Abordagem ao doente com náuseas, vómitos e dispepsia
Atualizado em 28 de setembro de 2026 · 12 perguntas neste tema
Náuseas, vómitos e dispepsia são sintomas e não doenças, e a lista de causas atravessa a medicina. O vómito é um reflexo coordenado no tronco cerebral, que recebe quatro entradas: a área postrema, que prova o sangue fora da barreira hematoencefálica e reage a fármacos, toxinas e urémia; o vago, que sente a irritação e a distensão do tubo digestivo; o vestíbulo; e o córtex. Cada entrada tem os seus recetores, e é isso que permite escolher o antiemético pelo mecanismo.
Perante um doente que vomita, o primeiro passo é confirmar que é vómito, e não regurgitação ou ruminação, e o segundo é procurar o que não se pode falhar: obstrução intestinal, abdómen agudo, enfarte, hipertensão intracraniana, cetoacidose, insuficiência suprarrenal, gravidez e intoxicação. A relação com as refeições e o conteúdo do vómito orientam, a lista de fármacos vem antes de qualquer exame, e na mulher em idade fértil o teste de gravidez vem antes da imagem.
O tratamento começa por repor volume, cloreto e potássio, porque o vómito prolongado dá alcalose hipoclorémica com hipocaliémia. O antiemético escolhe-se pela via, em curso curto, e com atenção ao QT e aos efeitos extrapiramidais. Três situações têm regras próprias: a quimioterapia, em que se previne desde o primeiro ciclo com esquemas que juntam vários mecanismos; a gravidez, em que a hiperémese exige hidratação e tiamina; e as síndromes funcionais, os vómitos cíclicos e a hiperémese canabinoide, que se reconhecem pelos episódios estereotipados e pelo alívio com banhos quentes.
A dispepsia é dor ou ardor epigástrico, plenitude pós-prandial ou saciedade precoce, e na maioria dos doentes investigados é funcional. A decisão central é quem faz endoscopia: quem tem sinais de alarme ou idade acima do limiar, que em Portugal, pelo risco de cancro gástrico, se situa nos 50 anos. Os outros testam e tratam o Helicobacter pylori com um teste respiratório ou o antigénio fecal, e depois fazem um inibidor da bomba de protões; na dispepsia funcional que não responde, segue-se um antidepressivo tricíclico em dose baixa.
Referências
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