Assistência ao parto normal
Atualizado em 28 de setembro de 2026 · 14 perguntas neste tema
O parto normal é o que começa espontaneamente numa grávida de baixo risco, se mantém de baixo risco durante todo o trabalho de parto e termina com o nascimento espontâneo de um feto em apresentação de vértice, entre as 37 e as 42 semanas completas, com mãe e recém-nascido bem. Divide-se em quatro estadios: dilatação, expulsão, dequitadura e as duas horas seguintes, e o feto atravessa a bacia por uma sequência de movimentos em que a flexão e a rotação interna apresentam à bacia os menores diâmetros da cabeça.
A mudança que mais pesa na prática é a da progressão. A curva de Friedman, dos anos 50, pôs o início da fase ativa nos 4 cm e exigia cerca de 1 cm por hora; os dados atuais mostram que a dilatação só acelera entre os 5 e os 6 cm e que muitas mulheres dilatam mais devagar sem prejuízo. A OMS marca o início da fase ativa nos 5 cm e troca a cadência fixa por tempos de alerta em cada centímetro; a guideline americana de 2024 marca-o nos 6 cm e só aceita paragem da fase ativa a partir daí, com membranas rotas e 4 horas de contrações adequadas sem progressão.
No baixo risco o feto vigia-se por auscultação intermitente: a cardiotocografia contínua não reduz a mortalidade perinatal nem a paralisia cerebral e aumenta as cesarianas e os partos instrumentados. O segundo estadio considera-se prolongado acima de 3 horas de puxos na nulípara e de 2 horas na multípara, e daí em diante decide-se caso a caso. No terceiro estadio dá-se ocitocina 10 UI a todas as mulheres, clampa-se o cordão não antes de 1 minuto e a tração controlada do cordão é opcional.
O que não se pode falhar é diagnosticar distocia antes dos 6 cm, pôr cardiotocografia contínua de rotina numa grávida de baixo risco, fazer episiotomia de rotina ou pressão no fundo uterino, e deixar o terceiro estadio sem uterotónico.
Toque vaginal
- Em cada toque: dilatação, apagamento, estação, posição da apresentação e estado das membranas, registados em gráfico para que o desvio se veja.
- Na fase ativa de baixo risco, a OMS recomenda o toque de 4 em 4 horas; repete-se mais cedo quando a informação muda a decisão, por exemplo com desacelerações marcadas, para excluir procidência do cordão.
- Evita-se o toque na hemorragia vaginal, na placenta prévia e na rotura prematura de membranas.
Da curva de Friedman aos dados contemporâneos
| Friedman, anos 50 | Dados contemporâneos, 2010 | |
|---|---|---|
| Início da fase ativa | 3 a 4 cm | cerca de 6 cm |
| Percentil 95 da fase latente, nulípara | 20 horas | 4,5 a 15,7 horas, conforme o colo à admissão |
| Ritmo de dilatação na fase ativa, percentil 95 (o mais lento ainda normal) | 1,2 cm por hora na nulípara e 1,5 na multípara | 0,5 a 0,7 cm por hora na nulípara e 0,5 a 1,3 na multípara |
A dilatação pode levar mais de 6 horas a passar dos 4 para os 5 cm e mais de 3 horas dos 5 para os 6 cm sem que isso seja anormal. Daqui saíram as definições atuais.
Fase latente prolongada
- A definição clássica é de mais de 20 horas na nulípara e 14 na multípara; a guideline americana de 2024 admite, com os dados atuais, um limite de 16 horas na nulípara.
- Não há definição validada de paragem da fase latente. A maioria destas mulheres entra na fase ativa com conduta expectante, e as restantes deixam de contrair ou progridem com amniotomia ou ocitocina.
- Não se faz cesariana por fase latente prolongada com mãe e feto bem.
Fase ativa: as duas réguas em uso
A OMS não usa uma cadência mínima: diz que 1 cm por hora é rápido demais para muitas mulheres e que, só por si, uma dilatação mais lenta não é indicação para intervir. O guia de cuidados ao trabalho de parto da OMS, de 2020, substituiu as linhas de alerta e de ação do partograma antigo por tempos de alerta em cada centímetro:
| Dilatação que não avança | Alerta a partir de |
|---|---|
| 5 cm | 6 horas |
| 6 cm | 5 horas |
| 7 cm | 3 horas |
| 8 cm | 2,5 horas |
| 9 cm | 2 horas |
O alerta obriga a chamar um médico sénior e a reavaliar, não a extrair.
A guideline americana de 2024 define:
- Protração da fase ativa, de forma conservadora, como menos de 1 cm de dilatação em 2 horas.
- Paragem da fase ativa: 6 cm ou mais, membranas rotas e nenhuma progressão apesar de 4 horas de contrações adequadas, ou de 6 horas de ocitocina com contrações que se mantêm inadequadas. Abaixo dos 6 cm não se aplicam critérios de paragem.
Segundo estadio prolongado
- Guideline americana de 2024: prolongado com mais de 3 horas de puxos na nulípara e mais de 2 horas na multípara. Daí em diante a decisão é individual: progressão da descida, probabilidade de parto vaginal, riscos e preferência da mulher.
- A mesma guideline já não dá limites diferentes consoante haja ou não epidural; a epidural entra na decisão individual. A separação por epidural é das definições antigas (nulípara mais de 3 horas com anestesia regional e mais de 2 sem; multípara mais de 2 com e mais de 1 sem), que o consenso americano de 2014 alargou em uma hora.
- A OMS informa que o segundo estadio fica habitualmente concluído em 3 horas no primeiro parto e em 2 nos seguintes, e usa esses tempos como alerta.
- A paragem do segundo estadio pode reconhecer-se mais cedo quando não há rotação nem descida apesar de contrações, puxos e tempo adequados.
Monitorização fetal intraparto
Auscultação intermitente, com Pinard ou doppler, é a recomendada no baixo risco. Pela federação internacional de ginecologia e obstetrícia (FIGO):
| Como | |
|---|---|
| Duração | pelo menos 60 segundos |
| Momento | durante a contração e até pelo menos 30 segundos depois |
| Intervalo | a cada 15 minutos na fase ativa do primeiro estadio e a cada 5 minutos no segundo |
| Registar também | contrações em 10 minutos e frequência cardíaca materna, para não a confundir com a fetal |
O guia da OMS aceita avaliar a frequência cardíaca fetal a cada 30 minutos no primeiro estadio e a cada 5 minutos no segundo.
- Face à auscultação intermitente, a cardiotocografia contínua reduz para metade as convulsões neonatais mas não reduz a mortalidade perinatal nem a paralisia cerebral, e aumenta as cesarianas e os partos instrumentados. A OMS não a recomenda nas mulheres saudáveis em trabalho de parto espontâneo nem como exame de rotina à admissão.
- Passa-se à cardiotocografia contínua com fatores de risco: hemorragia vaginal, dor abdominal aguda, febre de 38 °C ou mais, trabalho de parto ou rotura de membranas pré-termo, hipertensão ou alteração na auscultação. No guia da OMS, o mecónio espesso e as desacelerações tardias na auscultação são critérios de alerta.
Interpretação da cardiotocografia
Classificação da FIGO, de 2015, revista pelo menos a cada 30 minutos:
| Normal | Suspeito | Patológico | |
|---|---|---|---|
| Linha de base | 110 a 160 por minuto | falta pelo menos uma característica do normal, sem nenhuma do patológico | menos de 100 por minuto |
| Variabilidade | 5 a 25 por minuto | reduzida mais de 50 minutos, aumentada mais de 30 minutos, ou padrão sinusoidal mais de 30 minutos | |
| Desacelerações | sem desacelerações repetitivas | tardias ou prolongadas repetitivas durante mais de 30 minutos, ou 20 se a variabilidade estiver reduzida, ou uma prolongada de mais de 5 minutos | |
| Leitura | sem hipoxia nem acidose | baixa probabilidade de hipoxia | alta probabilidade de hipoxia ou acidose |
| Conduta | nenhuma intervenção | corrigir causas reversíveis e vigiar de perto | corrigir de imediato causas reversíveis e avaliar a oxigenação fetal ou acelerar o parto |
Desacelerações repetitivas são as que acompanham mais de metade das contrações. As acelerações indicam um feto sem hipoxia, mas a sua ausência no trabalho de parto tem significado incerto.
Reanimação intrauterina
Um traçado suspeito ou patológico não obriga logo a cesariana; muitas vezes a causa corrige-se:
- Excesso de atividade uterina, a causa mais frequente: reduzir ou suspender a ocitocina e, se preciso, tocólise aguda.
- Compressão aortocava em decúbito dorsal: virar a mulher para o lado.
- Hipotensão depois da analgesia do neuroeixo: fluidos rápidos e, se preciso, efedrina endovenosa.
- No segundo estadio, pedir que pare de puxar até o traçado recuperar.
- O oxigénio materno e os fluidos na mulher normotensa não têm eficácia demonstrada.
Na procidência do cordão, na rotura uterina e no descolamento da placenta, o parto é imediato.
Diagnóstico diferencial
| Situação | O que a distingue |
|---|---|
| Falso trabalho de parto | contrações irregulares, colo inalterado |
| Fase latente prolongada | abaixo dos 5 a 6 cm; não justifica cesariana |
| Paragem da fase ativa | 6 cm ou mais, membranas rotas, 4 horas de contrações adequadas sem progressão |
| Paragem do segundo estadio | sem descida nem rotação apesar de puxos e contrações adequados |
| Rotura de membranas sem trabalho de parto | perda de líquido sem modificação do colo |
A assistência ao parto normal é acompanhar a fisiologia, vigiar os limites e intervir quando um limite é ultrapassado ou o bem-estar da mãe ou do feto se compromete.
Cuidados gerais
- Acompanhante à escolha durante todo o trabalho de parto. O apoio contínuo reduz a necessidade de analgesia e de ocitocina, as cesarianas e os partos instrumentados, e os índices de Apgar abaixo de 7 aos 5 minutos, sem efeitos adversos conhecidos.
- Mobilidade e posição vertical no baixo risco. O decúbito dorsal comprime a veia cava e pode causar hipotensão; o decúbito lateral esquerdo evita-o.
- Líquidos e alimentos por via oral são recomendados pela OMS nas mulheres de baixo risco.
- A OMS não recomenda, para prevenir um trabalho de parto demorado: amniotomia isolada, amniotomia precoce com ocitocina precoce, o pacote de condução ativa do trabalho de parto, ocitocina por rotina nas mulheres com epidural, antiespasmódicos nem fluidos endovenosos. Também não recomenda o enema nem a tricotomia perineal de rotina.
Primeiro estadio
- Na fase latente com mãe e feto bem, espera-se; a cesariana por fase latente prolongada deve evitar-se.
- A OMS não recomenda ocitocina nem cesariana para acelerar o trabalho de parto antes dos 5 cm, se mãe e feto estão bem.
- Quando a fase ativa progride mal, as opções são vigiar, amniotomia, ocitocina e apoio contínuo. A amniotomia pode dispensar a ocitocina, mas associa-se a desacelerações por compressão do cordão e a mais corioamnionite: avalia-se a frequência cardíaca fetal antes e logo depois.
- A ocitocina pondera-se com menos de 3 contrações em 10 minutos, depois de excluir desproporção e com o feto bem. O objetivo é dilatação e descida sem taquissistolia, definida como mais de 5 contrações em 10 minutos, em média ao longo de 30 minutos.
- Se a mulher tiver vontade de puxar antes da dilatação completa, desencoraja-se o puxo, para não edemaciar o colo.
Segundo estadio
- Puxo espontâneo, pela vontade da mulher, e posição à escolha dela, incluindo as verticais, com ou sem epidural.
- Com epidural, quando começar a puxar é onde as guidelines divergem. A guideline americana de 2024 recomenda puxar logo à dilatação completa, porque adiar alonga o segundo estadio e, num ensaio grande, associou-se a mais hemorragia pós-parto, corioamnionite e acidemia neonatal. A OMS admite adiar 1 a 2 horas, ou até voltar a vontade de puxar, onde haja meios para vigiar um segundo estadio mais longo.
- Proteção do períneo: massagem perineal, compressas quentes e apoio manual do períneo, com saída controlada da cabeça. A manobra de Ritgen modificada ajuda a extensão da cabeça.
- Episiotomia: a OMS não recomenda o uso por rotina nem liberal. Faz-se só com indicação concreta, e a médio-lateral é preferível à mediana, que tem mais lesões do esfíncter anal e do reto.
- Pressão manual no fundo uterino, a chamada manobra de Kristeller, não é recomendada.
- Depois da cabeça, tração suave para baixo liberta o ombro anterior e tração para cima o posterior, sem força excessiva no pescoço, para não lesar o plexo braquial.
Terceiro estadio
Os sinais de descolamento da placenta são a subida e globulização do fundo uterino, o jorro de sangue e o alongamento do cordão.
O que a OMS recomenda para todos os partos vaginais:
| Componente | Recomendação |
|---|---|
| Uterotónico profilático | ocitocina 10 UI por via intramuscular ou endovenosa a todas as mulheres; sem ocitocina, outro uterotónico injetável ou misoprostol oral 600 µg |
| Clampagem do cordão | não antes de 1 minuto depois do nascimento |
| Tração controlada do cordão | opcional, feita por quem tem treino, se a mulher e o profissional valorizam uma pequena redução da perda de sangue e da duração do estadio |
| Massagem uterina sustentada | não recomendada em quem recebeu ocitocina |
| Tónus uterino | avaliação abdominal do tónus em todas as mulheres, para detetar cedo a atonia |
- A ocitocina é a peça do manejo ativo que traz o benefício; a clampagem precoce saiu do pacote.
- A clampagem tardia não aumenta a hemorragia pós-parto grave, aumenta a hemoglobina e as reservas de ferro do lactente, e a clampagem precoce duplica a ferropenia aos 3 a 6 meses. Em troca, há um pouco mais de icterícia com fototerapia.
- A tração do cordão faz-se com contrapressão suprapúbica, que segura o fundo uterino; tração excessiva pode provocar inversão uterina.
- Depois da dequitadura: confirmar que o útero contraiu, inspecionar a placenta e as membranas e o cordão, com duas artérias e uma veia, e rever sistematicamente o canal de parto. As lacerações do colo encontram-se sobretudo às 3 e às 9 horas.
Lacerações perineais
| Grau | Atinge |
|---|---|
| Primeiro | pele do períneo ou mucosa vaginal |
| Segundo | músculos do períneo, sem o esfíncter anal |
| Terceiro, 3a | menos de 50% da espessura do esfíncter anal externo |
| Terceiro, 3b | mais de 50% do esfíncter anal externo |
| Terceiro, 3c | esfíncter anal externo e interno |
| Quarto | complexo esfincteriano e mucosa anorretal |
A OMS não recomenda antibiótico profilático de rotina no parto vaginal sem complicações nem na episiotomia.
Quarto estadio
- A primeira hora é a de maior risco de complicações graves. Palpa-se o útero para confirmar que está firme e vigiam-se perdas, pulso e pressão arterial.
- A OMS recomenda avaliar perdas vaginais, contração uterina, altura do fundo, temperatura e pulso regularmente nas primeiras 24 horas; medir a pressão arterial pouco depois do parto e, se normal, outra vez nas 6 horas seguintes; e documentar a primeira micção nas primeiras 6 horas.
- Depois de um parto vaginal sem complicações, mãe e recém-nascido ficam pelo menos 24 horas na instituição.
Recém-nascido
- Contacto pele com pele durante a primeira hora, para prevenir a hipotermia e favorecer a amamentação; mamar logo que ambos estejam estáveis.
- Sem aspiração da boca e do nariz no recém-nascido que respira com líquido claro.
- Vitamina K 1 mg intramuscular, depois da primeira hora.
- Banho adiado para as 24 horas, e mãe e filho no mesmo quarto.
Analgesia
- A analgesia do neuroeixo (epidural ou combinada epidural e raquidiana) é a mais eficaz, oferece-se em qualquer fase do trabalho de parto a quem a pede e não há dilatação mínima a esperar.
- Não aumenta a taxa de cesariana, nem o tipo de técnica nem o momento em que se inicia. Nos ensaios antigos aumentava os partos instrumentados, efeito que desaparece nos ensaios posteriores a 2005.
- Associa-se a hipotensão, bloqueio motor, febre e retenção urinária, a trabalho de parto mais longo e a mais uso de ocitocina; tem menos náuseas, vómitos e depressão respiratória do que os opioides.
- Alternativas: opioides parentéricos, como fentanilo ou petidina, e técnicas não farmacológicas (relaxamento, respiração, massagem, calor local), conforme a preferência da mulher.
- O bloqueio do pudendo anestesia o períneo para o parto e para a reparação de lacerações.
Referências
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