Parto pré-termo
Atualizado em 15 de julho de 2026 · 10 perguntas neste tema
O parto pré-termo, definido pelo nascimento antes das 37 semanas completas, é a principal causa de morbimortalidade neonatal e de sequelas neurológicas a longo prazo. Não é uma doença única mas um síndrome final comum a que chegam vias fisiopatológicas distintas: ativação do eixo materno-fetal do stress, infeção e inflamação intra-amniótica, hemorragia decidual e sobredistensão uterina. A abordagem clínica organiza-se em três eixos que o exame testa repetidamente: identificar quem tem risco (história de parto pré-termo prévio e colo curto), decidir quem está mesmo em trabalho de parto (o valor está sobretudo em excluir) e aplicar as intervenções que comprovadamente mudam o prognóstico neonatal (corticoide antenatal, sulfato de magnésio para neuroproteção e transferência in utero). A tocólise entra neste conjunto como meio, não como fim: serve para ganhar as 48 horas de que as outras medidas precisam.
A via final comum
O trabalho de parto, de termo ou pré-termo, exige três acontecimentos coordenados: contratilidade uterina, maturação e dilatação do colo e ativação/rotura das membranas fetais. No termo, esta sequência é fisiológica e sincronizada. No pré-termo, o mesmo programa é acionado precocemente, mas por sinais patológicos.
Durante a maior parte da gravidez o miométrio mantém-se quiescente, um estado ativamente sustentado pela progesterona, pelo óxido nítrico, pela relaxina e pelo AMP cíclico. A transição para o estado contráctil implica um aumento da expressão de proteínas associadas à contração: recetores da ocitocina, conexina-43 (que forma as gap junctions responsáveis pela propagação sincronizada do impulso) e recetores das prostaglandinas. O colo, por seu lado, é sobretudo tecido conjuntivo: o seu amadurecimento consiste na degradação do colagénio por metaloproteinases da matriz, no aumento do ácido hialurónico e na infiltração por neutrófilos e macrófagos. É, em termos histológicos, um processo inflamatório, mesmo quando não há infeção.
Compreender isto explica por que motivo qualquer estímulo que levante a quiescência ou antecipe a maturação cervical, seja ele hormonal, inflamatório, hemorrágico ou mecânico, pode desencadear parto pré-termo. Explica também por que motivo a tocólise, que atua apenas no braço contráctil, não desfaz o processo já em curso nos outros dois braços.
As quatro vias fisiopatológicas
1. Ativação do eixo materno-fetal do stress
O stress materno crónico (psicossocial, nutricional, laboral) e o stress fetal (insuficiência placentária, hipoxia) ativam o eixo hipotálamo-hipófise-suprarrenal. A placenta e as membranas produzem CRH, cuja concentração sobe exponencialmente ao longo da gravidez e antecipa a sua subida nos casos que evoluem para parto pré-termo, dando origem ao conceito de "relógio placentário".
Ao contrário do que sucede no hipotálamo, onde o cortisol inibe o CRH por retroação negativa, na placenta o cortisol estimula a produção de CRH, criando uma ansa de retroação positiva. O CRH estimula a suprarrenal fetal a produzir DHEA-S, que é aromatizado na placenta a estrogénios. O aumento do rácio estrogénio/progesterona funcional promove a expressão de recetores da ocitocina e de conexina-43 e, por essa via, a contratilidade. O CRH aumenta ainda a produção de prostaglandinas nas membranas. Em paralelo, o cortisol fetal acelera a maturação pulmonar, o que dá coerência biológica ao fenómeno: o feto sob stress antecipa o parto e prepara-se para ele.
2. Infeção e inflamação intra-amniótica
É a via melhor documentada e mais relevante nos partos mais precoces. A prevalência de invasão microbiana da cavidade amniótica é inversamente proporcional à idade gestacional, sendo particularmente elevada abaixo das 28 semanas e pouco frequente perto do termo. Os agentes mais isolados são Ureaplasma e Mycoplasma hominis, seguidos de Gardnerella, Fusobacterium e estreptococos.
A via de ascensão a partir do trato genital inferior é a dominante, com progressão em quatro estádios: vaginite/cervicite, decidua, corioâmnio, cavidade amniótica e feto. Existem também vias hematogénica (relevante na doença periodontal), iatrogénica (após procedimentos invasivos) e retrógrada a partir das trompas.
O mecanismo molecular é o da imunidade inata: os produtos microbianos (lipopolissacárido, peptidoglicano) são reconhecidos pelos recetores toll-like da decídua e do corioâmnio, ativando o NF-κB. Segue-se a produção de citocinas pró-inflamatórias (IL-1β, IL-6, TNF-α) e de quimiocinas (IL-8), que geram três efeitos convergentes:
- Indução da COX-2, com aumento das prostaglandinas E2 e F2α, que contraem o miométrio.
- Ativação de metaloproteinases (MMP-1, MMP-8, MMP-9), que degradam o colagénio do colo e das membranas, amadurecendo o colo e causando rotura.
- Recrutamento de neutrófilos, que amplifica o processo.
Importa reter que existe inflamação intra-amniótica estéril, mediada por alarminas (HMGB1, ácido úrico, DNA livre fetal) libertadas por dano celular, com o mesmo perfil de citocinas e sem microrganismos isoláveis. Uma cultura negativa não exclui o mecanismo inflamatório.
Erro frequente: presumir que a corioamnionite é sempre clinicamente evidente. A forma histológica/subclínica é bastante mais comum do que a forma febril e é a que mais contribui para o parto pré-termo extremo.
3. Hemorragia decidual e via da trombina
O descolamento, mesmo pequeno e antigo, expõe o fator tecidular da decídua, que gera trombina em concentrações elevadas. A trombina age através dos recetores ativados por protéase (PAR) e tem dois efeitos relevantes: é diretamente uterotónica e induz a expressão de metaloproteinases nas membranas, favorecendo a rotura. É por isto que a hemorragia do primeiro ou segundo trimestre é fator de risco de parto pré-termo e, sobretudo, de RPM pré-termo, mesmo quando o episódio hemorrágico já está resolvido há semanas. A hemossiderina depositada nas membranas é o correlato anatomopatológico.
4. Sobredistensão uterina
Na gravidez múltipla e no poli-hidrâmnios, o estiramento mecânico do miométrio ativa canais iónicos sensíveis à distensão e vias de mecanotransdução que aumentam a expressão de conexina-43, de recetores da ocitocina e de COX-2. O estiramento das membranas induz também IL-8 e metaloproteinases, ou seja, uma resposta inflamatória sem infeção. Este é o mecanismo que explica por que a gemelaridade é fator de risco major e por que o encurtamento do colo na gemelar segue uma cinética diferente da gravidez única.
Convergência e implicações clínicas
Estas vias não são exclusivas e frequentemente coexistem: a hemorragia decidual predispõe à infeção, a sobredistensão amplifica a inflamação, o stress crónico modula a resposta imunitária. O que todas partilham é o destino final, o aumento das prostaglandinas e das metaloproteinases.
Daqui decorrem consequências práticas que dão coerência a todo o resto do capítulo:
- Se o motor do processo é inflamatório, suprimir apenas as contrações não trata o processo: a tocólise ganha tempo, não resolve a causa.
- Se há infeção estabelecida (corioamnionite clínica), prolongar a gravidez expõe o feto e a mãe a dano acrescido, pelo que a indicação é o parto.
- A progesterona atua no braço da quiescência miometrial e da integridade cervical, o que explica que beneficie sobretudo o fenótipo de colo curto e não previna o parto pré-termo iatrogénico.
O problema clínico
A grávida que se apresenta no serviço de urgência com contrações antes das 37 semanas coloca uma questão difícil: está em trabalho de parto pré-termo ou tem contrações que vão parar sozinhas? A pergunta importa porque a maioria (mais de metade, em várias séries) das mulheres com o diagnóstico clínico de "ameaça de parto pré-termo" acaba por ter parto de termo, mesmo sem tratamento. Tratar todas significa internamentos, transferências e fármacos desnecessários; não tratar nenhuma significa perder a janela do corticoide em quem dele precisa.
Definição clínica
O diagnóstico clássico exige contrações regulares acompanhadas de alteração do colo (encurtamento, apagamento e/ou dilatação documentados). Nenhum dos dois elementos isolado é suficiente: as contrações sem modificação cervical não fazem trabalho de parto, e um colo curto sem contrações é fator de risco, não diagnóstico.
Na prática, os critérios operacionais mais usados são contrações regulares (habitualmente 4 em 20 minutos ou 8 em 60 minutos) com dilatação ≥ 3 cm ou apagamento ≥ 80%, ou documentação de alteração cervical seriada. A ACOG Practice Bulletin n.º 171 (2016) formula-o de modo ligeiramente diferente: contrações regulares com alteração cervical, ou contrações regulares com dilatação ≥ 2 cm; e nota que, abaixo de 2 cm e sem alteração cervical, em regra não se tocolisa. O problema é que a avaliação digital do colo tem elevada variabilidade entre observadores, o que motivou a introdução de testes objetivos.
História e exame
A anamnese deve procurar deliberadamente:
- Parto pré-termo espontâneo anterior e a respetiva idade gestacional.
- Perda de líquido (para distinguir RPM pré-termo), hemorragia, corrimento, sintomas urinários, febre.
- Caraterização das contrações: início, ritmo, intensidade, dor lombar em cinturão.
- Movimentos fetais.
- Cirurgia cervical prévia, gemelaridade, tabaco.
No exame: sinais vitais maternos (a febre faz suspeitar de corioamnionite), altura uterina, tónus e dor uterina à palpação, apresentação fetal.
O exame com espéculo antes do toque é a regra quando há suspeita de rotura de membranas: permite ver a saída de líquido pelo orifício do colo (que é o dado mais fiável), colher amostras e inspecionar o colo, e evita introduzir microrganismos na cavidade. Se a rotura estiver confirmada ou for provável, evita-se o toque digital, que encurta a latência e aumenta o risco de infeção. Havendo hemorragia, exclui-se placenta prévia por ecografia antes de qualquer exame vaginal.
Registo cardiotocográfico para avaliar a frequência cardíaca fetal e caraterizar objetivamente a atividade uterina. Ecografia para confirmar idade gestacional, apresentação, estimativa de peso, líquido amniótico e localização placentária.
Comprimento do colo por ecografia transvaginal
É o exame que melhor discrimina. Deve ser transvaginal (a via transabdominal é imprecisa e sofre com o enchimento vesical), com bexiga vazia, sem pressão excessiva da sonda, medindo o canal endocervical do orifício interno ao externo e retendo a menor de três medições ao longo de cerca de 5 minutos. Sinais associados a valorizar: funneling (dilatação em funil do orifício interno) e sludge amniótico, que sugere inflamação intra-amniótica.
A Norma NICE NG25 (2015, atualizada em 2022) propõe, na mulher sintomática com membranas intactas a partir das 30+0 semanas:
- Colo > 15 mm: trabalho de parto pré-termo improvável.
- Colo ≤ 15 mm: considerar o diagnóstico feito e oferecer tratamento.
Abaixo das 30 semanas, a NICE aceita que se assuma o diagnóstico e se trate sem teste, precisamente porque o custo de errar por defeito é maior nas idades gestacionais mais baixas.
Fibronectina fetal
A fibronectina fetal é uma glicoproteína da interface corioamniótica que funciona como "cola" entre o cório e a decídua. Está normalmente presente no fluido cervicovaginal até cerca das 22 semanas e volta a aparecer perto do termo. A sua deteção entre as 22 e as 35 semanas sugere disrupção da interface e associa-se a risco aumentado de parto pré-termo.
A NICE NG25 aceita-a como alternativa ao comprimento do colo a partir das 30+0 semanas, com limiar de 50 ng/mL: um resultado ≤ 50 ng/mL torna o trabalho de parto improvável e um resultado superior leva a tratar.
Condições da colheita, que são material clássico de exame: a amostra recolhe-se do fórnix vaginal posterior com espéculo, antes de qualquer toque digital e antes da ecografia transvaginal. Falsos positivos ocorrem com sangue, sémen (relação sexual nas 24 horas prévias), lubrificantes, desinfetantes e manipulação do colo. Não se usa se houver dilatação avançada ou rotura de membranas.
O conceito central: alto valor preditivo negativo
Este é o ponto que o exame testa com mais frequência. Tanto a fibronectina fetal como o comprimento do colo têm valor preditivo negativo elevado (acima de 95% para parto nos 7-14 dias seguintes) e valor preditivo positivo baixo (tipicamente 15-30%).
Ou seja: servem sobretudo para EXCLUIR. Um teste negativo permite, com segurança razoável, não internar, não tocolisar, não transferir e não administrar corticoide, poupando recursos e evitando iatrogenia. Um teste positivo, pelo contrário, não confirma que a mulher vai ter parto pré-termo: a maioria das positivas não terá parto nos 7 dias seguintes. O seu papel é sinalizar quem merece vigilância e as intervenções cujo perfil de segurança as justifica.
Erro frequente: tratar um resultado positivo como confirmação diagnóstica e concluir que o parto é inevitável. O ganho destes testes está na desescalada, não na escalada.
Diagnóstico de RPM pré-termo
Confirma-se, na maioria dos casos, pela visualização direta de líquido amniótico a sair do colo, com ou sem manobra de Valsalva. Quando o quadro é duvidoso, recorre-se a testes bioquímicos do fluido vaginal, como os que detetam IGFBP-1 ou PAMG-1, com boa acurácia. Os testes clássicos (pH com nitrazina e cristalização em folha de feto) mantêm valor histórico mas são pouco fiáveis: o pH tem falsos positivos com sangue, sémen, urina e vaginose. Um oligoâmnios na ecografia apoia o diagnóstico mas não o faz por si.
Suspeitar de corioamnionite
Não há um teste único. A suspeita clínica assenta em febre materna associada a alguns dos seguintes: taquicardia materna, taquicardia fetal, dor uterina à palpação, líquido amniótico purulento ou fétido, leucocitose materna. É o diagnóstico que muda a decisão de forma mais radical, porque converte o objetivo de "prolongar a gravidez" no objetivo de "terminar a gravidez".
Diagnóstico diferencial
Contrações de Braxton-Hicks (irregulares, sem modificação cervical), infeção urinária e pielonefrite, gastroenterite, apendicite, cólica renal, degenerescência de mioma, descolamento de placenta e torção anexial. Vale a pena lembrar que várias destas entidades (sobretudo a pielonefrite) não são apenas diagnóstico diferencial: são também causa de contrações e de parto pré-termo.
Lógica geral
A prevenção do parto pré-termo depende de identificar quem tem risco antes de haver sintomas. Só duas variáveis provaram desempenho suficiente para orientar a decisão: a história obstétrica (parto pré-termo espontâneo anterior) e o comprimento do colo por ecografia transvaginal. Note-se desde já que estas estratégias visam o parto pré-termo espontâneo; não previnem o pré-termo iatrogénico, cuja prevenção passa por controlar a doença materna ou fetal de base.
Prevenção primária: cuidados pré-concecionais e pré-natais
Medidas de eficácia modesta individualmente mas de impacto populacional relevante:
- Cessação tabágica, que é a intervenção comportamental com melhor evidência.
- Intervalo entre gravidezes superior a 6-12 meses.
- Tratamento da bacteriúria assintomática (rastreada por urocultura na gravidez), que reduz pielonefrite e, por essa via, parto pré-termo.
- Otimização de doença crónica materna e do estado nutricional; evicção de drogas.
- Transferência de embrião único nas técnicas de procriação medicamente assistida, dado que a gravidez múltipla é o fator de risco iatrogenicamente evitável mais importante.
Intervenções sem benefício demonstrado que convém não sobrevalorizar: repouso no leito (que aumenta o risco tromboembólico e a perda muscular), hidratação, abstinência sexual, tocolíticos orais de manutenção e rastreio/tratamento sistemático da vaginose bacteriana em população não selecionada. O rastreio universal por fibronectina ou por comprimento do colo em assintomáticas de baixo risco também não demonstrou reduzir o parto pré-termo, embora a medição do colo na ecografia morfológica do segundo trimestre seja prática corrente em muitos centros por ser barata e de baixo risco.
Medição do comprimento do colo
Realiza-se por ecografia transvaginal, tipicamente entre as 16+0 e as 24+0 semanas na mulher de risco, com a técnica descrita na secção de diagnóstico (bexiga vazia, sem pressão da sonda, menor de três medições).
O risco aumenta progressivamente à medida que o colo encurta, sem um ponto de corte biológico natural. Os limiares usados são convenções operacionais:
- ≤ 25 mm antes das 24 semanas: colo curto no contexto de história de parto pré-termo.
- ≤ 20 mm antes das 24 semanas: limiar da SMFM Consult Series #70 (2024) para tratar a mulher sem história de parto pré-termo (a chamada "descoberta incidental").
Na mulher com parto pré-termo espontâneo anterior, a vigilância faz-se por medições seriadas (habitualmente cada 1-2 semanas entre as 16 e as 24 semanas), porque o encurtamento é dinâmico e uma medição normal às 16 semanas não garante um colo normal às 22.
Progesterona vaginal
É a intervenção farmacológica de primeira linha. Atua mantendo a quiescência miometrial e a integridade cervical, e tem efeito anti-inflamatório local. Administra-se por via vaginal (óvulo/gel), tipicamente 200 mg diários ao deitar, iniciando entre as 16+0 e as 24+0 semanas e mantendo, segundo a NICE NG25, até pelo menos as 34 semanas.
Indicações, com as respetivas fontes:
- Colo ≤ 25 mm entre as 16+0 e as 24+0 semanas em mulher com história de parto pré-termo espontâneo (≤ 34+0) ou perda fetal (≥ 16+0): a NICE NG25 recomenda oferecer a escolha entre progesterona vaginal e cerclage.
- História de parto pré-termo OU colo ≤ 25 mm (só um dos critérios): a NICE recomenda considerar progesterona.
- Colo ≤ 20 mm antes das 24 semanas, sem história de parto pré-termo, gravidez única: a SMFM Consult Series #70 (2024) recomenda prescrever progesterona vaginal. Entre 21 e 25 mm, pode considerar-se após decisão partilhada.
Um ponto que o exame gosta de testar: a ACOG Practice Bulletin n.º 234 (2021) sublinha que a progesterona vaginal não previne o parto pré-termo recorrente na mulher com gravidez única, história de parto pré-termo e colo > 25 mm no segundo trimestre. É o colo curto, não a história por si só, que identifica quem responde à progesterona vaginal.
O 17-hidroxiprogesterona caproato intramuscular perdeu terreno: os ensaios de confirmação não replicaram o benefício e o produto foi retirado do mercado nos Estados Unidos em 2023, o que motivou a atualização da orientação da ACOG nesse mesmo ano. Não é a resposta esperada numa pergunta atual.
Cerclage cervical
Reforça mecanicamente o colo e ajuda a manter a barreira contra a ascensão microbiana. Coloca-se habitualmente por via vaginal, entre as 12 e as 24 semanas.
Três cenários clássicos:
- Cerclage por história (eletiva/profilática): história de perdas do segundo trimestre indolores, sugestivas de insuficiência cervical. Coloca-se por volta das 12-14 semanas.
- Cerclage por ecografia (indicada por colo curto): mulher com gravidez única, história de parto pré-termo espontâneo e colo ≤ 25 mm antes das 24 semanas. É a indicação com melhor evidência e a que a NICE NG25 coloca em pé de igualdade com a progesterona vaginal, deixando a escolha à decisão partilhada.
- Cerclage de emergência (por exame físico/resgate): dilatação do colo com membranas visíveis ou protruindo, sem contrações e sem infeção. Prolonga a gravidez em algumas semanas, com resultados variáveis.
Contraindicações a reter: infeção intra-amniótica ativa, trabalho de parto instalado, hemorragia ativa, rotura de membranas, morte fetal e malformação letal.
Erro frequente: oferecer cerclage por colo curto a uma mulher sem história de parto pré-termo espontâneo. Nesse grupo a evidência não sustenta o benefício, e a opção é a progesterona vaginal (SMFM #70, 2024).
Na gravidez gemelar, a cerclage indicada apenas por colo curto não demonstrou benefício e há sinais de possível dano, pelo que não é prática recomendada fora de contextos muito selecionados.
Pessário cervical
O pessário de silicone (tipo Arabin) redistribui a pressão sobre o colo. É atrativo por ser não invasivo e barato, mas os ensaios aleatorizados produziram resultados inconsistentes: alguns mostraram redução do parto pré-termo, os maiores e melhor conduzidos não a confirmaram, e as metanálises não sustentam recomendação sistemática, quer na gravidez única com colo curto quer na gemelar. Não é, portanto, primeira linha, e essa é a resposta a reter.
Contexto português
Em Portugal, a vigilância da gravidez de baixo risco inclui urocultura para deteção de bacteriúria assintomática e o rastreio de colonização por Streptococcus do grupo B por zaragatoa vaginal e retal, previsto pela Norma DGS n.º 037/2011, de 30/09/2011, atualizada em 20/12/2013 (Exames laboratoriais na gravidez de baixo risco), com colheita às 35-37 semanas. A ACOG Committee Opinion n.º 797 (2020) desloca a janela para as 36+0 a 37+6 semanas, diferença que vale a pena conhecer. Dispensam-se do rastreio as grávidas com Streptococcus do grupo B na urina na gravidez atual e as com antecedentes de recém-nascido com doença invasiva, porque em ambos os casos a profilaxia intraparto está indicada de qualquer forma.
A ecografia do segundo trimestre é a oportunidade natural para avaliar o colo, e a referenciação para medicina materno-fetal está indicada perante história de parto pré-termo, colo curto ou gravidez múltipla.
A hierarquia que importa
Perante trabalho de parto pré-termo confirmado, a pergunta certa não é "como paro este parto?" mas "o que muda o prognóstico deste recém-nascido?":
- Corticoide antenatal (a intervenção com maior impacto).
- Sulfato de magnésio para neuroproteção abaixo das 32 semanas.
- Transferência in utero para centro com cuidados intensivos neonatais.
- Profilaxia do Streptococcus do grupo B intraparto.
- Tocólise, apenas para viabilizar as anteriores.
A tocólise fica em último lugar de propósito: é a única destas medidas que não melhora, por si, o prognóstico neonatal.
1. Corticoide antenatal
Acelera a maturação pulmonar (síntese de surfatante pelos pneumócitos tipo II, aumento da complacência e da reabsorção de líquido alveolar) e tem efeitos maturativos noutros órgãos. Reduz o síndrome de dificuldade respiratória, a hemorragia intraventricular e a enterocolite necrosante, que é a tríade a memorizar, e reduz ainda a sepsis precoce e a mortalidade neonatal.
Esquemas (equivalentes na prática):
- Betametasona 12 mg IM, 2 doses com 24 horas de intervalo.
- Dexametasona 6 mg IM, 4 doses com 12 horas de intervalo.
Janela de idade gestacional, segundo a NICE NG25 (2015, atualizada 2022):
- 22+0 a 23+6: discutir com a equipa multidisciplinar e com os pais.
- 24+0 a 33+6: oferecer. É a janela consensual, e a mesma que a ACOG Committee Opinion n.º 713 (2017) define para risco de parto nos 7 dias seguintes, incluindo com membranas rotas e gravidez múltipla.
- 34+0 a 35+6: considerar (a ACOG estende até às 36+6 em casos selecionados, sem curso prévio). Aqui o benefício respiratório é menor e há aumento de hipoglicemia neonatal.
- Máximo de 2 cursos, segundo a NICE.
Pontos práticos frequentemente testados:
- O benefício máximo obtém-se entre 24 horas e 7 dias após a primeira dose. É isto que justifica a tocólise de 48 horas.
- Há benefício parcial mesmo com o curso incompleto. Perante parto iminente, administra-se a primeira dose na mesma.
- Não se atrasa um parto clinicamente indicado (corioamnionite, descolamento, estado fetal não tranquilizador) para "completar o corticoide".
- Cursos repetidos em série não são recomendados: reduzem o peso e o perímetro cefálico ao nascer. A NICE admite, no entanto, um único curso de repetição abaixo das 34+0 semanas se o curso anterior foi há mais de 7 dias e o parto é muito provável nas 48 horas seguintes, o que explica o limite de 2 cursos no total.
- Na diabetes, não é contraindicado, mas exige vigilância glicémica intensificada e ajuste da insulina.
2. Sulfato de magnésio para neuroproteção
Indicação distinta e independente da tocólise, ainda que use o mesmo fármaco. Não é um tocolítico no contexto atual.
Objetivo: reduzir a paralisia cerebral e a disfunção motora grave no sobrevivente. A ACOG e a SMFM apoiam o uso abaixo das 32 semanas (ACOG Committee Opinion n.º 455, 2010, e n.º 652, 2016), e a revisão Cochrane de 2024 reafirmou a redução do risco combinado de paralisia cerebral e disfunção motora grave sem aumento da mortalidade.
Indicação: trabalho de parto estabelecido ou parto planeado nas próximas 24 horas. A NICE NG25 concretiza: oferecer entre as 24+0 e as 29+6 e considerar entre as 30+0 e as 33+6.
Esquema (NICE): 4 g IV em bólus durante 15 minutos, seguidos de infusão de 1 g/hora até ao parto ou durante 24 horas, o que ocorrer primeiro.
Vigilância de toxicidade materna, horária: reflexo rotuliano (a sua abolição é o primeiro sinal), frequência respiratória, débito urinário e consciência. O antídoto é o gluconato de cálcio. Cuidado redobrado na insuficiência renal, porque o magnésio tem eliminação renal exclusiva.
Erro frequente: confundir as duas indicações. Corticoide vai até às 34 (ou 36+6 em casos selecionados); magnésio para neuroproteção vai até às 32 (a NICE considera até 33+6). Limiares diferentes porque os objetivos são diferentes: maturação pulmonar versus proteção cerebral.
3. Tocólise
O objetivo é ganhar 48 horas, para completar o corticoide antenatal e transferir a grávida para um centro adequado. A tocólise não prolonga utilmente a gravidez além disso e não melhora, por si, o prognóstico neonatal: os ensaios mostram atraso do parto, sem redução consistente da morbimortalidade neonatal quando o efeito do corticoide é tido em conta.
Primeira linha:
- Nifedipina (bloqueador dos canais de cálcio), oral. A NICE NG25 recomenda oferecer entre as 26+0 e as 33+6 semanas e considerar entre as 24+0 e as 25+6. Efeitos adversos: hipotensão, cefaleia, rubor, taquicardia.
- Atosibano (antagonista do recetor da ocitocina), IV. Eficácia semelhante e melhor tolerabilidade materna, o que o torna a alternativa preferida quando a nifedipina está contraindicada.
Outros: a indometacina usa-se por períodos curtos e habitualmente abaixo das 32 semanas, pelo risco de encerramento prematuro do canal arterial e de oligoâmnios. Os betamiméticos (ritodrina, terbutalina) foram abandonados pela toxicidade materna (taquicardia, arritmias, hiperglicemia, edema pulmonar). A tocólise de manutenção após as 48 horas não é recomendada.
Contraindicações (situações em que prolongar a gravidez é prejudicial): corioamnionite, estado fetal não tranquilizador, descolamento de placenta ou hemorragia significativa, pré-eclâmpsia com critérios de gravidade ou eclâmpsia, morte fetal ou malformação letal, trabalho de parto avançado.
4. Profilaxia do Streptococcus do grupo B
Todo o trabalho de parto pré-termo é, por si, indicação para profilaxia intraparto, exceto se houver cultura negativa recente e válida. A idade gestacional baixa é fator de risco de doença invasiva neonatal e, muitas vezes, o resultado do rastreio nem existe (faz-se no terceiro trimestre e, no pré-termo, o parto antecede-o). O fármaco de eleição é a penicilina G IV (alternativa: ampicilina), iniciada pelo menos 4 horas antes do parto sempre que possível.
5. Transferência in utero
O útero é a melhor incubadora de transporte. A transferência antes do parto para um hospital com cuidados intensivos neonatais adequados à idade gestacional associa-se consistentemente a melhores resultados do que transportar o recém-nascido depois de nascer. É uma das razões práticas mais fortes para a tocólise: as 48 horas ganhas são também as do transporte, e a decisão deve ser precoce.
RPM pré-termo
Antibiótico: eritromicina. Prolonga a latência, reduz a corioamnionite e a morbilidade neonatal. A NICE NG25 e a RCOG Green-top Guideline n.º 73 (2019) recomendam eritromicina 250 mg quatro vezes por dia, durante um máximo de 10 dias ou até se estabelecer o trabalho de parto, o que ocorrer primeiro. Se contraindicada, penicilina oral pelo mesmo período.
A amoxicilina-clavulanato deve ser evitada. No ensaio ORACLE I (Kenyon et al., Lancet, 2001), com 4826 mulheres com RPM pré-termo, o braço com amoxicilina-clavulanato associou-se a aumento da enterocolite necrosante neonatal. É dos factos mais testados de toda a área. No ORACLE II, com membranas intactas, nenhum antibiótico melhorou o resultado composto: o antibiótico é para a RPM pré-termo, não para o trabalho de parto com membranas intactas (o que não afasta a profilaxia do Streptococcus do grupo B, que tem indicação própria).
Gestão global: corticoide conforme a idade gestacional, sulfato de magnésio se abaixo das 32 semanas e parto previsível, eritromicina, vigilância de infeção e conduta expectante até às 37+0 semanas na ausência de infeção ou compromisso fetal, que é a posição da NICE NG25. Atenção à divergência, que é das mais testadas do tema: a ACOG (Practice Bulletin n.º 217, 2020) recomenda o parto às 34+0 semanas e a RCOG (Green-top n.º 73, 2019) admite ponderá-lo a partir das 34, com decisão partilhada, pesando o maior risco de corioamnionite se a gravidez prosseguir contra o maior risco de morbilidade respiratória e de admissão em cuidados intensivos neonatais se o parto for antecipado. A tocólise não é prática de rotina na RPM pré-termo, sobretudo porque a infeção subclínica é frequente.
Corioamnionite: a regra que quebra todas as outras
Perante corioamnionite, a indicação é o parto, independentemente da idade gestacional, com antibioterapia de largo espectro materna. Prolongar a gravidez expõe o feto a inflamação sistémica e a mãe a sepsis. A tocólise está contraindicada e o corticoide não justifica atrasar o parto. Não é, por si, indicação de cesariana.
Via de parto
A prematuridade não é, por si, indicação de cesariana. Na apresentação cefálica, o parto vaginal é apropriado se não houver outra indicação; na pélvica, a cesariana é a prática habitual nas idades gestacionais mais baixas. O clampeamento tardio do cordão (pelo menos 30-60 segundos, se não houver necessidade de reanimação imediata) reduz a hemorragia intraventricular e a necessidade de transfusão.
Referências
- National Institute for Health and Care Excellence. Preterm labour and birth. NICE guideline NG25. Londres: NICE; 2015 (atualizada em 2022).
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10 perguntas sobre Parto pré-termo
Ler consolida, treinar é o que fixa. Cada pergunta tem justificação alínea a alínea, no formato da Prova Nacional de Acesso.
Criar conta e treinar