstico diferencial da acalásia
Pseudoacalásia, doença de Chagas, dismotilidade por opioides, espasmo distal, esófago hipercontrátil, estenose péptica, esofagite eosinofílica.
Acalásia
Nenhum tratamento restaura a peristalse: o objetivo é baixar a pressão do esfíncter para o esófago esvaziar por gravidade.
| Opção | Notas |
|---|---|
| Dilatação pneumática endoscópica | balão de 30 mm e depois de 35 mm, de forma graduada e repetida; perfuração em 0,5 a 5% |
| Miotomia de Heller laparoscópica | com fundoplicatura parcial, para evitar o refluxo |
| Miotomia endoscópica peroral | secção do músculo por túnel submucoso; permite miotomia mais longa; mais refluxo depois do que as outras duas |
| Toxina botulínica no esfíncter | melhora cerca de dois terços durante pelo menos 6 meses; reservada a doentes sem condições para os outros tratamentos ou como ponte |
| Nitratos, antagonistas do cálcio | pouco eficazes, com hipotensão; não se recomendam |
- Dilatação graduada, miotomia de Heller e miotomia endoscópica têm eficácia comparável nos tipos I e II; na dilatação e na cirurgia de Heller, a resposta aos 5 anos anda pelos 90%.
- No tipo III, prefere-se a miotomia endoscópica peroral, que alcança todo o segmento espástico.
- Doença terminal refratária (megaesófago sigmoide): esofagectomia.
Espasmo distal e esófago hipercontrátil
- Excluir primeiro a doença de refluxo, que se trata como tal.
- Os fármacos (nitratos, antagonistas do cálcio, neuromoduladores, toxina botulínica) têm pouca evidência.
- A miotomia fica para os raros casos com perda de peso grave ou dor intratável.
- Esofagite de estase, candidíase esofágica, megaesófago sigmoide.
- Aspiração: bronquite, pneumonia e abcesso pulmonar.
- Desnutrição.
- Carcinoma epidermoide (também chamado espinocelular): risco aumentado, sobretudo depois de muitos anos de doença com dilatação extrema, pela esofagite de estase crónica. Não há rastreio sistemático, mas o limiar para endoscopia é baixo na doença antiga com sintomas que voltam.
- Do tratamento: perfuração na dilatação, refluxo depois da miotomia.
- O tratamento alivia menos a dor torácica do que a disfagia e a regurgitação.
| Entidade | O que é | Quem |
|---|---|---|
| Anel de Schatzki | anel mucoso fino na junção escamocolunar; dá sintomas quando o lúmen fica abaixo de 13 mm | anéis distais em 10 a 15% da população, quase sempre assintomáticos; os sintomáticos depois dos 40 anos |
| Membrana esofágica | membrana proximal, habitualmente anterior | assintomática em cerca de 10% das pessoas |
| Síndrome de Plummer-Vinson (ou de Paterson-Kelly) | membrana proximal sintomática com anemia ferropénica | mulher de meia-idade |
| Divertículo de Zenker | falso divertículo (mucosa e submucosa) no triângulo de Killian, acima do cricofaríngeo | homem idoso; cerca de 1 em cada 1000 esofagogramas |
| Divertículo epifrénico | falso divertículo de pulsão acima do diafragma | associado a acalásia, perturbações hipercontráteis ou estenose distal |
| Divertículo médio-esofágico | de tração (verdadeiro, com todas as camadas) ou de pulsão | tração por gânglios inflamados (tuberculose, histoplasmose) |
- Anel de Schatzki: disfagia intermitente para sólidos e impactação súbita de carne (a "síndrome do restaurante de carnes"); uma das causas mais frequentes de impactação.
- Plummer-Vinson: disfagia alta intermitente para sólidos com anemia ferropénica. É considerada pré-maligna: associa-se a carcinoma epidermoide da hipofaringe e do esófago cervical, em 3 a 15% nas séries publicadas.
- Zenker: pequeno, assintomático; quando cresce, disfagia alta, regurgitação de alimentos não digeridos, halitose, gorgolejo no pescoço, aspiração e infeções respiratórias de repetição, emagrecimento. Cresce com o tempo.
- Epifrénico e médio-esofágico: assintomáticos até reterem alimento; os sintomas dependem mais da perturbação de base do que do tamanho.
- Esofagograma baritado: o exame que mostra melhor anéis e membranas (sobretudo com comprimido de bário de 13 mm) e que diagnostica os divertículos.
- Endoscopia: confirma o anel e exclui estenose péptica ou esofagite eosinofílica. No Zenker é difícil e perigosa, pelo risco de o endoscópio entrar no saco e o perfurar.
- No divertículo epifrénico faz-se manometria, à procura da perturbação motora que o causa.
- Plummer-Vinson: estudo e correção da ferropenia.
- Anel de Schatzki e membranas: dilatação endoscópica. No Schatzki com refluxo provado, trata-se também o refluxo.
- Plummer-Vinson: correção da ferropenia, que por si só pode resolver a disfagia, e dilatação da membrana; vigilância pelo risco de neoplasia.
- Zenker sintomático: miotomia do cricofaríngeo, a causa do divertículo, com diverticulectomia ou diverticulopexia por via cervical, ou divisão endoscópica do septo entre o divertículo e o esófago. Sem miotomia, a recidiva é mais frequente.
- Epifrénico volumoso e sintomático: resseção com miotomia da perturbação motora subjacente.
- Infeciosa: Candida, vírus herpes simples e citomegalovírus, sobretudo no imunodeprimido (transplante, quimioterapia, imunossupressores, infeção pelo VIH). Na infeção pelo VIH é rara acima de 200 linfócitos CD4 por microlitro e frequente abaixo de 100. No imunocompetente, as mais comuns são a herpética e a candidíase.
- Por comprimido: o comprimido para no lúmen e lesa a mucosa por contacto. Culpados mais comuns: doxiciclina e tetraciclina, bifosfonatos, cloreto de potássio, sulfato ferroso, anti-inflamatórios não esteroides, quinidina, fenitoína.
- Cáustica: ingestão de alcalis (os mais frequentes) ou de ácidos. Na criança é acidental e em pequena quantidade; no adulto é muitas vezes intencional e em maior quantidade. Os alcalis dissolvem os tecidos (necrose de liquefação) e penetram mais fundo; os ácidos causam necrose de coagulação, que limita a penetração.
- Rádica: na radioterapia torácica, agravada por quimioterapia radiossensibilizante.
- Odinofagia é o sintoma característico da esofagite infeciosa e da medicamentosa; também disfagia, dor torácica e hemorragia.
- Candida: aftas orais podem coexistir, mas a sua ausência não exclui.
- Herpes: vesículas labiais ou nasais sugerem a causa.
- Por comprimido: dor torácica e odinofagia de início súbito, muitas vezes horas depois da toma ou acordando o doente, depois de engolir o comprimido com pouca água ou de se deitar logo a seguir.
- Cáustica: dor oral, retrosternal e epigástrica, sialorreia, disfagia; estridor ou disfonia se há lesão laríngea. Dor intensa, febre ou enfisema sugerem perfuração. A ausência de lesões na boca não exclui lesão esofágica.
| Causa | Endoscopia | Onde biopsar |
|---|---|---|
| Candida | placas brancas aderentes, mucosa friável | escovado ou biópsia das placas |
| Herpes simples | vesículas e úlceras pequenas e superficiais | bordo da úlcera (inclusões de Cowdry A, células gigantes) |
| Citomegalovírus | úlceras grandes, serpiginosas, no esófago distal, em mucosa normal | fundo da úlcera (inclusões, imuno-histoquímica) |
| Comprimido | úlcera única e profunda no esófago médio, junto ao arco aórtico ou à carina | habitualmente dispensável com história típica |
| Refluxo | erosões poucas e distais | não se biopsa para diagnosticar refluxo |
- Com candidíase oral e sintomas esofágicos, aceita-se tratamento empírico e deixa-se a endoscopia para quem não responde, porque a coinfeção é frequente.
- Cáustica: endoscopia precoce para avaliar e graduar a lesão, que orienta o prognóstico e a vigilância da estenose. A radiologia não serve para a lesão aguda; serve depois para as estenoses.
Infeciosas
| Agente | Tratamento |
|---|---|
| Candida | fluconazol oral 400 mg no primeiro dia e depois 200 mg por dia, 14 a 21 dias; refratária: voriconazol, posaconazol ou equinocandina endovenosa |
| Herpes, imunocompetente | aciclovir 200 mg cinco vezes por dia, 7 a 10 dias (a doença autolimita-se em 1 a 2 semanas) |
| Herpes, imunodeprimido | aciclovir 400 mg cinco vezes por dia, 14 a 21 dias, ou valaciclovir ou famciclovir; odinofagia grave: aciclovir endovenoso 5 mg/kg de 8 em 8 horas, 7 a 14 dias |
| Citomegalovírus | ganciclovir endovenoso 5 mg/kg de 12 em 12 horas ou valganciclovir oral 900 mg de 12 em 12 horas, até cicatrizar (3 a 6 semanas) |
Em todos se corrige, quando possível, a imunossupressão de base.
Por comprimido
- Retirar ou trocar o fármaco; cura em dias a semanas. Antissecretores para retirar o refluxo como agravante. Estenose: dilatação.
- Prevenção: tomar os comprimidos de pé ou sentado, com um copo cheio de água, e não se deitar logo a seguir.
Cáustica
- Corticoides não melhoram o resultado e não se recomendam.
- Lesão grave: jejum, suporte, vigilância de perfuração.
- Estenose: aparece a partir da terceira semana, na fase de cicatrização, e exige muitas vezes dilatações repetidas.
- Infeciosas: hemorragia e estenose.
- Por comprimido: sintomas que duram meses e estenose nos casos graves.
- Cáustica: perfuração, hemorragia e morte na fase aguda; o esófago está mais frágil na fase de ulceração, que começa entre o 3.º e o 5.º dia e dura 10 a 12 dias. Mais tarde, estenose extensa e risco aumentado de carcinoma epidermoide nas estenoses por alcalis.
- Rádica: estenose anos depois.
| Mallory-Weiss | Síndrome de Boerhaave | |
|---|---|---|
| Lesão | laceração não transmural da mucosa da junção esofagogástrica | rotura espontânea de toda a parede |
| Causa | vómitos, esforços de vómito, tosse violenta | vómito forçado contra a glote fechada |
| Frequência | causa comum de hemorragia digestiva alta | cerca de 15% das perfurações esofágicas; a maioria é iatrogénica |
| Gravidade | benigna na maioria | emergência com mortalidade alta |
A causa mais frequente de perfuração esofágica é a instrumentação (endoscopia, dilatação, sonda nasogástrica); seguem-se a espontânea, os corpos estranhos e o trauma.
- No vómito, a pressão intragástrica sobe muito. Se a junção está no abdómen, a pressão é contrabalançada à volta; se o esófago distal fica exposto à pressão torácica negativa com a glote fechada, a pressão transmite-se ao esófago e pode rompê-lo.
- A rotura de Boerhaave dá-se tipicamente na parede lateral esquerda do esófago distal, logo acima da junção, e abre para a pleura esquerda.
- Com hérnia do hiato, a junção continua exposta à pressão abdominal e a lesão habitual é a laceração de Mallory-Weiss da mucosa herniada: hemorragia em vez de perfuração.
- Cerca de metade dos doentes com rotura espontânea tem doença de refluxo associada.
Mallory-Weiss
Hematemese depois de vómitos ou esforços de vómito; o vómito prévio nem sempre é referido. A hemorragia para espontaneamente na maioria, mas pode ser volumosa.
Boerhaave
- Dor torácica ou epigástrica intensa depois de vómitos, de tipo pleurítico.
- Tríade de Mackler: vómito, dor torácica e enfisema subcutâneo; completa só numa minoria.
- Enfisema subcutâneo cervical e pneumomediastino; havendo enfisema, o diagnóstico é quase certo.
- Evolução rápida para mediastinite, sépsis e choque.
Mallory-Weiss
Endoscopia: uma ou mais lacerações longitudinais na junção ou no estômago herniado.
Rotura do esófago
- Radiografia do tórax: pneumomediastino, enfisema subcutâneo, derrame ou hidropneumotórax esquerdo, alargamento do mediastino. Pode ser normal no início (cerca de 9% dos casos); o ar no mediastino demora pelo menos uma hora a aparecer.
- TC do tórax: o exame mais sensível para o ar mediastínico e para as coleções.
- Esofagograma com contraste hidrossolúvel, depois bário fino se negativo: confirma e localiza a rotura, com falsos negativos de cerca de 10%.
- Derrame pleural com amilase elevada, de origem salivar, que pode levar ao erro de pensar em pancreatite.
Mallory-Weiss
- Suporte e supressão ácida; a maioria para sozinha.
- Hemorragia persistente: terapêutica endoscópica (adrenalina, termocoagulação, clips) ou embolização angiográfica. A cirurgia raramente é precisa.
Rotura do esófago
- Jejum, aspiração nasogástrica, antibióticos de largo espetro endovenosos, suporte hemodinâmico.
- Encerramento cirúrgico primário com drenagem, idealmente nas primeiras 24 horas, nas roturas não contidas.
- Perfuração contida e diagnosticada cedo: tratamento conservador com jejum e antibióticos pode bastar.
- Próteses ou clips endoscópicos: nas perfurações iatrogénicas não operadas e nos doentes sem condições cirúrgicas.
- Diagnóstico tardio com tecidos inviáveis: resseção ou exclusão do esófago, com esofagostomia cervical.
- Mediastinite, empiema, sépsis e falência multiorgânica.
- O prognóstico depende do tempo até ao tratamento: o encerramento primário nas primeiras 24 horas dá sobrevivência de 80 a 90%; depois das 24 horas a sobrevivência cai abaixo de 50%.
- O atraso diagnóstico é frequente, porque o quadro imita outras emergências torácicas e abdominais.
Referências
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