Doença e neoplasia trofoblástica gestacional
Atualizado em 15 de julho de 2026 · 7 perguntas neste tema
A doença trofoblástica gestacional agrupa um conjunto de entidades que partilham a mesma origem, o trofoblasto de uma gravidez, e que vão desde lesões benignas (molas hidatiformes) até tumores francamente malignos, reunidos sob a designação de neoplasia trofoblástica gestacional. É um dos poucos cancros com taxas de cura próximas dos 100%, graças a duas particularidades: produz um marcador tumoral quase perfeito (a beta-hCG) e é extraordinariamente quimiossensível.
Para o exame, o essencial é reconhecer a apresentação típica da mola no primeiro trimestre, distinguir mola completa de parcial pela genética e pela histologia, e perceber que o diagnóstico de neoplasia se faz pelo comportamento da beta-hCG após o esvaziamento e não pela biópsia. Este capítulo segue o quadro conceptual e os critérios da FIGO (atualização de 2025) e da Green-top Guideline n.º 38 do RCOG (2021).
Apresentação clínica
A mola manifesta-se quase sempre no primeiro trimestre, e a hemorragia vaginal é o sintoma dominante. A grávida é frequentemente referenciada como ameaça de aborto ou gravidez de viabilidade incerta, e só a ecografia ou a histologia dos produtos de conceção levantam a hipótese.
O quadro clássico dos manuais mais antigos (útero enorme, hiperemese incoercível, expulsão de vesículas, anemia grave) tornou-se muito menos frequente desde que a ecografia e o doseamento de beta-hCG permitem diagnosticar a mola por volta das 8-10 semanas. Ainda assim, é este quadro que aparece nas vinhetas de exame.
Achados a valorizar:
- Útero maior do que o esperado para a idade gestacional, amolecido, sem partes fetais nem batimentos cardíacos fetais audíveis (mola completa). Na mola parcial o útero é muitas vezes menor do que o esperado, sobreponível a um aborto retido.
- Hiperemese gravídica marcada, desproporcionada.
- Expulsão de vesículas com aspeto de cachos de uva pelo colo, um achado praticamente patognomónico.
- Quistos tecaluteínicos do ovário, muitas vezes bilaterais e volumosos, resultantes da hiperestimulação ovárica pela beta-hCG elevada. Podem causar dor pélvica e, raramente, torção ou rotura. Regridem espontaneamente após o esvaziamento, à medida que a beta-hCG desce.
Duas pistas de exame que valem ouro, ambas explicadas pela beta-hCG muito elevada:
- Pré-eclâmpsia antes das 20 semanas. Uma grávida com hipertensão e proteinúria às 16 semanas tem uma mola até prova em contrário, porque a pré-eclâmpsia de uma gravidez normal não aparece antes das 20 semanas.
- Hipertiroidismo. A beta-hCG tem homologia estrutural com a TSH (partilham a subunidade alfa) e estimula de forma cruzada o recetor da TSH. Traduz-se por TSH suprimida com T4 livre elevada, taquicardia, tremor e intolerância ao calor.
Ecografia
É o exame de primeira linha perante hemorragia do primeiro trimestre.
- Mola completa: massa intrauterina ecogénica e heterogénea, com múltiplos espaços quísticos anecogénicos que traduzem as vilosidades hidrópicas. É o padrão descrito como "tempestade de neve" ou cachos de uva. Não há feto nem saco gestacional normal. Podem ver-se quistos tecaluteínicos nos ovários.
- Mola parcial: achados mais subtis e menos fiáveis. Placenta espessada com espaços quísticos focais (padrão em "queijo suíço"), saco gestacional aumentado e de forma irregular, e presença de feto, habitualmente com restrição de crescimento grave e malformações.
Erro frequente: assumir que a ecografia normal exclui mola parcial. A sensibilidade da ecografia para a mola parcial é baixa, e boa parte destes casos só é identificada pela histologia dos produtos de conceção. Por isso se recomenda o exame histológico do material obtido no tratamento médico ou cirúrgico de todos os abortos espontâneos sempre que não tenham sido identificadas partes fetais em qualquer fase da gravidez. Após interrupção da gravidez, não é necessário enviar rotineiramente o material se as partes fetais tiverem sido identificadas na ecografia prévia ou no próprio procedimento. Em qualquer dos casos recomenda-se teste de gravidez urinário 3 semanas depois.
Beta-hCG e avaliação laboratorial
A beta-hCG está tipicamente muito elevada na mola completa, com valores acima de 100 000 mUI/mL num número significativo de casos, desproporcionados para a idade gestacional. Na mola parcial os valores costumam ser normais ou apenas moderadamente altos, o que reforça a dificuldade do diagnóstico pré-operatório.
Antes do esvaziamento pede-se hemograma, tipagem e provas de coagulação, função renal e hepática e função tiroideia (TSH e T4 livre). O diagnóstico definitivo é sempre histológico, complementado, quando persiste dúvida entre mola completa, parcial e aborto hidrópico, por imuno-histoquímica com p57KIP2 e por estudos de genotipagem molecular, cujo papel a atualização FIGO de 2025 sublinha.
Vigilância após o esvaziamento: onde se faz o diagnóstico de NTG
Este é o ponto central do tema. Depois do esvaziamento, toda a mulher entra em vigilância com beta-hCG seriada, doseada de 1 em 1 ou de 2 em 2 semanas até normalizar e, depois, mantida por um período adicional. A Green-top Guideline n.º 38 do RCOG (2021) define uma lógica prática:
- Mola parcial: a vigilância termina assim que a beta-hCG está normal em duas amostras com pelo menos quatro semanas de intervalo.
- Mola completa: se a beta-hCG normalizar até 56 dias após a gravidez, a vigilância mantém-se durante 6 meses a contar do esvaziamento; se normalizar depois dos 56 dias, mantém-se durante 6 meses a contar da data da normalização.
Durante toda a vigilância é indispensável contraceção eficaz. A razão é simples e é a pergunta clássica: uma nova gravidez faz subir a beta-hCG e torna a curva ininterpretável, impossibilitando distinguir gravidez de neoplasia. A evidência atual não contraindica a contraceção hormonal combinada durante a vigilância. O dispositivo intrauterino deve ser evitado enquanto a beta-hCG não normalizar, pelo risco de perfuração e hemorragia.
Critérios FIGO de neoplasia trofoblástica gestacional
O diagnóstico de NTG pós-molar faz-se pelo comportamento da beta-hCG, não por biópsia. Cumpre-se um dos seguintes critérios FIGO:
- Plateau da beta-hCG (variação dentro de ±10%) em 4 doseamentos ao longo de 3 semanas ou mais (dias 1, 7, 14 e 21).
- Subida da beta-hCG ≥ 10% em 3 doseamentos consecutivos ao longo de 2 semanas ou mais (dias 1, 7 e 14).
- Diagnóstico histológico de coriocarcinoma.
Um quarto critério, a persistência de beta-hCG detetável mais de 6 meses após o esvaziamento, foi usado durante anos e ainda aparece em algumas fontes, mas foi retirado nas revisões mais recentes: sabe-se hoje que muitos destes casos resolvem espontaneamente e não precisam de quimioterapia.
Erro frequente: propor biópsia da lesão uterina ou das metástases para confirmar NTG. É perigoso, porque estes tumores são exuberantemente vascularizados e a biópsia pode causar hemorragia grave. A beta-hCG substitui a histologia.
Estadiamento e estratificação de risco
Confirmada a NTG, faz-se o estadiamento anatómico FIGO (I, útero; II, estruturas genitais extrauterinas; III, metástases pulmonares; IV, outras metástases) e calcula-se o score prognóstico FIGO/OMS, que soma pontos (0, 1, 2 ou 4) por idade, tipo de gravidez anterior, intervalo desde essa gravidez, valor da beta-hCG pré-tratamento, dimensão do maior tumor, local e número de metástases e falência de quimioterapia prévia. Score ≤ 6 = baixo risco; ≥ 7 = alto risco. A avaliação inclui radiografia ou TC do tórax (o pulmão é o alvo metastático dominante), ecografia pélvica com Doppler e, na presença de metástases pulmonares ou de doença de alto risco, TC abdominopélvica e RM cerebral.
Referências
- Ngan HYS, Seckl MJ, Berkowitz RS, Xiang Y, Golfier F, Sekharan PK, Braga A, Garrett A. Diagnosis and management of gestational trophoblastic disease: 2025 update. Int J Gynaecol Obstet. 2025;171(Suppl 1):78-86. doi:10.1002/ijgo.70275
- Ngan HYS, Seckl MJ, Berkowitz RS, Xiang Y, Golfier F, Sekharan PK, Lurain JR, Massuger L. Diagnosis and management of gestational trophoblastic disease: 2021 update. Int J Gynaecol Obstet. 2021;155(Suppl 1):86-93. doi:10.1002/ijgo.13877
- Royal College of Obstetricians and Gynaecologists. Management of Gestational Trophoblastic Disease. Green-top Guideline No. 38. BJOG. 2021;128(3):e1-e27. doi:10.1111/1471-0528.16266
- Soper JT. Gestational trophoblastic disease: current evaluation and management. Obstet Gynecol. 2021;137(2):355-370. doi:10.1097/AOG.0000000000004240
- Gullo G, Satullo M, Conti E, et al. Gestational trophoblastic disease: diagnostic and therapeutic updates in light of recent evidence: a literature review. Medicina (Kaunas). 2025;61(9):1642. doi:10.3390/medicina61091642
- WHO Classification of Tumours Editorial Board. Female Genital Tumours. 5th ed. Lyon: International Agency for Research on Cancer; 2020.
7 perguntas sobre Neoplasia trofoblástica gestacional
Ler consolida, treinar é o que fixa. Cada pergunta tem justificação alínea a alínea, no formato da Prova Nacional de Acesso.
Criar conta e treinar