Abordagem ao doente com edema
Atualizado em 28 de setembro de 2026 · 11 perguntas neste tema
Edema é o excesso de líquido no interstício que se torna clinicamente evidente. Antes de se ver, o doente já acumulou vários quilos de líquido, e por isso o edema generalizado traduz uma perturbação instalada. Duas forças o explicam: as de Starling, que decidem onde o líquido sai do capilar, e o rim, que retém sódio e água porque lê o enchimento arterial como baixo. É esta retenção que sustenta o edema sistémico, e é por isso que o sal e o diurético tratam.
Três perguntas à cabeceira arrumam as causas: generalizado ou localizado, bilateral ou unilateral, com godet ou sem godet. O generalizado com godet é quase sempre coração, rim, fígado ou albumina baixa, e confirma-se com o peptídeo natriurético e o ecocardiograma, a urina e a albumina sérica, as provas hepáticas. O unilateral agudo, doloroso, é trombose venosa profunda até prova em contrário. O edema sem godet é linfedema ou mixedema. A pressão venosa jugular separa a causa central, com sobrecarga, da hipoalbuminemia e da causa venosa, em que é normal.
Trata-se a causa e não o sinal. O diurético de ansa descongestiona na insuficiência cardíaca e na doença renal, a espironolactona é a base na ascite da cirrose, e na síndrome nefrótica é a doença glomerular que decide. No linfedema, na insuficiência venosa e no edema das dihidropiridinas o diurético não tira o edema e seca o intravascular. O que não se pode falhar: a trombose venosa profunda, o edema pulmonar, o angioedema com via aérea em risco e a pré-eclâmpsia.
Causas que não se podem falhar
- Trombose venosa profunda: membro que incha em horas a dias, doloroso, com empastamento.
- Insuficiência cardíaca descompensada com congestão pulmonar: edema com ortopneia, hipoxemia, fervores.
- Angioedema da face, língua ou laringe: a via aérea pode fechar.
- Pré-eclâmpsia: edema da face e das mãos depois das 20 semanas, com hipertensão e proteinúria.
- Celulite, sobretudo sobre pele com estase ou linfedema.
- Síndrome nefrótica e glomerulonefrite, pela lesão renal e pela trombose.
Mecanismos: as forças de Starling
A pressão hidrostática do capilar empurra água para o interstício, sobretudo na extremidade arterial; a pressão oncótica do plasma, quase toda da albumina, segura-a. O que sai a mais volta pelos linfáticos. Há edema quando esse equilíbrio se rompe:
| mecanismo | doenças |
|---|---|
| Pressão hidrostática capilar alta | insuficiência cardíaca, retenção renal de sódio, trombose e insuficiência venosas |
| Pressão oncótica plasmática baixa | síndrome nefrótica, cirrose, desnutrição, enteropatia perdedora de proteínas |
| Lesão da barreira endotelial | inflamação, sépsis, queimadura, angioedema |
| Drenagem linfática insuficiente | linfedema primário e secundário |
| Pressão oncótica intersticial alta | linfedema e mixedema, em que proteínas e mucopolissacáridos retêm água no tecido |
O rim é o motor do edema generalizado
O organismo não mede o volume total, mede o enchimento arterial efetivo. Quando este cai, por débito cardíaco baixo, vasodilatação arterial ou sequestro esplâncnico, a mácula densa e os barorrecetores leem hipovolemia, mesmo com o corpo cheio de água:
- a renina sobe, a angiotensina II contrai a arteríola eferente e aumenta a reabsorção proximal, e a aldosterona retém sódio no túbulo coletor;
- o simpático contrai a circulação renal;
- a vasopressina (hormona antidiurética) é libertada por estímulo não osmótico e retém água livre, o que explica a hiponatrémia da insuficiência cardíaca e da cirrose;
- os peptídeos natriuréticos, libertados pela distensão das aurículas e dos ventrículos, fazem natriurese e vasodilatação, mas não chegam para travar a retenção.
O rim retém para encher um compartimento arterial que julga vazio, e o líquido acaba no interstício. A restrição de sódio, o diurético e o bloqueio do sistema renina-angiotensina-aldosterona cortam este círculo.
Cada causa sistémica
| causa | mecanismo dominante | o que a distingue |
|---|---|---|
| Insuficiência cardíaca | pressão venosa alta e subenchimento arterial | dispneia de esforço, ortopneia, jugular alta, terceiro som; ureia desproporcionada à creatinina, sódio baixo, peptídeo natriurético alto |
| Cirrose | hipertensão portal, vasodilatação esplâncnica, albumina baixa por síntese deficiente, aldosterona alta | ascite antes do edema, jugular normal ou baixa, estigmas de doença hepática crónica |
| Síndrome nefrótica | proteinúria acima de 3,5 g por dia, albumina abaixo de 3 g/dL, com retenção renal primária de sódio | edema difuso e periorbitário matinal, urina espumosa, hipercolesterolemia |
| Glomerulonefrite aguda | retenção renal primária de sódio e água, com débito cardíaco normal ou alto | hematúria, proteinúria, hipertensão |
| Doença renal crónica | o rim filtra pouco e não excreta o sódio | creatinina alta, hipertensão, sintomas urémicos |
| Desnutrição | pressão oncótica baixa; o beribéri acrescenta falência de alto débito | albumina baixa sem proteinúria; o edema pode agravar ao recomeçar a alimentação |
| Mixedema | depósito de ácido hialurónico na derme | sem godet, pele seca, bradicardia, frio |
Causas locais
- Venosa: a pressão hidrostática sobe a montante da obstrução ou do refluxo (trombose, varizes, falência valvular), sem retenção renal.
- Linfática: linfedema primário ou secundário a esvaziamento ganglionar, radioterapia, infeção ou neoplasia. O líquido rico em proteínas fica, fibrosa a pele e deixa de fazer godet.
- Inflamatória: celulite, artrite, picada, angioedema.
Fármacos
| grupo | exemplos | mecanismo |
|---|---|---|
| Vasodilatadores arteriolares | dihidropiridinas (amlodipina, nifedipina), minoxidil, hidralazina | pressão capilar alta sem retenção de sódio |
| Retenção renal de sódio | anti-inflamatórios não esteroides, glitazonas, corticoides, estrogénios, progestagénios | vasoconstrição renal ou reabsorção tubular aumentada |
| Outros | gabapentina e pregabalina, ciclosporina, docetaxel, imatinib | vários |
Edema generalizado com godet
Primeiro a albumina sérica; se estiver muito baixa (abaixo de 3 g/dL), procura-se a perda (urina, intestino) ou a falta de síntese (fígado, desnutrição). Se não estiver, procura-se a insuficiência cardíaca. Em qualquer dos casos avalia-se a diurese, porque a oligúria muda a urgência.
| alvo | exames | o que confirma |
|---|---|---|
| Coração | peptídeo natriurético, eletrocardiograma, radiografia do tórax, ecocardiograma | disfunção ventricular, valvulopatia, pericárdio, ventrículo direito isolado (doença pulmonar, hipertensão pulmonar) |
| Rim | tira-teste, razão albumina/creatinina ou proteína/creatinina numa amostra, sedimento, creatinina e taxa de filtração, ionograma | proteinúria nefrótica; hematúria dismórfica e cilindros eritrocitários da nefrítica; doença renal crónica |
| Fígado | transaminases, bilirrubina, fosfatase alcalina, tempo de protrombina, albumina, ecografia abdominal | cirrose, hipertensão portal, ascite |
| Tiroide | TSH | mixedema |
Peptídeos natriuréticos
Servem sobretudo para excluir. A insuficiência cardíaca é improvável abaixo destes valores:
| contexto | NT-proBNP (fragmento N-terminal do peptídeo natriurético tipo B) | BNP (peptídeo natriurético tipo B) |
|---|---|---|
| Ambulatório, instalação progressiva | abaixo de 125 pg/mL | abaixo de 35 pg/mL |
| Urgência, apresentação aguda | abaixo de 300 pg/mL | abaixo de 100 pg/mL |
Acima deles, com contexto compatível, pede-se ecocardiograma. A doença renal, a fibrilhação auricular e a idade sobem os peptídeos; a obesidade baixa-os.
Edema com dispneia aguda
A pergunta é se a congestão chegou ao pulmão. A ecografia pulmonar à cabeceira mostra linhas B bilaterais e derrame pleural; a radiografia mostra cardiomegalia, redistribuição vascular, linhas B de Kerley e derrame, mas pode ser normal. A ecografia cardíaca focada dá a fração de ejeção grosseira, a veia cava inferior (dilatada e sem colapso na sobrecarga) e o derrame pericárdico.
Quando coração, rim e fígado estão normais
- Albumina baixa sem proteinúria: enteropatia perdedora de proteínas (alfa-1-antitripsina nas fezes) ou desnutrição.
- Albumina normal: fármaco, hipotiroidismo, insuficiência venosa, edema postural do idoso; por exclusão, o edema idiopático da mulher em idade fértil, com aumento de peso ao longo do dia, que o uso crónico de diurético agrava.
Edema unilateral
| quadro | abordagem |
|---|---|
| Agudo, doloroso | probabilidade clínica pelo score de Wells; se baixa, D-dímeros, que negativos excluem; se alta ou D-dímeros positivos, ecodoppler venoso, que confirma pela veia que não colapsa à compressão |
| Quente, rubro, com febre | celulite; ecodoppler se não se exclui trombose |
| Dor súbita na fossa poplítea | rotura de quisto de Baker; ecografia |
| Crónico, sem godet | linfedema pela clínica (Stemmer); ecodoppler para excluir causa venosa; procurar a causa secundária (cirurgia, radioterapia, neoplasia) |
| Crónico, com pigmentação e varizes | insuficiência venosa; ecodoppler para o refluxo |
Ascite isolada
O gradiente de albumina soro-ascite igual ou superior a 1,1 g/dL indica hipertensão portal; com proteínas na ascite de 2,5 g/dL ou mais aponta para ascite cardíaca, e abaixo disso para cirrose. Um gradiente abaixo de 1,1 g/dL afasta a hipertensão portal: carcinomatose peritoneal, peritonite tuberculosa, ascite pancreática.
Tratar a causa
O diurético alivia a congestão, mas não corrige a fração de ejeção, não dissolve o trombo e não abre linfáticos. Antes de o dar, confirma-se sobrecarga sistémica (cardíaca, renal) ou ascite. No linfedema, na insuficiência venosa e no edema das dihidropiridinas o volume circulante é normal: o diurético faz hipovolemia, hipotensão e lesão renal sem tirar o edema.
| causa | tratamento |
|---|---|
| Fármaco | baixar a dose, trocar ou suspender |
| Trombose venosa profunda | anticoagulação, na maioria com um anticoagulante oral direto |
| Linfedema | terapia descongestiva, compressão, cuidados da pele |
| Insuficiência venosa | compressão e elevação, tratamento do refluxo |
| Angioedema histaminérgico com via aérea ou anafilaxia | adrenalina intramuscular 0,01 mg/kg, máximo 0,5 mg, repetível a cada 5 a 10 minutos |
| Angioedema por inibidor da enzima de conversão | suspender o fármaco para sempre e proteger a via aérea |
| Angioedema hereditário | concentrado de inibidor da C1 esterase ou antagonista do recetor da bradicinina (icatibant) |
| Hipotiroidismo | levotiroxina |
A compressão só se aplica depois de excluir doença arterial pelo índice tornozelo-braço.
Medidas gerais no edema sistémico
- Sódio: evitar ingestão excessiva de sal, acima de 5 g por dia, na insuficiência cardíaca; na ascite, 80 a 120 mmol de sódio por dia (4,6 a 6,9 g de sal); na síndrome nefrótica, menos de 2 g de sódio por dia. Dietas muito pobres em sódio, abaixo de 40 mmol por dia, pioram a nutrição e as complicações do diurético.
- Líquidos: a restrição só tem lugar com hiponatrémia ou na insuficiência cardíaca grave, e o volume depende da doença. Ao doente sem hiponatrémia não traz benefício.
- Peso diário, de manhã, é o melhor marcador da resposta.
| situação | restrição hídrica |
|---|---|
| Insuficiência cardíaca grave ou com hiponatrémia | 1,5 a 2 litros por dia, a ponderar |
| Cirrose com hiponatrémia hipervolémica | 1 litro por dia |
Diurético de ansa
É o diurético da sobrecarga cardíaca e renal. Atua no ramo ascendente da ansa de Henle e mantém eficácia com filtração baixa, ao contrário das tiazidas. A tabela junta os dois diuréticos de ansa à hidroclorotiazida, a tiazida usada no bloqueio sequencial do nefrónio, adiante.
| diurético | dose inicial | dose habitual |
|---|---|---|
| Furosemida | 20 a 40 mg | 40 a 240 mg por dia |
| Torasemida | 5 a 10 mg | 10 a 20 mg por dia |
| Hidroclorotiazida (tiazida) | 25 mg | 12,5 a 100 mg por dia |
- Usa-se na menor dose que mantém a euvolemia e ajusta-se ao peso e aos sinais.
- Vigiar creatinina e ionograma: hipocaliémia (arritmia, sobretudo com digoxina), hipomagnesémia, hiponatrémia, alcalose metabólica hipoclorémica, hiperuricemia, ototoxicidade em doses endovenosas altas e rápidas.
- Resistência: sal não restringido, anti-inflamatórios, absorção intestinal que falha com a parede congestionada (passa-se a endovenosa), dose insuficiente. O bloqueio sequencial do nefrónio, com uma tiazida somada à ansa, é potente e exige vigilância de potássio, sódio e volemia.
Insuficiência cardíaca
- Descompensação aguda congestiva: furosemida endovenosa 20 a 40 mg no doente que não fazia diurético, ou 1 a 2 vezes a dose oral diária no que já fazia. A resposta avalia-se cedo: sódio urinário abaixo de 50 a 70 mEq/L numa amostra às 2 horas, ou diurese abaixo de 100 a 150 mL/h nas primeiras 6 horas, indicam resposta insuficiente e duplica-se a dose. Se ainda não chega, junta-se tiazida ou acetazolamida.
- A perfusão contínua não é superior aos bólus.
- Descongestiona-se até desaparecerem os sinais, não só os sintomas: a congestão residual à alta traz o doente de volta.
- Terapêutica de base (a que reduz internamentos e mortalidade): com fração de ejeção abaixo de 50%, betabloqueante, inibidor do sistema renina-angiotensina (inibidor da enzima de conversão, antagonista do recetor da angiotensina ou sacubitril-valsartan), antagonista mineralocorticoide e inibidor do cotransportador sódio-glicose tipo 2 (SGLT2); com fração de 50% ou mais, antagonista mineralocorticoide e inibidor do SGLT2. O diurético entra como terapêutica adicional: alivia a congestão, mas não muda o prognóstico, e baixa à medida que o doente estabiliza.
- Na troca de inibidor da enzima de conversão para sacubitril-valsartan, 36 horas de intervalo.
- Educação: pesar-se todos os dias; um aumento de mais de 2 kg em 3 dias pede contacto ou ajuste do diurético segundo o plano combinado; evitar anti-inflamatórios, que retêm sódio e antagonizam o diurético.
Cirrose com ascite
O hiperaldosteronismo secundário domina a retenção de sódio, e por isso a base é o antagonista mineralocorticoide.
- Primeiro episódio de ascite moderada: espironolactona 100 mg por dia, a subir 100 mg a cada 72 horas até 400 mg.
- Sem resposta (perda de peso inferior a 2 kg por semana) ou com hipercaliémia: juntar furosemida 40 mg, a subir 40 mg de cada vez até 160 mg por dia. Na ascite recorrente de longa data, a associação desde o início é mais rápida e dá menos hipercaliémia.
- Perda máxima de 0,5 kg por dia sem edema periférico e 1 kg por dia com edema, para não esvaziar o volume plasmático (lesão renal, hiponatrémia).
- Ascite tensa ou refratária: paracentese evacuadora; acima de 5 litros, albumina 8 g por litro removido.
- Suspender os diuréticos com sódio abaixo de 125 mmol/L, lesão renal aguda ou encefalopatia.
Síndrome nefrótica
A albumina baixa faz chegar menos furosemida ao túbulo e o rim retém sódio de forma primária: o diurético de ansa, muitas vezes em doses mais altas, e a restrição de sódio são a primeira linha; se não chega, junta-se um diurético de outra classe. O que resolve é tratar a doença glomerular, e o bloqueio do sistema renina-angiotensina reduz a proteinúria. A albumina endovenosa não é rotina. A anticoagulação profilática pondera-se quando o risco de trombose supera o hemorrágico, sobretudo na nefropatia membranosa com albumina abaixo de 2,5 g/dL.
Doença renal crónica
O diurético de ansa é o principal e precisa de doses maiores, porque chega menos ao túbulo. As tiazidas perdem eficácia natriurética com a filtração baixa, mas não deixam de funcionar: a clortalidona baixa a pressão arterial mesmo com taxa de filtração entre 15 e 30 mL/min/1,73 m², e somada à ansa potencia a natriurese. Na doença renal terminal sem diurese residual, só a diálise tira o excesso de sódio e água, com o peso seco como alvo.
Quando parar ou baixar
Hipotensão ortostática, creatinina e ureia a subir com a jugular já plana, sede, cãibras: o doente está seco. O diurético baixa ou para, mesmo que ainda haja edema nas pernas, que demora dias a mobilizar.
Referências
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- Direção-Geral da Saúde. Programa Nacional de Vacinação 2020. Anexo: Reação anafilática: diagnóstico, tratamento e equipamento. Lisboa: DGS; 2020.
11 perguntas sobre Abordagem ao doente com edema
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