Abordagem ao doente com hemorragia digestiva
Atualizado em 28 de setembro de 2026 · 31 perguntas neste tema
Hemorragia digestiva é qualquer perda de sangue para o lúmen do tubo digestivo, e a primeira pergunta à cabeceira não é de onde vem, é se o doente está estável. A reanimação começa antes do diagnóstico: dois acessos de grande calibre, cristaloides e transfusão restritiva, com limiar de hemoglobina de 7 g/dL na maioria e de 8 g/dL em quem tem doença cardiovascular. A hemoglobina inicial engana, porque se perde sangue total e a hemodiluição demora até 72 horas.
Depois localiza-se. O ângulo de Treitz separa a hemorragia alta, que é a maioria, e a válvula ileocecal separa a do intestino delgado da baixa. Hematemese é sempre alta e a melena quase sempre; a hematoquézia é em regra baixa, mas com instabilidade pode ser uma alta maciça, e aí faz-se endoscopia alta primeiro. A úlcera péptica é a causa mais comum da alta, a diverticulose da baixa (fora as hemorroidas), e a rotura de varizes é a que mais mata.
A endoscopia alta localiza, estratifica e trata no mesmo gesto: nas primeiras 24 horas depois de reanimar, ou nas primeiras 12 horas se há suspeita de varizes. Na baixa estável é a colonoscopia depois de preparação, sem pressa; no doente instável com hematoquézia, a angiografia por tomografia computorizada localiza antes da embolização. O score de Glasgow-Blatchford, na alta, e o de Oakland, na baixa, identificam quem pode ir para casa e fazer o exame em ambulatório.
No cirrótico o tratamento começa antes da endoscopia, com vasoativo e ceftriaxona desde a admissão, e a laqueação vem a seguir; nos doentes de alto risco, a derivação portossistémica transjugular precoce melhora a sobrevida. Na úlcera trata-se o estigma de alto risco com hemostase combinada e inibidor da bomba de protões, e depois a causa. O que não se pode falhar: o doente instável que se manda para a colonoscopia sem excluir a origem alta, a hemorragia sentinela no portador de prótese aórtica, o cirrótico sem antibiótico por não ter febre, e o ácido tranexâmico, que não tem lugar aqui.
Sangra-se quando uma lesão atinge um vaso da submucosa ou uma veia sob pressão. As erosões ficam na mucosa, onde não há artérias nem veias de calibre, e por isso dão hemorragia ligeira; a úlcera que escava até à submucosa e a variz sob pressão portal podem esvaziar o doente.
As que não se podem falhar
| causa | pista | porque mata |
|---|---|---|
| Rotura de varizes esofagogástricas | cirrose, estigmas de hipertensão portal | débito alto e descompensação: infeção, encefalopatia, lesão renal |
| Úlcera péptica com vaso visível | anti-inflamatórios, Helicobacter pylori | a úlcera da parede posterior do bulbo erode a artéria gastroduodenal |
| Fístula aortoentérica | prótese ou enxerto aórtico, hemorragia sentinela | hemorragia maciça horas a semanas depois de um episódio que parou sozinho |
| Hemorragia alta maciça apresentada como hematoquézia | instabilidade, ureia alta | vai para a colonoscopia em vez da endoscopia alta |
| Lesão de Dieulafoy | hemorragia abundante e recorrente sem lesão visível | vaso aberrante que sangra por um defeito mínimo da mucosa |
Alta
- Úlcera péptica, a causa mais comum, cerca de 50% dos internamentos por hemorragia alta. O desequilíbrio entre agressão (Helicobacter pylori, anti-inflamatórios, ácido) e defesa da mucosa escava uma cratera; quando chega à submucosa e abre uma artéria, sangra com gravidade.
- Varizes esofagogástricas, de 2 a 40% consoante a população. A resistência ao fluxo portal desvia o sangue para colaterais da submucosa do esófago distal e do fundo gástrico, que dilatam; a variz rompe quando a tensão da parede, que sobe com o calibre e com a pressão portal, excede a sua resistência. A hipertensão portal dá também gastropatia hipertensiva portal e varizes ectópicas.
- Laceração de Mallory-Weiss, 2 a 10%: rasgão da mucosa na junção esofagogástrica depois de vómitos, esforços de vómito ou tosse, sobretudo no alcoólico. Para sozinha em 80 a 90% e recidiva em menos de 10%.
- Erosões (gastrite e duodenite erosivas, esofagite de refluxo): hemorragia ligeira. A causa mais importante das erosões gastroduodenais são os anti-inflamatórios.
- Lesão aguda da mucosa por stress, só no doente muito grave: ventilação, coagulopatia, queimaduras de mais de um terço da superfície corporal, traumatismo ou doença intracraniana grave.
- Menos frequentes: neoplasia, ectasias vasculares (incluindo a ectasia vascular do antro, o estômago em melancia, e a telangiectasia hemorrágica hereditária), lesão de Dieulafoy, hemobilia e hemorragia pelo canal pancreático.
Intestino delgado
- No adulto: ectasias vasculares (angiodisplasias), a causa mais frequente; neoplasias (tumor do estroma gastrointestinal, tumor neuroendócrino, adenocarcinoma, linfoma, metástases); erosões e úlceras dos anti-inflamatórios.
- Na criança e no jovem: o divertículo de Meckel é a causa mais frequente de hemorragia significativa do delgado.
- Mais raras: doença de Crohn, isquemia, vasculite, varizes do delgado, fístula aortoentérica.
Baixa
- Hemorroidas, provavelmente a causa mais comum de sangue pelo reto, 12 a 21% dos internamentos por hemorragia baixa; pouco volume e autolimitada. Com fissura, há dor.
- Diverticulose, a causa mais comum depois das causas anorretais, mais de 20% dos internamentos. O divertículo hernia onde o vaso reto atravessa a parede, e a artéria fica exposta no colo: hemorragia súbita, indolor, por vezes maciça, muitas vezes do cólon direito. Para sozinha em cerca de 90%, com recidiva de cerca de 15% em 4 a 5 anos.
- Ectasias vasculares, sobretudo no cólon direito acima dos 70 anos: crónica ou oculta, raramente com instabilidade.
- Neoplasia e pólipos; hemorragia pós-polipectomia, imediata ou diferida.
- Colites: isquémica (dor e depois hematoquézia, depois de hipotensão), infeciosa, doença inflamatória intestinal, anti-inflamatórios; proctite rádica.
- Na criança e no adolescente, as causas cólicas mais frequentes de hemorragia significativa são a doença inflamatória intestinal e os pólipos juvenis.
Síndrome de Heyde
Estenose aórtica com hemorragia de angiodisplasias. O fluxo turbulento através da válvula degrada os multímeros de alto peso molecular do fator de von Willebrand, uma doença de von Willebrand adquirida, e as angiodisplasias passam a sangrar. A substituição da válvula aórtica parece beneficiar estes doentes.
Fármacos que pesam em qualquer nível
Anti-inflamatórios, ácido acetilsalicílico e outros antiagregantes, anticoagulantes, corticoides e bifosfonatos. Somam risco, e a polimedicação do idoso junta-os sem que ninguém os tenha somado.
A reanimação é o passo mais importante e vem antes da localização e do tratamento dirigido.
Avaliar a gravidade
- Frequência cardíaca e pressão arterial são a melhor avaliação inicial. A hemorragia significativa dá primeiro alterações posturais, depois taquicardia e, por fim, hipotensão em decúbito.
- A pressão sistólica só cai depois de perdidos 30% da volémia; o jovem mantém-na até perto do colapso, e o doente sob betabloqueante não taquicardiza.
- A hemoglobina pode estar normal ou pouco baixa à entrada, porque se perde sangue total; a descida só aparece à medida que o líquido extravascular entra nos vasos, e isso pode levar até 72 horas.
- Na hemorragia crónica, pelo contrário, a hemoglobina pode estar muito baixa com pressão e pulso normais, e a anemia é microcítica com amplitude de distribuição eritrocitária aumentada.
| classe de choque hemorrágico | perda da volémia | pulso | pressão arterial | estado mental |
|---|---|---|---|---|
| I | até 15% | abaixo de 100 | normal | ligeiramente ansioso |
| II | 15 a 30% | acima de 100 | normal | ansioso |
| III | 30 a 40% | acima de 120 | diminuída | ansioso e confuso |
| IV | mais de 40% | acima de 140 | diminuída | confuso e letárgico |
Sinais de alarme
- Instabilidade hemodinâmica, síncope, hematemese ativa ou hematoquézia com instabilidade.
- Cirrose ou suspeita de varizes.
- Idade avançada, doença cardiovascular, renal ou hepática, anticoagulação ou antiagregação.
- Prótese aórtica, ou hemorragia que recorre depois de parar.
O que se faz nos primeiros minutos
- Dois acessos venosos periféricos de grande calibre e cristaloides se houver instabilidade.
- Colheitas: hemograma, bioquímica com ureia e creatinina, provas hepáticas, tempo de protrombina e INR, tipagem e provas cruzadas.
- Toque retal: melena, sangue vivo, hemorroidas ou fissura.
- Via aérea: intubação só em quem não a protege (hematemese ativa, agitação, encefalopatia); não se intuba por rotina antes da endoscopia.
- A sonda nasogástrica com aspiração não se usa por rotina: aspirado limpo não exclui origem alta (acontece em cerca de 15% das altas com hematoquézia grave), e no cirrótico a manipulação da via aérea aumenta o risco de infeção pulmonar.
Transfusão de eritrócitos
| situação | transfundir abaixo de | alvo depois da transfusão |
|---|---|---|
| Estável, sem doença cardiovascular | 7 g/dL | 7 a 9 g/dL |
| Estável, com doença cardiovascular aguda ou crónica | 8 g/dL | 10 g/dL ou mais |
| Suspeita de hemorragia varicosa | alvo de 7 a 8 g/dL | ajustado à idade, à doença cardiovascular, à hemodinâmica e à hemorragia ativa |
- A estratégia restritiva reduziu a mortalidade e a recidiva em comparação com a liberal, na hemorragia varicosa e na não varicosa. No cirrótico, transfundir de mais sobe a pressão portal e agrava a hemorragia.
- Na hemorragia exsanguinante não se espera por um número: transfunde-se pela perda.
Hemorragia crítica
É a hemorragia que ameaça a vida e vai provavelmente precisar de transfusão maciça, 5 ou mais unidades de eritrócitos em 4 horas. Ativa-se o protocolo de hemorragia maciça do hospital.
- Medem-se cedo e com frequência: temperatura, equilíbrio ácido-base, cálcio ionizado, hemoglobina, plaquetas, tempo de protrombina e INR, tempo de tromboplastina parcial ativada e fibrinogénio. Repetem-se a cada 4 unidades de eritrócitos.
- Valores de descompensação: temperatura abaixo de 35 °C, pH abaixo de 7,2, excesso de base abaixo de -6 mmol/L, lactato acima de 4 mmol/L, cálcio ionizado abaixo de 1 mmol/L, INR acima de 1,5, fibrinogénio abaixo de 2,0 g/L.
- Eritrócitos, plasma e plaquetas numa razão nunca inferior a 2:1:1: pelo menos 1 unidade de plasma por cada 2 de eritrócitos e 1 unidade adulta de plaquetas por cada 8.
- Fibrinogénio baixo repõe-se com 3 a 4 g, em concentrado ou crioprecipitado.
- Aquecer o sangue e manter a temperatura central acima de 35 °C: hipotermia, acidose e coagulopatia alimentam-se umas às outras. O citrato do sangue armazenado baixa o cálcio ionizado.
No cirrótico
- O INR e o tempo de tromboplastina não refletem o estado hemostático: o cirrótico perde fatores pró e anticoagulantes.
- O plasma fresco congelado não se dá na hemorragia varicosa: não corrige a coagulopatia e aumenta o volume e a pressão portal.
- O objetivo é baixar a pressão portal, não corrigir números.
Localizar pela clínica
- A apresentação localiza: hematemese é alta; melena é alta na maioria; hematoquézia é baixa ou do delgado, salvo com instabilidade.
- A ureia desproporcionada à creatinina aponta para cima: soma a hipovolemia às proteínas do sangue absorvidas no delgado. Uma razão ureia sobre creatinina acima de 30 sugere origem alta.
- A história aponta a causa: úlcera, anti-inflamatórios e antitrombóticos, doença hepática, vómitos antes da hematemese, prótese aórtica, polipectomia recente, radioterapia pélvica, doença inflamatória intestinal.
Estratificar a hemorragia alta: Glasgow-Blatchford
Calcula-se à entrada, antes da endoscopia, só com dados clínicos e laboratoriais.
| variável | pontos |
|---|---|
| Ureia 6,5 a 7,9 mmol/L | 2 |
| Ureia 8 a 9,9 mmol/L | 3 |
| Ureia 10 a 24,9 mmol/L | 4 |
| Ureia 25 mmol/L ou mais | 6 |
| Hemoglobina no homem 12 a 12,9 g/dL | 1 |
| Hemoglobina no homem 10 a 11,9 g/dL | 3 |
| Hemoglobina na mulher 10 a 11,9 g/dL | 1 |
| Hemoglobina abaixo de 10 g/dL, em ambos | 6 |
| Pressão sistólica 100 a 109 mmHg | 1 |
| Pressão sistólica 90 a 99 mmHg | 2 |
| Pressão sistólica abaixo de 90 mmHg | 3 |
| Frequência cardíaca de 100/min ou mais | 1 |
| Melena | 1 |
| Síncope | 2 |
| Doença hepática | 2 |
| Insuficiência cardíaca | 2 |
- Vai de 0 a 23. Com 0 ou 1, o risco de recidiva, de morte aos 30 dias e de precisar de intervenção é muito baixo: o doente pode ter alta e fazer a endoscopia em ambulatório.
- Os scores preveem mal os outros desfechos; não substituem o juízo clínico.
Estratificar a hemorragia baixa: Oakland
Serve para decidir a alta em quem teve uma hemorragia autolimitada e sem outros sinais de gravidade.
| variável | pontos |
|---|---|
| Idade: menos de 40 / 40 a 69 / 70 ou mais | 0 / 1 / 2 |
| Sexo masculino | 1 |
| Internamento anterior por hemorragia baixa | 1 |
| Sangue no toque retal | 1 |
| Frequência cardíaca: menos de 70 / 70 a 89 / 90 a 109 / 110 ou mais | 0 / 1 / 2 / 3 |
| Pressão sistólica: 50 a 89 / 90 a 119 / 120 a 129 / 130 a 159 / 160 ou mais | 5 / 4 / 3 / 2 / 0 |
| Hemoglobina (g/dL): 3,6 a 6,9 / 7 a 8,9 / 9 a 10,9 / 11 a 12,9 / 13 a 15,9 / 16 ou mais | 22 / 17 / 13 / 8 / 4 / 0 |
- 8 pontos ou menos: cerca de 95% de probabilidade de alta segura; investiga-se em ambulatório. Acima disso, ou com instabilidade, é uma hemorragia baixa major.
Hemorragia alta: endoscopia
- Depois de reanimar, nas primeiras 24 horas. Não se ganha nada em fazê-la nas primeiras 12 horas na não varicosa, e nas primeiras 6 horas pode ser pior.
- Na suspeita de varizes, nas primeiras 12 horas; se o doente se mantém instável, logo que seja seguro.
- Antiagregantes, anticoagulantes ou um INR predefinido não decidem o momento da endoscopia.
- Eritromicina 250 mg endovenosa 30 a 120 minutos antes, na hemorragia grave ou ativa, para esvaziar o estômago de sangue; evita-se com QT longo.
- A endoscopia classifica a úlcera pela classificação de Forrest, que decide quem leva hemostase.
| Forrest | achado | risco | conduta |
|---|---|---|---|
| Ia | hemorragia em jato | alto | hemostase |
| Ib | hemorragia em toalha | alto | hemostase |
| IIa | vaso visível não sangrante | alto | hemostase |
| IIb | coágulo aderente | intermédio | considerar remover o coágulo e tratar o que está por baixo |
| IIc | mancha pigmentada plana | baixo | nenhuma |
| III | base limpa | baixo | nenhuma; alta precoce em casos selecionados |
- Na úlcera pesquisa-se o Helicobacter pylori na própria endoscopia, e repete-se o teste se der negativo.
- No cirrótico com hemorragia varicosa faz-se também imagem abdominal com contraste, tomografia ou ressonância, para excluir trombose esplâncnica e carcinoma hepatocelular e mapear colaterais.
Hemorragia baixa
| situação | primeiro exame |
|---|---|
| Estável | colonoscopia depois de preparação com 4 a 6 L de polietilenoglicol, durante o internamento; diagnostica e trata |
| Instável, com suspeita de hemorragia ativa | angiografia por tomografia computorizada, antes de qualquer tratamento; depois embolização |
| Instável, sem origem baixa demonstrada na tomografia | endoscopia alta |
- A colonoscopia precoce, nas primeiras 24 horas, não mostrou melhores resultados do que a feita mais tarde no internamento.
- Não se faz colonoscopia nem sigmoidoscopia sem preparação.
- A angiografia por tomografia tem sensibilidade de cerca de 85% e especificidade de cerca de 92%, mas só vê hemorragia ativa.
- A cintigrafia com eritrócitos marcados deixou de se recomendar na hemorragia baixa aguda: localiza mal.
- Sangue no íleo terminal aponta para o delgado.
Suspeita de hemorragia do intestino delgado
- Cápsula endoscópica é o primeiro exame, e na hemorragia manifesta faz-se o mais cedo possível, idealmente nas primeiras 48 horas.
- Não se repete por rotina a endoscopia alta e a colonoscopia antes da cápsula.
- Enteroscopia assistida por dispositivo (de balão ou espiral) para confirmar e tratar o que a cápsula mostrou; na hemorragia manifesta, idealmente nas 48 a 72 horas.
- Com suspeita de estenose (Crohn, cirurgia ou radioterapia prévias), a enterografia por tomografia vem antes da cápsula, ou usa-se primeiro uma cápsula de patência, pelo risco de retenção.
- Cápsula de boa qualidade negativa: conduta expectante, com ferro se houver ferropenia. Se a hemorragia persistir, repete-se a cápsula ou avança-se.
- Hemorragia maciça que se supõe do delgado: angiografia por tomografia e angiografia primeiro. No jovem, a cintigrafia com pertecnetato procura o divertículo de Meckel.
- Se tudo for negativo e a hemorragia grave persistir, enteroscopia intraoperatória.
Pesquisa de sangue oculto positiva e anemia ferropénica
- Pesquisa de sangue oculto positiva no rastreio: colonoscopia. Se for normal, não se investiga mais, salvo anemia ferropénica ou sintomas digestivos.
- Anemia ferropénica sem causa: endoscopia alta e colonoscopia; se negativas, cápsula endoscópica.
Fístula aortoentérica
- Suspeita-se em todo o portador de prótese ou enxerto aórtico com hemorragia digestiva, mesmo anos depois da cirurgia.
- A maioria atinge a terceira e quarta porções do duodeno, onde o duodeno cruza a aorta.
- A endoscopia pode ser normal: não chega ao duodeno distal e a fístula pode não estar a sangrar. A tomografia com contraste é o exame de urgência, e mostra gás ou líquido à volta da prótese e perda do plano de gordura entre a aorta e o intestino.
Hemorragia alta não varicosa
- Inibidor da bomba de protões endovenoso em dose alta antes da endoscopia: reduz os estigmas de alto risco e a necessidade de hemostase, mas não reduz a recidiva, a cirurgia nem a mortalidade, e não pode atrasar a endoscopia.
- Somatostatina e octreótido não se usam.
- Hemostase endoscópica em Forrest Ia, Ib e IIa, e no IIb depois de retirar o coágulo:
- Hemorragia ativa (Ia, Ib): adrenalina injetada sempre combinada com um segundo método, térmico de contacto ou mecânico (clips).
- Vaso visível (IIa): térmico, mecânico ou esclerosante, isolados ou com adrenalina.
- A adrenalina isolada não chega: o efeito é transitório.
- Úlceras acima de 2 cm, vaso acima de 2 mm ou em território de grande artéria: considerar o clip montado sobre o endoscópio de início.
- Depois da hemostase, e no IIb não tratado: inibidor da bomba de protões em dose alta durante 72 horas, em bólus de 80 mg seguido de perfusão de 8 mg/h, ou em bólus endovenoso ou oral duas vezes por dia.
- Não se faz endoscopia de revisão por rotina.
- Recidiva: nova endoscopia com hemostase (considerar o clip montado sobre o endoscópio). Se falhar, embolização arterial; cirurgia quando a embolização falha ou não existe.
- Tratar a causa: erradicar o Helicobacter pylori e confirmar a erradicação; suspender os anti-inflamatórios. Com a erradicação, a recidiva hemorrágica desce para menos de 5%.
Hemorragia alta varicosa
No cirrótico com hemorragia alta, trata-se como varicosa desde a admissão, antes da endoscopia.
| pilar | como | porquê |
|---|---|---|
| Vasoativo | terlipressina, somatostatina ou octreótido, o mais cedo possível, durante 2 a 5 dias | baixa a pressão portal, melhora o controlo e facilita a endoscopia |
| Antibiótico | desde a admissão; ceftriaxona 1 g por dia endovenosa na cirrose avançada | reduz infeção, recidiva e mortalidade |
| Endoscopia | nas 12 horas; laqueação elástica nas varizes esofágicas; cola de cianoacrilato nas varizes gástricas isoladas e nas que se estendem para lá do cárdia | controlo da fonte |
| Encefalopatia | lactulose oral ou em enema para retirar o sangue do intestino | previne a encefalopatia |
- Doses dos vasoativos:
- Terlipressina: pelo resumo das características do medicamento, de 4 em 4 horas, 1 mg abaixo de 50 kg, 1,5 mg entre 50 e 70 kg, 2 mg acima de 70 kg, até 5 dias. A diretriz europeia de cirrose descompensada propõe 2 mg de 4 em 4 horas nas primeiras 48 horas e depois 1 mg de 4 em 4 horas.
- Somatostatina: bólus de 250 µg e perfusão de 250 µg/h, que pode subir a 500 µg/h.
- Octreótido: bólus de 50 µg e perfusão de 50 µg/h.
- A terlipressina é vasoconstritora: pode dar isquemia miocárdica, mesentérica e periférica, e hiponatremia, sobretudo com função hepática preservada. Vigia-se o sódio.
- Duração do antibiótico: o Baveno VIII deixou de a fixar, e individualiza-a pelo risco de infeção e pela gravidade da cirrose; o risco de infeção é muito baixo no Child-Pugh A.
- O inibidor da bomba de protões começado antes da endoscopia suspende-se logo depois se a causa for varicosa, salvo outra indicação.
- Anticoagulantes suspendem-se até a hemorragia estar controlada.
- Internamento em cuidados intensivos ou intermédios.
Derivação portossistémica intra-hepática transjugular (TIPS)
| situação | conduta |
|---|---|
| Alto risco: Child-Pugh C com menos de 14 pontos, ou Child-Pugh B acima de 7 com hemorragia ativa na endoscopia, ou gradiente de pressão venosa hepática acima de 20 mmHg | TIPS precoce com prótese coberta, nas 72 horas, idealmente nas 24 horas |
| Perdeu essa janela | o Baveno VIII admite TIPS nas 1 a 2 semanas seguintes, conforme a gravidade |
| Hemorragia que não se controla com fármaco e endoscopia | balão de tamponamento ou prótese esofágica autoexpansível como ponte (a prótese é tão eficaz e mais segura), e TIPS de resgate |
- Encefalopatia, insuficiência hepática aguda sobre crónica ou bilirrubina alta à entrada não contraindicam a TIPS precoce.
- A TIPS pode ser fútil com Child-Pugh de 14 ou mais, ou MELD (modelo para a doença hepática terminal) acima de 30 com lactato acima de 12 mmol/L, salvo transplante a curto prazo.
Depois do episódio varicoso
- Profilaxia secundária: betabloqueante não seletivo (propranolol, nadolol ou carvedilol) com laqueação elástica repetida até erradicar as varizes. Começa logo que a hemorragia está controlada, porque o risco de recidiva é máximo nas primeiras 6 semanas.
- Quem volta a sangrar sob os dois faz TIPS e é avaliado para transplante.
Hemorragia baixa
- A maioria para sozinha e resolve com suporte.
- Colonoscopia: tratamento mecânico (clips ou laqueação) no divertículo; coagulação com árgon plasma na angiodisplasia; clips ou coagulação térmica na hemorragia pós-polipectomia diferida.
- Embolização na hemorragia ativa com risco de vida, demonstrada na angiografia por tomografia, ou quando a colonoscopia não trata. No doente instável, nos 60 minutos seguintes.
- Cirurgia só quando a causa não se trata por endoscopia nem por radiologia, ou quando estas falham. Nunca laparotomia exploradora sem ter tentado localizar.
Antitrombóticos
| fármaco | conduta |
|---|---|
| Ácido acetilsalicílico em prevenção primária | suspender e reavaliar a indicação |
| Ácido acetilsalicílico em prevenção secundária | não suspender; se foi suspenso, retomar o mais cedo possível, de preferência em 3 a 5 dias |
| Dupla antiagregação | manter o ácido acetilsalicílico; suspender o segundo antiagregante e retomá-lo em 5 dias, com a cardiologia |
| Varfarina | suspender; com instabilidade, fitomenadiona 5 a 10 mg endovenosa lenta (pelo menos 30 segundos) e complexo protrombínico de 4 fatores 25 a 50 UI/kg conforme o INR; plasma só sem complexo |
| Dabigatrano | suspender; na hemorragia grave e persistente, idarucizumab 5 g (dois frascos de 2,5 g); segunda dose de 5 g se recorre com tempos alargados |
| Apixabano e rivaroxabano | suspender; na hemorragia grave e persistente, andexanet alfa (dose baixa: bólus de 400 mg a 30 mg/min e perfusão de 4 mg/min durante 120 minutos; dose alta conforme o fármaco, a dose e a hora da última toma) ou complexo protrombínico |
- Nada disto atrasa a endoscopia. Com anticoagulantes orais diretos, a hora da última toma conta muito, porque o efeito se dissipa em 12 a 24 horas.
- Não se transfundem plaquetas por rotina a quem toma antiagregantes.
- Retomar a anticoagulação logo que a hemorragia esteja controlada, de preferência por volta dos 7 dias, conforme o risco trombótico. Retomar reduz tromboses e mortalidade, à custa de um pouco mais de recidiva. Mantém-se um inibidor da bomba de protões enquanto durar a anticoagulação ou a dupla antiagregação.
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31 perguntas sobre Abordagem ao doente com hemorragia digestiva
Ler consolida, treinar é o que fixa. Cada pergunta tem justificação alínea a alínea, no formato da Prova Nacional de Acesso.
Criar conta e treinar