Disritmias: WPW, intervalo QT, fármacos/eletrólitos e arritmias ventriculares
Atualizado em 27 de setembro de 2026 · 16 perguntas neste tema
Este tema junta as arritmias que levam à morte súbita e as condições que as preparam. Quase todas acabam no mesmo ponto: uma taquicardia ventricular rápida, uma torsade de pointes ou uma fibrilhação auricular pré-excitada que degenera em fibrilhação ventricular.
No Wolff-Parkinson-White uma via acessória liga aurícula e ventrículo por fora do nó auriculoventricular. Em ritmo sinusal dá PR curto, onda delta e QRS largo. A arritmia comum é a reentrada ortodrómica, regular e de complexos estreitos, que responde às manobras vagais e à adenosina. A perigosa é a fibrilhação auricular pré-excitada, rápida, larga e irregular, em que os bloqueadores do nó e a amiodarona endovenosa estão proibidos e se usa a cardioversão elétrica ou um fármaco que atue na via. A ablação da via é curativa.
O QT longo prepara a torsade de pointes. As causas adquiridas, fármacos e falta de potássio, magnésio ou cálcio, são muito mais frequentes do que as congénitas. Um QTc acima de 500 ms é o limiar de perigo. A torsade trata-se com sulfato de magnésio, correção dos eletrólitos, suspensão dos fármacos e aceleração da frequência. O QT longo congénito trata-se com betabloqueante, e cada tipo tem o seu gatilho.
Os eletrólitos deixam assinatura no eletrocardiograma. A hipercaliemia progride de onda T apiculada para P achatada e PR longo, depois QRS largo e por fim onda sinusoidal; com alterações no traçado dá-se cálcio endovenoso primeiro, e depois insulina com glicose.
Uma taquicardia de complexos largos é ventricular até prova em contrário. Com instabilidade faz-se cardioversão; estável e com doença estrutural, a procainamida tem recomendação mais forte do que a amiodarona, e a cardioversão é sempre alternativa. A taquicardia monomórfica do adulto é quase sempre reentrada em cicatriz de enfarte; a polimórfica com QT normal é isquemia até prova em contrário. Num jovem com coração normal pensa-se nas canalopatias: Brugada, com eventos no sono e na febre, e a taquicardia catecolaminérgica, no esforço. O que não se pode falhar: não bloquear o nó na fibrilhação pré-excitada, dar magnésio na torsade, dar cálcio na hipercaliemia com alterações e rastrear a família de um jovem que morreu subitamente.
- Via acessória: feixe de miocárdio que liga aurícula e ventrículo por fora do nó auriculoventricular, através do anel mitral ou tricúspide. Resulta de uma separação embrionária incompleta das aurículas e dos ventrículos e está presente desde o nascimento.
- Padrão de Wolff-Parkinson-White: pré-excitação no eletrocardiograma em ritmo sinusal, sem arritmias. Síndrome de Wolff-Parkinson-White: pré-excitação com taquiarritmias, em regra recorrentes.
- O padrão encontra-se em 0,15 a 0,25% da população geral e em 0,55% dos familiares em primeiro grau de quem o tem.
- A maioria dos doentes tem o coração estruturalmente normal. As associações a conhecer são a anomalia de Ebstein e formas de hipertrofia ventricular esquerda (mutações do PRKAG2, doenças de Danon e de Fabry).
- Localização: cerca de 60% na parede livre esquerda, 25% septais e 15% na parede livre direita.
- Via oculta: conduz só no sentido retrógrado, do ventrículo para a aurícula. Não há pré-excitação no traçado basal, pode dar reentrada ortodrómica e não aumenta o risco de morte súbita.
- Há vias acessórias múltiplas em até 12% dos doentes com pré-excitação e em até 50% dos doentes com anomalia de Ebstein.
Pré-excitação em ritmo sinusal
- O nó auriculoventricular atrasa o impulso; a via acessória não. Parte do ventrículo começa a despolarizar-se mais cedo pela via, e o PR fica curto.
- Essa ativação inicial faz-se de miócito para miócito, fora do sistema de His-Purkinje, e é lenta: dá o empastamento inicial do QRS, a onda delta, e alarga o QRS.
- O QRS é uma fusão entre o que chega pela via e o que chega pelo nó. Quanto mais longe a via estiver do nó sinusal (as da parede livre esquerda), menor a pré-excitação, que pode até não se ver.
As taquicardias
| arritmia | circuito | QRS na crise | frequência nos doentes com síndrome |
|---|---|---|---|
| Reentrada ortodrómica | desce pelo nó, sobe pela via | estreito, sem onda delta | a mais comum, cerca de 80% |
| Reentrada antidrómica | desce pela via, sobe pelo nó ou por outra via | largo, totalmente pré-excitado | 3 a 8% |
| Fibrilhação auricular pré-excitada | a via deixa passar impulsos auriculares ao ventrículo | largo, irregular, de forma variável | 20 a 30% |
- Na reentrada ortodrómica o nó e a via fazem ambos parte do circuito: bloquear qualquer um termina a taquicardia.
- Na fibrilhação auricular pré-excitada a via não faz parte de circuito nenhum, é só uma porta. Como não tem o filtro do nó, uma via com período refratário curto conduz ao ventrículo frequências muito altas, que podem degenerar em fibrilhação ventricular.
- Bloquear o nó nesta situação não trava a via e pode acelerar a resposta ventricular, porque deixa de haver impulsos pelo nó a competir com os da via.
- A reentrada ortodrómica rápida pode, ela própria, desencadear fibrilhação auricular.
- Muitos portadores do padrão nunca têm sintomas. Cerca de um em cada cinco desenvolve uma arritmia relacionada com a via durante o seguimento.
- Reentrada ortodrómica: palpitações regulares, de início e fim súbitos, muitas vezes em jovens, com frequências de 150 a mais de 220 por minuto. Termina com as manobras vagais.
- Fibrilhação auricular pré-excitada: palpitações rápidas e irregulares, tonturas, síncope ou paragem cardíaca. Pode ser a primeira manifestação.
- A fibrilhação auricular paroxística surge em cerca de metade dos doentes com a síndrome, tipicamente jovens e sem doença estrutural.
- A pré-excitação pode ser intermitente e desaparecer ao longo dos anos, em até 35% dos casos.
Eletrocardiograma em ritmo sinusal
- PR curto, 120 ms ou menos.
- Onda delta: empastamento da subida (ou da descida) inicial do QRS.
- QRS largo, acima de 120 ms, com alterações secundárias da repolarização.
- A polaridade da onda delta localiza a via. As ondas delta negativas nas derivações inferiores ou em aVL imitam as ondas Q de um enfarte inferior ou lateral, e uma via direita dá morfologia de bloqueio de ramo esquerdo em V1.
Eletrocardiograma na taquicardia
| ritmo | aspeto |
|---|---|
| Reentrada ortodrómica | QRS estreito, regular; onda P retrógrada depois do QRS, no segmento ST; sem delta |
| Reentrada antidrómica | QRS largo e regular, indistinguível de taquicardia ventricular sem o traçado basal |
| Fibrilhação auricular pré-excitada | rápida, larga e irregular, com QRS que muda de batimento para batimento |
- Na reentrada ortodrómica a onda P vem sempre depois do QRS, nunca em simultâneo com ele, porque o ventrículo tem de ser ativado antes de o impulso chegar à via e voltar à aurícula.
- O traçado basal é o que permite interpretar o da crise: uma taquicardia larga num doente com pré-excitação conhecida sugere circuito pela via.
Estratificação do risco
- Faz-se na síndrome e no padrão assintomático, para saber se a via consegue conduzir ao ventrículo frequências perigosas.
- Sinais de alto risco no estudo eletrofisiológico: intervalo RR pré-excitado mais curto durante fibrilhação auricular de 250 ms ou menos; período refratário efetivo anterógrado da via de 250 ms ou menos; vias múltiplas; reentrada induzível.
- Sinal de baixo risco não invasivo: desaparecimento súbito e completo da onda delta, com normalização do PR, na prova de esforço ou no Holter. A pré-excitação intermitente é um marcador imperfeito, porque mais de um quinto destas vias tem período refratário abaixo de 250 ms.
- Ecocardiograma para excluir anomalia de Ebstein e miocardiopatia hipertrófica.
Diagnóstico diferencial
- Enfarte antigo (pseudo-ondas Q), bloqueio de ramo e hipertrofia ventricular, no traçado basal.
- Taquicardia ventricular, na antidrómica e na fibrilhação pré-excitada.
- Taquicardia por reentrada no nó auriculoventricular, na ortodrómica com via oculta.
Fibrilhação auricular pré-excitada
- Instabilidade hemodinâmica: cardioversão elétrica sincronizada imediata. O limiar para a cardioversão elétrica é baixo mesmo no doente estável.
- Estável: ibutilida ou procainamida endovenosas, que atuam na via; a flecainida e a propafenona endovenosas são alternativa, com cautela, e estão contraindicadas na doença cardíaca estrutural ou isquémica. Se os fármacos falharem, cardioversão elétrica.
- Não se dão: adenosina, verapamilo, diltiazem, betabloqueante, digoxina e amiodarona endovenosa. Todos atrasam o nó e podem deixar a condução pela via acelerar até à fibrilhação ventricular.
Reentrada ortodrómica
- Instável: cardioversão elétrica sincronizada.
- Estável: manobras vagais primeiro. A manobra de Valsalva modificada, feita semissentado e seguida de decúbito com elevação passiva das pernas, converte muito mais do que a clássica (43% contra 17%).
- Depois, adenosina endovenosa em bólus rápido, 6 mg, depois 12 mg, e 18 mg a considerar. Na via acessória usa-se com cautela e com o desfibrilhador à mão, porque pode desencadear fibrilhação auricular rápida.
- Se a adenosina falhar: verapamilo ou diltiazem endovenosos (não na hipotensão nem na insuficiência cardíaca com fração reduzida), ou betabloqueante endovenoso (não na insuficiência cardíaca descompensada).
- Aqui os bloqueadores do nó funcionam porque o nó faz parte do circuito.
Reentrada antidrómica
- Preferem-se fármacos que atuam na via (ibutilida, procainamida, flecainida, propafenona) ou cardioversão elétrica; a amiodarona fica para os casos refratários.
Tratamento definitivo
- Ablação por cateter da via acessória: tratamento de escolha na reentrada sintomática e recorrente e em quem já teve fibrilhação auricular pré-excitada. Sucesso de cerca de 95%, complicações graves em menos de 3% (bloqueio auriculoventricular nas vias septais, tamponamento) e mortalidade inferior a 1 por 1000.
- Pré-excitação assintomática: estratificação do risco, invasiva ou não invasiva. Se houver sinais de alto risco, ablação. Sem eles, vigilância ou ablação, decididas com o doente. Quem tem profissão de risco (pilotos, motoristas profissionais) faz estudo eletrofisiológico.
- Quando não se faz ablação: na reentrada ortodrómica sem pré-excitação no traçado basal, betabloqueante, diltiazem ou verapamilo; com pré-excitação, fármacos de classe IC (flecainida, propafenona), se não houver cardiopatia estrutural ou isquémica.
- A complicação temida é a morte súbita por fibrilhação auricular pré-excitada que degenera em fibrilhação ventricular.
- Na síndrome não tratada, o risco de paragem cardíaca ou fibrilhação ventricular é de 0,9 a 2,4 por 1000 pessoas-ano.
- No adulto com pré-excitação sem sintomas, o risco de morte súbita estima-se em cerca de 1 por 1000 doentes-ano.
- Depois de uma ablação eficaz o problema fica resolvido.
- A taquicardia reciprocante juncional permanente, uma forma rara de reentrada por via oculta de condução lenta, quase incessante, pode causar miocardiopatia induzida pela taquicardia, que regride com a ablação.
- Criança: o risco de morte súbita é maior do que no adulto, cerca de 2 por 1000 doentes-ano. A taquicardia da síndrome costuma controlar-se com fármacos, e muitas vias perdem a condução anterógrada nos primeiros anos de vida.
- Na criança com pré-excitação assintomática não se recomenda estratificar o risco antes dos 8 anos.
- A ablação adia-se nas crianças pequenas, pelo risco de complicações e pelo tamanho relativo da lesão.
- Profissões de risco (pilotos, forças de segurança, motoristas profissionais): o estudo eletrofisiológico está indicado mesmo sem sintomas.
- O intervalo QT mede a despolarização e a repolarização ventriculares. Corrige-se para a frequência cardíaca (QTc) e confere-se à mão: a medição automática não se aceita sem revisão.
- Limite superior do normal (percentil 99) depois da puberdade: cerca de 470 ms no homem e 480 ms na mulher. Um QTc acima de 500 ms é muito anormal em ambos os sexos. Muitos algoritmos automáticos chamam limítrofe a um QTc acima de 440 ms, valor que 10 a 20% da população ultrapassa.
- Torsade de pointes: taquicardia ventricular polimórfica, em contexto de QT longo, com complexos que parecem rodar em torno da linha de base, com amplitude que cresce e decresce.
- QT longo adquirido: fármacos e alterações eletrolíticas, muito mais frequente do que o congénito.
- Síndrome do QT longo congénito: prevalência de cerca de 1 em 2500 na forma autossómica dominante, idade média de apresentação de 14 anos. Os genes KCNQ1, KCNH2 e SCN5A (tipos 1, 2 e 3) dão conta de 90% dos casos com genótipo positivo.
- Formas com manifestações extracardíacas: Jervell e Lange-Nielsen (autossómica recessiva, QT muito longo com surdez congénita), Timothy e Andersen-Tawil.
Da repolarização lenta à torsade
- A repolarização ventricular depende sobretudo das correntes de saída de potássio. Menos corrente de potássio (por bloqueio farmacológico, por hipocaliemia ou por mutação) ou mais corrente tardia de sódio prolongam o potencial de ação e o QT.
- A repolarização prolongada permite pós-despolarizações precoces, que disparam extrassístoles ventriculares sobre uma repolarização heterogénea e iniciam a torsade.
- Início dependente de pausa: extrassístole, pausa compensadora, batimento sinusal seguinte com QT ainda mais longo, nova extrassístole sobre a onda T. É a sequência curto, longo, curto.
- Por isso a bradicardia e as pausas precipitam a torsade e acelerar a frequência suprime-a.
Causas do QT longo adquirido
- Fármacos, em regra por bloqueio da corrente rápida de potássio:
- antiarrítmicos de classe IA (quinidina, disopiramida, procainamida) e de classe III (sotalol, ibutilida, dofetilida, amiodarona, esta com torsade rara);
- macrólidos (eritromicina, claritromicina, azitromicina) e fluoroquinolonas (levofloxacina, moxifloxacina, ciprofloxacina);
- antipsicóticos (haloperidol, sobretudo endovenoso; fenotiazinas) e antidepressivos (citalopram, escitalopram, tricíclicos);
- antieméticos (ondansetrom, domperidona), metadona, pentamidina.
- Eletrólitos: hipocaliemia, hipomagnesemia, hipocalcemia.
- Outros: bradicardia e bloqueio auriculoventricular, hipotermia, hemorragia intracraniana (sobretudo subaracnoideia).
Fatores que somam risco
- Sexo feminino, idade avançada, cardiopatia estrutural, insuficiência cardíaca, diuréticos, insuficiência renal ou hepática, interações que aumentam a concentração do fármaco, administração endovenosa rápida, associação de mais de um fármaco que prolonga o QT, e síndrome congénita latente.
QT longo congénito
| tipo | gene e corrente | gatilho típico |
|---|---|---|
| 1 | KCNQ1, menos corrente lenta de potássio | esforço, sobretudo a natação |
| 2 | KCNH2, menos corrente rápida de potássio | emoção e ruído súbito (despertador, telefone); pós-parto |
| 3 | SCN5A, corrente de sódio que não inativa | repouso e sono |
- A torsade é muitas vezes autolimitada e dá pré-síncope ou síncope; quando se mantém, degenera em fibrilhação ventricular e paragem cardíaca.
- Extrassístoles ventriculares e salvas de taquicardia não mantida costumam anteceder os episódios mantidos.
- No QT longo adquirido o cenário típico é o doente internado, idoso, a fazer vários fármacos, com diuréticos ou perdas digestivas.
- No congénito: síncope ou paragem num jovem com o gatilho do seu tipo, surdez congénita, história familiar de morte súbita inexplicada, ou achado num eletrocardiograma de rotina ou no rastreio familiar.
- A síncope do QT longo pode confundir-se com crise epilética.
QT longo adquirido: sinais de torsade iminente
- QTc acima de 500 ms, ou aumento de 60 ms ou mais em relação ao traçado antes do fármaco. Um QTc acima de 500 ms associa-se a um risco duas a três vezes maior de torsade, e cada 10 ms a mais aumenta o risco em cerca de 5 a 7%.
- Deformação da onda T e da onda U mais marcada no batimento a seguir a uma pausa.
- Alternância macroscópica da onda T.
- Extrassístoles ventriculares novas, pares, e salvas de taquicardia polimórfica iniciadas depois de pausa.
- Pedir potássio, magnésio e cálcio, e rever toda a medicação, incluindo a que não foi prescrita.
Síndrome do QT longo congénito
- Diagnóstico clínico com QTc de 480 ms ou mais em eletrocardiogramas repetidos, ou pontuação de risco acima de 3.
- Com síncope arrítmica ou paragem cardíaca, basta um QTc de 460 ms ou mais.
| achado | pontos |
|---|---|
| QTc de 480 ms ou mais | 3,5 |
| QTc de 460 a 479 ms | 2 |
| QTc de 450 a 459 ms, no homem | 1 |
| QTc de 480 ms ou mais ao quarto minuto da recuperação da prova de esforço | 1 |
| Torsade de pointes | 2 |
| Alternância da onda T | 1 |
| Onda T entalhada em 3 derivações | 1 |
| Frequência cardíaca baixa para a idade | 0,5 |
| Síncope com stress | 2 |
| Síncope sem stress | 1 |
| Familiar com síndrome do QT longo definida | 1 |
| Morte súbita inexplicada abaixo dos 30 anos num familiar em primeiro grau | 0,5 |
| Mutação patogénica | 3,5 |
- Ajudam o QT que não encurta ao levantar rápido ou no esforço, e a prova de esforço.
- Teste genético e aconselhamento em centro especializado em todos os casos de diagnóstico clínico. O familiar com a mutação e QT normal também tem a síndrome.
Síndrome do QT curto
- Rara: QTc de 320 ms ou menos, ou de 360 ms ou menos com história familiar, paragem cardíaca sem doença estrutural ou mutação patogénica.
- Fibrilhação auricular precoce e fibrilhação ventricular num coração normal; a probabilidade de uma primeira paragem até aos 40 anos ultrapassa 40%.
Diagnóstico diferencial da taquicardia polimórfica
- Com QT normal: isquemia aguda (a causa mais frequente), síndrome de Brugada, taquicardia ventricular polimórfica catecolaminérgica.
- Com QT longo: torsade de pointes.
Torsade de pointes
- Instável ou sem pulso: desfibrilhação, que numa taquicardia polimórfica não se sincroniza, e algoritmo de suporte avançado de vida.
- Sulfato de magnésio endovenoso, 1 a 2 g, mesmo com magnesemia normal. Suprime em regra os episódios recorrentes.
- Suspender todos os fármacos que prolongam o QT e corrigir a hipocaliemia, a hipocalcemia e a bradicardia.
- Se o magnésio não chegar: acelerar a frequência para 100 a 120 por minuto, com isoprenalina em perfusão ou pacemaker temporário. Encurta o QT e elimina as pausas.
- Quem teve torsade por fármaco passa a ter suscetibilidade conhecida e deve evitar para sempre os fármacos que prolongam o QT.
Prevenção no QT longo adquirido
- Quem precisa de um fármaco que prolonga o QT faz eletrocardiogramas regulares, sobretudo se tiver outros fatores de risco.
- QTc acima de 500 ms ou subida de 60 ms ou mais: trocar o fármaco, corrigir eletrólitos e bradicardia, rever interações, e manter o doente monitorizado com desfibrilhador disponível.
- A exceção é a amiodarona (e o verapamilo), que prolongam o QT com risco de torsade baixo.
Síndrome do QT longo congénito
- Todos: evitar fármacos que prolongam o QT e a hipocaliemia, e os gatilhos do seu tipo (natação intensa no tipo 1, ruídos súbitos no tipo 2).
- Betabloqueante em todos, de preferência não seletivo: nadolol ou propranolol. Também se considera nos portadores da mutação com QT normal.
- Mexiletina no tipo 3, se encurtar o QTc em 40 ms num teste oral.
- Cardioversor-desfibrilhador implantável (CDI): sobreviventes de paragem cardíaca, e síncope ou arritmia ventricular apesar de terapêutica médica otimizada.
- Desnervação simpática cardíaca esquerda: doente sintomático com betabloqueante quando o CDI está contraindicado ou é recusado, ou em quem tem choques múltiplos. Não substitui o CDI.
Síndrome do QT curto
- CDI na prevenção secundária; a quinidina é o antiarrítmico com mais suporte.
- A torsade mantida degenera em fibrilhação ventricular e morte súbita.
- No QT longo congénito sem tratamento, a morte súbita anual é inferior a 0,5% nos assintomáticos e sobe para cerca de 5% em quem já teve síncope.
- Marcadores de maior risco: QTc acima de 500 ms, sexo feminino, síncope ou paragem prévias.
- Os sobreviventes de paragem têm recorrência elevada mesmo com betabloqueante, 14% em 5 anos, o que justifica o CDI.
- O QT longo adquirido é, em regra, reversível quando se retira a causa.
- Gravidez e pós-parto: na síndrome do QT longo, sobretudo no tipo 2, o risco de eventos sobe muito no pós-parto, até um ano depois do parto. O betabloqueante mantém-se durante toda a gravidez e no pós-parto.
- Idoso internado: é o doente típico do QT longo adquirido, pela polimedicação, pelos diuréticos e pelas interações.
- Criança e adolescente: a síndrome congénita apresenta-se muitas vezes nesta idade; a surdez congénita com QT longo aponta para Jervell e Lange-Nielsen.
- Várias alterações metabólicas e fármacos mudam a repolarização (ST, T, U) e por vezes o QRS. Algumas alterações eletrolíticas graves podem ser suspeitadas e vigiadas primeiro pelo eletrocardiograma.
- Os desequilíbrios eletrolíticos, sobretudo a hipocaliemia, podem desencadear arritmias ventriculares, e uma subida rápida do potássio extracelular pode levar a assistolia.
- As causas reversíveis, eletrólitos incluídos, podem estar por trás de até 50% das paragens cardíacas súbitas.
- Hipercaliemia: despolariza a membrana em repouso e acelera a repolarização. Primeiro a onda T fica alta e estreita; depois a condução abranda nas aurículas, no nó e nos ventrículos.
- Hipocaliemia: menos corrente de repolarização de potássio; prolonga a repolarização e favorece as pós-despolarizações precoces e a torsade. Com a hipomagnesemia, que muitas vezes a acompanha, é um dos substratos clássicos da torsade.
- Cálcio: mexe sobretudo na duração do segmento ST. A hipocalcemia alonga-o e prolonga o QT; a hipercalcemia encurta-o.
- Bloqueadores dos canais de sódio (classe IC, antidepressivos tricíclicos) e a hipercaliemia abrandam a condução ventricular e alargam o QRS.
- Digoxina: encurta o QT e dá a depressão do ST «em colher». Na toxicidade, as pós-despolarizações tardias explicam a taquicardia ventricular bidirecional.
A sequência da hipercaliemia
- Onda T apiculada, alta e estreita.
- Onda P achatada e PR prolongado, com perturbações da condução auriculoventricular; a onda P acaba por desaparecer.
- QRS alargado.
- Padrão sinusoidal, que precede a fibrilhação ventricular ou a assistolia.
- As alterações costumam aparecer a partir de 6 mEq/L na hipercaliemia aguda; na crónica o traçado pode estar normal até 8 a 9 mEq/L.
- O eletrocardiograma orienta a urgência do tratamento melhor do que um valor isolado de potássio.
Assinaturas no traçado
| alteração | eletrocardiograma |
|---|---|
| Hipercaliemia | T apiculada, depois P achatada e PR longo, depois QRS largo, por fim onda sinusoidal |
| Hipocaliemia | onda U proeminente, repolarização prolongada, extrassístoles e torsade |
| Hipomagnesemia | associada à torsade, muitas vezes com hipocaliemia |
| Hipocalcemia | QT longo, à custa do segmento ST |
| Hipercalcemia | QT curto |
| Hipotermia | QT longo, onda J de Osborn |
| Digoxina | QT curto, ST «em colher»; na toxicidade, taquicardia bidirecional |
| Antiarrítmicos de classe IA e III, outros fármacos | QT longo |
| Classe IC, tricíclicos | QRS largo |
Hipercaliemia com alterações no eletrocardiograma
- Proteger o coração: 10 mL de cloreto de cálcio a 10% endovenoso em 2 a 5 minutos. Atua em 1 a 3 minutos; repete-se se as alterações persistirem. Não baixa o potássio.
- Deslocar o potássio para dentro das células: 10 unidades de insulina de ação curta com 25 g de glicose endovenosas, vigiando a glicemia; salbutamol nebulizado, 10 a 20 mg.
- Retirar potássio do organismo: quelantes de potássio e diálise nos casos refratários.
- Na paragem cardíaca por hipercaliemia o cálcio dá-se em bólus rápido e junta-se bicarbonato de sódio, 50 mmol.
- Rever e suspender o que retém potássio: anti-inflamatórios não esteroides, inibidores do sistema renina-angiotensina-aldosterona, poupadores de potássio.
Hipocaliemia e hipomagnesemia
- Repor o potássio e o magnésio em qualquer arritmia ventricular, e sempre na torsade.
- Rever a causa: os diuréticos tiazídicos e de ansa são causa frequente.
Arritmia causada por fármacos
- Suspender o fármaco suspeito, evitar outros que prolonguem o QT e corrigir os eletrólitos.
| termo | definição |
|---|---|
| Extrassístole ventricular | QRS prematuro e anómalo, em regra de 120 ms ou mais, sem onda P antes, com T oposta ao QRS |
| Taquicardia ventricular | 3 ou mais batimentos seguidos acima de 100 por minuto, com origem ventricular |
| Não mantida | de 3 batimentos até 30 segundos |
| Mantida | 30 segundos ou mais, ou que precisa de intervenção para terminar |
| Monomórfica | QRS igual de batimento para batimento |
| Polimórfica | QRS em mudança contínua |
| Bidirecional | eixo do QRS que alterna batimento a batimento |
| Fibrilhação ventricular | ritmo caótico, sem QRS distinguíveis |
| Tempestade arrítmica | arritmia ventricular 3 ou mais vezes em 24 horas, separadas por pelo menos 5 minutos, cada uma a precisar de intervenção |
| Ritmo idioventricular acelerado | 3 ou mais batimentos ventriculares abaixo de 100 por minuto |
- Morte súbita cardíaca: morte natural de causa presumivelmente cardíaca na primeira hora após os sintomas, quando presenciada, ou até 24 horas depois de a pessoa ter sido vista viva.
- A morte súbita é cerca de metade das mortes cardiovasculares, e até metade das vezes é a primeira manifestação da doença cardíaca.
- A incidência sobe muito com a idade: 1 por 100 000 pessoas-ano na infância, cerca de 50 na quinta e sexta décadas, pelo menos 200 na oitava.
- A doença coronária está na origem de 75 a 80% das mortes súbitas nos países ocidentais. Abaixo dos 50 anos, as doenças elétricas primárias e as miocardiopatias podem ser mais de metade.
Taquicardia ventricular monomórfica
- Com doença estrutural, o mecanismo habitual é a reentrada em torno de cicatriz: enfarte antigo (o mais comum), miocardiopatia dilatada, sarcoidose, doença de Chagas, miocardiopatia arritmogénica, cirurgia prévia como na tetralogia de Fallot corrigida.
- A cicatriz de enfarte é um substrato duradouro: a taquicardia surge muitas vezes anos depois do enfarte e recorre em até 70% dos doentes em 2 anos. Não depende de isquemia nova, pelo que a revascularização não a previne.
- Reentrada ramo a ramo: cerca de 5% das taquicardias monomórficas com doença estrutural; circuito pelos ramos do feixe de His, com morfologia de bloqueio de ramo esquerdo; a ablação do ramo direito elimina-a.
- Idiopática, com coração normal: foco de atividade desencadeada no trato de saída (sobretudo do ventrículo direito) ou reentrada no sistema de Purkinje esquerdo (fascicular).
Taquicardia polimórfica e fibrilhação ventricular
- Isquemia aguda: a causa mais frequente de taquicardia polimórfica com QT normal. Entre 4 e 12% dos doentes com enfarte com supradesnivelamento do ST têm arritmia ventricular nas primeiras 48 horas.
- QT longo (torsade), síndrome de Brugada, taquicardia polimórfica catecolaminérgica, QT curto, repolarização precoce, miocardiopatia hipertrófica.
- Pós-despolarizações tardias, por sobrecarga de cálcio intracelular, explicam a taquicardia catecolaminérgica e a toxicidade digitálica.
Fatores precipitantes
- Hipocaliemia e hipomagnesemia, isquemia, bradicardia, febre, fármacos pró-arrítmicos, estimulantes.
Antiarrítmicos e pró-arritmia
- Nenhum antiarrítmico, com exceção dos betabloqueantes, mostrou reduzir a mortalidade total.
- Os bloqueadores dos canais de sódio (flecainida, propafenona) evitam-se na doença cardíaca estrutural, pelo risco de pró-arritmia e pelo efeito inotrópico negativo; a flecainida aumentou a mortalidade depois do enfarte.
- Os fármacos de classe III (sotalol) e de classe IA prolongam o QT e podem causar torsade.
- A amiodarona é o antiarrítmico mais eficaz nas arritmias ventriculares, mas a toxicidade extracardíaca (tiroide, pulmão, fígado, pele, olhos) leva a suspendê-la em pelo menos um terço dos doentes a longo prazo.
- Vai de nada a palpitações, tonturas, intolerância ao esforço, síncope e paragem cardíaca.
- A tolerância depende da frequência, da função ventricular e da doença de base, e não do mecanismo: uma taquicardia ventricular pode ser bem tolerada, e isso não a torna supraventricular.
- Síncope sem pródromos, durante o esforço, com eletrocardiograma anormal ou com doença cardíaca conhecida faz suspeitar de arritmia ventricular e justifica internamento para estudo.
- No bigeminismo ventricular o pulso pode contar metade da frequência real, porque a extrassístole não gera onda de pulso.
- Num portador de CDI, a taquicardia pode manifestar-se como tontura ou síncope seguida de choque.
- História familiar de morte súbita, de miocardiopatia ou de arritmias, e a lista completa de fármacos, fazem parte da primeira avaliação.
Taquicardia de complexos largos
- Complexos largos são QRS acima de 120 ms. As causas, por ordem: taquicardia ventricular (cerca de 80%), supraventricular com bloqueio de ramo (cerca de 15%) e supraventricular com condução pela via acessória (cerca de 5%). Juntam-se o alargamento por fármacos ou eletrólitos e as taquicardias de pacemaker.
- É taquicardia ventricular até prova em contrário, sobretudo com doença cardíaca estrutural conhecida, qualquer que seja a morfologia.
- Um traçado em ritmo sinusal com QRS igual ao da taquicardia torna a origem ventricular pouco provável.
| critério a favor de taquicardia ventricular | o que se vê |
|---|---|
| Dissociação auriculoventricular | frequência ventricular maior do que a auricular |
| Batimentos de captura ou de fusão | QRS diferentes dos da taquicardia |
| Concordância negativa | todas as precordiais negativas |
| Precordiais sem complexo RS, ou RS acima de 100 ms | |
| aVR | onda R inicial, ou R ou Q inicial acima de 40 ms |
| Eixo entre menos 90 e mais ou menos 180 graus | |
| Tempo até ao pico da R em DII de 50 ms ou mais |
Avaliação depois do episódio
- Eletrocardiograma de 12 derivações durante a arritmia sempre que o doente o tolere, e em ritmo sinusal: ondas Q de enfarte, hipertrofia, QT longo ou curto, padrão de Brugada, ondas épsilon, pré-excitação.
- Análises: potássio, magnésio e cálcio; troponina, que numa taquicardia monomórfica traduz mais vezes lesão pela hipotensão do que enfarte agudo.
- Ecocardiograma em todos; ressonância magnética cardíaca com gadolínio para procurar cicatriz quando o ecocardiograma e o eletrocardiograma não esclarecem.
- Avaliação da doença coronária conforme a idade e o risco.
- Holter de 24 horas para contar a carga de extrassístoles.
- Prova de esforço nas arritmias de esforço e na suspeita de taquicardia catecolaminérgica.
Extrassístoles e taquicardia idiopáticas
- Coração normal no exame, no eletrocardiograma e no ecocardiograma.
- Trato de saída do ventrículo direito: morfologia de bloqueio de ramo esquerdo com eixo inferior (R altas em DII, DIII e aVF).
- Fascicular esquerda: morfologia de bloqueio de ramo direito com eixo superior, muitas vezes em homens jovens e no esforço; sensível ao verapamilo.
- Taquicardia não mantida muito rápida, polimórfica ou com extrassístole de acoplamento curto (sobre a onda T) não é benigna e obriga a procurar doença estrutural ou genética.
- A miocardiopatia arritmogénica do ventrículo direito pode imitar a taquicardia do trato de saída: inversão da T de V1 a V3, ondas épsilon, ventrículo direito dilatado ou cicatriz na ressonância.
Sem pulso
- Taquicardia ventricular sem pulso e fibrilhação ventricular: desfibrilhação imediata e algoritmo de suporte avançado de vida.
Taquicardia ventricular monomórfica mantida com pulso
- Instável (hipotensão, alteração da consciência, dor isquémica, insuficiência cardíaca aguda): cardioversão elétrica sincronizada imediata; se não for possível sincronizar, choque não sincronizado.
- Estável: termina-se na mesma, porque pode deteriorar-se depressa. Registar sempre o eletrocardiograma de 12 derivações antes.
- Se é provável uma taquicardia supraventricular, manobras vagais ou adenosina com registo contínuo; a adenosina pode também terminar algumas taquicardias ventriculares idiopáticas.
- Doença estrutural conhecida ou suspeita: procainamida endovenosa (recomendação mais forte). Terminou mais taquicardias e deu menos eventos adversos do que a amiodarona. Não se usa na insuficiência cardíaca grave, no enfarte agudo nem na doença renal terminal.
- Sem diagnóstico estabelecido: amiodarona endovenosa pode considerar-se (recomendação mais fraca).
- A procainamida não está disponível em muitos países europeus; a disponibilidade pesa na escolha, e a cardioversão elétrica fica sempre como opção, pesado o risco da sedação.
- Taquicardia idiopática conhecida: betabloqueante na do trato de saída do ventrículo direito, verapamilo na fascicular.
Taquicardia polimórfica e fibrilhação ventricular na síndrome coronária aguda
- Cardioversão ou desfibrilhação, e coronariografia imediata se recorrer: é sinal de reperfusão incompleta ou de isquemia de novo.
- Betabloqueante, sedação profunda e amiodarona endovenosa; lidocaína se estes falharem. Corrigir eletrólitos. Os antiarrítmicos profiláticos não trazem benefício.
Tempestade arrítmica
- Corrigir o que a desencadeou (isquemia, eletrólitos, fármacos).
- Sedação, betabloqueante, de preferência não seletivo como o propranolol, com amiodarona.
- Se refratária: sedação profunda com intubação, modulação autonómica, e ablação por cateter, sobretudo na taquicardia monomórfica sobre cicatriz.
Longo prazo
- CDI:
- prevenção secundária: fibrilhação ventricular ou taquicardia ventricular mal tolerada sem causa reversível; reduz a mortalidade em cerca de 28%;
- prevenção primária: fração de ejeção de 35% ou menos com insuficiência cardíaca em classe II ou III da NYHA (New York Heart Association) apesar de terapêutica otimizada.
- O CDI termina a arritmia mas não a previne. Os choques repetidos tratam-se com antiarrítmico (amiodarona ou sotalol) ou com ablação. Na doença coronária com recorrência apesar de amiodarona, prefere-se a ablação a subir os antiarrítmicos.
- Terapêutica otimizada da insuficiência cardíaca, que também reduz a morte súbita.
Extrassístoles e taquicardia idiopáticas
- Tratam-se se houver sintomas ou disfunção ventricular; sem nenhum dos dois, tranquilizar e retirar agravantes (cafeína, estimulantes).
- Ablação por cateter de primeira linha nas do trato de saída do ventrículo direito e nas fasciculares.
- Fármacos: betabloqueante ou bloqueador dos canais de cálcio (verapamilo, diltiazem); verapamilo na fascicular; flecainida em alternativa. A amiodarona não é primeira linha.
- A taquicardia ventricular rápida pode degenerar em fibrilhação ventricular e morte súbita, sobretudo se polimórfica.
- Miocardiopatia induzida por extrassístoles: uma carga de 10% ou mais dos batimentos no Holter de 24 horas parece ser o limiar mínimo, com risco maior acima de 20%. Só uma minoria de quem tem mais de 1000 extrassístoles por dia desenvolve disfunção em 5 anos.
- Carga abaixo de 10% com disfunção ventricular: procurar outra miocardiopatia.
- O diagnóstico só se confirma quando a fração de ejeção recupera depois de suprimir as extrassístoles. A ablação é a primeira linha, com sucesso de 75 a 90%.
- Nas extrassístoles frequentes assintomáticas com função preservada vigia-se a fração de ejeção; não há dados de benefício em tratar.
- As arritmias ventriculares nas primeiras 48 horas de um enfarte aumentam a mortalidade hospitalar, mas pouco o prognóstico a longo prazo. A taquicardia monomórfica precoce já prediz eventos tardios.
- Choques repetidos do CDI associam-se a insuficiência cardíaca, maior mortalidade e sofrimento psicológico.
- Grávida: a cardioversão elétrica é segura em todas as fases da gravidez, com vigilância da frequência cardíaca fetal a seguir. Taquicardia ventricular nova nas últimas 6 semanas ou no pós-parto precoce obriga a excluir miocardiopatia periparto. A amiodarona está contraindicada; o sotalol e o verapamilo oral são bem tolerados. O betabloqueante mantém-se no QT longo e na taquicardia catecolaminérgica.
- Atleta: acima dos 35 anos a causa mais frequente de morte súbita é a doença coronária; nos mais novos pesam as miocardiopatias e as canalopatias. Nos atletas até aos 35 anos a avaliação antes da competição inclui história, exame físico e eletrocardiograma.
- Criança: tratamento semelhante ao do adulto; a ablação adia-se nas crianças pequenas e o verapamilo não é primeira linha abaixo de 1 ano, pelo risco de hipotensão.
- Canalopatias: doenças elétricas primárias, com coração estruturalmente normal, que se podem estrear por síncope ou paragem num jovem com ecocardiograma normal. Incluem o QT longo e o curto, a síndrome de Brugada, a taquicardia polimórfica catecolaminérgica e a síndrome de repolarização precoce.
- Síndrome de Brugada: rara, mais frequente no homem. Mutação do SCN5A (canal de sódio) em cerca de 20% dos casos.
- Taquicardia ventricular polimórfica catecolaminérgica: prevalência estimada de 1 em 10 000. Forma dominante por mutação do recetor da rianodina (RYR2) e forma recessiva por mutação da calsequestrina (CASQ2). Manifesta-se em regra na primeira década de vida.
- Brugada: síncope ou paragem por taquicardia polimórfica ou fibrilhação ventricular, tipicamente em repouso ou no sono, ou precipitadas por febre. Cerca de um terço apresenta-se com síncope. Desencadeantes: febre, psicotrópicos, alguns antiarrítmicos e anestésicos, cocaína e excesso de álcool.
- Catecolaminérgica: síncope ou morte súbita desencadeadas por esforço ou emoção, numa criança ou adolescente, com eletrocardiograma e ecocardiograma normais em repouso.
Síndrome de Brugada
- Padrão tipo 1: elevação do ponto J de pelo menos 2 mm, com ST convexo, em abóbada, e onda T negativa, em pelo menos uma derivação precordial direita, V1 ou V2, colocada no segundo, terceiro ou quarto espaço intercostal.
- Diagnóstico com padrão tipo 1 espontâneo sem outra doença cardíaca, com ou sem sintomas.
- O padrão pode aparecer só com febre ou com um bloqueador dos canais de sódio (ajmalina, flecainida, procainamida). O padrão induzido só faz o diagnóstico se houver também taquicardia polimórfica ou fibrilhação documentadas, síncope arrítmica ou história familiar relevante.
- O padrão flutua ao longo do tempo. Excluir fenocópias: hipertrofia ventricular esquerda, pericardite, isquemia, hipercaliemia, hipotermia, bloqueio de ramo direito, miocardiopatia arritmogénica.
Taquicardia polimórfica catecolaminérgica
- Prova de esforço: é o exame decisivo, porque provoca a taquicardia ventricular bidirecional ou polimórfica que faz o diagnóstico.
- Também se faz com uma mutação num gene associado.
Síndrome de repolarização precoce
- Elevação do ponto J de 1 mm ou mais em duas derivações inferiores ou laterais contíguas, num doente reanimado de fibrilhação sem doença cardíaca. O padrão isolado é quase sempre benigno, frequente em homens jovens e atletas.
Síndrome de Brugada
- Todos: evitar os fármacos que agravam o padrão, a cocaína e o excesso de álcool, e tratar a febre com antipiréticos.
- CDI nos sobreviventes de paragem e em quem tem arritmia ventricular mantida espontânea documentada; considera-se na síncope arrítmica.
- Tempestade arrítmica: isoprenalina em perfusão; quinidina ou ablação epicárdica do trato de saída do ventrículo direito nos choques recorrentes.
Taquicardia polimórfica catecolaminérgica
- Restrição do esforço e betabloqueante sem atividade simpaticomimética, de preferência nadolol ou propranolol, também nos familiares com a mutação sem arritmia documentada.
- Flecainida acrescentada quando o controlo é incompleto.
- CDI nos sobreviventes de paragem, com betabloqueante e flecainida; considera-se se houver arritmias apesar de ambos.
- Desnervação simpática cardíaca esquerda como complemento, não como substituto do CDI.
Rastreio familiar
- A morte súbita inexplicada num jovem, com autópsia e toxicologia negativas, obriga a avaliar os familiares em primeiro grau.
- Brugada: nos que se apresentaram com paragem, o risco de nova fibrilhação ventricular é de 48% a 10 anos. Na síncope inexplicada o risco é quatro vezes o do assintomático. Nos assintomáticos, que são a maioria dos novos diagnósticos, a incidência de eventos é de cerca de 0,5% por ano.
- Catecolaminérgica: o diagnóstico na infância, a falta de betabloqueante e as arritmias complexas na prova de esforço com betabloqueante em dose plena predizem eventos.
Referências
- Zeppenfeld K, Tfelt-Hansen J, de Riva M, Winkel BG, Behr ER, Blom NA, et al. 2022 ESC Guidelines for the management of patients with ventricular arrhythmias and the prevention of sudden cardiac death. Eur Heart J. 2022;43(40):3997-4126.
- Brugada J, Katritsis DG, Arbelo E, Arribas F, Bax JJ, Blomström-Lundqvist C, et al. 2019 ESC Guidelines for the management of patients with supraventricular tachycardia. Eur Heart J. 2020;41(5):655-720.
- Drew BJ, Ackerman MJ, Funk M, Gibler WB, Kligfield P, Menon V, et al. Prevention of torsade de pointes in hospital settings: a scientific statement from the American Heart Association and the American College of Cardiology Foundation. Circulation. 2010;121(8):1047-60.
- Lott C, Truhlář A, Alfonzo A, Barelli A, González-Salvado V, Hinkelbein J, et al. European Resuscitation Council Guidelines 2021: cardiac arrest in special circumstances. Resuscitation. 2021;161:152-219.
- Khatib R, Sabir FRN, Omari C, Pepper C, Tayebjee MH. Managing drug-induced QT prolongation in clinical practice. Postgrad Med J. 2021;97(1149):452-8.
- Loscalzo J, Fauci A, Kasper D, Hauser S, Longo D, Jameson JL, editores. Harrison's principles of internal medicine. 21.ª ed. Nova Iorque: McGraw-Hill; 2022. Cap. 240, Electrocardiography; cap. 249, Paroxysmal supraventricular tachycardias; cap. 252 a 256, Ventricular arrhythmias.
- Wing EJ, Schiffman FJ, editores. Cecil essentials of medicine. 10.ª ed. Filadélfia: Elsevier; 2022. Disorders of potassium; acute kidney injury.
16 perguntas sobre Disritmias - Síndrome de Wolff-Parkinson-White; alterações do intervalo QT; fármacos e eletrólitos; arritmias ventriculares
Ler consolida, treinar é o que fixa. Cada pergunta tem justificação alínea a alínea, no formato da Prova Nacional de Acesso.
Criar conta e treinar