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Paragem cardiorrespiratória

Matriz PNA:MD · MecanismosD · DiagnósticoGD · Gestão

Atualizado em 15 de junho de 2026 · 14 perguntas neste tema

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Em resumo

A paragem cardiorrespiratória é um tema A* transversal e muito cobrado. Concentra-te em três pilares. No reconhecimento, uma vítima que não responde e não respira normalmente (a respiração agónica conta como paragem) deve desencadear de imediato a cadeia de sobrevivência. Na gestão, compressões de alta qualidade (100-120/min, 5-6 cm, interrupções mínimas) e desfibrilhação precoce são o que salva; no SAV distinguem-se os ritmos desfibrilháveis (FV/TV sem pulso: choque, adrenalina 1 mg após o 3.º choque, amiodarona 300 mg e depois 150 mg) dos não-desfibrilháveis (AESP/assistolia: adrenalina assim que possível e tratar as causas reversíveis 4H/4T). Recuperada a circulação, são os cuidados pós-reanimação (oxigenação e pressão-alvo, coronariografia quando indicada, controlo da temperatura, neuroprognóstico só após 72 h) que determinam o resultado neurológico. O capítulo segue o ERC 2021, padrão em Portugal.

Mecanismos e causas

Fisiopatologia da paragem

A PCR traduz a perda súbita de débito cardíaco eficaz. Quando o coração deixa de gerar volume sistólico útil, cessa a perfusão dos órgãos e instala-se isquemia global. O cérebro é o primeiro órgão a sofrer: ao fim de poucos segundos surge a perda de consciência e, em minutos, instala-se lesão neuronal por privação de oxigénio e substrato. O miocárdio, privado de fluxo coronário, deteriora-se progressivamente, o que torna cada vez mais difícil restabelecer um ritmo perfusante à medida que o tempo passa.

Sem fluxo, a célula passa a metabolismo anaeróbio, acumula lactato e iões hidrogénio e desenvolve acidose. A falência das bombas iónicas leva a entrada de cálcio e sódio e a alterações do potássio, criando um meio que perpetua a disfunção elétrica e contrátil. É este círculo vicioso que a RCP procura interromper: as compressões torácicas geram um débito artificial que mantém alguma perfusão cerebral e coronária, ganhando tempo até à correção da causa ou à desfibrilhação. Quanto mais prolongada a isquemia global, menor a probabilidade de retorno de circulação espontânea e maior o risco de lesão cerebral hipóxico-isquémica nos sobreviventes.

Ritmos de paragem

A abordagem da PCR organiza-se em torno do ritmo inicial, porque é ele que decide se há ou não indicação para choque. Dividem-se em desfibrilháveis e não desfibrilháveis.

Ritmos desfibrilháveis

  • Fibrilhação ventricular (FV): atividade elétrica ventricular caótica e desorganizada, sem contração coordenada. O ventrículo "treme" e não ejeta sangue. É o ritmo inicial mais frequente na PCR de causa cardíaca presenciada no adulto, sobretudo no contexto de isquemia/enfarte agudo.
  • Taquicardia ventricular sem pulso (TV sem pulso): atividade ventricular rápida e organizada, mas demasiado ineficaz para gerar pulso. Hemodinamicamente comporta-se como PCR.

Implicação prática: estes ritmos respondem à desfibrilhação. A prioridade é RCP de qualidade até ter o desfibrilhador pronto e choque o mais precoce possível, porque a probabilidade de conversão diminui rapidamente com o tempo. São os ritmos com melhor prognóstico.

Ritmos não desfibrilháveis

  • Atividade elétrica sem pulso (AESP), antes chamada dissociação eletromecânica: existe atividade elétrica organizada no ECG, mas o ventrículo não gera contração suficiente para produzir pulso palpável ou tensão arterial mensurável. Resulta tipicamente de causas secundárias: contratilidade deprimida por acidose, hipóxia ou distúrbios metabólicos, ou enchimento insuficiente por hipovolémia (hemorragia, queimaduras) ou obstrução vascular (tromboembolismo pulmonar).
  • Assistolia: ausência completa de atividade elétrica e mecânica. Pode resultar da progressão de uma FV não tratada, de distúrbio de condução ou da mesma cascata metabólica que causa a AESP.

Implicação prática: não respondem a choque. O tratamento assenta em RCP de qualidade, adrenalina precoce e, sobretudo, na identificação e correção rápida da causa reversível. O prognóstico é claramente pior do que o dos ritmos desfibrilháveis; na assistolia é muito reservado.

De um modo geral, a PCR de causa cardíaca apresenta-se mais frequentemente com ritmo desfibrilhável (arritmia ventricular), enquanto a PCR de causa não cardíaca tende a apresentar-se com ritmo não desfibrilhável (AESP ou assistolia).

Causas reversíveis: 4 H e 4 T

Em qualquer paragem, e em especial nos ritmos não desfibrilháveis, é obrigatório procurar e tratar de imediato as causas potencialmente reversíveis. O ERC sistematiza-as na regra mnemónica dos 4 H e 4 T. Algumas (pneumotórax hipertensivo, tamponamento) tornam a RCP ineficaz e podem ser rapidamente revertidas, pelo que não se deve hesitar em fazer descompressão por agulha ou pericardiocentese quando indicado.

CategoriaCausaPistas / abordagem dirigida
HHipóxiaVia aérea e oxigenação; confirmar posição do tubo; ventilar com O₂
HHipovolémiaHemorragia, queimaduras, sépsis; reposição de volume, controlo da hemorragia
HHipo/hipercaliemia e distúrbios metabólicosGasometria e ionograma; cálcio na hipercaliemia; corrigir K⁺, glicemia, cálcio
HHipotermiaTemperatura central; reaquecimento; reanimação prolongada justificada
TPneumotórax hipertensivo (Tension)Hipersonoridade, ausência de murmúrio, desvio traqueal; descompressão por agulha/toracostomia
TTamponamento cardíacoContexto (trauma, pós-EAM, neoplasia); pericardiocentese
TTóxicosOpioides, bloqueadores dos canais de cálcio, β-bloqueantes, etc.; antídoto dirigido
TTromboembolismoCoronário (EAM) ou pulmonar (TEP maciço); reperfusão / fibrinólise

A ecografia point-of-care, sem nunca interromper a RCP de forma indevida, pode ajudar a identificar tamponamento, pneumotórax hipertensivo, TEP e a presença ou ausência de atividade cardíaca. A gasometria e o ionograma orientam a correção de hipóxia, acidose e distúrbios do potássio.

Substratos da morte súbita cardíaca

Na maioria dos doentes com PCR de causa cardíaca, o mecanismo final é uma arritmia ventricular. O tipo de arritmia depende do substrato:

  • Doença coronária (causa mais frequente no adulto). A aterosclerose coronária é, de longe, a causa mais comum de MSC. Cerca de metade das mortes por doença coronária ocorre de forma súbita. No enfarte agudo do miocárdio ou na isquemia aguda, a PCR deve-se habitualmente a FV ou TV polimórfica; com a evolução metabólica, o ritmo pode degradar-se em assistolia. Doentes com enfarte prévio podem ter TV monomórfica sustentada por reentrada em torno de zona de cicatriz. Raramente, a rotura da parede livre do ventrículo após enfarte transmural causa tamponamento.

  • Miocardiopatias. A miocardiopatia hipertrófica é dos achados mais frequentes em autópsias de jovens com MSC; o mecanismo principal é TV monomórfica em torno de áreas de fibrose, com contributo da isquemia por hipertrofia e da obstrução do trato de saída. A miocardiopatia dilatada (idiopática, familiar ou adquirida) e a miocardiopatia arritmogénica do ventrículo direito aumentam o risco de arritmias ventriculares, sendo a MSC por vezes a primeira manifestação. A miocardite e as miocardiopatias infiltrativas (sarcoidose, amiloidose) causam MSC por arritmia ventricular ou por bloqueio cardíaco.

  • Canalopatias (doenças elétricas primárias). Sem doença estrutural identificável. A síndrome do QT longo (congénita ou adquirida, esta sobretudo por fármacos que prolongam o QT) predispõe a torsade de pointes, uma TV polimórfica. A síndrome de Brugada, autossómica dominante, causa FV/TV, com fatores precipitantes como febre, álcool, cocaína e bloqueadores dos canais de sódio. Incluem-se ainda a TV polimórfica catecolaminérgica, a síndrome de repolarização precoce (FV idiopática) e a síndrome do QT curto.

  • Valvulopatias e outras causas. A estenose aórtica grave associa-se a risco de MSC, provavelmente por arritmia ventricular em contexto de hipertrofia e isquemia subendocárdica. Um subgrupo de doentes com prolapso da válvula mitral está em risco de MSC arrítmica. Certas cardiopatias congénitas complexas no adulto e síndromes de pré-excitação como Wolff-Parkinson-White (em que a fibrilhação auricular conduzida rapidamente por via acessória pode degenerar em FV) completam o quadro de substratos cardíacos.

Nos jovens, uma proporção relevante de MSC ocorre sem doença estrutural identificável na autópsia (morte arrítmica presumida), o que reforça o papel das canalopatias e a importância da avaliação dos familiares de primeiro grau dos sobreviventes e das vítimas.

Fibrilhação ventricular (FV) Desfibrilhável caótica, sem QRS Taquicardia ventricular sem pulso Desfibrilhável larga, regular Atividade elétrica sem pulso Não-desfibrilhável (AESP) ritmo organizado, mas sem pulso Assistolia Não-desfibrilhável linha plana
Esquema original InovaQB (representação estilizada dos quatro ritmos de paragem).

Reconhecimento e diagnóstico

O reconhecimento da paragem cardiorrespiratória é o primeiro elo da cadeia de sobrevivência e a variável que mais condiciona o prognóstico. Cada minuto sem reanimação reduz a probabilidade de sobrevivência em cerca de 10%, pelo que o diagnóstico tem de ser feito em segundos e nunca à custa de uma avaliação prolongada. A regra das ERC Guidelines 2021 é deliberadamente simples: considera-se em paragem qualquer vítima que não responde e não respira normalmente. Não é preciso mais nada para iniciar compressões torácicas.

A vítima que não responde e não respira normalmente

Perante um colapso, o reanimador verifica primeiro a segurança do local, estimula a vítima (abana suavemente os ombros, pergunta em voz alta "Está bem?") e observa a resposta. Ausência de resposta a estímulo verbal e táctil é o primeiro critério. De seguida, com a via aérea permeabilizada pela extensão da cabeça e elevação do mento, avalia-se a respiração durante não mais de 10 segundos, pela técnica VOS (ver expansão torácica, ouvir ruídos respiratórios, sentir o fluxo de ar na face).

A armadilha clássica está na respiração agónica (gasping). Movimentos respiratórios lentos, ruidosos, irregulares ou ofegantes ocorrem nos primeiros minutos numa fração importante das paragens de causa cardíaca e são frequentemente confundidos com respiração eficaz por quem socorre. A respiração agónica é um sinal de paragem, não de circulação preservada, e nunca deve atrasar a reanimação. A mesma lógica aplica-se a movimentos convulsivos breves no momento do colapso, que podem ser a primeira manifestação de uma fibrilhação ventricular e não uma crise epiléptica isolada. Na dúvida sobre se a respiração é normal, assume-se paragem e inicia-se a RCP: comprimir o tórax de quem afinal tinha circulação faz muito menos mal do que não comprimir quem está em paragem.

Pesquisa de pulso: opcional, limitada e nunca prioritária

Para o reanimador leigo, a pesquisa de pulso foi abandonada: é pouco fiável, consome tempo e gera falsos negativos que atrasam a reanimação. Para o profissional de saúde, a palpação do pulso central (carotídeo no adulto) é admitida, mas com duas condições absolutas. Primeiro, faz-se em simultâneo com a avaliação da respiração e em não mais de 10 segundos. Segundo, se houver qualquer dúvida sobre a presença de pulso, ou se este não for inequivocamente palpado nesse intervalo, assume-se paragem e iniciam-se compressões de imediato.

Mesmo clínicos experientes erram com frequência e demoram mais do que os 10 segundos recomendados. A mensagem operacional é clara: a pesquisa de pulso não pode atrasar nem interromper as compressões. Na prática intra-hospitalar monitorizada, o diagnóstico apoia-se também na perda súbita da curva de pressão arterial invasiva ou da pletismografia, quando disponíveis.

Ativação da cadeia de emergência

Reconhecida a paragem, o pedido de ajuda é imediato e paralelo, nunca sequencial às compressões quando há mais do que um reanimador.

No extra-hospitalar liga-se para o 112, que encaminha para o CODU (Centro de Orientação de Doentes Urgentes) do INEM. O operador do CODU dá indicações de RCP assistida por telefone, orienta a localização do desfibrilhador automático externo (DAE) mais próximo e aciona os meios diferenciados. Pede-se explicitamente a quem está presente que traga um DAE; identificar uma pessoa concreta ("você, de camisola azul, traga o desfibrilhador") é mais eficaz do que um apelo genérico ao grupo.

No intra-hospitalar ativa-se a equipa de emergência médica segundo o circuito interno da instituição (número de emergência, código de paragem). Idealmente, esta ativação ocorre antes da paragem consumada, quando os critérios de deterioração de um sistema de alerta precoce (Early Warning Score) são atingidos, permitindo intervir na fase de pré-paragem. Reconhecer o doente em risco e chamar a equipa atempadamente é tão determinante para o desfecho como a qualidade da reanimação propriamente dita.

Identificação do ritmo: desfibrilhável vs não-desfibrilhável

Assim que um monitor-desfibrilhador ou um DAE está disponível, a prioridade diagnóstica passa a ser a classificação do ritmo, porque é ela que define a árvore de decisão da reanimação. As pás ou elétrodos autoadesivos são colocados sem interromper as compressões; só se pausa, e pelo mais curto intervalo possível, para a análise do ritmo.

Os ritmos dividem-se em dois grupos:

GrupoRitmosConduta-chave
DesfibrilháveisFibrilhação ventricular (FV); Taquicardia ventricular sem pulso (TVsp)Desfibrilhação imediata + RCP
Não-desfibrilháveisAssistolia; Atividade elétrica sem pulso (AESP)RCP + adrenalina precoce + tratar causa

A FV apresenta-se como oscilações caóticas, irregulares, sem complexos identificáveis; a TVsp como complexos largos, rápidos e regulares sem débito. A assistolia é a ausência de atividade elétrica (linha quase isoelétrica, a confirmar excluindo causas técnicas como ganho baixo ou elétrodo desconectado). A AESP é qualquer ritmo organizado no monitor sem pulso palpável, e obriga sempre a procurar uma causa reversível. Nos ritmos desfibrilháveis, a desfibrilhação precoce é a intervenção com maior impacto na sobrevivência; nos não-desfibrilháveis, o ganho está nas compressões de qualidade e na correção da causa subjacente. A reavaliação do ritmo faz-se a cada 2 minutos, coincidindo com a troca do reanimador que comprime para evitar fadiga.

Capnografia: confirmar, monitorizar e detetar RCE

A capnografia com curva de onda (medição contínua do CO2 expirado, EtCO2) é uma das ferramentas mais úteis durante a reanimação e tem três funções que a tornam padrão sempre que a via aérea está avançada.

A primeira é confirmar e vigiar a posição do tubo endotraqueal: a presença de uma curva persistente confirma posicionamento traqueal e a sua perda alerta para deslocamento ou obstrução. É o método mais fiável para excluir intubação esofágica.

A segunda é monitorizar a qualidade da RCP. O EtCO2 reflete o débito cardíaco gerado pelas compressões. Valores persistentemente baixos (abaixo de 10 mmHg) sugerem compressões ineficazes e devem motivar correção da técnica (profundidade, frequência, recuo completo, troca do reanimador).

A terceira é servir como sinal precoce de retorno de circulação espontânea. Uma subida súbita e sustentada do EtCO2 durante as compressões traduz restabelecimento do débito e é frequentemente o primeiro indicador de RCE, permitindo confirmá-lo sem interromper a reanimação para palpar pulso. Um EtCO2 persistentemente muito baixo após reanimação prolongada é também um dado a integrar na decisão sobre prognóstico e suspensão de manobras, embora nunca isoladamente.

Ecografia point-of-care para causas reversíveis

A ecografia point-of-care (POCUS) tem hoje um papel diagnóstico estabelecido na paragem, sobretudo na AESP, onde identificar a causa muda a conduta. Em mãos treinadas e integrada num protocolo que não interrompe as compressões, permite reconhecer rapidamente várias das causas reversíveis:

  • Tamponamento cardíaco: derrame pericárdico com colapso de cavidades direitas, indicando pericardiocentese.
  • Pneumotórax hipertensivo: ausência de deslizamento pleural, indicando descompressão imediata por toracostomia/punção.
  • Hipovolémia: veia cava inferior colapsada, ventrículos vazios e hipercontráteis, eventual líquido livre abdominal.
  • Sinais de tromboembolismo pulmonar: dilatação e sobrecarga agudas do ventrículo direito.

A janela ecográfica é obtida durante a pausa programada para análise do ritmo, mantendo-a dentro dos limites habituais (idealmente abaixo de 10 segundos). A ecografia ajuda ainda a distinguir AESP verdadeira de "pseudo-AESP" com contratilidade ventricular preservada mas pulso impalpável, de melhor prognóstico. A regra de ouro mantém-se: o exame complementa a reanimação, nunca a atrasa.

Sinais de retorno de circulação espontânea (RCE)

O RCE é o objetivo intermédio da reanimação e o seu reconhecimento é igualmente clínico e instrumental. Os sinais a integrar são:

  • Subida súbita e sustentada do EtCO2 na capnografia (muitas vezes o primeiro e mais precoce indicador).
  • Pulso central palpável e recuperação da pressão arterial (curva na linha arterial invasiva, se presente).
  • Recuperação de um ritmo organizado com débito no monitor.
  • Sinais de vida: movimentos espontâneos, respiração eficaz, tosse, abertura ocular.

Confirmado o RCE, a reanimação dá lugar aos cuidados pós-paragem, com avaliação ABCDE, oxigenação titulada e investigação dirigida à causa. Sem RCE, a reanimação prossegue em ciclos de 2 minutos, com reavaliação periódica do ritmo e procura sistemática das causas reversíveis (4 H e 4 T: Hipóxia, Hipovolémia, Hipo/hipercaliémia e distúrbios metabólicos, Hipotermia; Tamponamento cardíaco, pneumoTórax hipertensivo, Tóxicos, Trombose coronária ou pulmonar) enquanto houver indicação para continuar.

Suporte de vida: SBV e SAV

A sobrevivência na paragem cardiorrespiratória (PCR) depende de uma cadeia de sobrevivência intacta: reconhecimento e pedido de ajuda precoces, reanimação cardiopulmonar (RCP) imediata e de qualidade, desfibrilhação precoce e cuidados pós-reanimação organizados. Em Portugal, esta resposta articula-se através do INEM e é coordenada pelo CODU, que aciona os meios em escalada: ambulâncias de suporte básico de vida (SBV) com tripulantes de emergência pré-hospitalar, ambulâncias de suporte imediato de vida (SIV) com enfermeiro e monitor-desfibrilhador, e VMER (suporte avançado de vida, SAV) com médico e enfermeiro. As recomendações seguem o Conselho Português de Ressuscitação, alinhado com as guidelines do European Resuscitation Council (ERC).

Suporte básico de vida (SBV)

O SBV destina-se a manter alguma perfusão cerebral e coronária até à desfibrilhação e ao SAV. Reconhece-se a PCR numa vítima que não responde e não respira normalmente. A respiração agónica (gasping) é sinal de paragem, não de vida: não atrasar a RCP por má interpretação destes movimentos respiratórios ineficazes nem de eventual atividade convulsiva transitória, frequente nos primeiros segundos.

Sequência no adulto:

  1. Confirmar segurança, avaliar resposta e abrir a via aérea (extensão da cabeça e elevação do mento).
  2. Se a vítima não responde e não respira normalmente, pedir ajuda (ligar 112, ativar o INEM) e pedir um desfibrilhador automático externo (DAE). Em ambiente intra-hospitalar, acionar a equipa de emergência e trazer o carro de paragem.
  3. Iniciar compressões torácicas de imediato.
  4. Alternar 30 compressões com 2 ventilações enquanto não houver via aérea avançada.

As compressões torácicas de alta qualidade são o determinante isolado mais importante do resultado. Critérios:

  • Frequência 100-120/min.
  • Profundidade 5-6 cm no adulto (pelo menos 5, sem ultrapassar 6).
  • Recuo torácico completo entre compressões. Não apoiar o peso sobre o tórax na fase de descompressão: o leaning impede o retorno venoso e enche pior o coração.
  • Comprimir no centro do tórax (metade inferior do esterno), com a vítima em plano duro.
  • Minimizar interrupções. A fração de compressões (proporção de tempo de RCP com compressões efetivas) deve manter-se acima de 80%. Pausas só para ventilar (sem via aérea avançada), analisar o ritmo e desfibrilhar, sempre o mais breves possível.
  • Rodar o reanimador a cada 2 minutos (ou antes, se houver fadiga), porque a profundidade e a frequência degradam-se com o cansaço. Fazer a troca em segundos, idealmente coincidindo com a análise do ritmo.

As ventilações fazem-se com cabeça em extensão e elevação do mento, cada insuflação durante cerca de 1 segundo, com volume suficiente para uma elevação visível do tórax, evitando insuflações excessivas. Quem não está treinado ou não quer ventilar deve fazer RCP só com compressões, ininterruptas, em vez de não fazer nada.

Desfibrilhação precoce com DAE. Logo que o DAE chegue, ligar e colocar os elétrodos sem interromper as compressões mais do que o estritamente necessário; seguir as instruções verbais do aparelho. Enquanto o DAE não está disponível, a única coisa a fazer é manter compressões de qualidade. A desfibrilhação precoce na fibrilhação ventricular (FV) é o que mais aumenta a probabilidade de conversão para ritmo com perfusão: cada minuto de atraso reduz a sobrevivência.

Suporte avançado de vida (SAV)

O SAV acrescenta ao SBV a monitorização do ritmo, a desfibrilhação manual, a via aérea avançada, os acessos e os fármacos, mas nunca à custa de compressões de qualidade. O algoritmo organiza-se em ciclos de 2 minutos: faz-se RCP, avalia-se o ritmo de 2 em 2 minutos e, conforme o ritmo, segue-se um de dois ramos.

Os dois ramos do algoritmo

Ramo desfibrilhável (FV / TV sem pulso)Ramo não-desfibrilhável (AESP / assistolia)
Ação imediataChoque logo que possível (desfibrilhador bifásico)Não desfibrilhar (estes ritmos não respondem ao choque)
A seguir ao choque/avaliaçãoRCP 2 min sem verificar pulso após o choqueRCP contínua 2 min
Adrenalina1 mg IV/IO após o 3.º choque, depois a cada 3-5 min1 mg IV/IO assim que possível, depois a cada 3-5 min
AntiarrítmicoAmiodarona 300 mg durante a RCP após o 3.º choque; 150 mg durante a RCP após o 5.º choque (alternativa: lidocaína 100 mg)Não indicado
EnergiaBifásico: 1.º choque ≥150 J (ou conforme o fabricante); ponderar escalar a energia nos choques seguintes, sobretudo se FV recorrente/refratáriaNão aplicável
Foco paraleloCausas reversíveis (4H/4T), qualidade da RCP, via aérea, acessosCausas reversíveis (4H/4T) são a prioridade terapêutica

Ramo desfibrilhável (FV/TV sem pulso). Carregar o desfibrilhador enquanto se mantêm as compressões; só então afastar todos e dar o choque. Retomar imediatamente as compressões durante 2 minutos, sem verificar pulso nem ritmo, porque a contratilidade eficaz só surge algum tempo depois de recuperado um ritmo organizado e a pausa seria injustificada. Ao fim dos 2 minutos, nova análise: se persistir FV/TV, novo choque. A adrenalina 1 mg dá-se após o 3.º choque (não antes: adrenalina precoce na FV associa-se a pior prognóstico) e repete-se a cada 3-5 min. A amiodarona 300 mg dá-se também durante a RCP após o 3.º choque e a dose adicional de 150 mg durante a RCP após o 5.º choque; em alternativa, lidocaína 100 mg. Na FV refratária a três choques consecutivos, ponderar mudar a posição dos elétrodos para ântero-posterior (mudança de vetor). A desfibrilhação dupla sequencial não é recomendada fora de contexto de investigação.

Ramo não-desfibrilhável (AESP/assistolia). Não há choque. Manter RCP ininterrupta e dar adrenalina 1 mg IV/IO assim que houver acesso, repetindo a cada 3-5 min. Aqui o rendimento está em encontrar e tratar a causa reversível, porque a AESP e a assistolia são quase sempre secundárias. Confirmar que a assistolia é verdadeira (ganho do monitor, elétrodos, mudar de derivação) e não FV fina. A atropina não está recomendada na assistolia/AESP.

Via aérea e ventilação

A progressão é por degraus, sem nunca comprometer as compressões:

  1. Insuflador manual (ambu) + máscara, idealmente com cânula orofaríngea e técnica a dois reanimadores. Mantém-se a relação 30:2 enquanto não houver via aérea avançada.
  2. Via aérea supraglótica (máscara laríngea, tubo laríngeo): coloca-se sem interromper as compressões e é alternativa razoável, equivalente ao ambu-máscara, e colocável por profissionais com menos treino.
  3. Entubação endotraqueal, apenas por profissional treinado, idealmente em menos de 10 segundos e sem parar as compressões. A videolaringoscopia é preferível quando disponível.

Colocada uma via aérea avançada (supraglótica ou tubo), passa-se a compressões contínuas com ventilações assíncronas a cerca de 10/min, sem pausar para ventilar. Evitar a hiperventilação: o excesso de volume ou de frequência aumenta a pressão intratorácica, reduz o retorno venoso e o débito, e piora a perfusão cerebral e coronária. Durante a PCR administra-se oxigénio a alta concentração.

A capnografia (EtCO2) com onda é obrigatória após via aérea avançada. Serve para três coisas: confirmar e monitorizar a posição do tubo, avaliar a qualidade da RCP (valores muito baixos, <10 mmHg, sugerem compressões insuficientes ou causa a corrigir) e detetar o retorno de circulação espontânea (RCE), sinalizada por uma subida súbita e sustentada da EtCO2.

Acessos, fármacos e causas reversíveis

O acesso intravenoso (IV) periférico é a primeira escolha; se não se conseguir rapidamente, recorre-se ao acesso intraósseo (IO), seguro e rápido na PCR. As doses IO são iguais às IV. A administração de fármacos pela via traqueal já não se recomenda. Cada fármaco deve ser seguido de flush para chegar à circulação central, sem nunca interromper as compressões para obter acessos.

A adrenalina é o único vasopressor indicado na PCR, independentemente do ritmo (1 mg a cada 3-5 min). Aumenta a pressão de perfusão coronária por agonismo alfa. Amiodarona (300 mg + 150 mg) ou lidocaína reservam-se para a FV/TV refratária à desfibrilhação. Outros fármacos só em indicações específicas: sulfato de magnésio na torsades de pointes; bicarbonato de sódio ou cálcio em contextos selecionados (hipercaliemia, intoxicação por bloqueadores dos canais de cálcio, acidose metabólica grave). Não há benefício no uso rotineiro destes últimos.

Em paralelo com a RCP, procurar e tratar as causas reversíveis (4H/4T):

4 H4 T
HipóxiaPneumotórax hipertensivo
HipovolemiaTamponamento cardíaco
Hipo/hipercaliemia e outras alterações metabólicasTóxicos
HipotermiaTrombose (coronária ou pulmonar)

Algumas destas causas exigem intervenção imediata que torna a RCP inútil enquanto não forem corrigidas: perante suspeita de pneumotórax hipertensivo, fazer descompressão sem hesitar; perante tamponamento, ponderar pericardiocentese. A ecografia point-of-care, em mãos treinadas, ajuda a identificar tamponamento, pneumotórax, sinais de tromboembolismo e a presença ou ausência de atividade cardíaca, desde que não interrompa nem atrase as compressões.

Quando considerar terminar os esforços

A probabilidade de RCE e de recuperação neurológica favorável diminui com o tempo de PCR. A decisão de terminar a reanimação é clínica e ponderada, não automática, e tem em conta a ausência de RCE após reanimação prolongada (em regra >20-30 min de SAV sem ritmo com perfusão), a paragem não presenciada com assistolia inicial, o intervalo até ao início da RCP, e a idade, comorbilidades e estado funcional prévio. A assistolia persistente apesar de SAV adequado e de exclusão de causas reversíveis é o cenário típico em que se pondera parar. A ecografia pode apoiar a decisão (ausência de atividade cardíaca associa-se a RCE muito improvável) mas nunca deve ser o único critério.

RCP extracorporal (eCPR)

Em centros selecionados, com programas dedicados e logística complexa, a RCP extracorporal (eCPR) com ECMO veno-arterial pode ser considerada como ponte na PCR refratária a SAV convencional, quando há causa potencialmente reversível (síndrome coronária aguda, tromboembolismo pulmonar maciço) e características favoráveis: paragem presenciada, RCP precoce, curto tempo até à canulação e sinais de perfusão intra-paragem adequada (EtCO2 mais alta). Não substitui o SAV de qualidade; é um recurso de exceção em doentes bem selecionados.

Não responde e não respira normalmente Pedir ajuda · equipa de reanimação · desfibrilhador RCP 30:2 · ligar monitor / desfibrilhador AVALIAR O RITMO DESFIBRILHÁVEL FV / TV sem pulso 1 choque RCP 2 min (sem verificar pulso) NÃO-DESFIBRILHÁVEL AESP / assistolia sem choque RCP 2 min ciclo de 2 min se ROSC Cuidados pós-reanimação ABCDE · coronariografia · temperatura Durante a RCP • Compressões 100-120/min, 5-6 cm, recuo total • Interrupções mínimas (fração > 80%) • Via aérea + capnografia (EtCO₂) • Acesso IV ou intraósseo (IO) • Adrenalina 1 mg a cada 3-5 min: AESP / assistolia: logo que possível FV / TV sem pulso: após o 3.º choque • Amiodarona 300 mg (3.º choque) + 150 mg (5.º) • Oxigénio; ventilar ~10/min após via aérea • Identificar e tratar causas reversíveis Causas reversíveis (4 H / 4 T) 4 H 4 T Hipóxia Pneumotórax hipertensivo Hipovolemia Tamponamento cardíaco Hipo/hipercaliemia Tóxicos (e metabólicas) Hipotermia Trombose (coronária ou pulmonar)
Esquema original InovaQB, baseado no algoritmo de Suporte Avançado de Vida do European Resuscitation Council (ERC) 2021.

Referências

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  6. Zeppenfeld K, Tfelt-Hansen J, de Riva M, et al. 2022 ESC Guidelines for the management of patients with ventricular arrhythmias and the prevention of sudden cardiac death. Eur Heart J. 2022;43(40):3997-4126.
  7. Conselho Português de Ressuscitação. Recomendações de reanimação (alinhadas com o European Resuscitation Council 2021). Lisboa: CPR.
  8. UpToDate (consultado em 2026): Advanced cardiac life support (ACLS) in adults; Initial assessment and management of the adult post-cardiac arrest patient; Sudden cardiac arrest and sudden cardiac death in adults.

14 perguntas sobre Paragem cardiorrespiratória

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