Hemorragia pós-parto
Atualizado em 30 de setembro de 2026 · 20 perguntas neste tema
A hemorragia pós-parto é a perda de sangue excessiva depois do nascimento. Complica cerca de 4 a 6% dos partos e causa perto de um quinto das mortes maternas no mundo, a maioria nas primeiras horas. Surge muitas vezes em mulheres sem fatores de risco, e o que mata raramente é um diagnóstico difícil: é o atraso em reconhecê-la, em medir a perda e em escalar o tratamento.
A definição clássica usa 500 mL no parto vaginal e 1000 mL na cesariana; o colégio americano de obstetras usa 1000 mL, ou qualquer perda com sinais de hipovolémia, nas primeiras 24 horas. As orientações consolidadas da Organização Mundial da Saúde (OMS) de 2025 antecipam o gatilho para agir: perda medida de 300 mL com um sinal hemodinâmico anormal, ou 500 mL, o que ocorrer primeiro. A perda mede-se com saco coletor calibrado, porque a estimativa a olho subvaloriza.
As causas resumem-se aos quatro T: tónus, trauma, tecido e trombina. A atonia explica 70 a 80% dos casos, porque a hemostase do leito placentar é sobretudo mecânica: é a contração do miométrio que estrangula as artérias espiraladas. Útero mole e aumentado é atonia; útero firme que continua a sangrar manda procurar uma laceração, um hematoma ou uma rotura. O acretismo placentar, cujo risco cresce com cada cesariana e dispara quando há placenta prévia, é a causa que mais leva à histerectomia.
A prevenção é universal: um único uterotónico em todos os partos, com a ocitocina 10 UI como primeira escolha. Perante o diagnóstico aplica-se tudo de uma vez: massagem uterina, ocitocina endovenosa, ácido tranexâmico 1 g endovenoso dentro das 3 horas após o parto, fluidos, exame do canal de parto e da placenta, e escalonamento se não parar. Se a hemorragia persistir, sobe-se ao balão de tamponamento, às suturas compressivas e laqueações, à embolização e à histerectomia, que não se adia, com transfusão e reposição de fibrinogénio em paralelo.
A hemostase do pós-parto é mecânica
- A placenta separa-se por clivagem entre a camada basal e a camada esponjosa da decídua, ajudada pela contração uterina, e é expulsa pelas contrações seguintes.
- Depois da dequitadura, o que para a hemorragia do leito placentar é a contração do miométrio, que estrangula as artérias espiraladas que o atravessam. A coagulação é coadjuvante.
- Por isso um útero que não contrai sangra mesmo com coagulação normal, e tudo o que impede a contração (tecido retido, bexiga cheia, fármacos relaxantes) causa hemorragia.
- Com a dequitadura, qualquer que seja a via de parto, a fibrinólise ativa-se de forma marcada e pode manter-se 6 a 10 horas. É a base do ácido tranexâmico precoce.
Os quatro T
| T | Mecanismo | Pista |
|---|---|---|
| Tónus | atonia uterina, 70 a 80% dos casos | útero mole e aumentado, que endurece com a massagem e volta a relaxar |
| Trauma | lacerações do colo, vagina e períneo, hematomas, rotura e inversão uterinas | útero firme que continua a sangrar; dor e choque sem perda visível |
| Tecido | retenção de placenta ou cotilédones, acretismo | placenta incompleta, dequitadura difícil |
| Trombina | coagulopatia adquirida ou congénita | sangue que não coagula, hemorragia dos locais de punção |
Tónus
Predispõem à atonia as situações que distendem, esgotam ou relaxam o miométrio:
- Sobredistensão: gestação múltipla, polidrâmnios, macrossomia.
- Trabalho de parto anormal: prolongado, precipitado, induzido ou estimulado com ocitocina.
- O que impede a contração: miomas, sulfato de magnésio, corioamnionite, multiparidade.
Trauma
- Lacerações: parto instrumentado, extração pélvica, parto precipitado, apresentações que não a occipito-anterior, macrossomia. Pequenas lacerações do colo são comuns e não sangram; as extensas e as que sangram têm de ser suturadas.
- Hematomas: da vulva à parte alta da vagina, por vezes sem rotura da mucosa, quando o feto ou o fórceps cisalham os tecidos submucosos. O sangue disseca planos e pode acumular-se na fossa isquiorretal sem se ver. Os do ligamento largo e do retroperitoneu acompanham as lacerações altas do colo.
- Rotura uterina: sobre cicatriz de cesariana ou de outra cirurgia uterina, por manipulação intrauterina ou trauma, em trabalho de parto anormal, parto instrumentado ou acretismo. Sem cicatriz prévia é muito rara.
- Inversão uterina: o fundo invagina-se através do colo; pode ficar na cavidade (parcial), chegar à vagina (total) ou, raramente, ao exterior. A tração excessiva do cordão é a causa evitável.
Tecido
- Retenção placentar: falha da separação ou da expulsão. Predispõem a cesariana prévia, os miomas, a curetagem prévia e o lobo acessório (sucenturiado).
- Acretismo (espectro acreta, increta e percreta): as vilosidades aderem ao miométrio, invadem-no ou atravessam-no até à serosa e aos órgãos vizinhos, sem plano de clivagem. Ocorre em cerca de 1 em 533 partos. Fatores de risco: placenta prévia, cesariana prévia, miomectomia, ablação do endométrio, síndrome de Asherman, miomas submucosos e idade acima de 35 anos.
- Quando só parte da placenta adere, a outra parte descola e o leito sangra sem que o útero consiga contrair sobre ele: é a forma mais comum e a que dá hemorragia maciça.
O acretismo e o número de cesarianas
Numa grande coorte de cesarianas sem trabalho de parto, a incidência de acretismo subiu com o número da cesariana que estava a ser feita. A primeira cesariana é a primária, sem cicatriz prévia; a segunda é a primeira repetição, com uma cesariana anterior, e assim por diante.
| Cesariana atual | Cesarianas anteriores | Acretismo, todas as mulheres | Acretismo com placenta prévia |
|---|---|---|---|
| 1.ª (primária) | nenhuma | 0,24% | 3% |
| 2.ª | uma | 0,31% | 11% |
| 3.ª | duas | 0,57% | 40% |
| 4.ª | três | 2,13% | 61% |
| 5.ª | quatro | 2,33% | 67% (5.ª ou mais) |
| 6.ª ou mais | cinco ou mais | 6,74% | 67% (5.ª ou mais) |
- A coluna do meio é a incidência em todas as mulheres com esse número de cesarianas, com ou sem placenta prévia; a da direita é só nas que tinham placenta prévia.
- A leitura prática: placenta prévia numa mulher com duas cesarianas anteriores tem acretismo em cerca de 4 em cada 10.
Trombina
- Obstétricas: descolamento de placenta, embolia de líquido amniótico, fígado gordo agudo da gravidez, sépsis e pré-eclâmpsia grave, todas capazes de coagulação intravascular disseminada. A síndrome HELLP (hemólise, enzimas hepáticas elevadas e plaquetas baixas) e a morte fetal contam também como fatores de risco.
- Prévias: coagulopatias hereditárias, trombocitopenia, terapêutica anticoagulante ou antiagregante.
- Da própria hemorragia: perda, consumo e diluição dos fatores, sobretudo quando se repõe muito volume com cristaloides. Fecha-se um ciclo vicioso.
- O fibrinogénio sobe na gravidez, a partir das 28 semanas, para 4,5 a 5,8 g/L no fim da gestação, e é o primeiro fator a cair para níveis críticos numa hemorragia. Um valor abaixo de 2 g/L numa puérpera que sangra prevê hemorragia grave; acima de 4 g/L torna-a pouco provável.
A hemorragia pós-parto não é um diagnóstico final, é um sinal: reconhece-se, mede-se e procura-se a causa ao mesmo tempo que se trata.
Medir a perda
- Medição objetiva por rotina em todos os partos: saco coletor calibrado sob a mulher no parto vaginal, aspirador com reservatório graduado na cesariana, e pesagem das compressas, em que 1 g corresponde a 1 mL.
- A estimativa visual subvaloriza a perda em 30 a 50%, e o erro cresce com o volume.
- O que conta é a perda cumulativa, somada e registada ao longo do tempo.
- Palpar o tónus uterino no abdómen em todas as puérperas, para apanhar cedo a atonia.
Critérios para iniciar o tratamento (OMS 2025)
- Perda medida de 300 mL ou mais com qualquer sinal hemodinâmico anormal: pulso acima de 100/min, índice de choque acima de 1, sistólica abaixo de 100 mmHg ou diastólica abaixo de 60 mmHg.
- Ou perda medida de 500 mL ou mais.
- O que ocorrer primeiro nas 24 horas após o parto. O juízo clínico conta: perante uma hemorragia que preocupa, não se espera pelo número.
Índice de choque
- Frequência cardíaca a dividir pela pressão sistólica. Fora da gravidez o normal é 0,5 a 0,7; na grávida e na puérpera, 0,7 a 0,9.
- A partir de 0,9 associa-se a maior mortalidade e sinaliza instabilidade; acima de 1 aumenta a probabilidade de transfusão.
Procurar a causa, por esta ordem
- Tónus: palpar o fundo uterino; mole e aumentado é atonia. Esvaziar a bexiga e expulsar os coágulos com a massagem.
- Trauma: com útero firme, inspecionar períneo, vagina e toda a circunferência do colo, com boa exposição, ajuda e analgesia, no bloco se preciso.
- Tecido: rever a placenta e as membranas; cotilédone em falta ou vasos que acabam cortados na borda (lobo acessório) apontam retenção. Ecografia se houver dúvida.
- Trombina: verificar se o sangue coagula e pedir o estudo da coagulação.
Laboratório
- Hemograma com plaquetas, estudo da coagulação com fibrinogénio, testes pré-transfusionais, gasometria com lactato, ionograma com cálcio ionizado, funções renal e hepática.
- Testes viscoelásticos à cabeceira (tromboelastometria ou tromboelastografia), onde existem, dão o défice de fibrinogénio em minutos. Sem eles, repete-se o hemograma e a coagulação a cada 45 a 60 minutos.
- A hemoglobina e o hematócrito enganam na fase aguda: podem descer só 4 horas depois e atingir o mínimo ao segundo ou terceiro dia.
- Os resultados do laboratório demoram 40 a 60 minutos: a transfusão inicial decide-se pela clínica.
Hemorragia secundária
- Causas: retenção de produtos, endometrite, subinvolução, coagulopatia.
- Ecografia para procurar tecido retido; a maioria destas mulheres não o tem.
Antes do parto
| Momento | Fatores de risco |
|---|---|
| Pré-parto | hemorragia pós-parto prévia, cirurgia uterina prévia incluindo cesariana, 4 ou mais partos, miomas, gestação múltipla, polidrâmnios, macrossomia acima de 4 kg, idade acima de 35 anos, índice de massa corporal acima de 35, placenta prévia ou suspeita de acretismo, descolamento de placenta, morte fetal, hipertensão e pré-eclâmpsia, coagulopatia, trombocitopenia abaixo de 100 × 10⁹/L, anemia com hemoglobina abaixo de 9 g/dL |
| Periparto | cesariana, fase ativa acima de 12 horas, parto instrumentado, lesões do canal de parto, trabalho de parto induzido ou muito rápido, corioamnionite, retenção placentar |
- Nos riscos intermédios fazem-se testes pré-transfusionais; nos altos, também reserva de concentrado eritrocitário. O parto de alto risco planeia-se num hospital com sangue, bloco e equipa.
- Tratar a anemia da gravidez: ferro oral diário (30 a 60 mg de ferro elementar) com ácido fólico; ferro endovenoso quando o oral não é tolerado ou é preciso corrigir depressa.
- Saber se a grávida toma antiagregantes, anticoagulantes ou outros fármacos que mexem com a coagulação.
- Suspeita de acretismo: confirmar por ecografia com Doppler e programar o parto num centro diferenciado.
No segundo período
- Técnicas que reduzem o traumatismo perineal: massagem perineal, compressas quentes e proteção manual do períneo.
- Episiotomia só por indicação, nunca por rotina.
Condução ativa do terceiro período
O terceiro período vai do nascimento à dequitadura. Conduzi-lo ativamente reduz a hemorragia pós-parto até 70%, e a peça que conta é o uterotónico.
- Um uterotónico em todos os partos, vaginais e cesarianas, logo após o nascimento. Usa-se só um.
- Tração controlada do cordão, com contrapressão suprapúbica para segurar o fundo, apenas por profissional treinado; o ganho é pequeno, na perda e na duração do terceiro período.
- Avaliação do tónus uterino por palpação abdominal em todas. A massagem uterina contínua não se recomenda como prevenção em quem recebeu ocitocina.
- O cordão não se clampa antes do primeiro minuto, salvo se o recém-nascido precisar de reanimação imediata.
- Placenta que não sai em 15 minutos sem hemorragia: tração do cordão, mobilizar, esvaziar a bexiga. Aos 30 minutos prepara-se a extração manual.
Uterotónicos na prevenção (OMS 2025)
| Fármaco | Dose | Lugar |
|---|---|---|
| Ocitocina | 10 UI intramuscular ou endovenosa | primeira escolha em todos os partos; no parto vaginal com acesso venoso já colocado, prefere-se a via endovenosa, diluída e lenta em 1 a 2 minutos |
| Carbetocina | 100 µg intramuscular ou endovenosa | alternativa em todos os partos; a formulação termoestável é a escolha onde a cadeia de frio da ocitocina não é garantida |
| Misoprostol | 400 ou 600 µg oral | quando não há uterotónico injetável ou quem o administre; dá tremor e febre |
Não se recomendam na prevenção:
- ergometrina ou metilergometrina, isoladas ou combinadas com ocitocina, pelo risco de hipertensão;
- prostaglandinas injetáveis (carboprost, sulprostona);
- ácido tranexâmico profilático, nem no parto vaginal nem na cesariana.
Trata-se em equipa, com várias frentes ao mesmo tempo e com a perda acumulada, os tempos e as medidas registados. O erro que mais mata é o atraso.
Medidas gerais imediatas
- Pedir ajuda: obstetra e anestesiologista seniores, enfermagem especializada e imuno-hemoterapia; alertar o bloco.
- Avaliação ABCDE; oxigénio a 10 a 15 L/min, dois acessos venosos de grande calibre (14 ou 16 G), colheitas com testes pré-transfusionais.
- Algaliação, que esvazia a bexiga e permite medir o débito urinário.
- Aquecer a doente e os fluidos.
- Um elemento da equipa fica só com a transfusão e outro só com os registos.
O pacote de primeira resposta
Recomendado pela OMS para todas as hemorragias após parto vaginal e aplicado de uma só vez, idealmente nos primeiros 15 minutos após o diagnóstico:
- Massagem uterina.
- Uterotónico, a começar pela ocitocina endovenosa.
- Ácido tranexâmico.
- Fluidos endovenosos, cristaloides isotónicos.
- Exame do canal de parto, da placenta e da cavidade.
- Escalonamento se não parar.
Com a medição por saco calibrado, este pacote baixou o conjunto de hemorragia de 1000 mL ou mais, laparotomia por hemorragia e morte por hemorragia de 4,3% para 1,6% após parto vaginal. Mesmo assim, 10 a 20% das mulheres não respondem: é a hemorragia refratária.
Uterotónicos no tratamento da atonia
| Fármaco | Dose | Contraindicações e cuidados |
|---|---|---|
| Ocitocina, primeira linha | 20 UI em 500 mL de soro fisiológico a 250 mL/hora | o bólus endovenoso rápido causa hipotensão |
| Metilergometrina | 0,2 mg intramuscular, repetível a cada 2 a 4 horas | hipertensão e pré-eclâmpsia; evitar ou usar com grande cautela na doença cardíaca; nunca endovenosa rápida, pelo risco de hipertensão grave |
| Sulprostona (prostaglandina E2) | 1 mg em 500 mL de soro fisiológico a 125 mL/hora, até 500 mL/hora | relativas: asma, doença cardíaca, hipertensão grave, diabetes |
| Carboprost (15-metil-prostaglandina F2α) | 0,25 mg intramuscular ou intramiometrial, a cada 15 a 90 minutos, até 8 doses | asma; evitar ou usar com grande cautela na doença cardíaca, pulmonar, hepática ou renal |
| Misoprostol (prostaglandina E1) | 800 µg sublingual (OMS); o consenso português admite 400 a 1000 µg retal ou sublingual | tremor e febre |
- Se a ocitocina não basta, junta-se sem demora um segundo fármaco. Em Portugal a segunda linha é a sulprostona ou o misoprostol, e a sulprostona resolve 80 a 90% das atonias que não respondem à ocitocina. Nenhum dos de segunda linha provou ser mais eficaz do que os outros; escolhe-se pelas contraindicações.
- Hipertensa ou com pré-eclâmpsia: sem metilergometrina. Asmática: sem carboprost, e a sulprostona também só com cautela.
- Os uterotónicos só servem para a atonia.
Ácido tranexâmico
- Em todas as hemorragias pós-parto, qualquer que seja a causa, incluindo o trauma, após parto vaginal ou cesariana; não é preciso confirmar a origem.
- 1 g endovenoso em 10 minutos (1 mL/min da solução de 100 mg/mL), o mais cedo possível e dentro das 3 horas após o parto.
- Segunda dose de 1 g se a hemorragia continuar ao fim de 30 minutos ou recomeçar nas 24 horas após a primeira.
- Não se inicia depois das 3 horas: aí não há benefício e a estimativa do efeito aponta para dano. Evita-se com contraindicação clara, como um evento tromboembólico na gravidez.
- É adjuvante: não substitui o uterotónico nem o controlo da causa.
Tratamento dirigido
- Atonia: massagem, compressão bimanual, uterotónicos, bexiga vazia.
- Lacerações: reparar de imediato com boa exposição; nada de pontos às cegas; no colo, começar a sutura acima do ápice. Tamponamento vaginal se preciso.
- Hematomas: os pequenos (até cerca de 5 cm) que não crescem vigiam-se com gelo, tamanho, sinais vitais e débito urinário; os grandes, sintomáticos ou em expansão abrem-se, drenam-se e laqueia-se o vaso. Os do ligamento largo e do retroperitoneu tratam-se de forma conservadora se estáveis; se for preciso intervir, a embolização é a escolha.
- Retenção placentar: extração manual sob anestesia, com antibiótico profilático e sem parar o uterotónico em curso; o uterotónico só se dá na placenta retida se já houver hemorragia. Fragmentos que não saem à mão retiram-se por aspiração ou curetagem cuidadosa, de preferência guiada por ecografia.
- Coagulopatia: reposição dirigida e tratamento da causa.
Hemorragia refratária
Medidas temporizadoras, enquanto se prepara o passo seguinte ou a transferência:
- Compressão bimanual do útero e compressão externa da aorta, na atonia após parto vaginal.
- Traje anti-choque não pneumático.
Escalonamento:
- Balão de tamponamento intrauterino: na atonia após parto vaginal que não responde à primeira linha, excluídos o trauma e o tecido retido, com bloco e sangue disponíveis. Enche-se habitualmente com 500 mL de soro, mantém-se 12 a 24 horas e resolve cerca de 78 a 84% dos casos. O tamponamento uterino com compressas não se recomenda.
- Embolização arterial, se estável e com radiologia de intervenção: êxito em cerca de 90%, com gravidezes posteriores descritas.
- Laparotomia, se instável ou se o resto falhou, pelo obstetra mais experiente:
- suturas compressivas (a de B-Lynch é a mais conhecida), com êxito em cerca de 90%, sobretudo quando a compressão manual do útero para a hemorragia;
- desvascularização progressiva: uma artéria uterina, a contralateral e depois os ramos uterinos das ováricas, até a hemorragia parar, com êxito em cerca de 85%;
- laqueação das ilíacas internas, com êxito em cerca de 66%, mais difícil e com mais morbilidade;
- histerectomia, que não se adia quando o resto falhou; a subtotal é mais rápida, a total prefere-se nas doenças da placentação.
O algoritmo português, em quatro passos
| Passo | Situação | O que se acrescenta |
|---|---|---|
| 1, até 30 minutos | moderada, 1000 a 2000 mL | pedir ajuda e contactar a imuno-hemoterapia; medidas gerais, ocitocina, massagem externa e bimanual; considerar ácido tranexâmico e fibrinogénio |
| 2, até 60 minutos após o diagnóstico | grave, acima de 2000 mL | alertar o bloco e ponderar transferência; ativar o protocolo de hemorragia maciça; misoprostol ou sulprostona, reparar lacerações, rever a cavidade, excluir rotura por ecografia |
| 3 | grave e persistente | manter e repetir as medidas anteriores; balão intrauterino durante 12 a 24 horas |
| 4 | grave e refratária | laparotomia (suturas, laqueações, histerectomia) se instável; embolização se estável |
Reanimação e transfusão
- Cristaloides isotónicos em vez de coloides, de preferência soluções equilibradas como o lactato de Ringer; o soro fisiológico em grande volume dá acidose hiperclorémica.
- Reposição restritiva: aceita-se uma sistólica de 80 mmHg enquanto a hemorragia não está controlada.
- Sangue O Rh negativo disponível em 5 minutos e isogrupal em 15.
- Protocolo de transfusão maciça com rácio alto de plasma para concentrado eritrocitário: a norma nacional prevê um pack inicial de 4 concentrados eritrocitários, 4 unidades de plasma e 1 unidade de plaquetas; orientações obstétricas propõem 6:4:1.
- Plasma 10 a 15 mL/kg, sem esperar pela coagulação se houver hemorragia grave, embolia de líquido amniótico ou descolamento; com hemorragia ativa, dá-se quando o tempo de protrombina ou o tempo de tromboplastina parcial ativado passam 1,5 vezes o controlo.
- Fibrinogénio: repõe-se com concentrado de fibrinogénio, 25 a 50 mg/kg de dose inicial, ou com crioprecipitado. O plasma traz pouco (cerca de 2,5 g/L) e obrigaria a grandes volumes. Nas orientações internacionais repõe-se quando está abaixo de 2 g/L com hemorragia em curso, e o objetivo é mantê-lo acima de 2 g/L. O consenso português, que parte dos valores mais altos do fim da gravidez, é mais exigente: considera haver défice com fibrinogénio de 2,9 g/L ou menos, com firmeza máxima do coágulo de 18 mm ou menos no FIBTEM da tromboelastometria, ou, sem resultados, com perda de 1,5 L ou mais e hemorragia em curso, e aponta como objetivo 3 a 4 g/L. O ácido tranexâmico dá-se antes do fibrinogénio.
- Plaquetas: transfundir abaixo de 75 × 10⁹/L com hemorragia ativa; 50 × 10⁹/L é o mínimo aceitável. Na mulher Rh negativo, plaquetas Rh negativo ou, se não houver, imunoglobulina anti-D.
- Recuperação intraoperatória de sangue: o consenso português considera-a quando se antecipa transfusão ou a mulher a recusa; a OMS de 2025 só a recomenda em contexto de investigação.
- Fator VII ativado recombinante só em hemorragia com risco de vida apesar de todo o resto, e com risco de trombose.
| Objetivo | Valor |
|---|---|
| Hemoglobina | acima de 7 g/dL |
| Plaquetas | acima de 50 × 10⁹/L, e de 75 × 10⁹/L se ainda sangra |
| Tempo de protrombina e tempo de tromboplastina parcial ativado | abaixo de 1,5 vezes o controlo |
| Fibrinogénio | acima de 2 g/L; o consenso português aponta 3 a 4 g/L |
| Cálcio ionizado | acima de 1 mmol/L |
| Temperatura | acima de 35 °C |
| pH | acima de 7,2 |
| Lactato | abaixo de 4 mmol/L |
| Pressão sistólica | 80 mmHg ou mais |
| Débito urinário | acima de 0,5 mL/kg/hora |
Referências
- World Health Organization, International Federation of Gynecology and Obstetrics, International Confederation of Midwives. Consolidated guidelines for the prevention, diagnosis and treatment of postpartum haemorrhage. Genebra: OMS; 2025.
- Escobar MF, Nassar AH, Theron G, Barnea ER, Nicholson W, Ramasauskaite D, et al. FIGO recommendations on the management of postpartum hemorrhage 2022. Int J Gynaecol Obstet. 2022;157(Suppl 1):3-50.
- Carvalhas J, Alves C, Tavares Ferreira C, Santos Silva I, Costa FJ, Almeida JP, et al. Recomendações portuguesas para a abordagem multidisciplinar da hemorragia obstétrica, elaboradas por grupo multidisciplinar de consensos 2017. Rev Soc Port Anestesiol. 2018;27(1):30-44.
- Gallos I, Devall A, Martin J, Middleton L, Beeson L, Galadanci H, et al. Randomized trial of early detection and treatment of postpartum hemorrhage. N Engl J Med. 2023;389(1):11-21.
- Silver RM, Landon MB, Rouse DJ, Leveno KJ, Spong CY, Thom EA, et al. Maternal morbidity associated with multiple repeat cesarean deliveries. Obstet Gynecol. 2006;107(6):1226-32.
- Casanova R, Chuang A, Goepfert AR, Hueppchen NA, Weiss PM, editores. Beckmann and Ling's Obstetrics and Gynecology. 8.ª ed. Filadélfia: Wolters Kluwer; 2019. Capítulos 11 (Postpartum care), 12 (Postpartum hemorrhage) e 16 (Third-trimester bleeding).
- Tiberghien P, Garraud O, Chiaroni J. Transfusion therapy and biology. In: Loscalzo J, Fauci A, Kasper D, Hauser S, Longo D, Jameson JL, editores. Harrison's Principles of Internal Medicine. 21.ª ed. Nova Iorque: McGraw-Hill; 2022. Capítulo 113.
- Melmed S, Jameson JL. Hypopituitarism. In: Jameson JL, Fauci AS, Kasper DL, Hauser SL, Longo DL, Loscalzo J, editores. Harrison's Principles of Internal Medicine. 20.ª ed. Nova Iorque: McGraw-Hill; 2018. Capítulo 372.
20 perguntas sobre Hemorragia pós-parto
Ler consolida, treinar é o que fixa. Cada pergunta tem justificação alínea a alínea, no formato da Prova Nacional de Acesso.
Criar conta e treinar