Gravidez múltipla
Atualizado em 29 de setembro de 2026 · 14 perguntas neste tema
A gravidez múltipla é pouco frequente, mas pesa muito na morbimortalidade perinatal. A gemelaridade espontânea ronda 1 em 80 gestações; a gemelaridade monozigótica é constante no mundo, cerca de 1 em 250, e o que faz variar a frequência é a dizigótica, que aumenta com a idade materna, a paridade, a história familiar e, sobretudo, com a procriação medicamente assistida e a indução da ovulação.
O que decide o prognóstico, a vigilância e a data do parto não é a zigotia, é a corionicidade. Determina-se na ecografia do primeiro trimestre, antes das 13 semanas e 6 dias, pela inserção da membrana na placenta: sinal do lambda na dicoriónica, sinal do T na monocoriónica. Na dúvida, gere-se como monocoriónica. A dicoriónica faz ecografia a cada 4 semanas depois da morfológica e nasce às 37 semanas; a monocoriónica faz ecografia a cada 2 semanas desde as 16 e nasce às 36.
Todas as gemelares partilham os riscos da sobredistensão e da sobrecarga materna: parto pré-termo, que atinge cerca de 60% antes das 37 semanas, pré-eclâmpsia, anemia, diabetes gestacional, restrição de crescimento e hemorragia pós-parto. As monocoriónicas somam as complicações das anastomoses da placenta partilhada: transfusão feto-fetal, sequência anemia-policitemia, restrição de crescimento seletiva, sequência de perfusão arterial reversa, e a lesão do sobrevivente quando um dos gémeos morre.
O que não se pode falhar é a corionicidade por determinar no primeiro trimestre, a monocoriónica vigiada ao ritmo da dicoriónica, a discordância de líquido amniótico que anuncia a transfusão feto-fetal, tratada com laser, e a cesariana emergente feita depois da morte de um gémeo monocoriónico, que já não protege o outro.
- Gravidez com dois ou mais fetos. A taxa natural de gemelaridade é de cerca de 1 em 80 gestações.
- Monozigóticos: cerca de 1 em 250 gestações, frequência constante entre populações.
- Dizigóticos: cerca de dois terços dos gémeos espontâneos; a frequência varia com a população e aumenta com a idade materna, a paridade e a história familiar.
- A procriação medicamente assistida e a indução da ovulação explicam o aumento das gestações múltiplas; a fertilização in vitro aumenta também a gemelaridade monozigótica.
- Até um terço das gemelares são monocoriónicas.
- O gémeo evanescente, perda precoce de um dos embriões, ocorre em cerca de 1 em 5 gemelares e é mais frequente depois de procriação medicamente assistida.
Prematuridade
| antes das 37 semanas | antes das 32 semanas | |
|---|---|---|
| Todas as gemelares | cerca de 60% | cerca de 12% |
| Dicoriónica diamniótica | 48,6% | 7,4% |
| Monocoriónica diamniótica | 88,5% | 14,2% |
| Monocoriónica monoamniótica | 100% | 26,8% |
A idade gestacional média ao parto desce 2 a 3 semanas por cada feto a mais: cerca de 35 semanas nos gémeos, 32 nos trigémeos e 30 nos quadrigémeos.
Zigotia
- Dizigóticos: dois oócitos fecundados por dois espermatozoides. Geneticamente distintos, do mesmo sexo ou de sexos diferentes, cada um com a sua placenta: são sempre dicoriónicos e diamnióticos, mesmo quando as placentas parecem fundidas.
- Monozigóticos: divisão de um único zigoto. A corionicidade depende do dia em que a divisão acontece.
| divisão depois da fecundação | resultado | frequência nos monozigóticos |
|---|---|---|
| Até ao 3.º dia | dicoriónica e diamniótica | cerca de um quarto |
| Do 4.º ao 8.º dia | monocoriónica e diamniótica | cerca de três quartos |
| Do 9.º ao 12.º dia | monocoriónica e monoamniótica | cerca de 1% |
| Depois | gémeos conjugados, divisão incompleta | muito raro |
- Sexos diferentes são dizigóticos e, portanto, dicoriónicos. A monocoriónica é, por regra, monozigótica; há exceções descritas, mais frequentes depois de procriação medicamente assistida.
- Numa dicoriónica do mesmo sexo não se distingue, na vigilância pré-natal, se os gémeos são dizigóticos ou monozigóticos.
Porque a corionicidade domina
- Na dicoriónica cada feto tem território placentar próprio; os riscos são os da sobredistensão uterina e da sobrecarga materna.
- Na monocoriónica praticamente todas as placentas têm anastomoses vasculares entre as duas circulações. A sua arquitetura decide o risco: um desequilíbrio de fluxo dá a transfusão feto-fetal, anastomoses mínimas dão a sequência anemia-policitemia, a partilha desigual da placenta dá a restrição de crescimento seletiva, e a morte de um gémeo transforma as anastomoses numa via de hemorragia do outro.
- As anomalias congénitas são mais frequentes: 30% mais por feto nos dizigóticos e duas a três vezes mais nos monozigóticos. Há uma anomalia major, em regra só num dos gémeos, em cerca de 1 em 30 dicoriónicas, 1 em 15 monocoriónicas diamnióticas e 1 em 4 monoamnióticas.
- Hoje o diagnóstico é quase sempre ecográfico, na ecografia do primeiro trimestre.
- Suspeita-se clinicamente quando o útero é maior do que a idade gestacional: uma diferença de 4 cm ou mais entre a altura uterina e as semanas de gestação pede ecografia.
- Os sintomas da gravidez são mais intensos: hiperémese mais frequente, anemia por maior necessidade de ferro e folato, e necessidade calórica aumentada.
- Sinais de parto pré-termo a ensinar à grávida: dor abdominal ou lombar, aumento ou alteração do corrimento vaginal e perda de sangue.
A ecografia do primeiro trimestre, entre as 11 e as 13 semanas e 6 dias, não termina em contar fetos: responde a quantos são e se são viáveis, qual a corionicidade e a amnionicidade, qual a idade gestacional e como se identifica cada feto.
Corionicidade
- Determina-se antes das 13 semanas e 6 dias, com o maior número possível de critérios, e guarda-se imagem no processo.
- O critério principal é a inserção da membrana na placenta, examinando a membrana em toda a extensão:
| sinal | o que se vê | significado |
|---|---|---|
| Lambda | cunha triangular de tecido coriónico na base da membrana, com a ecogenicidade da placenta | dicoriónica: dois córions fundidos e dois âmnios |
| T | membrana fina que encontra a placenta em ângulo reto, sem tecido interposto | monocoriónica: só dois âmnios |
- Critérios de apoio, nunca isolados: número de massas placentares, espessura da membrana (acima de 2 mm sugere dicoriónica) e sexo fetal discordante.
- Uma placenta única não significa monocoriónica: duas placentas podem estar fundidas.
- Sem conclusão por via abdominal, tenta-se a via vaginal; se continuar indeterminada, pede-se segunda opinião a um centro diferenciado. Na dúvida, gere-se como monocoriónica.
- A amnionicidade da monocoriónica vê-se a partir das 8 semanas. Antes de afirmar que não há membrana procura-se por via vaginal; o entrelaçamento dos cordões no Doppler confirma a monoamniótica. Não existe dicoriónica monoamniótica.
Datação e identificação dos fetos
- Na conceção espontânea data-se pelo comprimento craniocaudal do maior feto; a partir das 14 semanas pelo perímetro cefálico do maior. Na fertilização in vitro, pela data da transferência e idade do embrião.
- Cada feto identifica-se de forma consistente e registada (por exemplo, direita e esquerda, ou inferior e superior, com a inserção do cordão e o sexo). A ordem no parto pode não ser a das ecografias, sobretudo na cesariana.
Rastreio de aneuploidias e anomalias
- A análise de ADN fetal livre no sangue materno, possível a partir das 10 semanas, é o rastreio mais exato da trissomia 21 na gemelar. Sem ela, rastreio combinado do primeiro trimestre.
- Com um gémeo evanescente, usa-se a translucência da nuca com a idade materna.
- Discordância do comprimento craniocaudal de 10% ou mais ou da translucência da nuca de 20% ou mais: discutir com medicina fetal.
- Morfológica às 20 semanas (18 a 22) e avaliação cardíaca fetal nas monocoriónicas.
Vigilância ecográfica
| tipo | calendário | em cada exame |
|---|---|---|
| Dicoriónica sem complicações | primeiro trimestre, morfológica às 20 semanas e depois a cada 4 semanas | biometria, líquido amniótico, Doppler da artéria umbilical a partir das 24 semanas |
| Monocoriónica sem complicações | primeiro trimestre e a cada 2 semanas a partir das 16 | biometria, maior bolsa vertical de cada saco, Doppler da artéria umbilical e velocidade sistólica máxima da artéria cerebral média a partir das 20 semanas |
- A discordância de peso calcula-se a partir das 20 semanas em cada exame: diferença entre os pesos estimados a dividir pelo peso do maior. A partir de 20% o risco aumenta; com 25% ou mais, ou com um feto abaixo do percentil 10, referencia-se a medicina fetal.
- O comprimento do colo mede-se na morfológica, idealmente por via vaginal, e repete-se antes das 24 semanas quando há outros fatores de risco; 25 mm é o limiar prático entre as 18 e as 24 semanas.
- Em cada consulta, pressão arterial e, se elevada, proteinúria.
Diagnóstico diferencial do útero grande para a idade gestacional
Erro de datação, gravidez múltipla, poli-hidrâmnio, doença trofoblástica gestacional e tumor pélvico.
Evitar a gravidez múltipla
- Na procriação medicamente assistida, limitar o número de embriões transferidos é a prevenção primária.
- Nas gestações de ordem elevada pode discutir-se a redução embrionária no primeiro trimestre ou no início do segundo, para aumentar a sobrevivência e reduzir a morbilidade dos restantes.
Pré-eclâmpsia
A gravidez múltipla é fator de risco de pré-eclâmpsia, que é cerca de três vezes mais frequente nos gémeos, e as recomendações diferem no peso que lhe dão:
| peso da gravidez múltipla | ácido acetilsalicílico | |
|---|---|---|
| ACOG (colégio americano de obstetras e ginecologistas) | fator de risco alto, basta por si | 81 mg por dia, começado entre as 12 e as 28 semanas, idealmente antes das 16, até ao parto |
| NICE (instituto nacional britânico de saúde e excelência clínica) | fator de risco moderado; indica aspirina com mais um fator moderado | 75 a 150 mg por dia desde as 12 semanas até ao parto |
Os outros fatores moderados do NICE são a primeira gravidez, a idade de 40 anos ou mais, o intervalo entre gestações superior a 10 anos, o índice de massa corporal de 35 kg/m² ou mais na primeira consulta e a história familiar de pré-eclâmpsia.
Parto pré-termo
- Não reduzem o parto pré-termo e não se recomendam: repouso no leito, com ou sem internamento, que aumenta o risco de trombose; pessário; tocólise profilática; progesterona em todas as gemelares.
- Com colo de 25 mm ou menos, pode considerar-se progesterona vaginal.
- Com colo de 15 mm ou menos antes das 24 semanas, pode considerar-se cerclage; com o colo já dilatado antes das 24 semanas, sem sintomas, cerclage com antibiótico e tocolítico.
- A fibronectina fetal não se recomenda para prever o parto pré-termo na gemelar.
Nutrição
- Mais ferro, folato e calorias. Ganho de peso recomendado nos gémeos: cerca de 17 a 25 kg com índice de massa corporal normal, 14 a 23 kg com excesso de peso e 11 a 19 kg na obesidade.
Quando fazer nascer
| tipo | parto planeado |
|---|---|
| Dicoriónica diamniótica sem complicações | 37+0 a 37+6 semanas |
| Monocoriónica diamniótica sem complicações | 36+0 a 36+6 semanas |
| Monocoriónica monoamniótica | cesariana às 32 a 34 semanas |
Prolongar a gravidez para lá destas idades aumenta a mortalidade perinatal. Complicações de um ou dos dois fetos antecipam o parto, decidido caso a caso.
Via de parto
- Decide-se pela apresentação do primeiro gémeo. Cerca de 40% chegam ao trabalho de parto com os dois cefálicos.
- Primeiro gémeo cefálico, diamniótica, a partir das 32 semanas: o parto vaginal é opção razoável seja qual for a apresentação do segundo, havendo obstetra com experiência em versão podálica interna e extração pélvica. A cesariana planeada não mostrou benefício.
- Primeiro gémeo pélvico, cerca de 20% dos partos gemelares: em regra cesariana.
- Monoamnióticos, gémeos conjugados e três ou mais fetos: cesariana.
O parto vaginal
- Bloco pronto para cesariana, com obstetrícia, anestesia e neonatologia; ecógrafo na sala; frequência cardíaca de cada feto monitorizada em separado; analgesia epidural, que facilita as manobras.
- Depois do primeiro, se o segundo estiver cefálico o parto decorre em regra sem problemas e, com o segundo bem monitorizado, não há pressa.
- Segundo gémeo não cefálico (cerca de 40% dos partos gemelares): versão cefálica externa guiada por ecografia ou extração pélvica. A cesariana do segundo reserva-se para quando o parto vaginal não pode ser feito com segurança.
- Ter sempre presente o prolapso do cordão e, depois do parto, a atonia do útero sobredistendido.
Fetais e neonatais
- A prematuridade é a principal causa de morbimortalidade: nas gemelares o risco de morte fetal é cerca de 5 vezes e o de morte neonatal cerca de 7 vezes o da gravidez única, sobretudo à custa dela.
- Restrição de crescimento e discordância de peso.
- Poli-hidrâmnio em cerca de 10%, sobretudo nas monocoriónicas.
- Anomalias congénitas e abortamento espontâneo cerca de duas vezes mais frequentes; artéria umbilical única em 3 a 4% dos gémeos, contra 0,5 a 1% na gravidez única.
- Paralisia cerebral em cerca de 7 por 1000 nados-vivos gemelares, contra 1,6 na gravidez única.
Maternas
- Pré-eclâmpsia, cerca de três vezes mais frequente.
- Hiperémese, anemia, diabetes gestacional, descolamento prematuro da placenta, cesariana, hemorragia pós-parto e depressão pós-parto.
- Complicação exclusiva das monocoriónicas: desequilíbrio hemodinâmico entre os gémeos, traduzido por discordância significativa de líquido amniótico.
- Atinge 10 a 15% das monocoriónicas; é muito menos frequente nas monoamnióticas.
- Sem tratamento, leva à morte fetal em até 90% dos casos, e mais de metade dos sobreviventes fica com sequelas.
- Pelas anastomoses arteriovenosas passa um fluxo efetivo de um gémeo para o outro, sem compensação suficiente por anastomoses no sentido contrário.
- Dador: hipovolémico, oligúrico, com oligoâmnio e bexiga pequena ou invisível; fica colado à parede do útero pela membrana; pode ter restrição de crescimento e anemia.
- Recetor: hipervolémico, poliúrico, com poli-hidrâmnio e bexiga distendida; desenvolve hipertensão, policitemia, disfunção cardíaca e, no fim, hidrópsia.
- Na maioria dos casos é um achado da ecografia quinzenal de vigilância.
- O poli-hidrâmnio do recetor pode dar distensão e desconforto abdominal e encurtamento do colo, e soma-se ao risco de parto pré-termo próprio da gemelar.
Critérios
- Gestação monocoriónica com discordância de líquido amniótico, medida pela maior bolsa vertical:
- dador: 2 cm ou menos;
- recetor: 8 cm ou mais até às 20 semanas e 10 cm ou mais depois das 20 (critério europeu).
- A discordância de peso é frequente mas não é necessária para o diagnóstico.
- O rastreio começa às 16 semanas, com ecografia a cada 2 semanas: em cada exame mede-se a maior bolsa vertical de cada saco e procura-se o dobrar da membrana.
Estadiamento de Quintero
| estádio | critério |
|---|---|
| I | discordância de líquido: 8 cm ou mais no recetor e 2 cm ou menos no dador |
| II | bexiga do dador não visível |
| III | em qualquer dos gémeos: fluxo diastólico ausente ou invertido na artéria umbilical, fluxo invertido no ducto venoso ou fluxo pulsátil na veia umbilical |
| IV | hidrópsia de um ou de ambos |
| V | morte de um ou de ambos |
- Continua a ser a classificação de referência, mas não é uma sequência cronológica: um estádio I pode passar a V sem os intermédios, e alguns recetores em estádio I já têm disfunção cardíaca.
Diagnóstico diferencial
| situação | o que a distingue |
|---|---|
| Discordância de líquido sem critérios | diferença de 4 cm ou mais entre as bolsas, com valores dentro da normalidade e Doppler normal: bom prognóstico (sobrevivência de 93%), progride para forma grave em 14%; vigilância semanal |
| Restrição de crescimento seletiva | discordância de peso, com líquido que não cumpre os critérios |
| Sequência anemia-policitemia | discordância de hemoglobina na artéria cerebral média, sem discordância de líquido |
| situação | conduta |
|---|---|
| Estádios II, III e IV | fotocoagulação laser das anastomoses por fetoscopia, em centro de referência; é o tratamento de eleição, sobretudo antes das 26 semanas |
| Estádio I, grávida sem sintomas e colo acima de 15 mm | vigilância apertada; passa a laser se o poli-hidrâmnio piora, a grávida tem desconforto ou o colo encurta |
| Depois das 26 semanas, sem laser disponível | amniodrenagem seriada do saco do recetor é alternativa aceitável |
| Forma grave, por opção dos pais | redução seletiva por oclusão do cordão (coagulação bipolar, laser intrafetal ou radiofrequência) |
- A técnica de dicorionização equatorial da placenta reduz a recorrência e a sequência anemia-policitemia depois do laser, à custa de mais descolamento da placenta e parto mais precoce.
- Depois do laser, ecografia semanal nas primeiras 2 semanas e depois quinzenal; o líquido normaliza em cerca de 14 dias. Em cada exame, líquido, Doppler da artéria umbilical, da artéria cerebral média e do ducto venoso, com biometria a cada 2 semanas, e procura de lesões cerebrais, cardíacas e dos membros.
- Parto por consenso às 34 semanas, depois de corticoterapia, se persistirem alterações; mais tarde se tudo normalizou.
- Com laser: sobrevivência dos dois gémeos em 60 a 70% e de pelo menos um em 80 a 90%.
- Recorrência depois do laser em até 14%, por anastomoses que ficaram por coagular; sequência anemia-policitemia em até 13%.
- Lesões cerebrais fetais em 5% depois de laser, 14% depois de amniodrenagem e 21% com conduta expectante; alterações neurológicas major em cerca de 7% das crianças tratadas com laser, com uma mediana de 34 meses de idade.
- Estenose das vias de saída direitas mais frequente, sobretudo nos recetores; a disfunção cardíaca do recetor normaliza em regra num mês.
- Se um gémeo morre depois do laser, imagem cerebral do sobrevivente 4 a 6 semanas depois e avaliação do neurodesenvolvimento aos 2 anos.
- Na sigla inglesa, TAPS (twin anemia-polycythemia sequence): discordância importante de hemoglobina e de reticulócitos entre gémeos monocoriónicos, sem discordância significativa de líquido amniótico.
- Espontânea em até 5% das monocoriónicas diamnióticas; em até 13% depois de laser por transfusão feto-fetal.
- Anastomoses arteriovenosas minúsculas, abaixo de 1 mm, deixam passar sangue devagar e de forma crónica do dador para o recetor.
- O dador fica anémico, com reticulocitose; o recetor, policitémico. A passagem é lenta demais para desequilibrar a volemia e o débito urinário, e por isso o líquido fica igual.
- Depois do laser, são as anastomoses pequenas que ficaram por coagular.
Rastreio
- Velocidade sistólica máxima da artéria cerebral média nos dois fetos em todas as monocoriónicas a partir das 20 semanas, e no seguimento depois de laser.
Diagnóstico pré-natal
| critério | dador | recetor |
|---|---|---|
| Clássico | acima de 1,5 múltiplos da mediana (anemia) | abaixo de 1,0 múltiplos da mediana (policitemia) |
| Consenso de peritos | 1,5 ou mais | 0,8 ou menos |
- O consenso admite também o diagnóstico por uma diferença entre os dois fetos de 1,0 múltiplos da mediana ou mais, porque recetores com valores acima de 1,0 podem nascer policitémicos.
- O critério clássico tem sensibilidade de 46% e especificidade de 100%.
- Sinais de apoio, presentes em mais de 80%: placenta do dador espessa e brilhante e a do recetor fina e translúcida; fígado do recetor em céu estrelado.
Estadiamento pré-natal
| estádio | critério |
|---|---|
| 1 | dador acima de 1,5 e recetor abaixo de 1,0 múltiplos da mediana, sem outros sinais de compromisso |
| 2 | dador acima de 1,7 e recetor abaixo de 0,8, sem outros sinais de compromisso |
| 3 | estádio 1 ou 2 com compromisso cardíaco do dador (fluxo diastólico ausente ou invertido na artéria umbilical, fluxo pulsátil na veia umbilical, ducto venoso alterado) |
| 4 | hidrópsia do dador |
| 5 | morte de um ou de ambos, precedida da sequência |
Diagnóstico pós-natal
- Diferença de hemoglobina entre os gémeos acima de 8 g/dL, com razão de reticulócitos acima de 1,7 ou anastomoses placentares abaixo de 1 mm.
- A evidência é observacional e a conduta individualiza-se pela idade gestacional, gravidade, exequibilidade técnica e escolha dos pais.
- Opções: vigilância, parto antecipado, laser das anastomoses, transfusão intrauterina do dador, ou transfusão do dador combinada com exsanguinotransfusão parcial do recetor.
- A melhor prevenção da forma pós-laser é a técnica de laser que coagula todo o equador da placenta.
- Espetro amplo: da morte dos dois gémeos, na forma grave, a dois recém-nascidos saudáveis que só diferem na hemoglobina.
- No recém-nascido: anemia com necessidade de transfusão no dador e policitemia com possível exsanguinotransfusão parcial no recetor.
- Alteração do neurodesenvolvimento em 9% depois da forma pós-laser e em 26% dos sobreviventes da forma espontânea, mais nos dadores; surdez bilateral em 15% dos dadores da forma espontânea.
- Recomenda-se imagem cerebral no terceiro trimestre, rastreio auditivo neonatal e avaliação do neurodesenvolvimento aos 2 anos.
- Um feto com peso estimado abaixo do percentil 10 e discordância de peso de 25% ou mais. Um limiar de 20% já separa as gravidezes de maior risco.
- Pelo consenso de peritos, basta um feto abaixo do percentil 3. De resto, na monocoriónica exigem-se dois de quatro critérios (peso estimado abaixo do percentil 10, perímetro abdominal abaixo do percentil 10, discordância de 25% ou mais, índice de pulsatilidade da artéria umbilical do mais pequeno acima do percentil 95) e na dicoriónica dois de três (os mesmos sem o perímetro abdominal).
- Se os dois estão abaixo do percentil 10 fala-se de fetos leves para a idade gestacional, e não de restrição seletiva.
- Precoce e tardia separam-se às 32 semanas na dicoriónica e às 24 na monocoriónica.
- Na monocoriónica deve-se sobretudo à partilha desigual da massa placentar e da sua circulação.
- A discordância placentar cresce do tipo I para o tipo III, e no tipo III há quase sempre uma anastomose arterioarterial de mais de 2 mm.
- Procura-se sempre outra causa: ecografia morfológica detalhada, serologias de citomegalovírus, rubéola e toxoplasmose, e amniocentese se houver suspeita de anomalia cromossómica.
Classificação de Gratacós na monocoriónica
Pelo fluxo diastólico na artéria umbilical do feto mais pequeno:
| tipo | Doppler da artéria umbilical | prognóstico |
|---|---|---|
| I | fluxo diastólico positivo | sobrevivência global acima de 90% |
| II | fluxo diastólico ausente ou invertido persistente | morte fetal de qualquer dos gémeos em até 29%; sequelas neurológicas em até 15% dos que nascem antes das 30 semanas |
| III | fluxo diastólico ausente ou invertido intermitente, cíclico | morte súbita e imprevisível do mais pequeno em 10 a 20%, mesmo com exames estáveis; morbilidade neurológica do maior em até 20% |
- A classificação foi criada para formas precoces e isoladas; a idade gestacional ao diagnóstico também pesa, e a transfusão feto-fetal sobrepõe-se em 27% das formas precoces.
| tipo de gemelar | conduta |
|---|---|
| Dicoriónica | como a restrição de crescimento da gravidez única: Doppler pelo menos a cada 2 semanas, conduta expectante até às 28 a 30 semanas para não expor o maior à prematuridade, parto pelos critérios de Doppler e cardiotocografia do feto restrito |
| Monocoriónica | crescimento pelo menos a cada 2 semanas e Doppler da artéria umbilical e da artéria cerebral média pelo menos semanal, com ducto venoso se a umbilical estiver alterada; em centro diferenciado |
- Na monocoriónica, as opções são vigilância com parto antecipado, laser ou redução seletiva do feto restrito. Se o risco de morte do mais pequeno antes da viabilidade for real, discute-se a redução seletiva antes das 26 semanas, para proteger o outro.
- A data do parto decide-se pelo Doppler, pelo perfil biofísico e pela cardiotocografia; pode ser antes de qualquer alteração do ducto venoso, porque o risco de morte fetal é maior.
- Na sigla inglesa, TRAP (twin reversed arterial perfusion): uma massa acárdica é perfundida por um gémeo aparentemente normal, o gémeo bomba.
- Rara: 2,5% das monocoriónicas e cerca de 1 em 15 000 gestações.
- A perfusão faz-se em sentido retrógrado por anastomoses arterioarteriais, em regra numa inserção comum dos cordões.
- O gémeo bomba sustenta as duas circulações: circulação hiperdinâmica e insuficiência cardíaca de alto débito progressiva.
- Monocoriónica com um feto normal e uma massa sem coração funcionante, perfundida em sentido inverso no Doppler.
- Na vigilância em centro de medicina fetal procura-se sobrecarga cardíaca do gémeo bomba, poli-hidrâmnio e crescimento da massa, avaliado pelo peso estimado ou pela razão entre o tamanho da massa e o do gémeo bomba.
- Sem tratamento, o gémeo bomba morre em até 30% até às 18 semanas, e a vigilância apertada não impede a morte súbita.
- Interromper o fluxo para a massa acárdica por técnica minimamente invasiva: coagulação ou laqueação do cordão, fotocoagulação das anastomoses, ou técnicas intrafetais como a ablação por radiofrequência e o laser intrafetal.
- Sobrevivência do gémeo bomba de cerca de 80%.
- Pode tratar-se profilaticamente ou só quando surge sobrecarga cardíaca, poli-hidrâmnio ou crescimento da massa; quando é preciso, parece haver vantagem em intervir antes das 16 semanas. Parto pré-termo antes das 32 semanas em cerca de 10%.
- Monoamniótica: os dois fetos no mesmo saco, sem membrana; cerca de 5% das monocoriónicas. Perdas antes das 16 semanas até 50%, sobretudo por anomalias e abortamento; a perda global desceu de cerca de 40% para 10 a 15%.
- Gémeos conjugados: divisão incompleta, cerca de 1 em 100 000 gestações e 1% das monocoriónicas; são sempre monoamnióticos. A forma mais frequente é o toracópago, unido pelo tórax e pelo abdómen, muitas vezes com fígado, coração e intestino partilhados.
- A amnionicidade vê-se a partir das 8 semanas. A ausência de membrana confirma-se por via vaginal, e o entrelaçamento dos cordões no Doppler, com duas ondas arteriais de frequências diferentes na mesma janela, confirma-a.
- Diferencial: monocoriónica diamniótica com a membrana rota, espontânea ou depois de amniocentese, que se comporta como monoamniótica.
- Os conjugados diagnosticam-se hoje no primeiro trimestre: corpos juntos em posição fixa, com a pele fundida em algum ponto. Depois, ecografia detalhada, com ou sem ressonância, para mapear a anatomia cardiovascular e os órgãos partilhados.
- As duas referenciam-se a um centro diferenciado.
Monoamniótica
- Seguimento em centro diferenciado, com corticoterapia pré-natal e cesariana às 32 a 34 semanas: a partir das 32 semanas e 4 dias o risco de morte fetal em curso supera o das complicações neonatais não respiratórias.
- Muitos centros internam a grávida entre as 24 e as 26 semanas e fazem cardiotocografia várias vezes por dia; a vantagem do internamento sobre o ambulatório não está esclarecida (morte fetal de 3% contra 7,4% numa meta-análise, sem diferença significativa numa coorte).
- O parto vaginal não é opção, pelo risco de acidente dos cordões.
- Na redução seletiva, oclusão e secção do cordão, para que o cordão do feto reduzido não estrangule o outro.
Gémeos conjugados
- Aconselhamento multidisciplinar; se a gravidez continuar, cesariana eletiva num centro com cirurgia neonatal, porque o parto vaginal traz risco de distocia e de rotura uterina.
- O entrelaçamento dos cordões existe em praticamente todas as monoamnióticas e, só por si, não aumenta a morbimortalidade; um entalhe na onda da artéria umbilical, sem outros sinais, também não.
- Somam-se a transfusão feto-fetal (6%) e a lesão cerebral (5%), e as anomalias congénitas são mais frequentes.
- Conjugados: dos que continuam a gravidez, só cerca de um quarto sobrevive até à alta, quase sempre com morbilidade.
- Morte intrauterina de um dos fetos, com o outro vivo. As gestações múltiplas, sobretudo as de ordem elevada, têm maior risco de perder um feto longe do termo, e nenhum protocolo de vigilância prevê a maioria destas perdas.
- No primeiro trimestre é o gémeo evanescente, frequente e em regra sem consequências; torna menos fiável o ADN fetal livre e a bioquímica do rastreio.
- Na dicoriónica as circulações são independentes: o risco para o sobrevivente vem sobretudo do parto pré-termo.
- Na monocoriónica as anastomoses ligam as duas circulações. No momento da morte, a resistência do feto morto cai e o sobrevivente perde sangue para ele, com hipotensão grave e hipoperfusão do cérebro e de outros órgãos. O dano dá-se nesse momento, antes de a morte ser diagnosticada.
- Referenciar a centro diferenciado.
- No sobrevivente de uma monocoriónica, velocidade sistólica máxima da artéria cerebral média para procurar anemia, e cardiotocografia para sinais de compromisso. Se estiver normal nos primeiros dias, a anemia é pouco provável depois.
- Uma artéria cerebral média acima de 1,5 múltiplos da mediana associa-se a lesão cerebral mas prevê-a mal (sensibilidade de 70% para 40% de falsos positivos).
- Imagem cerebral fetal 4 a 6 semanas depois da morte do co-gémeo, à procura de lesão.
- Perto do termo, faz-se nascer.
- Longe do termo, a conduta mais adequada é quase sempre continuar a gravidez: o dano neurológico, se existir, já aconteceu, e a cesariana emergente só junta a prematuridade.
- Em conduta conservadora: biometria e Doppler da artéria umbilical e da artéria cerebral média a cada 2 a 4 semanas, e parto às 34 a 36 semanas, depois de corticoterapia.
- Há relatos de transfusão intrauterina do sobrevivente anémico, sem saber se evita a lesão neurológica.
- Se houver evidência forte de lesão neurológica grave, a interrupção tardia da gravidez é uma opção, nos limites da lei.
- Aconselhar os pais sobre o risco de sequelas que podem já ter ocorrido.
| complicação no sobrevivente | monocoriónica | dicoriónica |
|---|---|---|
| Morte do co-gémeo | 15% | 3% |
| Parto antes das 34 semanas | 68% | 54% |
| Imagem cerebral pós-natal alterada | 34% | 16% |
| Alteração do neurodesenvolvimento | 26% | 2% |
- Quanto mais tarde na gravidez ocorre a morte, mais curto é o intervalo até ao parto pré-termo.
- Avaliação do neurodesenvolvimento do sobrevivente aos 2 anos.
Referências
- Khalil A, Sotiriadis A, Baschat A, Bhide A, Gratacós E, Hecher K, et al. ISUOG Practice Guidelines (updated): role of ultrasound in twin pregnancy. Ultrasound Obstet Gynecol. 2025;65(2):253-76.
- Beckmann CRB, Herbert W, Laube D, Ling F, Smith R, Casanova R, et al. Beckmann and Ling's obstetrics and gynecology. 8.ª ed. Filadélfia: Wolters Kluwer; 2019. Capítulo 13 (Multifetal gestation).
- American College of Obstetricians and Gynecologists; Society for Maternal-Fetal Medicine. Multifetal gestations: twin, triplet, and higher-order multifetal pregnancies. ACOG Practice Bulletin No. 231. Obstet Gynecol. 2021;137(6):e145-62.
- American College of Obstetricians and Gynecologists; Society for Maternal-Fetal Medicine. Low-dose aspirin use for the prevention of preeclampsia and related morbidity and mortality. Practice Advisory. Washington, DC: ACOG; 2021.
- National Institute for Health and Care Excellence. Hypertension in pregnancy: diagnosis and management. NICE guideline NG133. Londres: NICE; 2019, atualizada em 2023.
- Quintero RA, Morales WJ, Allen MH, Bornick PW, Johnson PK, Kruger M. Staging of twin-twin transfusion syndrome. J Perinatol. 1999;19(8 Pt 1):550-5.
- Gratacós E, Lewi L, Muñoz B, Acosta-Rojas R, Hernandez-Andrade E, Martinez JM, et al. A classification system for selective intrauterine growth restriction in monochorionic pregnancies according to umbilical artery Doppler flow in the smaller twin. Ultrasound Obstet Gynecol. 2007;30(1):28-34.
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