Digestiva e HepatobiliarAbordagem ao doente com náuseas, vómitos e dispepsiaPublicado (Premium)

Abordagem ao doente com náuseas, vómitos e dispepsia

Matriz PNA:MD · MecanismosD · DiagnósticoGD · Gestão

Atualizado em 18 de julho de 2026 · 12 perguntas neste tema

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Em resumo

As náuseas e os vómitos têm causas muito amplas (gastrointestinal, central, vestibular, metabólica, fármacos e gravidez), e a chave está em caracterizar e localizar: o conteúdo fecaloide aponta obstrução, o vómito com cefaleia ou papiledema aponta causa central (e não se trata o estômago), e na mulher em idade fértil faz-se sempre teste de gravidez. O vómito é coordenado por um centro no tronco cerebral com quatro vias aferentes (zona de gatilho quimiorrecetora na área postrema, vestibular, vagal/gastrointestinal e cortical), cada uma com recetores próprios, e é isso que dita a escolha do antiemético pelo mecanismo (5-HT3 na quimioterapia, D2/procinético na gastroparésia, anti-histamínico na cinetose). A dispepsia (dor epigástrica, plenitude, saciedade precoce) decide-se pelos sinais de alarme (perda de peso, disfagia, anemia, vómitos persistentes, hemorragia, idade mais avançada): com alarme, endoscopia; sem alarme no jovem, testar e tratar Helicobacter pylori ou ensaio de IBP.

Mecanismos

O vómito não é um ato desorganizado. É um reflexo coordenado, com uma sequência motora fixa, governado por circuitos do tronco cerebral. Perceber estes circuitos não é um luxo académico: explica diretamente porque cada antiemético serve para uma causa e falha noutra. Quem escolhe o antiemético sem pensar na via aferente está a tratar às cegas.

O centro do vómito

Tradicionalmente fala-se de um centro do vómito, uma rede de núcleos localizada na medula oblonga (bulbo), na formação reticular dorsolateral, junto ao núcleo do trato solitário e ao núcleo motor dorsal do vago. Não é uma estrutura anatómica única e bem delimitada, mas sim um gerador de padrão central que integra os estímulos recebidos e, quando o limiar é ultrapassado, desencadeia a sequência motora do vómito. As suas eferências comandam o nervo vago, os nervos frénicos (diafragma), os nervos espinhais (parede abdominal) e os nervos cranianos envolvidos no encerramento da glote e na elevação do palato.

Este centro integrador recebe quatro grandes vias aferentes, cada uma sensível a estímulos diferentes e, sobretudo, cada uma servida por um conjunto próprio de receptores. É exatamente essa segregação de receptores que torna possível bloquear o vómito de forma seletiva.

Via 1: zona de gatilho quimiorreceptora (área postrema)

A zona de gatilho quimiorreceptora (ZGQ) situa-se na área postrema, no assoalho do quarto ventrículo. É um dos órgãos circunventriculares, ou seja, uma região onde a barreira hematoencefálica é incompleta. Por isso a ZGQ "prova" o que circula no sangue e no líquido cefalorraquidiano e deteta substâncias que noutras zonas do cérebro não passariam.

É a via dos estímulos químicos: fármacos (opióides, digoxina, agonistas dopaminérgicos), toxinas, produtos do metabolismo retidos na urémia e na cetoacidose, e alguns citostáticos. A ZGQ é rica em receptores D2 (dopaminérgicos), 5-HT3 (serotoninérgicos) e NK1 (neuroquinina-1, ligados à substância P). É a base dos antieméticos mais usados: os antagonistas D2 (metoclopramida, domperidona, proclorperazina, haloperidol) atuam predominantemente aqui, tal como os antagonistas 5-HT3 e NK1.

Via 2: aparelho vestibular

O aparelho vestibular do ouvido interno deteta movimento e alterações de posição da cabeça. Quando há conflito entre a informação vestibular e a visual, ou estimulação vestibular excessiva, gera-se náusea. É o mecanismo da cinetose (enjoo do movimento), da labirintite e da doença de Ménière.

Os sinais vestibulares chegam ao centro do vómito através dos núcleos vestibulares e do cerebelo. Os receptores relevantes nesta via são os H1 (histamínicos) e os muscarínicos (colinérgicos). Daí que os fármacos eficazes na cinetose sejam os anti-histamínicos H1 com ação central (dimenidrinato, prometazina, cinarizina) e os anticolinérgicos (escopolamina). Os antagonistas D2 e 5-HT3, tão úteis na via química, são pouco eficazes na náusea de origem vestibular, o que confunde quem não conhece o mapa de receptores.

Via 3: aferências vagais e gastrointestinais

A mucosa do tubo digestivo, sobretudo do estômago e do intestino delgado proximal, está povoada de terminações vagais sensíveis a estímulos mecânicos e químicos: distensão, irritação, inflamação, toxinas luminais e agentes citotóxicos. Estes estímulos viajam pelo nervo vago (e, em menor grau, pelos nervos esplâncnicos) até ao núcleo do trato solitário e ao centro do vómito.

O mediador-chave desta via é a serotonina (5-HT). As células enterocromafins da mucosa intestinal libertam serotonina em resposta à agressão, em particular à quimioterapia e à radioterapia, e essa serotonina ativa receptores 5-HT3 nas terminações vagais. Por isso os antagonistas 5-HT3 (ondansetron, granisetron) são a pedra angular do controlo das náuseas e vómitos induzidos por quimioterapia. Esta via é também a responsável pelo vómito na obstrução intestinal, na gastroenterite e na distensão gástrica.

Via 4: córtex cerebral

Os centros corticais superiores podem desencadear vómito sem qualquer estímulo periférico. É a via dos estímulos psicológicos e sensoriais: ansiedade, repulsa, odores ou imagens desagradáveis, dor intensa e o vómito antecipatório dos doentes oncológicos que vomitam só de chegarem ao hospital, antes da administração do citostático. Inclui-se aqui também o vómito da hipertensão intracraniana, em que o aumento de pressão atua sobre o tronco cerebral e produz vómito frequentemente em jato e sem náusea prévia.

Não existe um receptor único que defina esta via. O vómito antecipatório e o componente ansioso respondem a benzodiazepinas (lorazepam) mais do que a antieméticos clássicos, o que sublinha a sua origem cortical e não química.

Tabela: via → receptores → antiemético

Via aferenteEstímulo típicoReceptores principaisAntiemético de eleição
ZGQ / área postremaFármacos, toxinas, urémia, cetoacidoseD2, 5-HT3, NK1Antagonistas D2 (metoclopramida, domperidona, haloperidol); 5-HT3; NK1 (aprepitant)
Aparelho vestibularCinetose, labirintite, MénièreH1, muscarínicosAnti-histamínicos H1 (dimenidrinato, prometazina); anticolinérgicos (escopolamina)
Vagal / gastrointestinalDistensão, irritação, quimioterapia5-HT3Antagonistas 5-HT3 (ondansetron, granisetron)
CórtexAnsiedade, vómito antecipatório, hipertensão intracranianaSem receptor único definidoBenzodiazepinas (lorazepam) para o componente antecipatório/ansioso

A leitura prática é simples: identificar a via que está a ser estimulada e escolher o fármaco que bloqueia o receptor dessa via. Vómito por opióide ou urémia pede antagonista D2; náusea da viagem pede anti-histamínico; vómito da quimioterapia pede antagonista 5-HT3 (e NK1 nos esquemas mais emetogénicos); o vómito antecipatório pede benzodiazepina. Misturar fármacos com alvos diferentes faz sentido quando há múltiplas vias ativas em simultâneo, como acontece na quimioterapia altamente emetogénica.

Mecanismos da dispepsia

A dispepsia tem uma fisiopatologia distinta da do vómito e mais heterogénea. Quatro mecanismos dominam.

Helicobacter pylori. A infeção crónica da mucosa gástrica por H. pylori causa gastrite, é o principal fator da doença ulcerosa péptica e contribui para uma fração dos casos de dispepsia. A erradicação alivia os sintomas numa parte dos doentes, o que justifica a estratégia "test and treat" na dispepsia não investigada sem sinais de alarme. A bactéria altera a secreção ácida e mantém inflamação persistente que sensibiliza a mucosa.

AINEs e ácido. Os anti-inflamatórios não esteróides lesam a mucosa gastroduodenal por dois caminhos: efeito tópico direto e, sobretudo, inibição da cicloxigenase-1 com queda das prostaglandinas que protegem a mucosa (muco, bicarbonato, fluxo sanguíneo). O resultado é gastrite, erosões e úlceras. O ácido gástrico é o agressor que essa perda de proteção deixa atuar livremente, e a hipersecreção ou a exposição mantida ao ácido sustentam a dor epigástrica e a doença ulcerosa.

Dismotilidade e hipersensibilidade visceral. Na dispepsia funcional, a endoscopia é normal e os sintomas resultam de alterações funcionais. As principais são o atraso do esvaziamento gástrico (em parte dos doentes), a acomodação gástrica deficiente ao fundo gástrico após a refeição (que explica a saciedade precoce) e a hipersensibilidade visceral, em que estímulos normais de distensão ou de ácido são percebidos como dor. A estes somam-se a desregulação do eixo intestino-cérebro e fatores psicológicos. Esta combinação explica porque a dispepsia funcional responde de forma variável e porque procinéticos ajudam os doentes com predomínio de plenitude pós-prandial (subtipo SDP) e a supressão ácida os doentes com dor epigástrica (subtipo SDE).

Centro do vómito (tronco cerebral, bulbo) Zona de gatilho quimiorrecetora (área postrema) Estímulos: fármacos, toxinas, urémia, quimioterapia Recetores: D2, 5-HT3, NK1 Antieméticos: ondansetron, metoclopramida, aprepitant Aparelho vestibular Estímulo: cinetose, labirintopatia Recetores: H1, muscarínico (M) Antieméticos: anti-histamínicos (dimenidrinato), antimuscarínicos (escopolamina) Aferências vagais / GI Estímulo: distensão, irritação da mucosa, quimioterapia Recetor: 5-HT3 Antieméticos: ondansetron; procinéticos (metoclopramida) Córtex cerebral Estímulo: hipertensão intracraniana, psicogénico, antecipatório Abordagem: tratar a causa; benzodiazepina no vómito antecipatório (o vómito da hipertensão intracraniana não se trata com antiácido) Escolher o antiemético pela via, não ao acaso.
Esquema original InovaQB.

Avaliação diagnóstica

A história clínica resolve a maior parte destes casos antes de qualquer exame. O objetivo é duplo: caracterizar bem o sintoma (náusea, vómito ou dispepsia) e usar essa caracterização para apontar ao sistema responsável. O erro mais comum é assumir que tudo o que dá náusea ou vómito vem do tubo digestivo. Não vem. Vómito pode ser a apresentação de uma hipertensão intracraniana, de uma cetoacidose ou de uma gravidez, e a anamnese é o que faz a triagem.

Náuseas e vómitos

O primeiro eixo é temporal. Agudo vs crónico muda toda a lista de hipóteses. Um quadro de horas a dias aponta para gastroenterite, intoxicação alimentar, fármaco recém-introduzido, abdómen agudo (apendicite, colecistite, pancreatite, obstrução) ou um evento metabólico ou neurológico súbito. Um quadro que dura semanas a meses desloca a suspeita para gastroparésia, obstrução parcial, causa metabólica indolente, hipertensão intracraniana de instalação lenta, fármacos de uso continuado, transtorno alimentar ou gravidez.

A relação com a refeição dá pistas concretas. Vómito que surge logo após comer sugere causa psicogénica ou úlcera do canal pilórico. Vómito uma a várias horas depois da refeição, com alimento mal digerido ingerido horas antes, é o padrão clássico de gastroparésia ou de obstrução da saída gástrica. Vómito que alivia francamente a dor abdominal aponta para origem em víscera oca (úlcera, obstrução). Vómito matinal antes do pequeno-almoço faz pensar em gravidez, urémia ou ingestão alcoólica.

O conteúdo do vómito é um dos dados mais úteis e o mais frequentemente subvalorizado:

  • Alimentar não digerido, de refeições antigas, sem bílis: obstrução acima ou ao nível do piloro, ou estase gástrica grave.
  • Biliar (esverdeado): a obstrução, se existir, está abaixo da ampola de Vater; a presença de bílis exclui obstrução pilórica completa.
  • Fecaloide (castanho, odor fecal): aponta obstrução intestinal distal ou íleo prolongado até prova em contrário. É um sinal de alarme que obriga a estudo urgente.
  • Sangue vivo ou em borras de café: hemorragia digestiva alta. Borras de café indicam sangue já degradado pelo ácido; sangue vivo indica hemorragia mais ativa ou mais proximal à boca.

Caracterizado o sintoma, procura-se a causa por sistemas. Esta grelha evita esquecer os territórios extra-digestivos.

Sistema / origemPistas na história e exameO que procurar / confirmar
GastrointestinalDor abdominal, distensão, paragem de gases e fezes, cirurgia prévia (aderências), saciedade precoceObstrução, íleo, gastroparésia, úlcera, pancreatite, colecistite
Central / SNCCefaleia, vómito em jato sem náusea prévia, papiledema, défice neurológico focal, alteração da consciência, rigidez da nucaHipertensão intracraniana, hemorragia, massa, meningite. NÃO atribuir ao estômago
VestibularVertigem rotatória, relação com o movimento da cabeça, nistagmo, acufenosLabirintite, neuronite vestibular, doença de Ménière, cinetose
Metabólico / endócrinoPoliúria/polidipsia, sede, perda de peso, doença renal, fadiga, confusãoUrémia, cetoacidose diabética, hipercalcemia, hiponatremia, insuficiência supra-renal, hipertiroidismo
Fármacos / tóxicosInício recente ou ajuste de dose, quimioterapia, opióides, digoxina, antibióticos, álcoolRever toda a medicação, incluindo OTC e suplementos
GravidezMulher em idade fértil, amenorreia, vómitos matinaisTeste de gravidez obrigatório

Dois pontos merecem destaque porque são armadilhas de exame.

O vómito de causa central é o que mais facilmente passa despercebido. Vómito acompanhado de cefaleia, papiledema, défice neurológico focal ou alteração do estado de consciência obriga a pensar em hipertensão intracraniana e a fazer imagem do crânio, não a tratar o estômago. O clássico vómito "em jato", sem náusea que o anteceda, reforça a origem central. Atribuir estes vómitos a uma gastrite e prescrever um antiemético atrasa o diagnóstico de uma lesão potencialmente fatal.

O teste de gravidez na mulher em idade fértil com vómitos é não negociável. Faz-se antes de pedir imagem, antes de prescrever antieméticos e antieméticos potencialmente teratogénicos, e antes de assumir qualquer outro diagnóstico. A gravidez é causa comum, é tratável e a sua omissão tem consequências (exposição a radiação, a fármacos, falha em diagnosticar gravidez ectópica num quadro de vómitos e dor). Vómitos incoercíveis numa grávida (hiperémese gravídica) são uma entidade à parte, com risco de desidratação e distúrbio eletrolítico.

Os exames são orientados pela suspeita, não pedidos em bloco:

  • Analítica básica: ionograma, função renal, glicemia, e, conforme o contexto, cálcio, gasometria (cetoacidose, alcalose por vómito mantido), provas hepáticas, lipase/amilase, hemograma. O vómito prolongado causa por si alcalose metabólica hipoclorémica e hipocaliémia que importa corrigir.
  • Teste de gravidez (β-hCG) na mulher em idade fértil, repito, sempre.
  • Imagem abdominal quando há suspeita de obstrução: radiografia simples (níveis hidroaéreos, dilatação de ansas) como primeiro passo, TC abdominopélvica quando se quer confirmar e localizar a obstrução ou identificar a causa.
  • Endoscopia digestiva alta se suspeita de lesão mucosa, obstrução da saída gástrica ou úlcera.
  • Estudo do esvaziamento gástrico (cintigrafia) quando se suspeita de gastroparésia e se excluiu obstrução mecânica.
  • Imagem do SNC (TC ou RM crânio-encefálica) perante sinais de alarme neurológicos.

Dispepsia

Dispepsia é dor ou desconforto epigástrico, com ou sem saciedade precoce, enfartamento pós-prandial ou queimor. A maioria dos doentes investigados não tem lesão estrutural e fica com o diagnóstico de dispepsia funcional; as causas orgânicas a não falhar são a úlcera péptica, o cancro gástrico e a doença do refluxo. A decisão clínica central não é qual o fármaco a dar primeiro, mas sim quem precisa de endoscopia digestiva alta (EDA) e quem pode ser tratado sem ela.

Essa decisão assenta nos sinais de alarme. A sua presença obriga a EDA porque elevam a probabilidade de doença orgânica, sobretudo neoplásica:

Sinal de alarmePorque preocupa
Perda de peso não intencionalMarcador de doença orgânica / neoplasia
Disfagia (dificuldade em deglutir)Obstrução esofágica, neoplasia
Odinofagia (dor a deglutir)Lesão esofágica
Anemia ou hemorragia (melenas, hematemese, anemia ferropénica)Lesão com perda hemática (úlcera, tumor)
Vómitos persistentesObstrução da saída gástrica, neoplasia
Massa abdominal palpável ou adenopatiaDoença avançada
Idade de início mais avançada (em geral acima dos 55 anos)Aumento da incidência de cancro gástrico com a idade
História familiar de cancro gástrico (ou esofágico)Risco hereditário acrescido

Perante qualquer destes, pede-se EDA sem ensaio empírico prévio. A EDA permite ver a mucosa, biopsar e, na úlcera gástrica, documentar a cicatrização e excluir malignidade com biópsias.

Na dispepsia sem sinais de alarme no doente jovem (abaixo do limiar etário local, em geral 55 anos), a abordagem é não invasiva e segue uma de duas estratégias:

  1. Testar e tratar Helicobacter pylori ("test and treat"). Pesquisa-se o H. pylori por teste respiratório da ureia (¹³C) ou pesquisa de antigénio nas fezes (métodos não invasivos preferidos; a serologia não distingue infeção atual de passada). Se positivo, faz-se erradicação dirigida. Esta estratégia é a preferida onde a prevalência de infeção é relevante, como em Portugal.
  2. Ensaio empírico de inibidor da bomba de protões (IBP) durante algumas semanas, opção razoável onde a prevalência de H. pylori é baixa ou quando predominam sintomas de refluxo.

A EDA fica reservada para a falência destas estratégias, ou seja, quando o doente não melhora apesar de erradicação e/ou IBP, ou quando surge entretanto algum sinal de alarme.

Dois cuidados práticos antes de testar. Os IBP e os antibióticos recentes dão falsos negativos nos testes de H. pylori baseados na atividade bacteriana (teste respiratório e antigénio fecal): o IBP deve ser suspenso cerca de 2 semanas, e os antibióticos e o bismuto cerca de 4 semanas antes do teste. E, após a erradicação, confirma-se a cura por teste respiratório ou antigénio fecal (não por serologia), respeitando o mesmo intervalo sem IBP.

A figura mental que resume tudo: idade e sinais de alarme decidem a porta de entrada. Acima do limiar etário, ou com qualquer alarme, entra-se pela EDA. Abaixo, sem alarme, entra-se por testar e tratar H. pylori ou por um ensaio de IBP, deixando a EDA para quem não responde.

Dispepsia não investigada Há sinais de alarme? Sinais de alarme • Perda de peso, anemia • Disfagia, vómitos persistentes • Hemorragia, massa palpável • Idade de início mais avançada • História familiar de cancro gástrico Sim Endoscopia digestiva alta excluir úlcera e cancro gástrico; tratar achado Não (doente mais jovem) Testar e tratar Helicobacter pylori teste respiratório da ureia ou antigénio fecal; erradicar se positivo (em alternativa, ensaio empírico de IBP) Sem melhoria ou recidiva avançar para endoscopia digestiva alta A serologia não distingue infeção atual de passada; preferir teste respiratório ou antigénio fecal.
Esquema original InovaQB, baseado nas guidelines ACG/CAG e Maastricht VI.

Abordagem terapêutica

O princípio é simples: tratar a causa e dar suporte. O antiemético não substitui o diagnóstico. Antes de prescrever sintomáticos cegamente, exclui obstrução mecânica, abdómen agudo, hipertensão intracraniana, gravidez e fármacos emetizantes. O alívio sintomático corre em paralelo com a investigação, nunca a mascarar.

Estabilizar primeiro: hidratação e eletrólitos

Vómitos prolongados desidratam e espoliam ácido gástrico e potássio. A perda de HCl gera alcalose metabólica hipoclorémica com hipocaliémia, e a contração de volume mantém a alcalose porque o rim retém bicarbonato para conservar volume. A correção é com soro fisiológico (NaCl 0,9%), que repõe volume e cloreto e quebra esse ciclo, mais reposição de potássio quando a caliémia desce. Só depois de garantir a via, repor volume e normalizar a caliémia é que se segue com o resto. Num doente que não tolera nada por via oral, a hidratação é endovenosa e o antiemético também.

Náuseas e vómitos: escolher o antiemético PELO MECANISMO

O vómito é orquestrado por várias vias aferentes que convergem no centro do vómito do bulbo: a zona quimiorrecetora do gatilho (área postrema, rica em recetores D2 e 5-HT3 e fora da barreira hematoencefálica), o aparelho vestibular (recetores H1 e muscarínicos), o trato gastrointestinal (5-HT3 vagal) e o córtex (antecipatório, ansiedade). Acertar no fármaco quer dizer acertar na via dominante daquele doente. Dar metoclopramida numa cinetose ou um anti-histamínico num vómito de quimioterapia é desperdiçar a janela terapêutica.

Antagonistas 5-HT3 (ondansetron, granisetron). Bloqueiam recetores serotoninérgicos no intestino e na zona do gatilho. São a escolha nos vómitos induzidos por quimioterapia e radioterapia e nos vómitos pós-operatórios. Eficazes e bem tolerados; o efeito adverso a vigiar é o prolongamento do intervalo QT, sobretudo com doses altas endovenosas, hipocaliémia ou hipomagnesiémia concomitantes, ou associação a outros fármacos que prolongam o QT. Causam obstipação. Antes de uma dose endovenosa generosa, vale a pena corrigir os eletrólitos.

Antagonistas D2 (metoclopramida, domperidona). Bloqueiam recetores dopaminérgicos na zona do gatilho e têm uma vantagem extra: são procinéticos, aceleram o esvaziamento gástrico. Por isso são a escolha quando há gastroparésia ou estase gástrica a contribuir para a náusea. A metoclopramida atravessa a barreira hematoencefálica e causa efeitos extrapiramidais (distonia aguda, acatísia e, no uso prolongado, discinésia tardia), pelo que se limita a tratamentos curtos (regra geral até 5 dias) e se evita em idosos e crianças sempre que possível. A domperidona quase não passa a barreira, logo dá muito menos sintomas extrapiramidais, mas prolonga o QT e tem contraindicações cardíacas; usar a dose mínima eficaz pelo menor tempo. Ambas elevam a prolactina.

Anti-histamínicos (dimenidrinato, meclozina) e antimuscarínicos (escopolamina). Atuam na via vestibular e nas suas projeções para o centro do vómito. São a escolha na cinetose e nas causas vestibulares (vertigem, labirintite, doença de Ménière). A escopolamina transdérmica é prática na profilaxia da cinetose. Efeitos anticolinérgicos esperados: sonolência, boca seca, retenção urinária e confusão, a ter em conta no idoso.

Antagonistas NK1 (aprepitant, fosaprepitant) e corticoides (dexametasona). O aprepitant bloqueia o recetor da substância P/neurocinina-1 e é particularmente útil na fase tardia dos vómitos de quimioterapia altamente emetizante. A dexametasona potencia o efeito antiemético e entra nos esquemas combinados. Na quimioterapia de alto risco emético o esquema típico associa antagonista 5-HT3 + antagonista NK1 + dexametasona, somando o bloqueio de três vias distintas.

Gravidez. A primeira linha das náuseas e vómitos da gravidez é doxilamina associada a piridoxina (vitamina B6), combinação com boa evidência de segurança. Se for insuficiente, escalar para anti-histamínicos, depois metoclopramida ou ondansetron conforme a gravidade, sempre ponderando risco-benefício e idade gestacional. Na hiperémese gravídica entra hidratação endovenosa, correção de eletrólitos e tiamina antes de soros com glicose para prevenir encefalopatia de Wernicke.

Tabela de antieméticos

Classe (exemplo)Recetor / mecanismoIndicação principalArmadilha a vigiar
Antagonista 5-HT3 (ondansetron)Bloqueia 5-HT3 (intestino + zona do gatilho)Quimioterapia, radioterapia, pós-operatórioProlonga QT; obstipação; corrigir K⁺/Mg²⁺ antes de dose EV alta
Antagonista D2 + procinético (metoclopramida)Bloqueia D2 central; acelera esvaziamento gástricoGastroparésia, estase gástricaEfeitos extrapiramidais; limitar a curtos períodos; evitar no idoso/criança
Antagonista D2 + procinético (domperidona)Bloqueia D2 (pouca passagem da BHE)Gastroparésia sem querer efeitos centraisProlonga QT; contraindicações cardíacas; dose mínima eficaz
Anti-histamínico (dimenidrinato) / antimuscarínico (escopolamina)Bloqueia H1 / M1 na via vestibularCinetose, vertigem, causas vestibularesSonolência e efeitos anticolinérgicos (idoso)
Antagonista NK1 (aprepitant) + corticoide (dexametasona)Bloqueia substância P/NK1; corticoide potenciadorQuimioterapia altamente emetizante (fase tardia)Reservar para esquemas combinados; interações via CYP3A4
Doxilamina + piridoxina (B6)Anti-histamínico + cofactorNáuseas/vómitos da gravidez (1.ª linha)Sonolência; escalar só se insuficiente

Dispepsia

Na dispepsia, a primeira decisão é distinguir o que tem causa orgânica identificável do que é dispepsia funcional (sintomas sem lesão estrutural na endoscopia). A conduta depende disso e da presença de sinais de alarme.

Sinais de alarme (disfagia, odinofagia, perda de peso involuntária, anemia ou hemorragia digestiva, vómitos persistentes, massa palpável, idade mais avançada no primeiro episódio) obrigam a endoscopia digestiva alta antes de qualquer terapêutica empírica, para excluir doença ulcerosa complicada e neoplasia. Sem sinais de alarme, a abordagem é por etapas.

Erradicar Helicobacter pylori quando positivo. É a intervenção com maior rendimento. A estratégia test-and-treat (pesquisar H. pylori por teste respiratório com ureia marcada ou antigénio fecal e tratar os positivos) é a primeira linha no doente jovem sem sinais de alarme. A erradicação faz-se com esquema combinado de IBP mais dois ou três antibióticos durante 10 a 14 dias. Em Portugal, com resistências crescentes à claritromicina, privilegia-se a terapêutica quádrupla (com ou sem bismuto) em detrimento da tripla clássica. Confirmar sempre a erradicação com teste não invasivo pelo menos 4 semanas após o fim dos antibióticos e 2 semanas após suspender o IBP, para não ter falsos negativos.

IBP. O inibidor da bomba de protões (omeprazol, pantoprazol, esomeprazol) é o pilar do controlo sintomático na dispepsia tipo síndrome de dor epigástrica e na doença ulcerosa. Tomar 30 minutos antes da refeição, em ciclo de algumas semanas e reavaliar; evita-se o uso indefinido sem indicação.

Suspender AINEs. Os anti-inflamatórios não esteroides são causa frequente de dispepsia e de úlcera. Se o doente os faz, suspendê-los é muitas vezes resolutivo. Quando o AINE é imprescindível, associa-se gastroproteção com IBP e reavalia-se a necessidade.

Dispepsia funcional. Depois de excluído o H. pylori e os sinais de alarme, trata-se por subtipo:

  • Síndrome de dor epigástrica: o IBP é a primeira linha.
  • Síndrome de desconforto pós-prandial (saciedade precoce, plenitude): privilegiar um procinético (domperidona ou metoclopramida em curta duração), que acelera o esvaziamento gástrico.
  • Sintomas refratários: entram os neuromoduladores, tipicamente um antidepressivo em dose baixa (antidepressivo tricíclico em baixa dose), que modula a hipersensibilidade visceral. Os ISRS isolados têm menos evidência neste contexto.

Medidas gerais ajudam de forma transversal: refeições pequenas e frequentes, reduzir gordura, álcool, café e tabaco, e gerir a componente de ansiedade, que amplifica a perceção sintomática na dispepsia funcional.

Referências

  1. Loscalzo J, Fauci A, Kasper D, et al., editores. Harrison's Principles of Internal Medicine. 21.ª ed. Nova Iorque: McGraw-Hill; 2022 (náuseas e vómitos; dispepsia).
  2. Moayyedi P, Lacy BE, Andrews CN, et al. ACG and CAG Clinical Guideline: Management of Dyspepsia. Am J Gastroenterol. 2017;112(7):988-1013.
  3. Malfertheiner P, Megraud F, Rokkas T, et al. Management of Helicobacter pylori infection: the Maastricht VI/Florence consensus report. Gut. 2022;71(9):1724-1762.
  4. UpToDate (consultado em 2026): Approach to the adult with nausea and vomiting; Approach to the adult with dyspepsia.

12 perguntas sobre Abordagem ao doente com náuseas, vómitos e dispepsia

Ler consolida, treinar é o que fixa. Cada pergunta tem justificação alínea a alínea, no formato da Prova Nacional de Acesso.

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