Abordagem ao doente com hemorragia digestiva
Atualizado em 18 de julho de 2026 · 26 perguntas neste tema
A hemorragia digestiva é uma emergência em que a regra de ouro é reanimar primeiro e localizar depois. Distingue-se a alta (HDA), proximal ao ângulo de Treitz, da baixa (HDB): a hematemese e a melena apontam alta, a hematoquézia aponta baixa (mas uma HDA maciça, com instabilidade, também a pode causar). A causa mais comum da HDA é a úlcera péptica, e da HDB é a diverticulose; à parte fica a HDA varicosa da hipertensão portal. Na avaliação, estratifica-se o risco (o Glasgow-Blatchford identifica o baixo risco para ambulatório) e faz-se endoscopia digestiva alta nas primeiras 24 horas (diagnóstica e terapêutica). No tratamento, a base é a reanimação com transfusão restritiva (alvo de Hb ~7 g/dL); a HDA não-varicosa trata-se com IBP endovenoso e hemostase endoscópica combinada; a varicosa com o conjunto de medidas ("bundle"): vasoativo (terlipressina/octreótido) + antibiótico (ceftriaxona, que reduz a mortalidade) + laqueação elástica, com TIPS precoce nos de alto risco; e a HDB é, na maioria, autolimitada.
Mecanismos
A hemorragia digestiva resulta de uma solução de continuidade na parede de um vaso da mucosa, submucosa ou mais profundo, com escoamento de sangue para o lúmen. O calibre do vaso atingido e a pressão a que está sujeito determinam o débito: uma erosão superficial sangra pouco e tende a parar sozinha, enquanto uma úlcera que penetra até uma artéria submucosa ou uma variz sob alta pressão portal pode causar hemorragia maciça. Pensar por localização ajuda a organizar as causas e a antecipar o mecanismo.
HDA não-varicosa
Úlcera péptica. É a causa mais comum de HDA, responsável pela maioria dos casos. A úlcera resulta do desequilíbrio entre fatores agressores (ácido, pepsina, infeção por Helicobacter pylori, anti-inflamatórios não esteróides) e fatores defensivos da mucosa (muco, bicarbonato, fluxo sanguíneo). Quando a cratera ulcerosa progride em profundidade e erode um vaso da submucosa ou, no caso das úlceras da parede posterior do bulbo duodenal, a artéria gastroduodenal, surge hemorragia que pode ser grave. O risco de recidiva avalia-se pelos estigmas endoscópicos (classificação de Forrest): hemorragia ativa em jato, vaso visível não sangrante ou coágulo aderente identificam lesões de alto risco que beneficiam de hemostase endoscópica.
Esofagite. A inflamação da mucosa esofágica, sobretudo por doença de refluxo gastroesofágico, causa erosões que sangram em geral de forma ligeira, manifestando-se mais por anemia ou sangue oculto do que por hemorragia exuberante.
Laceração de Mallory-Weiss. É uma laceração longitudinal da mucosa na junção gastroesofágica, provocada por vómitos ou esforços de vómito repetidos que aumentam bruscamente a pressão intraluminal. A história típica é a de vómitos alimentares iniciais seguidos de hematemese. A maioria resolve espontaneamente.
Angiodisplasia. São malformações vasculares da mucosa e submucosa, ectasias de vasos com parede frágil, mais frequentes no idoso. Sangram de forma intermitente e podem causar hemorragia oculta ou recorrente de difícil localização.
Neoplasia. Os tumores gástricos e esofágicos sangram por ulceração e necrose da sua superfície, à medida que crescem e ultrapassam o suprimento vascular. A hemorragia costuma ser crónica e de baixo débito, com anemia, embora possa ser aguda.
Lesão de Dieulafoy. É uma arteríola submucosa anormalmente calibrosa e tortuosa que protrui através de um defeito mínimo da mucosa, habitualmente no estômago proximal. Apesar de a lesão mucosa ser minúscula, o vaso é de grande calibre e pode causar hemorragia maciça e recorrente, muitas vezes difícil de identificar.
HDA varicosa
As varizes esofágicas e gástricas são colaterais portossistémicas que se desenvolvem em resposta à hipertensão portal, definida pelo aumento do gradiente de pressão venosa hepática. A causa mais frequente é a cirrose hepática. Com a fibrose e a distorção da arquitetura hepática, aumenta a resistência ao fluxo portal; o sangue desvia-se por vias colaterais, sobretudo na submucosa do esófago distal e do fundo gástrico, onde as veias se dilatam e se tornam tortuosas. Quando a pressão na parede da variz excede a sua resistência, esta rompe e ocorre hemorragia. O risco de rotura aumenta com o calibre das varizes, com a presença de sinais vermelhos na sua superfície à endoscopia e com a gravidade da disfunção hepática. A hemorragia varicosa é tipicamente de alto débito e associa-se a maior mortalidade, em parte pela hemorragia em si e em parte pelas complicações da doença hepática de base (infeção, encefalopatia, falência hepática).
HDB
Diverticulose. É a causa mais comum de HDB no adulto. Os divertículos do cólon são herniações da mucosa através da camada muscular nos pontos de entrada dos vasos. A artéria que penetra junto ao colo do divertículo fica exposta e pode romper, causando hemorragia tipicamente indolor, de início súbito e por vezes abundante, com hematoquézia. A maioria para espontaneamente.
Angiodisplasia. Tal como no tubo digestivo alto, as ectasias vasculares do cólon (mais frequentes no cólon direito e no idoso) são uma causa importante de HDB, frequentemente recorrente e de localização difícil.
Neoplasia e pólipos. O cancro colorretal e os pólipos sangram por ulceração da superfície, geralmente de forma crónica e oculta, com anemia ferropénica. Uma hemorragia digestiva baixa no adulto, sobretudo acima dos 50 anos, obriga sempre a excluir neoplasia por colonoscopia.
Colite isquémica. Resulta da hipoperfusão de um segmento do cólon, com lesão da mucosa e hemorragia. É mais frequente em idosos com fatores de risco vascular e atinge preferencialmente as áreas de transição vascular ("watershed"), como o ângulo esplénico. Cursa com dor abdominal e hematoquézia.
Doença inflamatória intestinal. A colite ulcerosa e a doença de Crohn causam inflamação e ulceração da mucosa, com hemorragia que se manifesta por diarreia com sangue e muco, num quadro com outros sinais inflamatórios.
Hemorroidas. São a causa mais comum de hemorragia retal de pequeno volume, com sangue vivo que reveste as fezes ou pinga após a defecação. São benignas, mas nunca devem ser assumidas como explicação de uma anemia ou de uma hemorragia significativa sem excluir causas proximais.
Pós-polipectomia. A hemorragia após remoção endoscópica de pólipos pode ser imediata ou diferida (dias depois), por descolamento do coágulo no leito da polipectomia.
| Localização | Causas principais |
|---|---|
| HDA não-varicosa | Úlcera péptica (a mais comum), esofagite, Mallory-Weiss, angiodisplasia, neoplasia, lesão de Dieulafoy |
| HDA varicosa | Varizes esofágicas e gástricas por hipertensão portal (cirrose) |
| HDB | Diverticulose (a mais comum), angiodisplasia, neoplasia e pólipos, colite isquémica, doença inflamatória intestinal, hemorroidas, pós-polipectomia |
Fisiopatologia da perda de volume e resposta hemodinâmica
A repercussão sistémica da hemorragia depende do volume perdido e da velocidade a que se perde. A perda de sangue reduz o volume intravascular e, com ele, o retorno venoso, o volume de ejeção e o débito cardíaco. O organismo responde por ativação do sistema nervoso simpático e do eixo renina-angiotensina-aldosterona, numa sequência que se traduz em sinais clínicos progressivos.
Na perda ligeira (até cerca de 15% da volémia), os mecanismos compensatórios mantêm a tensão arterial e o doente está praticamente assintomático ou apenas com discreta ansiedade. À medida que a perda aumenta, surge taquicardia (a frequência cardíaca sobe para manter o débito apesar do menor volume de ejeção) e vasoconstrição periférica (palidez, extremidades frias, sudação, atraso no preenchimento capilar). A hipotensão ortostática, com queda da tensão ao levantar e subida compensatória da frequência cardíaca, é um sinal precoce de hipovolémia significativa e pode estar presente antes de a tensão em decúbito cair. Quando a perda ultrapassa cerca de 30 a 40% da volémia, falham os mecanismos de compensação e instala-se hipotensão franca em decúbito, com taquicardia marcada, alteração do estado de consciência e oligúria, ou seja, choque hipovolémico.
Dois pontos merecem destaque clínico. Primeiro, no início de uma hemorragia aguda a hemoglobina e o hematócrito podem estar falsamente normais, porque se perde sangue total e a hemodiluição só ocorre com a entrada de líquido para o espaço intravascular ao longo de horas; um valor normal não exclui hemorragia grave. Segundo, doentes idosos, sob betabloqueante ou com má reserva cardiovascular podem não taquicardizar e descompensar de forma abrupta, pelo que a ausência de taquicardia não tranquiliza. Na HDA, a digestão do sangue no intestino eleva ainda a ureia de forma desproporcionada em relação à creatinina, sinal bioquímico útil que aponta para origem alta.
Avaliação diagnóstica
Primeiro a estabilização, depois o diagnóstico
A prioridade é o ABC e a avaliação hemodinâmica. A localização e a causa vêm a seguir. O doente com hemorragia digestiva pode estar a sangrar de forma ativa enquanto fala consigo, por isso a primeira pergunta não é "donde vem o sangue" mas sim "este doente está estável".
Avalie de imediato a frequência cardíaca, a tensão arterial, a perfusão periférica e o estado de consciência. A taquicardia é o sinal mais precoce e surge antes da hipotensão; um doente jovem compensa bem e pode manter tensão normal até ter perdido um volume considerável, mascarando a gravidade. A hipotensão em decúbito traduz já perda superior a 30 a 40% do volume circulante e exige reanimação agressiva. Entre os dois extremos, procure hipotensão ortostática (queda da tensão sistólica superior a 20 mmHg ou subida da frequência cardíaca acima de 20 bpm ao levantar): denuncia hipovolemia moderada num doente que ainda parece estável deitado. Pele fria e pegajosa, palidez, sudorese, oligúria e alteração do estado mental são sinais de choque e mudam imediatamente a prioridade para a reanimação.
Coloque dois acessos venosos periféricos de grande calibre (14 a 16 G), inicie cristaloides e colha sangue para hemograma, coagulação, função renal, ionograma, função hepática e tipagem com provas cruzadas. Note que o hematócrito inicial pode ser enganador: na hemorragia aguda, sangue e plasma perdem-se na mesma proporção e a hemodiluição ainda não ocorreu, pelo que um hematócrito normal nas primeiras horas não exclui perda significativa. A ureia desproporcionadamente elevada face à creatinina aponta para origem alta, por digestão e absorção do sangue no intestino delgado. Só depois de garantir via aérea, oxigenação e reposição de volume é que a investigação da origem faz sentido.
Localizar a origem
A localização faz-se primeiro pela apresentação. Hematemese (vómito de sangue vivo ou "borras de café") e melena (fezes negras, alcatroadas e fétidas) apontam para hemorragia digestiva alta (HDA), ou seja, origem proximal ao ângulo de Treitz. A hematoquézia (sangue vivo ou coágulos pelo reto) aponta para hemorragia digestiva baixa (HDB). A regra tem uma exceção que importa não esquecer: a HDA maciça com trânsito acelerado também causa hematoquézia, e nesse cenário o doente está habitualmente instável. Por outras palavras, hematoquézia com instabilidade hemodinâmica obriga a considerar e a excluir primeiro uma origem alta.
A melena exige cerca de 50 mL de sangue e algumas horas de trânsito para se formar, pelo que pode persistir dias após a hemorragia ter parado. Atenção aos falsos positivos: ferro oral, bismuto, e alguns alimentos escurecem as fezes sem serem sangue.
O toque retal e a observação das fezes ajudam a caracterizar e a confirmar a apresentação: melena no dedo de luva apoia origem alta, sangue vivo apoia origem baixa, e a inspecção da região perianal pode revelar hemorroidas ou fissura. A algaliação nasogástrica com aspirado pode apoiar a suspeita quando há dúvida: um aspirado com sangue ou borras confirma HDA, mas um aspirado limpo não a exclui (uma hemorragia duodenal com piloro encerrado pode não refluir para o estômago), pelo que o seu rendimento é limitado e não substitui a endoscopia.
| Apresentação | Origem mais provável | Notas |
|---|---|---|
| Hematemese (sangue vivo ou borras de café) | Alta (proximal ao ângulo de Treitz) | Sangue vivo sugere hemorragia ativa/abundante; borras de café, sangue digerido |
| Melena | Alta na grande maioria | Pode ser delgado ou cólon direito com trânsito lento; persiste dias após parar |
| Hematoquézia | Baixa, em regra | Mas HDA maciça com instabilidade também a causa; excluir origem alta primeiro |
| Hematoquézia + instabilidade hemodinâmica | Tratar como alta até prova em contrário | EDA antes da colonoscopia |
| Sangue oculto nas fezes / anemia ferropénica | Qualquer ponto do tubo digestivo | Investigação eletiva, alta e baixa |
A história aponta a causa. Na HDA, valorize antecedentes de doença ulcerosa, consumo de AINE ou aspirina, anticoagulação, doença hepática crónica (faz suspeitar de varizes esofágicas), vómitos intensos a preceder a hematemese (síndrome de Mallory-Weiss) e episódios prévios. Na HDB, a idade orienta: divertículos e angiodisplasia no idoso, doença inflamatória intestinal no jovem, e neoplasia a excluir sempre acima dos 50 anos ou com sintomas de alarme.
Estratificar o risco
A estratificação de risco decide o destino do doente e a urgência da endoscopia. O score de Glasgow-Blatchford é a ferramenta para a HDA, calculado à entrada apenas com dados clínicos e laboratoriais (ureia, hemoglobina, tensão arterial sistólica, frequência cardíaca, melena, síncope, doença hepática ou cardíaca) e sem necessitar de endoscopia. É útil sobretudo na triagem: um score muito baixo, de 0 a 1, identifica doentes de baixo risco que têm probabilidade mínima de necessitar de intervenção (transfusão, hemostase endoscópica, cirurgia) ou de morrer, e que podem ser geridos em ambulatório com endoscopia eletiva, evitando internamentos desnecessários. Quanto mais alto o score, maior o risco e a necessidade de internamento e endoscopia precoce.
O score de Rockall estima sobretudo o risco de recidiva hemorrágica e de mortalidade. A sua versão completa incorpora os achados da endoscopia (diagnóstico e estigmas de hemorragia recente), pelo que se aplica após a endoscopia; existe uma versão clínica pré-endoscópica, mas o seu valor pleno depende dos dados endoscópicos. Em síntese, o Glasgow-Blatchford triplica à entrada e diz quem pode ir para casa; o Rockall, depois da endoscopia, refina o prognóstico.
| Score | Quando se aplica | Para quê serve |
|---|---|---|
| Glasgow-Blatchford | À entrada, antes da endoscopia (só dados clínicos/laboratoriais) | Triagem; score 0-1 identifica baixo risco para gestão em ambulatório |
| Rockall (completo) | Após a endoscopia (inclui achados endoscópicos) | Estimar risco de recidiva hemorrágica e mortalidade |
Em paralelo, corrija a coagulopatia conforme a causa: reverta o anticoagulante quando indicado e, na doença hepática, a abordagem das varizes inclui medidas específicas (ver gestão). A política transfusional é restritiva na maioria dos casos, com alvo de hemoglobina mais baixo, por melhorar os resultados face à transfusão liberal, exceto em contextos de instabilidade grave ou doença cardiovascular ativa.
Confirmar e tratar
A endoscopia digestiva alta (EDA) é simultaneamente diagnóstica e terapêutica e é o exame central na HDA. Localiza a lesão, caracteriza o risco de recidiva hemorrágica pelos estigmas (vaso visível, coágulo aderente, hemorragia ativa) e permite hemostase no mesmo tempo (injecção de adrenalina combinada com método térmico ou mecânico, clips, laqueação elástica nas varizes). Deve fazer-se nas primeiras 24 horas na HDA, depois de o doente estar reanimado e hemodinamicamente estabilizado. Antecipe-a (de forma mais precoce, após reanimação) no doente que se mantém instável apesar da reposição, ou quando há suspeita de varizes, situação em que se associa fármaco vasoativo e antibiótico profilático antes do exame. A endoscopia muito precoce em doente ainda mal reanimado aumenta o risco e o rendimento diagnóstico é menor com o campo cheio de sangue, pelo que estabilizar primeiro é a regra. Considere eritromicina endovenosa antes do exame para esvaziar o estômago e melhorar a visualização.
Na HDB, a colonoscopia após preparação é o exame de eleição: identifica a fonte (divertículos, angiodisplasia, neoplasia, colite, lesão pós-polipectomia) e permite terapêutica (clips, coagulação, laqueação). Na maioria dos doentes estáveis, prepara-se o cólon e faz-se a colonoscopia de forma não emergente, dado que a HDB pára espontaneamente na maior parte dos casos. No doente com HDB e instabilidade, exclua primeiro uma HDA com EDA antes de assumir origem baixa.
Quando a hemorragia é ativa e não se consegue localizar, ou é obscura (persistente ou recorrente sem causa identificada na EDA e na colonoscopia), a investigação escala consoante o ritmo da perda hemática:
- Angio-TC (angiografia por tomografia computorizada): rápida e amplamente disponível, deteta extravasamento de contraste na hemorragia ativa com débito relativamente elevado; útil no doente instável para localizar antes de uma angiografia com intuito terapêutico (embolização).
- Cintigrafia com eritrócitos marcados: a mais sensível para débitos baixos e para hemorragia intermitente, embora localize de forma menos precisa.
- Cápsula endoscópica: exame de eleição para o intestino delgado na hemorragia obscura do doente estável, depois de EDA e colonoscopia negativas; a enteroscopia (incluindo a assistida por balão) permite biópsia e terapêutica das lesões aí encontradas.
A escolha resume-se a três eixos: a apresentação localiza a origem provável, a estabilidade hemodinâmica define a urgência, e o exame endoscópico (alto ou baixo) é a primeira linha por ser diagnóstico e terapêutico ao mesmo tempo; a imagem e a cápsula entram quando a endoscopia não chega.
| Exame | Quando / Para quê |
|---|---|
| EDA | HDA: primeiras 24 h após reanimação; mais cedo se instável ou suspeita de varizes. Diagnóstica e terapêutica |
| Colonoscopia (após preparação) | HDB no doente estável: exame de eleição, diagnóstico e terapêutico |
| Algaliação nasogástrica | Apoio na dúvida alta vs baixa; aspirado limpo não exclui HDA |
| Angio-TC | Hemorragia ativa com débito mais alto, doente instável; localizar antes de embolização |
| Cintigrafia com eritrócitos marcados | Hemorragia de baixo débito ou intermitente; muito sensível, menos precisa |
| Cápsula endoscópica | Hemorragia obscura do intestino delgado, doente estável, após EDA e colonoscopia negativas |
| Angiografia | Localizar e tratar (embolização) na hemorragia ativa abundante |
Abordagem terapêutica
O tratamento da hemorragia digestiva organiza-se em camadas que correm em paralelo, não em sequência. A reanimação começa antes de qualquer diagnóstico topográfico e mantém-se durante toda a abordagem. Em cima dela assenta a terapêutica específica, que diverge consoante a hemorragia seja alta ou baixa e, dentro da alta, consoante seja varicosa ou não-varicosa. A distinção é decisiva porque condiciona fármacos, antibióticos e o timing da endoscopia.
Dois princípios atravessam toda a secção. O primeiro é que a estabilização hemodinâmica tem prioridade sobre a localização precisa da lesão: ressuscitar primeiro, investigar depois. O segundo é que a endoscopia digestiva, alta ou baixa, é simultaneamente o exame diagnóstico e a principal ferramenta terapêutica, pelo que a sua preparação e timing fazem parte do tratamento e não de uma fase posterior.
Reanimação (transversal e primeiro)
A reanimação aplica-se a qualquer doente com hemorragia digestiva significativa, independentemente da origem, e antecede o diagnóstico topográfico. Segue a lógica ABCDE, com avaliação rápida do estado de choque pela frequência cardíaca, pressão arterial, perfusão periférica e estado de consciência. A taquicardia precede frequentemente a hipotensão; um doente jovem pode perder volume considerável antes de descompensar, pelo que a normotensão inicial não tranquiliza.
Acessos e fluidos. Colocam-se dois cateteres venosos periféricos de grande calibre (14 a 16 G), que permitem ressuscitação volémica mais rápida do que um cateter central longo e fino. Inicia-se reposição com cristaloides para restaurar a volemia enquanto se prepara o sangue. A colheita inicial inclui hemograma, função renal e ionograma, provas de coagulação, função hepática e tipagem com prova de compatibilidade. O valor de hemoglobina na fase aguda subestima a perda, porque a hemodiluição ainda não se completou.
Transfusão com estratégia restritiva. Este é o paradigma central. Na maioria dos doentes adota-se um limiar de transfusão restritivo, com alvo de hemoglobina de cerca de 7 g/dL (objetivo de manutenção tipicamente na faixa 7-9 g/dL). A estratégia restritiva demonstrou melhor sobrevida e menos recidiva hemorrágica do que a transfusão liberal, em parte porque evitar a sobre-transfusão previne o aumento das pressões portais que favorece a recidiva varicosa. Reserva-se um limiar mais liberal para situações específicas: hemorragia ativa exsanguinante com instabilidade hemodinâmica, em que se transfunde de acordo com a perda e não à espera de um número, e doença cardiovascular (sobretudo cardiopatia isquémica), em que a tolerância à anemia é menor e se aceita um alvo de hemoglobina mais alto.
Coagulopatia e plaquetas. Corrige-se a coagulopatia clinicamente relevante e ponderam-se plaquetas quando estão acentuadamente baixas no contexto de hemorragia ativa. Na doença hepática crónica, as provas de coagulação de rotina refletem mal o equilíbrio hemostático, pelo que se evita corrigir números de forma reflexa sem hemorragia ativa. A transfusão maciça obriga a repor proporcionalmente plasma e plaquetas e a vigiar o cálcio ionizado.
Anticoagulação e antiagregação. Suspende-se temporariamente a anticoagulação durante a hemorragia ativa e pondera-se a reversão quando o fármaco é reversível e a hemorragia é grave, sempre pesando o risco trombótico subjacente. A decisão de reintroduzir, e quando, faz-se após a hemostase, individualizada. A antiagregação para prevenção secundária cardiovascular não é descontinuada de forma automática quando o risco trombótico é elevado; esta ponderação acompanha toda a abordagem.
Vigilância e proteção da via aérea. O doente fica monitorizado, com débito urinário como marcador de perfusão. Na hematémese maciça ou na alteração do estado de consciência, considera-se a proteção da via aérea antes da endoscopia, pelo risco de aspiração.
HDA não-varicosa
A causa mais frequente de hemorragia digestiva alta é a doença ulcerosa péptica. A abordagem combina supressão ácida, endoscopia terapêutica e tratamento da causa subjacente.
Inibidor da bomba de protões endovenoso. Inicia-se IBP por via endovenosa assim que há suspeita de HDA não-varicosa, antes mesmo da endoscopia. A elevação do pH gástrico estabiliza o coágulo e reduz a probabilidade de achados endoscópicos de alto risco. Após a endoscopia, a intensidade e a via do IBP ajustam-se aos achados: úlceras com estigmas de alto risco (hemorragia ativa, vaso visível, coágulo aderente) justificam terapêutica mais intensiva; lesões de baixo risco permitem passagem precoce a via oral.
Hemostase endoscópica. A endoscopia faz-se após estabilização, tipicamente dentro de 24 horas. Nas lesões com estigmas de alto risco aplica-se terapêutica combinada, mais eficaz do que a injeção isolada: injeção de adrenalina associada a um segundo método, seja térmico (coagulação por sonda) seja mecânico (colocação de clip). A injeção isolada não deve ser o único gesto, porque o efeito é transitório. Lesões de baixo risco não exigem terapêutica endoscópica.
Eritromicina pré-endoscopia. Administra-se eritromicina endovenosa como procinético cerca de 30 a 120 minutos antes da endoscopia. Ao estimular o esvaziamento gástrico, limpa o estômago de sangue e coágulos, melhora a visualização da mucosa e reduz a necessidade de repetir o exame.
Tratar a causa. Testa-se e trata-se o Helicobacter pylori em toda a úlcera péptica, com confirmação posterior da erradicação. Suspendem-se os AINEs e reavalia-se a indicação de antiagregantes e anticoagulantes. Quando o AINE é indispensável, pondera-se a associação a IBP e a escolha de molécula menos lesiva. Esta etiologia condiciona o seguimento tanto quanto a hemostase imediata.
HDA varicosa
A hemorragia por varizes esófago-gástricas, complicação da hipertensão portal, tem mortalidade elevada e abordagem própria. A força desta secção está no "bundle" de medidas que, aplicadas em conjunto e precocemente, mudam o prognóstico.
Fármaco vasoativo, precoce. Inicia-se um vasoativo (terlipressina ou octreótido) logo que há suspeita de hemorragia varicosa, idealmente antes da endoscopia. Estes fármacos reduzem a pressão portal e o fluxo esplâncnico, ajudando a controlar a hemorragia e a facilitar a endoscopia. Mantêm-se habitualmente durante alguns dias após o controlo.
Antibiótico profilático. A antibioterapia profilática (ceftriaxona) é obrigatória em todo o cirrótico com hemorragia digestiva, mesmo sem sinais de infeção. Reduz infeções, recidiva hemorrágica e, sobretudo, reduz a mortalidade. É das poucas intervenções com benefício de sobrevida demonstrado neste contexto e não deve ser esquecida.
Laqueação elástica endoscópica. A endoscopia faz-se precocemente, idealmente nas primeiras 12 horas após estabilização. Para varizes esofágicas, a hemostase de eleição é a laqueação elástica das varizes, superior à escleroterapia. Nas varizes gástricas fúndicas, a técnica preferencial é a injeção de adesivo tecidular (cianoacrilato), conforme a anatomia.
Resgate e prevenção da recidiva. O balão de tamponamento (sonda de Sengstaken-Blakemore ou equivalente) é uma medida de resgate temporária, em hemorragia maciça incontrolável, ponte de poucas horas até terapêutica definitiva, com via aérea protegida pelo risco de complicações. O TIPS (shunt portossistémico transjugular intra-hepático) entra em duas situações: como TIPS precoce ("pré-emptivo") nos doentes de alto risco (por exemplo Child-Pugh C ou B com hemorragia ativa na endoscopia), em que colocar o shunt nos primeiros dias melhora os resultados, e como TIPS de resgate quando a terapêutica endoscópica e farmacológica falham. Após o episódio, institui-se profilaxia secundária combinando betabloqueante não-seletivo e programa de laqueação.
HDB
A hemorragia digestiva baixa tem evolução globalmente mais benigna do que a alta. A maioria dos episódios é autolimitada e resolve com medidas de suporte, o que permite uma abordagem mais ponderada.
A reanimação segue os mesmos princípios transversais. Confirma-se que a origem é mesmo baixa, já que uma HDA volumosa pode manifestar-se como sangue vermelho por via retal num doente com trânsito acelerado e instabilidade; perante hematoquézia com repercussão hemodinâmica, exclui-se origem alta. A colonoscopia, após preparação adequada, é o exame de primeira linha, diagnóstico e terapêutico.
Na lesão com hemorragia ativa ou estigmas de alto risco aplica-se terapêutica colonoscópica: clips, coagulação térmica ou laqueação, conforme a lesão (divertículo, angiodisplasia, lesão pós-polipectomia). Na hemorragia maciça com instabilidade, ou quando a colonoscopia não é viável ou não localiza a lesão, recorre-se à angiografia, que permite localizar o ponto de hemorragia e tratá-lo por embolização angiográfica. A cirurgia é hoje raramente necessária, reservada para hemorragia incontrolável por meios endoscópicos e angiográficos, ou para causas que a exijam por si.
Síntese por cenário
| Cenário | Conduta de 1.ª linha | Nota / armadilha |
|---|---|---|
| Choque por hemorragia ativa | Dois acessos de grande calibre, cristaloides, transfusão guiada pela perda | Hb inicial subestima a perda; não esperar pelo número na exsanguinação |
| Transfusão (estável) | Estratégia restritiva, alvo de Hb ~7 g/dL | Mais liberal só na cardiopatia isquémica e na exsanguinação; transfundir a mais aumenta a pressão portal |
| HDA não-varicosa (úlcera) | IBP EV precoce + endoscopia com terapêutica combinada (injeção + térmico/clip) | Injeção isolada é insuficiente; testar e tratar H. pylori, suspender AINEs |
| Antes da endoscopia alta | Eritromicina EV como procinético | Limpa o estômago e melhora a visualização; não substitui a reanimação |
| HDA varicosa | Bundle: vasoativo (terlipressina/octreótido) + ceftriaxona + laqueação | A ceftriaxona reduz mortalidade; iniciar vasoativo antes da endoscopia |
| Varicosa de alto risco | TIPS precoce nos primeiros dias | Balão de tamponamento só como ponte temporária, com via aérea protegida |
| HDB | Suporte (maioria autolimitada); colonoscopia diagnóstica e terapêutica | Excluir HDA na hematoquézia instável; cirurgia raramente |
| HDB maciça | Angiografia com embolização | Útil quando a colonoscopia não localiza ou não é viável |
A ressuscitação volémica criteriosa, com a transfusão restritiva como regra e o desvio liberal reservado à exsanguinação e à cardiopatia isquémica, é o fio condutor de toda a abordagem. Sobre ela, a divisão entre não-varicosa (IBP, endoscopia combinada, causa) e varicosa (o bundle de vasoativo, ceftriaxona e laqueação, com TIPS precoce nos de alto risco) define as duas grandes estratégias da hemorragia alta, enquanto a baixa, maioritariamente autolimitada, tolera uma abordagem mais conservadora.
Referências
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- de Franchis R, Bosch J, Garcia-Tsao G, et al. Baveno VII: Renewing consensus in portal hypertension. J Hepatol. 2022;76(4):959-974.
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- UpToDate (consultado em 2026): Approach to acute upper gastrointestinal bleeding in adults; Approach to acute lower gastrointestinal bleeding in adults.
26 perguntas sobre Abordagem ao doente com hemorragia digestiva
Ler consolida, treinar é o que fixa. Cada pergunta tem justificação alínea a alínea, no formato da Prova Nacional de Acesso.
Criar conta e treinar