Doença hepática crónica e cirrose
Atualizado em 29 de setembro de 2026 · 37 perguntas neste tema
A cirrose é a fase final comum de quase todas as doenças crónicas do fígado. A agressão repetida ativa as células estreladas, que depositam colagénio; formam-se septos fibrosos e nódulos de regeneração, perde-se massa de hepatócitos e distorce-se a circulação dentro do fígado. Nos países industrializados as causas mais frequentes são o álcool, a esteato-hepatite não alcoólica (NASH) e a hepatite C; a hepatite B domina na Ásia e em África.
Toda a clínica sai de dois motores. A hipertensão portal, que nasce da resistência ao fluxo dentro do fígado e se agrava com a vasodilatação esplâncnica, dá as varizes, a esplenomegalia com trombocitopenia e, pela ativação dos sistemas que retêm sódio, a ascite e a síndrome hepatorrenal. A insuficiência hepatocelular dá a icterícia, a queda da albumina e dos fatores da coagulação e, com os shunts portossistémicos, a encefalopatia.
Durante anos a doença é compensada e silenciosa, e descobre-se por plaquetas baixas, por uma ecografia ou pela elastografia. Hoje o diagnóstico da doença hepática crónica avançada e da hipertensão portal clinicamente significativa faz-se sem biópsia, juntando a rigidez hepática às plaquetas. O ponto de viragem é a descompensação (ascite, hemorragia varicosa, encefalopatia ou icterícia), depois da qual a sobrevida mediana desce para menos de dois anos.
Tratar a causa é o que mais muda a história natural, e a fibrose pode regredir; quem trata a causa e resolve as complicações pode mesmo recompensar. Na doença compensada com hipertensão portal significativa, o carvedilol previne a primeira descompensação. Na descompensada, cada complicação tem tratamento próprio e a pergunta passa a ser o transplante, avaliado desde a primeira complicação grave.
O que não se pode falhar: a hemorragia varicosa trata-se com fármaco vasoativo, antibiótico e laqueação nas primeiras 12 horas, com transfusão restritiva; toda a ascite nova e todo o internamento de um cirrótico com ascite levam paracentese diagnóstica, e mais de 250 neutrófilos por mm³ bastam para tratar uma peritonite bacteriana espontânea, com albumina associada ao antibiótico; a encefalopatia tem quase sempre um precipitante, que se procura; e a vigilância do carcinoma hepatocelular faz-se com ecografia de seis em seis meses.
- Definição histológica: fibrose difusa com nódulos de regeneração que substituem a arquitetura normal do fígado. Os nódulos são micronodulares (menos de 3 mm) no álcool e macronodulares (mais de 3 mm) na hepatite crónica; depois da abstinência, a cirrose alcoólica torna-se mista.
- A designação doença hepática crónica avançada compensada junta a fibrose avançada e a cirrose compensada num só contínuo de risco, definido pela elastografia e não pela biópsia.
- A distinção que decide a conduta e o prognóstico é entre compensada e descompensada. A descompensação define-se por ascite, hemorragia varicosa ou encefalopatia; a icterícia acompanha-as na doença avançada.
| compensada | descompensada | |
|---|---|---|
| Clínica | silenciosa ou com sinais inespecíficos | ascite, hemorragia varicosa, encefalopatia, icterícia |
| Gradiente de pressão venosa hepática | 5 a 10 mmHg na fase inicial, que pode durar cerca de 10 anos | quase sempre 10 mmHg ou mais |
| Sobrevida mediana | longa | menos de 2 anos |
| Objetivo | tratar a causa e evitar a primeira descompensação | tratar cada complicação e avaliar transplante |
Causas
| grupo | exemplos |
|---|---|
| Tóxica | álcool, fármacos |
| Viral | hepatite B (com ou sem delta), hepatite C |
| Metabólica | NASH, hemocromatose, doença de Wilson, défice de alfa-1-antitripsina, fibrose quística |
| Autoimune e biliar | hepatite autoimune, colangite biliar primária, colangite esclerosante primária |
| Vascular | insuficiência cardíaca direita crónica, pericardite constritiva, síndrome de Budd-Chiari |
| Criptogénica | diagnóstico de exclusão; boa parte é NASH que perdeu a esteatose à medida que avançou |
- Nos países industrializados dominam o álcool, a NASH e a hepatite C. A NASH é a causa que mais cresce.
- As complicações são as mesmas seja qual for a causa, mas a causa decide o tratamento que pode fazer regredir a doença.
Fibrogénese
- A lesão dos hepatócitos ativa as células de Kupffer, que libertam citocinas pró-fibróticas; a célula estrelada transforma-se em miofibroblasto e deposita colagénio e matriz extracelular.
- Os septos ligam os espaços porta às veias centrais e isolam nódulos de regeneração. Com a perda de hepatócitos e a retração do tecido, o fígado encolhe.
- A fibrose é parcialmente reversível quando a agressão é removida: está demonstrado na hepatite C curada, na hemocromatose tratada e no álcool com abstinência.
Hipertensão portal
- A pressão portal sobe por duas razões simultâneas: resistência intra-hepática aumentada (septos, nódulos, microtrombos e tónus vascular aumentado) e aumento do fluxo esplâncnico por vasodilatação.
- Mede-se pelo gradiente de pressão venosa hepática, diferença entre a pressão em cunha e a pressão livre nas veias hepáticas.
Circulação hiperdinâmica e retenção de sódio
- No território esplâncnico há excesso de vasodilatadores, sobretudo óxido nítrico. O volume arterial efetivo cai, apesar de o volume total estar aumentado.
- O rim lê isso como hipovolemia e ativa o sistema renina-angiotensina-aldosterona, o simpático e a hormona antidiurética. Daí a retenção de sódio (ascite e edema), a retenção de água livre (hiponatremia dilucional) e, no extremo, a vasoconstrição renal da síndrome hepatorrenal.
- A hipoalbuminemia baixa a pressão oncótica e agrava a saída de líquido para o peritoneu.
Insuficiência hepatocelular
- Menor síntese: albumina, fatores da coagulação e também anticoagulantes naturais.
- Menor excreção e depuração: bilirrubina, amónia e outras toxinas de origem intestinal, fármacos e hormonas. A alteração do metabolismo dos estrogénios e androgénios explica as aranhas vasculares, o eritema palmar, a ginecomastia e a atrofia testicular.
Imunidade e inflamação
- A translocação bacteriana a partir do intestino e a disfunção imune da cirrose predispõem às infeções, sobretudo à peritonite bacteriana espontânea.
- A inflamação sistémica intensa é o mecanismo central da insuficiência hepática crónica agudizada.
- Na fase compensada o doente pode não ter queixas, ou ter cansaço, anorexia, perda de peso e dor vaga no hipocôndrio direito. Muitos diagnósticos são achados de análises, de ecografia ou de cirurgia.
- A doença revela-se muitas vezes pela primeira descompensação: aumento do perímetro abdominal, hematemese ou melenas, confusão, icterícia.
Exame físico
| achado | mecanismo |
|---|---|
| Aranhas vasculares, eritema palmar, ginecomastia, atrofia testicular, rarefação pilosa | alteração do metabolismo dos estrogénios e androgénios |
| Icterícia | menor excreção de bilirrubina |
| Ascite, circulação colateral abdominal, cabeça de medusa | hipertensão portal |
| Esplenomegalia | hipertensão portal com hiperesplenismo |
| Fígado firme e nodular, por vezes pequeno | fibrose e nódulos |
| Asterixis, alteração do ciclo sono-vigília | encefalopatia |
| Equimoses | défice de fatores e plaquetas |
| Emagrecimento muscular | desnutrição e sarcopenia |
- Alguns sinais apontam a causa: hipertrofia das parótidas no álcool, anel de Kayser-Fleischer na doença de Wilson, xantelasmas e prurido nas doenças colestáticas.
- Na mulher com doença alcoólica avançada surgem irregularidades menstruais e amenorreia.
- Os sinais cutâneos e endócrinos são tardios e pouco sensíveis: a sua ausência não exclui cirrose.
Laboratório
- Trombocitopenia: é muitas vezes o primeiro sinal de fibrose a agravar-se e de hipertensão portal, por hiperesplenismo. Pode haver também leucopenia e anemia.
- Albumina baixa, tempo de protrombina e INR alargados que não corrigem com vitamina K parentérica, e bilirrubina alta: perda de síntese e de excreção. Na colestase crónica, pelo contrário, o défice de vitamina K corrige com a vitamina.
- Aminotransferases normais ou pouco elevadas; no álcool a aspartato aminotransferase costuma ser o dobro da alanina aminotransferase.
- Hiponatremia, sobretudo com ascite: é marcador de mau prognóstico.
- Estudo etiológico: serologias das hepatites B e C, cinética do ferro, ceruloplasmina, alfa-1-antitripsina, autoanticorpos e imunoglobulinas, avaliação do consumo de álcool e dos fatores metabólicos.
Testes não invasivos
| passo | exame | leitura |
|---|---|---|
| Despiste | FIB-4 (índice que usa idade, aminotransferases e plaquetas) | abaixo de 1,3 a fibrose avançada é improvável; acima dos 65 anos o limiar sobe para 2,0; acima de 2,67 o risco é alto |
| Confirmação | elastografia hepática transitória | abaixo de 10 kPa exclui doença avançada; 10 a 15 sugere; acima de 15 torna-a muito provável |
| Hipertensão portal | elastografia com plaquetas | até 15 kPa com plaquetas de 150 000/µL ou mais exclui hipertensão portal clinicamente significativa; 25 kPa ou mais confirma-a na doença viral, alcoólica ou na NASH sem obesidade |
- Um valor de elastografia de 10 kPa ou mais repete-se em jejum, logo que possível, ou junta-se a um marcador sérico de fibrose (por exemplo FIB-4 de 2,67 ou mais), porque há falsos positivos.
- Entre 15 e 25 kPa, a probabilidade de hipertensão portal calcula-se por modelos validados que usam a rigidez e as plaquetas, ou pela rigidez do baço; uma probabilidade de 75% ou mais confirma-a.
- Os cortes de 10, 15, 20 e 25 kPa (a regra dos 5) marcam riscos crescentes de descompensação, qualquer que seja a causa.
Imagem
- Ecografia com Doppler: superfície nodular, atrofia do lobo direito com hipertrofia do lobo caudado e do esquerdo, esplenomegalia, ascite, colaterais, e a permeabilidade da veia porta.
- TC ou ressonância com contraste mostram o mesmo e caracterizam nódulos.
Biópsia
- Fica para quando os testes não invasivos são inconclusivos ou a causa está em dúvida.
Diagnóstico diferencial
- Hipertensão portal sem cirrose: pré-hepática (trombose da veia porta ou esplénica), pré-sinusoidal (esquistossomose, fibrose hepática congénita, doença vascular portossinusoidal), pós-hepática (síndrome de Budd-Chiari, insuficiência cardíaca direita, pericardite constritiva). Nestas, a função hepática está muitas vezes preservada.
- Fígado de estase: fosfatase alcalina elevada, fígado aumentado e cardiopatia evidente; raramente dá hemorragia varicosa ou encefalopatia.
Prevenir a primeira descompensação
- Com hipertensão portal clinicamente significativa, um betabloqueante não seletivo, de preferência o carvedilol, previne a descompensação e melhora a sobrevida, haja ou não varizes.
- O carvedilol baixa mais o gradiente do que o propranolol e o nadolol. Começa-se com 6,25 mg por dia e sobe-se para 12,5 mg por dia ao fim de 2 a 3 dias, mantendo a sistólica em 90 mmHg ou mais; não se titula pela frequência cardíaca.
- Quem já faz betabloqueante por este motivo não precisa de endoscopia de rastreio, porque o resultado não mudaria a conduta.
- Quem não pode fazer betabloqueante faz endoscopia se a elastografia for de 20 kPa ou mais ou as plaquetas de 150 000/µL ou menos; os restantes repetem elastografia e plaquetas uma vez por ano.
Vigiar o carcinoma hepatocelular
- Ecografia de 6 em 6 meses, com ou sem alfafetoproteína, em todo o cirrótico que possa receber tratamento com intenção curativa.
- Não se vigia o doente Child-Pugh C que não é candidato a transplante, porque não teria tratamento a oferecer; quem está em lista de transplante vigia-se sempre.
- A cura da hepatite C e a recompensação não tiram o doente da vigilância.
Vacinar cedo
- Hepatite A e hepatite B nos não imunes, gripe anual, pneumococo, herpes zóster e COVID-19.
- A resposta às vacinas diminui à medida que a doença avança: vacina-se enquanto a cirrose está compensada.
Evitar agressões
- Abstinência total de álcool, seja qual for a causa da cirrose.
- Evitar anti-inflamatórios não esteroides e aminoglicosídeos. O paracetamol é o analgésico de escolha, até 2 g por dia.
- Densitometria óssea, sobretudo nas doenças colestáticas; cálcio e vitamina D, e bifosfonato quando há osteoporose.
Tratar a causa
| causa | tratamento |
|---|---|
| Álcool | abstinência, com apoio especializado; acamprosato e baclofeno reduzem o desejo de beber |
| Hepatite B | análogos de nucleósidos ou nucleótidos (entecavir, tenofovir); o interferão não se usa na cirrose |
| Hepatite C | antivíricos de ação direta, com cura em mais de 95% |
| Hepatite autoimune ativa | corticoide com azatioprina; na forma já sem inflamação não há benefício |
| Colangite biliar primária | ácido ursodesoxicólico, 13 a 15 mg/kg por dia |
| Hemocromatose | flebotomias |
| Doença de Wilson | quelantes do cobre |
| NASH | perda de peso e controlo dos fatores metabólicos |
- O antivírico pode recompensar a cirrose descompensada por hepatite B.
- O resmetirom, aprovado na União Europeia em 2025, está indicado na NASH com fibrose moderada a avançada (F2 e F3) e não na cirrose.
Recompensação
- Recompensa quem cumpre tudo ao mesmo tempo: causa removida, suprimida ou controlada; sem ascite sem diuréticos, sem encefalopatia sem tratamento e sem nova hemorragia varicosa, durante mais de 6 meses seguidos; e função hepática a melhorar até Child-Pugh A.
- Resolver a ascite com diuréticos ou com uma derivação, sem tratar a causa, não é recompensação.
- O betabloqueante mantém-se enquanto houver hipertensão portal significativa, e a vigilância do carcinoma continua.
Nutrição
- A desnutrição e a sarcopenia são frequentes e pioram o prognóstico. O cirrótico entra em jejum metabólico muito mais depressa.
- Energia de pelo menos 35 kcal/kg por dia e proteína de 1,2 a 1,5 g/kg por dia; não se restringe a proteína, nem na encefalopatia.
- Refeições pequenas e frequentes, pequeno-almoço com proteína e ceia tardia, para encurtar o jejum noturno.
Outros fármacos
- Estatinas: devem usar-se quando há indicação, porque baixam a pressão portal e melhoram a sobrevida. No Child-Pugh B e C usam-se em dose baixa (sinvastatina até 20 mg por dia) com vigilância muscular e hepática; no Child-Pugh C o benefício não está demonstrado.
- Anticoagulação: não está proibida pelo INR. Os anticoagulantes orais diretos usam-se no Child-Pugh A e B, e não no C.
- Evitar sedativos, sobretudo benzodiazepinas, que precipitam encefalopatia.
Transplante
| aspeto | regra |
|---|---|
| Quando avaliar | na primeira complicação grave (ascite, hemorragia varicosa, encefalopatia, síndrome hepatorrenal) |
| Quando listar | MELD de 15 ou mais: abaixo disso a sobrevida a 1 ano é pior com transplante do que sem ele |
| Carcinoma hepatocelular | critérios de Milão: nódulo único até 5 cm, ou até 3 nódulos até 3 cm cada |
| Álcool | a regra de 6 meses de abstinência é comum mas discutível; hepatite alcoólica grave sem resposta ao corticoide só em casos muito selecionados |
| Síndrome hepatopulmonar | é indicação |
| Hipertensão portopulmonar | só se a pressão arterial pulmonar média descer a 35 mmHg ou menos com vasodilatadores |
- O MELD (modelo para a doença hepática terminal) usa a bilirrubina, a creatinina e o INR e estima a mortalidade a 3 meses; o MELD-Na junta o sódio. Nos Estados Unidos, o MELD 3.0, que junta a albumina e o sexo, substituiu o MELD-Na na alocação em 2023; na Europa as redes de transplante usam o MELD ou versões com sódio, com prioridades locais e regionais.
- Contraindicações absolutas: neoplasia metastática, infeção extra-hepática não controlada, doença cardiopulmonar avançada, consumo ativo de álcool ou drogas. A idade acima de 70 anos é contraindicação relativa, não absoluta.
- Sobrevida a 1 ano acima de 90%.
Cuidados paliativos
- Integram-se cedo na doença descompensada, em paralelo com o tratamento ativo, sobretudo em quem não é candidato a transplante.
Graduar a gravidade: Child-Pugh
| critério | 1 ponto | 2 pontos | 3 pontos |
|---|---|---|---|
| Bilirrubina (mg/dL) | menos de 2 | 2 a 3 | mais de 3 |
| Albumina (g/dL) | mais de 3,5 | 3,0 a 3,5 | menos de 3,0 |
| INR | menos de 1,7 | 1,7 a 2,3 | mais de 2,3 |
| Ascite | ausente | fácil de controlar | difícil de controlar |
| Encefalopatia | ausente | mínima | avançada |
- Classe A de 5 a 6 pontos, B de 7 a 9, C de 10 a 15. Prediz a sobrevida e o risco de hemorragia varicosa e de peritonite; a ascite e a encefalopatia são critérios subjetivos.
- O MELD é objetivo e é o que se usa para priorizar o transplante e estimar o risco operatório.
Complicações
| complicação | o essencial |
|---|---|
| Hemorragia varicosa | cerca de 5 a 15% dos doentes com varizes sangram por ano |
| Ascite | a descompensação mais frequente, seguida da hemorragia varicosa; menos de metade vive 2 anos depois de aparecer |
| Peritonite bacteriana espontânea | até 30% dos internados com ascite |
| Síndrome hepatorrenal | lesão renal funcional da doença avançada |
| Encefalopatia | 30 a 45% dos cirróticos |
| Carcinoma hepatocelular | justifica a vigilância semestral |
| Síndrome hepatopulmonar e hipertensão portopulmonar | complicações pulmonares, com implicações opostas no transplante |
| Trombose da veia porta | frequente, muitas vezes achado de vigilância |
| Desnutrição, sarcopenia, osteoporose | pioram o prognóstico |
Insuficiência hepática crónica agudizada
- Não é uma simples descompensação: é uma descompensação aguda com falência de órgãos (fígado, rim, cérebro, coagulação, circulação, respiração), com inflamação sistémica intensa e mortalidade a 28 dias elevada.
- O precipitante mais frequente é a infeção bacteriana (30 a 57% dos casos); outros são a hepatite alcoólica e a hemorragia. Atinge doentes mais novos do que a descompensação simples.
Complicações pulmonares
| síndrome hepatopulmonar | hipertensão portopulmonar | |
|---|---|---|
| Mecanismo | dilatações vasculares intrapulmonares, com shunt direito-esquerdo funcional | hipertensão arterial pulmonar num doente com hipertensão portal |
| Frequência | 5 a 30% dos cirróticos | cerca de 5% na cirrose avançada |
| Clínica | dispneia que piora em pé (platipneia) e dessaturação em pé (ortodeoxia) | dispneia de esforço; muitos sem sintomas |
| Diagnóstico | gradiente alvéolo-arterial aumentado; ecocardiograma com soro agitado, com bolhas no coração esquerdo 3 a 6 ciclos depois | ecocardiograma e confirmação por cateterismo direito |
| Transplante | reverte-a e é indicação | na forma grave contraindica-o |
Trombose da veia porta
- Confirma-se por Doppler, TC ou ressonância: material sólido no lúmen que não capta contraste. Um trombo que capta contraste é tumoral e aponta para carcinoma hepatocelular.
- Anticoagula-se na trombose recente (menos de 6 meses) que oclui completamente ou mais de metade do tronco porta, com ou sem extensão à mesentérica superior; na trombose sintomática; e no candidato a transplante, para manter a veia permeável para a anastomose.
- Com varizes de alto risco, a profilaxia da hemorragia começa antes da anticoagulação.
Hidrotórax hepático
- Derrame pleural transudativo, mais frequente à direita, por passagem de ascite através de defeitos do diafragma. O gradiente de albumina soro-pleural é superior a 1,1 g/dL. A sobrevida mediana é de 8 a 12 meses.
Cirurgia no cirrótico
- O risco operatório estima-se pela classe de Child-Pugh e pelo MELD, e sobe com a hipertensão portal: um gradiente de pressão venosa hepática de 16 mmHg ou mais associa-se a maior mortalidade depois de cirurgia abdominal não hepática.
- Na ressecção de carcinoma hepatocelular, a hipertensão portal clinicamente significativa aumenta o risco de descompensação e de morte.
Fármacos no cirrótico
| fármaco | regra |
|---|---|
| Paracetamol | analgésico de escolha, até 2 g por dia |
| Anti-inflamatórios não esteroides | evitar: lesão renal, hiponatremia, resistência aos diuréticos, hemorragia |
| IECA, antagonistas dos recetores da angiotensina, bloqueadores alfa-1 | evitar com ascite: hipotensão e lesão renal |
| Aminoglicosídeos | evitar, pela nefrotoxicidade |
| Benzodiazepinas e outros sedativos | evitar; precipitam encefalopatia |
| Opioides | precipitam encefalopatia; usar com cautela |
| gradiente de pressão venosa hepática | significado |
|---|---|
| 3 a 5 mmHg | normal |
| mais de 5 mmHg | hipertensão portal |
| 10 mmHg ou mais | hipertensão portal clinicamente significativa: varizes e risco de descompensação |
| mais de 12 mmHg | risco de rotura das varizes |
- O gradiente só reflete fielmente a pressão portal na hipertensão sinusoidal, que é a da cirrose; nas causas pré-sinusoidais pode ser normal.
- As causas intra-hepáticas, sobretudo a cirrose, explicam mais de 95% dos casos; mais de 60% dos cirróticos têm hipertensão portal clinicamente significativa.
Classificação
| local | causas |
|---|---|
| Pré-hepática | trombose da veia porta ou esplénica, esplenomegalia maciça |
| Intra-hepática pré-sinusoidal | esquistossomose, fibrose hepática congénita, sarcoidose |
| Sinusoidal | cirrose de qualquer causa, hepatite alcoólica |
| Pós-sinusoidal | síndrome de obstrução sinusoidal (doença veno-oclusiva) |
| Pós-hepática | síndrome de Budd-Chiari, membranas da veia cava inferior, pericardite constritiva, miocardiopatia restritiva, insuficiência cardíaca direita grave |
Varizes
- As colaterais portossistémicas formam-se na junção esofagogástrica, no reto, no retroperitoneu e no ligamento falciforme. As que sangram são as esofágicas e gástricas.
- Cerca de um terço dos cirróticos tem varizes ao diagnóstico, e 5 a 15% desenvolvem-nas por ano.
- Varizes de alto risco: grandes (5 mm ou mais), ou pequenas com sinais vermelhos, ou em doente Child-Pugh C.
- As três manifestações principais são a hemorragia varicosa, a ascite e o hiperesplenismo (esplenomegalia com trombocitopenia e leucopenia, muitas vezes o primeiro sinal).
- A hemorragia varicosa apresenta-se como hematemese, melenas ou hematoquézias sem dor, muitas vezes com instabilidade hemodinâmica, e pode precipitar encefalopatia, infeção e lesão renal.
- A gastropatia de hipertensão portal (mucosa em mosaico, em pele de serpente) pode dar hemorragia aguda ou perda crónica com anemia ferropénica.
- A esplenomegalia raramente precisa de tratamento; pode dar dor no hipocôndrio esquerdo.
- A hipertensão portal suspeita-se pelas plaquetas baixas, pela esplenomegalia, pelas colaterais na imagem e pela rigidez hepática, e confirma-se de forma não invasiva com a elastografia e as plaquetas.
- A medição do gradiente de pressão venosa hepática, por cateterismo das veias hepáticas, é o padrão de referência, mas faz-se em centros de referência e não é necessária para decidir o betabloqueante.
Endoscopia
- Dispensa-se se a elastografia for inferior a 20 kPa e as plaquetas superiores a 150 000/µL (varizes de alto risco muito improváveis), e em quem já faz betabloqueante para prevenir a descompensação.
- Faz-se no cirrótico compensado que não pode fazer betabloqueante e não cumpre esses critérios, e em quem tem hemorragia digestiva alta.
Diagnóstico diferencial da hemorragia alta no cirrótico
- Varizes esofágicas ou gástricas, gastropatia de hipertensão portal, ectasia vascular antral, úlcera péptica, síndrome de Mallory-Weiss.
Profilaxia primária da hemorragia
| situação | escolha |
|---|---|
| Cirrose compensada com hipertensão portal significativa | carvedilol (ou propranolol ou nadolol), que previne também a descompensação |
| Varizes de alto risco com contraindicação ou intolerância ao betabloqueante | laqueação elástica |
| Ascite com varizes de alto risco | betabloqueante preferido à laqueação |
| Ascite com varizes pequenas sem sinais vermelhos e fora do Child-Pugh C | betabloqueante pode usar-se |
- Na profilaxia primária não se combinam betabloqueante e laqueação, e o mononitrato de isossorbido não se usa.
- Com ascite, reduz-se ou suspende-se o betabloqueante se a sistólica ficar abaixo de 90 mmHg, a pressão arterial média abaixo de 65 mmHg ou surgir lesão renal aguda hepatorrenal; retoma-se quando estes se resolvem.
Profilaxia secundária
- Depois do primeiro episódio, betabloqueante (propranolol, nadolol ou carvedilol) com laqueação elástica, repetida até à erradicação das varizes. Aqui combinam-se os dois.
- Começa-se logo que a hemorragia está controlada, porque o risco de recidiva é máximo nas primeiras 6 semanas.
- Quem volta a sangrar sob betabloqueante e laqueação faz derivação portossistémica intra-hepática transjugular (TIPS) com prótese coberta, e é avaliado para transplante.
Hemorragia varicosa aguda
| medida | como |
|---|---|
| Local | unidade de cuidados intensivos ou intermédios |
| Via aérea | intubar antes da endoscopia se houver alteração da consciência ou hematemese ativa |
| Transfusão | restritiva, com alvo de hemoglobina de 7 a 8 g/dL; transfundir mais aumenta a pressão portal e a recidiva |
| Coagulação | não se corrige o INR com plasma por rotina |
| Fármaco vasoativo | terlipressina, somatostatina ou octreotido, o mais cedo possível, antes da endoscopia, durante 2 a 5 dias |
| Antibiótico | desde a admissão; ceftriaxona 1 g por dia; reduz infeção, recidiva e mortalidade |
| Eritromicina | 250 mg endovenosa 30 a 120 minutos antes da endoscopia, se não houver QT longo |
| Endoscopia | nas primeiras 12 horas, depois da estabilização; laqueação elástica nas varizes esofágicas, cianoacrilato nas gástricas isoladas |
| Encefalopatia | prevenir com lactulose oral ou em enema |
- Doses: terlipressina 2 mg de 4 em 4 horas nas primeiras 48 horas e depois 1 mg de 4 em 4 horas; somatostatina com bólus de 250 µg e perfusão de 250 µg/h, que pode subir até 500 µg/h.
- O inibidor da bomba de protões iniciado antes da endoscopia suspende-se depois dela, salvo indicação própria.
- A terlipressina pode causar hiponatremia, sobretudo com função hepática preservada: vigia-se o sódio.
TIPS precoce
- TIPS nas primeiras 72 horas, idealmente nas primeiras 24, em quem sangrou de varizes esofágicas ou gastroesofágicas e tem Child-Pugh C até 13 pontos, ou Child-Pugh B acima de 7 com hemorragia ativa na endoscopia, ou gradiente acima de 20 mmHg.
- A encefalopatia e a icterícia na admissão não o contraindicam.
Hemorragia refratária
- Balão de tamponamento ou prótese esofágica autoexpansível, como ponte para uma TIPS de resgate. A prótese é tão eficaz como o balão e mais segura.
- A mortalidade de um episódio de hemorragia varicosa é de 7 a 15% às 6 semanas.
- Os melhores preditores da morte às 6 semanas são a classe C de Child-Pugh, o MELD e a falência da hemostase inicial.
- Sem profilaxia secundária, cerca de 60% voltam a sangrar e cerca de um terço morre.
- A TIPS causa encefalopatia em até 20% dos doentes, sobretudo idosos e com encefalopatia prévia; a permeabilidade vigia-se por Doppler.
- A hemorragia precipita infeções (sobretudo pneumonia de aspiração e peritonite), lesão renal e encefalopatia.
- Acumulação de líquido na cavidade peritoneal. A cirrose é a causa mais frequente, mas não a única: neoplasia, tuberculose, insuficiência cardíaca e pancreatite têm de ser lembradas.
| grau | definição |
|---|---|
| 1 (ligeira) | só visível na ecografia |
| 2 (moderada) | distensão abdominal simétrica moderada |
| 3 (volumosa) | distensão abdominal marcada |
- Ascite refratária: não se mobiliza ou recidiva cedo apesar de restrição de sódio e dose máxima de diuréticos (resistente), ou porque os diuréticos provocam complicações que impedem a dose eficaz (intratável). Surge em até 10% dos cirróticos.
- A peritonite bacteriana espontânea é a infeção do líquido ascítico sem foco intra-abdominal cirúrgico. Atinge até 30% dos internados com ascite e tem mortalidade hospitalar de cerca de 25%.
- A hipertensão portal sinusoidal aumenta a produção de linfa esplâncnica e hepática.
- A vasodilatação esplâncnica reduz o volume arterial efetivo e ativa o sistema renina-angiotensina-aldosterona e o simpático: o rim retém sódio e água. Como o líquido sai continuamente para o peritoneu, a sensação de enchimento vascular nunca se atinge e o ciclo mantém-se.
- A hipoalbuminemia reduz a pressão oncótica e contribui.
- O hiperaldosteronismo secundário é o motor da retenção, e é por isso que a espironolactona é o diurético de base.
- Peritonite espontânea: translocação de bactérias intestinais para os gânglios mesentéricos e a corrente sanguínea, com semeadura do líquido. Escherichia coli e outras enterobactérias são as mais frequentes; também estreptococos e enterococos. Mais de um microrganismo na cultura aponta para peritonite secundária, por perfuração.
- Proteínas baixas no líquido identificam os doentes com maior risco de peritonite.
- Exame físico: flancos abaulados, macicez móvel, onda líquida. A macicez móvel precisa de cerca de 1,5 L para ser fiável; a ecografia deteta pequenos volumes.
- Paracentese diagnóstica em toda a ascite nova de grau 2 ou 3 e em todo o internamento de um cirrótico com ascite, mesmo sem suspeita de infeção.
- O líquido analisa-se para contagem celular com diferencial, proteínas totais, albumina e cultura, inoculando os frascos de hemocultura à cabeceira; amilase e citologia se houver suspeita.
Interpretação
| achado | significado |
|---|---|
| Gradiente de albumina soro-ascite acima de 1,1 g/dL | hipertensão portal |
| Gradiente acima de 1,1 com proteínas acima de 2,5 g/dL | ascite cardíaca |
| Gradiente abaixo de 1,1 g/dL | carcinomatose, tuberculose, pancreatite, síndrome nefrótica |
| Proteínas abaixo de 1,5 g/dL | maior risco de peritonite espontânea |
| Neutrófilos acima de 250/mm³ | peritonite bacteriana espontânea, com cultura positiva ou negativa |
| Cultura positiva com neutrófilos abaixo de 250/mm³ | bacteriascite |
| Líquido hemático | punção traumática; raramente carcinoma hepatocelular ou rotura de variz |
- A peritonite espontânea pode apresentar-se com febre e dor abdominal, ou apenas com encefalopatia, diarreia, íleo ou lesão renal, ou sem nenhum sinal.
Profilaxia da peritonite bacteriana espontânea
| situação | profilaxia |
|---|---|
| Hemorragia digestiva no cirrótico | antibiótico desde a admissão: ceftriaxona 1 g por dia, até 7 dias |
| Peritonite prévia (secundária) | ciprofloxacina 500 mg por dia, oral, de forma continuada; a profilaxia com quinolona reduz a recidiva de cerca de 68 para 20% |
| Primária: proteínas no líquido abaixo de 15 g/L com Child-Pugh de 9 ou mais e bilirrubina de 3 mg/dL ou mais, com disfunção renal ou hiponatremia | ciprofloxacina 500 mg por dia, oral |
- A quinolona suspende-se quando a ascite desaparece e o doente melhora de forma duradoura.
- A profilaxia prolongada seleciona bactérias resistentes. A rifaximina não serve para prevenir a peritonite.
Prevenir a lesão renal
- Na peritonite, a albumina associada ao antibiótico previne a síndrome hepatorrenal.
- Evitar anti-inflamatórios, nefrotóxicos e diurese excessiva.
Ascite não complicada
- Restrição moderada de sódio: 80 a 120 mmol por dia, o equivalente a 4,6 a 6,9 g de sal (sem sal adicionado e sem refeições pré-preparadas). Dietas mais pobres em sódio pioram a nutrição e as complicações dos diuréticos.
- Grau 1: não tem tratamento demonstrado. Grau 2, primeiro episódio: espironolactona isolada, começando com 100 mg/dia e subindo 100 mg a cada 72 horas até 400 mg/dia.
- Juntar furosemida, de 40 mg/dia até 160 mg/dia, se a perda de peso for inferior a 2 kg por semana, se surgir hipercaliemia, ou logo de início na ascite recorrente.
- Perda de peso máxima de 0,5 kg/dia sem edemas e 1 kg/dia com edemas, para evitar lesão renal e hiponatremia.
- Suspender os diuréticos se o sódio descer abaixo de 125 mmol/L, se surgir lesão renal aguda, agravamento da encefalopatia ou cãibras incapacitantes. A furosemida suspende-se se o potássio descer abaixo de 3 mmol/L.
- Grau 3: paracentese de grande volume.
Paracentese de grande volume
- Quando se retiram mais de 5 L, repõe-se albumina, 8 g por cada litro retirado, para evitar a disfunção circulatória pós-paracentese (lesão renal, hiponatremia, encefalopatia).
- Abaixo de 5 L o risco é baixo.
Ascite refratária
- Paracenteses de grande volume repetidas com albumina são a primeira linha.
- TIPS com prótese coberta em doentes selecionados: controla a ascite, mas aumenta a encefalopatia.
- Suspendem-se os diuréticos se a natriurese sob diuréticos for inferior a 30 mmol/dia.
- Avaliar transplante.
Peritonite bacteriana espontânea
- Cefalosporina de terceira geração endovenosa (ceftriaxona) durante pelo menos 5 dias; nas infeções nosocomiais ou com risco de bactérias multirresistentes, escolha pela ecologia local. Os aminoglicosídeos não se usam.
- Albumina 1,5 g/kg no diagnóstico e 1 g/kg no terceiro dia: reduz a síndrome hepatorrenal de 30 para 10% e a mortalidade de 29 para 10%.
- Depois, profilaxia secundária.
Hiponatremia
- Hipervolémica e dilucional. Restrição hídrica a 1000 mL por dia, que evita a descida mas raramente a corrige. O soro hipertónico fica para as complicações graves.
- O aparecimento de ascite marca mau prognóstico: menos de metade dos doentes vive 2 anos. A ascite de grau 2 ou 3 é indicação para ponderar o transplante.
- A peritonite espontânea recidiva em até 70% no primeiro ano sem profilaxia, e a mortalidade a 1 ano depois de um episódio é de 50 a 70%.
- Cerca de 30% dos doentes com peritonite sem albumina desenvolvem síndrome hepatorrenal.
- Outras complicações: hidrotórax hepático, hiponatremia, desnutrição.
- Insuficiência renal funcional da cirrose avançada com ascite, por vasoconstrição renal intensa num contexto de vasodilatação sistémica. Os rins são histologicamente normais e recuperam com o transplante.
- Atinge cerca de 10% dos doentes com cirrose avançada; a probabilidade a 5 anos num doente com ascite é de 40%.
| forma | definição |
|---|---|
| Lesão renal aguda hepatorrenal (antigo tipo 1) | subida da creatinina de 0,3 mg/dL ou mais em 48 horas, ou de 50% ou mais em 7 dias, e/ou débito urinário de 0,5 mL/kg/h ou menos durante mais de 6 horas |
| Doença renal crónica hepatorrenal (antigo tipo 2) | taxa de filtração abaixo de 60 mL/min/1,73 m² durante 3 meses ou mais, sem outra causa |
Critérios
- Cirrose com ascite.
- Lesão renal aguda pelos critérios acima.
- Sem resposta a 2 dias de suspensão dos diuréticos e expansão com albumina 1 g/kg por dia (máximo 100 g por dia).
- Sem choque.
- Sem nefrotóxicos atuais ou recentes.
- Sem doença renal estrutural: proteinúria até 500 mg/dia, hematúria até 50 eritrócitos por campo e ecografia renal normal.
Diagnóstico diferencial
- A lesão renal aguda mais frequente no cirrótico internado é a pré-renal (cerca de 68%), que responde ao volume: diuréticos em excesso, hemorragia, diarreia pela lactulose, paracentese sem albumina.
- A necrose tubular aguda é a alternativa difícil de separar, e os biomarcadores urinários ajudam.
- Procurar sempre infeção, sobretudo peritonite.
- Ao primeiro sinal de lesão renal: suspender diuréticos, betabloqueantes, vasodilatadores, anti-inflamatórios e nefrotóxicos; tratar a infeção; repor volume conforme a causa.
- Terlipressina com albumina é a primeira linha. A terlipressina dá-se em bólus de 1 mg de 4 em 4 a 6 em 6 horas, ou em perfusão contínua a começar em 2 mg por dia, que tem menos efeitos adversos; se a creatinina não baixar 25% ao fim de 2 dias, sobe-se até 12 mg por dia.
- A resposta completa ou parcial ocorre em 64 a 76%. Antes de começar faz-se eletrocardiograma, porque a terlipressina causa eventos isquémicos.
- Noradrenalina é alternativa, com cateter central e em cuidados intensivos. Midodrina com octreotido só quando nenhuma das duas está disponível, porque é muito menos eficaz.
- O tratamento definitivo é o transplante, com recuperação da função renal na maioria.
- Síndrome neuropsiquiátrica reversível na doença hepática, na hipertensão portal ou nos shunts portossistémicos. Atinge 30 a 45% dos cirróticos; depois do aparecimento, a sobrevida a 3 anos é de cerca de 23%.
- Tipo A na insuficiência hepática aguda, tipo B nos shunts sem doença hepática, tipo C na cirrose (episódica, persistente ou mínima).
| grau de West Haven | clínica |
|---|---|
| Mínima | alterações só em testes psicométricos; condução e trabalho afetados |
| 1 | alterações de personalidade, défice de atenção, irritabilidade, humor deprimido; tremor e incoordenação |
| 2 | alteração do ciclo sono-vigília, letargia, alterações do humor e do comportamento; asterixis, fala arrastada |
| 3 | sonolência, confusão, desorientação, amnésia |
| 4 | coma |
- A encefalopatia encoberta junta a mínima e o grau 1; a evidente vai do grau 2 ao 4, e é nesta que aparece a asterixis (que desaparece no coma).
- Neurotoxinas de origem intestinal, sobretudo a amónia (produzida pelas bactérias do cólon e pela desaminação de aminoácidos), escapam à depuração hepática por perda de hepatócitos e por shunts portossistémicos.
- Contribuem o aumento do tónus GABAérgico, substâncias benzodiazepina-like endógenas, a inflamação sistémica e o depósito de manganês nos gânglios da base.
Precipitantes
| grupo | exemplos |
|---|---|
| Aumento da produção de amónia | hemorragia digestiva, obstipação, excesso de proteína |
| Infeção | peritonite espontânea, infeção urinária, pneumonia |
| Causas ligadas aos diuréticos | hipocaliemia, alcalose, hipovolemia, azotemia |
| Fármacos | benzodiazepinas, opioides, antidepressivos tricíclicos |
| Outros | agravamento da função hepática, TIPS |
- O diagnóstico é clínico. Não há exame específico.
- Amónia: não gradua nem serve para seguir a evolução; mas um valor normal num doente com encefalopatia evidente põe o diagnóstico em causa e obriga a procurar outra explicação.
- A encefalopatia mínima deteta-se com testes psicométricos, como o teste de Stroop.
- Procura sistemática do precipitante: paracentese se houver ascite, pesquisa de hemorragia, ionograma, função renal, glicemia, culturas, revisão da medicação.
Diagnóstico diferencial
- Hipoglicemia, hematoma subdural, meningite, sobredosagem de fármacos, distúrbios eletrolíticos.
- Em doentes com suspeita de encefalopatia hepática, uma parte não desprezável tem afinal outra causa de encefalopatia.
- Tratar o precipitante: às vezes a hidratação e a correção eletrolítica chegam.
- Lactulose é a base: acidifica o cólon, retém o amónio e acelera o trânsito. Titula-se para 2 a 3 dejeções moles por dia, oral ou em enema.
- Rifaximina 550 mg duas vezes por dia como adjuvante, e na prevenção secundária depois de um episódio de encefalopatia evidente; também antes de uma TIPS eletiva em quem já teve encefalopatia.
- Não se restringe a proteína, salvo por períodos muito curtos na encefalopatia grave com hemorragia.
- A lactulose mantém-se depois do primeiro episódio.
- Espetro com três formas que se sobrepõem: esteatose alcoólica, hepatite alcoólica e cirrose alcoólica. O álcool agrava também as outras doenças hepáticas (hepatite C, hemocromatose, NASH).
- Uma bebida padrão tem cerca de 14 g de etanol.
- A hepatite alcoólica é uma forma aguda sobre doença crónica, com insuficiência hepática e mortalidade elevada.
Mecanismos
- O etanol é oxidado pela álcool desidrogenase e, no consumo crónico, pelo sistema microssomal (CYP2E1, que gera espécies reativas de oxigénio) a acetaldeído, que forma adutos com proteínas e lesa os hepatócitos.
- Acumula-se gordura (mais captação e menos oxidação dos ácidos gordos), ativam-se as células de Kupffer e as estreladas, e a fibrose pode ser centrolobular, pericelular ou periportal, até ligar os espaços porta às veias centrais.
- A cirrose alcoólica apresenta-se como qualquer cirrose; a abstinência pode fazer recuar os sinais endócrinos.
- A hepatite alcoólica apresenta-se com icterícia de início rápido (bilirrubina acima de 3 mg/dL) num doente com consumo pesado, muitas vezes com febre, mal-estar, hepatomegalia dolorosa e sinais de descompensação (ascite, infeção, hemorragia varicosa, encefalopatia).
- Pode haver anemia hemolítica com acantócitos (síndrome de Zieve).
- Na hepatite alcoólica, a aspartato e a alanina aminotransferase não passam de 400 U/L e a razão entre elas é superior a 1,5; na doença alcoólica em geral a razão é muitas vezes de 2.
- Valores atípicos (aspartato abaixo de 50 ou acima de 400 U/L, razão abaixo de 1,5), consumo incerto, ou suspeita de isquemia, fármaco ou doença autoimune pedem esclarecimento, se preciso com biópsia transjugular.
- O consumo avalia-se com o questionário AUDIT (teste de identificação das perturbações do uso de álcool).
Gravidade
- Função discriminante de Maddrey: 4,6 vezes o prolongamento do tempo de protrombina em segundos, somado à bilirrubina em mg/dL. 32 ou mais, ou MELD acima de 20, define a hepatite alcoólica grave.
- Abstinência é o tratamento que mais pesa, em todas as formas; o prognóstico a mais de 1 ano depende sobretudo dela. Na cirrose alcoólica com complicações, quem continua a beber tem sobrevida a 5 anos inferior a 50%.
- Suporte nutricional: uma ingestão acima de 21,5 kcal/kg por dia associa-se a melhor sobrevida.
- Hepatite alcoólica grave sem contraindicação, sobretudo sem infeção ativa: prednisolona 40 mg por dia durante 4 semanas (metilprednisolona 32 mg por dia endovenosa se não puder tomar por via oral).
- Índice de Lille ao 7.º dia: 0,45 ou mais indica ausência de resposta, e o corticoide suspende-se. Nos não respondedores pondera-se transplante precoce em casos muito selecionados, ou cuidados de suporte.
- A pentoxifilina e os anti-TNF não estão recomendados.
- Hepatite alcoólica moderada: abstinência e nutrição, com acompanhamento multidisciplinar.
Referências
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- Loscalzo J, Fauci A, Kasper D, Hauser S, Longo D, Jameson JL, editors. Harrison's principles of internal medicine. 21st ed. New York: McGraw-Hill; 2022. Cap. 336, Evaluation of liver function; cap. 342, Alcohol-associated liver disease; cap. 345, Liver transplantation.
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