Tromboembolismo venoso e tromboembolismo pulmonar
Atualizado em 27 de setembro de 2026 · 26 perguntas neste tema
O tromboembolismo venoso é uma doença com duas faces: a trombose venosa profunda, quase sempre dos membros inferiores, e a embolia pulmonar, em que um fragmento desse trombo se aloja na circulação pulmonar. Trata-se com os mesmos fármacos e decide-se a duração com os mesmos critérios. Nasce da tríade de Virchow (estase, lesão endotelial e hipercoagulabilidade), e os contextos de maior risco são a cirurgia major, o internamento por doença aguda, a neoplasia, a gravidez e o puerpério e os estrogénios; em cerca de 40% das embolias não se encontra fator predisponente.
A clínica é inespecífica: dor e edema unilateral da perna na trombose; dispneia inexplicada, dor pleurítica, síncope ou hemoptise na embolia. O diagnóstico segue sempre a mesma ordem. Primeiro estima-se a probabilidade clínica; se não for alta, os D-dímeros negativos excluem a doença; se for alta, ou se os D-dímeros vierem elevados, confirma-se por imagem, com ecografia de compressão na perna e angiotomografia no tórax. No doente em choque a ordem muda: o ecocardiograma à cabeceira decide.
A embolia estratifica-se pelo risco de morte precoce, e não pelo tamanho do trombo: alto risco é instabilidade hemodinâmica e pede reperfusão, em regra trombólise sistémica; o risco intermédio divide-se em alto e baixo pela disfunção do ventrículo direito e pela troponina, e trata-se com anticoagulação, deixando a trombólise para o resgate; o baixo risco pode tratar-se em ambulatório.
A base do tratamento é a anticoagulação durante pelo menos 3 meses, hoje com anticoagulantes orais diretos na maioria dos doentes. A duração depois disso decide-se pelo tipo de fator de risco: para aos 3 meses quando houve um fator transitório major, prolonga-se quando não houve fator identificável, quando ele persiste ou quando há recorrência. O que não se pode falhar: a heparina de baixo peso molecular na grávida, o antagonista da vitamina K na síndrome antifosfolipídica triplo positiva, a tromboflebite superficial perto da junção safeno-femoral tratada como trombose profunda, a dispneia que persiste meses depois da embolia investigada para hipertensão pulmonar tromboembólica crónica, e sobretudo a tromboprofilaxia de quem é internado.
- Trombose venosa profunda (TVP) é a formação de trombo numa veia do sistema profundo. Com a embolia pulmonar forma o tromboembolismo venoso (TEV): são manifestações da mesma doença.
- Classifica-se pelo nível anatómico, que decide o prognóstico e a conduta:
- proximal: poplítea, femoral, ilíaca ou cava; é a que emboliza e anticoagula-se sempre;
- distal (isolada da perna): veias tibiais, peroneais e musculares (soleares e gemelares).
- A trombose da perna começa habitualmente na barriga da perna e pode propagar-se à poplítea, à femoral e à ilíaca. A distal isolada corresponde a cerca de 30% dos casos e a iliofemoral a cerca de 30%.
- A do membro inferior é cerca de 10 vezes mais frequente do que a do membro superior.
- A iliofemoral é mais frequente à esquerda, porque a artéria ilíaca comum direita cruza e comprime a veia ilíaca comum esquerda (síndrome de May-Thurner).
Tríade de Virchow
- Estase: imobilização, internamento, viagem longa, insuficiência cardíaca, compressão venosa extrínseca (gravidez, tumores, síndrome de May-Thurner).
- Lesão da parede venosa: cirurgia, traumatismo, cateteres venosos centrais, trombose prévia.
- Hipercoagulabilidade: neoplasia, gravidez e puerpério, estrogénios, trombofilias hereditárias e síndrome antifosfolipídica.
- A cirurgia major reúne os três braços, e é por isso o contexto de maior risco.
- A inflamação é hoje vista como desencadeante central: doença inflamatória intestinal, artrite reumatoide, psoríase, pneumonia, sépsis, transfusão e agentes estimulantes da eritropoiese associam-se a TEV.
Do trombo aos sintomas
- O trombo venoso cresce em ambiente de estase e baixa tensão de oxigénio, com plaquetas ativadas e redes extracelulares de neutrófilos que amplificam a produção de trombina.
- A obstrução aumenta a pressão venosa e, com a inflamação da parede, dá dor, edema e empastamento.
- A recanalização acontece em cerca de 80% das veias da perna e só em 20% dos segmentos ilíacos. A obstrução residual e a destruição das válvulas produzem refluxo e hipertensão venosa: é o substrato da síndrome pós-trombótica.
Fatores de risco e recorrência
O risco de recidiva depois de parar a anticoagulação depende do fator que desencadeou o episódio:
| risco de recidiva depois de 3 meses | exemplos |
|---|---|
| Baixo (menos de 3% por ano) | fator transitório major: cirurgia major ou traumatismo |
| Intermédio (3 a 8% por ano) | fator transitório minor (cirurgia minor, internamento por doença médica aguda, gravidez ou estrogénios, voo longo); fator persistente não maligno (doença inflamatória intestinal, doença autoimune); nenhum fator identificável |
| Alto (mais de 8% por ano) | neoplasia ativa, síndrome antifosfolipídica, episódio prévio sem fator transitório major |
- O sintoma mais comum é uma dor tipo cãibra na barriga da perna que persiste e se intensifica ao longo de dias, com edema unilateral, calor e empastamento. O exame pode mostrar só dor ligeira à palpação.
- Até 80% das tromboses podem ter a dor como única manifestação; a distal pode ser assintomática.
- A iliofemoral dá edema marcado de toda a perna desde a virilha, dor na coxa e circulação colateral superficial; se começa nas ilíacas, pode haver dor lombar.
- Flegmasia cerulea dolens: forma rara e extrema de trombose iliofemoral ou iliocava que ocupa todas as veias profundas, superficiais e colaterais em poucas horas. Dor isquémica súbita, perna tensa e cianosada, choque; complica-se de embolia maciça, síndrome compartimental e gangrena venosa.
Probabilidade clínica: índice de Wells para TVP
| item | pontos |
|---|---|
| Neoplasia ativa (tratamento nos últimos 6 meses ou paliativo) | 1 |
| Paralisia, parésia ou imobilização gessada recente do membro inferior | 1 |
| Acamado 3 dias ou mais, ou cirurgia major nas últimas 12 semanas | 1 |
| Dor localizada ao longo do trajeto venoso profundo | 1 |
| Edema de todo o membro | 1 |
| Perímetro da perna 3 cm ou mais acima do lado assintomático (10 cm abaixo da tuberosidade tibial) | 1 |
| Edema com godet limitado à perna sintomática | 1 |
| Veias superficiais colaterais não varicosas | 1 |
| TVP prévia documentada | 1 |
| Diagnóstico alternativo pelo menos tão provável como TVP | menos 2 |
- Dois níveis: 2 pontos ou mais, TVP provável; menos de 2, improvável.
- Três níveis: 0 ou menos, baixa; 1 a 2, intermédia; 3 ou mais, alta.
- O índice sozinho não confirma nem exclui: mesmo na categoria baixa a probabilidade chega a 5%.
D-dímeros
- Sensibilidade de cerca de 95% e valor preditivo negativo de 99 a 100%, mas especificidade de 35 a 55%: sobem na infeção, no cancro, na gravidez, no pós-operatório e com a idade.
- Com TVP improvável, D-dímeros normais excluem e dispensam imagem. Com TVP provável, vai-se diretamente à ecografia.
- Podem ser falsamente negativos sob anticoagulação, na trombose distal e quando os sintomas têm mais de 2 a 3 semanas.
Ecografia
- É o primeiro exame de imagem. O critério é a veia não colapsar à compressão com a sonda; ver o trombo reforça.
- Ecografia proximal de 2 ou 3 pontos (femoral comum, poplítea): rápida e reprodutível, mas não vê a perna. Negativa com suspeita mantida, repete-se em 5 a 7 dias.
- Ecografia de todo o membro: conclusiva num só exame e deteta a distal, mas exige mais experiência e pode diagnosticar tromboses distais de pouco significado. É a recomendada quando se suspeita de trombose da perna.
- Ecografia inconclusiva ou impossível na suspeita de trombose proximal ou ilíaca: angio-TC venosa, ressonância venosa ou flebografia.
Diagnóstico diferencial
| entidade | o que a distingue |
|---|---|
| Rutura de quisto de Baker | dor súbita e intensa na região poplítea e posterior da perna |
| Celulite | febre, arrepios, eritema bem delimitado |
| Estiramento ou lesão muscular | contexto de esforço ou traumatismo |
| Síndrome pós-trombótica ou insuficiência venosa agudizada | história longa, edema difuso, alterações cutâneas |
| Tromboflebite superficial | cordão palpável, doloroso e eritematoso num trajeto superficial |
| Linfedema | edema crónico, sem dor aguda |
Depois do diagnóstico
- Na TVP sem fator identificável, basta a história, o exame objetivo e os rastreios oncológicos próprios da idade e do sexo; o rastreio extenso de neoplasia oculta não se recomenda.
- Não se procura embolia pulmonar sem sintomas.
TVP proximal
- Anticoagulação durante pelo menos 3 meses, com anticoagulante oral direto (DOAC) na maioria; a escolha, as doses e a duração são as mesmas da embolia pulmonar.
- A maioria trata-se em ambulatório.
- Compressão precoce com meia ou ligadura de 30 a 40 mmHg, nas primeiras 24 horas, alivia a dor e o edema.
TVP distal isolada
- Sem sintomas graves nem fatores de risco de extensão: pode optar-se por ecografia seriada durante 2 semanas em vez de anticoagular. Se o trombo não progride, não se anticoagula; se progride na perna, sugere-se anticoagular; se chega às veias proximais, anticoagula-se.
- Com sintomas graves ou fatores de risco de extensão, anticoagula-se durante 3 meses. São fatores de risco de extensão: D-dímeros elevados sem outra causa, trombose extensa (mais de 5 cm, várias veias ou mais de 7 mm de diâmetro), trombo perto das veias proximais, ausência de fator reversível, neoplasia ativa, TEV prévio e doente internado.
- Trombose limitada às veias musculares (soleares, gemelares) e risco hemorrágico favorecem a vigilância.
Remoção precoce do trombo
- Trombólise por cateter, trombectomia mecânica ou farmacomecânica: não se fazem por rotina; na maioria das TVP a anticoagulação isolada é o tratamento.
- Consideram-se em casos selecionados de TVP iliofemoral sintomática; não na femoropoplítea nem na distal.
- Flegmasia cerulea dolens: heparina em dose terapêutica imediata, elevação do membro e fluidos; as estratégias agressivas (trombólise por cateter, trombectomia cirúrgica, fasciotomia) podem reduzir amputação e morte, que chegam a 50% e 40% com anticoagulação isolada.
Filtro da veia cava
- Recomenda-se, temporário, na TVP proximal com contraindicação absoluta à anticoagulação (sobretudo no primeiro mês). Não se usa por rotina em quem pode ser anticoagulado.
- Embolia pulmonar: é a complicação que mata, sobretudo a partir da trombose proximal.
- Síndrome pós-trombótica: dor, peso e edema da perna agravados pelo ortostatismo, hiperpigmentação, induração, e na forma grave úlcera venosa (em regra maleolar). Os primeiros sinais surgem nos 3 meses seguintes e podem agravar durante anos.
- Recorrência: depende do tipo de fator de risco (baixa depois de cirurgia major; alta com neoplasia ou síndrome antifosfolipídica). Depois de uma TVP a recidiva tende a ser TVP; depois de uma embolia tende a ser embolia, e a letalidade da recidiva é então o dobro.
- Hemorragia da anticoagulação.
- Depois de uma TVP o risco de enfarte e de AVC também aumenta: TEV e aterotrombose partilham fatores de risco e inflamação.
- Tromboembolismo pulmonar (TEP) ou embolia pulmonar é a obstrução da artéria pulmonar ou dos seus ramos por trombo vindo, na maioria, das veias profundas dos membros inferiores. A ecografia mostra TVP em 30 a 50% dos doentes com embolia; muitos não a têm porque o trombo já migrou todo.
- É uma causa major de morte cardiovascular. Pela gravidade à apresentação: alto risco em 5 a 10% dos casos, risco intermédio em 20 a 25%, baixo risco em 65 a 75%, com prognóstico excelente.
- Em cerca de 40% não se encontra fator predisponente.
- Embolias não trombóticas: gordura (fratura de bacia ou ossos longos), líquido amniótico, ar, tumor, cimento ortopédico, e partículas injetadas por utilizadores de drogas intravenosas.
O ventrículo direito
- A pressão na artéria pulmonar sobe quando mais de 30 a 50% do leito arterial está ocluído. À obstrução soma-se vasoconstrição por tromboxano A2 e serotonina libertados pelas plaquetas.
- O ventrículo direito, de parede fina e não pré-condicionado, não consegue gerar uma pressão média na pulmonar acima de cerca de 40 mmHg: dilata, e a sua contração prolonga-se.
- O septo abaula para a esquerda, o enchimento do ventrículo esquerdo cai e com ele o débito: choque obstrutivo.
- A tensão da parede comprime a coronária direita e a hipotensão reduz a pressão de perfusão: isquemia e microenfarte do ventrículo direito, que libertam troponina. O estiramento liberta peptídeos natriuréticos.
- A inflamação do miocárdio nas primeiras 48 horas pode explicar a descompensação secundária 24 a 48 horas depois, num doente que parecia estável.
- A insuficiência ventricular direita aguda é a causa principal de morte.
As trocas gasosas
- A hipoxemia vem sobretudo do desequilíbrio ventilação e perfusão: zonas de fluxo reduzido nas artérias obstruídas e zonas de hiperfluxo nos capilares restantes, com o baixo débito a dessaturar o sangue venoso misto.
- Aumenta o espaço morto e o gradiente alvéolo-arterial; a hiperventilação reflexa dá hipocapnia.
- Em cerca de um terço, o shunt direito-esquerdo por foramen oval patente agrava a hipoxemia e permite embolia paradoxal e AVC.
O enfarte pulmonar
- Êmbolos pequenos e distais, perto da pleura, provocam hemorragia alveolar: dor pleurítica, hemoptise e derrame pequeno, com pouco efeito nas trocas. Doem muito e comprometem pouco.
- Êmbolos centrais dão dispneia súbita, síncope e colapso, muitas vezes sem dor pleurítica; na embolia central a dor pode ser anginosa, por isquemia do ventrículo direito.
- O sintoma mais comum é dispneia inexplicada, súbita e intensa na embolia central, ligeira e transitória na periférica. Na insuficiência cardíaca ou doença pulmonar prévias, o agravamento da dispneia pode ser o único sinal.
- Dor torácica pleurítica (enfarte pulmonar), síncope ou pré-síncope, hemoptise. A síncope associa-se a instabilidade e disfunção do ventrículo direito.
- Taquipneia e taquicardia; sinais de TVP; nas formas graves turgescência jugular, hipotensão, cianose e choque.
- Hipoxemia é frequente, mas até 40% têm saturação normal e 20% têm gradiente alvéolo-arterial normal.
- Instabilidade hemodinâmica, que define o alto risco, é uma de três apresentações:
| apresentação | definição |
|---|---|
| Paragem cardiorrespiratória | necessidade de reanimação |
| Choque obstrutivo | pressão sistólica abaixo de 90 mmHg, ou vasopressores para a manter em 90 ou mais, com hipoperfusão de órgão (alteração do estado de consciência, pele fria e húmida, oligúria, lactato elevado) |
| Hipotensão persistente | pressão sistólica abaixo de 90 mmHg ou queda de 40 mmHg ou mais, durante mais de 15 minutos, sem arritmia nova, hipovolemia ou sépsis |
Doente instável
- A probabilidade é em regra alta, e o diferencial é tamponamento, síndrome coronária aguda, dissecção da aorta, disfunção valvular aguda e hipovolemia.
- Ecocardiograma transtorácico à cabeceira primeiro. Sem sinais de sobrecarga do ventrículo direito, a embolia está praticamente excluída como causa da instabilidade.
- Com sobrecarga do ventrículo direito: se a angio-TC estiver imediatamente disponível e o doente a tolerar, confirma-se nela; se não, a disfunção do ventrículo direito basta para reperfundir. Trombos no coração direito reforçam a decisão.
- A ecografia venosa à cabeceira pode mostrar TVP; confirma-se por angio-TC assim que o doente estabiliza.
Doente estável: probabilidade clínica
Índice de Wells para embolia pulmonar:
| item | pontos |
|---|---|
| Sinais ou sintomas de TVP | 3 |
| Embolia mais provável do que qualquer diagnóstico alternativo | 3 |
| Frequência cardíaca acima de 100 por minuto | 1,5 |
| Imobilização mais de 3 dias ou cirurgia nas últimas 4 semanas | 1,5 |
| TVP ou embolia prévias | 1,5 |
| Hemoptise | 1 |
| Neoplasia | 1 |
- Acima de 4 pontos a embolia é provável e vai-se à imagem; 4 ou menos é improvável e pedem-se D-dímeros.
- Nas categorias de probabilidade baixa, intermédia e alta, a embolia confirma-se em cerca de 10%, 30% e 65%.
Critérios que dispensam investigação
Na probabilidade clínica baixa, e só nela, se estiverem todos presentes os oito critérios de exclusão (PERC, do inglês pulmonary embolism rule-out criteria), não se pede nada: idade abaixo de 50 anos; pulso abaixo de 100 por minuto; saturação acima de 94%; sem edema unilateral da perna; sem hemoptise; sem traumatismo ou cirurgia recentes; sem TEV prévio; sem estrogénios orais.
D-dímeros
- Doseamento quantitativo por ensaio imunoenzimático (ELISA) com sensibilidade de 95% ou mais; negativo na probabilidade baixa ou intermédia (ou improvável) exclui, com risco de TEV a 3 meses inferior a 1%.
- Não se pedem na probabilidade alta: o valor preditivo negativo é baixo.
- Limiar ajustado à idade acima dos 50 anos: idade multiplicada por 10 µg/L (70 anos, 700 µg/L), em vez de 500. Nos 75 anos ou mais, fez subir a exclusão sem imagem de 6,4% para 30%, sem falsos negativos adicionais. Validado na suspeita de embolia.
- Pouco úteis em internados, no cancro, na gravidez e na inflamação, onde quase sempre estão elevados.
Imagem
- Angio-TC pulmonar: exame de primeira linha. É diagnóstica com trombo segmentar ou mais proximal. Mostra também o ventrículo direito (relação ventrículo direito e ventrículo esquerdo acima de 1,0 é disfunção) e diagnósticos alternativos. Negativa com probabilidade alta é rara; pode ponderar-se outro exame antes de desistir.
- Cintigrafia de ventilação e perfusão: normal exclui; alta probabilidade (defeitos de perfusão segmentares com ventilação normal) confirma na maioria; muitas são não diagnósticas. Prefere-se na alergia ao contraste, na insuficiência renal grave, na grávida e no jovem com radiografia normal, por menos radiação.
- Ecografia venosa: TVP proximal num doente com suspeita de embolia basta para tratar.
- Ecocardiograma: não é exame diagnóstico no estável (valor preditivo negativo de 40 a 50%). Sinais sugestivos: sinal de McConnell (acinesia da parede livre com ápex poupado), tempo de aceleração pulmonar abaixo de 60 ms com gradiente tricúspide abaixo de 60 mmHg, trombos móveis no coração direito. Gradiente tricúspide acima de 60 mmHg ou parede espessada sugerem hipertensão pulmonar crónica.
- Angiografia pulmonar invasiva: reservada à angio-TC inconclusiva ou a tratamento por cateter.
Exames complementares
- Eletrocardiograma: nas formas ligeiras, muitas vezes só taquicardia sinusal (40%). Na sobrecarga direita, inversão das ondas T de V1 a V4 (a alteração mais comum), padrão S1Q3T3 (específico mas pouco sensível), QR em V1, bloqueio de ramo direito; fibrilhação auricular. Serve sobretudo para o diagnóstico diferencial.
- Radiografia do tórax: muitas vezes normal ou inespecífica; sinais clássicos são a oligoemia focal (Westermark), a opacidade periférica em cunha de base pleural (Hampton) e a artéria pulmonar descendente direita alargada (Palla).
- Gasimetria: hipoxemia e hipocapnia.
Diagnóstico diferencial
Pneumonia, asma e DPOC agudizadas, insuficiência cardíaca, pericardite, pleurisia viral e dor musculosquelética, fratura de costela, pneumotórax, síndrome coronária aguda, dissecção da aorta, ansiedade, síncope vasovagal.
Estratificar o risco de morte precoce
- Índice de gravidade simplificado (sPESI, do inglês simplified pulmonary embolism severity index), um ponto cada: idade acima de 80 anos; neoplasia; insuficiência cardíaca ou doença pulmonar crónicas; frequência cardíaca de 110 por minuto ou mais; pressão sistólica abaixo de 100 mmHg; saturação arterial abaixo de 90%. Com 0 pontos, mortalidade a 30 dias de 1,0%; com 1 ou mais, de 10,9%.
- Disfunção do ventrículo direito no ecocardiograma ou na angio-TC.
- Troponina elevada (os peptídeos natriuréticos acrescentam informação).
| categoria | instabilidade | sPESI | ventrículo direito e troponina |
|---|---|---|---|
| Alto risco | sim | não é preciso | não é preciso |
| Intermédio-alto | não | 1 ou mais | ambos alterados |
| Intermédio-baixo | não | 1 ou mais | um alterado ou nenhum |
| Baixo | não | 0 | ambos normais |
- Com sPESI de 0 mas ventrículo direito ou troponina alterados, o doente é intermédio-baixo, e não baixo risco.
Alto risco
- Heparina não fracionada em bólus e perfusão.
- Reperfusão primária, em regra trombólise sistémica: alteplase 100 mg em 2 horas. O maior benefício é nas primeiras 48 horas, mas ainda serve até 6 a 14 dias. Custo: hemorragia grave em 9,9% e intracraniana em 1,7%.
- Se a trombólise estiver contraindicada ou falhar: embolectomia cirúrgica ou tratamento por cateter, onde houver experiência.
- Suporte: oxigénio se saturação abaixo de 90%, alto fluxo ou ventilação não invasiva de preferência à intubação (a indução e a pressão positiva podem precipitar colapso); fluidos com cautela, no máximo 500 mL, só se a pressão venosa for baixa; noradrenalina, com dobutamina se o débito for baixo; oxigenação por membrana extracorporal venoarterial em casos selecionados, como ponte.
- Na paragem atribuída a embolia, trombolisar e continuar a reanimação 60 a 90 minutos antes de parar.
| contraindicações da trombólise | |
|---|---|
| Absolutas | AVC hemorrágico ou de causa desconhecida em qualquer altura; AVC isquémico nos últimos 6 meses; neoplasia do sistema nervoso central; traumatismo major, cirurgia ou traumatismo craniano nas últimas 3 semanas; diátese hemorrágica; hemorragia ativa |
| Relativas | acidente isquémico transitório nos últimos 6 meses; anticoagulação oral; gravidez ou primeira semana pós-parto; punções não compressíveis; reanimação traumática; hipertensão refratária (sistólica acima de 180 mmHg); doença hepática avançada; endocardite infeciosa; úlcera péptica ativa |
Risco intermédio
- Anticoagulação, em internamento. A trombólise sistémica não se faz por rotina: reduz a descompensação mas aumenta a hemorragia grave e intracraniana, e não previne sequelas tardias.
- Intermédio-alto: monitorizar nas primeiras horas a dias, porque a descompensação costuma surgir nos primeiros 2 dias. Heparina de baixo peso molecular nos primeiros 2 a 3 dias antes de passar à via oral. Trombólise de resgate (ou cirurgia ou cateter) se surgir instabilidade.
Baixo risco
- Anticoagulação e alta precoce com tratamento em casa, se o risco é baixo, não há comorbilidade que obrigue a internamento e há condições para o seguimento e a medicação.
- Antes de uma alta nas primeiras 24 a 48 horas, convém excluir disfunção do ventrículo direito e trombos no coração direito.
Situações particulares
- Embolia subsegmentar isolada, sem TVP proximal e com baixo risco de recidiva: a vigilância clínica é uma alternativa à anticoagulação.
- Embolia incidental: trata-se como a sintomática.
- Filtro da cava: na contraindicação absoluta à anticoagulação ou na recorrência apesar de anticoagulação adequada; não se usa como complemento de rotina.
Morte precoce
- Por falência do ventrículo direito, e pode ser a apresentação sob a forma de morte súbita. O risco concentra-se nos primeiros dias.
Sintomas persistentes
- Cerca de metade refere dispneia, cansaço e menor tolerância ao esforço nos meses seguintes. Na maioria a causa é o descondicionamento, o excesso de peso e as comorbilidades, e não trombos residuais nem hipertensão pulmonar.
- Seguimento aos 3 a 6 meses: dispneia ou limitação funcional, sinais de recorrência, cancro e hemorragia da anticoagulação. É também o momento de decidir a duração. Não se repete a angio-TC por rotina.
Hipertensão pulmonar tromboembólica crónica (HPTEC)
- Obstrução persistente das artérias pulmonares por trombos organizados, com remodelação da microcirculação. Incidência cumulativa de 0,1 a 9,1% nos 2 anos após uma embolia sintomática, conforme as séries; 75% dos doentes têm embolia prévia conhecida.
- Fatores de risco: episódios prévios de TEV, trombos grandes na angio-TC, sinais de hipertensão pulmonar ou disfunção do ventrículo direito no diagnóstico, síndrome antifosfolipídica e fator VIII elevado, esplenectomia, shunts ventrículo-auriculares, cateteres ou pacemakers infetados, neoplasia, doenças mieloproliferativas, doença inflamatória intestinal, hipotiroidismo tratado com hormona tiroideia, grupo sanguíneo não O.
- Quando pensar: dispneia de esforço que persiste ou agrava meses depois de uma embolia; edema e hemoptise são mais comuns do que na hipertensão arterial pulmonar.
- Diagnóstico depois de pelo menos 3 meses de anticoagulação eficaz: ecocardiograma; cintigrafia de ventilação e perfusão como primeiro exame de imagem (sensibilidade de 96 a 97%, especificidade de 90 a 95%), com defeitos de perfusão sem defeito de ventilação; a angio-TC não serve sozinha para a excluir; confirmação hemodinâmica por cateterismo direito, em centro de referência.
- Tratamento: endarterectomia pulmonar (tratamento de escolha nos operáveis, mortalidade hospitalar de cerca de 4,7%, quase normaliza a hemodinâmica e pode curar); angioplastia pulmonar com balão nos inoperáveis; riociguat nos inoperáveis ou com hipertensão residual após cirurgia; anticoagulação para toda a vida.
Fases
- Inicial, a começar logo que a probabilidade seja alta ou intermédia, sem esperar pela imagem; tratamento, os primeiros 3 meses; prolongada, sem data de fim, com reavaliação periódica.
Que fármaco
| situação | escolha |
|---|---|
| Maioria dos doentes | DOAC (apixabano, rivaroxabano, edoxabano, dabigatrano) em vez de antagonista da vitamina K: eficácia não inferior e menos hemorragia major, intracraniana e fatal |
| Instabilidade, reperfusão prevista, depuração de creatinina de 30 mL/min ou menos, obesidade grave | heparina não fracionada |
| Neoplasia ativa | heparina de baixo peso molecular ou DOAC anti-Xa; heparina nas neoplasias gastrointestinais e geniturinárias |
| Gravidez e amamentação | heparina de baixo peso molecular |
| Síndrome antifosfolipídica triplo positiva ou com trombose arterial | antagonista da vitamina K (INR 2 a 3), nunca DOAC |
| Trombocitopenia induzida pela heparina | argatroban ou bivalirudina |
Doses de tratamento
| fármaco | esquema |
|---|---|
| Apixabano | 10 mg 2 vezes por dia durante 7 dias, depois 5 mg 2 vezes por dia |
| Rivaroxabano | 15 mg 2 vezes por dia durante 21 dias, depois 20 mg por dia com o jantar |
| Dabigatrano | heparina durante pelo menos 5 dias, depois 150 mg 2 vezes por dia |
| Edoxabano | heparina durante pelo menos 5 dias, depois 60 mg por dia; 30 mg com depuração de 15 a 50 mL/min, peso de 60 kg ou menos, ou inibidores potentes da glicoproteína P |
| Enoxaparina | 1 mg/kg 2 vezes por dia |
| Tinzaparina | 175 U/kg por dia |
| Heparina não fracionada | bólus de 80 U/kg e perfusão de 18 U/kg por hora, ajustada pelo tempo de tromboplastina parcial ativada |
| Varfarina | com heparina sobreposta pelo menos 5 dias e até INR de 2 a 3 em 2 dias seguidos; alvo 2,5 |
- Apixabano e rivaroxabano começam sem heparina, com dose de carga; dabigatrano e edoxabano exigem pelo menos 5 dias de heparina antes.
- Função renal: dabigatrano não se usa abaixo de 30 mL/min; apixabano e rivaroxabano com cautela entre 15 e 29 mL/min; nenhum abaixo de 15.
Quanto tempo
| fator de risco do episódio | duração |
|---|---|
| Transitório major (cirurgia major, traumatismo) | 3 meses e parar |
| Transitório minor | 3 meses; prolongar só em casos selecionados |
| Nenhum identificável | prolongada, sem data de fim, se o risco hemorrágico for baixo ou moderado |
| Persistente não maligno | prolongada, ponderando o risco hemorrágico |
| Recorrência sem fator transitório major | prolongada |
| Síndrome antifosfolipídica | prolongada, com antagonista da vitamina K |
| Neoplasia ativa | prolongada enquanto a neoplasia estiver ativa |
- Todos fazem pelo menos 3 meses; parar aos 3 a 6 meses tem a mesma recidiva do que parar aos 12 a 24.
- Na anticoagulação prolongada, depois de 6 meses, pode reduzir-se para apixabano 2,5 mg 2 vezes por dia ou rivaroxabano 10 mg por dia, salvo risco de recidiva muito alto.
- O ácido acetilsalicílico reduz a recidiva, mas menos do que o anticoagulante em dose reduzida, e não o substitui quando há indicação para prolongar.
- O risco hemorrágico reavalia-se no início e depois periodicamente (anualmente no baixo risco, cada 3 a 6 meses no alto). Fatores: idade acima de 75 anos, hemorragia prévia ou anemia, neoplasia ativa, AVC prévio, doença renal ou hepática crónicas, antiagregantes ou anti-inflamatórios, mau controlo da anticoagulação.
Hemorragia
- O risco é maior no primeiro mês. Com antagonistas da vitamina K a hemorragia major anda pelos 3% por ano; os DOAC reduzem-na em cerca de 40%.
- Hemorragia minor: suspender temporariamente, medidas locais e retomar logo que possível, porque o risco trombótico continua.
- Hemorragia major ou com risco de vida: suspender, suporte, e reverter:
| fármaco | reversão |
|---|---|
| Heparina não fracionada | protamina |
| Heparina de baixo peso molecular | protamina, que só a reverte parcialmente |
| Varfarina | concentrado de complexo protrombínico na hemorragia major; plasma fresco congelado ou vitamina K intravenosa na menos grave; vitamina K oral para INR excessivo sem hemorragia |
| Dabigatrano | idarucizumab |
| Inibidores do fator Xa | andexanet alfa |
- A decisão de retomar pesa o local da hemorragia, se a causa foi corrigida e quão recente é o TEV.
Outras
- Trombocitopenia induzida pela heparina: mais frequente com a heparina não fracionada; não ocorre com fondaparinux.
- Varfarina: centenas de interações medicamentosas e alimentares; teratogénica.
- Recorrência sob anticoagulação adequada e com boa adesão: mudar de classe, subir a heparina de baixo peso molecular ou o DOAC para dose terapêutica, ou passar a antagonista da vitamina K com alvo de INR mais alto; pensar em neoplasia e síndrome antifosfolipídica.
- Trombose de uma veia superficial, sobretudo das safenas e das suas varizes; a do membro superior associa-se em regra a cateteres e perfusões.
- Apresenta-se como cordão palpável, doloroso e eritematoso ao longo do trajeto venoso.
- Não é sempre benigna: pode estender-se ao sistema profundo pela junção safeno-femoral ou safeno-poplítea, e coexiste muitas vezes com TVP.
- Ecografia de todo o membro em todas as suspeitas no membro inferior: mede a extensão, a distância à junção com o sistema profundo e exclui TVP assintomática.
- Diferencial: celulite, linfangite, eritema nodoso, TVP.
| situação | conduta |
|---|---|
| Menos de 5 cm, sem fatores de alto risco | sem anticoagulação; anti-inflamatório, compressão, vigilância |
| 5 cm ou mais e a mais de 3 cm da junção com o sistema profundo | fondaparinux 2,5 mg por dia durante 45 dias; alternativa: heparina de baixo peso molecular em dose intermédia, ou rivaroxabano 10 mg por dia se a via parentérica não for possível |
| A 3 cm ou menos da junção safeno-femoral ou safeno-poplítea | anticoagulação em dose terapêutica, como na TVP |
| Extensão ao sistema profundo | tratar como TVP |
- Favorecem a anticoagulação: trombose extensa, acima do joelho, na grande safena, sintomas intensos, TEV ou tromboflebite prévios, neoplasia ativa, cirurgia recente. Com características de alto risco pode considerar-se anticoagulação durante 3 meses.
- A tromboflebite de perfusão não se anticoagula.
- Não se opera na fase aguda; a ablação de varizes incompetentes considera-se pelo menos 3 meses depois.
- Avaliar o risco de TEV e o risco hemorrágico em todos os internados, à entrada e sempre que a situação muda, e registá-lo. Até dois terços dos TEV estão relacionados com o internamento ou os 90 dias seguintes.
Doente médico: índice de Padua
| item | pontos |
|---|---|
| Neoplasia ativa (metástases ou quimioterapia ou radioterapia nos últimos 6 meses) | 3 |
| TEV prévio (excluindo tromboflebite superficial) | 3 |
| Mobilidade reduzida (acamado, só com idas à casa de banho, pelo menos 3 dias) | 3 |
| Trombofilia conhecida | 3 |
| Traumatismo ou cirurgia no último mês | 2 |
| Idade de 70 anos ou mais | 1 |
| Insuficiência cardíaca ou respiratória | 1 |
| Enfarte agudo do miocárdio ou AVC isquémico | 1 |
| Infeção aguda ou doença reumatológica | 1 |
| Obesidade (índice de massa corporal de 30 ou mais) | 1 |
| Tratamento hormonal em curso | 1 |
- 4 pontos ou mais: risco alto, e prescreve-se profilaxia se o risco hemorrágico o permitir.
- Heparina de baixo peso molecular uma vez por dia (enoxaparina 40 mg, dalteparina 5000 U, tinzaparina 4500 U) ou fondaparinux 2,5 mg; heparina não fracionada 5000 U 2 ou 3 vezes por dia, preferida na insuficiência renal grave.
- Contraindicam a farmacológica: úlcera gastroduodenal ativa, hemorragia major nos últimos 3 meses, plaquetas abaixo de 50 000/µL.
- Mantém-se durante o internamento; prolongar depois da alta não é rotina, porque o ganho é pequeno e a hemorragia aumenta.
Doente cirúrgico: índice de Caprini
| pontos | fatores |
|---|---|
| 1 | idade de 41 a 60 anos; cirurgia minor; índice de massa corporal de 25 ou mais; edema dos membros inferiores; varizes; gravidez ou puerpério; abortos espontâneos recorrentes; contraceção hormonal ou terapêutica hormonal de substituição; sépsis ou doença pulmonar grave, incluindo pneumonia, no último mês; doença inflamatória intestinal; doente médico acamado |
| 2 | idade de 61 a 74 anos; cirurgia artroscópica; cirurgia aberta major ou laparoscópica com mais de 45 minutos; neoplasia; acamado mais de 72 horas; imobilização gessada; cateter venoso central |
| 3 | idade de 75 anos ou mais; TEV prévio; TEV na família; fator V de Leiden; protrombina G20210A; anticoagulante lúpico; anticorpos anticardiolipina; homocisteína elevada; trombocitopenia induzida pela heparina; outra trombofilia |
| 5 | AVC no último mês; artroplastia eletiva; fratura da anca, da bacia ou da perna; lesão medular aguda no último mês |
- Risco muito baixo 0 a 1 ponto, baixo 2, moderado 3 a 4, alto 5 ou mais. A profilaxia farmacológica pondera-se no moderado e no alto.
- Na maioria começa 6 a 12 horas depois da cirurgia e mantém-se até à alta.
- Cirurgia oncológica abdominal ou pélvica com risco alto: iniciar 12 horas antes e prolongar 4 semanas.
- Cirurgia ortopédica major (artroplastia da anca e do joelho, fratura proximal do fémur): risco sempre alto, com profilaxia pelo menos 10 a 14 dias e idealmente 28 a 35. Na artroplastia: heparina de baixo peso molecular, fondaparinux, dabigatrano ou rivaroxabano; na fratura do fémur: heparina de baixo peso molecular ou fondaparinux.
- Suspender contracetivos com estrogénios e terapêutica hormonal 4 semanas antes da cirurgia eletiva, propondo alternativa.
Profilaxia mecânica
- Compressão pneumática intermitente quando a farmacológica está contraindicada por risco hemorrágico; a eficácia das meias de compressão no doente médico é incerta.
- Deambulação precoce e hidratação em todos.
Filtro da cava
- Não se usa como profilaxia primária na maioria das situações.
- O risco de TEV aumenta ao longo da gravidez e é máximo no puerpério. Somam-se: TEV prévio, obesidade, comorbilidades, fertilização in vitro, pré-eclâmpsia, morte fetal, hemorragia pós-parto e cesariana. A embolia é uma das principais causas de morte materna nos países de rendimento elevado.
- Os sintomas sobrepõem-se aos da gravidez normal, e a embolia confirma-se só em 2 a 7% das investigadas.
- D-dímeros sobem ao longo da gravidez e estão acima do limiar em quase um quarto das grávidas no terceiro trimestre. O índice de Wells e os D-dímeros isolados não se usam na suspeita de TVP na grávida.
- Suspeita de TVP: ecografia de compressão. A trombose das veias pélvicas pode escapar-lhe: com edema de toda a perna ou dor na nádega, ressonância venosa.
- Suspeita de embolia: se houver sinais de TVP, ecografia primeiro, e TVP proximal basta para tratar; senão, radiografia do tórax e depois cintigrafia de perfusão ou angio-TC com técnica de baixa dose. As duas são igualmente seguras para excluir; a dose fetal de ambas fica muito abaixo do limiar de dano (50 a 100 mSv), e o aumento do risco de cancro da mama com a angio-TC moderna é desprezível.
- A angiografia pulmonar invasiva e a angio-ressonância com gadolínio evitam-se.
- Heparina de baixo peso molecular em dose terapêutica pelo peso do início da gravidez: não atravessa a placenta.
- Antagonistas da vitamina K atravessam a placenta: embriopatia no primeiro trimestre, hemorragia fetal e descolamento de placenta no terceiro. DOAC contraindicados. Fondaparinux só se houver alergia à heparina.
- Duração: toda a gravidez, pelo menos 6 semanas depois do parto e no mínimo 3 meses no total.
- Parto: programá-lo com a equipa multidisciplinar. Anestesia do neuroeixo só 24 horas ou mais depois da última dose terapêutica. Em alto risco (embolia recente), passar a heparina não fracionada pelo menos 36 horas antes do parto e suspendê-la 4 a 6 horas antes. Heparina só 4 horas ou mais depois de retirar o cateter epidural.
- Amamentação: heparina de baixo peso molecular e varfarina podem usar-se; DOAC não.
- Embolia de alto risco: heparina não fracionada; trombólise evitada no periparto, exceto se a vida estiver em risco. Filtro da cava temporário pode considerar-se numa TVP a menos de 2 semanas do parto.
- A neoplasia ativa multiplica o risco de TEV, de recorrência e de hemorragia. Mesmo com heparina de baixo peso molecular, a recidiva anual é de 7 a 9%, contra 1,5 a 3% sem cancro.
- Escolha: heparina de baixo peso molecular ou DOAC anti-Xa (apixabano, edoxabano, rivaroxabano), com eficácia semelhante; os DOAC têm mais hemorragia nas neoplasias gastrointestinais e geniturinárias.
- Preferir heparina de baixo peso molecular: neoplasia gastrointestinal ou geniturinária, absorção oral comprometida ou vómitos, interações com a quimioterapia, trombocitopenia, insuficiência renal grave.
- Duração: pelo menos 3 a 6 meses e depois prolongada enquanto a neoplasia estiver ativa ou em tratamento, com reavaliação periódica.
- Embolia incidental no estadiamento trata-se como a sintomática.
- O filtro da cava não substitui a anticoagulação nem se junta a ela por rotina.
Neoplasia oculta
- Parte dos doentes com TEV sem fator identificável tem um cancro diagnosticado no ano seguinte. A TC abdominal ou a tomografia por emissão de positrões (PET) não encontram mais cancros do que o rastreio limitado.
- Basta: história, exame objetivo, análises de rotina, radiografia do tórax se não houve angio-TC, e os rastreios da idade e do sexo.
| trombofilia | mecanismo |
|---|---|
| Fator V de Leiden | fator V resistente à inativação pela proteína C ativada; autossómica dominante e, com a da protrombina, a hereditária mais frequente |
| Protrombina G20210A | níveis plasmáticos de protrombina aumentados |
| Défices de antitrombina, proteína C e proteína S | perda de inibidores naturais da coagulação; raros e de alto risco |
| Síndrome antifosfolipídica | adquirida, autoimune; trombose venosa e arterial e morbilidade obstétrica |
| Outras adquiridas | doenças mieloproliferativas com JAK2 V617F, hemoglobinúria paroxística noturna, síndrome nefrótica (perda de antitrombina na urina) |
- Heterozigotia para fator V de Leiden ou protrombina não aumenta o risco de recorrência. Homozigotia, défices de antitrombina, proteína C ou proteína S e síndrome antifosfolipídica são trombofilias de alto risco.
- O estrogénio multiplica o risco do fator V de Leiden.
Quem estudar
- Não se estuda depois de um TEV com fator transitório, nem por rotina depois de um TEV sem fator identificável.
- Considera-se: TEV sem fator identificável em jovem (abaixo de 50 anos) com história familiar de TEV em parente de primeiro grau; trombose em local atípico (veias cerebrais, esplâncnicas); recorrência; mulher com abortos de repetição, morte fetal, restrição de crescimento ou pré-eclâmpsia (anticorpos antifosfolipídicos).
- Anticorpos antifosfolipídicos também quando se pondera parar a anticoagulação num TEV sem fator identificável.
- Só se estuda quando o resultado muda a conduta.
Como
- Resistência à proteína C ativada ou genotipagem do fator V de Leiden, protrombina G20210A, atividade de antitrombina e proteína C, proteína S livre, anticoagulante lúpico, anticardiolipina e anti-beta-2 glicoproteína I.
- Fora da fase aguda e sem varfarina: a trombose aguda, a anticoagulação e a gravidez alteram os níveis de antitrombina, proteína C e proteína S.
- Síndrome antifosfolipídica: fazem-se os três testes, porque muitos doentes são positivos só num, e repetem-se pelo menos 12 semanas depois, porque há positividade transitória. Triplo positivo é o de maior risco.
- Síndrome antifosfolipídica: antagonista da vitamina K com INR 2 a 3, por tempo indeterminado. Os DOAC não se usam no triplo positivo nem com antecedentes de trombose arterial ou de pequenos vasos: num ensaio em triplo positivos, o rivaroxabano teve mais eventos trombóticos e hemorragias do que a varfarina. Depois de parar a anticoagulação a recorrência pode chegar a 50% por ano.
- Trombofilia de alto risco (homozigotia, défice de antitrombina, proteína C ou proteína S): anticoagulação prolongada em dose plena, com reavaliação periódica e seguimento por especialista.
- Heterozigotia para fator V de Leiden ou protrombina: a duração decide-se pelo episódio, como em qualquer TEV.
- Portadores de trombofilia fazem profilaxia mais intensa em cirurgias e internamentos, e evitam estrogénios.
Membro superior
- Secundária, a mais frequente: cateteres venosos centrais (o risco sobe com o diâmetro e o número de lúmenes), pacemakers e desfibrilhadores, neoplasia.
- Primária de esforço (síndrome de Paget-Schroetter): jovem ativo, depois de esforço repetido do braço, por compressão da veia subclávia na saída torácica.
- Assimetria da fossa supraclavicular ou do perímetro do braço, edema e dor. A ecografia é o primeiro exame.
Veias esplâncnicas (porta, mesentéricas, supra-hepáticas)
- Fatores locais: cirrose, neoplasia abdominal sólida, inflamação abdominal, cirurgia. Sistémicos: hormonas, hiperestimulação ovárica, doenças mieloproliferativas (JAK2), hemoglobinúria paroxística noturna, trombofilias.
Veias cerebrais e seios venosos
- Cefaleia, défices focais, convulsões e hipertensão intracraniana. Os mesmos precipitantes sistémicos das outras tromboses atípicas (hormonas, trombofilias) justificam procurá-los.
- TVP primária do membro superior: anticoagulação durante 3 meses. A remoção precoce do trombo não é rotina; em jovens ativos com sintomas graves pode considerar-se trombólise nas primeiras 2 semanas, e a ressecção da primeira costela se houver compressão venosa na saída torácica.
- Trombose associada a cateter: anticoagular pelo menos 3 meses. Retirar o cateter se já não for preciso, não funcionar, a anticoagulação estiver contraindicada, os sintomas não melhorarem ou a trombose ameaçar o membro ou a vida; se funciona e é necessário, pode manter-se.
- Locais atípicos em geral: anticoagulação imediata salvo contraindicação; 3 meses com fator transitório, sem data de fim com fator permanente. Procurar trombofilia e neoplasia em muitos destes doentes.
- Veias cerebrais: anticoagulação durante pelo menos 3 meses.
Referências
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- Konstantinides SV, Meyer G, Becattini C, Bueno H, Geersing GJ, Harjola VP, et al. 2019 ESC Guidelines for the diagnosis and management of acute pulmonary embolism developed in collaboration with the European Respiratory Society (ERS). Eur Heart J. 2020;41(4):543-603.
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- Barbar S, Noventa F, Rossetto V, Ferrari A, Brandolin B, Perlati M, et al. A risk assessment model for the identification of hospitalized medical patients at risk for venous thromboembolism: the Padua Prediction Score. J Thromb Haemost. 2010;8(11):2450-7.
- Amaral C, Reis J, Guimarães L, et al. Recomendações perioperatórias para profilaxia do tromboembolismo venoso no doente adulto. Consenso nacional multidisciplinar 2014. Rev Soc Port Anestesiol. 2014;23:62-75.
- Direção-Geral da Saúde. Profilaxia do trombo embolismo venoso em ortopedia. Norma n.º 026/2012, de 27/12/2012. Lisboa: DGS; 2012.
- Liz-Pimenta J, Pinto R, Augusto J, Godinho J, Malheiro M, Tavares NT, et al. Recomendações nacionais do Grupo de Estudos do Cancro Associado a Trombose para o tratamento e profilaxia do tromboembolismo venoso no doente oncológico. Rev Port Oncol. 2024;7(3-4):57-69.
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