Parto anormal e vigilância fetal intraparto
Atualizado em 28 de setembro de 2026 · 21 perguntas neste tema
O parto anormal reúne o trabalho de parto que não progride, as apresentações que o dificultam, as emergências do período expulsivo e a vigilância que procura o feto em hipoxia. O que os liga é o momento: tudo acontece com a mulher em trabalho de parto, e a decisão é quase sempre entre esperar, corrigir ou fazer nascer.
A distocia nasce da força, do feto ou do canal. A fase ativa começa aos 6 cm para o colégio americano e aos 5 cm para a DGS, e só aí se pode falar de paragem: 4 horas sem progressão com contrações adequadas, ou 6 horas com ocitocina se forem inadequadas. A fase latente prolongada, com mãe e feto bem, não é motivo de cesariana. O segundo estadio considera-se prolongado acima de 3 horas de puxos na nulípara e 2 na multípara.
A cardiotocografia contínua reduz as convulsões neonatais mas não a paralisia cerebral nem a mortalidade, e aumenta as cesarianas, porque é sensível e pouco específica. Lê-se sempre pela mesma ordem e classifica-se, pela federação internacional de ginecologia e obstetrícia (FIGO), em normal, suspeita ou patológica. Perante um traçado alterado corrige-se primeiro a causa, e a mais frequente é a atividade uterina excessiva: reduzir ou parar a ocitocina é o primeiro gesto.
A distocia de ombros é imprevisível e resolve-se com uma sequência treinada: pedir ajuda, McRoberts e pressão suprapúbica, e depois manobras internas ou quatro apoios. O prolapso do cordão pede elevação da apresentação e parto imediato. O parto instrumentado exige dilatação completa, cabeça encravada e posição conhecida, e a ventosa evita-se abaixo das 32 semanas.
O que não se pode falhar é a pressão no fundo do útero na distocia de ombros, a ocitocina mantida com um traçado patológico, a bradicardia súbita na mulher com cesariana anterior, que é rotura uterina até prova em contrário, e a amniotomia com a apresentação alta.
- Distocia é o trabalho de parto que não progride: o colo não dilata, a apresentação não desce, ou as duas coisas.
- É a principal indicação de cesariana primária nos Estados Unidos.
- Separam-se dois tipos de alteração: a protração, em que o trabalho de parto progride devagar, e a paragem, em que deixa de progredir. A paragem só se diagnostica na fase ativa.
Fases do primeiro estadio
| fase | o que é | quando começa |
|---|---|---|
| Latente | contrações dolorosas, apagamento e dilatação lenta e variável | início das contrações rítmicas |
| Ativa | dilatação mais rápida, até à dilatação completa | 6 cm para o colégio americano (ACOG, American College of Obstetricians and Gynecologists, 2024); 5 cm, com extinção de 80% ou mais, para a orientação da DGS de 2023 |
- A curva descrita por Friedman nos anos 50 punha o início da fase ativa nos 4 cm. Os dados contemporâneos mostram que a dilatação só acelera por volta dos 6 cm e que muitas mulheres dilatam mais devagar sem prejuízo.
- O segundo estadio vai da dilatação completa ao nascimento e divide-se numa fase passiva, antes dos puxos, e numa fase ativa, com puxos.
A distocia nasce de um de três componentes, muitas vezes de mais do que um: a força, o feto e o canal.
| componente | o que falha | exemplos |
|---|---|---|
| Força | contrações pouco frequentes ou pouco intensas; puxos ineficazes | contratilidade inadequada, exaustão materna, analgesia epidural no segundo estadio |
| Feto | dimensão, situação, apresentação, posição ou atitude | macrossomia, deflexão da cabeça, assinclitismo, occípito-posterior persistente, apresentações de face, fronte ou pélvica, anomalias como a hidrocefalia |
| Canal | bacia ou partes moles | desproporção cefalopélvica, miomas, bexiga distendida, obesidade grave |
A força
- Para dilatar o colo e fazer descer a apresentação, cada contração tem de gerar pelo menos 25 mmHg de pico; o ideal é 50 a 60 mmHg.
- A frequência adequada é de 3 ou mais contrações em 10 minutos. Com cateter de pressão intrauterina, contratilidade adequada são 200 unidades Montevideo ou mais (número de contrações em 10 minutos vezes a intensidade média acima do tónus de base).
- Contrações a mais também fazem mal: a taquissistolia, mais de 5 contrações em 10 minutos (em dois períodos seguidos de 10 minutos ou em média ao longo de 30), encurta o repouso em que o feto recebe fluxo uteroplacentar sem obstáculo.
O feto
- Acima de 4000 a 4500 g de peso estimado aumenta o risco de distocia, incluindo a de ombros, mas perto do termo a ecografia pode errar o peso em 500 a 1000 g.
- A cabeça rodada para um lado (assinclitismo) ou em extensão apresenta à bacia um diâmetro maior.
- A occípito-posterior persistente alonga o trabalho de parto em cerca de 1 hora na multípara e 2 horas na nulípara.
O canal
- A pelvimetria clínica, radiológica ou por TC prevê mal o parto vaginal: a descida da apresentação durante o trabalho de parto é o melhor teste da bacia.
- A analgesia epidural pode contribuir para a distocia ao baixar o tónus do pavimento pélvico, que ajuda a rotação da cabeça.
Avaliar a progressão
- Em cada toque regista-se no partograma a dilatação, o apagamento, a altura da apresentação, a variedade de posição e o estado das membranas. O diagnóstico de distocia assenta nesta série de observações, não num toque isolado.
- A bossa serosanguínea (edema do couro cabeludo) e a moldagem do crânio são as duas causas mais frequentes de sobrestimar a descida.
- Para a variedade de posição, a ecografia é mais fiável do que o toque.
- A contratilidade avalia-se por palpação ou tocodinamometria externa, que só dá a frequência; o cateter de pressão intrauterina mede a intensidade e usa-se quando a externa não serve (obesidade) ou no trabalho de parto que se arrasta.
Primeiro estadio
| situação | critério (ACOG 2024) | o que significa |
|---|---|---|
| Fase latente prolongada | o percentil 95 da fase latente na nulípara anda pelas 16 horas | não é, por si, indicação de cesariana se a mãe e o feto estão bem |
| Paragem da fase ativa | 6 cm ou mais, membranas rotas, sem progressão da dilatação apesar de 4 horas de contrações adequadas ou de 6 horas de contrações inadequadas com ocitocina | indicação de cesariana |
Segundo estadio
- Segundo estadio prolongado (ACOG 2024): mais de 3 horas de puxos na nulípara e mais de 2 horas na multípara. Passado esse tempo a decisão é individual, pesando a descida, a rotação, o estado materno e fetal e a probabilidade de parto vaginal.
- A paragem pode diagnosticar-se mais cedo se a cabeça não roda nem desce apesar de contrações, puxos e tempo adequados.
- A analgesia regional alonga o segundo estadio. O colégio britânico (RCOG, Royal College of Obstetricians and Gynaecologists) conta a fase passiva e a ativa juntas e fala em falta de progressão contínua:
| com analgesia regional | sem analgesia regional | |
|---|---|---|
| Nulípara | 3 horas | 2 horas |
| Multípara | 2 horas | 1 hora |
Diagnóstico diferencial
- Falso trabalho de parto: parte das fases latentes prolongadas acaba sem trabalho de parto, com as contrações a parar.
- Distinguir a causa: contratilidade inadequada, má posição (occípito-posterior, deflexão) ou desproporção verdadeira. A resposta à amniotomia e à ocitocina ajuda a separá-las.
- Rotura uterina, sobretudo com cesariana anterior: dor nova e intensa, perda da altura da apresentação, hemorragia vaginal e, acima de tudo, alteração da frequência cardíaca fetal.
Fase latente prolongada
- Conduta expectante: a maioria entra na fase ativa. As restantes param de contrair (falso trabalho de parto) ou chegam à fase ativa com amniotomia, ocitocina ou as duas.
- Repouso, analgesia e hidratação são opções razoáveis.
Fase ativa lenta: aceleração do trabalho de parto
- Antes de acelerar: avaliar a bacia, o colo, a posição, a altura e o bem-estar fetal, e excluir desproporção.
- Amniotomia: deixa a cabeça, e não o saco, ser a força de dilatação. Riscos: desacelerações por compressão do cordão, corioamnionite e prolapso do cordão se a apresentação estiver alta. Avalia-se a frequência cardíaca fetal antes e logo depois.
- Ocitocina: indicada quando há menos de 3 contrações em 10 minutos ou intensidade abaixo de 25 mmHg. O alvo é a dilatação com, no máximo, 5 contrações em 10 minutos. Os regimes de dose baixa dão menos taquissistolia; os de dose alta encurtam o trabalho de parto e reduzem a corioamnionite e as cesarianas por distocia.
- Amniotomia e ocitocina precoces encurtam o trabalho de parto em até 2 horas, sem mudar a taxa de cesarianas.
- O apoio contínuo durante o trabalho de parto reduz a analgesia, a ocitocina e os partos operatórios.
Segundo estadio
- Começar a puxar logo à dilatação completa: diferir os puxos alonga o segundo estadio e associa-se a mais complicações.
- Mudar de posição, corrigir contrações inadequadas com ocitocina e deixar diminuir o efeito da epidural para recuperar o tónus do pavimento e a vontade de puxar.
- Rotação manual da occípito-posterior ou transversa para anterior: associa-se a menos cesarianas e partos instrumentados, sem aumento demonstrado do risco.
- Sem progressão: parto instrumentado se as condições estiverem cumpridas; senão, cesariana.
Quando operar
- Paragem da fase ativa com os critérios cumpridos.
- Estado materno ou fetal não tranquilizador sem condições para parto vaginal rápido.
- Desproporção, situação transversa, face mento-posterior ou fronte persistente.
Maternas
- Corioamnionite, sobretudo com membranas rotas e trabalho de parto longo, com infeção fetal e pneumonia de aspiração no recém-nascido.
- Hemorragia pós-parto: o trabalho de parto prolongado (e também o muito rápido) é fator de risco.
- Rotura uterina: a maioria dá-se sobre a cicatriz de uma cesariana. Na prova de trabalho de parto com uma incisão segmentar transversal o risco é de 0,5 a 0,9%, e sobe com a indução por prostaglandinas; o misoprostol não se usa com cesariana anterior.
- Traumatismo do canal e do esfíncter anal, sobretudo com parto instrumentado e distocia de ombros.
- A cesariana tem mortalidade materna duas a quatro vezes a do parto vaginal e aumenta, em cada gravidez seguinte, o risco de placenta prévia e de acretismo.
A rotura uterina reconhece-se assim
- O sinal mais frequente, presente em até 70%, é a alteração da frequência cardíaca fetal, sobretudo bradicardia.
- Outros: dor uterina nova e intensa, mudança do padrão das contrações, hemorragia vaginal e perda da altura da apresentação.
- Com rotura completa e expulsão do feto para a cavidade abdominal, a mortalidade fetal é de 50 a 75%. O tratamento é a cesariana imediata, com reparação cirúrgica do útero, conservando-o quando possível.
- A vigilância fetal intraparto procura as alterações da oxigenação fetal a tempo de intervir antes de haver lesão. Faz-se por auscultação intermitente ou por cardiotocografia (registo contínuo da frequência cardíaca fetal e das contrações).
- Sinais de estado fetal não tranquilizador surgem em 5 a 10% das gravidezes.
- Muitas lesões neurológicas atribuídas à asfixia do parto têm outra causa: cerca de 70% das encefalopatias neonatais vêm de fatores anteriores ao trabalho de parto (infeção, alterações genéticas, acidente vascular pré-natal).
O que a cardiotocografia contínua faz e não faz
- Comparada com a auscultação intermitente, reduz para metade as convulsões neonatais, mas não muda a mortalidade perinatal nem a paralisia cerebral, e aumenta as cesarianas em 63% e os partos instrumentados em 15%.
- É um teste sensível, mas de especificidade e valor preditivo positivo baixos: a maioria dos traçados suspeitos ou patológicos acaba num recém-nascido sem acidose. Em contrapartida, não se documenta acidose pouco depois de um traçado normal.
- A leitura varia muito entre observadores, sobretudo na classificação das desacelerações e da variabilidade.
Da hipoxemia à acidose
- Cada contração comprime os vasos do miométrio e reduz transitoriamente a perfusão da placenta; o feto saudável tolera-o no intervalo entre contrações.
- Quando a troca uteroplacentar falha, o feto primeiro fica hipoxémico e redistribui o fluxo para o cérebro, o coração e as suprarrenais. Se persistir, passa a glicólise anaeróbia, acumula ácido láctico e entra em acidose metabólica, que lesa sobretudo o cérebro e o miocárdio.
Porque a frequência cardíaca desce
| desaceleração | mecanismo |
|---|---|
| Precoce | compressão da cabeça, reflexo vagal |
| Variável | compressão do cordão, resposta dos barorrecetores à subida da pressão arterial |
| Tardia | hipoxemia, resposta dos quimiorrecetores |
| Prolongada (mais de 3 minutos) | provavelmente com componente de quimiorrecetores, isto é, hipoxemia |
Causas de hipoxia intraparto
- Atividade uterina excessiva (taquissistolia, sobretudo com ocitocina ou prostaglandinas): a causa mais frequente.
- Decúbito dorsal: compressão aorto-cava e menor perfusão placentar.
- Hipotensão materna, habitualmente depois da analgesia epidural ou raquidiana.
- Compressão transitória do cordão, mais frequente no oligoâmnios.
- Eventos agudos: prolapso do cordão, rotura uterina, descolamento da placenta.
- No segundo estadio, os próprios puxos aceleram a instalação da hipoxia.
Outras alterações do traçado
- Taquicardia: a febre materna é a causa mais frequente (de origem extrauterina, por corioamnionite ou pela própria epidural); também beta-agonistas, atropina, hipoxemia inicial e taquiarritmias fetais.
- Variabilidade reduzida: hipoxia do sistema nervoso central, mas também fármacos depressores do sistema nervoso central (como os opioides) e bloqueadores parassimpáticos, lesão cerebral prévia, infeção e prematuridade.
- Padrão sinusoidal: anemia fetal grave (aloimunização anti-D, hemorragia feto-materna, transfusão feto-fetal, rotura de vasa prévia).
Escolher o método
- No baixo risco, a auscultação intermitente, logo a seguir à contração, é aceitável.
- Cardiotocografia contínua quando há risco aumentado de hipoxia: hemorragia vaginal, febre materna, crescimento fetal anómalo, analgesia epidural, líquido meconial, indução ou aceleração com ocitocina, cesariana anterior, e sempre que a auscultação detete uma alteração.
- A monitorização externa (doppler) é a inicial. A interna, por elétrodo no escalpe, dá registo mais fiel mas exige membranas rotas e está contraindicada no herpes genital ativo, na infeção por VIH ou pelos vírus das hepatites B, C, D ou E, na suspeita de coagulopatia fetal e quando a apresentação é incerta. No pré-termo evita-se: a federação internacional de ginecologia e obstetrícia (FIGO) desaconselha-a abaixo das 32 semanas, e a guideline inglesa (NICE, National Institute for Health and Care Excellence) abaixo das 34+0.
Ler o traçado
Pela mesma ordem, sempre: linha de base, variabilidade, acelerações, desacelerações e contrações.
| parâmetro | normal | alterado (FIGO 2015) |
|---|---|---|
| Linha de base | 110 a 160 bpm | taquicardia acima de 160 bpm durante mais de 10 min; bradicardia abaixo de 110 bpm durante mais de 10 min (100 a 110 pode ser normal no pós-termo) |
| Variabilidade | 5 a 25 bpm | reduzida: abaixo de 5 bpm durante mais de 50 min, ou mais de 3 min dentro de uma desaceleração; aumentada: acima de 25 bpm durante mais de 30 min |
| Acelerações | subidas de mais de 15 bpm durante mais de 15 s | a ausência isolada, num traçado de resto normal, tem significado incerto |
| Desacelerações | descidas de mais de 15 bpm durante mais de 15 s | repetitivas se acompanham mais de 50% das contrações; prolongadas se duram mais de 3 min |
| Padrão sinusoidal | ausente | ondulação regular de 5 a 15 bpm, 3 a 5 ciclos por minuto, durante mais de 30 min, sem acelerações |
| Contrações | até 5 em 10 min | taquissistolia: mais de 5 em 10 min |
Desacelerações
| tipo | forma | significado |
|---|---|---|
| Precoces | pouco profundas, curtas, variabilidade conservada, coincidentes com a contração | não indicam hipoxia |
| Variáveis | em V: descida em menos de 30 s, recuperação rápida, tamanho e relação com a contração variáveis | a maioria das desacelerações do trabalho de parto; raramente com hipoxia importante, a não ser que ganhem forma em U, percam variabilidade ou passem de 3 min |
| Tardias | em U: descida e recuperação graduais (mais de 30 s), início mais de 20 s depois do início da contração, nadir depois do pico | hipoxemia; com traçado sem acelerações e variabilidade reduzida contam mesmo com 10 a 15 bpm de amplitude |
| Prolongadas | mais de 3 min | mais de 5 min, abaixo de 80 bpm e com variabilidade reduzida: hipoxia aguda, intervenção emergente |
Classificar
A FIGO classifica o traçado em três classes e manda reavaliar pelo menos a cada 30 minutos. É a nomenclatura que a DGS usa (traçado suspeito ou patológico).
| classe | critérios | interpretação e conduta |
|---|---|---|
| Normal | linha de base 110 a 160 bpm, variabilidade 5 a 25 bpm, sem desacelerações repetitivas | sem hipoxia; nenhuma intervenção |
| Suspeito | falta pelo menos uma característica do normal, sem critérios patológicos | baixa probabilidade de hipoxia; corrigir causas reversíveis, vigiar de perto ou juntar métodos adicionais |
| Patológico | linha de base abaixo de 100 bpm; variabilidade reduzida mais de 50 min, aumentada mais de 30 min ou padrão sinusoidal mais de 30 min; tardias ou prolongadas repetitivas durante mais de 30 min (20 min se a variabilidade estiver reduzida); ou uma prolongada de mais de 5 min | alta probabilidade de hipoxia; agir de imediato, métodos adicionais ou acelerar o parto; no prolapso do cordão, na rotura uterina e no descolamento, parto imediato |
A classificação americana, que é a do manual de Beckmann, usa três categorias:
| categoria | critérios |
|---|---|
| I | linha de base 110 a 160 bpm, variabilidade moderada (6 a 25 bpm), sem tardias nem variáveis; precoces e acelerações podem existir |
| II | tudo o que não é I nem III; é a maioria dos traçados |
| III | variabilidade ausente com tardias recorrentes, variáveis recorrentes ou bradicardia; ou padrão sinusoidal |
Diagnóstico diferencial do traçado alterado
- Sono fetal profundo: dura até cerca de 50 minutos, com linha de base estável, acelerações raras e variabilidade no limite inferior, mas raramente abaixo de 5 bpm.
- Fármacos: opioides (variabilidade reduzida), beta-agonistas (taquicardia), beta-bloqueantes (bradicardia).
- Frequência cardíaca materna registada por engano: suspeitar quando há acelerações coincidentes com as contrações, sobretudo no segundo estadio, porque o feto desacelera com a contração e a mãe acelera.
- Padrão pseudossinusoidal: dente de serra, dura raramente mais de 30 minutos e tem traçado normal antes e depois; surge com analgésicos e com a sucção fetal.
Métodos adicionais
- Estimulação digital do escalpe: serve sobretudo para separar sono profundo de hipoxia quando a variabilidade está reduzida. Uma aceleração seguida de normalização do traçado é tranquilizadora, com valor preditivo semelhante a um pH do escalpe acima de 7,25.
- Sangue do escalpe fetal (pH ou lactato): exige membranas rotas e pelo menos 3 cm de dilatação, e tem as contraindicações do elétrodo. Não se faz abaixo das 34+0 semanas.
| pH | lactato (mmol/L) | interpretação | conduta |
|---|---|---|---|
| acima de 7,25 | abaixo de 4,2 | normal | sem ação; repetir em 60 min se o traçado continuar muito alterado |
| 7,20 a 7,25 | 4,2 a 4,8 | intermédio | medidas para melhorar a oxigenação; repetir em 20 a 30 min se o traçado persistir ou piorar |
| abaixo de 7,20 | acima de 4,8 | anormal | normalizar o traçado ou parto rápido |
- A oximetria de pulso fetal não se recomenda.
Um traçado suspeito ou patológico não obriga a uma cesariana imediata. Muitas vezes a causa identifica-se e reverte-se, e o traçado normaliza.
Ressuscitação intrauterina
| causa | medida |
|---|---|
| Atividade uterina excessiva | reduzir ou parar a ocitocina, retirar as prostaglandinas se possível, tocólise aguda (beta-agonistas como o salbutamol ou a terbutalina, atosibano ou nitroglicerina) |
| Compressão aorto-cava | decúbito lateral |
| Compressão do cordão | mudar de posição; amnioinfusão nas variáveis com oligoâmnios ou membranas rotas |
| Hipotensão materna depois da epidural | fluidos rápidos e ou efedrina endovenosa |
| Segundo estadio | parar os puxos até o traçado recuperar |
- Faz-se um toque vaginal para excluir prolapso do cordão e ver se o parto está iminente.
- O oxigénio materno não tem eficácia demonstrada quando a oxigenação da mãe é normal, e os fluidos endovenosos também não na mulher normotensa.
Conduta por classe
- Suspeito: corrigir a causa antes que o traçado passe a patológico; vigiar de perto ou juntar métodos adicionais.
- Patológico: medidas imediatas, métodos adicionais (estimulação do escalpe, sangue do escalpe) e, se não for possível ou não houver melhoria, acelerar o parto pela via mais rápida e segura.
- Evento agudo (prolapso do cordão, rotura uterina, descolamento da placenta, desaceleração prolongada de mais de 5 minutos abaixo de 80 bpm): parto imediato.
- No segundo estadio a hipoxia instala-se mais depressa: parar os puxos e, sem melhoria, acelerar o parto.
Encefalopatia hipóxico-isquémica e paralisia cerebral
- A encefalopatia neonatal por hipoxia intraparto é rara (cerca de 1,6 por 10 000), e só uma parte das encefalopatias neonatais é hipóxico-isquémica.
- Para atribuir uma paralisia cerebral a um evento hipóxico agudo intraparto exigem-se os quatro critérios essenciais:
| critério essencial |
|---|
| Acidose metabólica no sangue arterial do cordão: pH abaixo de 7,0 e défice de bases de 12 mmol/L ou mais |
| Encefalopatia moderada ou grave de início precoce num recém-nascido de 34 semanas ou mais |
| Paralisia cerebral espástica ou, menos vezes, discinética |
| Exclusão de outras causas: traumatismo, coagulopatia, infeção, alteração genética |
- Apoiam o momento intraparto: um evento sentinela, um traçado compatível com evento agudo, índice de Apgar de 0 a 4 aos 5 e aos 10 minutos, falência multiorgânica nas primeiras 72 horas e imagem cerebral precoce compatível.
- A paralisia cerebral atáxica, que muitas vezes tem origem genética, a epilepsia e a deficiência intelectual isoladas não se associam a asfixia intraparto.
Mecónio
- Líquido meconial em 10 a 20% dos partos; a maioria dos recém-nascidos não tem problemas.
- Síndrome de aspiração meconial em cerca de 6% dos que nascem com mecónio.
- A amnioinfusão não previne a aspiração, a aspiração da via aérea no períneo também não, e a entubação de rotina já não se recomenda. Deve estar presente uma equipa de reanimação neonatal.
| apresentação | frequência | nota |
|---|---|---|
| Pélvica | 3 a 4% dos partos de termo | mais frequente no pré-termo |
| Face (deflexão máxima) | 1 em 600 a 1000 | só a mento-anterior pode nascer por via vaginal |
| Fronte (deflexão intermédia) | 1 em 3000 | costuma converter-se em vértice ou face; persistente, obriga a cesariana |
| Composta (membro ao lado da apresentação) | 1 em 700 | prolapso do cordão em 15 a 20% |
| Occípito-posterior persistente | trabalho de parto mais longo | |
| Situação transversa | incompatível com parto vaginal de termo |
Apresentação pélvica
- Tipos: franca (ancas fletidas e joelhos em extensão, pés junto à cabeça), completa (ancas e joelhos fletidos, pernas cruzadas) e incompleta ou de pés (um ou os dois pés em baixo).
- Associa-se a prematuridade, gravidez múltipla, polihidrâmnios, hidrocefalia, anencefalia, aneuploidia e anomalias ou tumores uterinos.
- A morbimortalidade é maior do que na cefálica, em qualquer idade gestacional e por qualquer via, pelas anomalias associadas, pela prematuridade, pelo prolapso do cordão e pelo traumatismo.
- A cabeça em hiperextensão ocorre em cerca de 5% das pélvicas de termo.
- Manobras de Leopold: o que está no fundo, de que lado está o dorso, o que se apresenta acima da sínfise e o grau de flexão da cabeça.
- Toque vaginal: na pélvica, sulco interglúteo e sacro; na face, órbitas, nariz, boca e mento, que dá a variedade; na fronte, a fontanela anterior e as órbitas, sem o mento; na occípito-posterior, a fontanela posterior junto ao sacro.
- Ecografia: confirma a apresentação e a situação, mostra a flexão da cabeça na pélvica, o líquido amniótico, a placenta e anomalias fetais. Na variedade de posição é mais fiável do que o toque.
- Situação instável: o eixo do feto muda repetidamente depois das 37+0 semanas.
Versão cefálica externa
Recomendações do colégio britânico (RCOG, 2017):
- Oferece-se a todas as grávidas com apresentação pélvica de termo, salvo contraindicação absoluta: a partir das 37+0 semanas, e nas nulíparas a partir das 36+0.
- Êxito de cerca de 50%: 40% na nulípara, 60% na multípara. A versão bem-sucedida reduz a probabilidade de cesariana.
- A tocólise com beta-miméticos aumenta o êxito.
- A reversão espontânea para pélvica depois de uma versão bem-sucedida é rara (cerca de 3%). Depois de uma versão falhada, só 3 a 7% rodam sozinhos.
- Complicações raras: cesariana urgente nas 24 horas em cerca de 0,5%, quase sempre por hemorragia vaginal ou traçado alterado. Nas mulheres Rh negativas dá-se imunoglobulina anti-D.
- Contraindicações: indicação absoluta de cesariana (placenta prévia), gravidez múltipla (exceto depois do nascimento do primeiro gémeo), aloimunização Rh, hemorragia vaginal na última semana, traçado anormal, membranas rotas e recusa. Cautela no oligoâmnios e na hipertensão.
- Uma cesariana anterior não a contraindica.
Via de parto na pélvica de termo
- Falhada ou recusada a versão, discute-se a via. A mortalidade perinatal é de cerca de 0,5 por 1000 com cesariana programada depois das 39+0 semanas, de 2,0 por 1000 no parto pélvico vaginal planeado e de 1,0 por 1000 no parto cefálico planeado.
- O parto pélvico vaginal aumenta o risco de índice de Apgar baixo e de complicações graves a curto prazo, sem aumento demonstrado da morbilidade a longo prazo. Cerca de 40% das que o planeiam acabam em cesariana urgente.
- A cesariana programada é a via mais frequente, também por haver cada vez menos experiência no parto pélvico. O parto vaginal continua a ser opção com protocolo, seleção cuidadosa e operador experiente.
- Maior risco no parto pélvico vaginal: cabeça em hiperextensão, peso estimado acima de 3,8 kg ou abaixo do percentil 10, apresentação de pés e sinais de compromisso fetal.
- No pré-termo em trabalho de parto espontâneo, a via individualiza-se.
Outras apresentações
- Face: a mento-anterior pode nascer por via vaginal; a mento-posterior não, porque a cabeça, já em extensão máxima, não consegue estender-se mais para contornar a sínfise. A ventosa está contraindicada na face.
- Fronte: aguardar a conversão; se persistir, cesariana.
- Occípito-posterior persistente: rotação manual para anterior, ou rotação instrumental por operador experiente.
- Composta: o membro costuma recolher, sozinho ou com ajuda; se não, ou se houver prolapso do cordão, cesariana.
- Situação transversa: cesariana em trabalho de parto. Com situação transversa, oblíqua ou instável depois das 37+0 semanas discute-se o internamento, pelo risco de prolapso do cordão.
- Parto cefálico vaginal em que, depois de nascer a cabeça, a tração habitual não chega e são precisas manobras adicionais para libertar os ombros. Também se propôs como critério um intervalo entre a cabeça e o corpo de mais de 60 segundos.
- O mecanismo é o encravamento do ombro anterior contra a sínfise púbica; menos vezes, do posterior contra o promontório.
- Incidência de 0,58 a 0,70% nas séries maiores.
- É imprevisível: os fatores de risco têm valor preditivo baixo, e 48% ocorrem com recém-nascidos de menos de 4000 g.
| antes do trabalho de parto | durante o trabalho de parto |
|---|---|
| Distocia de ombros anterior | Primeiro estadio prolongado |
| Macrossomia acima de 4,5 kg | Paragem secundária |
| Diabetes | Segundo estadio prolongado |
| Índice de massa corporal acima de 30 kg/m² | Aceleração com ocitocina |
| Indução do trabalho de parto | Parto vaginal instrumentado |
- Os fatores clássicos só previram 16% das distocias com morbilidade neonatal.
- O filho de mãe diabética tem risco duas a quatro vezes maior do que o de mãe não diabética com o mesmo peso.
- O peso estimado é pouco fiável: a ecografia do terceiro trimestre erra pelo menos 10% e tem sensibilidade de 60% para macrossomia acima de 4,5 kg. Os modelos de previsão não se recomendam.
- Recorrência de 1 a 25% depois de uma distocia de ombros.
Procuram-se os sinais em todos os partos:
-
Dificuldade em fazer sair a face e o mento.
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A cabeça fica colada à vulva ou recolhe contra o períneo (sinal da tartaruga).
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A cabeça não faz a rotação externa (restituição).
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Os ombros não descem.
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Para confirmar só se usa a tração axial habitual, isto é, na linha da coluna fetal, sem desvio lateral e com a força de um parto normal. Qualquer outra tração evita-se.
- Na mulher sem diabetes com suspeita de macrossomia, a indução do trabalho de parto não previne a distocia de ombros nem melhora os resultados.
- Na diabetes gestacional, a indução no termo reduz a incidência.
- Na diabetes pré-existente ou gestacional com peso estimado acima de 4,5 kg deve considerar-se a cesariana eletiva. Na mulher sem diabetes, o colégio americano propõe considerá-la acima de 5 kg.
- Depois de uma distocia de ombros, tanto o parto vaginal como a cesariana são opções, decididas com a mulher conforme a gravidade da lesão anterior e o peso previsto.
- A manobra de McRoberts profilática, antes de sair a cabeça, não previne.
- Toda a equipa treina a sequência de manobras pelo menos uma vez por ano.
Uma sequência treinada, pela mesma ordem, recomendada pelo RCOG (2012):
| passo | o que se faz | porquê |
|---|---|---|
| 1 | Pedir ajuda (obstetra, enfermeira experiente, neonatologia, anestesia), dizer em voz alta que é uma distocia de ombros e registar a hora; parar os puxos | os puxos agravam o encravamento |
| 2 | Manobra de McRoberts: mulher deitada sem almofadas, coxas em hiperflexão e abdução sobre o abdómen, e tração axial habitual | retifica o ângulo lombossagrado e roda a bacia; resolve até 90% |
| 3 | Pressão suprapúbica, feita por um ajudante do lado do dorso fetal, logo acima da sínfise, para baixo e lateralmente, empurrando a face posterior do ombro anterior na direção do tórax fetal | reduz o diâmetro biacromial e roda o ombro para o diâmetro oblíquo |
| 4 | Manobras internas: a mão inteira entra por trás, na concavidade do sacro, e roda os ombros (pressão na face anterior ou posterior do ombro posterior, e depois na face posterior do ombro anterior) ou extrai o braço posterior, puxando-o pelo punho em linha reta | rodar leva os ombros ao diâmetro oblíquo; o braço posterior tira ao diâmetro a largura do braço |
| 4, em alternativa | Posição de quatro apoios | êxito de 83% numa série; adequada à mulher ágil sem epidural |
| 5 | Terceira linha, excecional: cleidotomia, sinfisiotomia, manobra de Zavanelli (recolocar a cabeça e fazer cesariana) | morbilidade materna alta |
- Entre as manobras internas e os quatro apoios não há ordem obrigatória: escolhe-se pela experiência e pelas circunstâncias. Com epidural, as internas são mais práticas.
- A extração do braço posterior fratura o úmero em 2 a 12%, o que reflete em parte a gravidade dos casos em que se usa.
- A episiotomia não resolve a obstrução, que é óssea, nem reduz a lesão do plexo; só se faz se a mão não entra para as manobras internas.
- Não há tempo-limite seguro definido, mas a lesão hipóxico-isquémica é muito rara até cerca de 5 minutos entre a cabeça e o corpo.
| maternas | fetais e neonatais |
|---|---|
| Hemorragia pós-parto, 11% | Lesão do plexo braquial, 2,3 a 16% |
| Lacerações de terceiro e quarto grau, 3,8% | Fratura do úmero ou da clavícula |
| Lacerações vaginais e do colo, rotura uterina, lesão vesical, separação da sínfise | Pneumotórax |
| Lesão cerebral hipóxica |
- A frequência das complicações maternas não depende do número nem do tipo de manobras.
- A lesão do plexo braquial é a complicação fetal mais importante e a que mais litígio gera. Menos de 10% ficam com défice permanente.
- A tração para baixo sobre a cabeça associa-se fortemente à lesão do plexo e esteve presente em todos os casos com défice aos 18 meses numa série sueca.
- Os recém-nascidos maiores têm mais lesão permanente.
- O recém-nascido é examinado por um neonatologista, e explica-se aos pais o que aconteceu.
- Prolapso do cordão: descida do cordão umbilical pelo colo, ao lado da apresentação (oculto) ou para além dela (procidência), com membranas rotas.
- Procúbito (apresentação do cordão): cordão entre a apresentação e o colo, com ou sem membranas íntegras.
- Incidência de 0,1 a 0,6% dos partos; 1% na apresentação pélvica.
- A asfixia resulta da compressão do cordão e do vasospasmo das artérias umbilicais. Cerca de metade dos casos segue-se a uma intervenção obstétrica.
| fatores gerais | fatores ligados a procedimentos |
|---|---|
| Multiparidade | Amniotomia com a apresentação alta |
| Baixo peso (abaixo de 2,5 kg), pré-termo | Manipulação fetal com membranas rotas |
| Anomalias congénitas | Versão externa (durante a manobra) e versão interna |
| Apresentação pélvica | Colocação de cateter de pressão intrauterina |
| Situação transversa, oblíqua ou instável | Indução com balão de grande volume |
| Segundo gémeo, polihidrâmnios, placenta baixa | |
| Apresentação não encravada |
- Suspeita-se perante uma alteração da frequência cardíaca fetal, sobretudo bradicardia ou desacelerações variáveis, logo depois da rotura de membranas, espontânea ou artificial.
- Confirma-se com toque vaginal ou espéculo: palpa-se ou vê-se o cordão.
- Exclui-se em todos os toques do trabalho de parto e depois da rotura espontânea quando há fatores de risco, e ausculta-se o feto depois de cada toque e de cada rotura de membranas.
- Evitar a amniotomia com a apresentação alta ou móvel; se for mesmo precisa, faz-se com condições para cesariana imediata.
- Não romper as membranas se se palpar o cordão abaixo da apresentação; o procúbito em trabalho de parto é, em regra, indicação de cesariana.
- Minimizar a pressão para cima sobre a apresentação nos toques e manobras com membranas rotas.
- Situação transversa, oblíqua ou instável depois das 37+0 semanas: discutir internamento. Apresentação não cefálica com rotura prematura de membranas pré-termo: internamento.
- A ecografia de rotina não identifica o procúbito com fiabilidade.
Recomendações do RCOG (2014):
- Pedir ajuda e preparar o parto imediato no bloco.
- Tirar a pressão de cima do cordão: elevar a apresentação com dois dedos por via vaginal, ou encher a bexiga com 500 a 750 mL de soro por algália quando o parto vai demorar (esvaziá-la antes do parto).
- Posição genupeitoral, ou decúbito lateral esquerdo com a cabeça para baixo e uma almofada sob a anca esquerda.
- Mexer o mínimo no cordão fora da vagina, para evitar vasospasmo. Não se tenta recolocá-lo no útero.
- Tocólise se o traçado se mantiver alterado apesar das medidas e o parto for demorar: terbutalina 0,25 mg subcutânea.
- Parto:
- antes da dilatação completa: cesariana; de categoria 1, com o objetivo de nascer em 30 minutos ou menos, se o traçado for suspeito ou patológico; de categoria 2, com vigilância contínua, se for normal;
- com dilatação completa: parto vaginal, quase sempre instrumentado, se for rápido e seguro.
- Equipa de reanimação neonatal presente e gasimetria do sangue arterial e venoso do cordão.
- Fora do hospital: genupeitoral enquanto se espera; na ambulância, decúbito lateral esquerdo com almofada sob a anca, e elevação da apresentação, manual ou com a bexiga cheia.
- Parto vaginal com ventosa (tração sobre o couro cabeludo) ou fórceps (tração direta sobre o crânio). Nos Estados Unidos, em 2015, correspondia a cerca de 3% dos partos.
- Classifica-se pela altura da apresentação, isto é, a relação entre o ponto mais baixo do crânio e as espinhas isquiáticas:
| tipo | condições |
|---|---|
| Saída | couro cabeludo visível sem afastar os lábios; crânio no pavimento pélvico; rotação de 45° ou menos |
| Baixo | crânio a +2 cm ou abaixo, sem estar no períneo; rotacional ou não, conforme a rotação passa de 45° |
| Médio | cabeça com um quinto ou menos palpável no abdómen; ponto mais baixo a 0 ou +1 cm; rotacional ou não |
Indicações
Nenhuma é absoluta.
- Fetais: suspeita de compromisso fetal (traçado patológico, sangue do escalpe anormal, mecónio espesso).
- Maternas: falta de progressão no segundo estadio (nulípara: 3 horas com analgesia regional, 2 sem; multípara: 2 horas com, 1 sem), exaustão materna, doença que contraindica o esforço expulsivo (cardiopatia, crise hipertensiva, doença ou malformação vascular cerebral, miastenia, lesão medular).
Condições obrigatórias (RCOG 2020)
| domínio | condição |
|---|---|
| Exame | cabeça com um quinto ou menos palpável no abdómen; dilatação completa e membranas rotas; apresentação ao nível das espinhas ou abaixo; posição da cabeça conhecida; bossa e moldagem no máximo moderadas; bacia adequada |
| Mulher | explicação e consentimento; analgesia adequada (em regra bloqueio regional nos médios e rotacionais); bexiga vazia e algália retirada; assepsia |
| Equipa | operador com experiência; meios e acesso a bloco; plano de recurso, com cesariana sem demora nos médios |
Contraindicações
- Dilatação incompleta, cabeça não encravada, posição desconhecida.
- Ventosa na apresentação de face.
- Ventosa abaixo das 32 semanas, e com muita cautela entre as 32+0 e as 36+0, pela suscetibilidade do pré-termo a céfalo-hematoma, hemorragia intracraniana e subgaleal e icterícia.
- Suspeita de coagulopatia fetal (trombocitopenia aloimune, hemofilia) ou de predisposição a fraturas (osteogénese imperfeita): contraindicações relativas; se for preciso, um fórceps baixo é aceitável e a ventosa evita-se.
- Infeção materna por vírus transmitidos pelo sangue: não é contraindicação absoluta, mas evitam-se as aplicações difíceis.
- A ventosa não está contraindicada depois de colheita de sangue do escalpe ou de elétrodo.
Ventosa ou fórceps
| ventosa | fórceps | |
|---|---|---|
| Vantagem | menos traumatismo materno; útil no assinclitismo | aplicação mais firme; permite rodar a cabeça; serve para a cabeça derradeira na pélvica |
| Riscos neonatais | céfalo-hematoma, hemorragia subgaleal e intracraniana, lacerações do couro cabeludo, hemorragia retiniana, icterícia | lesão do crânio e da coluna, lesão musculoesquelética, abrasão da córnea |
Quando parar
- Ventosa: parto na maioria dos casos em até 3 trações para trazer a cabeça ao períneo (e mais até 3 suaves para a desprender); parar se não houver descida progressiva com cada tração ou depois de 2 desprendimentos da ventosa.
- Fórceps: parar se o parto não estiver iminente depois de 3 trações com aplicação correta.
- O uso sequencial de instrumentos aumenta o traumatismo neonatal e as lacerações do esfíncter anal. A hemorragia intracraniana é mais frequente na cesariana depois de um instrumento falhado.
- Discute-se com a mulher uma episiotomia mediolateral, feita a 60° da linha média.
- Maternas: traumatismo perineal, hematoma, lesão do pavimento pélvico e lacerações do esfíncter anal, mais com o fórceps e com o uso sequencial.
- Neonatais da ventosa: céfalo-hematoma e hemorragia subgaleal, que é rara mas pode ser fatal, porque o espaço subaponevrótico acumula grande volume de sangue. Também hemorragia intracraniana e retiniana e icterícia.
- Neonatais do fórceps: lesões do crânio e da coluna, lesão musculoesquelética e abrasão da córnea se as colheres forem mal aplicadas.
- O fórceps em recém-nascidos com mais de 4000 g aumenta o risco de distocia de ombros.
- Avisa-se a equipa de neonatologia de que o parto foi instrumentado, sobretudo com várias trações, desprendimentos ou mais de um instrumento.
Pré-termo
- A ventosa evita-se abaixo das 32 semanas e usa-se com muita cautela entre as 32+0 e as 36+0: entre as 32 e as 36+6 semanas, comparada com o fórceps, deu mais hemorragia subgaleal, hemorragia intracraniana e traumatismo do couro cabeludo. O limite inferior seguro não está estabelecido.
- No pré-termo também não se usa o elétrodo no escalpe nem se colhe sangue fetal abaixo das 34+0 semanas.
Referências
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- American College of Obstetricians and Gynecologists. Vaginal birth after cesarean delivery. Practice Bulletin No. 205. Obstet Gynecol. 2019;133(2):e110-27.
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