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Gravidez múltipla

Matriz PNA:D · Diagnóstico

Atualizado em 15 de julho de 2026 · 7 perguntas neste tema

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Em resumo

A gravidez múltipla representa cerca de 1 a 2% dos nascimentos, mas contribui de forma desproporcionada para a morbimortalidade perinatal, sobretudo à custa da prematuridade. A ideia central deste capítulo é simples e decisiva na prática: o que determina o prognóstico e a intensidade da vigilância não é a zigotia, mas a corionicidade. Duas placentas separadas comportam-se de modo muito diferente de uma placenta partilhada com anastomoses vasculares, e essa distinção faz-se melhor no primeiro trimestre, por ecografia. Dominar o sinal do lambda, o sinal do T, o calendário de vigilância e o espectro de complicações exclusivas das monocoriónicas resolve a maioria das perguntas de exame sobre este tema.

Suspeita clínica

A suspeita clínica de gravidez múltipla surge quando a altura uterina excede o esperado para a idade gestacional, quando há hiperémese marcada, quando se palpam múltiplas partes fetais ou se auscultam dois focos cardíacos com frequências distintas, ou perante antecedentes de PMA e indução da ovulação. Estes sinais têm hoje interesse sobretudo académico: na prática o diagnóstico é ecográfico e precoce, no âmbito da vigilância pré-natal (em Portugal, ecografia do primeiro trimestre entre as 11 e as 13 semanas e 6 dias).

O diagnóstico é ecográfico e faz-se no 1.º trimestre

O objetivo da ecografia inicial não termina em "contar fetos". São quatro perguntas obrigatórias:

  1. Quantos fetos? E confirmar viabilidade de cada um.
  2. Qual a corionicidade e a amnionicidade?
  3. Qual a idade gestacional?
  4. Como rotular cada feto?

As Practice Guidelines da ISUOG (atualização de 2025) recomendam determinar a corionicidade antes das 13 semanas e 6 dias, a partir do maior número possível de critérios ecográficos, e guardar no processo uma imagem que a documente. Depois do primeiro trimestre a membrana intergemelar torna-se progressivamente mais fina e de contornos menos definidos, e a fiabilidade da avaliação cai de forma significativa. Se a corionicidade não for determinável, deve pedir-se segunda opinião em centro de referência; enquanto houver dúvida, a gestação é gerida como se fosse monocoriónica, porque é a atitude mais segura.

Sinais ecográficos da corionicidade

O critério de eleição é a observação da inserção da membrana intergemelar na placa coriónica:

  • Sinal do lambda (ou twin peak): projeção triangular de tecido coriónico, com a mesma ecogenicidade da placenta, que se insinua entre as duas camadas de âmnio, na base da membrana. Traduz duas camadas de córion fundidas mais dois âmnios, ou seja, quatro camadas. Significa DICORIÓNICA.
  • Sinal do T: a membrana, fina, encontra a placenta em ângulo reto, sem tecido interposto. Traduz apenas dois âmnios (duas camadas), sem córion. Significa MONOCORIÓNICA.

Critérios de apoio, nunca isolados:

  • Número de massas placentares: duas placentas separadas confirmam dicorionicidade; uma massa única não exclui dicorionicidade (as duas placentas podem estar fundidas).
  • Espessura da membrana: espessa (>2 mm) sugere dicorionicidade; muito fina sugere monocorionicidade.
  • Sexos discordantes: prova de dizigotia, logo dicorionicidade.
  • Ausência de membrana intergemelar com um único saco: sugere monoamnioticidade. Antes de o afirmar, procurar ativamente a membrana com o transdutor de alta frequência ou por via transvaginal, porque uma membrana muito ténue pode passar despercebida. Apoiam a monoamnioticidade o entrelaçamento de cordões (visível em Doppler cor como dois padrões de fluxo com frequências cardíacas diferentes num mesmo emaranhado) e a inserção próxima dos dois cordões.

A nomenclatura correta combina os dois eixos: DC/DA, MC/DA, MC/MA. Não existe gestação dicoriónica monoamniótica.

Erro frequente: concluir "monocoriónica" só porque a ecografia descreve uma placenta única. A massa placentar única é compatível com dicorionicidade fundida; o que decide é o sinal do lambda na inserção da membrana.

Datação e rotulagem

A idade gestacional determina-se pelo CCN do maior feto, para não subestimar a idade gestacional caso o menor já tenha um problema de crescimento. Cada feto deve ser rotulado de forma reprodutível e registada (por exemplo, esquerda/direita ou pela relação com o colo, identificando o gémeo apresentado), com nota do local de inserção do cordão e da posição da placenta. Uma rotulagem inconsistente entre exames inviabiliza a avaliação de discordância de crescimento e pode levar a intervir no feto errado.

Vigilância: o calendário depende da corionicidade

Este é o ponto mais cobrado em exame.

  • Dicoriónica/diamniótica não complicada: ecografia de crescimento cada 4 semanas a partir das ~20 semanas. Parto planeado às 37 semanas (NICE NG137, 2019).
  • Monocoriónica/diamniótica: ecografia cada 2 semanas a partir das ~16 semanas, especificamente para rastrear a síndrome de transfusão feto-fetal (avaliação da maior bolsa vertical de cada saco, visualização das bexigas fetais e Doppler das artérias umbilicais). A partir das 20 semanas acrescenta-se a PSV da artéria cerebral média para rastreio de TAPS. Parto planeado às 36 semanas (NICE NG137, 2019).
  • Monocoriónica/monoamniótica: vigilância intensiva, frequentemente em internamento a partir do limiar de viabilidade, com cardiotocografia repetida. Parto planeado por cesariana entre as 32+0 e as 33+6 semanas segundo a NICE (2019); a ACOG (Practice Bulletin n.º 231, 2021) admite 32+0 a 34+0 semanas.

Em qualquer corionicidade, a vigilância inclui rastreio de pré-eclâmpsia (pressão arterial e proteinúria em cada consulta), hemograma seriado pela elevada prevalência de anemia ferropénica e rastreio de diabetes gestacional. A avaliação morfológica é mais exigente e demorada do que numa gestação única, e o comprimento do colo pode ser usado para estratificar o risco de parto pré-termo, embora nenhuma intervenção baseada nesse rastreio tenha demonstrado benefício consistente nesta população.

Erro frequente: aplicar a uma monocoriónica o intervalo de 4 semanas. Uma STFF pode instalar-se e ser fatal em menos de duas semanas, e é isso que justifica o intervalo quinzenal desde as 16 semanas.

Gravidez múltipla: corionicidade e STFF O que determina o prognóstico não é a zigotia, é a corionicidade. BLOCO A — Corionicidade: o que determina o prognóstico Determinar no 1.º trimestre por ecografia, antes das 13 semanas e 6 dias (ISUOG, 2025).Depois a membrana afina e a avaliação perde fiabilidade. Na dúvida, gerir como monocoriónica. DICORIÓNICA — sinal do lambda (twin peak) membrana espessa — 4 camadas cunha de tecidoplacentar (λ) duas placentas, fundidas ou separadas Sinal do lambda (twin peak): cunha detecido placentar entra na base da membrana. • Membrana espessa (>2 mm), 4 camadas:2 córions fundidos + 2 âmnios. • Placenta própria de cada feto → risco menor;eco de crescimento cada 4 semanas. • Parto planeado às 37 semanas (NICE, 2019). MONOCORIÓNICA — sinal do T membrana fina — 2 camadas ângulo reto,sem cunha (T) placenta única com anastomoses vasculares Sinal do T: membrana fina (2 camadas, sóâmnio), em ângulo reto com a placenta. • Sem cunha de tecido placentar na base. • Placenta partilhada com anastomosesvasculares → STFF, TAPS, TRAP. Risco muito maior: eco cada 2 semanasdesde as ~16 semanas. Parto às 36 semanas. Zigotia: os dizigóticos são sempre dicoriónicos/diamnióticos. Nos monozigóticos a corionicidadedepende do dia da divisão: ≤3 dias → DC/DA (~30%); 4-8 dias → MC/DA (a maioria, ~70%);9-12 dias → MC/MA (~1-5%); >13 dias → gémeos conjugados. Sexos diferentes = dizigóticos edicoriónicos; toda a gestação monocoriónica é monozigótica. BLOCO B — Exclusivo das monocoriónicas: STFF (transfusão feto-fetal) Complica 10-15% das MC/DA, tipicamente entre as 16 e as 26 semanas.Diagnóstico = monocoriónica + discordância de líquido amniótico: bolsa vertical máxima <2 cm nodador e >8 cm no recetor antes das 20 semanas (>10 cm a partir das 20 semanas). DADOR • Hipovolémico e oligúrico. OLIGOÂMNIO: bolsa vertical máxima <2 cm. • Fica colado à parede — stuck twin. • Bexiga pequena ou não visível. • Restrição de crescimento. RECETOR • Hipervolémico e poliúrico. POLI-HIDRÂMNIO: bolsa vertical >8 cm(>10 cm a partir das 20 semanas). • Bexiga distendida. • Risco de insuficiência cardíaca e hidrópsia. Classificação de Quintero (1999) Estadio Critério I Oligoâmnio/poli-hidrâmnio; bexiga do dador ainda visível II Bexiga do dador não visível em toda a observação III Doppler criticamente anormal: diástole ausente/invertida na artéria umbilical,onda a invertida no ducto venoso, fluxo pulsátil na veia umbilical IV Hidrópsia de um dos fetos, habitualmente o recetor V Morte de um ou de ambos os fetos Tratamento de eleição: fotocoagulação laser fetoscópica das anastomoses placentares, emcentro de referência. Estadios II a IV entre as 16 e as 26 semanas (SMFM, 2024). No estadio I,vigilância expectante pelo menos semanal. A amniorredução isolada é alternativa de 2.ª linha. Erro frequente: concluir monocoriónica só porque há uma placenta única. Duas placentas podemestar fundidas; o que decide é a inserção da membrana. Na STFF, o que define não é a discordânciade peso, mas a discordância de líquido amniótico. Não esquecer • Vigilância ecográfica de 2 em 2 semanas nas monocoriónicas desde as ~16 semanas (rastreio deSTFF); ACM-PSV a partir das 20 semanas para rastreio de TAPS. • A morte de um gémeo numa monocoriónica põe o sobrevivente em risco: ~15% de morte e ~18-26%de lesão neurológica isquémica. A cesariana emergente não o resgata: o dano ocorre no momento. • As monoamnióticas têm entrelaçamento de cordões e fazem cesariana pré-termo(32+0 a 33+6 semanas; NICE, 2019). • A PREMATURIDADE é a principal complicação de qualquer gravidez múltipla.
Esquema original InovaQB, baseado nas guidelines ISUOG e NICE da gravidez múltipla e na classificação de Quintero (1999).

Referências

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  2. National Institute for Health and Care Excellence. Twin and triplet pregnancy. NICE guideline NG137. Londres: NICE; 2019.
  3. American College of Obstetricians and Gynecologists; Society for Maternal-Fetal Medicine. Multifetal Gestations: Twin, Triplet, and Higher-Order Multifetal Pregnancies. ACOG Practice Bulletin No. 231. Obstet Gynecol. 2021;137(6):e145-62.
  4. Society for Maternal-Fetal Medicine, Bahtiyar MO, Emery SP, Dashe JS, Wilkins-Haug LE, Johnson A, et al. Society for Maternal-Fetal Medicine Consult Series #72: Twin-twin transfusion syndrome and twin anemia-polycythemia sequence. Am J Obstet Gynecol. 2024;231(4):B16-B37.
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  6. Barrett JF, Hannah ME, Hutton EK, Willan AR, Allen AC, Armson BA, et al. A randomized trial of planned cesarean or vaginal delivery for twin pregnancy (Twin Birth Study). N Engl J Med. 2013;369(14):1295-305.
  7. Gratacós E, Lewi L, Muñoz B, Acosta-Rojas R, Hernandez-Andrade E, Martinez JM, et al. A classification system for selective intrauterine growth restriction in monochorionic pregnancies according to umbilical artery Doppler flow in the smaller twin. Ultrasound Obstet Gynecol. 2007;30(1):28-34.
  8. Slaghekke F, Kist WJ, Oepkes D, Pasman SA, Middeldorp JM, Klumper FJ, et al. Twin anemia-polycythemia sequence: diagnostic criteria, classification, perinatal management and outcome. Fetal Diagn Ther. 2010;27(4):181-90.
  9. Senat MV, Deprest J, Boulvain M, Paupe A, Winer N, Ville Y. Endoscopic laser surgery versus serial amnioreduction for severe twin-to-twin transfusion syndrome. N Engl J Med. 2004;351(2):136-44.
  10. Hillman SC, Morris RK, Kilby MD. Co-twin prognosis after single fetal death: a systematic review and meta-analysis. Obstet Gynecol. 2011;118(4):928-40.
  11. American College of Obstetricians and Gynecologists. Low-Dose Aspirin Use for the Prevention of Preeclampsia and Related Morbidity and Mortality. ACOG Practice Advisory. Washington, DC: ACOG; 2021.
  12. Direção-Geral da Saúde. Organização dos cuidados de saúde na preconceção, gravidez e puerpério. Norma n.º 001/2023, de 27/01/2023, atualizada a 23/03/2026. Lisboa: DGS; 2026.
  13. Direção-Geral da Saúde. Exames Ecográficos na Gravidez de Baixo Risco. Norma n.º 023/2011, de 29/09/2011, atualizada a 21/05/2013. Lisboa: DGS; 2013.
  14. Cunningham FG, Leveno KJ, Dashe JS, Hoffman BL, Spong CY, Casey BM, editores. Williams Obstetrics. 26.ª ed. Nova Iorque: McGraw Hill; 2022. Capítulo Multifetal Pregnancy.

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