Cardiopatia isquémica e síndromes coronárias agudas
Atualizado em 27 de setembro de 2026 · 35 perguntas neste tema
A cardiopatia isquémica nasce quase sempre da aterosclerose das artérias coronárias e manifesta-se de duas formas. Na síndrome coronária crónica, uma placa estável estreita a artéria e o miocárdio só fica em sofrimento quando a necessidade de oxigénio sobe: é a angina de esforço, previsível e aliviada pelo repouso. Na síndrome coronária aguda, a placa rompe-se ou sofre erosão e forma-se um trombo por cima; o que decide o quadro é esse trombo, e não o grau de estenose que a placa causava antes.
O trombo que oclui a artéria dá enfarte com supradesnivelamento de ST, e o que não a oclui dá enfarte sem supradesnivelamento ou angina instável, que só a troponina separa. A quinta definição universal do enfarte, de 2026, classifica-o como primário (uma doença coronária aguda, quase sempre aterotrombose), secundário (desequilíbrio entre oferta e procura de oxigénio por outra doença aguda) ou associado a procedimento, e usa o percentil 99 da troponina específico de cada sexo.
O eletrocardiograma faz-se e lê-se nos primeiros 10 minutos. O supradesnivelamento persistente, e também os seus equivalentes, entre eles qualquer bloqueio de ramo com suspeita forte de isquemia em curso, conhecido ou não, pedem reperfusão imediata: angioplastia primária se o fio-guia puder passar a lesão em menos de 120 minutos após o diagnóstico, e fibrinólise nas primeiras 12 horas de sintomas se não puder, sempre seguida de transferência. Sem supradesnivelamento, a troponina de alta sensibilidade com colheitas às 0 e 1 hora confirma ou exclui o enfarte, e o risco dita se a coronariografia é imediata, nas primeiras 24 horas, no internamento ou seletiva.
Todos recebem dupla antiagregação, em regra durante 12 meses, e anticoagulação parentérica na fase aguda. O que não se pode falhar: o ventrículo direito no enfarte inferior, que pede fluidos e proíbe nitratos; as complicações mecânicas entre o terceiro e o sétimo dia, com sopro novo e choque; e a prevenção secundária, com LDL abaixo de 55 mg/dL e redução de pelo menos 50%, estatina de alta intensidade logo no internamento, reabilitação cardíaca e vacina da gripe, que decide o prognóstico a longo prazo.
Na síndrome coronária crónica, a probabilidade pré-teste escolhe o exame, a angiotomografia coronária exclui doença quando a probabilidade é baixa ou moderada, o betabloqueante e o bloqueador dos canais de cálcio aliviam a angina, e a revascularização decide-se em equipa, com a cirurgia favorecida no tronco comum e no diabético com doença de vários vasos.
A síndrome coronária aguda é o conjunto de quadros causados por uma redução súbita do fluxo coronário. Organiza-se num espetro, e o eletrocardiograma dá o diagnóstico de trabalho logo à chegada.
| enfarte com supradesnivelamento de ST | enfarte sem supradesnivelamento de ST | angina instável | |
|---|---|---|---|
| Substrato habitual | trombo oclusivo persistente | trombo não oclusivo | trombo não oclusivo, sem necrose |
| Eletrocardiograma | supradesnivelamento persistente ou equivalente | infradesnivelamento, alterações da onda T, ou normal | igual ao enfarte sem supradesnivelamento |
| Troponina | elevada com cinética | elevada com cinética | sem lesão aguda |
| Decisão imediata | reperfundir | estratificar o risco e escolher o momento da coronariografia | idem |
- As siglas inglesas STEMI e NSTEMI correspondem ao enfarte com e sem supradesnivelamento de ST.
- A angina instável é o quadro isquémico em repouso ou com esforço mínimo, ou o agravamento súbito de uma angina crónica, com o enfarte excluído pela troponina seriada. Com a troponina de alta sensibilidade é cada vez menos frequente.
O que é um enfarte (quinta definição universal, 2026)
- Lesão miocárdica aguda: subida ou descida da troponina I ou T com pelo menos um valor acima do percentil 99 específico do sexo. O limiar é mais baixo na mulher do que o limiar único, e mais alto no homem; usá-lo evita subdiagnosticar a mulher.
- Enfarte: lesão miocárdica aguda com pelo menos um sinal de isquemia: sintomas, alterações isquémicas novas ou ondas Q patológicas no eletrocardiograma, imagem de uma doença coronária aguda, ou perda nova de miocárdio viável ou alteração segmentar nova da contratilidade.
- Lesão miocárdica crónica: dois ou mais valores acima do percentil 99, estáveis, colhidos em contexto estável. Não é enfarte.
Tipos de enfarte
| tipo (2026) | o que é | numeração antiga (2018) |
|---|---|---|
| Primário | doença coronária aguda espontânea: aterotrombose na maioria, mas também disseção coronária espontânea, embolia coronária, espasmo, e reestenose, trombose de prótese ou falência de enxerto passados mais de 30 dias do procedimento | tipo 1, e parte do tipo 2 |
| Secundário | desequilíbrio entre oferta e procura por outra doença aguda (taquiarritmia, hipotensão, anemia, hipoxemia, hipertensão grave), confirmado por doença coronária obstrutiva sem lesão aguda ou por alteração segmentar nova | tipo 2 |
| Associado a procedimento | complicação coronária nos 30 dias seguintes a um procedimento cardíaco percutâneo ou cirúrgico | tipos 4 e 5 |
- O antigo tipo 3, a morte súbita antes de haver troponina, deixou de existir como tipo: classifica-se pelo contexto ou pela autópsia.
- A disseção coronária espontânea, a embolia e o espasmo passaram do tipo 2 para o enfarte primário.
Dimensão
- A doença cardiovascular é a primeira causa de morte nos países da Sociedade Europeia de Cardiologia, e a cardiopatia isquémica responde por 38% dessas mortes na mulher e 44% no homem.
- Em 2019 estimaram-se 5,8 milhões de casos novos de cardiopatia isquémica nesses 57 países. A síndrome coronária aguda é muitas vezes a primeira manifestação da doença.
Da placa à estenose
- A aterosclerose começa com a retenção de lipoproteínas de baixa densidade na íntima, onde se oxidam e atraem monócitos que se transformam em células espumosas. Tabaco, dislipidemia, hipertensão e diabetes aceleram o processo.
- As placas formam-se sobretudo nos pontos de fluxo turbulento, como as bifurcações.
- Uma estenose de 50% do diâmetro limita a capacidade de aumentar o fluxo no esforço, e é daí que vem a angina de esforço. Por volta de 80%, o fluxo em repouso pode já diminuir.
Da placa ao trombo
| placa estável | placa vulnerável | |
|---|---|---|
| Estrutura | cápsula fibrosa espessa, núcleo lipídico pequeno | cápsula fina, núcleo lipídico grande, inflamação |
| Manifestação | angina de esforço | rotura ou erosão com trombose, e síndrome aguda |
- O acontecimento que desencadeia a síndrome aguda é a rotura da cápsula ou a erosão da superfície da placa; a erosão explica pelo menos um terço dos casos.
- O conteúdo exposto ativa as plaquetas, que libertam tromboxano A2 (vasoconstritor e pró-agregante) e ativam o recetor da glicoproteína IIb/IIIa, que as liga entre si através do fibrinogénio. Em paralelo, o fator tecidular ativa a cascata da coagulação e forma-se fibrina. É por isso que o tratamento junta antiagregantes e anticoagulantes.
- Na síndrome aguda há muitas vezes várias placas vulneráveis ao mesmo tempo, e não apenas a responsável.
Do trombo ao eletrocardiograma
- Trombo não oclusivo, ou oclusivo com boa circulação colateral: isquemia subendocárdica, que dá infradesnivelamento de ST ou alterações da onda T.
- Trombo oclusivo persistente: isquemia transmural, que dá supradesnivelamento de ST.
- O subendocárdio sofre primeiro porque é a zona mais mal perfundida da parede.
Tempo é miocárdio
- Numa oclusão total sem colaterais, a lesão é reversível durante cerca de 20 minutos; a partir daí instala-se necrose, que começa no subendocárdio e se estende em direção ao subepicárdio.
- É esta progressão que faz o benefício da reperfusão cair com cada minuto de atraso.
Enfarte sem aterotrombose
- Enfarte secundário: taquiarritmia, anemia grave, hipotensão, hipoxemia ou hipertensão grave fazem necrose por desequilíbrio entre oferta e procura, sobretudo quando já existe estenose fixa.
- Espasmo coronário, disseção coronária espontânea e embolia coronária causam enfarte primário sem placa rota.
Sintomas
- Desconforto torácico agudo, descrito como dor, pressão, aperto, peso ou ardor, retroesternal ou epigástrico, com irradiação aos braços, ao pescoço, à mandíbula ou ao dorso. Acompanha-se muitas vezes de sudorese, náuseas, vómitos, ansiedade e sensação de morte iminente.
- Ao contrário da angina de esforço, surge em repouso ou não cede quando o esforço para. Dor retroesternal com mais de 30 minutos e sudorese sugere fortemente enfarte com supradesnivelamento.
- Equivalentes da dor: dispneia, dor epigástrica, dor no braço esquerdo ou direito, no pescoço ou na mandíbula. A Sociedade Europeia de Cardiologia recomenda não usar o termo «atípico»: a dor classifica-se como cardíaca, possivelmente cardíaca ou provavelmente não cardíaca.
- O enfarte sem dor é mais frequente no diabético e aumenta com a idade. No idoso pode apresentar-se como dispneia súbita ou edema pulmonar, síncope, confusão, fraqueza marcada, arritmia, embolia periférica ou hipotensão sem explicação.
- Dor com mais de 15 minutos, ou que volta na mesma hora, deve levar a pessoa a ligar logo o 112, sem passar pelo médico assistente.
Exame objetivo
- Muitas vezes normal na primeira hora. No enfarte anterior predomina a hiperatividade simpática (taquicardia, hipertensão); no inferior, a parassimpática (bradicardia, hipotensão).
- Palidez, sudorese e extremidades frias; quarto ou terceiro som; sopro sistólico apical transitório por disfunção do aparelho valvular mitral.
- O exame procura os sinais de gravidade e os diagnósticos alternativos: pulsos e pressão arterial nos dois braços, auscultação cardíaca e pulmonar, sinais de insuficiência cardíaca ou de choque.
Classe de Killip
Gradua a insuficiência cardíaca à entrada e é uma das variáveis de risco.
| classe | achados |
|---|---|
| I | sem sinais de congestão |
| II | insuficiência cardíaca moderada: fervores nas bases, terceiro som, taquipneia ou sinais de insuficiência direita |
| III | edema agudo do pulmão |
| IV | choque cardiogénico: pressão sistólica abaixo de 90 mmHg com vasoconstrição periférica, cianose, confusão e oligúria |
Eletrocardiograma
- Regista-se e interpreta-se nos primeiros 10 minutos após o primeiro contacto médico, e repete-se se a dor voltar ou houver dúvida. É normal em mais de um terço das síndromes sem supradesnivelamento.
- Critério de supradesnivelamento: elevação nova do ponto J em duas derivações contíguas, de 1 mm ou mais nas derivações em geral e, em V2 e V3, de 2,5 mm ou mais no homem abaixo dos 40 anos, 2 mm ou mais no homem a partir dos 40 anos e 1,5 mm ou mais na mulher, na ausência de hipertrofia ventricular esquerda ou bloqueio de ramo esquerdo.
- No enfarte inferior registam-se sempre as derivações direitas (V3R e V4R); as posteriores (V7 a V9) quando há dor persistente e o traçado de 12 derivações é inconclusivo.
Equivalentes de supradesnivelamento: tratam-se como tal
| padrão | significado |
|---|---|
| Bloqueio de ramo esquerdo ou direito, ou ritmo de pacemaker, com clínica muito sugestiva de isquemia em curso | trata-se como enfarte com supradesnivelamento, seja o bloqueio novo ou já conhecido |
| Infradesnivelamento em V1 a V3, sobretudo com onda T terminal positiva, ou supradesnivelamento em V7 a V9 | oclusão posterior, muitas vezes da circunflexa |
| Supradesnivelamento em V3R e V4R | isquemia do ventrículo direito |
| Infradesnivelamento de 1 mm ou mais em seis ou mais derivações, com supradesnivelamento em aVR ou V1 | doença de vários vasos ou do tronco comum, sobretudo com instabilidade |
| Infradesnivelamento ascendente de ST com ondas T altas e simétricas nas precordiais (padrão de de Winter) | oclusão da descendente anterior proximal |
- No bloqueio de ramo esquerdo ou ritmo de pacemaker, os critérios de Sgarbossa ajudam: supradesnivelamento de 1 mm ou mais concordante com o QRS, infradesnivelamento de 1 mm ou mais em V1, V2 ou V3, ou supradesnivelamento de 5 mm ou mais discordante. Não são condição para tratar: com isquemia provável em curso, reperfunde-se.
- Ondas T bifásicas ou profundamente invertidas em V2 e V3 (sinal de Wellens) apontam estenose crítica da descendente anterior proximal.
Localização
| parede | derivações | artéria provável |
|---|---|---|
| Anterior | V1 a V4 | descendente anterior |
| Inferior | II, III e aVF | coronária direita |
| Lateral | I, aVL, V5 e V6 | circunflexa |
| Posterior | infradesnivelamento em espelho em V1 a V3, supradesnivelamento em V7 a V9 | circunflexa ou coronária direita |
| Ventrículo direito | V3R e V4R | coronária direita proximal |
- A evolução clássica do enfarte com supradesnivelamento é onda T hiperaguda, supradesnivelamento, onda Q e inversão da onda T. Onda Q patológica: duração de 40 ms ou mais, ou profundidade de 25% ou mais da onda R, em duas derivações contíguas.
- O supradesnivelamento da oclusão coronária é regional e costuma ter imagem em espelho; na pericardite e na repolarização precoce é difuso.
Troponina de alta sensibilidade
- Pede-se à chegada e o resultado deve estar disponível em 60 minutos.
- Algoritmo europeu 0 h/1 h (o preferido) ou 0 h/2 h: combina o valor à chegada com a variação absoluta na primeira ou segunda hora. Os limiares são próprios de cada ensaio.
- A via de exclusão tem valor preditivo negativo acima de 99%; a de inclusão tem valor preditivo positivo de 70 a 75%. Quem fica em observação faz terceira colheita às 3 horas, com ecocardiograma.
- A concentração varia com a idade, a função renal, o tempo desde o início da dor e o sexo. A guideline europeia de 2023 manteve um limiar único; a definição universal de 2026 adotou o percentil 99 específico do sexo.
- No enfarte com supradesnivelamento não se espera pela troponina para reperfundir.
Outros exames
- Ecocardiograma transtorácico no serviço de urgência: alterações segmentares, função ventricular, complicações mecânicas e diagnósticos alternativos. Não pode atrasar a reperfusão.
- Angiotomografia coronária pode excluir doença coronária no doente de risco baixo com troponina e eletrocardiograma inconclusivos.
Diagnóstico diferencial
| diagnóstico | o que o distingue |
|---|---|
| Disseção aórtica | dor dilacerante com irradiação ao dorso, assimetria de pulsos ou de pressão entre os braços; a fibrinólise e os antitrombóticos são desastrosos |
| Embolia pulmonar | dispneia, hipoxemia, fatores de risco de tromboembolismo; angiotomografia pulmonar |
| Pericardite | dor pleurítica que irradia ao trapézio, atrito pericárdico, supradesnivelamento difuso com depressão de PR |
| Miocardite | contexto viral, doente jovem; a ressonância magnética mostra realce tardio subepicárdico |
| Síndrome de Takotsubo | mulher idosa após stresse intenso, balonamento apical, coronárias sem lesão aguda |
| Pneumotórax hipertensivo, esofágica, osteomuscular | clínica e imagem |
Medidas iniciais
- Monitorização eletrocardiográfica contínua e desfibrilhador à mão.
- Oxigénio só com saturação abaixo de 90%; no doente sem hipoxemia não traz benefício.
- Nitrato sublingual para a dor, exceto com hipotensão, bradicardia ou taquicardia marcadas, enfarte do ventrículo direito, estenose aórtica grave ou inibidor da fosfodiesterase 5 nas 24 a 48 horas anteriores.
- Opioide endovenoso (por exemplo morfina 5 a 10 mg) na dor intensa. Atrasa a absorção dos antiagregantes orais, sem prejuízo demonstrado nos desfechos.
- Metoprolol endovenoso à chegada, no doente que vai fazer angioplastia primária sem sinais de insuficiência cardíaca aguda e com pressão sistólica acima de 120 mmHg: reduz a fibrilhação ventricular e a obstrução microvascular.
Com supradesnivelamento: reperfusão imediata
Toda a pessoa com diagnóstico de trabalho de enfarte com supradesnivelamento (ou equivalente) e sintomas com menos de 12 horas tem indicação de reperfusão. Os tempos contam a partir do diagnóstico eletrocardiográfico.
| situação | tempo máximo |
|---|---|
| Diagnóstico até à passagem do fio-guia, para a angioplastia ser preferida à fibrinólise | 120 minutos |
| Objetivo quando o doente é transferido (ambulância ou hospital sem hemodinâmica) | 90 minutos até ao fio-guia |
| Objetivo quando o diagnóstico é feito num centro com hemodinâmica | 60 minutos até ao fio-guia |
| Diagnóstico até ao bólus de fibrinolítico, quando é essa a estratégia | 10 minutos |
- A angioplastia primária é a estratégia de eleição. Em Portugal, o circuito é a Via Verde Coronária: ligação para o 112, triagem pelo centro de orientação de doentes urgentes (CODU) do INEM, e transporte direto para o hospital com laboratório de hemodinâmica, que é avisado durante o trajeto. O doente que chega a um hospital sem hemodinâmica é transferido de imediato.
- Revascularização completa: na doença de vários vasos sem choque, tratam-se as outras estenoses significativas no mesmo procedimento ou nos 45 dias seguintes; no choque cardiogénico, só a artéria responsável na fase aguda.
| tempo desde o início dos sintomas | conduta |
|---|---|
| Menos de 12 horas | angioplastia primária, ou fibrinólise se não for possível em 120 minutos |
| Mais de 12 horas com sintomas persistentes, instabilidade hemodinâmica ou arritmia grave | angioplastia primária (classe I) |
| 12 a 48 horas, sem sintomas | angioplastia primária de rotina deve ser considerada (classe IIa) |
| Mais de 48 horas, sem sintomas | não se abre por rotina a artéria ocluída (classe III); segue como doença coronária crónica |
- Depois das 12 horas a fibrinólise deixa de ter lugar: prefere-se sempre a angioplastia.
Fibrinólise
- Indicada nas primeiras 12 horas quando a angioplastia não é possível em 120 minutos. Evita cerca de 30 mortes precoces por cada 1000 doentes tratados nas primeiras 6 horas, e dá-se de preferência ainda fora do hospital.
- Agente fibrinoespecífico: tenecteplase em bólus único ajustado ao peso (30 mg abaixo de 60 kg; 35 mg de 60 a 69 kg; 40 mg de 70 a 79 kg; 45 mg de 80 a 89 kg; 50 mg a partir de 90 kg), metade da dose acima dos 75 anos. Alternativas: alteplase e reteplase.
- Associa-se ácido acetilsalicílico e clopidogrel (300 mg de carga; 75 mg acima dos 75 anos) e anticoagulação, de preferência enoxaparina, até à revascularização. O ticagrelor e o prasugrel não estão estudados com fibrinolíticos.
- Transferência imediata para um centro com hemodinâmica depois de iniciar a fibrinólise, sem esperar pelos sinais de reperfusão.
- Sucesso: resolução do supradesnivelamento acima de 50% aos 60 a 90 minutos, arritmia de reperfusão e desaparecimento da dor. Faz-se coronariografia entre as 2 e as 24 horas.
- Falência (resolução abaixo de 50% aos 60 a 90 minutos), reoclusão, instabilidade hemodinâmica ou elétrica, isquemia a agravar ou dor persistente: angioplastia de recurso imediata. Não se repete o fibrinolítico.
- O risco de hemorragia intracraniana ronda 0,9 a 1,0%.
| contraindicações absolutas | contraindicações relativas |
|---|---|
| Hemorragia intracraniana prévia ou AVC de causa desconhecida, em qualquer altura | acidente isquémico transitório nos últimos 6 meses |
| AVC isquémico nos últimos 6 meses | anticoagulação oral |
| Lesão ou neoplasia do sistema nervoso central, ou malformação arteriovenosa | gravidez ou primeira semana pós-parto |
| Traumatismo major, cirurgia ou traumatismo craniano no último mês | hipertensão refratária, sistólica acima de 180 ou diastólica acima de 110 mmHg |
| Hemorragia digestiva no último mês | doença hepática avançada |
| Doença hemorrágica conhecida, excluindo a menstruação | endocardite infeciosa |
| Disseção aórtica | úlcera péptica ativa |
| Punção não compressível nas últimas 24 horas (biópsia hepática, punção lombar) | reanimação prolongada ou traumática |
Sem supradesnivelamento: estratificar e escolher o momento
Em todos se faz coronariografia durante o internamento; o risco define quando. Não há lugar para fibrinólise.
| risco | critérios | estratégia |
|---|---|---|
| Muito alto | instabilidade hemodinâmica ou choque; dor recorrente ou refratária; insuficiência cardíaca aguda por isquemia; arritmia grave ou paragem cardíaca após a chegada; complicação mecânica; alterações dinâmicas recorrentes, sobretudo supradesnivelamento intermitente | imediata (classe I) |
| Alto | enfarte confirmado pelo algoritmo da troponina; alterações dinâmicas de ST ou T; supradesnivelamento transitório; índice GRACE acima de 140 | nas primeiras 24 horas (classe IIa) e sempre no internamento |
| Sem critérios de alto risco | suspeita alta de angina instável | no internamento |
| suspeita baixa | seletiva, guiada por teste de isquemia ou angiotomografia |
- O índice GRACE (do registo global de eventos coronários agudos) estima a mortalidade a partir de oito variáveis: idade, pressão sistólica, frequência cardíaca, creatinina, paragem cardíaca à admissão, biomarcadores elevados, desvio de ST e classe de Killip.
Antitrombóticos
| fármaco | dose e regra |
|---|---|
| Ácido acetilsalicílico | 150 a 300 mg oral de carga (ou 75 a 250 mg endovenoso), depois 75 a 100 mg por dia, a todos |
| Prasugrel | 60 mg de carga, 10 mg por dia (5 mg a partir dos 75 anos ou abaixo de 60 kg); preferido ao ticagrelor em quem vai a angioplastia; contraindicado após AVC |
| Ticagrelor | 180 mg de carga, 90 mg duas vezes por dia, qualquer que seja a estratégia |
| Clopidogrel | 300 a 600 mg de carga, 75 mg por dia; quando os outros não estão disponíveis, não são tolerados ou estão contraindicados, com fibrinólise e em doentes idosos com risco hemorrágico alto |
| Anticoagulação parentérica | a todos, desde o diagnóstico: heparina não fracionada em bólus na angioplastia (70 a 100 UI/kg); enoxaparina como alternativa; fondaparinux se a coronariografia não for feita nas primeiras 24 horas (nunca na angioplastia primária) |
- O pré-tratamento com inibidor do P2Y12 antes de conhecer a anatomia não se faz por rotina quando a coronariografia está prevista nas primeiras 24 horas; pode considerar-se na angioplastia primária.
- Inibidor da bomba de protões com a dupla antiagregação no doente com risco alto de hemorragia digestiva.
Duração da antiagregação
| situação | esquema |
|---|---|
| Por defeito | dupla antiagregação 12 meses, com prasugrel ou ticagrelor, e depois antiagregação simples indefinida |
| Sem eventos aos 3 a 6 meses e sem risco isquémico alto | passar a um só antiagregante, de preferência o inibidor do P2Y12 (classe IIa) |
| Risco hemorrágico alto | um só antiagregante após 1 mês de dupla (classe IIb) |
| Troca para clopidogrel | pode considerar-se para reduzir hemorragia, nunca nos primeiros 30 dias |
| Risco isquémico alto sem risco hemorrágico alto | acrescentar um segundo antitrombótico ao ácido acetilsalicílico para lá dos 12 meses (classe IIa) |
| Com indicação para anticoagulação oral (por exemplo fibrilhação auricular) | até 1 semana de terapêutica tripla, depois anticoagulante oral direto com clopidogrel até aos 12 meses, e depois só o anticoagulante |
- Quem suspende a dupla antiagregação para cirurgia de revascularização retoma-a depois durante pelo menos 12 meses.
Choque cardiogénico
- Coronariografia imediata e angioplastia da artéria responsável; cirurgia de revascularização urgente se a angioplastia não for possível.
- O balão intra-aórtico não se usa por rotina (classe III); só nas complicações mecânicas enquanto se espera pela cirurgia.
- Fibrinólise se a angioplastia não for possível em 120 minutos e estiverem excluídas as complicações mecânicas.
Arritmias
- Taquicardia ou fibrilhação ventricular com repercussão hemodinâmica ocorre em 6 a 8% dos enfartes com supradesnivelamento. Trata-se com reperfusão urgente, desfibrilhação, betabloqueante ou amiodarona endovenosos.
- A arritmia ventricular sustentada que surge depois das 48 horas obriga a avaliar cardioversor-desfibrilhador implantável para prevenção secundária. O papel prognóstico da que surge nas primeiras 48 horas continua controverso.
- O ritmo idioventricular acelerado na reperfusão é benigno e não se trata. As extrassístoles ventriculares das primeiras 24 horas também não.
- A fibrilhação auricular é a arritmia supraventricular mais frequente; com instabilidade faz-se cardioversão elétrica, e anticoagula-se conforme o risco tromboembólico.
Bloqueio auriculoventricular
| enfarte inferior | enfarte anterior | |
|---|---|---|
| Mecanismo | tónus vagal aumentado e libertação de adenosina | necrose do sistema de condução |
| Evolução | habitualmente transitório | associado a enfarte extenso |
| Prognóstico | melhor | mortalidade muito mais alta |
- Bradicardia sinusal com repercussão: atropina 0,5 mg endovenosa, repetível; pacing se não responder.
Insuficiência cardíaca e choque
- A classe de Killip gradua a falência e prediz a mortalidade.
- O choque cardiogénico surge em 4 a 11% das síndromes coronárias agudas, mais com oclusão completa; tem mortalidade alta. O que muda o desfecho é a revascularização urgente.
- Enfarte do ventrículo direito: cerca de um terço dos enfartes inferiores tem algum grau de necrose do ventrículo direito. Dá hipotensão, ingurgitamento jugular e sinal de Kussmaul com pulmões limpos. Trata-se com volume para manter a pré-carga; nitratos contraindicados.
Complicações mecânicas
Surgem nos primeiros dias, tipicamente entre o 3.º e o 7.º dia, sobretudo no enfarte com supradesnivelamento. Com a angioplastia primária tornaram-se raras (0,27% dos enfartes com supradesnivelamento e 0,06% dos sem supradesnivelamento), mas a mortalidade no internamento é de 42% e 18%, respetivamente. Hipotensão súbita, dor recorrente, sopro novo, congestão pulmonar ou ingurgitamento jugular pedem ecocardiograma imediato.
| complicação | clínica | tratamento |
|---|---|---|
| Rotura do septo interventricular | sopro novo, choque, insuficiência direita; shunt esquerdo-direito no ecocardiograma | estabilizar e reparar cirurgicamente |
| Rotura do músculo papilar | edema pulmonar agudo e choque por insuficiência mitral aguda; atinge sobretudo o papilar posteromedial, que tem irrigação única | cirurgia, em regra substituição valvular |
| Rotura da parede livre | dor, choque, paragem cardíaca, tamponamento | cirurgia imediata |
- A cirurgia é o tratamento de escolha; o balão intra-aórtico deve ser considerado enquanto se espera.
Trombo ventricular esquerdo
- Mais frequente no enfarte anterior: acima de 9% numa meta-análise, e 12,2% por ressonância magnética. Pode formar-se nas primeiras 2 semanas, já depois da alta.
- O ecocardiograma é o primeiro exame; a ressonância é o padrão de referência.
- Confirmado, deve considerar-se anticoagulação oral durante 3 a 6 meses, guiada por imagem de controlo.
Pericardite
| pericardite precoce | síndrome de Dressler | |
|---|---|---|
| Quando | primeiros 4 dias | 1 a 2 semanas depois |
| Mecanismo | necrose transmural que inflama o pericárdio adjacente | reação imunológica aos antigénios cardíacos |
| Tratamento | ácido acetilsalicílico 500 mg de 8 em 8 a 12 em 12 horas, raramente mais de 5 a 7 dias | ácido acetilsalicílico 500 a 1000 mg de 6 em 6 a 8 em 8 horas, com colquicina 0,5 mg de 12 em 12 horas durante 3 meses |
- Tornaram-se raras com a angioplastia primária e associam-se a reperfusão tardia ou falhada e a enfartes maiores.
Prognóstico
- A disfunção ventricular esquerda é o principal fator de prognóstico: mede-se a fração de ejeção antes da alta em todos.
- Com fração de ejeção de 40% ou menos, reavalia-se às 6 a 12 semanas, já com revascularização e terapêutica otimizada, para decidir o cardioversor-desfibrilhador em prevenção primária. Nos primeiros 40 dias em regra não se implanta.
Coronárias sem obstrução (MINOCA)
- A sigla inglesa MINOCA designa o quadro de enfarte com coronárias sem estenose de 50% ou mais na coronariografia; a definição de 2026 passou a chamar-lhe lesão (e não enfarte) com coronárias não obstrutivas, porque muitas vezes a causa não é coronária.
- Ocorre em 1 a 14% das síndromes coronárias agudas que fazem coronariografia. É um diagnóstico de trabalho: a causa tem de ser procurada.
| causas | exemplos |
|---|---|
| Coronárias | rotura ou erosão de placa, espasmo, disseção espontânea, embolia, disfunção microvascular, ponte miocárdica |
| Cardíacas não coronárias | miocardite, síndrome de Takotsubo, miocardiopatias, cardiotóxicos, traumatismo |
| Extracardíacas | embolia pulmonar, sépsis, AVC, insuficiência renal terminal |
- A ressonância magnética cardíaca, idealmente nas primeiras 2 semanas, é o exame que separa enfarte, miocardite e Takotsubo. A imagem intracoronária e os testes de vasorreatividade com acetilcolina encontram a causa coronária.
Disseção coronária espontânea
- Pensa-se nela sobretudo na mulher, incluindo na gravidez e no periparto, onde se apresenta de forma mais grave (insuficiência cardíaca aguda, disseção de vários vasos). O diagnóstico faz-se na coronariografia, com imagem intracoronária se houver dúvida.
- A maioria cicatriza sozinha e a revascularização tem taxas altas de insucesso: a abordagem é conservadora. Angioplastia só com isquemia persistente, instabilidade ou disseção do tronco comum.
- Recorre em cerca de 10% aos 3 anos, o que se discute com a mulher em idade fértil.
Síndrome de Takotsubo
- Tipicamente mulher idosa após stresse emocional ou físico intenso. Pode imitar o enfarte com dor, alterações do eletrocardiograma e troponina elevada.
- Balonamento apical com contração da base, sem doença coronária aguda que o explique; a disfunção costuma reverter.
Espasmo coronário
- Dor em repouso, muitas vezes de madrugada, com supradesnivelamento transitório que resolve com a dor ou com o nitrato.
- Tratamento com bloqueadores dos canais de cálcio (classe I) e nitratos para prevenir as crises.
Enfarte secundário
- Trata-se a causa (arritmia, anemia, hipotensão, hipoxemia). A angioplastia de uma estenose fixa não corrige um desequilíbrio entre oferta e procura.
Cocaína e outros simpaticomiméticos
- Causam enfarte por vasoespasmo, trombose e aumento do consumo de oxigénio. Não se dá betabloqueante enquanto houver sinais de intoxicação aguda, pelo risco de agravar o espasmo.
Idoso, mulher e diabético
- Apresentação sem dor mais frequente, atraso no diagnóstico e mais risco hemorrágico. No idoso, ajustam-se as doses à função renal e ao peso e pode preferir-se o clopidogrel quando o risco hemorrágico é alto.
- Na gravidez o enfarte é mais frequente no terceiro trimestre; além da disseção espontânea, o espasmo trata-se com vasodilatadores.
- A síndrome coronária crónica agrupa as fases estáveis da doença coronária: angina de esforço ou dispneia com doença obstrutiva, o período depois de uma síndrome aguda ou de uma revascularização, e a angina ou isquemia com coronárias não obstrutivas, de causa microvascular ou vasospástica.
- É uma doença dinâmica: a placa pode progredir, estabilizar ou romper, e o risco muda com o tratamento.
- A angina com coronárias não obstrutivas não é benigna: associa-se a pior qualidade de vida e a mais eventos, incluindo mortalidade.
- A isquemia surge quando a oferta não acompanha a procura. A procura sobe com a frequência cardíaca, a contratilidade e a tensão da parede; a oferta depende do fluxo coronário, que cai com a estenose, e do conteúdo de oxigénio do sangue.
- Com a estenose a agravar, as arteríolas distais dilatam para manter o fluxo; quando estão já dilatadas ao máximo, o esforço, a emoção ou a taquicardia precipitam a isquemia.
- A isquemia altera primeiro o relaxamento e a contração do segmento afetado; pode não dar dor, e há isquemia silenciosa.
- Mecanismos sem estenose epicárdica: disfunção microvascular, espasmo epicárdico ou microvascular, e aumento da procura por hipertrofia (estenose aórtica, miocardiopatia hipertrófica).
- Colaterais bem desenvolvidas podem manter o miocárdio viável em repouso, mas não no esforço.
A angina e as suas três características
- Desconforto constritivo retroesternal ou no pescoço, na mandíbula, no ombro ou no braço.
- Desencadeado pelo esforço físico ou emocional.
- Aliviado pelo repouso ou pelo nitrato em menos de 5 minutos.
A dispneia de esforço pode ser o único sintoma e vale como equivalente.
Gravidade (Sociedade Cardiovascular Canadiana)
| grau | quando surge a angina |
|---|---|
| I | só com esforço intenso, rápido ou prolongado |
| II | limitação ligeira da atividade habitual: subir rampas, mais de um lanço de escadas em passo normal, ou esforço depois das refeições, com frio, vento ou stresse |
| III | limitação marcada: andar um ou dois quarteirões ou subir um lanço de escadas em passo normal |
| IV | angina em repouso |
- A gravidade dos sintomas não se relaciona bem com a gravidade das estenoses. A mulher tem mais angina com doença epicárdica menos extensa.
- Angina de início recente, ou que muda de frequência ou de intensidade, pode ser uma placa a instabilizar: aplica-se o algoritmo da síndrome aguda.
Exame objetivo
- Muitas vezes normal. Procura pressão arterial e índice de massa corporal, anemia, sopros valvulares (estenose aórtica), sinais de insuficiência cardíaca, doença arterial periférica e carotídea, e sinais de doença da tiroide, renal ou diabetes.
Exames de base
- Eletrocardiograma em repouso (muitas vezes normal; pode mostrar ondas Q, alterações da repolarização ou bloqueio de ramo), análises (hemograma, função renal, perfil lipídico, glicemia e HbA1c, função tiroideia), ecocardiograma em repouso para excluir disfunção ventricular e valvulopatia, e radiografia do tórax em doentes selecionados.
Probabilidade clínica de doença obstrutiva
O modelo da guideline europeia de 2024 soma o tipo de sintoma (dor com as três características, ou dispneia), a idade, o sexo e o número de fatores de risco (história familiar, tabaco, dislipidemia, hipertensão, diabetes). O resultado ajusta-se com o eletrocardiograma, o ecocardiograma, o exame vascular e o cálcio coronário.
| probabilidade | primeiro exame |
|---|---|
| Muito baixa (5% ou menos) | adiar testes; procurar outra causa |
| Baixa (acima de 5 até 15%) | angiotomografia coronária; o índice de cálcio ou a prova de esforço podem reclassificar para muito baixa |
| Moderada (acima de 15 até 50%) | angiotomografia coronária, ou imagem funcional |
| Alta (acima de 50 até 85%) | imagem funcional de isquemia: ecocardiograma de sobrecarga, cintigrafia, tomografia por emissão de positrões ou ressonância de perfusão |
| Muito alta (acima de 85%) | coronariografia com avaliação funcional das estenoses |
- A angiotomografia coronária é o exame preferido para excluir doença na probabilidade baixa a moderada, pelo elevado valor preditivo negativo.
- A prova de esforço eletrocardiográfica perdeu o papel de primeiro exame; não serve com bloqueio de ramo esquerdo, pacemaker, pré-excitação, infradesnivelamento de 1 mm ou mais em repouso ou digitálico.
- A coronariografia faz-se na probabilidade muito alta, com sintomas refratários, isquemia grave ou suspeita de doença de alto risco. Nas estenoses intermédias (cerca de 40 a 90%), a decisão de revascularizar apoia-se na avaliação fisiológica com guia de pressão, e não só no aspeto angiográfico.
- Com angina e coronárias sem obstrução, os testes de vasorreatividade na coronariografia separam a doença microvascular do espasmo. No espasmo suspeito, regista-se o eletrocardiograma durante a dor e pode fazer-se Holter.
Diagnóstico diferencial
- Cardíacas: estenose aórtica, miocardiopatia hipertrófica, pericardite, taquiarritmias.
- Não cardíacas: refluxo e espasmo esofágico, dor osteomuscular, doença pulmonar, ansiedade.
Aliviar a angina
- Nitrato sublingual para as crises.
- Primeira linha: betabloqueante e/ou bloqueador dos canais de cálcio, escolhidos pela frequência cardíaca, pela pressão arterial e pelas comorbilidades. Com betabloqueante, o alvo é uma frequência em repouso de 55 a 60 por minuto.
- Segunda linha, associada ou como parte da terapêutica inicial em doentes selecionados: nitrato de ação longa, ivabradina, ranolazina, nicorandil ou trimetazidina.
- Quando se associam, o betabloqueante combina-se com um bloqueador dos canais de cálcio di-hidropiridínico.
- Angina vasospástica: bloqueador dos canais de cálcio (classe I) e nitrato para prevenir recidivas.
Prevenir eventos
- Ácido acetilsalicílico 75 a 100 mg por dia para sempre após enfarte ou revascularização; clopidogrel 75 mg como alternativa.
- Após angioplastia eletiva: dupla antiagregação com clopidogrel durante 6 meses por defeito, mais curta se o risco hemorrágico for alto.
- Colquicina 0,5 mg por dia deve ser considerada na doença coronária aterosclerótica, para reduzir enfarte, AVC e revascularização.
- Estatina de alta intensidade com os alvos de LDL da prevenção secundária, controlo da pressão arterial e da diabetes, e cessação tabágica.
Revascularizar
- A revascularização alivia a angina que não cede aos fármacos, e melhora o prognóstico em anatomias de risco. Com isquemia moderada a grave, sem doença do tronco comum e sem fração de ejeção abaixo de 35%, a estratégia invasiva inicial não reduziu os eventos face ao tratamento médico otimizado.
| anatomia | preferência |
|---|---|
| Tronco comum, risco cirúrgico baixo | cirurgia de revascularização preferida; angioplastia é alternativa quando a anatomia é de baixa complexidade |
| Doença de vários vasos com diabetes | cirurgia, preferida à angioplastia e ao tratamento médico isolado |
| Doença de um ou dois vasos com descendente anterior proximal | cirurgia ou angioplastia |
| Fração de ejeção de 35% ou menos | decisão caso a caso entre revascularização e tratamento médico |
- A escolha é da equipa cardíaca, que junta cardiologia de intervenção e cirurgia cardíaca.
Quem tem risco de quê
- Quem já tem doença coronária, ou outra doença aterosclerótica estabelecida, é de risco muito alto e não precisa de calculadora.
- Na pessoa aparentemente saudável, o risco a 10 anos de eventos cardiovasculares fatais e não fatais estima-se com o SCORE2 (40 a 69 anos) ou o SCORE2-OP (70 anos ou mais).
Estilo de vida
- Deixar de fumar, com apoio, substituição de nicotina, vareniclina ou bupropiona.
- Dieta de tipo mediterrânico, restrição do álcool, atividade aeróbia regular e treino de resistência, menos tempo sentado, controlo do peso.
Colesterol das lipoproteínas de baixa densidade (LDL)
| situação | alvo |
|---|---|
| Após síndrome coronária aguda ou com doença coronária | abaixo de 55 mg/dL e redução de pelo menos 50% do valor basal, os dois |
| Novo evento aterotrombótico nos 2 anos seguintes, já com estatina na dose máxima tolerada | pode considerar-se abaixo de 40 mg/dL |
- Estatina de alta intensidade o mais cedo possível no internamento, qualquer que seja o LDL inicial.
- Quem já fazia hipolipemiante intensifica logo no internamento.
- Na pessoa sem tratamento prévio em quem a estatina sozinha não deve chegar ao alvo, deve considerar-se estatina de alta intensidade com ezetimiba desde o internamento (atualização de 2025, classe IIa).
- Na abordagem por degraus: se o alvo não for atingido às 4 a 6 semanas, junta-se ezetimiba; se continuar fora do alvo 4 a 6 semanas depois, junta-se um inibidor da PCSK9. O ácido bempedoico é outra opção não estatínica com benefício demonstrado.
- A lipoproteína(a) deve medir-se pelo menos uma vez na vida; acima de 50 mg/dL é clinicamente relevante.
Fármacos depois de uma síndrome coronária aguda
| fármaco | indicação |
|---|---|
| Betabloqueante | fração de ejeção de 40% ou menos (classe I); nos restantes pode considerar-se por rotina (classe IIa), com evidência menos sólida na era da angioplastia |
| Inibidor da enzima de conversão da angiotensina | insuficiência cardíaca, fração de ejeção de 40% ou menos, diabetes, hipertensão ou doença renal crónica (classe I); nos restantes a considerar |
| Antagonista dos recetores mineralocorticoides | fração de ejeção de 40% ou menos com insuficiência cardíaca ou diabetes |
| Antiagregação | como descrito no tratamento: dupla 12 meses e depois simples indefinida |
| Colquicina 0,5 mg por dia | pode considerar-se, sobretudo com fatores de risco mal controlados ou eventos recorrentes |
O resto do plano
- Reabilitação cardíaca baseada no exercício, a todos (classe I): reduz mortalidade e reinternamento e continua subutilizada.
- Vacina da gripe anual a todos os doentes com síndrome coronária aguda.
- O comprimido combinado (polipílula) pode ser considerado para melhorar a adesão.
Referências
- Byrne RA, Rossello X, Coughlan JJ, Barbato E, Berry C, Chieffo A, et al. 2023 ESC Guidelines for the management of acute coronary syndromes. Eur Heart J. 2023;44(38):3720-826. Supplementary data.
- Mills NL, Newby LK, Zaman S, et al. Fifth Universal Definition of Myocardial Infarction (2026). Glob Heart. 2026;21(1):64. doi:10.5334/gh.1578.
- Vrints C, Andreotti F, Koskinas KC, Rossello X, Adamo M, Ainslie J, et al. 2024 ESC Guidelines for the management of chronic coronary syndromes. Eur Heart J. 2024;45(36):3415-537.
- Visseren FLJ, Mach F, Smulders YM, Carballo D, Koskinas KC, Bäck M, et al. 2021 ESC Guidelines on cardiovascular disease prevention in clinical practice. Eur Heart J. 2021;42(34):3227-337.
- Mach F, Baigent C, Catapano AL, Koskinas KC, Casula M, Badimon L, et al. 2019 ESC/EAS Guidelines for the management of dyslipidaemias: lipid modification to reduce cardiovascular risk. Eur Heart J. 2020;41(1):111-88.
- Mach F, Koskinas KC, Roeters van Lennep JE, et al. 2025 Focused Update of the 2019 ESC/EAS Guidelines for the management of dyslipidaemias. Eur Heart J. 2025.
- Amsterdam EA, Wenger NK, Brindis RG, Casey DE Jr, Ganiats TG, Holmes DR Jr, et al. 2014 AHA/ACC Guideline for the management of patients with non-ST-elevation acute coronary syndromes. Circulation. 2014;130(25):e344-426.
- Loscalzo J, Fauci A, Kasper D, Hauser S, Longo D, Jameson JL, editores. Harrison's principles of internal medicine. 21.ª ed. Nova Iorque: McGraw-Hill; 2022. Caps. 273 a 275.
- Instituto Nacional de Emergência Médica. Via Verde Coronária. Lisboa: INEM; 2024.
35 perguntas sobre Cardiopatia isquémica e síndromes coronárias agudas
Ler consolida, treinar é o que fixa. Cada pergunta tem justificação alínea a alínea, no formato da Prova Nacional de Acesso.
Criar conta e treinar