Hemorragias do terceiro trimestre
Atualizado em 28 de setembro de 2026 · 15 perguntas neste tema
A hemorragia do terceiro trimestre, ou hemorragia anteparto, é a perda de sangue pelo trato genital a partir das 24 semanas e antes do nascimento. Complica 3 a 5% das gravidezes e é uma das poucas verdadeiras emergências obstétricas, porque no termo cerca de um quinto do débito cardíaco materno passa pelo útero. As duas causas mais frequentes de hemorragia importante são o descolamento da placenta e a placenta prévia; mais raras, mas catastróficas em minutos, são a vasa prévia e a rotura uterina. O resto são causas locais do colo e da vagina, ou hemorragias que ficam sem causa.
O descolamento e a placenta prévia contrastam quase ponto por ponto. O descolamento é doloroso, com útero lenhoso, sangue escuro e muitas vezes oculto, choque desproporcionado à perda visível, feto comprometido cedo e coagulopatia; o diagnóstico é clínico, porque a ecografia falha três em cada quatro. A placenta prévia é indolor, com útero mole, sangue vermelho vivo e feto bem no início; o diagnóstico é ecográfico, e a via transvaginal é segura. A vasa prévia sangra à rotura de membranas, com bradicardia fetal imediata e mãe estável, porque o sangue é fetal. A rotura uterina surge quase sempre sobre uma cicatriz de cesariana, e o primeiro sinal costuma ser a bradicardia.
A abordagem começa pela mãe: dois acessos de grande calibre, colheita com fibrinogénio, transfusão precoce, e parto imediato se houver compromisso materno ou fetal. Sem compromisso, decide-se pela causa e pela idade gestacional: cesariana programada entre as 36 e as 37 semanas e 6 dias na placenta prévia, entre as 36 semanas e 1 dia e as 37 semanas no espetro da placenta acreta, entre as 34 e as 36 semanas na vasa prévia diagnosticada antes do parto; corticoide até às 34 semanas e 6 dias quando se prevê parto pré-termo.
O que não se pode falhar: não se faz toque vaginal antes de a ecografia excluir placenta prévia; uma ecografia normal não exclui descolamento; a mulher com cesariana anterior e placenta prévia anterior tem acretismo até prova em contrário, e na cirurgia a placenta não se descola; e toda a grávida Rh D negativo não sensibilizada recebe imunoglobulina anti-D nas 72 horas seguintes, mesmo que já tenha feito a das 28 semanas.
- Hemorragia anteparto: perda de sangue pelo trato genital, ou para dentro dele, a partir das 24 semanas e antes do nascimento. Em Portugal diz-se também hemorragia do terceiro trimestre. Antes das 24 semanas a hemorragia segue a lógica do abortamento e da gravidez ectópica.
- Complica 3 a 5% das gravidezes e é uma das principais causas de morbilidade e mortalidade materna e perinatal.
- No termo, o volume sanguíneo materno aumentou cerca de 40% e o débito cardíaco cerca de 30%, e cerca de 20% desse débito vai para o útero: uma hemorragia importante torna-se catastrófica em pouco tempo.
Causas
| origem | causas |
|---|---|
| Placentar e fetal | descolamento da placenta, placenta prévia, vasa prévia |
| Uterina | rotura uterina; trabalho de parto (incluindo pré-termo) |
| Cervical | ectrópion, cervicite, pólipo, traumatismo, carcinoma do colo |
| Vaginal e vulvar | lacerações, traumatismo, varizes |
| Fora do trato genital | hemorroidas, hematúria (que a grávida pode tomar por hemorragia vaginal) |
- As duas causas mais frequentes de hemorragia importante são o descolamento da placenta e a placenta prévia. Muitas hemorragias ficam sem causa identificada ou são atribuídas a lesões locais.
Gravidade
| grau | definição |
|---|---|
| Perdas escassas | manchas ou estrias de sangue na roupa interior ou no penso |
| Ligeira | menos de 50 mL, que parou |
| Importante | 50 a 1000 mL, sem sinais de choque |
| Maciça | mais de 1000 mL ou qualquer volume com sinais de choque |
- Com frequência a perda subestima-se: o sangue que sai pela vulva pode não ser o sangue perdido, como no descolamento com hemorragia oculta. A gravidade mede-se pelos sinais de choque e pelo estado fetal, não pelo penso.
Abordagem inicial
- Se a hemorragia é importante ou maciça, ou a grávida não consegue dar a história, primeiro reanima-se a mãe (via aérea, ventilação, circulação) e só depois se avalia o feto.
- História: dor (contínua sugere descolamento, intermitente sugere trabalho de parto), cor e quantidade do sangue, relação com a rotura de membranas (vasa prévia), traumatismo, coito, cocaína, movimentos fetais, cesarianas anteriores, localização da placenta nas ecografias, rastreio do cancro do colo.
- Sinais vitais em todas. As alterações da tensão arterial só aparecem depois de a perda ultrapassar 10 a 15% do volume sanguíneo, e a taquicardia pode ser durante muito tempo o único sinal.
- Palpação abdominal: útero tenso, lenhoso e doloroso indica descolamento significativo; útero mole e indolor sugere causa baixa, placenta prévia ou vasa prévia.
- Espéculo: seguro, mostra a dilatação cervical e as causas locais. Colo suspeito vai a colposcopia.
- Toque vaginal: só depois de a ecografia excluir placenta prévia.
Diagnóstico diferencial à cabeceira
| descolamento | placenta prévia | vasa prévia | rotura uterina | |
|---|---|---|---|---|
| Dor | intensa, contínua | ausente | ausente | intensa, súbita (pode faltar sob epidural) |
| Sangue | escuro, pode ser oculto | vermelho vivo, visível | à rotura de membranas | pouco visível, sobretudo intraperitoneal |
| Útero | hipertónico, lenhoso | mole, indolor | normal | contrações que param, apresentação que sobe |
| Feto | compromisso cedo | bem no início | bradicardia súbita | bradicardia |
| Choque | pode ser desproporcionado à perda visível | proporcional à perda | ausente na mãe: o sangue é fetal | frequente |
Exames
- Hemograma, grupo sanguíneo e Rh D, prova de compatibilidade, coagulação com fibrinogénio, ureia, creatinina e função hepática se houver suspeita de pré-eclâmpsia. Com hemorragia importante avisa-se o serviço de sangue.
- Kleihauer-Betke em todas as grávidas Rh D negativo: quantifica a hemorragia feto-materna, aproveitando a resistência da hemoglobina fetal à eluição ácida, e decide a dose de imunoglobulina anti-D. Não serve para diagnosticar descolamento.
- Ecografia: localiza a placenta se ainda não se conhecer e confirma a vitalidade fetal quando não se ausculta o coração. Diagnostica a placenta prévia, mas não exclui descolamento.
- Cardiotocografia a partir da viabilidade em que se intervém no interesse do feto. No descolamento o traçado é anormal em cerca de 69% dos casos. Um padrão sinusoidal faz pensar em anemia fetal (vasa prévia, hemorragia feto-materna maciça).
Estabilização
- Decúbito lateral esquerdo ou deslocamento manual do útero para a esquerda, oxigénio, dois acessos venosos de grande calibre, colheita no mesmo gesto, cristaloides aquecidos e transfusão precoce.
- Hemorragia maciça: ativa-se o protocolo de hemorragia obstétrica maciça da unidade, com obstetra, anestesista e hematologista seniores. Enquanto não chegam os resultados, podem dar-se empiricamente até 4 unidades de plasma fresco congelado e 10 unidades de crioprecipitado.
- Alvos durante a hemorragia: fibrinogénio acima de 2 g/L (crioprecipitado ou concentrado de fibrinogénio), plaquetas acima de 75 × 10⁹/L. Ácido tranexâmico segundo o protocolo de hemorragia obstétrica.
- Grávida anticoagulada: suspende as doses seguintes e vem ao hospital; só retoma depois de avaliada.
Internamento e extração fetal
- Perdas escassas que pararam, com placenta prévia excluída e avaliação materna e fetal tranquilizadora: pode ir para casa.
- Qualquer hemorragia maior do que perdas escassas, ou que continue: internamento pelo menos até parar.
- Com compromisso materno ou fetal, o parto é imediato, em regra por cesariana com reanimação em simultâneo, salvo se a grávida estiver em trabalho de parto avançado.
- Antes das 37 semanas, sem compromisso e com a hemorragia parada, não há indicação para antecipar o parto. A partir das 37 semanas, depois de hemorragia ligeira ou importante, considera-se a indução do trabalho de parto.
- Depois de descolamento ou de hemorragia sem causa, a gravidez passa a vigilância hospitalar com ecografias seriadas de crescimento fetal. Depois de hemorragia por ectrópion, a vigilância não muda.
Corticoides, sulfato de magnésio e tocólise
- Corticoide (um ciclo) entre as 24 e as 34 semanas e 6 dias quando se prevê parto pré-termo. Não se faz se o parto tem de ser imediato: com hemorragia ativa e compromisso, o parto não se adia para o dar.
- Sulfato de magnésio para neuroproteção fetal até às 31 semanas e 6 dias quando o parto pré-termo é iminente.
- Tocólise: contraindicada no descolamento e na hemorragia importante. Na placenta prévia pode ponderar-se durante 48 horas, para completar o corticoide, e só por decisão de obstetra sénior; o nifedipino, por poder dar hipotensão, é de evitar.
Imunoglobulina anti-D
- Toda a grávida Rh D negativo não sensibilizada com hemorragia da segunda metade da gravidez recebe imunoglobulina anti-D, mesmo que já tenha feito a profilaxia das 28 semanas.
- Dá-se o mais cedo possível e dentro de 72 horas. A dose habitual em Portugal é 300 µg, que cobre até 30 mL de sangue fetal; o Kleihauer-Betke diz se é precisa mais.
- Com hemorragias repetidas, repete-se pelo menos de 6 em 6 semanas.
- É profilaxia da aloimunização, não tratamento da hemorragia, e não serve a quem já está sensibilizada.
Parto e terceiro período
- Anestesia regional na cesariana, salvo contraindicação (instabilidade hemodinâmica, coagulopatia); com compromisso materno ou fetal grave pode preferir-se a geral, para ganhar tempo.
- Conta-se com hemorragia pós-parto: gestão ativa do terceiro período no descolamento e na placenta prévia.
- Monitorização fetal contínua no trabalho de parto com hemorragia ativa, depois de hemorragia importante ou de hemorragias ligeiras repetidas, ou com suspeita de descolamento.
- A terminologia atual (a partir das 16 semanas, por ecografia) tem duas categorias e abandonou os graus de I a IV e os termos total, parcial e marginal:
| termo | definição |
|---|---|
| Placenta prévia | cobre, total ou parcialmente, o orifício interno do colo |
| Placenta de inserção baixa | o bordo fica a menos de 20 mm do orifício interno, sem o cobrir |
- A prevalência na segunda metade da gravidez varia entre 1 em 50 e 1 em 500; perto do termo ronda 1 em 200 gravidezes.
- Na ecografia morfológica do segundo trimestre, a placenta baixa é muito mais frequente, mas mais de 90% das placentas baixas a meio da gravidez deixam de o ser antes das 37 semanas.
Fatores de risco
- Placenta prévia anterior (recorre em 4 a 8%).
- Cesariana anterior, com risco que cresce com o número de cesarianas, e outra cirurgia uterina.
- Endométrio deficiente: cicatriz uterina, endometrite, curetagem, extração manual da placenta, mioma submucoso; interrupção de gravidez anterior.
- Multiparidade, idade materna acima dos 40 anos, gravidez múltipla, tabaco, cocaína, procriação medicamente assistida.
- A prévia liga-se sobretudo a condições que já existiam antes da gravidez; o descolamento, a condições que surgem durante ela.
Porque é que a placenta «sobe»
- A placenta não migra: o que acontece é que o segmento inferior se forma e se alonga no terceiro trimestre e afasta o bordo placentar do orifício interno. Por isso a placenta baixa costuma resolver, e a que cobre o orifício raramente resolve.
Porque sangra, e porque o feto está bem
- Com a formação do segmento inferior e o apagamento do colo, a placenta, que não é elástica, sofre forças de cisalhamento que rompem vasos na zona de inserção.
- O sangue é materno, sai livremente pelo colo (não fica retido) e não irrita o miométrio: daí a hemorragia vermelho vivo, indolor, com útero mole e feto inicialmente bem.
- O segmento inferior contrai mal depois da dequitadura, o que explica a hemorragia pós-parto do leito placentar.
- Hemorragia vermelho vivo, indolor, muitas vezes precedida de pequenas perdas (hemorragia sentinela), frequentemente sem fator desencadeante ou depois do coito.
- Cerca de 75% das mulheres com placenta prévia têm pelo menos um episódio, em média às 29 a 30 semanas. O primeiro episódio, se não obrigar ao parto, costuma parar em 1 a 2 horas.
- O número de episódios não se relaciona com o tipo de prévia nem com o prognóstico fetal.
- Exame: útero mole e indolor, apresentação alta ou anómala (a placenta ocupa o segmento inferior), estado hemodinâmico proporcional à perda.
- Pode haver dor se houver trabalho de parto ou descolamento associado.
Ecografia
- A localização da placenta regista-se na ecografia morfológica das 18 às 20 semanas e 6 dias.
- A ecografia transvaginal é mais precisa do que a abdominal (que dá falsos positivos, sobretudo com placenta posterior) e é segura, mesmo com placenta prévia: a sonda fica afastada do orifício e não entra no colo.
- Se a placenta for prévia ou baixa na morfológica, repete-se a ecografia, com via transvaginal, às 32 semanas; se persistir e a grávida estiver assintomática, nova ecografia às 36 semanas, para decidir a via de parto.
- Na grávida com cesariana anterior e placenta anterior baixa ou prévia, procuram-se sinais de espetro da placenta acreta.
- O comprimento do colo curto na prévia associa-se a maior probabilidade de hemorragia.
Diagnóstico diferencial
- Descolamento da placenta (doloroso, útero lenhoso), vasa prévia (hemorragia à rotura de membranas, com bradicardia), trabalho de parto, causas cervicais e vaginais.
Na gravidez
- Assintomática, com prévia confirmada às 32 semanas: vigilância em ambulatório, com instruções para vir ao hospital se sangrar, tiver dor ou contrações.
- Sintomática (perdas, contrações, dor pélvica): internamento e cuidados ajustados a cada mulher, à clínica e à distância do hospital.
- Otimizar a hemoglobina antes do parto; corticoide e sulfato de magnésio se o parto pré-termo for previsível. Cerclagem e tocólise profilática não estão indicadas.
Hemorragia aguda
- Hemorragia grave, instabilidade materna ou compromisso fetal: cesariana emergente, seja qual for a idade gestacional.
- Hemorragia que para, com mãe e feto bem, pré-termo: internamento, corticoide, anti-D se Rh D negativo, e conduta expectante.
Momento e via do parto
| situação | conduta |
|---|---|
| Placenta prévia, assintomática | cesariana programada entre as 36 semanas e as 37 semanas e 6 dias |
| Prévia com hemorragias ou outros fatores de risco de parto pré-termo | parto mais cedo, individualizado |
| Inserção baixa, bordo a 11 a 20 mm do orifício depois das 36 semanas | prova de trabalho de parto razoável (parto vaginal em cerca de 85%) |
| Inserção baixa, bordo a 1 a 10 mm | parto vaginal possível mas muito menos provável (cerca de 43%); decide-se com a grávida |
- A cesariana faz-se com obstetra e anestesista seniores no bloco, sangue disponível e recuperação intraoperatória de sangue quando existir. Se a hemorragia do leito placentar não parar com uterotónicos, balão de tamponamento intrauterino e suturas de compressão.
- Maternas: hemorragia anteparto e pós-parto (segmento inferior pouco contrátil), transfusão, histerectomia periparto de emergência, e espetro da placenta acreta quando há cesariana anterior.
- Fetais: prematuridade, na maioria iatrogénica, com aumento da mortalidade e morbilidade perinatais; pequeno aumento de malformações fetais.
- Recorre em 4 a 8% das gravidezes seguintes.
- Aderência ou invasão anómalas da placenta no miométrio, por ausência da decídua basal, em regra sobre uma cicatriz uterina. Não se separa espontaneamente depois do parto e arrancá-la provoca hemorragia maciça.
- Classificação clínica da FIGO (federação internacional de ginecologia e obstetrícia), 2019:
| grau | nome clássico | o que é |
|---|---|---|
| 1 | acreta | vilosidades aderentes ao miométrio superficial, sem decídua |
| 2 | increta | vilosidades a invadir o miométrio |
| 3a | percreta | até à serosa uterina |
| 3b | percreta | com invasão da bexiga |
| 3c | percreta | com invasão de outros órgãos ou tecidos pélvicos |
- Prevalência de cerca de 1 em 817 partos (0,17%), com grande variação entre estudos conforme o critério de diagnóstico, e a subir com a taxa de cesarianas.
- O defeito primário é da interface endométrio-miométrio: numa cicatriz, a decídua não se forma e as vilosidades implantam-se diretamente no miométrio e no tecido cicatricial.
- A percreta resulta sobretudo da deiscência da cicatriz com a placenta a ocupar o defeito, mais do que de uma verdadeira «invasão» pela placenta normal.
- O maior fator de risco é a combinação de cesariana anterior com placenta prévia ou baixa anterior. Com placenta prévia, o risco sobe com o número de cesarianas:
| cesarianas anteriores | risco de acretismo com placenta prévia |
|---|---|
| 1 | 3% |
| 2 | 11% |
| 3 | 40% |
| 4 | 61% |
| 5 ou mais | 67% |
- Outros: cirurgia uterina anterior (miomectomia, curetagens), procriação medicamente assistida, gravidez ectópica na cicatriz de cesariana.
- As mulheres de alto risco (cesariana anterior com placenta anterior baixa ou prévia) identificam-se na primeira consulta e fazem pesquisa dirigida de sinais de acretismo na morfológica das 18 às 20 semanas e 6 dias; se houver suspeita, são referenciadas a um centro diferenciado até às 28 semanas.
- Ecografia com Doppler a cores, por operador experiente: sensibilidade acima de 90%. Sinais:
- perda da zona clara retroplacentar;
- adelgaçamento do miométrio;
- interrupção da parede vesical;
- protuberância placentar, massa exofítica;
- lacunas placentares;
- hipervascularização uterovesical e vasos em ponte.
- A ressonância magnética não é de rotina quando há ecografia experiente; reserva-se para casos selecionados, como a placenta posterior ou a avaliação da extensão.
- O diagnóstico definitivo é histológico.
- Parto em centro diferenciado, com equipa multidisciplinar (obstetrícia, anestesia, urologia, cirurgia, radiologia, neonatologia, serviço de sangue).
- Parto programado entre as 36 semanas e 1 dia e as 37 semanas, mais cedo se houver hemorragia ou contrações.
- Cesariana-histerectomia com a placenta deixada no lugar, por histerotomia afastada da placenta.
- Não se tenta descolar a placenta nem se corta através dela: é o gesto que precipita a hemorragia catastrófica.
- Não há evidência para o uso por rotina de cateteres ureterais nem de radiologia de intervenção.
- Conduta conservadora (placenta deixada no útero, sem histerectomia) só em casos selecionados, com vigilância regular por ecografia e acesso a cuidados de urgência; o metotrexato não se usa. O risco de recorrência numa gravidez seguinte é alto.
- Hemorragia maciça, transfusão, coagulopatia e admissão em cuidados intensivos.
- Lesão da bexiga e dos ureteres, sobretudo na percreta.
- Histerectomia de emergência, com a perda da fertilidade.
- O prognóstico materno depende sobretudo de o diagnóstico ser feito antes do parto: a histerectomia programada tem menos morbilidade do que a de emergência.
- Separação, total ou parcial, de uma placenta normalmente inserida antes do nascimento do feto.
- Pode ser completo, parcial ou marginal (limitado ao bordo da placenta), e com hemorragia externa ou oculta, quando o sangue fica retido atrás da placenta.
- Um descolamento significativo, que obriga ao parto, ocorre em cerca de 1% dos partos.
- Cerca de 70% dos casos surgem em gravidezes de baixo risco: é em regra súbito e imprevisível.
Fatores de risco
- Descolamento numa gravidez anterior: é o mais preditivo. Recorre em cerca de 4,4%, e em 19 a 25% das mulheres com dois descolamentos anteriores.
- Hipertensão crónica e pré-eclâmpsia, restrição de crescimento fetal.
- Traumatismo abdominal (acidente, queda, violência doméstica).
- Tabaco, cocaína e anfetaminas.
- Rotura prematura de membranas, infeção intra-amniótica, polihidrâmnios (descompressão súbita do útero), gravidez múltipla.
- Idade materna avançada, multiparidade, baixo índice de massa corporal, procriação medicamente assistida, hemorragia no primeiro trimestre.
Mecanismo
- Tudo começa por uma hemorragia na decídua basal, de vasos maternos. O hematoma disseca a interface, separa mais placenta e rompe mais vasos: é um processo progressivo, e não um estado estável.
- Se o bordo da placenta ou as membranas se mantêm aderentes, o sangue fica retido e o volume perdido é muito maior do que o que se vê.
- O sangue no miométrio é irritante: provoca hipertonia e contrações, com útero duro e doloroso. O tónus aumentado reduz a perfusão do espaço interviloso, numa superfície de trocas já reduzida, e o feto sofre cedo.
- Quando o sangue infiltra o miométrio até à serosa, o útero fica azulado ou violáceo: é o útero de Couvelaire, que contrai mal depois do parto.
- A decídua e a placenta são ricas em fator tecidular. A sua libertação na circulação materna ativa a coagulação e consome plaquetas e fatores: o descolamento é a causa mais frequente de coagulopatia na gravidez.
- Dor abdominal ou lombar contínua, de início súbito, com hemorragia escura; nos descolamentos pequenos ou marginais pode haver só hemorragia.
- Útero hipertónico, lenhoso, doloroso, que não relaxa entre contrações, com contrações frequentes e de baixa amplitude.
- Sinais de choque desproporcionados à hemorragia visível quando o sangue está retido.
- Feto: taquicardia e depois bradicardia, perda de variabilidade, desacelerações tardias; morte fetal nos descolamentos extensos.
- O diagnóstico é clínico: não há exame sensível nem fiável.
- Ecografia: sensibilidade de cerca de 24% para o hematoma retroplacentar; deixa passar três em cada quatro descolamentos. Um exame normal não exclui, mas quando mostra hematoma, o descolamento é muito provável. Serve para excluir placenta prévia e confirmar a vitalidade fetal.
- Cardiotocografia: traçado anormal em cerca de 69%; contrações frequentes, tónus basal elevado.
- Laboratório: hemograma, fibrinogénio, tempos de coagulação e plaquetas, repetidos. No terceiro trimestre o fibrinogénio ronda os 5 g/L: um valor de 2 g/L, normal fora da gravidez, já traduz consumo importante e prediz hemorragia grave.
- Kleihauer-Betke na grávida Rh D negativo, para a dose de anti-D (não para diagnosticar o descolamento).
Diagnóstico diferencial
- Trabalho de parto (dor intermitente, útero relaxa entre contrações), rotura uterina (cicatriz, perda da apresentação), placenta prévia (indolor), corioamnionite, e causas abdominais não obstétricas (apendicite, pielonefrite).
| situação | conduta |
|---|---|
| Feto vivo com traçado anormal, ou mãe instável | reanimação e cesariana emergente (salvo parto vaginal iminente) |
| Feto vivo, termo ou perto dele, mãe e feto estáveis | parto; a via vaginal é muitas vezes possível e o trabalho de parto pode ser rápido |
| Pré-termo, descolamento pequeno, pouca hemorragia, traçado normal | conduta expectante internada, corticoide, anti-D se indicada |
| Morte fetal | parto vaginal na maioria, com correção prévia da coagulopatia; cesariana só em casos selecionados |
- A coagulopatia corrige-se ao mesmo tempo que se esvazia o útero, porque só a remoção da placenta trava o consumo: fibrinogénio ou crioprecipitado, plasma, plaquetas.
- Tocólise contraindicada.
- Gestão ativa do terceiro período e preparação para hemorragia pós-parto por atonia.
- Maternas: choque hipovolémico, coagulação intravascular disseminada (rara, mas grave; mais frequente com morte fetal), hemorragia pós-parto (útero de Couvelaire, coagulopatia), lesão renal aguda, e necrose hipofisária pós-parto (síndrome de Sheehan), hoje rara.
- Fetais: hipoxia, morte fetal (proporcional à área descolada), prematuridade, anemia neonatal por hemorragia feto-materna.
- Gravidez seguinte: risco de recorrência e vigilância hospitalar.
Traumatismo
- Qualquer grávida com traumatismo abdominal, mesmo ligeiro (acidente com cinto de segurança, queda), é avaliada para descolamento: o cisalhamento entre o útero elástico e a placenta rígida separa-a sem lesão da parede uterina, e a gravidade das lesões maternas não o prevê.
- Cardiotocografia durante pelo menos 4 horas, prolongada se houver contrações, dor uterina, hemorragia ou traçado anormal.
- Anti-D na grávida Rh D negativo não sensibilizada.
Cocaína
- Vasoconstrição e picos hipertensivos. Pensar em cocaína no descolamento de uma grávida sem hipertensão nem traumatismo. A hipertensão grave com convulsão pode imitar a eclâmpsia.
- Vasos fetais que correm nas membranas livres, sem a proteção da placenta nem da geleia de Wharton, sobre o orifício interno ou a menos de 2 cm dele, abaixo da apresentação.
- Prevalência entre 1 em 1200 e 1 em 5000 gravidezes, provavelmente subestimada.
| tipo | origem dos vasos |
|---|---|
| I | inserção velamentosa do cordão |
| II | vasos que ligam a placenta a um lobo sucenturiado ou a uma placenta bilobada |
- Fatores de risco: inserção velamentosa, placenta baixa (mesmo que tenha deixado de o ser), placenta bilobada ou com lobo sucenturiado, gravidez múltipla, procriação medicamente assistida. Até 80% dos casos têm pelo menos um.
- Na rotura de membranas, espontânea ou por amniotomia, os vasos rasgam-se. O sangue perdido é fetal, e a volemia fetal de termo é de apenas 80 a 100 mL/kg: uma perda que parece pequena é rapidamente fatal. O mecanismo da morte é a exsanguinação, não a hipoxia.
- Antes do parto é em regra assintomática.
- Apresentação clássica: hemorragia indolor à rotura de membranas, seguida de imediato de bradicardia fetal ou padrão sinusoidal, com a mãe hemodinamicamente estável.
- Ao toque podem palpar-se vasos pulsáteis nas membranas.
- O diagnóstico útil é o pré-natal: ecografia transvaginal com Doppler a cores (sensibilidade próxima de 100% no segundo trimestre, em estudos prospetivos), idealmente combinada com a abdominal, mostrando um vaso com fluxo fetal sobre o orifício interno.
- Não há recomendação de rastreio universal; procura-se de forma dirigida nas grávidas com fatores de risco, e regista-se a inserção do cordão na morfológica quando possível.
- Cerca de 20% das vasa prévias vistas no segundo trimestre resolvem: confirma-se com nova ecografia por volta das 32 semanas.
- Na hemorragia aguda, os testes que distinguem sangue fetal de materno (teste de Apt, que deixa o sangue fetal rosado e o materno acastanhado com hidróxido de sódio) não devem atrasar o parto.
- Diagnóstico antes do parto: cesariana programada entre as 34 e as 36 semanas, antes do trabalho de parto e da rotura de membranas.
- Corticoide a partir das 32 semanas, pelo risco de parto pré-termo.
- Internamento a partir das 30 a 32 semanas pondera-se caso a caso (colo curto, hemorragia, contrações); nas assintomáticas com colo estável o ambulatório tem bons resultados.
- Amniotomia contraindicada.
- Hemorragia com vasa prévia rota: cesariana emergente imediata, com equipa de neonatologia pronta para reanimar e transfundir o recém-nascido. Exame da placenta para confirmar.
- Diagnosticada antes do parto: sobrevivência de cerca de 97%.
- Não diagnosticada, com rotura: mortalidade fetal de pelo menos 60%, mesmo com cesariana urgente.
- Anemia neonatal grave e choque hipovolémico no recém-nascido.
- Rotura completa: solução de continuidade de toda a parede uterina, do endométrio à serosa, com comunicação com a cavidade peritoneal.
- Deiscência (rotura incompleta): o peritoneu visceral mantém-se íntegro; em regra sem consequências.
- A maioria ocorre sobre a cicatriz de uma cesariana anterior. Na prova de trabalho de parto depois de uma cesariana segmentar transversa o risco é de 0,5 a 0,9%.
- Cicatriz uterina: cesariana (o risco é maior com incisão clássica ou em T do que com a segmentar transversa), miomectomia com abertura da cavidade.
- Útero sem cicatriz: hiperestimulação com ocitocina ou prostaglandinas, trabalho de parto obstruído, manobras obstétricas, traumatismo, grande multiparidade e anomalias uterinas.
- A rotura abre a cavidade: o feto e a placenta podem passar para o abdómen, a perfusão placentar interrompe-se e a hemorragia é sobretudo intraperitoneal.
- O sinal mais frequente e mais precoce é a alteração do traçado fetal, sobretudo bradicardia prolongada.
- Dor abdominal súbita, por vezes na cicatriz, que a epidural pode mascarar.
- Cessação das contrações, subida da apresentação ao toque (perda da altura), partes fetais palpáveis sob a pele.
- Hemorragia vaginal, em regra modesta face ao choque; hematúria se atingir a bexiga.
- Taquicardia e hipotensão maternas.
- O diagnóstico é clínico e confirma-se na laparotomia; não se atrasa a cirurgia por exames de imagem.
- Por isso, a prova de trabalho de parto depois de cesariana faz-se com monitorização fetal contínua, num hospital onde se possa fazer cesariana emergente de imediato.
- Diferencial: descolamento da placenta (útero lenhoso, sem perda da apresentação), placenta prévia, e outras causas de dor aguda e choque.
- Laparotomia imediata com extração fetal, reanimação e transfusão.
- Depois, reparação da brecha quando possível, ou histerectomia se a rotura for extensa, irregular ou com hemorragia que não se controla.
- Não há conduta expectante.
- Com rotura completa e expulsão do feto para o abdómen, a mortalidade fetal é de 50 a 75%; a sobrevivência depende de a placenta se manter aderente até à extração.
- Ectrópion (frequente na gravidez; epitélio colunar exposto, avermelhado, que sangra ao toque e depois do coito), cervicite, pólipo endocervical, traumatismo e lacerações, varizes vulvares e carcinoma do colo.
- O colo da grávida é mais vascularizado e friável, pelo que o coito e o exame ginecológico recente desencadeiam perdas com facilidade.
- Muitas hemorragias ficam sem causa identificada.
- São diagnósticos de exclusão: só se assumem depois de excluídas as causas placentares, com ecografia.
- O espéculo mostra a lesão. Conta a história do rastreio do cancro do colo: a hemorragia pós-coito é a forma de apresentação habitual do carcinoma do colo sintomático na gravidez.
- Colo suspeito: colposcopia, que é segura na gravidez, com biópsia dirigida se houver suspeita de lesão invasiva.
- Ectrópion ou causa local benigna identificada, sem alterações maternas nem fetais: a vigilância pré-natal não muda.
- Cervicite: tratamento dirigido ao agente.
- Hemorragia sem causa identificada não é benigna: associa-se a parto pré-termo, restrição de crescimento, oligoâmnios e rotura prematura de membranas. A gravidez passa a vigilância hospitalar com ecografias seriadas de crescimento.
- Anti-D na grávida Rh D negativo não sensibilizada, também nestes casos.
Referências
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- American College of Obstetricians and Gynecologists. Practice Bulletin No. 205: Vaginal Birth After Cesarean Delivery. Obstet Gynecol. 2019;133(2):e110-e127.
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15 perguntas sobre Hemorragias do terceiro trimestre
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