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Abordagem ao doente com edema

Matriz PNA:MD · MecanismosD · DiagnósticoGD · Gestão

Atualizado em 15 de junho de 2026 · 11 perguntas neste tema

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Em resumo

O edema é a acumulação de líquido no interstício e a abordagem começa com três perguntas: é generalizado ou localizado? bilateral ou unilateral? com godet ou sem godet? O edema generalizado e bilateral aponta para causa sistémica (cardíaca, renal, hepática, hipoalbuminemia); o unilateral agudo é trombose venosa profunda até prova em contrário; o crónico sem godet sugere linfedema ou mixedema. Os mecanismos resumem-se às forças de Starling (↑ pressão hidrostática, ↓ pressão oncótica, ↑ permeabilidade, obstrução linfática) somadas à retenção renal de sódio por subenchimento arterial. Na investigação: peptídeos natriuréticos e ecocardiograma se há suspeita de insuficiência cardíaca, albumina e urina na renal, provas hepáticas na cirrose, e ecodoppler no edema unilateral. Trata-se sempre a causa; o diurético de ansa alivia a congestão mas não substitui o tratamento de base e não resolve o linfedema.

Mecanismos do edema

O edema resulta de um desequilíbrio nas trocas de líquido ao nível do capilar somado, na maioria das causas sistémicas, à incapacidade de o rim eliminar o sódio retido. Perceber estes dois eixos, a microcirculação e o rim, explica por que doenças tão diferentes acabam por produzir o mesmo sinal.

Forças de Starling

A troca de líquido através da parede capilar é governada pelo equilíbrio entre forças que empurram o fluido para fora e forças que o retêm dentro do vaso, as forças de Starling.

  • A pressão hidrostática capilar empurra líquido do plasma para o interstício. É maior no extremo arteriolar e diminui ao longo do capilar.
  • A pressão oncótica plasmática (pressão coloidosmótica), gerada sobretudo pela albumina, retém líquido dentro do vaso e opõe-se à saída.
  • A pressão hidrostática intersticial e a pressão oncótica intersticial atuam em sentido contrário às anteriores, com peso habitualmente menor.

Em condições normais há uma ligeira filtração líquida do capilar para o interstício, que os vasos linfáticos recolhem e devolvem à circulação. Enquanto a drenagem linfática acompanhar o volume filtrado, não há edema. O edema instala-se quando a filtração excede a capacidade de reabsorção e de drenagem.

Os quatro mecanismos capilares

MecanismoO que acontece no capilarExemplo de doença
Aumento da pressão hidrostática capilarA pressão venosa sobe e transmite-se ao capilar, aumentando a filtraçãoInsuficiência cardíaca, insuficiência venosa crónica, trombose venosa profunda, sobrecarga de volume
Diminuição da pressão oncótica plasmáticaMenos albumina retém menos líquido; a filtração ganha vantagemSíndrome nefrótica, cirrose, desnutrição, enteropatia perdedora de proteínas
Aumento da permeabilidade capilarA parede deixa passar proteínas para o interstício, anulando o gradiente oncóticoInflamação, sépsis, queimaduras, angioedema, reações alérgicas
Obstrução da drenagem linfáticaO líquido filtrado, rico em proteínas, não é removido e acumulaLinfedema (pós-cirúrgico, pós-radioterapia, infecioso, neoplásico, primário)

Estes mecanismos não são mutuamente exclusivos. Várias doenças combinam mais do que um, e é essa soma que produz o edema clinicamente relevante.

O papel central do rim: retenção de sódio e água

Nas causas sistémicas, a alteração das forças de Starling raramente explica sozinha o edema. O motor que sustenta a acumulação é a retenção renal de sódio e água.

O conceito-chave é o subenchimento arterial efetivo (underfilling). O que o organismo monitoriza não é o volume total de líquido, mas o volume arterial efetivo, ou seja, o grau de enchimento do compartimento arterial que perfunde os tecidos. Quando esse volume efetivo cai, mesmo que o volume total esteja aumentado, os barorrecetores interpretam a situação como hipovolemia e desencadeiam mecanismos de retenção:

  • Ativação do sistema renina-angiotensina-aldosterona (SRAA), que aumenta a reabsorção de sódio no túbulo e, via aldosterona, no túbulo distal e coletor.
  • Ativação do sistema nervoso simpático, que reduz a perfusão renal e estimula a reabsorção tubular.
  • Libertação de hormona antidiurética, que retém água livre e contribui para a hiponatremia destes doentes.

O rim, ao reter sódio e água para "corrigir" um volume arterial que percebe como baixo, alimenta exatamente o compartimento de onde o líquido extravasa. O edema perpetua-se. Esta é a razão pela qual a restrição de sódio e os diuréticos são centrais no tratamento da maioria dos edemas sistémicos: atacam o motor renal, não apenas as forças capilares.

Como cada doença combina os mecanismos

Insuficiência cardíaca. A falência de bomba aumenta as pressões de enchimento e a pressão venosa, que se transmite ao capilar e eleva a pressão hidrostática (congestão sistémica no lado direito ou global). Em paralelo, o débito cardíaco baixo reduz o volume arterial efetivo, ativa o SRAA e o simpático e desencadeia retenção de sódio. Hidrostática elevada mais retenção renal: o edema é declive, simétrico e acompanha-se de distensão jugular e congestão hepática.

Cirrose. A doença gera vasodilatação esplâncnica mediada por óxido nítrico, que sequestra volume no leito esplâncnico e reduz o volume arterial efetivo. O subenchimento ativa o SRAA e o simpático, com intensa retenção de sódio. Somam-se a hipertensão portal (que aumenta a pressão hidrostática no território esplâncnico e favorece a ascite) e a hipoalbuminemia por síntese hepática deficiente (que baixa a pressão oncótica). Três forças a convergir: hidrostática portal aumentada, oncótica diminuída e rim a reter sódio, com a ascite a dominar o quadro.

Síndrome nefrótica. A perda urinária maciça de proteínas baixa a albumina e reduz a pressão oncótica plasmática. A par disso, há retenção renal de sódio primária, com avidez tubular pelo sódio que contribui de forma decisiva para o edema, e não apenas a queda oncótica. O resultado típico é o edema mole e generalizado, com predomínio periorbitário matinal.

Edema venoso. Na insuficiência venosa crónica e na trombose venosa profunda, a obstrução ou o refluxo elevam a pressão hidrostática no território a montante. O mecanismo é puramente local e o edema concentra-se no membro afetado, sem retenção renal de sódio nem alteração oncótica sistémica.

Linfedema. A falência da drenagem linfática impede a remoção do líquido intersticial rico em proteínas. Como o fluido acumulado é proteico, retém água no interstício e organiza-se, dando um edema sem godet, firme, com espessamento cutâneo nas fases avançadas. Não há alteração das forças de Starling sistémicas nem retenção renal: o problema é mecânico, na via de saída do líquido.

Capilar arteríola → vénula + Retenção renal de Na⁺ e água (SRAA) por subenchimento arterial → amplifica o edema generalizado ↑ Pressão hidrostática empurra líquido para fora IC · sobrecarga de volume · obstrução venosa ↓ Pressão oncótica menos albumina retém menos água nefrótico · cirrose · desnutrição ↑ Permeabilidade capilar fuga de líquido e de proteínas inflamação · sépsis · queimadura · angioedema Obstrução linfática falha a drenagem do interstício linfedema (edema sem godet)
Esquema original InovaQB, baseado nas forças de Starling (Harrison's Principles of Internal Medicine, 21.ª ed.).

As três perguntas que organizam tudo

Perante um doente com edema, a abordagem ganha clareza imediata quando se respondem três perguntas logo à cabeceira, antes de pedir qualquer exame.

1. O edema é generalizado ou localizado? Edema generalizado (anasarca, ou pelo menos envolvimento de membros inferiores, parede abdominal e face) aponta para uma causa sistémica: insuficiência cardíaca, síndrome nefrótica, doença hepática avançada, enteropatia com perda de proteínas. Edema localizado a um segmento corporal sugere obstrução venosa ou linfática regional, processo inflamatório ou trauma.

2. É bilateral ou unilateral? O edema bilateral e simétrico reforça a hipótese sistémica ou aponta para insuficiência venosa crónica dos dois membros. O edema unilateral redirige o raciocínio para uma causa local naquele membro: trombose venosa profunda, obstrução linfática, celulite, compressão extrínseca de uma veia ilíaca ou da cava.

3. Tem godet (pitting) ou não tem godet (non-pitting)? A pressão firme com o polegar durante alguns segundos sobre uma proeminência óssea (face anterior da tíbia, maléolo, dorso do pé) deixa ou não deixa depressão. O edema com godet traduz acumulação de líquido pobre em proteínas que se desloca com a pressão, típico das causas hemodinâmicas e hipoalbuminémicas. O edema sem godet traduz líquido rico em proteínas ou infiltração tecidular, e desvia o diferencial para o linfedema e o mixedema.

Estas três perguntas, respondidas em segundos, reduzem o diferencial de dezenas de causas para um punhado, e orientam tanto o resto do exame como a escolha dos exames complementares.

História clínica

O ritmo de instalação é o primeiro dado discriminativo. Um edema unilateral que surge em horas a dias, com dor na barriga da perna, sugere trombose venosa profunda e obriga a estratificar risco de imediato. Um edema bilateral que progride ao longo de semanas, dos tornozelos para cima, é mais compatível com causa cardíaca, renal ou hepática.

Procure os sintomas que apontam para cada sistema:

  • Insuficiência cardíaca: dispneia de esforço, ortopneia (quantas almofadas usa para dormir), dispneia paroxística noturna, fadiga, ganho ponderal rápido, nictúria. O edema cardíaco agrava ao longo do dia e melhora parcialmente com o decúbito noturno, redistribuindo-se então para a região sagrada no doente acamado.
  • Síndrome nefrótica: urina espumosa (a proteinúria abundante faz espuma persistente na sanita), edema periorbitário matinal, antecedentes de doença renal, diabetes ou hipertensão de longa data. O edema renal é frequentemente mais marcado de manhã e na face, por redistribuição noturna.
  • Cirrose hepática: história de álcool, hepatite vírica, distensão abdominal por ascite que muitas vezes precede o edema dos membros, hemorragia digestiva, encefalopatia.
  • Trombose venosa profunda: imobilização recente, cirurgia, viagem longa, neoplasia, contraceção hormonal ou gravidez, episódios trombóticos prévios.

Reveja sempre a medicação. Os bloqueadores dos canais de cálcio di-hidropiridínicos (amlodipina, nifedipina) causam edema maleolar bilateral por vasodilatação arteriolar pré-capilar, sem retenção sistémica de líquido. Os AINE promovem retenção de sódio e podem precipitar ou agravar edema. As glitazonas (pioglitazona) retêm líquido e estão formalmente contraindicadas na insuficiência cardíaca. Outros suspeitos: corticóides, estrogénios, gabapentina/pregabalina, minoxidil.

Duas perguntas funcionais fecham a história: o edema agrava com o ortostatismo prolongado e melhora com a elevação dos membros? Isso aponta para componente venoso ou postural. Resolve completamente de manhã após a noite deitado? O edema puramente postural ou venoso tende a melhorar muito com o decúbito; o linfedema instalado, não.

Exame objetivo

Comece pela distribuição, que confirma ou refuta a impressão da história: confirme se é generalizado ou localizado, simétrico ou assimétrico, e até que nível anatómico se estende.

Faça a pesquisa do sinal de Godet de forma sistemática. Pressione firme sobre a tíbia ou o maléolo durante cerca de cinco segundos e observe se fica depressão e quanto tempo demora a recuperar. Esta distinção entre pitting e non-pitting é central:

  • Com godet (pitting): causas hemodinâmicas e hipoalbuminémicas. O líquido intersticial é pobre em proteínas e desloca-se facilmente sob pressão.
  • Sem godet (non-pitting): o linfedema e o mixedema são as causas típicas. No linfedema o líquido é rico em proteínas e a pele acaba por espessar e fibrosar; no mixedema (hipotiroidismo) há depósito de mucopolissacáridos no interstício. Ambos resistem à depressão pelo polegar.

Avalie a pressão venosa jugular com o doente reclinado a 45 graus. Uma pressão venosa jugular elevada é um dos sinais mais úteis para distinguir edema de causa cardíaca ou de sobrecarga de volume (jugular distendida) de edema hipoalbuminémico ou venoso periférico (jugular normal ou colapsada). É um dado simples que muitas vezes resolve o diferencial entre causa central e periférica.

Procure depois os sinais de cada doença sistémica:

  • Insuficiência cardíaca: fervores crepitantes nas bases, terceiro som (S3, galope), choque da ponta desviado, refluxo hepatojugular, hepatomegalia congestiva, derrame pleural.
  • Doença hepática: ascite com macicez móvel, circulação colateral abdominal (cabeça de medusa), icterícia, eritema palmar, aranhas vasculares, ginecomastia, atrofia testicular.
  • Doença venosa: alterações tróficas da pele, hiperpigmentação ocre, lipodermatosclerose, varizes, úlcera de estase no maléolo interno. No edema unilateral agudo, avalie diferença de perímetro entre as pernas, calor, eritema e dor à palpação do trajeto venoso.

Exames complementares dirigidos

Os exames seguem a hipótese, não se pedem em bloco. A história e o exame já apontaram para um ou dois sistemas; os complementares confirmam.

Suspeita de insuficiência cardíaca. Os peptídeos natriuréticos (BNP ou NT-proBNP) têm um excelente valor preditivo negativo: valores baixos tornam a insuficiência cardíaca muito improvável e mandam procurar outra causa para o edema. Valores elevados, num contexto clínico compatível, sustentam o diagnóstico e indicam ecocardiograma transtorácico, que avalia a fração de ejeção, a função diastólica, as válvulas e as pressões de enchimento. Pedir também ECG e radiografia de tórax.

Suspeita renal. Estude a urina: proteinúria na tira-teste, quantificada pela relação albumina/creatinina ou proteína/creatinina em amostra ocasional, e o sedimento urinário à procura de cilindros e hematúria dismórfica que indiquem glomerulopatia. Complete com função renal (ureia, creatinina, taxa de filtração glomerular estimada) e ionograma. A albumina sérica baixa é o elo comum da síndrome nefrótica, da cirrose e da desnutrição/enteropatia, e ajuda a confirmar a natureza hipoalbuminémica do edema.

Suspeita hepática. Provas de função hepática (transaminases, bilirrubina, fosfatase alcalina, GGT), tempo de protrombina/INR e albumina avaliam a síntese hepática; a ecografia abdominal documenta a morfologia hepática, a esplenomegalia e a ascite.

Suspeita de mixedema. A TSH rastreia o hipotiroidismo no edema sem godet de distribuição difusa, sobretudo perante fácies infiltrada, bradicardia, obstipação e intolerância ao frio.

Edema unilateral agudo. Aplique o score de Wells para estratificar a probabilidade de trombose venosa profunda. Nos doentes de baixa probabilidade, um D-dímero negativo exclui com segurança e dispensa imagem. Nos de probabilidade intermédia/alta, ou com D-dímero positivo, peça ecodoppler venoso dos membros inferiores, que confirma o trombo pela ausência de compressibilidade da veia. O D-dímero tem valor sobretudo para excluir; positivo isoladamente é inespecífico.

Diferencial por padrão

A tabela seguinte cruza o padrão clínico das três perguntas com as causas mais prováveis e os exames de primeira linha.

Padrão do edemaCausas prováveisExames dirigidos
Generalizado, bilateral, com godetInsuficiência cardíaca; síndrome nefrótica; cirrose hepática; enteropatia com perda de proteínasBNP/NT-proBNP + ecocardiograma; urina (relação albumina/creatinina, sedimento) + albumina sérica; provas de função hepática + ecografia
Unilateral, agudo, com godetTrombose venosa profunda; celulite; rotura de quisto poplíteoScore de Wells + D-dímero; ecodoppler venoso
Unilateral, crónico, sem godetLinfedema (primário ou secundário a cirurgia, radioterapia, neoplasia, filariose)Avaliação clínica; ecodoppler para excluir causa venosa; imagem orientada à etiologia
Bilateral, sem godetMixedema (hipotiroidismo); linfedema bilateralTSH; avaliação clínica
Bilateral, com godet, dependente, sem sinais sistémicosInsuficiência venosa crónica; edema postural; fármacos (BCC, AINE, glitazonas)Rever medicação; ecodoppler venoso se suspeita de doença venosa

Dois princípios fecham o raciocínio. Primeiro, a pressão venosa jugular é o melhor desempate entre causa central (elevada, sobrecarga de volume) e periférica (normal). Segundo, o edema generalizado com godet quase nunca dispensa o trio coração-rim-fígado: confirmar ou excluir cada um com peptídeos natriuréticos e ecocardiograma, urina e albumina, e provas hepáticas resolve a grande maioria dos casos.

Edema Generalizado e bilateral? Sim Não (localizado/unilateral) Generalizado → causa sistémica Cardíaco (insuficiência cardíaca) dispneia, ortopneia, PVJ elevada · BNP/NT-proBNP · ecocardiograma Renal (síndrome nefrótica) urina espumosa · proteinúria · ↓ albumina Hepático (cirrose) ascite, estigmas hepáticos · ↓ albumina Fármacos e endócrino BCC, AINE, glitazonas · mixedema (sem godet) Localizado / unilateral → causa local Trombose venosa profunda agudo, dor, fatores de risco · Wells + D-dímeros + ecodoppler Celulite unilateral, quente, eritematosa, com febre Linfedema crónico, sem godet, atinge o dorso do pé, sinal de Stemmer Insuficiência venosa crónica membros inferiores, hiperpigmentação, varizes
Esquema original InovaQB, baseado na abordagem ao edema (Harrison's Principles of Internal Medicine, 21.ª ed.).

Abordagem terapêutica

O princípio que governa tudo: tratar a causa, não o sinal

O edema é uma manifestação, não uma doença. A pergunta que orienta o tratamento não é "que diurético prescrevo?" mas "porque é que este doente está a reter líquido?". Insuficiência cardíaca, síndrome nefrótico, cirrose, trombose venosa profunda e linfedema produzem edema por mecanismos diferentes e respondem a estratégias diferentes. Prescrever furosemida a toda a gente com tornozelos inchados é o erro clássico, e em algumas situações é francamente perigoso.

O diurético alivia o sintoma da sobrecarga de volume. Não corrige a disfunção sistólica, não fecha um shunt, não dissolve um trombo e não recanaliza vasos linfáticos. Pior: usado fora de contexto, agrava. No edema por insuficiência venosa crónica ou no linfedema, em que o volume plasmático efetivo é normal, o diurético depleta o intravascular e pode precipitar lesão renal pré-renal e hipotensão sem reduzir significativamente o edema do membro. A regra prática: confirmar que existe verdadeira sobrecarga de volume sistémica (cardíaca ou renal) ou ascite tensa (cirrose) antes de assumir que o diurético é a resposta.

Medidas gerais

Aplicam-se transversalmente e, em muitos casos, são tão importantes como a farmacologia.

Restrição de sódio. É a base do controlo de volume em qualquer edema de causa sistémica. Na prática recomenda-se algo na ordem de 2 a 3 g de sódio por dia (cerca de 5 a 6 g de sal). Restrições mais agressivas raramente são cumpridas e comprometem a ingestão calórica. O doente tem de perceber que o sal escondido (enchidos, conservas, pão, refeições pré-preparadas, caldos) pesa muito mais do que o saleiro à mesa.

Restrição hídrica. Não é rotina. Reserva-se para a hiponatremia dilucional (sódio sérico baixo por excesso de água livre), típica da insuficiência cardíaca avançada e da cirrose descompensada. Aí limita-se a água a cerca de 1 a 1,5 L/dia. Restringir líquidos a um doente euvolémico em termos de sódio não traz benefício.

Elevação dos membros. Simples e eficaz no edema postural e venoso. Elevar as pernas acima do nível do coração várias vezes ao dia favorece o retorno venoso e a reabsorção do líquido.

Meias de compressão. Pilar do edema venoso e do linfedema. A compressão graduada (maior no tornozelo, decrescente em sentido proximal) contraria a hipertensão venosa e limita a transudação. Antes de prescrever, excluir doença arterial periférica significativa: a compressão num membro mal perfundido pode comprometer ainda mais o aporte arterial e causar isquemia. Na prática, palpar pulsos e, na dúvida, pedir o índice tornozelo-braço antes da compressão forte.

Diuréticos: o diurético de ansa como ferramenta central

Na sobrecarga de volume verdadeira (edema cardíaco e renal), o diurético de ansa é o pilar. A furosemida é o representante habitual; a torasemida é a alternativa com biodisponibilidade oral mais previsível e semivida mais longa, útil quando a absorção é errática (congestão da parede intestinal na IC avançada). Atuam no ramo ascendente da ansa de Henle, têm efeito potente e mantêm eficácia mesmo com taxa de filtração glomerular reduzida, o que os torna os diuréticos de eleição na doença renal crónica.

Pontos de vigilância na prática:

  • Função renal e ionograma. Avaliar antes de iniciar e reavaliar após ajustes. A complicação metabólica mais frequente é a hipocaliemia (com risco de arritmia, sobretudo em quem faz digoxina), a que se juntam hipomagnesemia e alcalose metabólica hipoclorémica.
  • Não depletar em excesso. O objetivo é descongestionar, não secar o doente. A diurese demasiado agressiva provoca hipotensão, agravamento da função renal (lesão pré-renal) e ativação neuro-hormonal contraproducente. Pesar diariamente é o melhor marcador de resposta; uma perda de 0,5 a 1 kg/dia é um ritmo razoável na maioria dos casos.
  • Resistência ao diurético. Quando a dose deixa de produzir resposta, considerar má adesão à restrição de sódio, má absorção oral (passar a via endovenosa), dose insuficiente, ou bloqueio sequencial do nefrónio associando um tiazídico (ex.: hidroclorotiazida ou clortalidona) ao diurético de ansa. Esta combinação é potente e exige vigilância apertada do potássio e da volemia.

Caso particular da cirrose. Aqui a lógica inverte-se. A ascite e o edema da cirrose decorrem de hiperaldosteronismo secundário, e o diurético de primeira linha é a espironolactona (antagonista da aldosterona). Começa-se pela espironolactona e associa-se furosemida quando a resposta é insuficiente, mantendo habitualmente uma proporção aproximada de 100 mg de espironolactona para 40 mg de furosemida, que ajuda a preservar o equilíbrio do potássio. A restrição de sódio é parte integrante do tratamento. Usar furosemida isolada na cirrose é ineficaz e propenso a hipocaliemia e a precipitar encefalopatia. A ascite tensa ou refratária pode exigir paracentese evacuadora (com reposição de albumina nos volumes grandes).

Insuficiência cardíaca: descongestionar e modificar o prognóstico

Na IC convém separar dois objetivos que coexistem mas não se confundem.

Aliviar a congestão. É o papel do diurético de ansa, ajustado ao estado de volume. O diurético melhora sintomas e qualidade de vida, mas, isoladamente, não prolonga a sobrevida.

Modificar o prognóstico na fração de ejeção reduzida (ICFEr). É aqui que entram os quatro pilares, que devem ser instituídos e titulados em todos os doentes com FEr salvo contraindicação:

PilarExemplosNota prática
IECA ou ARNIIECA (ex.: ramipril, enalapril); ARNI (sacubitril/valsartan)O ARNI é preferido ao IECA na maioria dos doentes que se mantêm sintomáticos. ARA (ex.: candesartan) se intolerância ao IECA por tosse. Nunca associar IECA e ARNI (intervalo de 36 h na transição).
BetabloqueanteBisoprolol, carvedilol, nebivolol, metoprolol de libertação prolongadaIniciar com o doente compensado (não em congestão aguda); titular devagar.
Antagonista dos recetores mineralocorticoides (ARM)Espironolactona, eplerenonaVigiar potássio e função renal; evitar se hipercaliemia ou TFG muito baixa.
Inibidor SGLT2Dapagliflozina, empagliflozinaBenefício independente de diabetes; integrado nos quatro pilares pela atualização focada de 2023.

A mensagem para o doente e para quem o segue: o diurético controla os sintomas hoje, os quatro pilares decidem o que acontece nos próximos anos. Reduzir o diurético à medida que a doença estabiliza é frequentemente possível e desejável.

Causas específicas: a atitude muda com o mecanismo

Fármacos causadores. Antes de escalar terapêutica, rever a medicação. Causas comuns de edema iatrogénico: bloqueadores dos canais de cálcio di-hidropiridínicos (amlodipina, nifedipina) por vasodilatação pré-capilar, AINE por retenção de sódio e por antagonizarem o efeito diurético, glitazonas (pioglitazona), corticoides, alguns anti-hipertensores e a gabapentina/pregabalina. Suspender ou substituir o agente resolve muitas vezes o problema sem necessidade de diurético.

Trombose venosa profunda. Edema unilateral agudo do membro, com dor e empastamento, é TVP até prova em contrário. A atitude é anticoagulação (atualmente, na maioria dos casos, um anticoagulante oral direto como apixabano ou rivaroxabano, ou heparina de baixo peso molecular seguida de antagonista da vitamina K em situações específicas). Não é um problema de diurético; é um problema de coagulação e de prevenção de embolia pulmonar.

Linfedema. O diurético não resolve o linfedema e o seu uso crónico é desaconselhado. A base é a terapia descongestiva: drenagem linfática manual, ligaduras e meias de compressão, exercício e, sobretudo, cuidados meticulosos da pele para prevenir celulite/erisipela (porta de entrada que agrava o linfedema num ciclo vicioso). Hidratação cutânea, tratamento precoce de micoses interdigitais e limiar baixo para antibiótico na suspeita de infeção.

Insuficiência venosa crónica. Edema vespertino, agravado pela ortostase, com sinais de estase (hiperpigmentação, dermatite, eczema, eventual úlcera). Tratamento com compressão, elevação dos membros e medidas posturais; o diurético não tem papel central e pode ser nocivo. Avaliar componente arterial antes da compressão.

Tabela de síntese: causa → atitude de 1.ª linha

Causa do edemaAtitude terapêutica de 1.ª linha
Insuficiência cardíaca (FEr)Diurético de ansa para a congestão + quatro pilares (IECA/ARNI, betabloqueante, ARM, inibidor SGLT2)
Síndrome nefrótico / edema renalDiurético de ansa + restrição de sódio; tratar a doença renal de base
Cirrose com ascite/edemaRestrição de sódio + espironolactona, associar furosemida se necessário
Edema induzido por fármacoSuspender/substituir o agente (BCC di-hidropiridínico, AINE, glitazona)
Trombose venosa profundaAnticoagulação (DOAC ou HBPM); não é indicação de diurético
LinfedemaTerapia descongestiva: drenagem, compressão, cuidados da pele; diurético não indicado
Insuficiência venosa crónicaCompressão, elevação, medidas posturais; diurético sem papel central

Sinais que obrigam a referenciação ou abordagem urgente

  • Edema agudo unilateral com dor/empastamento → suspeita de TVP, exige ecodoppler e anticoagulação sem demora.
  • Dispneia, ortopneia, dispneia paroxística noturna ou hipoxemia com edema → congestão por IC descompensada ou edema agudo do pulmão; avaliação urgente.
  • Edema da face, lábios ou língua de instalação rápida, com ou sem dificuldade respiratória → angioedema/anafilaxia; emergência.
  • Anasarca com oligúria ou agravamento rápido da função renal → descompensação renal/cardíaca grave.
  • Sinais inflamatórios locais (eritema quente, doloroso, febre) → celulite/erisipela sobre membro com edema ou linfedema; antibioticoterapia atempada.
  • Edema novo e mal explicado num doente jovem ou de início abrupto sem causa óbvia → investigar antes de tratar empiricamente.

Referências

  1. Loscalzo J, Fauci A, Kasper D, et al., editores. Harrison's Principles of Internal Medicine. 21.ª ed. Nova Iorque: McGraw-Hill; 2022 (edema).
  2. McDonagh TA, Metra M, Adamo M, et al. 2021 ESC Guidelines for the diagnosis and treatment of acute and chronic heart failure. Eur Heart J. 2021;42(36):3599-3726.
  3. McDonagh TA, Metra M, Adamo M, et al. 2023 Focused Update of the 2021 ESC Guidelines for the diagnosis and treatment of acute and chronic heart failure. Eur Heart J. 2023;44(37):3627-3639.
  4. Sociedade Portuguesa de Cardiologia. Recomendações sobre insuficiência cardíaca (alinhadas com as guidelines ESC).

11 perguntas sobre Abordagem ao doente com edema

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