Hipertensão pulmonar e cor pulmonale
Atualizado em 28 de setembro de 2026 · 17 perguntas neste tema
A hipertensão pulmonar é um achado hemodinâmico e não uma doença única: pressão arterial pulmonar média acima de 20 mmHg em repouso, medida por cateterismo cardíaco direito. O que decide o tratamento é o mecanismo, e por isso a classificação agrupa as causas em cinco grupos. A pressão de encravamento separa a forma pré-capilar, em que o problema está nas artérias pulmonares, da pós-capilar, em que a pressão vem do coração esquerdo.
A causa mais frequente é a doença do coração esquerdo (grupo 2), seguida da doença pulmonar crónica e da hipóxia (grupo 3). A hipertensão arterial pulmonar (grupo 1) é rara e atinge sobretudo mulheres, muitas vezes jovens: remodelação obliterante das pequenas artérias, com desequilíbrio entre endotelina, óxido nítrico e prostaciclina. A hipertensão pulmonar tromboembólica crónica (grupo 4) nasce de trombos que não resolveram e é a forma com tratamento potencialmente curativo.
A clínica é inespecífica e o diagnóstico chega tarde: dispneia de esforço e fadiga, depois síncope de esforço e sinais de insuficiência cardíaca direita. O ecocardiograma dá a probabilidade, a investigação procura a causa (com cintigrafia de ventilação e perfusão em toda a hipertensão pulmonar por esclarecer) e o cateterismo confirma e classifica.
Nos grupos 2 e 3 trata-se a doença de base; os fármacos da hipertensão arterial pulmonar não têm aí benefício e podem fazer mal, com exceções raras e decididas em centro. No grupo 1, a terapêutica combinada inicial é guiada pela estratificação de risco. No grupo 4, endarterectomia pulmonar quando operável, angioplastia por balão e riociguat quando não, e anticoagulação para toda a vida.
O cor pulmonale é a hipertrofia, dilatação e falência do ventrículo direito causadas por doença do pulmão ou da sua circulação. É a via final comum, e é a função do ventrículo direito, mais do que o valor da pressão, que dita o prognóstico.
- A pressão arterial pulmonar média normal em repouso ronda os 14 mmHg (desvio-padrão de cerca de 3). A hipertensão pulmonar define-se por pressão arterial pulmonar média acima de 20 mmHg em repouso, medida por cateterismo cardíaco direito. O limiar antigo de 25 mmHg deixou de se usar.
- A resistência vascular pulmonar (RVP) mede-se em unidades Wood (UW), e o limiar é 2 UW.
Definições hemodinâmicas
| fenótipo | pressão média | pressão de encravamento | resistência vascular pulmonar |
|---|---|---|---|
| Pré-capilar | acima de 20 mmHg | 15 mmHg ou menos | acima de 2 UW |
| Pós-capilar isolada | acima de 20 mmHg | acima de 15 mmHg | 2 UW ou menos |
| Pós e pré-capilar combinada | acima de 20 mmHg | acima de 15 mmHg | acima de 2 UW |
- A forma combinada é doença do coração esquerdo em que a congestão venosa crónica já remodelou as artérias pulmonares: o encravamento está alto e a resistência também.
- Hipertensão pulmonar de esforço: declive entre a pressão média e o débito cardíaco acima de 3 mmHg/L/min entre o repouso e o esforço.
Os cinco grupos
| grupo | mecanismo | exemplos |
|---|---|---|
| 1, hipertensão arterial pulmonar | doença das pequenas artérias pulmonares | idiopática, hereditária, fármacos e tóxicos, doenças do tecido conjuntivo, infeção por VIH, hipertensão portal, cardiopatia congénita, schistosomíase |
| 2, doença do coração esquerdo | pressão da aurícula esquerda transmitida para trás | insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida ou preservada, valvulopatia mitral e aórtica |
| 3, doença pulmonar ou hipóxia | vasoconstrição hipóxica e perda de leito vascular | doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC), doença intersticial, hipoventilação, altitude |
| 4, obstrução das artérias pulmonares | trombos organizados; mais raramente tumor, arterite ou estenose congénita | hipertensão pulmonar tromboembólica crónica (HPTEC) |
| 5, mecanismo multifatorial ou incerto | vários ao mesmo tempo | anemia hemolítica crónica, doenças mieloproliferativas, sarcoidose, doença renal crónica, mediastinite fibrosante |
- O grupo 2 é o mais frequente (cerca de três quartos dos casos numa série), seguido do grupo 3.
- A hipertensão arterial pulmonar é rara: a forma idiopática tem incidência de 1 a 10 por milhão.
- Cor pulmonale: hipertrofia e dilatação do ventrículo direito, e por fim falência, causadas por doença do pulmão ou da sua circulação. Por definição exclui a sobrecarga direita que vem do coração esquerdo.
A circulação pulmonar normal é de fluxo alto, resistência baixa e grande capacitância: recebe todo o débito do ventrículo direito com subida mínima de pressão. O ventrículo direito, de parede fina, tolera mal um aumento de pós-carga.
Por grupo
- Grupo 1: remodelação obliterante das arteríolas distais, com hipertrofia da média, proliferação da íntima e do endotélio, lesões plexiformes e trombose in situ. O endotélio produz menos óxido nítrico e prostaciclina e mais endotelina e tromboxano: vasoconstrição e proliferação ao mesmo tempo.
- Grupo 2: a pressão da aurícula esquerda transmite-se passivamente às veias e daí às artérias pulmonares. Com os anos, a congestão remodela as artérias e surge o componente pré-capilar.
- Grupo 3: vasoconstrição pulmonar hipóxica mantida, destruição do leito capilar (enfisema, fibrose) e remodelação da parede, sem as lesões plexiformes do grupo 1. Na DPOC a hipertensão é em regra ligeira: cerca de 90% dos doentes avançados têm pressão média acima de 20 mmHg, mas só 5% passam dos 35 mmHg.
- Grupo 4: trombos que não se dissolveram organizam-se em material fibroso aderente à parede (membranas, estenoses, oclusões); o leito não obstruído, sujeito a mais fluxo, desenvolve depois uma arteriopatia distal semelhante à do grupo 1.
- Grupo 5: mecanismos sobrepostos. Na sarcoidose, inflamação granulomatosa dos vasos, fibrose e compressão por adenopatias; na doença de células falciformes, hemólise, hipoxemia, tromboembolismo e débito alto.
Do vaso ao ventrículo: o cor pulmonale
- A resistência sobe e a pós-carga do ventrículo direito aumenta.
- O ventrículo hipertrofia e, quando deixa de acompanhar, dilata.
- A dilatação afasta os folhetos da tricúspide e gera regurgitação, que agrava a sobrecarga de volume.
- O septo desvia-se para a esquerda e reduz o enchimento do ventrículo esquerdo; cai o débito.
- Instala-se a congestão sistémica: é a falência direita.
- Início insidioso e inespecífico; um atraso de até 2 anos no diagnóstico é frequente.
- Dispneia de esforço e fadiga são os sintomas iniciais. Mais tarde: dor torácica de esforço, pré-síncope e síncope de esforço, edema, distensão abdominal e ascite, perda de apetite.
Exame físico
- Fases iniciais: muitas vezes normal.
- Componente pulmonar do segundo som reforçado (por vezes palpável), terceiro e quarto sons direitos.
- Sopro holossistólico de regurgitação tricúspide, que aumenta na inspiração; impulso paraesternal esquerdo do ventrículo direito.
- Insuficiência direita: pressão venosa jugular elevada, hepatomegalia, edema dos membros inferiores, ascite.
- Procurar sinais da causa: hipocratismo digital (doença pulmonar crónica, cardiopatia congénita cianótica), esclerodactilia e telangiectasias (esclerose sistémica), fervores e sinais de insuficiência cardíaca esquerda (grupo 2), estigmas de doença hepática crónica.
Classe funcional (OMS)
| classe | limitação |
|---|---|
| I | sem limitação |
| II | sintomas com a atividade habitual |
| III | sintomas com atividade inferior à habitual |
| IV | sintomas com qualquer atividade ou em repouso; sinais de insuficiência direita |
Primeiros exames
- Eletrocardiograma: desvio direito do eixo, hipertrofia do ventrículo direito com alterações da repolarização em V1 a V3, bloqueio de ramo direito, aurícula direita dilatada. Normal não exclui.
- Radiografia do tórax: artérias pulmonares centrais dilatadas com periferia pobre em vasos, perda do espaço retroesternal por dilatação do ventrículo direito; mostra também a doença pulmonar ou a congestão.
- Peptídeos natriuréticos (BNP, NT-proBNP): refletem a função do ventrículo direito e servem para o risco e o seguimento.
Ecocardiograma: probabilidade de hipertensão pulmonar
É o exame de rastreio. Estima a pressão sistólica pela velocidade máxima da regurgitação tricúspide e soma sinais indiretos de três categorias.
| velocidade da regurgitação tricúspide | outros sinais ecocardiográficos | probabilidade |
|---|---|---|
| 2,8 m/s ou menos, ou não mensurável | nenhum ou de uma só categoria | baixa |
| 2,8 m/s ou menos, ou não mensurável | de duas ou mais categorias | intermédia |
| 2,9 a 3,4 m/s | nenhum ou de uma só categoria | intermédia |
| 2,9 a 3,4 m/s | de duas ou mais categorias | alta |
| acima de 3,4 m/s | não são precisos | alta |
- Ventrículos: razão entre os diâmetros basais direito e esquerdo acima de 1; septo interventricular aplanado.
- Artéria pulmonar: tempo de aceleração na câmara de saída do ventrículo direito abaixo de 105 ms ou entalhe mesossistólico; velocidade da regurgitação pulmonar protodiastólica acima de 2,2 m/s; diâmetro da artéria pulmonar acima de 25 mm ou maior do que a raiz da aorta.
- Veia cava inferior e aurícula direita: veia cava acima de 21 mm com colapso inspiratório reduzido; área da aurícula direita acima de 18 cm².
- O ecocardiograma também mostra a causa: disfunção ou valvulopatia esquerda, aurícula esquerda dilatada, shunt.
Procurar a causa
- Coração esquerdo e pulmão primeiro, porque são as causas mais frequentes: ecocardiograma, provas funcionais respiratórias com capacidade de difusão, gasometria arterial, tomografia computorizada (TC) de alta resolução, oximetria noturna ou estudo do sono.
- Cintigrafia de ventilação e perfusão em toda a hipertensão pulmonar por esclarecer, para não falhar a HPTEC.
- Análises: serologia do VIH, função hepática e serologias das hepatites, autoanticorpos (antinucleares, anti-Scl-70, fator reumatoide), hemograma e função tiroideia.
- Ecografia abdominal quando se suspeita de hipertensão portal.
- Na hipertensão arterial pulmonar, as provas respiratórias mostram tipicamente capacidade de difusão reduzida de forma isolada, com espirometria normal.
- Capacidade de difusão muito baixa, hipoxemia grave e, na TC, nódulos centrolobulares em vidro despolido, espessamento dos septos e adenopatias sugerem doença veno-oclusiva pulmonar, rara e com risco de edema pulmonar com os vasodilatadores.
Cateterismo cardíaco direito
- Confirma o diagnóstico, define o fenótipo (pressão média, pressão de encravamento, débito, resistência) e mede a saturação em vários níveis para excluir shunt.
- Faz-se em centro de referência quando se considera hipertensão arterial pulmonar ou HPTEC, e antes de qualquer fármaco específico.
- Nos grupos 2 e 3 não é obrigatório: faz-se quando a resposta muda a conduta (suspeita de componente pré-capilar grave, avaliação para transplante ou cirurgia valvular).
Diagnóstico diferencial da dispneia com ventrículo direito dilatado
- Embolia pulmonar aguda (quadro agudo, ventrículo sem hipertrofia).
- Comunicação interauricular e outros shunts esquerdo-direitos.
- Miocardiopatia arritmogénica do ventrículo direito, enfarte do ventrículo direito.
- Pericardite constritiva: também dá congestão sistémica com pouca congestão pulmonar, mas no cor pulmonale a doença pulmonar é evidente e a pressão venosa desce na inspiração (sinal de Kussmaul ausente).
Tratar e controlar a doença de base
- Grupos 2 e 3, que são a maioria: controlar a insuficiência cardíaca, corrigir a valvulopatia a tempo (a hipertensão pulmonar na estenose e na insuficiência mitral é indicação de intervenção), deixar de fumar, tratar a DPOC e a apneia do sono.
- Oxigenoterapia de longa duração na hipoxemia crónica em repouso: pressão parcial de oxigénio de 55 mmHg ou menos (saturação de 88% ou menos), ou entre 56 e 59 mmHg (saturação de 89%) quando há hipertensão pulmonar, insuficiência direita ou poliglobulia. O benefício na sobrevida é proporcional às horas diárias de uso, por isso prescreve-se para pelo menos 15 horas por dia; 24 horas não se mostrou melhor do que 15 a 16.
- Cardiopatia congénita com shunt: corrigir antes de a resistência subir, para evitar a síndrome de Eisenmenger.
Depois de uma embolia pulmonar
- Anticoagulação eficaz durante pelo menos 3 meses.
- Dispneia ou limitação ao esforço que persistem ou aparecem 3 a 6 meses depois: ecocardiograma e cintigrafia de ventilação e perfusão para procurar HPTEC. Não se atribui a queixa ao descondicionamento sem esta avaliação.
Hipertensão arterial pulmonar
- Evitar os fármacos e tóxicos associados: anorexígenos (fenfluramina, benfluorex), metanfetaminas, dasatinib.
- Esclerose sistémica: avaliação anual do risco de hipertensão arterial pulmonar (sintomas, capacidade de difusão, peptídeos natriuréticos, ecocardiograma).
- Candidatos a transplante hepático: ecocardiograma para rastrear hipertensão portopulmonar.
- Formas hereditárias: aconselhamento genético e, nos familiares portadores, vigilância.
O tratamento segue o grupo. O erro mais grave é dar fármacos da hipertensão arterial pulmonar a quem tem doença do coração esquerdo ou do pulmão.
| grupo | tratamento |
|---|---|
| 1 | terapêutica específica guiada pela estratificação de risco, em centro de referência |
| 2 | tratar a insuficiência cardíaca e a valvulopatia; os fármacos da hipertensão arterial pulmonar não se recomendam |
| 3 | tratar a doença pulmonar, oxigénio na hipoxemia, reabilitação; nos casos graves, decisão individual em centro; treprostinil inalado em doentes selecionados com doença intersticial |
| 4 | anticoagulação para toda a vida; endarterectomia pulmonar, angioplastia por balão, riociguat |
| 5 | tratar a doença associada |
Medidas gerais (grupo 1, e em boa parte comuns)
- Diurético na retenção de líquidos e na insuficiência direita, com cuidado para não baixar demasiado a pré-carga.
- Oxigénio quando a pressão parcial de oxigénio é persistentemente inferior a 60 mmHg (8 kPa).
- Exercício supervisionado e reabilitação no doente estável e medicado.
- Vacinação contra a gripe, o pneumococo e a COVID-19.
- Corrigir a ferropenia.
- Gravidez desaconselhada na hipertensão arterial pulmonar, pela mortalidade materna elevada; contraceção eficaz e aconselhamento desde o diagnóstico.
- A anticoagulação por rotina não se recomenda na hipertensão arterial pulmonar; decide-se caso a caso.
- Os fármacos da insuficiência cardíaca esquerda (inibidores da enzima de conversão, antagonistas dos recetores da angiotensina, sacubitril-valsartan, inibidores do cotransportador sódio-glicose 2, bloqueadores beta, ivabradina) não se recomendam na hipertensão arterial pulmonar sem outra indicação.
Complicações
- Insuficiência cardíaca direita: a principal causa de morte na hipertensão arterial pulmonar. A descompensação aguda trata-se em unidade diferenciada: tratar o fator precipitante (infeção, arritmia, abandono da terapêutica), otimizar a volemia, e suporte inotrópico ou vasopressor quando há baixo débito.
- Arritmias auriculares (flutter, fibrilhação): mal toleradas, porque o ventrículo direito rígido depende da contração auricular; procura-se restaurar o ritmo sinusal.
- Descompensação precipitada por infeção, anemia, cirurgia, anestesia, gravidez e parto.
- Na fase terminal: insuficiência renal, ativação neuro-hormonal e perda de massa muscular.
Prognóstico
- Sem tratamento, a hipertensão arterial pulmonar idiopática tinha sobrevida mediana de cerca de 3 anos.
- O prognóstico depende sobretudo da função do ventrículo direito, mais do que do valor da pressão pulmonar.
- Nos grupos 2 e 3, mesmo uma hipertensão pulmonar ligeira associa-se a pior sobrevida.
- Marcadores de alto risco: sinais de insuficiência direita, síncope repetida, classe funcional IV, distância na prova de marcha de 6 minutos abaixo de 165 m, peptídeos natriuréticos muito elevados, derrame pericárdico.
- Hipertensão pulmonar pré-capilar (pressão média acima de 20 mmHg, encravamento de 15 mmHg ou menos, resistência acima de 2 UW) sem doença pulmonar, tromboembólica ou outra que a explique.
- Rara; a forma idiopática é 2 a 3 vezes mais frequente na mulher. Os registos antigos mostravam doentes na quarta década; hoje a idade média ao diagnóstico é mais alta.
| subtipo | pontos-chave |
|---|---|
| Idiopática | diagnóstico de exclusão; distingue-se entre respondedores e não respondedores ao teste de vasorreatividade |
| Hereditária | mutações do BMPR2 em cerca de três quartos das formas familiares e em cerca de 20% das aparentemente idiopáticas; outros genes da mesma via (ALK1, endoglina) |
| Fármacos e tóxicos | anorexígenos (fenfluramina, benfluorex), metanfetaminas, dasatinib |
| Doenças do tecido conjuntivo | sobretudo a esclerose sistémica, na forma cutânea limitada |
| Infeção por VIH | cerca de 0,5% dos infetados; sem relação com o estádio da infeção |
| Hipertensão portal | hipertensão portopulmonar, independente da causa da doença hepática |
| Cardiopatia congénita | shunts esquerdo-direitos; no extremo, síndrome de Eisenmenger |
| Schistosomíase | uma das causas mais frequentes no mundo |
| Com envolvimento venoso ou capilar | doença veno-oclusiva pulmonar |
| Persistente do recém-nascido | tratada em neonatologia |
Confirmar que é grupo 1
É um diagnóstico de exclusão: exige cateterismo com perfil pré-capilar e a exclusão da doença do coração esquerdo, da doença pulmonar significativa e da HPTEC (cintigrafia normal).
Teste de vasorreatividade
- Faz-se durante o cateterismo, com óxido nítrico inalado ou iloprost inalado, só na hipertensão arterial pulmonar idiopática, hereditária ou associada a fármacos.
- Positivo: descida da pressão média de 10 mmHg ou mais para um valor absoluto de 40 mmHg ou menos, com débito cardíaco mantido ou aumentado.
- É positivo numa minoria (menos de 5% no conjunto da hipertensão arterial pulmonar), que tem bom prognóstico com bloqueadores dos canais de cálcio.
Estratificação de risco
Decide a terapêutica inicial e o seu ajuste. O objetivo é chegar ao risco baixo.
Ao diagnóstico (três estratos; mortalidade estimada a 1 ano)
| variável | baixo (menos de 5%) | intermédio (5 a 20%) | alto (mais de 20%) |
|---|---|---|---|
| Insuficiência direita | ausente | ausente | presente |
| Progressão | não | lenta | rápida |
| Síncope | não | ocasional | repetida |
| Classe funcional | I ou II | III | IV |
| Prova de marcha de 6 minutos | mais de 440 m | 165 a 440 m | menos de 165 m |
| BNP | menos de 50 ng/L | 50 a 800 ng/L | mais de 800 ng/L |
| NT-proBNP | menos de 300 ng/L | 300 a 1100 ng/L | mais de 1100 ng/L |
| Área da aurícula direita | menos de 18 cm² | 18 a 26 cm² | mais de 26 cm² |
| Derrame pericárdico | não | mínimo | moderado ou grande |
Entram também a prova de esforço cardiorrespiratória, a ressonância magnética cardíaca e a hemodinâmica.
No seguimento (quatro estratos, reavaliação a cada 3 a 6 meses)
| variável | baixo | intermédio-baixo | intermédio-alto | alto |
|---|---|---|---|---|
| Classe funcional | I ou II | não usada | III | IV |
| Prova de marcha de 6 minutos | mais de 440 m | 320 a 440 m | 165 a 319 m | menos de 165 m |
| BNP | menos de 50 ng/L | 50 a 199 ng/L | 200 a 800 ng/L | mais de 800 ng/L |
| NT-proBNP | menos de 300 ng/L | 300 a 649 ng/L | 650 a 1100 ng/L | mais de 1100 ng/L |
- Cada variável pontua de 1 a 4 e a média define o estrato. Mortalidade observada a 1 ano: 0 a 3%, 2 a 7%, 9 a 19% e mais de 20%.
Em centro de referência, com as medidas gerais para todos.
As vias e os fármacos
| via | classe | exemplos | notas |
|---|---|---|---|
| Endotelina | antagonistas dos recetores da endotelina | bosentano, ambrisentano, macitentano | teratogénicos; o bosentano é hepatotóxico (vigiar as transaminases) |
| Óxido nítrico | inibidores da fosfodiesterase 5 | sildenafil, tadalafil | cefaleias, rubor, epistaxe |
| Óxido nítrico | estimulador da guanilato ciclase solúvel | riociguat | nunca com inibidor da fosfodiesterase 5 (hipotensão) |
| Prostaciclina | análogos da prostaciclina | epoprostenol (endovenoso contínuo), treprostinil (subcutâneo, endovenoso, inalado), iloprost (inalado) | o epoprostenol foi o primeiro fármaco a reduzir a mortalidade |
| Prostaciclina | agonista do recetor IP | selexipag (oral) | em associação |
| Ativina | inibidor da sinalização da ativina | sotatercept (subcutâneo de 3 em 3 semanas) | aprovado na União Europeia em 2024, em associação; sobe a hemoglobina e baixa as plaquetas |
Estratégia inicial
| situação | tratamento |
|---|---|
| Teste de vasorreatividade positivo | bloqueador dos canais de cálcio em dose alta (nifedipina, diltiazem, amlodipina); reavaliação completa, com cateterismo, cerca de 3 meses depois |
| Risco baixo ou intermédio, sem comorbilidade cardiopulmonar | combinação inicial: antagonista da endotelina e inibidor da fosfodiesterase 5 |
| Risco alto | tripla: juntar um análogo da prostaciclina endovenoso ou subcutâneo; referenciar para transplante |
| Comorbilidade cardiopulmonar (doente mais velho com fatores de risco de insuficiência cardíaca esquerda, doença pulmonar ligeira) | monoterapia inicial (inibidor da fosfodiesterase 5 ou antagonista da endotelina) e decisão individual |
Ajuste no seguimento
- Risco baixo: manter.
- Risco intermédio-baixo: acrescentar selexipag, ou trocar o inibidor da fosfodiesterase 5 por riociguat.
- Risco intermédio-alto ou alto: acrescentar análogo da prostaciclina endovenoso ou subcutâneo e avaliar para transplante pulmonar.
- O sotatercept, dirigido à remodelação vascular e não só ao tónus, acrescenta-se à terapêutica de fundo.
- Doença refratária: transplante pulmonar (bipulmonar); a septostomia auricular é paliativa, em centros experientes.
Gravidez
- Mortalidade materna elevada, sobretudo no pós-parto: a gravidez é desaconselhada e a contraceção eficaz discute-se desde o diagnóstico.
- Os antagonistas dos recetores da endotelina e o riociguat são teratogénicos. A grávida com hipertensão arterial pulmonar é seguida em centro de referência, com planeamento multidisciplinar do parto.
Esclerose sistémica
- Forma mais frequente de hipertensão arterial pulmonar associada a doença do tecido conjuntivo, sobretudo na forma cutânea limitada; na forma difusa, a hipertensão pulmonar surge muitas vezes com doença intersticial (grupo 3).
- Capacidade de difusão baixa desproporcionada aos volumes é sinal de alerta. Prognóstico pior do que o da forma idiopática.
Hipertensão portopulmonar
- Hipertensão arterial pulmonar em doente com hipertensão portal. Distingue-se da síndrome hepatopulmonar, em que há vasodilatação e shunt intrapulmonar, com hipoxemia mas sem hipertensão pulmonar.
- A forma grave agrava muito o risco do transplante hepático; daí o rastreio ecocardiográfico dos candidatos.
Cardiopatia congénita e síndrome de Eisenmenger
- Um shunt esquerdo-direito grande e não corrigido remodela as artérias até a resistência pulmonar ultrapassar a sistémica: o shunt inverte-se, surgem cianose, poliglobulia e hipocratismo.
- Na síndrome instalada o defeito já não se fecha. Flebotomia só perante sintomas de hiperviscosidade, nunca por um valor de hematócrito.
Infeção por VIH
- Uma das formas de pior prognóstico; trata-se a infeção e a hipertensão arterial pulmonar em paralelo, atendendo às interações entre fármacos.
- Hipertensão pulmonar pré-capilar com trombos crónicos, organizados e fibrosos, a obstruir as artérias pulmonares, depois de pelo menos 3 meses de anticoagulação eficaz.
- Complica uma minoria das embolias pulmonares sintomáticas; muitos doentes não têm história conhecida de embolia, o que sugere episódios subclínicos.
- Fatores de risco: embolias repetidas, trombos grandes, sinais de hipertensão pulmonar logo no episódio agudo, síndrome antifosfolipídica e fator VIII elevado, esplenectomia, shunts ventrículo-auriculares, cateteres ou pacemakers infetados, neoplasia, doenças mieloproliferativas.
- Existe também a doença tromboembólica crónica sem hipertensão pulmonar: sintomas e defeitos de perfusão com pressão normal em repouso.
| exame | papel |
|---|---|
| Cintigrafia de ventilação e perfusão | exame de rastreio: defeitos de perfusão segmentares com ventilação normal; normal exclui; mais sensível do que a angio-TC para a doença crónica |
| Angio-TC pulmonar | mostra trombos murados, membranas, estenoses e padrão em mosaico; ajuda a planear, mas normal não exclui |
| Angiografia pulmonar (convencional ou por TC) | define a anatomia e a operabilidade |
| Cateterismo cardíaco direito | confirma o perfil pré-capilar e mede a gravidade |
- Diferencial: embolia aguda recorrente (daí esperar 3 meses de anticoagulação), sarcoma da artéria pulmonar, arterite de Takayasu, estenoses congénitas das artérias pulmonares, mediastinite fibrosante.
- A operabilidade decide-se numa equipa multidisciplinar de um centro de HPTEC, e não pela imagem isolada.
- Anticoagulação terapêutica para toda a vida em todos. Na síndrome antifosfolipídica usa-se varfarina.
- Endarterectomia pulmonar: tratamento de eleição quando as lesões são cirurgicamente acessíveis. Por esternotomia, com circulação extracorporal e paragem circulatória em hipotermia profunda, retira-se o material fibroso das artérias. Muitas vezes curativa; uma parte dos doentes fica com hipertensão pulmonar residual.
- Angioplastia pulmonar por balão: nos tecnicamente inoperáveis e na hipertensão persistente ou recorrente depois da cirurgia, com lesões distais acessíveis; faz-se em várias sessões, em centro experiente.
- Riociguat: o fármaco aprovado para a HPTEC inoperável ou persistente depois da endarterectomia. Pode associar-se à angioplastia ou servir de ponte.
- Medidas gerais como no grupo 1: diurético, oxigénio, exercício, vacinas.
- Grupo 2: hipertensão pulmonar pós-capilar por insuficiência cardíaca (fração de ejeção reduzida ou preservada), valvulopatia mitral ou aórtica. É a forma mais frequente. Mesmo ligeira, associa-se a pior prognóstico da doença de base.
- Grupo 3: hipertensão pulmonar pré-capilar associada a DPOC e enfisema, doença intersticial, fibrose combinada com enfisema, bronquiectasias, fibrose quística, hipoventilação e apneia do sono (esta, isolada, dá hipertensão ligeira), e à altitude. Considera-se grave quando a resistência passa de 5 UW.
- Cor pulmonale crónico: sobrecarga e falência do ventrículo direito por estas doenças; é a expressão clínica do grupo 3 avançado. Tornou-se menos frequente desde a generalização da oxigenoterapia de longa duração.
- Cor pulmonale agudo: falência direita súbita, sobretudo por embolia pulmonar maciça.
- Os sintomas da doença de base dominam e mascaram os da hipertensão pulmonar.
- Suspeitar quando a dispneia ou a dessaturação são desproporcionadas à gravidade da doença pulmonar ou da disfunção esquerda, quando a capacidade de difusão cai muito mais do que os volumes, ou perante sinais de insuficiência direita.
- Cor pulmonale: edema periférico, distensão abdominal, hepatomegalia dolorosa, pressão venosa jugular elevada, componente pulmonar do segundo som reforçado; na DPOC, a hiperinsuflação abafa os sons e dificulta o exame.
- Eletrocardiograma na DPOC: raramente dá o padrão clássico de hipertrofia direita com R alta em V1; no enfisema é mais típico encontrar ondas R pequenas nas precordiais direitas e médias.
Grupo 2
- Otimizar o tratamento da insuficiência cardíaca e corrigir a valvulopatia: é isso que baixa a pressão pulmonar.
- Os fármacos da hipertensão arterial pulmonar não se recomendam: não mostraram benefício e podem precipitar edema pulmonar ao aumentar o fluxo para um coração esquerdo que não o recebe.
- Doentes com componente pré-capilar grave (resistência acima de 5 UW) referenciam-se a centro de hipertensão pulmonar.
Grupo 3 e cor pulmonale
- Tratar a doença pulmonar: broncodilatadores na DPOC, antifibróticos na fibrose pulmonar idiopática, pressão positiva contínua na apneia do sono, ventilação não invasiva na hipoventilação.
- Oxigenoterapia de longa duração nos critérios da hipoxemia crónica: na DPOC é o tratamento que melhora a sobrevida e trava a progressão do cor pulmonale.
- Diurético nos edemas, com prudência: o ventrículo direito sobrecarregado depende da pré-carga.
- Reabilitação respiratória; avaliação para transplante pulmonar nos candidatos.
- Vasodilatadores pulmonares: não têm indicação de rotina. Nos doentes com hipertensão pulmonar grave, decisão individual num centro de hipertensão pulmonar.
- Treprostinil inalado: pode considerar-se em doentes selecionados com hipertensão pulmonar associada a doença intersticial (recomendação das sociedades europeias de cardiologia e de pneumologia, de 2022); melhora a capacidade de esforço, e ao chegar só aos alvéolos ventilados não agrava o desequilíbrio entre ventilação e perfusão. Está aprovado nos Estados Unidos para esta indicação; na União Europeia não tem autorização para ela.
- O ambrisentano e o riociguat não se recomendam na hipertensão pulmonar associada às pneumonias intersticiais idiopáticas.
Referências
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17 perguntas sobre Hipertensão pulmonar e cor pulmonale
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