Digestiva e HepatobiliarAbordagem ao doente com emagrecimento involuntárioPublicado (Premium)

Abordagem ao doente com emagrecimento involuntário

Matriz PNA:MD · MecanismosD · DiagnósticoGD · Gestão

Atualizado em 14 de julho de 2026 · 17 perguntas neste tema

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Em resumo

O emagrecimento involuntário clinicamente significativo (perda superior a 5% do peso em 6 a 12 meses, não intencional) é um sinal de alarme que obriga a procurar causa, sendo a neoplasia responsável por cerca de um quarto dos casos. A primeira regra é confirmar que a perda é real (peso documentado, excluir pseudo-perda); a segunda é deixar a história e o exame conduzirem (o apetite ajuda a dividir: reduzido aponta doença sistémica, neoplasia ou depressão; preservado ou aumentado aponta hipertiroidismo, diabetes ou má-absorção). O estudo inicial é dirigido, não indiscriminado (hemograma, bioquímica, glicemia/HbA1c, TSH, PCR/VS, função hepática e renal, sumário de urina, com VIH e radiografia de tórax conforme o risco) e completa-se com o rastreio oncológico apropriado à idade. Princípio importante: se o estudo e o rastreio forem negativos e não houver sinais de alarme, a vigilância ativa (reavaliar em 3 a 6 meses) é preferível à imagem exaustiva. No idoso, lembrar os múltiplos contributos reversíveis (os "D": demência, depressão, doença, disfagia, fármacos, dentição) e distinguir de sarcopenia e fragilidade.

Mecanismos

O peso corporal mantém-se estável quando a energia ingerida iguala a energia gasta. O emagrecimento involuntário traduz sempre uma quebra desse equilíbrio, e essa quebra resulta de um número limitado de vias fisiopatológicas. Reconhecê-las orienta a anamnese, porque cada via aponta para um conjunto de causas e cada causa deixa pistas próprias. São quatro: redução da ingestão, má-absorção ou perda de nutrientes, aumento do gasto metabólico e a combinação destas. Convém perceber qual ou quais predominam num dado doente, porque raramente a resposta é única.

Redução da ingestão calórica

É a via mais comum, sobretudo no idoso. O doente come menos do que necessita, por motivos que vão muito além da simples falta de apetite. Importa decompor o mecanismo, porque a intervenção difere consoante a causa.

A anorexia propriamente dita, perda da vontade de comer, acompanha quase todas as doenças sistémicas (neoplasia, infeção crónica, insuficiência de órgão) através de mediadores inflamatórios que atuam no hipotálamo. Mas a ingestão também cai por barreiras mecânicas e funcionais. A disfagia e a odinofagia levam o doente a evitar a alimentação por dificuldade ou dor a engolir, e obrigam a pensar em patologia esofágica, neuromuscular ou oncológica. Os problemas dentários, próteses mal adaptadas, ausência de peças, dor oral ou xerostomia, limitam a mastigação e restringem a dieta a alimentos moles e pobres, com perda progressiva.

A esfera psiquiátrica e cognitiva pesa fortemente nesta via. A depressão reduz o apetite e o interesse pela comida, sendo das causas mais subestimadas no idoso. A demência compromete a iniciativa de comer, a memória das refeições e, em fases avançadas, a própria capacidade de deglutir com segurança. O isolamento social e a perda de autonomia atuam de forma silenciosa: quem vive só, tem mobilidade reduzida ou dificuldade económica deixa de cozinhar e de fazer refeições estruturadas, e emagrece por privação, não por doença orgânica. O álcool, ao fornecer calorias vazias e suprimir o apetite por alimentos, também contribui.

Má-absorção ou perda de nutrientes

Aqui o doente pode até comer o suficiente, mas o organismo não aproveita os nutrientes ou perde-os. A pista clássica é a discrepância entre ingestão preservada e perda de peso, frequentemente com sintomas digestivos como esteatorreia, diarreia crónica, flatulência ou distensão.

A doença celíaca lesa a mucosa do intestino delgado e compromete a absorção, podendo manifestar-se de forma frustre no adulto, apenas com anemia e perda ponderal. A insuficiência pancreática exócrina, na sequência de pancreatite crónica (muitas vezes alcoólica) ou de neoplasia do pâncreas, priva o intestino das enzimas necessárias à digestão de gorduras e proteínas, com esteatorreia e perda marcada. A doença inflamatória intestinal, doença de Crohn e colite ulcerosa, combina inflamação, má-absorção e por vezes redução da ingestão por dor pós-prandial. Outras causas incluem o sobrecrescimento bacteriano, a doença do intestino curto e a enteropatia perdedora de proteínas.

Existe ainda uma forma de perda que não passa pelo intestino: a perda urinária de calorias na glicosúria da diabetes mellitus descompensada. Quando a glicemia ultrapassa o limiar renal, perde-se glicose na urina, e essa perda energética, somada à diurese osmótica e ao catabolismo por défice de insulina, explica a perda de peso típica da diabetes de novo ou mal controlada, sobretudo no tipo 1. É um exemplo de perda metabólica de substrato que coexiste, neste caso, com aumento da ingestão (a polifagia clássica).

Aumento do gasto metabólico

Nesta via, o doente come normalmente, ou até mais, mas gasta energia em excesso. O estado é tipicamente hipermetabólico ou hipercatabólico.

O exemplo paradigmático é o hipertiroidismo, em que o excesso de hormona tiroideia acelera o metabolismo basal e provoca perda de peso apesar de apetite aumentado, acompanhada de taquicardia, tremor, intolerância ao calor e nervosismo. No idoso pode apresentar-se de forma atípica (hipertiroidismo apático), apenas com emagrecimento e fibrilhação auricular. O feocromocitoma, mais raro, gera hipermetabolismo por excesso de catecolaminas.

As doenças crónicas avançadas consomem energia de forma persistente. A insuficiência cardíaca em fase adiantada produz caquexia cardíaca, com aumento do trabalho respiratório e cardíaco, congestão intestinal que prejudica a absorção e estado inflamatório. A DPOC e a insuficiência respiratória crónica elevam o gasto energético em repouso pelo esforço aumentado dos músculos respiratórios, ao mesmo tempo que a dispneia dificulta as refeições. A infeção crónica, como a tuberculose ou a infeção VIH avançada, mantém um estado catabólico febril prolongado. Estas situações sobrepõem-se em larga medida com a caquexia, abordada a seguir.

Combinação de vias e o conceito de caquexia

Na prática, os mecanismos somam-se. O doente oncológico é o exemplo mais claro: tem anorexia (ingestão reduzida), pode ter obstrução ou má-absorção consoante a localização do tumor, e tem um estado hipercatabólico induzido pelo próprio tumor. A perda resulta da conjugação das três vias, e por isso é tão profunda e tão refratária.

A caquexia é precisamente o ponto onde estas vias convergem num quadro distinto e grave. Não é simples desnutrição por jejum. É uma síndrome metabólica inflamatória, em que citocinas pró-inflamatórias (entre elas o TNF-alfa, classicamente designado caquectina, a IL-1 e a IL-6) e fatores tumorais alteram o metabolismo de forma sistémica. O resultado é a perda preferencial de massa muscular esquelética, com ou sem perda de massa gorda, acompanhada de anorexia, astenia e resistência à anabolização.

A característica que define a caquexia, e que tem implicações terapêuticas centrais, é que não se corrige apenas com aumento do aporte calórico. Ao contrário da inanição pura, em que dar comida reverte a perda, na caquexia o estado inflamatório mantém o catabolismo muscular mesmo com nutrição adequada. Daí que a suplementação nutricional isolada, embora útil como suporte, não reverta o quadro; é preciso tratar a doença de base que sustenta a inflamação. A caquexia surge no cancro, mas também na insuficiência cardíaca, na DPOC, na doença renal crónica, na cirrose e em infeções crónicas, e a sua presença marca sempre pior prognóstico.

Síntese das vias

A tabela liga cada via fisiopatológica às causas mais prováveis e à pista clínica que ajuda a identificá-la na anamnese.

Via fisiopatológicaCausas mais prováveisPista clínica orientadora
Redução da ingestãoAnorexia de doença sistémica, disfagia/odinofagia, problemas dentários, depressão, demência, isolamento social, álcoolApetite ou ingestão diminuídos; barreira mecânica a engolir; contexto psicossocial ou cognitivo
Má-absorção / perdaDoença celíaca, insuficiência pancreática, doença inflamatória intestinal, sobrecrescimento bacteriano; glicosúria na diabetesIngestão preservada com perda de peso; esteatorreia, diarreia, distensão; na diabetes, poliúria e polidipsia
Aumento do gastoHipertiroidismo, feocromocitoma, caquexia neoplásica, infeção crónica (TB, VIH), insuficiência cardíaca/respiratória avançadaEstado hipermetabólico: apetite mantido ou aumentado com perda; taquicardia, tremor, febre, suores, dispneia
CombinaçãoNeoplasia, doença crónica de órgão em fase avançadaVárias vias coexistem; quadro profundo e refratário; presença de caquexia

Identificar a via predominante não substitui o diagnóstico etiológico, mas estrutura-o. Um doente que come bem e emagrece com taquicardia e tremor pede estudo da tiroide; um doente com esteatorreia e ingestão mantida pede investigação digestiva de má-absorção; um doente idoso que vive só e perdeu o apetite pede tanto rastreio de depressão e avaliação social como exclusão de causa orgânica. A leitura fisiopatológica é o que transforma uma queixa inespecífica num plano de investigação dirigido.

Causas de emagrecimento involuntário, por mecanismo ↓ Ingestão • Anorexia (doença sistémica) • Disfagia / odinofagia • Depressão • Demência • Problemas de dentição • Isolamento social, pobreza • Fármacos anorexigéneos Má-absorção / perda • Doença celíaca • Insuficiência pancreática • Doença inflamatória intestinal • Sobrecrescimento bacteriano • Glicosúria (diabetes não controlada) ↑ Gasto metabólico • Hipertiroidismo • Caquexia neoplásica • Infeção crónica (TB, VIH) • Insuficiência cardíaca ou respiratória avançada • Feocromocitoma (raro) Multifatorial • Neoplasia (↓ ingestão + caquexia) • Idoso (vários "D") • Doença crónica avançada • Perturbação do comportamento alimentar A neoplasia representa cerca de 25% dos casos. É o diagnóstico a não falhar; daí o rastreio oncológico apropriado à idade fazer parte do estudo inicial.
Esquema original InovaQB.

Avaliação diagnóstica

O emagrecimento involuntário clinicamente significativo define-se como a perda de mais de 5% do peso corporal habitual em 6 a 12 meses, sem que o doente o tenha procurado por dieta, exercício ou outra intenção. É um sinal de alarme transversal: aumenta a mortalidade independentemente da causa de base e obriga a uma abordagem estruturada. O raciocínio diagnóstico tem três tempos: provar que a perda é real, deixar a clínica orientar a hipótese, e só depois pedir exames. Pedir baterias indiscriminadas antes de pensar gasta recursos e gera achados incidentais que confundem.

Primeiro: confirmar que a perda é real

Antes de investigar, há que demonstrar que houve mesmo perda de peso. O relato do doente é frequentemente inexato, e "a roupa anda mais larga" não chega. Procurar peso documentado em registos clínicos anteriores, no cartão de saúde, em pesagens de farmácia ou em consultas prévias, e calcular a percentagem perdida sobre o peso habitual. Quando não há registo, a corroboração por um familiar ou a mudança objetiva no tamanho da roupa e do cinto têm algum valor, mas mantém-se a incerteza.

Em cerca de um quarto a um terço dos casos que se queixam de emagrecimento, não se confirma perda real quando se procuram pesos objetivos. Distinguir três situações:

  • Perda real involuntária: o alvo da investigação.
  • Perda voluntária esquecida ou negada: alteração de dieta, aumento de atividade, restrição por sintomas digestivos que o doente não associou.
  • Pseudo-perda: a balança desce mas não há perda de massa. A causa mais comum é a resolução de edema (após otimização de insuficiência cardíaca, diurético, melhoria de síndrome nefrótico ou hepatopatia). Aqui a descida do peso é boa notícia e não exige caça à neoplasia.

Confirmada a perda real e involuntária, prossegue-se. Se não se confirma, reavaliar com pesos seriados em vez de lançar exames.

A história e o exame são o motor

A anamnese e o exame físico completos, sozinhos, orientam ou estabelecem o diagnóstico na maioria dos doentes, e definem que exames fazem sentido. Não há atalho que os substitua.

O primeiro eixo da história é o apetite, porque divide o diferencial em dois grandes grupos:

  • Apetite reduzido (anorexia): aponta para doença oncológica, infeção crónica, doença inflamatória sistémica, insuficiência de órgão (cardíaca, renal, hepática, respiratória), depressão e outras causas psiquiátricas, ou efeito de fármacos.
  • Apetite preservado ou aumentado com perda de peso: sugere um estado de catabolismo aumentado ou perda de calorias. Pensar em hipertiroidismo, diabetes mal controlada (glicosúria), má-absorção (esteatorreia, doença celíaca, insuficiência pancreática, doença inflamatória intestinal) e, em jovens, feocromocitoma. A presença de bom apetite com perda ponderal é um discriminador clínico forte.

Depois, uma revisão por aparelhos e sistemas dirigida a pistas:

  • Digestivo: disfagia, odinofagia, dor abdominal, alteração do trânsito, sangue nas fezes, vómitos, saciedade precoce.
  • Respiratório: tosse arrastada, hemoptises, dispneia, sudação noturna e febre (tuberculose, neoplasia do pulmão).
  • Geniturinário: hematúria, sintomas miccionais.
  • Constitucional: febre, suores noturnos, astenia, prurido, adenopatias palpáveis pelo doente.

Não esquecer os domínios que escapam ao reflexo de pedir TC:

  • Fármacos e substâncias: revisão exaustiva. Metformina, inibidores SGLT2 e agonistas GLP-1, levotiroxina em excesso, estimulantes, ISRS, anticolinesterásicos, quimioterápicos, opioides (obstipação e anorexia), polimedicação no idoso. Álcool, tabaco, drogas ilícitas.
  • Humor e cognição: rastrear depressão, ansiedade e perturbação do comportamento alimentar. No idoso, demência leva a esquecimento das refeições.
  • Contexto social e funcional: isolamento, pobreza e insegurança alimentar, luto, dependência para fazer compras ou cozinhar, dificuldade de acesso a alimentos.
  • Boca e deglutição: próteses mal adaptadas, xerostomia, candidíase, mau estado dentário, disfagia. Causa subvalorizada de baixa ingestão, sobretudo no idoso.

O exame físico procura sinais de doença orgânica e sinais de alarme:

  • Sinais vitais, peso e cálculo do IMC; febre.
  • Massas e organomegalias: tiroide, mama, abdómen, fígado, baço.
  • Adenopatias em todos os territórios; nódulo de Virchow (supraclavicular esquerdo).
  • Pele e mucosas: palidez, icterícia, lesões sugestivas de doença sistémica, sinais de hipertiroidismo (tremor, taquicardia, retração palpebral).
  • Toque retal com pesquisa de sangue; observação da cavidade oral.
  • Exame mental e avaliação do estado nutricional e da massa muscular.

A presença de sinais de alarme (massa palpável, adenopatias, sangue digestivo, disfagia progressiva, febre persistente, suores noturnos) reorienta de imediato para investigação dirigida e urgente do órgão suspeito.

Estudo inicial dirigido (não indiscriminado)

Quando a história e o exame não fecham o diagnóstico, faz-se um estudo de primeira linha racional, amplo o suficiente para apanhar as causas frequentes mas sem a dispersão da imagem de corpo inteiro. Uma primeira linha razoável inclui:

ExameO que procura
Hemograma completoAnemia (perda digestiva, doença crónica, neoplasia), citopenias, leucocitose, eosinofilia
Bioquímica com função renalInsuficiência renal, desidratação, distúrbios metabólicos
Função hepática (transamínases, FA, bilirrubina, albumina)Hepatopatia, colestase, estado nutricional (albumina baixa)
Glicemia e HbA1cDiabetes mal controlada
TSH (com T4 livre se alterada)Hipertiroidismo (apetite preservado), hipotiroidismo
PCR e/ou VSInflamação, infeção, neoplasia oculta (marcadores inespecíficos mas úteis)
IonogramaDistúrbios eletrolíticos, pistas endócrinas
LDHElevada em linfoma e algumas neoplasias
Sumário de urinaProteinúria, hematúria, glicosúria, infeção
Serologia VIH (conforme o risco)Infeção por VIH, sobretudo se fatores de risco
Radiografia de tóraxNeoplasia do pulmão, tuberculose, adenopatias mediastínicas

A este painel acrescenta-se o rastreio oncológico apropriado à idade e ao sexo, atualizado segundo os programas em vigor. Não substituir o rastreio populacional por exames aleatórios:

  • Cólon e reto: pesquisa de sangue oculto nas fezes e/ou colonoscopia, sobretudo se anemia ferropénica, alteração do trânsito ou idade de rastreio.
  • Mama: mamografia na mulher na faixa etária de rastreio.
  • Colo do útero: rastreio citológico/HPV conforme a idade.
  • Próstata: discussão de PSA conforme o caso e idade.

A escolha de exames adicionais segue as pistas: anemia ferropénica num homem ou numa mulher pós-menopausa obriga a estudo endoscópico alto e baixo; transamínases alteradas pedem ecografia abdominal; sintomas dispépticos persistentes justificam endoscopia digestiva alta. Os marcadores tumorais séricos não são ferramenta de rastreio inicial às cegas, têm baixa especificidade e geram falsos positivos.

Se o estudo inicial e o rastreio forem negativos

Este é o cenário mais importante de gerir bem, porque é onde o reflexo de "pedir mais exames" causa mais dano. Princípio central: na ausência de sinais de alarme, com estudo inicial e rastreio oncológico adequados à idade negativos, a vigilância ativa (reavaliar em 3 a 6 meses) é preferível à imagem exaustiva e indiscriminada. A TC de corpo inteiro de baixo rendimento gera achados incidentais, ansiedade, biópsias desnecessárias e custos sem melhorar o prognóstico. Uma neoplasia oculta que escapa a uma avaliação inicial cuidada raramente fica indetetável por muito tempo: torna-se aparente na reavaliação, com novos sintomas ou sinais.

A vigilância ativa não é passividade. Implica:

  • Pesos seriados documentados e registo de sintomas novos.
  • Repetir focos da história e do exame em cada visita; um sintoma que estava ausente pode emergir e fechar o diagnóstico.
  • Baixo limiar para investigar de imediato qualquer sinal de alarme que surja no intervalo.

Em paralelo, reconsiderar causas não-orgânicas e do contexto, frequentes e tratáveis:

  • Depressão: causa muito comum de emagrecimento involuntário, sobretudo no idoso, e potencialmente reversível. Rastrear ativamente (anedonia, humor deprimido, instrumentos validados) sempre que a investigação orgânica é negativa. Não assumir doença oculta antes de excluir causa psiquiátrica.
  • Causas sociais e funcionais: insegurança alimentar, isolamento, dificuldade de acesso a alimentos, problemas de dentição. São corrigíveis e muitas vezes a verdadeira explicação.

No idoso, distinguir o emagrecimento de duas entidades sobrepostas mas distintas:

  • Sarcopenia: perda de massa e força musculares ligada à idade, que pode ocorrer sem perda ponderal significativa e sem doença oculta.
  • Fragilidade: síndrome com perda de peso involuntária, fadiga, fraqueza, lentificação da marcha e baixa atividade. Justifica avaliação geriátrica global, otimização nutricional e funcional, e não uma caça infrutífera à neoplasia.

Em síntese operacional do percurso: confirmar a perda → deixar a clínica orientar → estudo de primeira linha + rastreio etário → se negativo e sem alarme, vigiar a 3-6 meses, rastreando depressão e contexto, em vez de imagiologia indiscriminada.

Emagrecimento involuntário 1. Confirmar que a perda é real peso documentado; significativo se > 5% em 6 a 12 meses; excluir pseudo-perda 2. História e exame completos (o motor) o apetite divide: reduzido → doença/neoplasia/depressão; mantido → tiroide, diabetes, má-absorção 3. Estudo inicial dirigido + rastreio oncológico por idade Hemograma, bioquímica (função renal e hepática), glicemia/HbA1c, TSH, PCR/VS, sumário de urina, LDH; VIH e radiografia de tórax conforme o risco; colonoscopia / sangue oculto quando indicado. Resultado? Causa identificada ou sinal de alarme Investigação dirigida (imagem, endoscopia, biópsia) e tratar a causa. Alarme: massa, adenopatias, sangue nas fezes, anemia, sintomas focais. Tudo negativo e sem alarme Vigilância ativa: reavaliar e pesar a 3 a 6 meses. A imagem exaustiva e indiscriminada tem baixo rendimento. Reinvestigar só se surgir algo novo.
Esquema original InovaQB.

Abordagem terapêutica

O emagrecimento involuntário não é uma doença, é um sinal. O tratamento eficaz depende quase sempre de identificar e tratar o que o está a causar. Tudo o resto (suporte nutricional, estimulantes do apetite) é coadjuvante e não substitui o diagnóstico etiológico.

Tratar a causa

A intervenção central é tratar a doença subjacente. Antes de pensar em suplementos ou estimulantes do apetite, é preciso ter um diagnóstico ou uma hipótese de trabalho sólida. As grandes categorias a esclarecer são:

  • Oncológica: tumores sólidos e neoplasias hematológicas. O tratamento dirigido (cirurgia, quimioterapia, radioterapia) é o que tem maior probabilidade de reverter a perda ponderal, sobretudo se instituído antes de instalada a caquexia.
  • Endócrina/metabólica: hipertiroidismo, diabetes mal controlada, insuficiência suprarrenal. Normalizar a função (antitiroideus, otimização glicémica, corticoterapia de substituição) tende a recuperar peso rapidamente.
  • Gastrointestinal: doença péptica, doença inflamatória intestinal, doença celíaca, insuficiência pancreática, disfagia obstrutiva. Tratar a doença de base e corrigir a malabsorção (dieta sem glúten, enzimas pancreáticas) resolve o problema na maioria dos casos.
  • Infeciosa/inflamatória crónica: tuberculose, VIH, endocardite, doenças do tecido conjuntivo. O emagrecimento melhora com o controlo da doença.
  • Psiquiátrica: depressão, ansiedade, perturbações do comportamento alimentar, abuso de substâncias. Frequentemente subvalorizada, é uma das causas mais prevalentes, sobretudo no idoso.

Quando a causa é tratável, o ganho ponderal segue o controlo da doença. Insistir em suporte nutricional sem tratar a montante é gastar recursos com pouco retorno.

Corrigir os fatores reversíveis (sobretudo no idoso)

No idoso o emagrecimento é quase sempre multifatorial e muitos dos fatores são corrigíveis sem grande complexidade. A soma de pequenas correções costuma ter mais impacto do que qualquer fármaco, por isso a revisão deve ser sistemática. Pontos a rever:

  • Fármacos anorexigéneos: rever a medicação e suspender ou substituir o que estiver a comprometer o apetite ou a causar náuseas, disgeusia ou xerostomia. Suspeitos habituais: digoxina, metformina, ISRS, opióides, anticolinérgicos, alguns antibióticos. A polifarmácia por si só reduz a ingestão.
  • Depressão: rastrear ativamente e tratar. É uma causa frequente de anorexia e perda ponderal no idoso e responde bem a intervenção.
  • Dentição e próteses: cáries, edentulismo, próteses mal ajustadas e candidíase oral limitam fisicamente a alimentação. Encaminhar para medicina dentária resolve um obstáculo concreto.
  • Disfagia: avaliar e tratar; pode obrigar a adaptar texturas e a envolver terapia da fala.
  • Isolamento social e acesso a alimentos: pessoas que comem sozinhas, com baixos rendimentos ou com mobilidade reduzida ingerem menos. Apoio social, entrega de refeições e a presença de companhia às refeições têm efeito real.
  • Otimizar a ingestão: refeições fracionadas e mais frequentes, aumento da densidade calórica dos pratos e respeito pelas preferências alimentares do doente. Pequenas adaptações práticas são mais sustentáveis do que dietas rígidas.

A tabela seguinte resume cenários frequentes e a conduta de primeira linha.

CenárioConduta de primeira linha
Idoso polimedicado com anorexiaRever medicação; suspender/substituir fármacos anorexigéneos; rastrear depressão
Próteses mal ajustadas / má dentiçãoReferenciar a medicina dentária; adaptar texturas entretanto
Disgeusia/xerostomia por fármacosIdentificar fármaco responsável; cuidados orais; ajustar terapêutica
DisfagiaAvaliar mecanismo; adaptar texturas; terapia da fala; tratar causa
Isolamento social / acesso difícil a comidaApoio social, entrega de refeições, companhia às refeições
Ingestão insuficiente sem causa orgânica majorRefeições fracionadas, densidade calórica, suplementos orais
DepressãoAntidepressivo + psicoterapia; reavaliar peso e apetite
Hipertiroidismo / diabetes descompensadaTratar a doença endócrina; o peso recupera com o controlo
Malabsorção (celíaca, insuf. pancreática)Dieta sem glúten / enzimas pancreáticas; corrigir défices
Neoplasia com caquexiaTratar a doença; abordagem multimodal; nutrição não reverte isoladamente

Suporte nutricional

Quando a ingestão continua insuficiente apesar de corrigidos os fatores reversíveis, escala-se o suporte de forma gradual:

  1. Aconselhamento dietético: primeira medida. Aumentar densidade calórica e proteica, fracionar refeições, reforçar alimentos bem tolerados e do agrado do doente.
  2. Suplementos nutricionais orais: hipercalóricos e hiperproteicos, entre refeições para não cortar o apetite às refeições principais. Demonstram ganho ponderal modesto mas útil em doentes selecionados.
  3. Nutrição entérica por sonda: reservada a casos selecionados com trato gastrointestinal funcionante mas ingestão oral persistentemente inadequada (por exemplo, disfagia neurológica grave). A decisão pesa prognóstico, objetivos de cuidados e a vontade do doente.
  4. Nutrição parentérica: apenas quando o trato gastrointestinal não é utilizável. Comporta mais riscos e indicações restritas.

Os estimulantes do apetite têm papel limitado. Opções como progestativos (acetato de megestrol) ou corticosteroides podem aumentar o apetite e o peso, mas o ganho é sobretudo de massa gorda e de água, sem benefício claro na funcionalidade ou na sobrevivência, e à custa de efeitos adversos relevantes (tromboembolismo com os progestativos, efeitos catabólicos e metabólicos com corticoterapia prolongada). Não substituem o tratamento da causa e o seu uso deve ser ponderado caso a caso, sobretudo em fim de vida ou quando todas as outras medidas falharam.

Caquexia

A caquexia, particularmente a caquexia neoplásica, é uma síndrome metabólica distinta da subnutrição simples. Há inflamação sistémica e catabolismo proteico acelerado, pelo que o aporte calórico isolado não reverte a perda de massa muscular. Dar mais calorias a um doente caquético não recupera o músculo perdido.

A abordagem é multimodal e dirigida à doença: controlo da doença de base sempre que possível, suporte nutricional adequado (sem expectativa de reversão completa), atenção a sintomas que limitam a ingestão (náuseas, dor, obstipação, mucosite) e, quando indicado, exercício físico para preservar massa magra. Em fase avançada, os objetivos deslocam-se do ganho ponderal para o conforto e a qualidade de vida, e impor metas calóricas agressivas pode ser fútil e gerar sofrimento. A comunicação com o doente e a família sobre expectativas realistas faz parte do tratamento.

Referências

  1. Loscalzo J, Fauci A, Kasper D, et al., editores. Harrison's Principles of Internal Medicine. 21.ª ed. Nova Iorque: McGraw-Hill; 2022 (perda de peso involuntária; abordagem ao doente).
  2. Gaddey HL, Holder KK. Unintentional Weight Loss in Older Adults. Am Fam Physician. 2021;104(1):34-40.
  3. Wong CJ. Involuntary weight loss. Med Clin North Am. 2014;98(3):625-643.
  4. UpToDate (consultado em 2026): Approach to the patient with unintentional weight loss.

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