Disritmias: fibrilhação e flutter, TSV, doença do nó sinusal e bloqueios AV
Atualizado em 27 de setembro de 2026 · 29 perguntas neste tema
Este tema junta as taquiarritmias supraventriculares mais frequentes (fibrilhação auricular, flutter e taquicardia supraventricular paroxística) e as duas bradiarritmias que levam a pacemaker (doença do nó sinusal e bloqueios auriculoventriculares). Distinguem-se no eletrocardiograma pela regularidade, pela largura do QRS e pela relação entre as ondas P e os QRS.
A fibrilhação auricular é a arritmia sustentada mais comum e aumenta muito com a idade. Nasce de focos nas veias pulmonares sobre uma aurícula remodelada e reconhece-se por um ritmo irregularmente irregular, sem ondas P. O risco maior é o AVC por trombo no apêndice auricular esquerdo. Trata-se em quatro frentes: comorbilidades e fatores de risco, anticoagulação pelo CHA2DS2-VA (que já não conta o sexo; 2 ou mais pontos anticoagula-se, 1 considera-se), controlo da frequência ou do ritmo, e reavaliação periódica. Os anticoagulantes orais diretos são preferidos, exceto na prótese mecânica e na estenose mitral moderada a grave. Com mais de 24 horas, a cardioversão exige 3 semanas de anticoagulação ou ecocardiograma transesofágico, e 4 semanas de anticoagulação depois.
O flutter típico é uma macrorreentrada que passa pelo istmo cavotricúspide: dente de serra com a aurícula a 240 a 300 por minuto e, em dois para um, ventrículo regular a cerca de 150. Anticoagula-se como a fibrilhação, e a ablação do istmo cura-o. A taquicardia supraventricular paroxística, sobretudo a reentrada no nó auriculoventricular, é regular, de início e fim súbitos e depende do nó: termina com manobras vagais ou adenosina, e a ablação é curativa.
A doença do nó sinusal é uma doença do idoso, e a sua forma mais comum alterna fibrilhação com pausas. O pacemaker trata os sintomas e só se indica quando estes se atribuem à bradicardia. Nos bloqueios auriculoventriculares o que decide é o nível: o bloqueio nodal (primeiro grau, Mobitz I) é benigno e responde à atropina; o infranodal (Mobitz II, a maioria dos completos) tem escape lento e instável e leva a pacemaker mesmo sem sintomas.
O que não se pode falhar: cardioversão sincronizada perante instabilidade; não bloquear o nó numa taquicardia irregular de QRS largo; a antiagregação não substitui a anticoagulação; rever os fármacos antes de implantar um pacemaker; e não dar atropina a um bloqueio de alto grau com QRS largo.
- Arritmia supraventricular com ativação auricular descoordenada, que tira eficácia à contração auricular. No eletrocardiograma: ausência de ondas P regulares e intervalos RR sem padrão (na ausência de bloqueio auriculoventricular).
- O diagnóstico exige registo eletrocardiográfico, de 12 derivações ou de uma só derivação. Num registo ambulatório, um episódio de 30 segundos ou mais já tem significado clínico.
- É a arritmia sustentada mais frequente. A prevalência sobe com a idade: mais de 95% dos doentes têm mais de 60 anos e cerca de 10% das pessoas acima dos 80 anos têm fibrilhação. Um homem de 40 anos tem um risco de cerca de 25% de a vir a ter.
- Fatores de risco: idade, hipertensão, diabetes, cardiopatia (sobretudo insuficiência cardíaca), obesidade, apneia do sono, álcool e história familiar.
- Precipitantes agudos: hipertiroidismo, intoxicação alcoólica aguda, enfarte, embolia pulmonar, pericardite e cirurgia cardíaca, depois da qual surge em até 30% dos doentes.
Classificação temporal
| padrão | definição |
|---|---|
| Primeiro diagnóstico | nunca diagnosticada antes, seja qual for a duração ou os sintomas |
| Paroxística | termina em 7 dias ou menos, sozinha ou com intervenção; a maioria dos episódios que terminam sozinhos dura menos de 48 horas |
| Persistente | não termina sozinha; o corte usado é 7 dias. De longa duração quando contínua há 12 meses ou mais, mas ainda candidata a controlo do ritmo |
| Permanente | decisão partilhada entre doente e médico de não voltar a tentar o ritmo sinusal |
- Fibrilhação subclínica detetada por dispositivo: episódios assintomáticos registados por pacemakers, desfibrilhadores ou monitores contínuos. Prevê fibrilhação clínica futura.
- A classificação temporal orienta a estratégia de ritmo, mas não decide a anticoagulação.
Desencadeante e substrato
- Desencadeante: salvas de extrassístoles auriculares, na maioria com origem nas mangas musculares das veias pulmonares; menos vezes na veia cava superior, no seio coronário ou no ligamento de Marshall.
- Substrato: os fatores de risco convergem numa remodelagem elétrica e estrutural das aurículas, com encurtamento dos períodos refratários, fibrose e dilatação da aurícula esquerda. É isto que permite à fibrilhação manter-se, por focos rápidos e zonas de reentrada funcional.
- A doença tende a progredir: episódios paroxísticos passam a não terminar sozinhos, e com a remodelagem cai a eficácia de todas as tentativas de repor o ritmo.
- Miocardiopatia auricular: o conjunto de alterações estruturais, elétricas e funcionais das aurículas (inflamação, estado protrombótico, fibrose) que explica a recorrência, a pior resposta ao tratamento e a insuficiência cardíaca.
Porque é que a ablação resulta
- O isolamento elétrico das veias pulmonares retira os focos que desencadeiam a arritmia e mexe em parte no substrato vizinho. Rende mais na forma paroxística do que na persistente, em que a aurícula está mais doente.
Consequências
- Hemodinâmicas: perde-se a contração auricular e o enchimento ventricular varia de batimento para batimento. Pesa mais no ventrículo rígido: miocardiopatia hipertrófica, amiloidose, insuficiência cardíaca, estenose aórtica.
- Embólicas: a estase favorece trombo, sobretudo no apêndice auricular esquerdo. Depois de repor o ritmo, a função mecânica da aurícula pode demorar semanas a recuperar, e formam-se trombos mesmo em ritmo sinusal.
- Miocárdicas: frequência rápida mantida durante muito tempo causa taquimiocardiopatia, disfunção ventricular que regride quando se controla a frequência.
- Cerca de 90% dos doentes referem sintomas de alguma gravidade, mas muitos episódios passam despercebidos, mesmo em quem tem sintomas.
- Os sintomas inespecíficos (cansaço, intolerância ao esforço, dispneia, tonturas, ansiedade, mau sono) são mais frequentes do que as palpitações.
- A presença ou ausência de sintomas não se relaciona com o risco de AVC nem de morte.
- A resposta ventricular é tipicamente de 110 a 160 por minuto, mas pode passar de 200, ou ser lenta quando há doença do nó auriculoventricular ou tónus vagal alto.
- Pulso irregularmente irregular.
- Pode estrear-se por complicação: AVC, embolia periférica, insuficiência cardíaca descompensada ou taquimiocardiopatia.
- Pausas longas quando a fibrilhação termina sozinha, com pré-síncope ou síncope, traduzem doença do nó sinusal associada.
Eletrocardiograma
- Ritmo irregularmente irregular, sem ondas P, com ondulação fina e desorganizada da linha de base (melhor vista em V1).
- QRS estreito, salvo bloqueio de ramo, aberrância ou pré-excitação.
Avaliação inicial
| em todos | em doentes selecionados |
|---|---|
| História: padrão, sintomas, comorbilidades, risco embólico e hemorrágico | Holter para a carga de fibrilhação e o controlo da frequência |
| Eletrocardiograma de 12 derivações | Prova de esforço para o controlo da frequência ou os efeitos da flecainida e propafenona |
| Hemograma, função renal, ionograma, função hepática, glicemia ou HbA1c, função tiroideia | Ecocardiograma transesofágico para trombo e válvulas |
| Ecocardiograma transtorácico, quando possa mudar a decisão | Avaliação coronária, ressonância magnética cardíaca, imagem cerebral |
- A falta de ecocardiograma não deve atrasar o início da anticoagulação.
Diagnóstico diferencial
| ritmo | o que o distingue |
|---|---|
| Flutter com condução variável | ondas em dente de serra regulares por trás do ritmo irregular |
| Taquicardia auricular multifocal | pelo menos 3 morfologias de onda P, 100 a 150 por minuto, com linha isoelétrica entre as P; doente com doença pulmonar crónica e doença aguda |
| Extrassístoles auriculares frequentes | há ondas P, prematuras, antes de cada batimento precoce |
| Fibrilhação pré-excitada | irregular, QRS largo e de forma variável, muito rápida |
Deteção precoce
- Avaliação do ritmo (pulso ou eletrocardiograma) nas consultas de rotina a partir dos 65 anos. Um traçado revisto por um médico é indispensável antes de tratar.
Prevenção do AVC: quem anticoagular
O score recomendado é o CHA2DS2-VA. Deixou de contar o sexo feminino, que se comportava como modificador e não como fator de risco, e por isso os limiares são iguais em homens e mulheres.
| fator | definição | pontos |
|---|---|---|
| Insuficiência cardíaca | sintomas e sinais, seja qual for a fração de ejeção, ou fração de 40% ou menos assintomática | 1 |
| Hipertensão | pressão em repouso acima de 140/90 mmHg em pelo menos duas ocasiões, ou tratamento anti-hipertensor | 1 |
| Idade de 75 anos ou mais | 2 | |
| Diabetes | tipo 1 ou 2, ou tratamento hipoglicemiante | 1 |
| AVC, acidente isquémico transitório ou tromboembolia arterial prévios | 2 | |
| Doença vascular | enfarte, angina, revascularização ou doença coronária significativa; doença arterial periférica; placa aórtica complexa | 1 |
| Idade de 65 a 74 anos | 1 |
- 2 pontos ou mais: anticoagulação recomendada. 1 ponto: deve considerar-se. 0 pontos: não se anticoagula.
- Na miocardiopatia hipertrófica e na amiloidose cardíaca anticoagula-se sempre, seja qual for a pontuação. A estenose mitral moderada a grave também tem risco alto.
- O risco reavalia-se periodicamente, porque os fatores aparecem com o tempo.
- A antiagregação não é alternativa à anticoagulação, e acrescentá-la ao anticoagulante para prevenir o AVC também não se recomenda.
Com que anticoagulante
- Os anticoagulantes orais diretos (DOAC: apixabano, dabigatrano, edoxabano, rivaroxabano) são preferidos à varfarina, exceto na prótese valvular mecânica e na estenose mitral moderada a grave.
- Com varfarina: INR alvo de 2 a 3, com tempo em intervalo terapêutico acima de 70%; se não se consegue, muda-se para um direto.
- A dose reduzida de um direto só se usa quando o doente cumpre os critérios específicos desse fármaco; subdosear deixa AVC por prevenir.
- Face ao placebo, a varfarina reduz o AVC em 64%.
- Os scores de risco hemorrágico não decidem se se anticoagula. Servem para corrigir o que é modificável: hipertensão não controlada, álcool, anti-inflamatórios, antiagregantes sem indicação, INR instável.
- O encerramento percutâneo do apêndice auricular esquerdo é opção em quem tem risco embólico alto mas risco hemorrágico sério com a anticoagulação crónica.
Tratar o que alimenta a arritmia
- Controlar a hipertensão, com tratamento adequado da insuficiência cardíaca e da diabetes.
- Perda de peso de 10% ou mais no doente com excesso de peso.
- Álcool até 3 bebidas padrão por semana (30 g ou menos).
- Programa de exercício físico adaptado, na forma paroxística e na persistente.
- Procurar apneia do sono sem se ficar pelos questionários de sintomas.
- Tudo isto reduz a recorrência e a progressão da fibrilhação.
A primeira pergunta: há instabilidade?
- Hipotensão, síncope, isquemia ou insuficiência cardíaca aguda atribuíveis à arritmia: cardioversão elétrica sincronizada imediata, sob sedação. Numa fibrilhação, começar pela energia máxima do desfibrilhador é uma estratégia razoável.
Estável: quatro frentes em paralelo (AF-CARE)
| frente | o que se faz |
|---|---|
| C, comorbilidades e fatores de risco | tensão, peso, álcool, exercício, diabetes, apneia, insuficiência cardíaca |
| A, evitar o AVC e a tromboembolia | anticoagulação pelo CHA2DS2-VA |
| R, reduzir os sintomas | controlo da frequência e, quando indicado, do ritmo |
| E, avaliação e reavaliação | rever periodicamente risco, sintomas e tratamento |
Controlo da frequência
- Alvo inicial abaixo de 110 por minuto em repouso; mais apertado se os sintomas persistirem ou houver suspeita de taquimiocardiopatia.
| fração de ejeção | fármacos de primeira linha |
|---|---|
| Acima de 40% | betabloqueante, diltiazem, verapamilo ou digoxina |
| 40% ou menos | betabloqueante e/ou digoxina (não verapamilo nem diltiazem) |
- A dronedarona não se usa para controlar a frequência: na fibrilhação permanente aumenta a insuficiência cardíaca, o AVC e a morte cardiovascular.
- Se nada chega, ablação do nó auriculoventricular com pacemaker. O doente fica dependente do pacemaker, e em quem tem sintomas graves e internamentos por insuficiência cardíaca associa-se ressincronização.
Controlo do ritmo
- Deve ser discutido com todos os doentes adequados. Nos primeiros 12 meses após o diagnóstico, em doentes com risco embólico, reduz a morte cardiovascular e os internamentos.
- Escolher o ritmo não permite suspender o anticoagulante, que continua pelo score.
Cardioversão
- Muitas fibrilhações de início recente revertem sozinhas; sem compromisso hemodinâmico, pode esperar-se até 48 horas pela conversão espontânea.
- Farmacológica: flecainida ou propafenona endovenosas, exceto na hipertrofia ventricular grave, na insuficiência cardíaca com fração reduzida e na doença coronária; nestes casos, amiodarona, que atua mais tarde.
- Não se faz cardioversão farmacológica com disfunção sinusal, perturbação da condução auriculoventricular ou QTc acima de 500 ms, salvo pesando o risco de pró-arritmia e bradicardia.
- Comprimido de bolso: dose oral única de flecainida ou propafenona, tomada pelo próprio doente na fibrilhação paroxística rara, depois de testada em meio hospitalar. Junta-se um bloqueador do nó, porque a classe IC pode transformar a fibrilhação em flutter com condução de um para um.
A regra das 24 horas
- Fibrilhação com mais de 24 horas, ou de duração incerta: não se cardioverte sem 3 semanas de anticoagulação terapêutica antes ou ecocardiograma transesofágico sem trombo.
- Depois da cardioversão, anticoagulação durante pelo menos 4 semanas em todos, mesmo com CHA2DS2-VA de 0; só é opcional se a fibrilhação tinha menos de 24 horas e o risco embólico é baixo. A seguir, anticoagulação a longo prazo pelo score, esteja ou não em ritmo sinusal.
- Se o transesofágico mostra trombo: anticoagular pelo menos 4 semanas e repetir o exame antes de cardioverter.
- O limite antigo era de 48 horas; baixou porque o início da fibrilhação raramente é conhecido com certeza e o risco embólico começa mais cedo.
Manutenção do ritmo sinusal
| situação | antiarrítmico |
|---|---|
| Sem cardiopatia estrutural relevante | flecainida ou propafenona |
| Doença coronária, doença valvular, insuficiência cardíaca com fração ligeiramente reduzida ou preservada | dronedarona |
| Insuficiência cardíaca com fração reduzida | amiodarona, com vigilância da toxicidade |
- A amiodarona é a mais eficaz (mantém o ritmo em cerca de dois terços), mas mais de 40% dos doentes têm toxicidade a longo prazo: tiroide, pulmão, fígado.
- Com perturbação avançada da condução, antiarrítmico só com pacemaker.
Ablação por cateter (isolamento das veias pulmonares)
- Primeira linha, em decisão partilhada, na fibrilhação paroxística; pode considerar-se em primeira linha na persistente selecionada.
- Recomendada quando os antiarrítmicos falham ou não são tolerados.
- Recomendada na insuficiência cardíaca com fração reduzida quando é provável uma taquimiocardiopatia.
- Na paroxística, cerca de 70% ficam em ritmo sinusal mais de um ano depois de um único procedimento.
- Anticoagulação ininterrupta à volta do procedimento e durante pelo menos 2 meses depois; a partir daí decide o CHA2DS2-VA, e não o sucesso aparente da ablação.
- Insuficiência cardíaca: a complicação não fatal mais frequente, desenvolve-se em cerca de metade dos doentes; o risco é quatro a cinco vezes o de quem não tem fibrilhação. É também a causa de morte mais frequente.
- AVC isquémico e tromboembolia arterial: os enfartes cardioembólicos tendem a ser extensos.
- Declínio cognitivo e demência, em parte por embolia silenciosa.
- A mortalidade por todas as causas é cerca do dobro da de quem está em ritmo sinusal.
- Taquimiocardiopatia: reverte quando a frequência se controla.
- Anticoagulação: hemorragia major em cerca de 1% por ano com varfarina; os diretos dão menos hemorragia intracraniana.
- Antiarrítmicos: pró-arritmia (a classe IC em doença estrutural, os que prolongam o QT) e a toxicidade extracardíaca da amiodarona.
Complicações da ablação
- Complicações major em 2 a 7%: AVC (0,5 a 1%), tamponamento (cerca de 1%), paralisia do nervo frénico, hemorragia no acesso femoral.
- Estenose das veias pulmonares: semanas a meses depois, com dispneia ou hemoptises.
- Fístula auriculoesofágica: rara (menos de 0,1%), surge 10 dias a 3 semanas depois, com quadro de endocardite e AVC. Diagnostica-se por TC com contraste oral hidrossolúvel e endovenoso; a endoscopia evita-se, pelo risco de embolia gasosa; o tratamento é cirurgia urgente. Diagnosticada tarde, é quase sempre fatal.
- Grávida: cardioversão elétrica imediata se houver instabilidade ou fibrilhação pré-excitada. Anticoagulação com heparina de baixo peso molecular, ou varfarina fora do primeiro trimestre e antes da semana 36. Frequência com betabloqueante seletivo beta 1, exceto o atenolol.
- Idoso e frágil: é quem mais beneficia e quem menos recebe anticoagulação. A idade não é razão para não anticoagular. O idoso frágil de 75 anos ou mais, polimedicado e estável com varfarina, pode mantê-la em vez de mudar para um direto.
- Pós-operatório de cirurgia cardíaca: a amiodarona perioperatória é o fármaco para a prevenir, quando se quer prevenção farmacológica. Na cirurgia não cardíaca, o betabloqueante não se usa por rotina para a evitar.
- Fibrilhação pré-excitada (via acessória): o nó é o travão, e bloqueá-lo solta a via. Estão proibidos adenosina, verapamilo, diltiazem, betabloqueante, digoxina e amiodarona endovenosa. Trata-se com cardioversão elétrica, ou procainamida ou ibutilida endovenosas.
- AVC embólico de origem indeterminada: monitorização prolongada à procura de fibrilhação; sem fibrilhação documentada, não se anticoagula.
- Taquicardia auricular por macrorreentrada, com circuito grande e fixo. É das taquiarritmias auriculares mais frequentes: 88 por 100 000 pessoas-ano, 317 acima dos 50 anos.
- Típico: dependente do istmo cavotricúspide, a faixa entre a veia cava inferior e o anel tricúspide.
- Atípico: circuitos à volta de cicatrizes auriculares, depois de cirurgia com atriotomia ou de ablação extensa da aurícula esquerda.
- Partilha os fatores de risco da fibrilhação, e mais de metade dos doentes com flutter acabam por ter fibrilhação. Associa-se também a fibrose auricular do envelhecimento, cirurgia cardíaca e doença cardíaca direita ou pulmonar.
- Pode surgir num doente com fibrilhação tratado com flecainida, propafenona ou amiodarona, que abrandam a condução auricular.
- No flutter típico a frente de ativação gira à volta do anel tricúspide, limitada à frente pelo anel e atrás pela crista terminal, e passa obrigatoriamente no istmo cavotricúspide. Um circuito anatómico fixo explica que uma linha de ablação nesse istmo o elimine.
- Sentido anti-horário (o mais comum): ondas de flutter negativas em DII, DIII e aVF e positivas em V1. No sentido horário, o vetor inverte-se.
- Frequência auricular de 240 a 300 por minuto. O nó conduz tipicamente em dois para um, e o ventrículo bate a 130 a 150 por minuto, regular.
- Doença do nó ou fármacos que o bloqueiam aumentam a relação de condução (três ou quatro para um) e tornam as ondas visíveis.
- Os antiarrítmicos que abrandam a aurícula (classe IC, amiodarona) podem baixar tanto a frequência do flutter que o nó passa a conduzir um para um, com frequência ventricular muito alta.
- Ondas de flutter em dente de serra, sem linha isoelétrica, mais evidentes nas derivações inferiores e em V1.
- Na condução dois para um, metade das ondas esconde-se no QRS e na onda T. Uma taquicardia regular de QRS estreito a cerca de 150 por minuto deve fazer procurar flutter.
- Manobras vagais ou adenosina aumentam o bloqueio do nó por instantes e desmascaram as ondas, sem terminar a arritmia; registar sempre o eletrocardiograma durante a manobra.
- Com condução variável, o ritmo fica irregular e pode confundir-se com fibrilhação.
| diferencial | como se separa |
|---|---|
| Taquicardia supraventricular paroxística | termina com a manobra vagal ou a adenosina |
| Taquicardia sinusal | ondas P normais, aceleração e desaceleração graduais |
| Taquicardia auricular focal | ondas P distintas com linha isoelétrica entre elas |
| Fibrilhação auricular | linha de base desorganizada, sem ondas regulares |
- O risco embólico do flutter é elevado, e a prevenção do AVC segue as regras da fibrilhação: CHA2DS2-VA, anticoagulação a longo prazo quando o risco é alto, e as mesmas regras de anticoagulação antes e depois da cardioversão (3 semanas antes, ou transesofágico, e 4 semanas depois).
- Os fatores de risco e comorbilidades tratam-se como na fibrilhação.
- Como 50 a 70% dos doentes têm fibrilhação durante o seguimento depois de uma ablação do flutter, a ablação não é motivo para parar a anticoagulação indicada pelo score.
- Instabilidade ou sintomas graves: cardioversão elétrica sincronizada. O flutter precisa de menos energia do que a fibrilhação: choque inicial de 70 a 120 J, subindo se necessário.
- Controlo da frequência com os mesmos fármacos da fibrilhação (betabloqueante, verapamilo, diltiazem), mas é mais difícil de conseguir.
- Por isso o controlo do ritmo é em regra a primeira abordagem.
- Ablação do istmo cavotricúspide: elimina o flutter típico em mais de 95%, com poucas complicações, e é superior aos antiarrítmicos. É opção de primeira linha. Depois de confirmado o bloqueio bidirecional do istmo, a recorrência do flutter é rara.
- Num primeiro episódio, reverter sem antiarrítmico crónico é razoável; nas recorrências com fármacos, mais de 70% voltam a ter flutter.
- Se se usar flecainida ou propafenona, associa-se sempre um bloqueador do nó.
- Taquicardia supraventricular: frequência acima de 100 por minuto com origem no feixe de His ou acima. A paroxística é regular, de início e fim súbitos, e depende em regra do nó auriculoventricular.
| tipo | circuito | notas |
|---|---|---|
| Reentrada no nó auriculoventricular | duas vias dentro do nó e à volta dele | a mais comum, cerca de 60% das que chegam à ablação; segunda a quarta décadas, sobretudo mulheres |
| Reentrada auriculoventricular | nó mais via acessória | via acessória em 1 em cada 1500 a 2000 pessoas; a via oculta só conduz no sentido retrógrado |
| Taquicardia auricular focal | foco auricular | não depende do nó |
- Na maioria não há cardiopatia estrutural. Sem cardiopatia, a reentrada nodal não é uma arritmia que ameace a vida, mas pode dar muitos sintomas.
Reentrada no nó auriculoventricular
- Há duas vias funcionais: uma lenta, na extensão inferior do nó junto ao seio coronário, e uma rápida, mais alta.
- Na forma típica, o impulso desce pela via lenta e sobe pela rápida. Aurículas e ventrículos são ativados quase ao mesmo tempo, e a onda P retrógrada cai dentro ou no fim do QRS: pseudo-r' em V1 e pseudo-S em DII, DIII e aVF.
- As aurículas contraem contra a tricúspide fechada: ondas a em canhão no pulso venoso, sentidas como bater no pescoço. A pressão auricular alta liberta peptídeos natriuréticos, e a crise pode acabar com poliúria.
Reentrada auriculoventricular ortodrómica
- O impulso desce pelo nó e pelo His (QRS estreito, sem pré-excitação) e volta às aurículas pela via acessória.
- A onda P vem sempre depois do QRS, no segmento ST, porque o ventrículo tem de ser ativado antes de o impulso chegar à via e voltar.
- Com pré-excitação em ritmo sinusal, o quadro é o do Wolff-Parkinson-White, com a fibrilhação pré-excitada como risco próprio.
Porque terminam com o nó
- Nas duas reentradas o nó faz parte do circuito: bloqueá-lo por instantes (manobra vagal, adenosina) termina a taquicardia.
- Na taquicardia auricular e no flutter o nó é apenas o caminho para o ventrículo: bloqueá-lo abranda a resposta e mostra as ondas auriculares, mas a arritmia continua.
- Palpitações regulares e rápidas, de início e fim bruscos, muitas vezes com uma sensação de bater no pescoço.
- Tonturas, dispneia, ansiedade; poliúria depois da crise.
- Muitos doentes aprendem a terminar as crises com manobras vagais.
- No idoso, ou com crises muito rápidas: angina, edema pulmonar, hipotensão ou síncope.
- A frequência varia com o tónus simpático.
Na crise
- Eletrocardiograma de 12 derivações sempre que possível, e registo contínuo durante as manobras e a adenosina, porque a resposta faz o diagnóstico.
| resposta ao bloqueio do nó | significado |
|---|---|
| Termina | reentrada nodal ou auriculoventricular |
| Abranda por instantes e aparecem ondas auriculares | flutter ou taquicardia auricular |
| Nenhuma | dose insuficiente, ou taquicardia que não passa pelo nó |
| onda P na taquicardia | aponta para |
|---|---|
| Escondida no QRS ou no fim dele (pseudo-r' em V1, pseudo-S inferior) | reentrada nodal típica |
| Logo a seguir ao QRS, no segmento ST | reentrada auriculoventricular ortodrómica |
| Longe do QRS, antes do seguinte | taquicardia auricular, reentrada nodal atípica ou via de condução lenta |
Fora da crise
- Eletrocardiograma em ritmo sinusal à procura de pré-excitação (PR curto, onda delta).
- Registo prolongado ou de eventos quando as crises são raras e não há traçado.
- Ecocardiograma quando há via acessória (anomalia de Ebstein, miocardiopatia hipertrófica).
Diagnóstico diferencial
- Taquicardia sinusal: aceleração e desaceleração graduais; trata-se a causa, nunca se cardioverte.
- Taquicardia sinusal inapropriada: frequência sinusal alta sem causa, sobretudo em mulheres na terceira e quarta décadas.
- Flutter com condução dois para um.
- Taquicardia de QRS largo: trata-se como taquicardia ventricular até prova em contrário.
Na crise
| passo | como |
|---|---|
| Instável | cardioversão elétrica sincronizada, choque inicial de 70 a 120 J |
| 1. Manobras vagais | de preferência a Valsalva modificada: expirar com força durante 15 segundos, semissentado, e logo a seguir deitar com as pernas elevadas pelo profissional durante 15 segundos. Converte mais de 40%, contra 17% da manobra clássica. Alternativa: soprar numa seringa de 10 mL com força para mover o êmbolo |
| 2. Adenosina | bólus endovenoso rápido seguido de lavagem com soro: 6 mg, depois 12 mg, e considerar 18 mg |
| 3. Se a adenosina falha | verapamilo (em média 5 a 10 mg em 2 minutos) ou diltiazem endovenosos, ou betabloqueante endovenoso |
| 4. Se tudo falha | cardioversão elétrica |
- Massagem do seno carotídeo só sem sopro carotídeo e sem AVC prévio.
- A adenosina dá dor torácica, dispneia e ansiedade transitórias: avisar o doente. Pode desencadear fibrilhação auricular, em regra breve, em até 15% dos doentes; com pré-excitação usa-se com cautela e com o desfibrilhador à mão. A teofilina antagoniza o efeito.
- Verapamilo e diltiazem evitam-se na hipotensão e na insuficiência cardíaca com fração abaixo de 40%; o betabloqueante, na insuficiência cardíaca descompensada. Não se dão os dois por via endovenosa em sequência.
A longo prazo
- Ablação por cateter da via lenta (na reentrada nodal) ou da via acessória: tratamento de escolha nas crises recorrentes e sintomáticas, ou quando os fármacos falham, não são tolerados ou não são desejados. Na reentrada nodal cura mais de 95%; o risco principal é bloqueio auriculoventricular com necessidade de pacemaker, à volta de 1%.
- Crises raras: ensinar a manobra de Valsalva, e ter betabloqueante, verapamilo ou diltiazem orais para tomar no início da crise.
- Profilaxia contínua, quando necessária: betabloqueante, verapamilo, diltiazem ou flecainida.
- Grávida: manobras vagais e adenosina podem usar-se; a cardioversão elétrica é segura se houver instabilidade. A amiodarona não se usa na gravidez.
- Idoso: as crises rápidas toleram-se pior, com isquemia ou insuficiência cardíaca; o limiar para ablação é o mesmo.
- Pré-excitação: a crise ortodrómica trata-se como qualquer reentrada; a fibrilhação pré-excitada não.
- Doença do nó sinusal (síndrome do nó doente): espectro de disfunções sinoauriculares, com problemas na formação do impulso, na sua saída para a aurícula, ou nos dois.
| forma | o que é |
|---|---|
| Bradicardia sinusal inapropriada | frequência baixa para as necessidades, com sintomas |
| Paragem sinusal | o nó não forma o impulso: pausa sem onda P |
| Bloqueio sinoauricular | o impulso forma-se mas não sai para a aurícula |
| Síndrome bradicardia-taquicardia | taquiarritmias auriculares (sobretudo fibrilhação) a alternar com bradicardia ou pausas quando a taquicardia termina |
| Incompetência cronotrópica | a frequência não sobe o suficiente com o esforço |
- A síndrome bradicardia-taquicardia é a forma mais frequente.
- É uma doença sobretudo de idosos, pela fibrose do nó que acompanha a idade. Mas a fibrose por si não é doença: muitos idosos com fibrose extensa têm frequência normal.
- Bradicardia fisiológica não é doença: 40 a 50 por minuto em repouso, e até 30 durante o sono, é aceitável sobretudo em atletas treinados.
- Não há uma frequência abaixo da qual esteja indicado pacemaker: o que decide é a relação entre bradicardia e sintomas.
O nó sinusal
- Aglomerado de células de pacemaker no sulco terminal, na junção da veia cava superior com a aurícula direita, à volta da artéria do nó sinusal. Esta nasce da coronária direita em 55 a 60% e da circunflexa em 40 a 45%.
- Automatismo: despolarização espontânea na fase 4, pela corrente de entrada de sódio dita «funny» e por canais de cálcio T e L; a subida do potencial de ação depende do cálcio, não do sódio.
- Em repouso domina o tónus parassimpático. Sem influência autonómica, a frequência intrínseca é de 100 a 110 por minuto e desce 5 a 6 por minuto em cada década.
Causas intrínsecas
- Fibrose degenerativa do nó e do miocárdio auricular, ligada à idade: é também o substrato da forma bradicardia-taquicardia.
- Isquemia do nó: bradicardia sinusal frequente no enfarte inferior ou posterior, agravada pelo reflexo vagal, pela morfina e pelos betabloqueantes; em regra transitória.
- Doenças infiltrativas (amiloidose), miocardite, lesão cirúrgica da artéria do nó (atriotomia), transplante cardíaco, ablação de fibrilhação ou flutter.
Causas extrínsecas e reversíveis
| grupo | exemplos |
|---|---|
| Condições clínicas | hipotiroidismo, apneia do sono, hipoxia, hipotermia, hipertensão intracraniana, doença de Lyme, miocardite, reflexo vagal (tosse, dor) |
| Anti-hipertensores | betabloqueantes, verapamilo e diltiazem, clonidina, metildopa |
| Antiarrítmicos | amiodarona, dronedarona, flecainida, propafenona, sotalol, ivabradina |
| Psicofármacos e outros | lítio, donepezilo, opioides, fenotiazinas, fenitoína, antidepressivos, anestésicos (propofol), canábis, digoxina |
Porque surgem as pausas na forma bradicardia-taquicardia
- A taquiarritmia auricular suprime o nó por sobre-estimulação; quando termina, o nó doente demora a retomar e surge uma pausa de conversão, que é quando acontece a síncope.
- Os fármacos que controlam a taquicardia agravam a bradicardia, e é este círculo que muitas vezes obriga ao pacemaker.
- Cansaço, intolerância ao esforço e dispneia de esforço (a incompetência cronotrópica), que o doente e a família atribuem à idade.
- Tonturas, pré-síncope e síncope: metade dos doentes que recebem pacemaker por doença do nó sinusal tiveram síncope.
- Os sintomas surgem em repouso, no esforço, ou no fim de um episódio de taquicardia (pausa de conversão).
- Na forma bradicardia-taquicardia juntam-se as palpitações da taquiarritmia e o risco embólico da fibrilhação.
- Hipersensibilidade do seio carotídeo e síncope vasovagal cardioinibitória dão bradicardia reflexa, e não doença intrínseca do nó.
O princípio
- O diagnóstico e a decisão dependem de correlacionar os sintomas com a bradicardia ou com as pausas. Uma bradicardia sem sintomas, ou sintomas sem bradicardia registada, não chegam.
Registo
- Eletrocardiograma de 12 derivações: mostra a bradicardia de base, mas raramente apanha os sintomas.
- Holter ou telemetria, registador de eventos, e registador implantável quando os sintomas são raros; os relógios com eletrocardiograma também servem.
- Prova de esforço para a incompetência cronotrópica; protocolos com aumentos graduais apanham falhas que a prova standard perde.
- Estudo eletrofisiológico raramente se usa, e não está indicado no assintomático com bradicardia sinusal.
No traçado
| achado | leitura |
|---|---|
| Pausa sem onda P, sem relação com o ciclo sinusal | paragem sinusal |
| Pausa com exatamente o dobro do intervalo PP anterior | bloqueio sinoauricular de segundo grau tipo II |
| PP que encurta progressivamente até uma pausa menor do que o dobro | bloqueio sinoauricular tipo Wenckebach |
| Pausa longa depois de terminar uma fibrilhação ou flutter | síndrome bradicardia-taquicardia |
| Frequência que não sobe no esforço | incompetência cronotrópica |
Procurar causa reversível
- Função tiroideia, ionograma, revisão de toda a medicação.
- Bradicardia marcada e pausas longas durante o sono fazem pensar em apneia do sono.
- Ecocardiograma se houver suspeita de cardiopatia estrutural; ressonância ou outra imagem avançada na suspeita de amiloidose, miocardite ou doença infiltrativa.
Diagnóstico diferencial
- Bradicardia fisiológica do atleta e do sono.
- Bradicardia reflexa (seio carotídeo, vasovagal).
- Bloqueio auriculoventricular: há ondas P sem QRS, e não ausência de P.
Bradicardia aguda com sinais de gravidade
| passo | como |
|---|---|
| 1 | atropina 500 microgramas endovenosa, repetível cada 3 a 5 minutos até 3 mg |
| 2 | se não resulta: isoprenalina (início a 5 microgramas por minuto) ou adrenalina (2 a 10 microgramas por minuto) |
| 3 | pacing: transcutâneo como ponte, e transvenoso logo que possível |
- Betabloqueante ou bloqueador dos canais de cálcio como causa: considerar glucagon.
- No transplantado cardíaco não se dá atropina (pode dar bloqueio de alto grau ou paragem sinusal); usa-se aminofilina.
Retirar o que é reversível
- Suspender ou reduzir os fármacos dispensáveis; tratar o hipotiroidismo e a apneia do sono.
- Se o fármaco é essencial e não tem alternativa, o pacemaker passa a estar indicado.
Pacemaker definitivo
| situação | indicação |
|---|---|
| Sintomas claramente atribuíveis à bradiarritmia | indicado |
| Bradicardia-taquicardia sintomática | indicado, para corrigir a bradicardia e permitir tratar a taquiarritmia, salvo se se preferir a ablação |
| Incompetência cronotrópica com sintomas claros no esforço | pacemaker de duas câmaras com resposta em frequência |
| Bradicardia ligada à fibrilhação, ou pausas de conversão sintomáticas | considerar ablação da fibrilhação para evitar o pacemaker |
| Síncope com pausas assintomáticas acima de 6 segundos por paragem sinusal | pode considerar-se |
| Sem sintomas, ou por causa transitória reversível | não indicado |
- Modo: pacemaker de duas câmaras como primeira escolha, porque reduz a fibrilhação auricular e evita a síndrome de pacemaker, que surge em mais de um quarto dos doentes estimulados só no ventrículo. Programa-se para minimizar a estimulação ventricular desnecessária.
- No doente muito idoso ou frágil, com pausas raras, a estimulação só ventricular é aceitável.
- A fibrilhação da forma bradicardia-taquicardia anticoagula-se pelas regras gerais.
- A bradicardia sinusal assintomática não se associa a pior prognóstico, e o pacemaker na doença do nó sinusal não demonstrou melhorar a sobrevida, ao contrário do que acontece no bloqueio auriculoventricular.
- Síncope e quedas, com traumatismo.
- Na forma bradicardia-taquicardia: AVC pela fibrilhação associada.
- Muitos doentes vêm a ter também doença do nó auriculoventricular, a mesma fibrose a avançar, o que pesa na escolha do pacemaker.
Complicações do pacemaker
- Agudas: infeção, hematoma, pneumotórax, perfuração cardíaca, estimulação do diafragma, deslocação do elétrodo.
- Crónicas: infeção e erosão, falência do elétrodo (a peça menos fiável do sistema).
- Síndrome de pacemaker com estimulação só ventricular.
- Miocardiopatia induzida pela estimulação do ventrículo direito: em 10 a 20% dos doentes ao fim de 2 a 4 anos, associada a uma carga de estimulação ventricular acima de 20%.
| grau | traçado |
|---|---|
| Primeiro grau | PR acima de 200 ms, constante; todas as P conduzem |
| Segundo grau, Mobitz I (Wenckebach) | o PR alonga progressivamente até uma P não conduzir |
| Segundo grau, Mobitz II | PR fixo e falha súbita de um QRS |
| Dois para um | uma P conduz, a seguinte não; não se classifica como I ou II pelo traçado |
| Avançado (alto grau) | relação de 3 ou mais P por cada QRS |
| Terceiro grau (completo) | dissociação: as P e os QRS têm ritmos independentes, e o ventricular é mais lento |
- O bloqueio de primeiro grau não é bloqueio, é atraso, mas o nome ficou.
- O bloqueio transitório é comum nos jovens, por tónus vagal alto, que existe em até 10% dos adultos jovens.
- O bloqueio adquirido e persistente é raro na população saudável (cerca de 1 por 5000 pessoas por ano) e muito mais frequente com isquemia, envelhecimento e fibrose, ou doenças infiltrativas.
Anatomia e inervação
- O nó está no vértice do triângulo de Koch; a artéria do nó nasce da coronária direita em 80 a 90%. O His e os ramos têm dupla irrigação, pela descendente anterior e pela descendente posterior.
- O nó é muito inervado pelo simpático e pelo parassimpático; o His e o sistema distal quase não sofrem influência autonómica.
- Consequência: vagotonia e massagem carotídea pioram a condução no nó; atropina, isoprenalina e esforço melhoram-na. Abaixo do nó o efeito é pequeno, ou mesmo paradoxal: a atropina acelera a aurícula e pode agravar um bloqueio infranodal.
O nível decide
| nodal | infranodal (His ou abaixo) | |
|---|---|---|
| Traçado habitual | primeiro grau, Mobitz I | Mobitz II, a maioria dos completos adquiridos |
| QRS | estreito | muitas vezes largo |
| Escape | juncional, estreito, mais rápido e estável | ventricular, largo, mais lento e instável |
| Atropina e esforço | melhoram | não melhoram, podem piorar |
| Prognóstico | benigno | risco de assistolia e morte súbita |
Causas
| grupo | exemplos |
|---|---|
| Fibrose e esclerose do sistema de condução | a causa mais frequente, cerca de 50%; degenerativa do idoso (doença de Lev), forma mais jovem e distal (doença de Lenègre), calcificação do anel aórtico |
| Iatrogénicas | cirurgia valvular (sobretudo aórtica e tricúspide), TAVI, alcoolização septal, miectomia, ablação (cerca de 1% na da reentrada nodal) |
| Fármacos | betabloqueantes, verapamilo, diltiazem, digoxina; muitas vezes sobre doença da condução prévia |
| Isquemia | enfarte: bloqueio transitório em 10 a 25% |
| Infeções | doença de Lyme, endocardite com abcesso perivalvular, miocardite viral, doença de Chagas |
| Infiltrativas e inflamatórias | sarcoidose, amiloidose, hemocromatose, lúpus, artrite reumatoide, esclerodermia |
| Neuromusculares | distrofia miotónica, síndrome de Kearns-Sayre, outras distrofias |
| Congénitas | lúpus materno, cardiopatias congénitas complexas |
| Funcionais e reversíveis | tónus vagal (sono, atleta, reflexos), alterações metabólicas e endócrinas, apneia do sono |
- O primeiro grau é quase sempre assintomático; um PR muito longo (acima de 300 ms) pode dar sintomas semelhantes aos da síndrome de pacemaker.
- Cansaço, intolerância ao esforço e insuficiência cardíaca, sobretudo no bloqueio crónico com bradicardia permanente; no idoso passam por envelhecimento.
- Tonturas e síncope surgem sobretudo no bloqueio completo e de alto grau, e em especial nas formas paroxísticas, em que o escape demora a aparecer.
- A síncope arrítmica é tipicamente súbita e sem pródromo.
- Morte por insuficiência cardíaca de baixo débito, ou súbita, por assistolia ou taquiarritmia ventricular favorecida pela bradicardia.
Ler o traçado
- Mobitz I: o PR alonga e o RR encurta progressivamente até à falha, com batimentos agrupados. A maior diferença está entre o último PR antes da falha e o primeiro a seguir.
- Mobitz II: PR fixo antes e depois da falha, muitas vezes com bloqueio de ramo.
- Dois para um: PR abaixo de 160 ms nas P conduzidas e QRS largo apontam para nível infranodal. O PR que alonga antes do bloqueio e a resposta ao esforço também ajudam.
- Completo: PP regulares entre si, RR regulares entre si, sem relação fixa entre uns e outros, com frequência ventricular menor do que a auricular. Escape estreito sugere bloqueio no nó ou no His proximal; escape largo, sem bloqueio de ramo prévio, sugere bloqueio distal.
Testar o nível
- Manobras vagais e massagem carotídea pioram o bloqueio nodal; atropina e esforço melhoram-no. No infranodal o efeito é o inverso ou nenhum.
- No bloqueio completo congénito de QRS estreito, o esforço sobe a frequência; no adquirido de QRS largo, não.
- Estudo eletrofisiológico na síncope com suspeita de bloqueio de alto grau, quando os exames não invasivos não esclarecem. Num doente com bloqueio de ramo, um intervalo HV acima de 100 ms associa-se a cerca de 10% por ano de progressão para bloqueio completo.
Procurar a causa
- Revisão dos fármacos, potássio, isquemia (eletrocardiograma e troponina se houver contexto).
- Ecocardiograma em todos: estrutura, válvulas, fração de ejeção, contratilidade segmentar.
- Num doente jovem sem causa aparente, imagem avançada (ressonância, PET) à procura de sarcoidose e outras doenças infiltrativas.
- Serologia de Lyme quando a exposição é plausível; hemoculturas e ecocardiograma transesofágico se houver endocardite.
Diagnóstico diferencial
- Extrassístole auricular bloqueada: P prematura sem QRS, que não é Mobitz II.
- Doença do nó sinusal: falta a P, não o QRS.
- Dissociação auriculoventricular sem bloqueio, quando o ritmo juncional ou ventricular é mais rápido do que o sinusal.
Na fase aguda
- Decide-se pela clínica, pela hemodinâmica e pelo nível provável. Um escape estreito a 45 por minuto sem sintomas não obriga a pacing urgente; um escape largo a 30 por minuto obriga.
- Retirar fármacos que atrasam o nó, corrigir eletrólitos e isquemia, tratar o tónus vagal excessivo.
- Atropina (500 microgramas, repetível até 3 mg) só ajuda no bloqueio nodal. No bloqueio de alto grau com QRS largo não se dá: é ineficaz e pode agravá-lo.
- Isoprenalina ou adrenalina em perfusão, e pacing: transcutâneo como ponte (limitado pelo desconforto e pela perda de captura), transvenoso logo que possível. O pacing imediato está indicado sobretudo quando o bloqueio é no His ou abaixo.
Pacemaker definitivo
| situação | indicação |
|---|---|
| Mobitz II, avançado, dois para um infranodal, completo, permanentes ou paroxísticos, sem causa reversível | indicado, mesmo sem sintomas |
| Fibrilhação auricular com bloqueio completo ou de alto grau | indicado, mesmo sem sintomas |
| Mobitz I com sintomas, ou com bloqueio no His ou abaixo no estudo eletrofisiológico | deve considerar-se |
| Primeiro grau com PR acima de 300 ms e sintomas claramente atribuíveis | deve considerar-se |
| Bloqueio por causa transitória reversível | não indicado |
- Bloqueio bifascicular ou trifascicular com síncope sem outra causa, ou com bloqueio completo intermitente, Mobitz II ou bloqueio de ramo alternante: pacemaker.
- Doenças neuromusculares com envolvimento da condução: pacemaker mesmo com primeiro grau marcado ou Mobitz I.
- Modo: em ritmo sinusal, duas câmaras em vez de só ventrículo, para evitar a síndrome de pacemaker (até um quarto dos doentes). Na fibrilhação permanente, estimulação ventricular com resposta em frequência.
- Com fração de ejeção abaixo de 50% e estimulação ventricular prevista acima de 40% do tempo, prefere-se uma estimulação mais fisiológica (ressincronização, estimulação do His ou da área do ramo esquerdo) à do ventrículo direito.
- Primeiro grau: bom prognóstico sem cardiopatia estrutural; progride raramente.
- Mobitz I nodal: curso benigno, com baixo risco de progressão. Alguns dados sugerem maior mortalidade a longo prazo acima dos 45 anos sem pacemaker.
- Infranodal (Mobitz II, a maioria dos completos): risco de progressão, de síncope e de morte súbita, por escape lento e pouco fiável.
- No bloqueio não tratado, a morte vem da insuficiência cardíaca de baixo débito ou é súbita.
- Ao contrário da doença do nó sinusal, o pacemaker no bloqueio de alto grau melhora o prognóstico, e não só os sintomas.
- O bloqueio da doença de Lyme melhora em regra na primeira semana de antibiótico.
- A estimulação crónica do ventrículo direito pode causar disfunção ventricular e insuficiência cardíaca.
Enfarte agudo do miocárdio
| enfarte inferior | enfarte anterior | |
|---|---|---|
| Nível | nodal, acima do His em 90% | distal ao nó, no His ou nos ramos |
| Mecanismo | isquemia da artéria do nó e reflexo vagal | necrose extensa do sistema de condução |
| Escape | estreito, acima de 40 por minuto | largo e instável |
| Evolução | em regra reversível; responde a atropina | mortalidade alta; pacing temporário em regra indicado |
- Revascularizar se ainda não houve reperfusão. O bloqueio pós-enfarte resolve-se muitas vezes em poucos dias, e só uma minoria precisa de pacemaker definitivo.
- No enfarte anterior, um bloqueio de ramo direito novo pode anunciar o bloqueio completo.
Outras situações
- Atleta e sono: o tónus vagal pode dar todos os graus de bloqueio, incluindo Mobitz I noturno; tem de desaparecer com o esforço.
- Bloqueio congénito com coração normal: filhos de mães com lúpus ou outra doença autoimune. Pacemaker profilático se houver fatores de risco: frequência média diurna abaixo de 50, pausas acima de 3 vezes o ciclo do escape, escape de QRS largo, QT longo, ectopia ventricular complexa; e sempre que houver sintomas.
- Depois de cirurgia valvular ou TAVI: o bloqueio pode surgir de novo e exige vigilância do ritmo nos dias seguintes.
- Idoso: a fibrose degenerativa é a causa dominante, e os fármacos que atrasam o nó revelam doença de condução latente.
Referências
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- Brugada J, Katritsis DG, Arbelo E, Arribas F, Bax JJ, Blomström-Lundqvist C, et al. 2019 ESC Guidelines for the management of patients with supraventricular tachycardia. Eur Heart J. 2020;41(5):655-720.
- Glikson M, Nielsen JC, Kronborg MB, Michowitz Y, Auricchio A, Barbash IM, et al. 2021 ESC Guidelines on cardiac pacing and cardiac resynchronization therapy. Eur Heart J. 2021;42(35):3427-520.
- Soar J, Böttiger BW, Carli P, Carmona Jiménez F, Cimpoesu D, Cole G, et al. European Resuscitation Council Guidelines 2025: adult advanced life support. Resuscitation. 2025;215:110769.
- Loscalzo J, Fauci A, Kasper D, Hauser S, Longo D, Jameson JL, editores. Harrison's principles of internal medicine. 21.ª ed. Nova Iorque: McGraw-Hill; 2022. Cap. 244, The bradyarrhythmias: disorders of the sinoatrial node; cap. 245, The bradyarrhythmias: disorders of the atrioventricular node; cap. 249, Paroxysmal supraventricular tachycardias; cap. 250, Common atrial flutter and macroreentrant and multifocal atrial tachycardias; cap. 251, Atrial fibrillation.
29 perguntas sobre Disritmias - fibrilhação e flutter auricular, taquicardia supraventicular paroxística, doença do nó sinusal, bloqueios auriculoventriculares
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Criar conta e treinar