Abordagem ao doente com diarreia ou obstipação
Atualizado em 18 de julho de 2026 · 23 perguntas neste tema
A diarreia e a obstipação são queixas muito comuns, e a abordagem certa começa por classificar e por separar o benigno do que exige investigação. Na diarreia, distingue a aguda (quase sempre infeciosa e autolimitada, sem necessidade de estudo) da crónica (mais de 4 semanas, que obriga a investigar), e reconhece o tipo (osmótica, secretora, inflamatória, esteatorreia). Na obstipação, aplica os critérios de Roma IV e separa a funcional da secundária (rever sempre os fármacos, sobretudo opióides). O fio condutor do diagnóstico são os sinais de alarme (perda de peso, sangue nas fezes, anemia, início após os 50 anos, sintomas noturnos, história familiar), que mandam fazer colonoscopia. No tratamento, o pilar da diarreia aguda é a reidratação oral, com antibiótico reservado a casos selecionados (e a evitar na suspeita de E. coli produtora de toxina Shiga, pelo risco de síndrome hemolítico-urémico); no Clostridioides difficile, a fidaxomicina ou a vancomicina oral são primeira linha e o transplante de microbiota fecal trata a recorrência; na obstipação, estilo de vida mais laxante osmótico (PEG) em primeira linha.
Mecanismos
Compreender o mecanismo subjacente é o que transforma uma queixa inespecífica num diagnóstico dirigido. O intestino delgado e o cólon processam diariamente cerca de 9 litros de fluido (ingerido mais secreções endógenas), absorvendo mais de 98%, de modo que apenas 100-200 mL chegam às fezes. Pequenas perturbações no balanço entre absorção e secreção, ou no tempo de contacto com a mucosa, traduzem-se em diarreia. A obstipação, no extremo oposto, resulta de trânsito demasiado lento, de falha na expulsão, ou de obstáculo mecânico. Distinguir estes mecanismos permite prever o comportamento clínico e escolher os exames certos.
Mecanismos da diarreia
Diarreia osmótica. Um soluto pouco ou nada absorvível permanece no lúmen e retém água por gradiente osmótico, aumentando o conteúdo líquido das fezes. O traço definidor é a relação com a ingestão: suspende-se o aporte do soluto (jejum) e a diarreia cessa ou melhora nitidamente. Laboratorialmente, o gap osmótico fecal está aumentado, tipicamente > 100 mOsm/kg (valor normal: 50-100 mOsm/kg; na secretora fica < 50 mOsm/kg), calculado como 290 − 2 × (Na⁺ + K⁺ fecais); o gap alto reflete a presença de osmoles não medidos (o soluto não absorvido). Causas paradigmáticas: deficiência de lactase (lactose não hidrolisada fermenta e retém água), ingestão de laxantes osmóticos (magnésio, sulfatos, fosfatos, lactulose, polietilenoglicol) e álcoois de açúcar (sorbitol, manitol) presentes em pastilhas e produtos "sem açúcar".
Diarreia secretora. O enterócito é estimulado a secretar ativamente iões (cloro e bicarbonato) para o lúmen, arrastando água, ou tem a absorção de sódio bloqueada. Ao contrário da osmótica, persiste durante o jejum porque a secreção não depende da ingestão, e o volume é caracteristicamente elevado (pode ultrapassar 1 litro por dia). O gap osmótico fecal é baixo (a diarreia é essencialmente água e eletrólitos, sem osmoles não medidos). Os mediadores atuam por vias de segundo mensageiro (AMPc, GMPc, cálcio). Causas: enterotoxinas bacterianas (a toxina da cólera ativa a adenilciclase de forma irreversível; E. coli enterotoxigénica), tumores produtores de secretagogos (VIPoma com a tríade diarreia aquosa, hipocaliemia e acloridria; gastrinoma; carcinoide; carcinoma medular da tiroide), ácidos biliares que escapam à reabsorção ileal e estimulam a secreção cólica (diarreia por ácidos biliares, frequente após colecistectomia ou ressecção ileal).
Diarreia inflamatória (exsudativa). A lesão da mucosa, por inflamação ou destruição do epitélio, compromete a absorção e provoca exsudação de proteínas plasmáticas, sangue e leucócitos para o lúmen. Clinicamente traduz-se em dejeções de pequeno volume, frequentes, com sangue e leucócitos, acompanhadas de febre, dor e tenesmo. O achado de leucócitos fecais, lactoferrina ou calprotectina confirma o componente inflamatório e ajuda a distinguir de causas funcionais. Causas: doença inflamatória intestinal (colite ulcerosa, doença de Crohn), infeções invasivas ou citotóxicas (Shigella, Salmonella, Campylobacter, E. coli enterohemorrágica, C. difficile, Entamoeba histolytica), colite isquémica e enterite por radiação.
Diarreia disabsortiva/esteatorreia. Resulta de falha na assimilação dos nutrientes, por dois mecanismos que importa separar. Na má-digestão, falta a quebra intraluminal: insuficiência pancreática exócrina (sem lipase, a gordura não é hidrolisada, como na pancreatite crónica ou fibrose quística) ou défice de sais biliares (sem micelização da gordura, como na colestase ou no sobrecrescimento bacteriano que desconjuga os sais). Na má-absorção, a digestão ocorre mas a mucosa lesada não capta os produtos (doença celíaca com atrofia das vilosidades, doença de Whipple, isquémia, síndrome do intestino curto). O resultado comum é a esteatorreia: fezes volumosas, pálidas, gordurosas e que flutuam, com perda ponderal e carências de vitaminas lipossolúveis. Componentes osmóticos somam-se (hidratos de carbono não absorvidos fermentam).
Dismotilidade. Sem lesão estrutural nem desequilíbrio secretor primário, uma alteração do tempo de trânsito por si só causa diarreia. O trânsito acelerado reduz o tempo de contacto com a mucosa e diminui a absorção. É o mecanismo dominante na síndrome do intestino irritável (com componente de hipersensibilidade visceral) e em estados de hipertiroidismo (aceleração global do trânsito), bem como na neuropatia autonómica diabética e em estados pós-vagotomia.
A tabela seguinte sintetiza as pistas que orientam cada mecanismo:
| Mecanismo | Pista clínica/laboratorial | Exemplo |
|---|---|---|
| Osmótica | Melhora com jejum; gap osmótico fecal alto | Intolerância à lactose, laxantes osmóticos |
| Secretora | Persiste em jejum; alto volume; gap baixo | Cólera, VIPoma, ácidos biliares |
| Inflamatória | Sangue + leucócitos fecais; febre, tenesmo | Doença inflamatória intestinal, Shigella |
| Disabsortiva/esteatorreia | Fezes gordurosas que flutuam; perda ponderal; carências | Doença celíaca, insuficiência pancreática |
| Dismotilidade | Sem lesão estrutural; trânsito acelerado | Intestino irritável, hipertiroidismo |
Na prática, os mecanismos coexistem com frequência (por exemplo, a má-absorção de hidratos de carbono é simultaneamente disabsortiva e osmótica), mas identificar o mecanismo dominante é o que dirige a investigação.
Mecanismos da obstipação
Na obstipação primária reconhecem-se três fenótipos fisiopatológicos, que se diferenciam por testes funcionais (tempo de trânsito cólico, manometria anorretal, teste de expulsão do balão):
Trânsito lento (inércia cólica). A propulsão cólica está reduzida por hipomotilidade ou por anomalia da rede neuronal entérica, com diminuição das contrações propulsivas de alta amplitude. As fezes permanecem mais tempo no cólon, perdem água e endurecem. Os doentes referem poucas dejeções e ausência de urgência. O tempo de trânsito cólico (marcadores radiopacos) está prolongado.
Distúrbio defecatório (dissinergia do pavimento pélvico). O problema está na expulsão, não no trânsito proximal. Em vez de relaxar, o esfíncter anal externo e o músculo puborrectal contraem-se paradoxalmente durante o esforço, ou falta a força propulsiva coordenada, impedindo a saída das fezes. O doente esforça-se intensamente, sente bloqueio anorretal e recorre a manobras digitais. Diagnostica-se por manometria anorretal e pelo teste de expulsão do balão (incapacidade de expelir o balão em tempo normal sugere dissinergia). É uma causa frequentemente subdiagnosticada e responde melhor a biofeedback do que a laxantes.
Causas secundárias. Devem ser excluídas ativamente, sobretudo quando a obstipação é de início recente ou se acompanha de sinais de alarme:
- Fármacos, com destaque para os opióides, que reduzem a motilidade propulsiva e aumentam a absorção de água (obstipação induzida por opióides, quase universal e dose-dependente); também anticolinérgicos, antagonistas do cálcio, ferro, antiácidos com alumínio;
- Endócrino-metabólicas: hipotiroidismo (lentificação do trânsito), hipercalcemia, hipocaliemia, diabetes (neuropatia autonómica), gravidez (progesterona);
- Neurológicas: doença de Parkinson, esclerose múltipla, lesão medular, doença de Hirschsprung (em idade jovem);
- Obstrução mecânica: neoplasia colorretal, a excluir obrigatoriamente perante obstipação de novo, alteração do calibre das fezes, sangue ou perda ponderal, sobretudo em doentes com mais de 50 anos; também estenoses inflamatórias e vólvulo.
A tabela resume os mecanismos da obstipação:
| Mecanismo | Pista | Exemplo |
|---|---|---|
| Trânsito lento | Poucas dejeções, sem urgência; trânsito cólico prolongado | Inércia cólica |
| Distúrbio defecatório | Esforço intenso, bloqueio anorretal, manobras digitais | Dissinergia do pavimento pélvico |
| Secundária (fármacos) | Relação temporal com início do fármaco | Opióides, anticolinérgicos |
| Secundária (metabólica) | Sintomas sistémicos associados | Hipotiroidismo, hipercalcemia |
| Secundária (obstrutiva) | Início recente, sinais de alarme, calibre alterado | Neoplasia colorretal |
Avaliação diagnóstica
A primeira decisão é distinguir o quadro agudo do crónico, porque muda tudo o que vem a seguir. Diarreia aguda dura menos de 14 dias e é, na esmagadora maioria, infeciosa e autolimitada. Crónica passa as 4 semanas e exige raciocínio mecanicista. Entre os 14 e os 28 dias falamos de diarreia persistente, território de parasitas e de causas pós-infeciosas. Para a obstipação, o ponto de partida é separar a forma primária (funcional) das causas secundárias, que muitas vezes se resolvem com uma revisão da medicação.
Diarreia aguda
A maioria não precisa de qualquer investigação. O doente com fezes aquosas, sem febre alta nem sangue, bom estado geral e sem fatores de risco, trata-se com hidratação e medidas de suporte. Pedir exames a toda a gente é caro, atrasa nada e raramente muda a conduta.
Investiga-se quando há sinais de gravidade ou contexto de risco:
- Desidratação clínica (hipotensão, taquicardia, oligúria, mucosas secas).
- Febre alta (≥ 38,5 °C).
- Sangue nas fezes (disenteria), com ou sem muco.
- Duração superior a 7 dias sem melhoria.
- Imunodepressão (VIH, quimioterapia, imunossupressores, transplante).
- Idade avançada ou comorbilidades significativas.
- Surto comunitário ou antibióticos recentes (suspeita de C. difficile).
- Dor abdominal intensa em doente com mais de 50 anos.
Quando há indicação, os exames orientam-se pela clínica:
| Exame | Quando pedir | O que procura |
|---|---|---|
| Coprocultura | Disenteria, febre alta, imunodepressão, viagem | Salmonella, Shigella, Campylobacter, E. coli invasivo |
| Toxina de C. difficile (GDH + toxina, ou PCR) | Antibióticos recentes, hospitalização, surto | Clostridioides difficile |
| Pesquisa de ovos e parasitas (3 amostras) | Diarreia persistente, viagem, água não tratada | Giardia, Entamoeba, Cryptosporidium |
| Leucócitos/lactoferrina/calprotectina fecal | Suspeita de causa inflamatória vs. não inflamatória | Inflamação da mucosa |
| Ionograma, função renal | Sinais de desidratação | Distúrbios hidroeletrolíticos, lesão renal aguda |
A disenteria (sangue e muco, febre, tenesmo, dor) aponta para mecanismo invasivo ou inflamatório e justifica coprocultura. As fezes aquosas de grande volume, sem sangue, sugerem mecanismo enterotoxígeno ou viral, em que a investigação microbiológica rende pouco. Um detalhe que muda a conduta: na suspeita de síndrome hemolítico-urémico (sobretudo criança com colite hemorrágica por E. coli O157:H7), os antibióticos estão contraindicados porque aumentam o risco de complicação.
Diarreia crónica
O objetivo central é separar causa orgânica de causa funcional. A síndrome do intestino irritável é o diagnóstico funcional mais comum, mas é um diagnóstico que só se assume depois de excluir patologia orgânica nos doentes com sinais de alarme. A favor de funcional pesam: idade jovem, sintomas com anos de evolução estáveis, alívio com a dejeção, ausência de despertar noturno, exame e analítica normais.
Os sinais de alarme obrigam a investigar e, na prática, a fazer colonoscopia:
- Perda de peso não intencional.
- Sangue nas fezes (visível ou oculto).
- Anemia ferropénica.
- Início após os 50 anos.
- Diarreia noturna (acorda o doente).
- História familiar de neoplasia colorretal ou de doença inflamatória intestinal.
- Massa abdominal ou retal palpável, febre, marcadores inflamatórios elevados.
A diarreia noturna merece destaque porque a diarreia funcional respeita o sono. Acordar para evacuar aponta quase sempre para causa orgânica (inflamatória, secretora ou má-absortiva).
Confirmados ou não os sinais de alarme, os exames seguem o mecanismo suspeito. É aqui que a investigação fica eficiente em vez de dispersa.
| Exame | O que avalia | Interpretação |
|---|---|---|
| Calprotectina fecal | Inflamação da mucosa intestinal | Elevada na doença inflamatória intestinal; normal/baixa orienta para causa funcional. Separa inflamatório de funcional |
| Gap osmótico fecal | Diarreia osmótica vs. secretora | Alto (> 100 mOsm/kg) → osmótica; baixo (< 50 mOsm/kg) → secretora |
| Elastase fecal | Função pancreática exócrina | Baixa → insuficiência pancreática |
| Gordura nas fezes (qualitativa/quantitativa) | Má-absorção de gorduras (esteatorreia) | Aumentada na má-absorção e na insuficiência pancreática |
| Serologia de doença celíaca (anti-transglutaminase IgA + IgA total) | Enteropatia por glúten | Positiva → biópsia duodenal por endoscopia alta |
| TSH | Função tiroideia | Baixa (hipertiroidismo) acelera o trânsito |
O gap osmótico fecal calcula-se por 290 − 2 × (Na⁺ + K⁺ fecais). A lógica é simples: na diarreia osmótica há um soluto não absorvido a reter água (lactose num intolerante, laxantes osmóticos, sorbitol), o gap é alto e a diarreia pára com o jejum. Na diarreia secretora há secreção ativa de eletrólitos (toxinas, ácidos biliares, tumores neuroendócrinos), o gap é baixo, o volume é grande e mantém-se em jejum. Esta resposta ao jejum é um dado clínico que vale tanto como o cálculo.
A calprotectina fecal é a peça que mais rende na triagem inicial. É um marcador de neutrófilos na mucosa: sobe na doença inflamatória intestinal e mantém-se baixa na síndrome do intestino irritável. Uma calprotectina normal num doente jovem sem sinais de alarme apoia fortemente causa funcional e evita endoscopias desnecessárias; uma calprotectina elevada empurra para ileocolonoscopia com biópsias.
A sequência prática na diarreia crónica é: history e exame para fenotipar (inflamatória, aquosa/secretora, gorda/má-absortiva), analítica de base (hemograma, ferro, função renal e hepática, PCR, TSH, celíaca), exames de fezes dirigidos (calprotectina, gap osmótico, elastase, gordura), e colonoscopia quando há sinais de alarme ou suspeita de doença inflamatória. Na esteatorreia confirmada, a investigação prossegue para a causa (pancreática, doença celíaca, sobrecrescimento bacteriano, doença do intestino delgado).
Obstipação
Antes de chamar primária a uma obstipação, excluir causas secundárias e rever a medicação. Opióides, anticolinérgicos, antagonistas do cálcio, ferro, antidepressivos e antiácidos com cálcio ou alumínio são responsáveis frequentes e reversíveis. Entre as causas metabólicas e endócrinas contam-se o hipotiroidismo, a hipercalcemia, a hipocaliemia e a diabetes; entre as neurológicas, a doença de Parkinson, a esclerose múltipla e lesões medulares.
A avaliação inicial pede uma analítica simples orientada: hemograma, cálcio, potássio, glicemia e TSH. O toque retal faz parte do exame e dá informação imediata sobre tónus do esfíncter, presença de fecaloma, sangue ou massa.
Os sinais de alarme obrigam a colonoscopia para excluir neoplasia:
- Perda de peso não intencional.
- Sangue nas fezes ou anemia ferropénica.
- Início recente no idoso (mudança do padrão habitual após os 50 anos).
- História familiar de cancro colorretal.
- Obstipação refratária ao tratamento, sintomas obstrutivos, alteração súbita do calibre das fezes.
Na ausência de sinais de alarme, num doente mais jovem, começa-se por tratamento empírico com fibra, hidratação e laxantes osmóticos, sem necessidade de imagiologia ou endoscopia à partida.
Quando a obstipação é refratária e as causas secundárias foram excluídas, o passo seguinte é caracterizar o mecanismo com testes de função anorretal. Distinguem-se três tipos: trânsito normal (o mais comum), trânsito lento (inércia cólica) e distúrbio defecatório (defecação dissinérgica, em que falha a coordenação da musculatura pélvica). A distinção importa porque o distúrbio defecatório responde mal a laxantes e beneficia de biofeedback.
| Exame | O que avalia | Achado típico |
|---|---|---|
| Manometria anorretal | Pressões do esfíncter e coordenação reto-anal | Dissinergia: ausência de relaxamento ou contração paradoxal do esfíncter ao esforço |
| Teste de expulsão do balão | Capacidade de evacuar um balão insuflado no reto | Expulsão prolongada (> 1 min) sugere distúrbio defecatório |
| Estudo do tempo de trânsito cólico (marcadores radiopacos) | Velocidade do trânsito no cólon | Retenção difusa de marcadores → inércia cólica; retenção retossigmoideia → obstrução de saída |
| Defecografia | Anatomia e dinâmica da defecação | Identifica rectocelo, intussuscepção, prolapso |
O algoritmo prático é começar pela manometria anorretal e pelo teste de expulsão do balão para identificar ou excluir distúrbio defecatório; só depois, e nos casos sem dissinergia mas com queixas persistentes, avançar para o estudo do tempo de trânsito que confirma a inércia cólica. Esta ordem evita operar ou medicar no escuro um doente cujo problema real é uma defecação dissinérgica tratável com reeducação.
Prevenção
A maioria das diarreias agudas e da obstipação crónica funcional é evitável com medidas simples. A prevenção divide-se em três frentes com lógicas distintas: barrar a transmissão fecal-oral (diarreia infeciosa e do viajante), travar a pressão seletiva da antibioterapia (Clostridioides difficile) e corrigir hábitos e fármacos que predispõem à obstipação. O médico que prepara a PNA deve saber não só o que recomendar, mas também o que não fazer por rotina (ex.: antibiótico profilático no viajante saudável).
Prevenção da diarreia infeciosa e do viajante
A transmissão é fecal-oral, pelo que a higiene das mãos é a medida com maior retorno: lavagem com água e sabão após a casa de banho e antes de preparar ou ingerir alimentos. As soluções alcoólicas servem para a maioria dos agentes, mas têm limitações importantes contra esporos (ver secção do C. difficile) e contra alguns vírus não-encapsulados.
Na diarreia do viajante, que afeta uma fração substancial de quem viaja para regiões de saneamento precário, o eixo central são os cuidados com água e alimentos: beber água engarrafada ou fervida, evitar gelo de origem desconhecida, preferir alimentos bem cozinhados e servidos quentes, descascar a própria fruta e desconfiar de saladas cruas, marisco e laticínios não pasteurizados. A regra mnemónica clássica resume-o: boil it, cook it, peel it, or forget it.
A profilaxia farmacológica não está indicada por rotina. As opções, quando se justificam:
- Subsalicilato de bismuto: reduz a incidência de diarreia do viajante em cerca de 50% e pode ser oferecido a viajantes seleccionados em estadias curtas. Avisar o doente de que enegrece a língua e as fezes (efeito benigno) e que pode causar obstipação e zumbidos. Evitar em quem já toma salicilatos, com insuficiência renal, na gravidez e em crianças.
- Antibiótico profilático: reservado a doentes de alto risco (imunodeprimidos, doença inflamatória intestinal, doença renal ou cardíaca avançada, ou situações em que um episódio de diarreia teria consequências desproporcionadas). Quando indicado, o agente preferido é a rifaximina (não absorvível); as fluoroquinolonas deixaram de ser primeira linha por resistências crescentes e perfil de segurança. Nunca prescrever por rotina ao viajante saudável: o risco (resistências, efeitos adversos, selecção de C. difficile) não compensa.
A estratégia preferível na maioria é levar tratamento empírico de reserva (antibiótico para iniciar só se surgir diarreia moderada a grave) em vez de profilaxia contínua.
A vacinação cobre situações específicas: rotavírus na criança (vacina oral incluída em vários esquemas, reduz formas graves e hospitalização), cólera e febre tifoide em viajantes para zonas endémicas ou de surto consoante o destino e o perfil de risco. Não existe vacina universal para a maioria das causas bacterianas da diarreia do viajante.
Prevenção da infeção por Clostridioides difficile
A medida isolada mais eficaz é o uso criterioso de antibióticos. A antibioterapia desnecessária ou prolongada é o maior fator de risco modificável: altera a microbiota do cólon e abre espaço ao C. difficile. Os programas de gestão responsável de antibióticos reduzem a incidência, sobretudo restringindo as classes de maior risco: fluoroquinolonas, clindamicina e cefalosporinas de largo espectro. Rever sempre a indicação, o espectro e a duração de cada antibiótico, e suspender logo que possível.
No internamento, as medidas de controlo de infeção:
- Higiene das mãos com água e sabão ao cuidar de doentes com C. difficile. O álcool não é esporicida e não remove os esporos: a fricção mecânica da lavagem é que os arrasta. A preferência pela água e sabão é particularmente importante em contexto de surto ou ambiente hiperendémico.
- Isolamento de contacto do doente (quarto individual sempre que possível, bata e luvas).
- Descontaminação ambiental com agentes esporicidas (à base de cloro) das superfícies e equipamento.
- Suspender IBP e outros fármacos sem indicação clara: embora a evidência não suporte parar IBP só para prevenir C. difficile, não há razão para manter um fármaco desnecessário num doente de risco.
Prevenção da obstipação
A obstipação funcional previne-se com medidas de estilo de vida, que também são a primeira linha de tratamento:
- Fibra alimentar adequada (objetivo aproximado de 20-35 g/dia), aumentada de forma gradual para reduzir distensão e flatulência.
- Hidratação suficiente, que torna a suplementação de fibra eficaz (fibra sem líquido pode agravar a obstipação).
- Atividade física regular, que estimula a motilidade cólica.
- Bons hábitos defecatórios: não adiar o reflexo (atender prontamente à vontade), aproveitar o reflexo gastrocólico após as refeições, dar tempo sem esforço excessivo e adotar uma posição com os joelhos acima das ancas (apoio dos pés num banco), que rectifica o ângulo anorretal e facilita a evacuação.
Duas intervenções farmacológicas de prevenção são de alto rendimento:
- Rever fármacos obstipantes em qualquer doente com obstipação nova ou agravada: opióides, anticolinérgicos, antidepressivos tricíclicos, ferro oral, cálcio e antiácidos com alumínio, bloqueadores dos canais de cálcio (verapamilo), entre outros. Suspender, substituir ou ajustar quando possível.
- Laxante profilático nos opióides: em todo o doente que inicia opióides deve instituir-se um laxante desde o primeiro dia, não em SOS. A obstipação induzida por opióides não desenvolve tolerância e persiste enquanto durar o fármaco. A combinação habitual é um estimulante (senósidos, bisacodilo) com ou sem amaciador; nos casos refratários existem antagonistas opióides de ação periférica (PAMORA). O reforço de fibra isolado é insuficiente e pode até agravar.
Tabela-síntese: situação → medida de prevenção
| Situação | Medida de prevenção |
|---|---|
| Diarreia infeciosa (geral) | Higiene das mãos com água e sabão; água e alimentos seguros |
| Diarreia do viajante (risco habitual) | Cuidados alimentares; tratamento empírico de reserva; não dar profilaxia antibiótica |
| Diarreia do viajante (estadia curta seleccionada) | Considerar subsalicilato de bismuto |
| Diarreia do viajante (alto risco: imunodeprimido, DII, comorbilidade grave) | Profilaxia com rifaximina (não fluoroquinolona) |
| Criança / zonas endémicas | Vacinação: rotavírus (criança); cólera / febre tifoide consoante destino |
| Prevenção de C. difficile (comunidade e hospital) | Uso criterioso de antibióticos (restringir fluoroquinolonas, clindamicina, cefalosporinas) |
| Doente com C. difficile internado | Água e sabão (álcool não é esporicida); isolamento de contacto; limpeza esporicida |
| Obstipação funcional | Fibra + hidratação + atividade física + bons hábitos defecatórios (posição, não adiar) |
| Doente medicado com fármacos obstipantes | Rever, substituir ou ajustar o fármaco |
| Início de opióide | Laxante estimulante profilático desde o início (não em SOS) |
Abordagem terapêutica
A terapêutica organiza-se por dois eixos. Primeiro, decidir se o quadro é agudo (autolimitado na maioria dos casos) ou crónico (orientado pela causa subjacente). Segundo, separar o suporte (reidratação, correção de eletrólitos) do tratamento dirigido (antibiótico, anti-secretor, terapêutica da doença de base). Na maioria das diarreias agudas o doente melhora só com suporte e a investigação fica reservada aos sinais de alarme. Na obstipação, o erro mais comum é saltar as medidas de base e os laxantes osmóticos para chegar cedo demais aos estimulantes ou a exames invasivos.
Diarreia aguda
O pilar do tratamento é a reidratação. Na desidratação ligeira a moderada, a via preferida é oral, com soro de reidratação oral (SRO). A formulação de osmolaridade reduzida da OMS aproveita o co-transporte sódio-glicose no intestino delgado, que se mantém funcionante mesmo em diarreias secretoras intensas como a cólera. Reservar a via endovenosa para a desidratação grave, vómitos incoercíveis, choque ou incapacidade de tolerar líquidos por boca. Manter a alimentação assim que o doente tolerar, sem dietas restritivas prolongadas, e nas crianças não interromper o aleitamento.
O antibiótico empírico não é regra. A maioria das gastroenterites agudas é vírica ou bacteriana autolimitada e o antibiótico não encurta o curso, seleciona resistências e, em alguns agentes, é francamente prejudicial. Reserva-se a três cenários: disenteria febril (febre alta com sangue nas fezes, sugerindo invasão), doente grave ou imunodeprimido (incluindo idosos frágeis, doentes com VIH ou sob imunossupressão) e diarreia do viajante moderada a grave. Quando se opta por tratar empiricamente, uma fluoroquinolona ou a azitromicina são as escolhas habituais; a azitromicina é preferível no Sudeste Asiático pela resistência do Campylobacter às quinolonas.
Há duas armadilhas que importa fixar. A primeira: evitar antibiótico e evitar loperamida na suspeita de E. coli produtora de toxina Shiga (EHEC), tipicamente a apresentação de diarreia com sangue sem febre alta, muitas vezes após carne mal passada. Tanto o antibiótico como o antimotilidade aumentam o risco de síndrome hemolítico-urémico (SHU), ao favorecer a libertação e a absorção da toxina. Perante diarreia sanguinolenta sem agente identificado, a postura segura é não dar antibiótico empírico nem loperamida e aguardar a coprocultura. A segunda: a loperamida está contra-indicada na disenteria e na colite (febre com fezes com sangue), porque retardar o trânsito prolonga a exposição à mucosa invadida e pode precipitar megacólon. Nas diarreias aquosas não invasivas e sem febre, a loperamida é segura como sintomático no adulto, útil por exemplo para permitir uma viagem ou uma reunião. O racecadotrilo (anti-secretor) é uma alternativa que não atua na motilidade.
Clostridioides difficile
Primeiro gesto: suspender o antibiótico causal sempre que clinicamente possível, e rever inibidores da bomba de protões e outros fármacos dispensáveis. Em casos ligeiros, esta medida isolada pode resolver, mas raramente se espera de braços cruzados perante doença confirmada.
O paradigma do tratamento mudou. A fidaxomicina ou a vancomicina oral são hoje primeira linha; o metronidazol passou a alternativa de recurso, usado apenas quando os anteriores não estão disponíveis ou em quadros não graves sem outra opção. A fidaxomicina, um macrólido de absorção sistémica mínima, associa-se a menos recorrências do que a vancomicina por poupar a microbiota do cólon, sendo o custo a principal limitação. A vancomicina oral mantém-se opção robusta e amplamente acessível. Em ambos os casos a via é oral (ou por sonda); a vancomicina endovenosa não atinge o lúmen do cólon e não trata a infeção.
Na doença fulminante (hipotensão, íleo, megacólon tóxico) intensifica-se com vancomicina oral em dose alta, juntando metronidazol endovenoso, e pede-se avaliação cirúrgica precoce (colectomia ou ileostomia de desvio podem salvar a vida).
Para a infeção recorrente, o transplante de microbiota fecal (FMT) é o tratamento de eleição a partir da segunda recorrência, com taxas de cura muito elevadas ao restaurar a flora cólica que resiste à colonização por C. difficile. O bezlotoxumab, anticorpo monoclonal contra a toxina B, usa-se como adjuvante (não substitui o antibiótico) para reduzir recorrências em doentes de alto risco, como idosos, imunodeprimidos ou com episódios prévios.
Diarreia crónica
A regra é tratar a causa, depois de a investigação a ter identificado. A terapêutica sintomática (loperamida, resinas sequestradoras de ácidos biliares) é coadjuvante, nunca substitui o diagnóstico.
| Causa | Terapêutica dirigida |
|---|---|
| Doença celíaca | Dieta sem glúten estrita e mantida, com correção de carências (ferro, folato, vitamina D) |
| Insuficiência pancreática exócrina | Enzimas pancreáticas às refeições, com vitaminas lipossolúveis |
| Doença inflamatória intestinal | Terapêutica dirigida por gravidade e extensão: aminossalicilatos, corticoides em crise, imunomoduladores e biológicos na manutenção |
| Síndrome do intestino irritável | Dieta (ensaio de redução de FODMAP), fibra solúvel, antiespasmódicos; na variante com diarreia, loperamida ou eluxadolina |
| Diarreia por ácidos biliares | Resina sequestradora (colestiramina) |
| Sobrecrescimento bacteriano | Antibiótico dirigido (rifaximina) e correção da causa subjacente |
Na doença inflamatória intestinal, vale a pena lembrar que a loperamida e outros antimotilidade devem ser evitados na crise grave de colite pelo risco de megacólon tóxico, à semelhança do que se passa na colite infeciosa.
Obstipação
A abordagem é escalonada. A base são as medidas de estilo de vida: aumento gradual da ingestão de fibra (idealmente alimentar, com líquidos suficientes), atividade física e atenção ao reflexo gastro-cólico, com tempo na casa de banho após as refeições. A fibra é mais útil na obstipação ligeira sem perturbação do trânsito ou da defecação; no trânsito lento pode até agravar a distensão e os gases.
Quando as medidas de base não chegam, o laxante osmótico é a primeira linha farmacológica, e o PEG (macrogol) é o agente de eleição, com a melhor evidência de eficácia e segurança a longo prazo. Atua retendo água no lúmen, amolece as fezes e é bem tolerado em uso prolongado. A lactulose é alternativa razoável mas causa mais flatulência e distensão. O laxante estimulante (bisacodilo, senósidos) entra em reforço, em SOS ou em curso curto, quando o osmótico isolado é insuficiente; o receio antigo de dano cólico com uso crónico não se confirmou para os estimulantes modernos, mas mantém-se como segunda linha.
Na obstipação crónica refratária aos laxantes, os secretagogos são o passo seguinte: linaclotido e lubiprostona aumentam a secreção de líquido para o lúmen, e a prucaloprida (agonista 5-HT4) estimula a motilidade cólica. São particularmente úteis quando o problema dominante é o trânsito lento.
A obstipação por opióides tem fisiopatologia própria, mediada por receptores opióides no intestino, e responde mal aos laxantes habituais. Aqui usam-se os antagonistas opióides de ação periférica (PAMORA), como a metilnaltrexona ou o naloxegol, que bloqueiam o efeito intestinal do opióide sem reverter a analgesia central.
Dois cenários exigem reconhecimento à parte. O distúrbio defecatório (defecação dissinérgica, com incapacidade de coordenar a musculatura do pavimento pélvico) responde mal a laxantes e tem como tratamento de eleição o biofeedback, pelo que vale a pena suspeitar dele perante esforço excessivo, sensação de evacuação incompleta ou necessidade de manobras digitais. E a impactação fecal, sobretudo no idoso e no acamado, trata-se primeiro com desimpactação (enema ou desobstrução manual) antes de iniciar o regime oral de manutenção; dar laxante osmótico oral por cima de um fecaloma sem o resolver pode precipitar dor, vómitos ou mesmo perfuração.
| Cenário | Conduta de 1.ª linha | Armadilha / nota |
|---|---|---|
| Diarreia aguda com desidratação ligeira-moderada | Reidratação oral com SRO | Não restringir alimentação; só passar a EV se vómitos, choque ou intolerância oral |
| Diarreia aguda aquosa, sem febre nem sangue | Suporte; loperamida como sintomático opcional | Antibiótico empírico não está indicado na maioria |
| Disenteria febril / doente grave ou imunodeprimido | Antibiótico empírico (fluoroquinolona ou azitromicina) | Evitar loperamida na disenteria pelo risco de megacólon |
| Diarreia sanguinolenta, suspeita de EHEC | Suporte e reidratação; aguardar coprocultura | Não dar antibiótico nem loperamida (risco de SHU) |
| C. difficile, primeiro episódio | Fidaxomicina ou vancomicina oral + suspender antibiótico causal | Metronidazol é só recurso; vancomicina EV não trata |
| C. difficile recorrente | Transplante de microbiota fecal | Bezlotoxumab é adjuvante, não substitui o antibiótico |
| Diarreia crónica | Tratar a causa (sem glúten, enzimas, terapêutica da DII) | Sintomático não dispensa diagnóstico |
| Obstipação funcional | Fibra e medidas de estilo de vida; PEG (macrogol) em 1.ª linha | Estimulante só em reforço; excluir alarme antes de cronificar |
| Obstipação refratária | Secretagogo (linaclotido, prucaloprida) | Suspeitar de distúrbio defecatório → biofeedback |
| Obstipação induzida por opióides | PAMORA (metilnaltrexona) | Laxantes habituais respondem mal |
| Impactação fecal | Desimpactação (enema/manual) primeiro | Não iniciar oral por cima do fecaloma |
Referências
- Loscalzo J, Fauci A, Kasper D, et al., editores. Harrison's Principles of Internal Medicine. 21.ª ed. Nova Iorque: McGraw-Hill; 2022 (diarreia e obstipação; abordagem ao doente).
- Riddle MS, DuPont HL, Connor BA. ACG Clinical Guideline: Diagnosis, Treatment, and Prevention of Acute Diarrheal Infections in Adults. Am J Gastroenterol. 2016;111(5):602-622.
- Johnson S, Lavergne V, Skinner AM, et al. Clinical Practice Guideline by the IDSA and SHEA: 2021 Focused Update Guidelines on Management of Clostridioides difficile Infection in Adults. Clin Infect Dis. 2021;73(5):e1029-e1044.
- Lacy BE, Pimentel M, Brenner DM, et al. ACG Clinical Guideline: Management of Irritable Bowel Syndrome. Am J Gastroenterol. 2021;116(1):17-44.
- UpToDate (consultado em 2026): Approach to the adult with acute diarrhea in resource-rich settings; Chronic diarrhea in adults; Management of chronic constipation in adults.
23 perguntas sobre Abordagem ao doente com diarreia ou obstipação intestinal
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