Parto anormal e vigilância fetal intraparto
Atualizado em 15 de julho de 2026 · 10 perguntas neste tema
O parto anormal resulta da falência de um ou mais de três componentes: a força das contrações (power), o feto (passenger) e o canal de parto (passage). Reconhecer qual deles falha, e quando a lentidão deixa de ser variação do normal para passar a ser paragem verdadeira, é o que separa uma cesariana necessária de uma cesariana evitável. Em paralelo, a vigilância fetal intraparto obriga a distinguir traçados que refletem stress fisiológico transitório daqueles que traduzem hipoxia progressiva. Este capítulo organiza os critérios contemporâneos de progressão, a interpretação estruturada da cardiotocografia e a abordagem das emergências do período expulsivo.
Avaliar a progressão do parto
O diagnóstico de distocia exige três dados objetivos, registados em partograma: dilatação, descida da apresentação e qualidade da contratilidade. Sem os três, o rótulo de distocia é uma impressão.
O exame vaginal documenta dilatação (cm), extinção, consistência e posição do colo, altura da apresentação (planos de Hodge ou estações de DeLee, de -5 a +5 relativamente às espinhas isquiáticas), variedade (posição da fontanela posterior), grau de flexão, assinclitismo e existência de bossa serossanguínea ou moldagem. A bossa e a moldagem acentuadas são armadilhas clássicas: dão a sensação de descida quando o crânio está apenas a deformar-se, mascarando uma apresentação que na realidade não desceu. As manobras de Leopold e a ecografia intraparto ajudam a confirmar situação, apresentação e variedade, sendo a ecografia claramente superior ao toque na determinação da variedade.
Critérios de paragem da primeira fase
Segundo a ACOG (Clinical Practice Guideline n.º 8, janeiro de 2024), a paragem da fase ativa define-se pela ausência de progressão da dilatação quando estão reunidas todas as condições seguintes:
- dilatação ≥ 6 cm;
- membranas rotas;
- sem progressão após 4 horas de contrações adequadas (≥ 200 UM), ou após 6 horas de contratilidade inadequada apesar de oxitocina.
Cumpridos os critérios, e mantendo-se o estado materno e fetal tranquilizador, está indicada cesariana. Antes de estarem cumpridos, e desde que mãe e feto estejam bem, a conduta é expectante e corretiva: amniotomia se membranas íntegras, oxitocina se contratilidade insuficiente, hidratação, analgesia adequada, mudança de posição. A paragem da fase ativa é a indicação mais frequente de cesariana primária, o que explica o peso que estes critérios têm na redução de cesarianas evitáveis.
A fase latente prolongada, isoladamente, não é indicação de cesariana.
Critérios da segunda fase
A ACOG (2024) define segunda fase prolongada como mais de 3 horas de esforços expulsivos em nulíparas e mais de 2 horas em multíparas. A epidural justifica tolerância adicional. O diagnóstico de paragem da segunda fase deve ser individualizado: pondera descida, rotação, estimativa de peso fetal, variedade, preferências da grávida e probabilidade de sucesso de um parto instrumentado. Pode ser feito mais cedo se não houver rotação nem descida apesar de contrações adequadas, esforço expulsivo eficaz e tempo decorrido.
Diagnóstico das apresentações anómalas
- Pélvica: pólo cefálico no fundo, sulco interglúteo e sagrado ao toque, foco auscultatório alto. Confirmação ecográfica obrigatória.
- Situação transversa: útero alargado transversalmente, ausência de pólo no estreito superior, ombro ou grelha costal ao toque. Não é compatível com parto vaginal.
- Face: deflexão máxima. Palpam-se órbitas, nariz e boca. Só a mento-anterior pode ter parto vaginal; a mento-posterior é indicação de cesariana, porque exigiria uma extensão cervical impossível.
- Fronte: deflexão intermédia, a pior de todas em termos mecânicos (diâmetro mento-occipital). Palpa-se a fontanela anterior, as órbitas e a raiz do nariz, mas não o mento. Habitualmente incompatível com parto vaginal, salvo se converter espontaneamente em vértice ou face.
- Occípito-posterior persistente: dor lombar intensa, esforço expulsivo precoce, segunda fase prolongada. Palpa-se a fontanela anterior anteriormente.
Vigilância fetal intraparto
Escolher o método
Na gravidez de baixo risco, a auscultação intermitente é aceitável e preferível, por evitar intervenção desnecessária. A NICE (NG229, 2022) recomenda auscultar imediatamente após uma contração, durante pelo menos 1 minuto, a cada 15 minutos na primeira fase e a cada 5 minutos na segunda fase, registando em paralelo o pulso materno para não confundir os dois. Em Portugal, a Orientação da DGS n.º 002/2023 (atualizada em 2024) enquadra a vigilância do trabalho de parto de baixo risco na competência do enfermeiro especialista, com referenciação ao obstetra perante desvios do padrão normal.
A cardiotocografia contínua reserva-se para fatores de risco: cesariana anterior ou cicatriz uterina, pré-eclâmpsia ou hipertensão medicada, restrição de crescimento fetal, corioamnionite ou febre materna, hemorragia vaginal, mecónio, diabetes medicada, apresentação não cefálica, taquissistolia, uso de oxitocina e analgesia loco-regional (durante a instalação).
Interpretar o traçado
Analisar sempre pela mesma ordem: contrações, linha de base, variabilidade, acelerações, desacelerações.
- Linha de base normal: 110-160 bpm. Abaixo, bradicardia; acima, taquicardia (pensar febre materna, corioamnionite, fármacos).
- Variabilidade: o marcador isolado mais importante de bem-estar fetal. Normal 5-25 bpm. Variabilidade normal torna a acidose muito improvável, mesmo com desacelerações. Reduzida pode dever-se a sono fetal (o sono profundo pode durar até cerca de 50 minutos), opióides ou sulfato de magnésio, mas se persistir para além desse período obriga a excluir hipoxia.
- Acelerações: presença é tranquilizadora; a ausência isolada tem pouco valor.
Desacelerações (o ponto mais cotado):
| Tipo | Relação com a contração | Mecanismo | Significado |
|---|---|---|---|
| Precoces | Espelham a contração (nadir coincide com o pico) | Compressão da cabeça, reflexo vagal | Benignas |
| Variáveis | Início e forma variáveis, descida abrupta | Compressão do cordão | Preocupantes se recorrentes ou com características atípicas |
| Tardias | Início após o pico, recuperação lenta após a contração | Insuficiência uteroplacentar | Preocupantes se recorrentes |
Classificação em três categorias (NICHD/ACOG)
- Categoria I (normal): linha de base 110-160, variabilidade moderada, sem desacelerações tardias nem variáveis; precoces e acelerações podem estar presentes. Conduta expectante.
- Categoria II (indeterminada): tudo o que não é I nem III. Corresponde à maioria dos traçados. Não prediz acidose por si só; exige vigilância, medidas corretivas e reavaliação.
- Categoria III (anormal): variabilidade ausente acompanhada de desacelerações tardias recorrentes, ou desacelerações variáveis recorrentes, ou bradicardia; ou padrão sinusoidal. Associa-se a risco aumentado de acidemia e obriga a avaliar e resolver com urgência.
Erro frequente: classificar como Categoria III a variabilidade ausente isolada, sem desacelerações nem bradicardia. Nesse caso o traçado é Categoria II. Na Categoria III, a variabilidade ausente tem de estar acompanhada de um dos três achados, com a única exceção do padrão sinusoidal, que basta por si.
Note-se que a NICE (NG229) usa uma nomenclatura diferente, de normal / suspeito / patológico, baseada em características amber e red. A lógica clínica é sobreponível.
Referências
- American College of Obstetricians and Gynecologists. First and Second Stage Labor Management. ACOG Clinical Practice Guideline No. 8. Obstet Gynecol. 2024;143(1). (Substitui o Obstetric Care Consensus No. 1, 2014.)
- Zhang J, Landy HJ, Branch DW, Burkman R, Haberman S, Gregory KD, et al. Contemporary patterns of spontaneous labor with normal neonatal outcomes. Obstet Gynecol. 2010;116(6):1281-1287.
- American College of Obstetricians and Gynecologists. Intrapartum Fetal Heart Rate Monitoring: Nomenclature, Interpretation, and General Management Principles. ACOG Practice Bulletin No. 106. Obstet Gynecol. 2009;114(1).
- American College of Obstetricians and Gynecologists. Management of Intrapartum Fetal Heart Rate Tracings. ACOG Practice Bulletin No. 116. Obstet Gynecol. 2010;116(5).
- Ayres-de-Campos D, Spong CY, Chandraharan E; FIGO Intrapartum Fetal Monitoring Expert Consensus Panel. FIGO consensus guidelines on intrapartum fetal monitoring: Cardiotocography. Int J Gynaecol Obstet. 2015;131(1):13-24.
- National Institute for Health and Care Excellence. Fetal monitoring in labour. NICE guideline NG229. Londres: NICE; dezembro de 2022.
- National Institute for Health and Care Excellence. Intrapartum care. NICE guideline NG235. Londres: NICE; setembro de 2023.
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- Hannah ME, Hannah WJ, Hewson SA, Hodnett ED, Saigal S, Willan AR; Term Breech Trial Collaborative Group. Planned caesarean section versus planned vaginal birth for breech presentation at term: a randomised multicentre trial. Lancet. 2000;356(9239):1375-1383.
- Direção-Geral da Saúde. Cuidados de saúde durante o trabalho de parto. Orientação n.º 002/2023, de 10/05/2023, atualizada a 26/03/2024. Lisboa: DGS; 2024.
10 perguntas sobre Parto anormal e vigilância fetal intraparto
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