CardiovascularDisritmias - Síndrome de Wolff-Parkinson-White; alterações do intervalo QT; fármacos e eletrólitos; arritmias ventricularesPublicado (Premium)

Disritmias: WPW, intervalo QT, fármacos/eletrólitos e arritmias ventriculares

Matriz PNA:MD · MecanismosD · DiagnósticoGD · Gestão

Atualizado em 18 de julho de 2026 · 12 perguntas neste tema

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Em resumo

Este capítulo junta as disritmias de maior risco e as suas armadilhas. No Wolff-Parkinson-White (WPW), uma via acessória liga aurícula e ventrículo fora do nó AV: dá PR curto e onda delta no ECG basal, taquicardias por reentrada (AVRT) e, na fibrilhação auricular pré-excitada, condução tão rápida que pode degenerar em fibrilhação ventricular, daí a regra de ouro de não usar bloqueadores do nó AV (adenosina, verapamil, diltiazem, betabloqueante, digoxina) nesse cenário. O intervalo QT longo (congénito ou por fármacos e por hipocaliemia, hipomagnesemia e hipocalcemia) abre a porta à Torsades de Pointes, que se trata com magnésio, correção dos eletrólitos e aceleração da frequência. Os eletrólitos deixam assinatura no ECG (a hipercaliemia vai da onda T apiculada à onda sinusoidal). E as arritmias ventriculares (extrassístoles, taquicardia ventricular, fibrilhação ventricular) são a principal via para a morte súbita cardíaca: a taquicardia de complexos largos é ventricular até prova em contrário, a TV/FV sem pulso desfibrilha-se, e a prevenção assenta no cardioversor-desfibrilhador implantável (CDI) e na ablação.

Mecanismos

As arritmias deste capítulo resultam dos mesmos três mecanismos de fundo (reentrada, automatismo, atividade deflagrada), mas cada bloco recruta-os de maneira própria. Perceber qual está em jogo é o que distingue, à cabeceira, uma taquicardia que se trata com manobras vagais de outra em que essas manobras podem matar.

Síndrome de Wolff-Parkinson-White: a via acessória e a reentrada

O feixe de Kent é uma ponte de miocárdio que liga aurícula a ventrículo, fora do esqueleto fibroso que normalmente os isola. Ao contrário do nó AV, que conduz devagar e filtra impulsos rápidos, a via acessória costuma conduzir depressa e sem decremento. Esta diferença de propriedades entre dois caminhos paralelos (nó AV e via) é a condição de que a reentrada precisa.

Em ritmo sinusal, o impulso desce ao mesmo tempo pelo nó AV e pela via. Como a via não tem atraso, despolariza precocemente uma porção do ventrículo: é a onda delta. O resto do ventrículo é ativado pelo His-Purkinje, pelo que o QRS final é uma fusão entre ativação pré-excitada (lenta) e normal (rápida).

A arritmia clássica é a AVRT, reentrada que usa o circuito formado pelo nó AV e pela via:

  • Na AVRT ortodrómica (a grande maioria), o impulso desce pelo nó AV e regressa à aurícula pela via acessória. Como os ventrículos são ativados pela via normal do His-Purkinje, o QRS é estreito e, durante a taquicardia, não há onda delta (a pré-excitação desaparece porque a via está a ser usada apenas em sentido retrógrado). É uma taquicardia regular de complexos estreitos, indistinguível à primeira vista de uma TRNAV.
  • Na AVRT antidrómica (rara), o sentido inverte-se: o impulso desce pela via acessória e sobe pelo nó AV. Os ventrículos são ativados inteiramente pela via, pelo que o QRS é largo e bizarro, podendo confundir-se com taquicardia ventricular.

O cenário verdadeiramente perigoso é a fibrilhação auricular pré-excitada. Numa FA, a aurícula descarrega de forma caótica acima de 350/min. Num coração normal, o nó AV protege o ventrículo ao filtrar a maioria desses impulsos. Numa via de condução rápida e período refratário curto, essa proteção desaparece: a via deixa passar impulsos a frequências ventriculares extremas, com QRS largos, irregulares e de morfologia variável, que podem degenerar em fibrilhação ventricular e morte súbita.

Daqui decorre uma regra que se cobra repetidamente: na FA pré-excitada, os bloqueadores do nó AV são perigosos. Verapamil, diltiazem, betabloqueadores, digoxina e adenosina bloqueiam a única via que competia com a acessória e canalizam ainda mais impulsos para a via rápida, podendo precipitar FV. A FA pré-excitada instável trata-se por cardioversão elétrica; estável, com um fármaco que atue na própria via (procainamida ou flecainida).

Intervalo QT longo e Torsades de Pointes

O intervalo QT reflete a duração do potencial de ação ventricular, governado pelo equilíbrio entre correntes de despolarização (entrada de sódio e cálcio) e de repolarização (saída de potássio). Prolongar a repolarização significa atrasar a fase em que o potássio sai da célula, ou prolongar a entrada de sódio ou cálcio.

A corrente de repolarização mais relevante na clínica é a IKr (rectificadora tardia rápida de potássio, conduzida pelo canal do gene hERG). É o alvo comum a quase toda a pró-arritmia por QT longo:

  • No QT longo congénito, mutações reduzem a corrente de potássio (IKs no LQT1, IKr no LQT2) ou aumentam a corrente de sódio tardia (LQT3). Em qualquer dos casos, a repolarização atrasa-se.
  • No QT longo adquirido por fármacos, a maioria dos agentes bloqueia diretamente o canal IKr/hERG. É por isso que fármacos tão diferentes (classe III, macrólidos, fluoroquinolonas, antipsicóticos, ondansetron, metadona) partilham o mesmo efeito.
  • A hipocaliemia, a hipomagnesemia e a hipocalcemia prolongam a repolarização e potenciam o bloqueio farmacológico de IKr.

O prolongamento da repolarização favorece pós-despolarizações precoces (EAD), oscilações do potencial de membrana que surgem antes de a repolarização estar completa, por reativação de canais de cálcio. Quando uma EAD atinge o limiar, deflagra um novo potencial de ação. Sobre um ventrículo com repolarização heterogénea, esse batimento encontra terreno para reentrada funcional e desencadeia a Torsades de Pointes, a TV polimórfica com a típica torção dos QRS em torno da linha de base. As Torsades costumam ser autolimitadas, mas podem degenerar em FV.

Arritmias ventriculares: reentrada em cicatriz, automatismo e atividade deflagrada

As arritmias ventriculares recrutam os três mecanismos consoante o contexto:

  • A reentrada em cicatriz é o mecanismo dominante da TV monomórfica sustentada no coração doente. Uma cicatriz de enfarte é tecido heterogéneo: fibrose densa (não conduz) entremeada de feixes de miócitos sobreviventes (conduzem devagar). Estes canais de condução lenta entre zonas de bloqueio criam o circuito fixo de que a reentrada precisa. Como o circuito é o mesmo a cada batimento, todos os QRS têm igual morfologia, daí o termo monomórfica.
  • O automatismo aumentado explica EV e TV na isquemia aguda, no tónus adrenérgico elevado, na hipoxia e nos distúrbios eletrolíticos, em que focos ventriculares disparam por si próprios. O ritmo idioventricular acelerado da reperfusão pós-enfarte é o exemplo típico.
  • A atividade deflagrada por pós-despolarizações sustenta a Torsades (EAD, no QT longo) e a TV polimórfica catecolaminérgica (DAD por sobrecarga de cálcio via recetor de rianodina, desencadeada pelo esforço ou emoção em coração normal). As pós-despolarizações tardias estão também na origem das arritmias da toxicidade digitálica.

A TV polimórfica distingue-se da monomórfica pelo mecanismo: traduz instabilidade elétrica difusa, não um circuito fixo. As duas grandes causas são a isquemia aguda (TV polimórfica com QT normal) e o QT longo (Torsades). A distinção é prática: a primeira trata-se revascularizando, a segunda corrigindo o QT e dando magnésio.

As classes de Vaughan-Williams e a sua pró-arritmia

Os antiarrítmicos clássicos organizam-se pela classificação de Vaughan-Williams segundo o canal ou recetor que bloqueiam. Cada classe tem um perfil de pró-arritmia próprio, e é esse perfil, mais do que a eficácia, que comanda as decisões de segurança.

  • Classe I (bloqueadores dos canais de sódio): deprimem a fase 0 e abrandam a condução. Subdividem-se em IA (quinidina, procainamida; também prolongam o QT, risco de Torsades), IB (lidocaína, mexiletina; pouco efeito no QT, úteis na arritmia ventricular isquémica) e IC (flecainida, propafenona). A classe IC é o exemplo histórico de pró-arritmia: o ensaio CAST mostrou aumento da mortalidade ao suprimir EV pós-enfarte com flecainida e encainida, porque o abrandamento da condução sobre uma cicatriz facilita a reentrada. Por isso a classe IC é contraindicada na cardiopatia estrutural.
  • Classe II (betabloqueadores): reduzem o tónus adrenérgico e o automatismo. São o único grupo com benefício consistente na redução da morte súbita e têm pró-arritmia mínima, o que os torna a base do tratamento crónico das arritmias ventriculares e das canalopatias adrenérgicas.
  • Classe III (bloqueadores dos canais de potássio): prolongam a repolarização e o QT (amiodarona, sotalol, dronedarona, ibutilida). O risco de classe é a Torsades, sobretudo com o sotalol; a amiodarona prolonga muito o QT mas raramente causa Torsades, por bloquear múltiplas correntes de forma equilibrada.
  • Classe IV (cálcio não dihidropiridínicos): verapamil e diltiazem deprimem o nó AV. O perigo relevante é o uso indevido na FA pré-excitada e a bradicardia ou bloqueio quando combinados com betabloqueadores.

Quadro: mecanismo e exemplo clínico

MecanismoSubstrato/gatilhoExemplo clínico típico
Reentrada por via acessóriaFeixe de Kent (nó AV + via)AVRT ortodrómica (QRS estreito) no WPW
Condução anterógrada rápida pela viaVia com período refratário curtoFA pré-excitada → risco de FV; perigo dos bloqueadores do nó AV
Pós-despolarizações precoces (EAD)Repolarização prolongada (IKr)Torsades de Pointes no QT longo (congénito, fármacos, hipoK/hipoMg)
Pós-despolarizações tardias (DAD)Sobrecarga de cálcio intracelularTV catecolaminérgica; arritmias da toxicidade digitálica
Reentrada em cicatrizCanais de condução lenta na fibroseTV monomórfica sustentada pós-enfarte
Automatismo aumentadoIsquemia, catecolaminas, hipoxiaEV e TV na isquemia aguda; RIVA de reperfusão
Pró-arritmia por classe ICAbrandamento da condução em cicatrizAumento de mortalidade (CAST); contraindicada na cardiopatia estrutural
Pró-arritmia por classe IIIProlongamento do QTTorsades induzida por sotalol

O denominador comum é simples de enunciar e difícil de respeitar à pressa: antes de bloquear um nó, confirmar que não há pré-excitação; antes de suprimir extrassístoles, confirmar que não há cicatriz; antes de um fármaco que prolonga o QT, verificar potássio, magnésio e medicação concomitante.

Diagnóstico

O diagnóstico das disritmias assenta no ECG de 12 derivações, complementado pela tira de ritmo e, quando disponível, pelo traçado durante a crise. A leitura segue sempre a mesma disciplina: frequência, regularidade, largura do QRS, presença e relação das ondas P, e morfologia. Nesta secção, organiza-se a abordagem por entidade, com ênfase nos sinais que mudam conduta na PNA.

Pré-excitação e WPW

A pré-excitação resulta de uma via acessória (feixe de Kent) que liga aurícula a ventrículo fora do nó auriculoventricular, despolarizando precocemente parte do miocárdio ventricular. Em ritmo sinusal, isto traduz-se numa tríade clássica no ECG:

  • Intervalo PR curto (< 120 ms), porque o impulso contorna o atraso fisiológico do nó AV.
  • Onda delta: empastamento lento do início do QRS, correspondente à ativação ventricular precoce e lenta pelo miocárdio (não pelo sistema His-Purkinje).
  • QRS alargado (> 110-120 ms), por fusão entre a frente de onda da via acessória e a que desce pelo nó AV.

A síndrome de Wolff-Parkinson-White (WPW) define-se quando este padrão de pré-excitação se associa a taquiarritmias sintomáticas. O eixo da onda delta e a sua polaridade nas precordiais ajudam a localizar a via, mas para a prova interessa sobretudo reconhecer o padrão e os seus riscos.

As taquicardias do WPW dividem-se em dois grupos com leitura distinta no ECG:

TaquicardiaCircuitoQRSAchado
AVRT ortodrómicaDesce pelo nó AV, sobe pela via acessóriaEstreito (sem delta na crise)Regular, rápida; a mais frequente
AVRT antidrómicaDesce pela via acessória, sobe pelo nó AVLargo (totalmente pré-excitado)Regular; simula TV
FA pré-excitadaAurícula conduz aos ventrículos pela via acessóriaLargo e variávelIrregular, rápida, perigosa

Na AVRT ortodrómica, a mais comum, a onda delta desaparece durante a crise porque os ventrículos são ativados normalmente pelo His-Purkinje; o QRS é estreito e regular, e pode ver-se uma P retrógrada logo após o QRS. A AVRT antidrómica produz complexos largos e regulares, indistinguível à primeira vista de uma TV.

A fibrilhação auricular pré-excitada é o sinal de alarme major. A FA conduz aos ventrículos pela via acessória, que não tem o efeito de filtro do nó AV, gerando um traçado irregular, de complexos largos e muito rápido (frequências que podem ultrapassar 250/min), com largura do QRS variável batimento a batimento (graus diferentes de fusão). É um substrato com risco de degenerar em fibrilhação ventricular. Reconhecer este padrão tem consequência prática direta: fármacos que bloqueiam o nó AV (verapamilo, diltiazem, betabloqueantes, digoxina, adenosina) estão contraindicados, porque favorecem a condução exclusiva pela via acessória e podem precipitar FV.

Intervalo QT

O intervalo QT mede a despolarização e repolarização ventriculares, do início do QRS ao fim da onda T. Como varia com a frequência cardíaca, mede-se o QTc (corrigido). A fórmula de Bazett (QTc = QT / √RR, com o RR em segundos) é a mais usada na prática, embora sobrecorrija a frequências altas e subcorrija a frequências baixas. Mede-se de preferência em DII e V5-V6, evitando ondas U na medição do fim da T.

Valores-limiar de prolongamento:

CategoriaHomemMulher
QTc normal≤ 450 ms≤ 460 ms
Prolongado> 450 ms> 460 ms
Claramente patológico> 500 ms> 500 ms

Acima de 500 ms o risco de Torsades de Pointes sobe de forma marcada, independentemente do sexo. Convém olhar também para o QT na presença de bradicardia, pausas e extrassístoles, porque o fenómeno de pausa-dependência (ciclo curto-longo-curto) é o gatilho típico da arritmia.

A Torsades de Pointes é uma taquicardia ventricular polimórfica que ocorre no contexto de QT longo. No ECG vê-se uma TV de QRS largos cuja amplitude e polaridade oscilam, dando o aspeto de torção dos complexos em torno da linha de base (eixo a "rodar"). Tende a ser autolimitada, mas pode degenerar em FV. A distinção face a uma TV polimórfica comum faz-se pelo contexto: Torsades implica QT longo de base (congénito ou adquirido, frequentemente por fármacos ou alterações eletrolíticas).

O QT curto (QTc < 340-360 ms) é raro mas relevante, associado a hipercalcemia e a canalopatias com risco arrítmico.

Eletrólitos no ECG

As alterações do potássio e do cálcio têm tradução eletrocardiográfica reconhecível, e o ECG é por vezes mais rápido do que o laboratório a sinalizar uma emergência.

A hipercaliemia segue uma progressão razoavelmente previsível à medida que o potássio sobe, embora a correlação com valores exatos seja imperfeita:

  1. Ondas T apiculadas, altas e de base estreita ("em tenda"), o sinal mais precoce.
  2. Alargamento do QRS e prolongamento do PR.
  3. Achatamento e desaparecimento da onda P.
  4. Onda sinusoidal (fusão de QRS largo com a T), que precede a paragem por assistolia ou FV.

A onda sinusoidal é uma emergência absoluta e exige gluconato de cálcio imediato para estabilizar a membrana, antes mesmo de medidas para baixar o potássio.

A hipocaliemia dá um quadro quase espelhado na repolarização:

  • Achatamento da onda T.
  • Aparecimento de onda U (deflexão após a T, melhor vista em V2-V3), que com a T baixa pode simular um QT longo.
  • Infradesnivelamento do segmento ST.

A hipocaliemia (tal como a hipomagnesemia) predispõe a Torsades de Pointes, pelo que num doente com TV polimórfica se corrige sempre o potássio e o magnésio.

O cálcio atua sobretudo na duração do QT, à custa do segmento ST: a hipocalcemia alonga o QT (ST prolongado) e a hipercalcemia encurta o QT (ST curto ou ausente).

DistúrbioAchado no ECG
Hipercaliemia ligeiraOndas T apiculadas, em tenda
Hipercaliemia graveQRS largo, P achatada, onda sinusoidal
HipocaliemiaOnda U, T achatada, infra-ST, risco de Torsades
HipocalcemiaQT longo (ST prolongado)
HipercalcemiaQT curto

Arritmias ventriculares

As arritmias ventriculares originam-se abaixo da bifurcação do feixe de His e caracterizam-se por QRS largo (≥ 120 ms), porque a ativação ventricular não usa o sistema de condução normal.

As extrassístoles ventriculares (EV) são batimentos prematuros, de QRS largo e morfologia bizarra, sem onda P prévia, habitualmente com pausa compensadora completa. Descrevem-se padrões de bigeminismo (uma EV por cada batimento sinusal), trigeminismo, pares (couplets) e formas multifocais. Isoladas, são frequentemente benignas; em salvas ou muito frequentes num coração com cardiopatia estrutural, ganham peso prognóstico.

A taquicardia ventricular (TV) define-se por três ou mais batimentos ventriculares consecutivos a frequência > 100/min. Classifica-se por duração e por morfologia:

  • TV não sustentada: dura menos de 30 segundos e termina espontaneamente.
  • TV sustentada: dura ≥ 30 segundos ou exige interrupção por instabilidade hemodinâmica.
  • TV monomórfica: todos os QRS têm a mesma morfologia, indicando um único foco/circuito estável; típica da cicatriz pós-enfarte.
  • TV polimórfica: morfologia do QRS variável; sugere isquemia aguda (se QT normal) ou Torsades (se QT longo).

A fibrilhação ventricular (FV) mostra-se como oscilações caóticas, irregulares, sem QRS, P ou T identificáveis e sem débito cardíaco. É paragem cardíaca e exige desfibrilhação imediata.

O problema diagnóstico clássico é a taquicardia de complexos largos: TV ou taquicardia supraventricular (TSV) com condução aberrante (bloqueio de ramo pré-existente ou funcional, ou condução por via acessória). A regra de segurança é inequívoca: uma taquicardia de complexos largos é TV até prova em contrário, sobretudo se houver cardiopatia estrutural ou enfarte prévio (que tornam a TV muito mais provável). Tratar uma TV como se fosse TSV pode ser fatal.

Critérios práticos que favorecem TV:

  • Dissociação auriculoventricular (ondas P independentes do QRS), achado muito específico de TV.
  • Batimentos de captura e de fusão (um batimento sinusal "captura" o ventrículo, gerando QRS estreito ou intermédio no meio da taquicardia).
  • QRS muito largo (> 140 ms com padrão de BRD; > 160 ms com padrão de BRE).
  • Concordância das precordiais (todos os QRS de V1 a V6 positivos ou todos negativos).
  • Desvio extremo do eixo ("noroeste", eixo entre -90° e ±180°).
  • História de enfarte do miocárdio ou disfunção ventricular.

A favor de TSV com aberrância pesa um padrão de QRS típico de bloqueio de ramo conhecido, início com onda P prematura e resposta a manobras vagais ou adenosina. Na dúvida, em doente instável, a cardioversão elétrica resolve qualquer das duas; em doente estável, a adenosina pode servir de teste diagnóstico cauteloso, mas nunca em complexos largos irregulares (que podem ser FA pré-excitada).

onda delta empastamento inicial PR curto QRS largo Tríade do WPW em ritmo sinusal: PR curto + onda delta + QRS alargado.
Esquema original InovaQB (representação estilizada do ECG).
Torsades de Pointes TV polimórfica cujos complexos torcem em torno da linha de base QT longo (o substrato) Congénito: canalopatia (canais de K+/Na+) Fármacos: antiarrítmicos, macrólidos, fluoroquinolonas, antipsicóticos, ondansetron, metadona Eletrólitos: hipocaliemia, hipomagnesemia, hipocalcemia Bradicardia e associação de vários fármacos Tratamento Sulfato de magnésio endovenoso • Corrigir potássio e magnésio • Suspender fármacos que prolongam o QT • Acelerar a frequência (pacing ou isoproterenol) • Desfibrilhar se instável ou degenera em FV Congénito: betabloqueante e CDI nos de alto risco.
Esquema original InovaQB (representação estilizada da Torsades de Pointes).

Tratamento

A gestão destas disritmias divide-se em duas frentes: o controlo agudo do episódio (muitas vezes uma emergência) e a prevenção a longo prazo, que passa cada vez mais pela ablação e pelo cardioversor-desfibrilhador implantável (CDI). O fio condutor de toda a secção é simples: avalia primeiro a estabilidade hemodinâmica. Doente instável (hipotensão, síncope, sinais de baixo débito, dor torácica isquémica, edema pulmonar) impõe cardioversão ou desfibrilhação imediata, qualquer que seja o ritmo. A discussão farmacológica fina só faz sentido no doente estável.

WPW e AVRT

Na taquicardia por reentrada AV ortodrómica (AVRT, complexos estreitos), a conduta é igual à de qualquer TSV dependente do nó AV: manobras vagais (Valsalva modificada, massagem do seio carotídeo) e, se falharem, adenosina endovenosa em bólus rápido. A adenosina bloqueia transitoriamente o nó AV e interrompe o circuito. Se houver contraindicação ou recidiva, verapamil ou diltiazem são alternativas no doente estável e sem pré-excitação no ECG basal.

O cenário de exame é outro: WPW com fibrilhação auricular pré-excitada. Aqui o ECG mostra uma taquicardia irregular, de complexos largos, bizarros e de morfologia variável, frequentemente muito rápida (intervalos RR curtos, por vezes abaixo de 250 ms). A aurícula fibrila e conduz aos ventrículos pela via acessória, que não tem a propriedade de filtro do nó AV. O risco é a degeneração em fibrilhação ventricular.

A regra que importa decorar:

  • Instável: cardioversão elétrica sincronizada sem hesitar.
  • Estável: antiarrítmico que atue na via acessória, ou seja, procainamida ou flecainida. Estes fármacos prolongam a refractariedade da via e diminuem a resposta ventricular.
  • EVITAR todos os bloqueadores exclusivos do nó AV: adenosina, verapamil, diltiazem, betabloqueante e digoxina. Ao travar o nó AV, retiram-lhe a competição e deixam a via acessória "livre" para conduzir ainda mais depressa, podendo precipitar fibrilhação ventricular. Este é um dos erros clássicos cobrados na PNA.

A solução definitiva é a ablação por cateter da via acessória, curativa e considerada primeira linha no doente sintomático ou de alto risco (período refratário anterógrado curto, FA com pré-excitação documentada, profissões de risco). Mesmo o WPW assintomático com características de alto risco em estudo eletrofisiológico tem indicação para ablação.

Intervalo QT longo e Torsades de Pointes

A Torsades de Pointes é uma taquicardia ventricular polimórfica que surge sobre um QT prolongado, com o eixo dos QRS a "torcer" em torno da linha de base. O tratamento agudo segue uma sequência bem definida:

  1. Sulfato de magnésio endovenoso, mesmo com magnesémia normal. É a primeira medida e suprime os pós-despolarizações precoces que disparam a arritmia.
  2. Corrigir o potássio (alvo na metade superior do intervalo normal) e o magnésio.
  3. Suspender todos os fármacos que prolongam o QT e tratar a causa.
  4. Acelerar a frequência cardíaca para encurtar o QT: pacing temporário (auricular ou ventricular, ~90-110 bpm) ou isoprenalina enquanto se prepara o pacing. A bradicardia e as pausas favorecem a recidiva, por isso o objetivo é "preencher" a diástole longa.
  5. Desfibrilhar se a Torsades for sustentada e degenerar em FV ou se houver instabilidade hemodinâmica.

Atenção: na Torsades não se usam antiarrítmicos que prolongam o QT (a maioria do grupo IA e III, como amiodarona ou sotalol, está fora neste contexto agudo). Isso distingue-a da TV monomórfica.

No QT longo congénito, a base do tratamento crónico é o betabloqueante (sobretudo nadolol ou propranolol), eficaz em particular nos subtipos LQT1 e LQT2. O CDI reserva-se aos doentes de alto risco: paragem cardíaca recuperada, síncope recorrente apesar do betabloqueante, ou QT muito prolongado. Em todos é mandatório evitar fármacos que prolongam o QT (consultar listas tipo CredibleMeds) e corrigir agressivamente distúrbios eletrolíticos. A simpatectomia cardíaca esquerda é opção em casos refratários.

Arritmias ventriculares

TV/FV sem pulso: é paragem cardíaca. Desfibrilhação imediata dentro do algoritmo de Suporte Avançado de Vida, com compressões torácicas de alta qualidade entre os choques e adrenalina conforme o protocolo. A amiodarona (ou lidocaína) entra como antiarrítmico na FV/TV refratária ao choque, não antes dele.

TV monomórfica sustentada com pulso:

  • Instável: cardioversão elétrica sincronizada.
  • Estável: opções são cardioversão ou um antiarrítmico endovenoso (amiodarona ou procainamida). A procainamida tem boa evidência para terminação aguda da TV monomórfica estável; a amiodarona é particularmente útil no doente com disfunção ventricular. O verapamil só faz sentido na TV fascicular idiopática sensível ao verapamil, uma exceção a confirmar pelo padrão de ECG.

Em qualquer TV, tratar a causa reversível muda o prognóstico: isquemia aguda (revascularizar), distúrbios eletrolíticos, toxicidade farmacológica, insuficiência cardíaca descompensada.

Prevenção da morte súbita é onde o CDI domina:

  • Prevenção secundária: sobreviventes de paragem cardíaca por FV/TV ou TV sustentada com instabilidade, sem causa totalmente reversível, têm indicação clara para CDI.
  • Prevenção primária: doentes de alto risco, sobretudo com fração de ejeção muito reduzida (FEVE ≤ 35%) sintomáticos apesar de terapêutica médica otimizada, na miocardiopatia isquémica e na não isquémica. O CDI reduz a mortalidade nestes grupos.
  • Ablação das TV recorrentes ou incessantes, em especial as TV cicatriciais pós-enfarte, reduz as descargas do CDI e as recidivas. Não substitui o CDI; complementa-o. A otimização farmacológica (betabloqueante, por vezes amiodarona ou sotalol) acompanha estas estratégias.

Pró-arritmia e correção de eletrólitos

Muitas arritmias ventriculares são iatrogénicas ou metabólicas. O princípio é direto: suspender o agente causal e corrigir o ambiente iónico.

  • Repor potássio e magnésio é a medida transversal. A hipocaliemia e a hipomagnesémia prolongam o QT, baixam o limiar arritmogénico e potenciam a toxicidade digitálica.
  • Pró-arritmia por antiarrítmicos: os do grupo IA e III prolongam o QT e podem desencadear Torsades; os do grupo IC podem causar TV incessante ou flutter de condução 1:1, sobretudo em coração com cicatriz ou isquemia. Reconhecer o padrão e parar o fármaco.
  • Toxicidade digitálica: pode dar quase qualquer arritmia (extrassistolia ventricular, taquicardia auricular com bloqueio, TV bidireccional). Tratar com correção do potássio e, na toxicidade grave com arritmias ameaçadoras, fragmentos Fab anti-digoxina.
  • Hipercaliemia com toxicidade no ECG (ondas T apiculadas a evoluir para alargamento do QRS, ondas sinusoidais): emergência. Estabilizar a membrana com gluconato de cálcio endovenoso (efeito imediato, não baixa o potássio), e deslocar o potássio para o intracelular com insulina + glicose e salbutamol. A remoção do potássio (resinas, diuréticos, diálise) vem a seguir. Em qualquer arritmia ventricular sem causa óbvia, a gasimetria com ionograma é dos primeiros exames.

Síntese: situação, conduta de 1.ª linha e armadilha

SituaçãoConduta de 1.ª linhaNota / armadilha
AVRT estável (complexos estreitos)Manobras vagais → adenosina EVVerapamil/diltiazem só se ECG basal sem pré-excitação
WPW + FA pré-excitada, instávelCardioversão elétrica sincronizadaNão perder tempo com fármacos
WPW + FA pré-excitada, estávelProcainamida ou flecainidaNunca adenosina/verapamil/diltiazem/betabloqueante/digoxina (precipitam FV)
WPW sintomático ou alto riscoAblação por cateter da via acessóriaCurativa; primeira linha definitiva
Torsades de PointesSulfato de magnésio EV + corrigir K⁺Acelerar FC (pacing/isoprenalina); evitar fármacos que prolongam o QT
Torsades instável / degenera em FVDesfibrilhaçãoChoque assincrónico se FV/sem pulso
QT longo congénitoBetabloqueante (nadolol/propranolol)CDI nos de alto risco; evitar fármacos pró-QT
TV/FV sem pulsoDesfibrilhação imediata (SAV)Amiodarona só na FV/TV refratária ao choque
TV monomórfica sustentada, instávelCardioversão elétrica sincronizadaSincronizada, não assincrónica
TV monomórfica sustentada, estávelAmiodarona ou procainamida (ou cardioversão)Tratar isquemia/eletrólitos a montante
Prevenção secundária de morte súbitaCDIApós excluir causa totalmente reversível
Prevenção primária (FEVE ≤ 35%)CDISob terapêutica médica otimizada
Pró-arritmia farmacológicaSuspender o fármaco + repor K⁺/Mg²⁺Fab anti-digoxina na toxicidade digitálica grave
Hipercaliemia com toxicidade no ECGGluconato de cálcio EV + insulina/glicoseCálcio estabiliza a membrana mas não baixa o K⁺

O resumo prático: estabilidade primeiro, choque para o instável, e no WPW pré-excitado fugir dos bloqueadores do nó AV. Na Torsades, magnésio e acelerar; nas arritmias ventriculares estruturais, CDI para prevenir a morte súbita e ablação para domar as recidivas. E em qualquer caso obscuro, pensar sempre em eletrólitos e fármacos antes de assumir doença primária do ritmo.

Fibrilhação auricular pré-excitada (WPW) ECG irregular, de complexos largos e muito rápido EVITAR Bloqueadores do nó AV • Adenosina • Verapamil, diltiazem • Betabloqueante • Digoxina Bloqueiam o nó AV e favorecem a via acessória → podem precipitar fibrilhação ventricular FAZER Instável: cardioversão eléctrica Estável: procainamida ou ibutilida (flecainida como alternativa); actuam na via Definitivo: ablação por cateter da via acessória (curativa, 1.ª linha se sintomático ou de alto risco) Regra de ouro: na FA pré-excitada, nunca bloquear só o nó AV. A AVRT de complexos estreitos (sem pré-excitação na FA) responde a manobras vagais e adenosina.
Esquema original InovaQB, baseado nas guidelines ESC 2019 das taquicardias supraventriculares.

Referências

  1. Loscalzo J, Fauci A, Kasper D, et al., editores. Harrison's Principles of Internal Medicine. 21.ª ed. Nova Iorque: McGraw-Hill; 2022 (arritmias ventriculares; pré-excitação; canalopatias).
  2. Zeppenfeld K, Tfelt-Hansen J, de Riva M, et al. 2022 ESC Guidelines for the management of patients with ventricular arrhythmias and the prevention of sudden cardiac death. Eur Heart J. 2022;43(40):3997-4126.
  3. Brugada J, Katritsis DG, Arbelo E, et al. 2019 ESC Guidelines for the management of patients with supraventricular tachycardia. Eur Heart J. 2020;41(5):655-720.
  4. Sociedade Portuguesa de Cardiologia. Recomendações sobre arritmias ventriculares e morte súbita (alinhadas com a ESC).
  5. UpToDate (consultado em 2026): Wolff-Parkinson-White syndrome; Acquired long QT syndrome; Sustained monomorphic ventricular tachycardia.

12 perguntas sobre Disritmias - Síndrome de Wolff-Parkinson-White; alterações do intervalo QT; fármacos e eletrólitos; arritmias ventriculares

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