Vulvovaginites e doenças sexualmente transmitidas
Atualizado em 28 de setembro de 2026 · 18 perguntas neste tema
O corrimento vaginal é um dos motivos mais frequentes de consulta de ginecologia, e três infeções explicam a maioria dos casos: a vaginose bacteriana, a candidíase vulvovaginal e a tricomoníase. Distinguem-se no consultório com o pH vaginal, o teste das aminas e a microscopia, e distinguem-se também no que obrigam a fazer: só a tricomoníase é uma infeção sexualmente transmissível e só nela se trata o parceiro.
O corrimento que vem do colo e não da parede vaginal é outra doença. A cervicite por Chlamydia trachomatis ou Neisseria gonorrhoeae é muitas vezes silenciosa, confirma-se por amplificação de ácidos nucleicos e, se não for tratada, sobe ao endométrio e às trompas. A doença inflamatória pélvica que daí resulta é a principal causa evitável de infertilidade tubária e de gravidez ectópica, e é por isso que se trata empiricamente com um limiar clínico baixo.
As úlceras genitais separam-se pela dor: a dolorosa, em grupo de vesículas, é herpes; a indolor e endurecida é o cancro da sífilis primária, que cura sozinho e volta semanas depois como exantema das palmas e das plantas.
Os tratamentos mudaram na última década: a gonorreia trata-se com ceftriaxona em dose alta, a clamídia com doxiciclina durante 7 dias, e a doença inflamatória pélvica com ceftriaxona, doxiciclina e metronidazol. Na grávida muda o fármaco da clamídia e a abordagem da alergia à penicilina na sífilis. O que não se pode falhar é a doença inflamatória pélvica por tratar à espera de exames, a sífilis na grávida e o parceiro esquecido.
- Vulvovaginite é o conjunto de situações que causam sintomas vulvares ou vaginais: prurido, ardor, irritação e corrimento anómalo.
- Nas mulheres com sintomas, as causas mais frequentes são a vaginose bacteriana (22 a 50%), a candidíase vulvovaginal (17 a 39%) e a tricomoníase (4 a 35%).
- Até 70% das vaginites ficam sem diagnóstico; aí entram a vaginite atrófica, as dermatoses vulvares e a vulvodinia.
- Nem todo o corrimento é doença: a mulher sem queixas produz cerca de 1,5 g por dia de secreção inodora, sobretudo muco do colo com células descamadas da parede.
Vaginites que não são infeciosas
| entidade | quem | o que a distingue | tratamento |
|---|---|---|---|
| Vaginite atrófica | pós-menopausa, amamentação | secura, dispareunia, pH de 4,7 ou mais, células parabasais, aminas negativo | hidratantes vaginais, estrogénio tópico |
| Vaginite inflamatória descamativa | peri e pós-menopausa | corrimento purulento, pH acima de 4,5, muitos leucócitos, sem tricomonas | clindamicina creme a 2% durante 14 dias |
| Vaginite irritativa ou alérgica | qualquer idade | relação com duches, espermicidas, pensos diários ou produtos de higiene | suspender o agente |
- Com a puberdade, os estrogénios enchem de glicogénio o epitélio vaginal. Os lactobacilos transformam-no em ácido lático e baixam o pH para 3,8 a 4,2; antes da puberdade e depois da menopausa o pH fica entre 6 e 8.
- A flora normal tem também anaeróbios e aeróbios, cerca de 5 anaeróbios para cada aeróbio. O que protege é o predomínio dos lactobacilos, não a ausência dos outros.
- Perturbam o equilíbrio: antibióticos, duches vaginais, hipoestrogenismo, sémen e sangue menstrual, que são alcalinos.
| infeção | o que acontece à flora | pH | inflamação |
|---|---|---|---|
| Candidíase | a levedura prolifera, os lactobacilos ficam | normal | sim, na vulva e na vagina |
| Vaginose bacteriana | os lactobacilos desaparecem e os anaeróbios multiplicam-se | alto | pouca, poucos leucócitos |
| Tricomoníase | um protozoário parasita o epitélio | alto | intensa, muitos leucócitos |
Colheita
- História: tipo de corrimento, odor, prurido, relação com o ciclo e com as relações sexuais, tratamentos já feitos (incluindo automedicação) e história sexual.
- Exame com espéculo: o corrimento vem da parede vaginal ou do orifício do colo? O mucopurulento do colo é cervicite e segue outro caminho.
- Três testes de consultório: pH vaginal (fita na parede lateral, longe do muco do colo), teste das aminas (hidróxido de potássio, KOH, a 10%) e microscopia a fresco em soro fisiológico e com KOH.
As três vulvovaginites lado a lado
| Candidíase | Vaginose bacteriana | Tricomoníase | |
|---|---|---|---|
| queixa principal | prurido, ardor, disúria externa | odor a peixe, pior depois do coito | corrimento abundante, prurido, disúria, dispareunia |
| corrimento | branco, espesso, grumoso, sem odor | fino, homogéneo, branco-acinzentado, aderente | amarelo-esverdeado, espumoso |
| vulva e vagina | eritema, edema, escoriações | sem inflamação | eritema; colo em morango em cerca de 10% |
| pH | 4,5 ou menos | acima de 4,5 | acima de 4,5 |
| teste das aminas | negativo | positivo | frequentemente positivo |
| microscopia | hifas e pseudo-hifas | células indicadoras, poucos leucócitos, sem lactobacilos | protozoário móvel, muitos leucócitos |
| infeção sexualmente transmissível | não | não | sim |
- Cerca de 75% das mulheres têm pelo menos um episódio na vida.
- A Candida albicans causa cerca de 90% dos casos; o resto é sobretudo Candida glabrata, que resiste aos azóis.
- A Candida é comensal; a doença é proliferação, não contágio. Não se considera infeção sexualmente transmissível, embora cerca de 10% dos parceiros tenham balanite.
- Favorecem-na: antibióticos de largo espetro, gravidez, diabetes, obesidade, imunossupressão, corticoides, contracetivos orais, roupa justa e pensos diários.
- Precisa de epitélio estrogenizado: é da idade fértil, rara antes da menarca e depois da menopausa.
- Prurido é a queixa dominante; também ardor, disúria externa e dispareunia.
- Vulva e vagina vermelhas, com edema e, nos casos graves, escoriações e fissuras.
- Corrimento branco, espesso, aderente, em «requeijão», sem odor. Pode faltar.
- Até 20% das mulheres com Candida não têm sintomas, e a colonização sem queixas não se trata.
- Diagnóstico: mulher com sintomas e hifas, pseudo-hifas ou leveduras na microscopia com hidróxido de potássio, ou cultura positiva, com pH normal.
- A cultura reserva-se para a microscopia negativa com clínica sugestiva e para a doença recorrente ou refratária, para identificar a espécie: a glabrata não forma pseudo-hifas e escapa à microscopia.
- Quem se automedicou deve parar o tratamento 3 dias antes da observação.
Não complicada ou complicada
| não complicada (todos os critérios) | complicada (basta um) |
|---|---|
| episódios esporádicos | recorrente: 3 ou mais episódios num ano |
| sintomas ligeiros a moderados | sintomas ou sinais graves |
| provável Candida albicans | espécie que não é albicans |
| mulher imunocompetente | diabetes mal controlada, imunossupressão, gravidez |
- A definição clássica de recorrência exigia 4 episódios por ano; a guideline americana de 2021 baixou-a para 3.
- Na recorrente procura-se diabetes e outra causa de imunossupressão.
| situação | tratamento |
|---|---|
| Não complicada | fluconazol 150 mg oral em toma única, ou azol vaginal (clotrimazol, miconazol) durante 1 a 7 dias, conforme a formulação |
| Grave | fluconazol 150 mg em duas tomas separadas por 72 horas, ou azol tópico durante 7 a 14 dias |
| Recorrente | indução com azol tópico durante 7 a 14 dias ou fluconazol de 72 em 72 horas em 3 tomas; depois fluconazol semanal durante 6 meses |
| Espécie que não é albicans | azol que não seja o fluconazol durante 7 a 14 dias; se recorrer, ácido bórico 600 mg vaginal por dia durante 3 semanas |
| Gravidez | só azol tópico, durante 7 dias; fluconazol oral não |
- A manutenção semanal evita as recorrências em cerca de metade das mulheres.
- O parceiro não se trata, a não ser que tenha balanite.
- É a causa mais frequente de corrimento na idade fértil.
- Não é uma infeção por um agente, é uma disbiose: desaparecem os lactobacilos produtores de peróxido de hidrogénio e crescem anaeróbios facultativos e estritos, como Gardnerella vaginalis, Mycoplasma hominis, Prevotella, Atopobium vaginae e Mobiluncus.
- Os anaeróbios produzem aminas, que dão o odor a peixe e o tornam pior depois do coito, porque o sémen é alcalino.
- Há pouca inflamação: por isso o nome é vaginose e não vaginite.
- Associa-se a múltiplos parceiros e a duches vaginais, mas não é infeção sexualmente transmissível e aparece também em mulheres sem atividade sexual.
- Odor a peixe e corrimento fino, homogéneo, branco-acinzentado, que forra a parede vaginal.
- Irritação vulvar ligeira em cerca de 25%; muitas mulheres não têm sintomas.
- Vulva e colo sem sinais inflamatórios.
Critérios de Amsel, 3 dos 4
- Corrimento fino e homogéneo.
- Células indicadoras na microscopia: células epiteliais cobertas de bactérias, de bordos indistintos.
- pH acima de 4,5.
- Teste das aminas positivo: odor a peixe antes ou depois de juntar hidróxido de potássio a 10%.
Score de Nugent
-
Padrão de referência laboratorial, por coloração de Gram do esfregaço vaginal, que conta os morfotipos de lactobacilos e de anaeróbios: 0 a 3 flora normal, 4 a 6 intermédia, 7 a 10 vaginose.
-
A Gardnerella faz parte da flora normal: encontrá-la em cultura ou numa citologia não faz o diagnóstico, e a cultura não se pede.
-
A mulher sem sintomas com vaginose na citologia não precisa de avaliação nem de tratamento.
- Trata-se a mulher com sintomas, grávida ou não.
| esquema | dose |
|---|---|
| Metronidazol oral | 500 mg duas vezes por dia durante 7 dias |
| Metronidazol gel vaginal a 0,75% | um aplicador por dia durante 5 dias |
| Clindamicina creme vaginal a 2% | um aplicador ao deitar durante 7 dias |
| Alternativas | clindamicina oral 300 mg duas vezes por dia durante 7 dias; tinidazol |
- Não se trata o parceiro: não reduz as recorrências.
- Na grávida com sintomas usam-se os mesmos esquemas; o metronidazol não mostrou teratogenicidade. Não se rastreia nem se trata a grávida sem sintomas.
- A guideline americana de 2021 deixou de exigir abstinência de álcool durante o metronidazol.
- Recorrências frequentes: metronidazol gel vaginal duas vezes por semana durante mais de 3 meses depois de um tratamento completo.
- Recorre com frequência depois de um tratamento eficaz.
- Na mulher não grávida associa-se a doença inflamatória pélvica, a infeção depois de cirurgia ginecológica e a maior risco de adquirir vírus da imunodeficiência humana (VIH) e herpes. Tratar não mostrou baixar o risco de VIH ou de herpes.
- Na gravidez associa-se a rotura prematura de membranas e parto pré-termo; o rastreio universal não mostrou benefício.
- Trichomonas vaginalis, protozoário flagelado que vive na vagina, na uretra e nas glândulas de Skene; no homem, na uretra.
- Transmissão sexual: é a infeção sexualmente transmissível não viral mais comum. Coexiste muitas vezes com outras infeções sexualmente transmissíveis e com vaginose bacteriana, e facilita a transmissão do VIH.
- Adere ao epitélio escamoso e provoca inflamação intensa: muitos leucócitos, eritema e petéquias do colo.
- Muitas mulheres não têm sintomas, e a maioria dos homens também não.
- Corrimento abundante, fino, amarelo-esverdeado e espumoso, com mau odor; prurido e ardor vulvar, disúria, dispareunia, hemorragia depois do coito.
- Colo em morango (petéquias), que se vê a olho nu em cerca de 10%.
- Microscopia a fresco: protozoário móvel e muitos leucócitos. É específica mas pouco sensível, 44 a 68%, e perde sensibilidade se a lâmina não for vista logo.
- O teste preferido é a amplificação de ácidos nucleicos em zaragatoa vaginal ou urina.
- Com o diagnóstico rastreiam-se as outras infeções sexualmente transmissíveis: clamídia, gonorreia, sífilis e VIH.
- O diferencial é a vaginite inflamatória descamativa, que tem leucócitos e pH alto mas não tem tricomonas.
| quem | esquema |
|---|---|
| Mulher | metronidazol 500 mg duas vezes por dia durante 7 dias, que cura mais do que a toma única |
| Homem | metronidazol 2 g em toma única |
| Alternativa | tinidazol 2 g em toma única, fora da gravidez |
| Grávida | metronidazol 500 mg duas vezes por dia durante 7 dias, em qualquer trimestre |
- Trata-se o parceiro ao mesmo tempo, e o casal fica sem relações até ambos terminarem e deixarem de ter sintomas.
- A mulher repete o teste cerca de 3 meses depois, pela frequência da reinfeção.
- A resistência ao metronidazol existe mas é rara; trata-se com doses altas de tinidazol.
- Associa-se a doença inflamatória pélvica, endometrite, infertilidade e gravidez ectópica.
- Na gravidez: parto pré-termo, rotura prematura de membranas e baixo peso ao nascer. Tratar a grávida é indicado, mas não mostrou prevenir estas complicações.
- Reinfeção frequente quando o parceiro não é tratado.
- Inflamação do epitélio colunar do endocolo, definida por dois sinais: exsudado mucopurulento endocervical e hemorragia fácil ao passar uma zaragatoa no canal.
- Os agentes identificáveis são sobretudo Chlamydia trachomatis e Neisseria gonorrhoeae; em muitos casos não se encontra agente.
- A clamídia é a infeção bacteriana sexualmente transmissível mais notificada; a gonorreia é a segunda. As duas atingem sobretudo mulheres com menos de 25 anos.
- Cerca de 20 a 50% das pessoas com uma infeção sexualmente transmissível têm outra ao mesmo tempo.
- Chlamydia trachomatis: bactéria intracelular obrigatória, que não produz o seu próprio trifosfato de adenosina e infeta o epitélio colunar do endocolo, da uretra e do reto. Na maioria das mulheres não dá sintomas, e é assim que sobe às trompas sem ser tratada.
- Neisseria gonorrhoeae: diplococo Gram-negativo intracelular. Os sintomas, quando existem, aparecem 3 a 5 dias depois do contágio, e atinge também a uretra, as glândulas de Skene e de Bartholin, o reto e a faringe.
- A resistência do gonococo é o que muda os tratamentos: as quinolonas foram abandonadas e a ceftriaxona passou para doses mais altas.
- Os serotipos L1, L2 e L3 da clamídia causam o linfogranuloma venéreo, que invade os gânglios linfáticos.
- A maioria das mulheres não tem sintomas.
- Quando os há: corrimento, hemorragia intermenstrual ou depois do coito, disúria (uretrite), por vezes com leucocitúria e urocultura negativa.
- Colo friável, com ectopia e exsudado mucopurulento.
- Gonococo: abcesso da glândula de Bartholin, proctite e faringite.
- Linfogranuloma venéreo: pápula ou úlcera fugaz, depois adenopatia inguinal dolorosa, muitas vezes unilateral, que pode fistulizar; por via anal, proctocolite.
- Amplificação de ácidos nucleicos para clamídia e gonococo: é o teste mais sensível. Serve em zaragatoa vaginal, colhida pela própria ou pelo médico, em zaragatoa endocervical ou em urina de primeiro jato.
- Reto e faringe testam-se conforme as práticas sexuais.
- Cultura do gonococo com antibiograma quando há falência do tratamento, pela vigilância das resistências.
- Com o diagnóstico: rastrear tricomoníase, vaginose, sífilis e VIH, e procurar doença inflamatória pélvica (dor à mobilização do colo e anexial).
- Cervicite que persiste depois do tratamento, sem reinfeção: pesquisar Mycoplasma genitalium e causas não infeciosas.
Clamídia
- Doxiciclina 100 mg duas vezes por dia durante 7 dias, que é agora primeira linha. Alternativas: azitromicina 1 g em toma única, levofloxacina 500 mg por dia durante 7 dias.
- Linfogranuloma venéreo: doxiciclina durante 21 dias.
- Sem relações durante 7 dias depois de uma toma única ou até acabar os 7 dias de tratamento.
Gonorreia
| guideline | esquema |
|---|---|
| Estados Unidos, 2021 | ceftriaxona 500 mg intramuscular em dose única; 1 g a partir dos 150 kg |
| Europa, 2020, sensibilidade desconhecida | ceftriaxona 1 g intramuscular com azitromicina 2 g oral; ceftriaxona 1 g isolada só em contexto controlado |
- Se a clamídia não estiver excluída, junta-se doxiciclina durante 7 dias.
- Alergia às cefalosporinas: gentamicina 240 mg intramuscular com azitromicina 2 g oral.
- Quinolonas não, pela resistência.
- Faringe: teste de cura 7 a 14 dias depois. A guideline europeia pede teste de cura em todos.
Cervicite antes do resultado
- Tratar logo com doxiciclina quem tem menos de 25 anos, parceiro novo ou seguimento incerto; juntar ceftriaxona se houver risco de gonorreia.
Depois
- Testar e tratar os parceiros dos 60 dias anteriores.
- Repetir o teste aos 3 meses em quem teve clamídia ou gonorreia, pela reinfeção.
- Clamídia e gonorreia são de notificação obrigatória em Portugal.
- Doença inflamatória pélvica em 10 a 40% das infeções do colo não tratadas, com infertilidade, gravidez ectópica e dor pélvica crónica.
- Infeção gonocócica disseminada: febre, poucas pústulas hemorrágicas nas extremidades, tenossinovite e poliartralgia migratória, ou artrite purulenta de uma articulação.
- Abcesso da glândula de Bartholin: incisão e drenagem.
- Transmissão ao recém-nascido no parto: conjuntivite (gonocócica, com risco para a visão, e por clamídia) e pneumonia por clamídia.
- Linfogranuloma venéreo sem tratamento: fístulas e estenoses retais.
Grávida
- Clamídia: azitromicina 1 g em toma única; alternativa amoxicilina 500 mg três vezes por dia durante 7 dias. A doxiciclina está contraindicada.
- Teste de cura cerca de 4 semanas depois do tratamento, e novo teste aos 3 meses.
- Gonorreia: ceftriaxona, como fora da gravidez.
Criança
- Gonococo, clamídia ou tricomonas numa criança depois do período neonatal obrigam a investigar abuso sexual.
- Infeção do trato genital superior (endométrio, trompas, ovários e peritoneu pélvico) por ascensão a partir do colo.
- Começa por clamídia ou gonococo, mas é muitas vezes polimicrobiana, com anaeróbios e flora da vaginose.
- O muco do colo trava a subida, sobretudo na fase lútea; a menstruação e o sémen facilitam-na.
- Fatores de risco: doença inflamatória pélvica prévia, que é o maior, adolescência, múltiplos parceiros, ausência de preservativo e infeção do colo.
- O dispositivo intrauterino só aumenta o risco nas 3 semanas depois da inserção.
- Dor pélvica baixa, bilateral, com corrimento ou hemorragia anómala; pode ser muito ligeira.
- Febre e mau estado geral nas formas graves.
- Síndrome de Fitz-Hugh-Curtis: peri-hepatite, com dor no hipocôndrio direito; mais vezes por clamídia do que por gonococo.
- Abcesso tubo-ovárico: doente muito doente, com febre alta, taquicardia, dor intensa e massa anexial.
Critérios mínimos: basta um
Numa mulher sexualmente ativa com dor pélvica sem outra causa:
- dor à mobilização do colo;
- dor à palpação uterina;
- dor à palpação anexial.
O que reforça o diagnóstico
- Temperatura oral acima de 38,3 °C.
- Corrimento mucopurulento do colo ou colo friável.
- Muitos leucócitos na microscopia do fluido vaginal.
- Velocidade de sedimentação ou proteína C reativa elevadas.
- Clamídia ou gonococo documentados no colo.
Exames
- Teste de gravidez sempre, amplificação para clamídia e gonococo, rastreio de VIH e sífilis.
- Ecografia transvaginal se houver massa, doença grave ou falta de resposta: abcesso tubo-ovárico, hidrossalpinge.
- A laparoscopia não é necessária para tratar.
Diagnóstico diferencial
- Gravidez ectópica, aborto sético, apendicite aguda, torção anexial, rotura ou hemorragia de quisto, endometriose, diverticulite e pielonefrite.
- Trata-se logo, empiricamente, sem esperar resultados: tratar a mais custa pouco, tratar tarde custa a fertilidade.
| onde | esquema |
|---|---|
| Ambulatório | ceftriaxona 500 mg intramuscular em dose única, com doxiciclina 100 mg duas vezes por dia e metronidazol 500 mg duas vezes por dia, ambos durante 14 dias |
| Internamento | ceftriaxona 1 g endovenosa por dia com doxiciclina e metronidazol, ou cefoxitina 2 g de 6 em 6 horas com doxiciclina; passagem a oral depois da melhoria, até completar 14 dias |
Internar se
- Não se pode excluir uma urgência cirúrgica, como a apendicite.
- Abcesso tubo-ovárico.
- Gravidez.
- Doença grave, náuseas e vómitos, ou temperatura acima de 38,5 °C.
- Intolerância ao tratamento oral.
- Sem melhoria às 72 horas de tratamento oral.
Outros pontos
- Reavaliar às 72 horas: sem melhoria, internar e rever o diagnóstico.
- Não é preciso tirar o dispositivo intrauterino; retira-se só se não houver melhoria em 48 a 72 horas.
- Abcesso que não responde: drenagem guiada por imagem ou cirurgia. A rotura com choque sético é cirúrgica.
- Parceiros dos 60 dias anteriores ao início dos sintomas: avaliar, testar e tratar empiricamente.
- Infertilidade tubária: cerca de 15% depois de um episódio, até 75% depois de três ou mais.
- Gravidez ectópica: risco 7 a 10 vezes maior depois de uma salpingite.
- Dor pélvica crónica, por aderências.
- Abcesso tubo-ovárico; a rotura com choque sético tem mortalidade que se aproxima dos 10%.
- Peri-hepatite, com aderências entre o fígado e o diafragma.
- Vírus herpes simplex tipo 2, e cada vez mais o tipo 1, sobretudo em mulheres jovens.
- Depois da primoinfeção o vírus sobe pelos nervos e fica latente nos gânglios sensitivos sagrados. As recorrências são reativações.
- O tipo 1 genital recorre menos do que o tipo 2.
- A maioria das infeções não dá sintomas, e a excreção viral sem lesões explica a maior parte das transmissões.
- Primeiro episódio: vesículas dolorosas na vulva, vagina, colo, períneo e região perianal, 3 a 7 dias depois do contágio, que rompem em úlceras superficiais e muito dolorosas de bordo vermelho. Febre, mal-estar, adenopatias inguinais dolorosas.
- Disúria intensa e retenção urinária; por vezes meningite assética.
- Até 75% das primoinfeções passam despercebidas.
- Recorrências: mais curtas e menos dolorosas, muitas vezes unilaterais, com pródromo de ardor; podem ser só fissuras ou prurido.
- Amplificação de ácidos nucleicos do vírus na lesão: é o teste mais sensível. A cultura falha em 25% das primoinfeções e até 50% das recorrências.
- Tipar o vírus, porque o tipo 1 recorre menos e isso muda o aconselhamento.
- Serologia específica de tipo: para lesões atípicas com testes negativos, diagnóstico clínico sem confirmação, ou parceiro com herpes. A seroconversão demora semanas.
- Rastrear sífilis e VIH perante qualquer úlcera genital.
| situação | esquema |
|---|---|
| Primeiro episódio | aciclovir 400 mg três vezes por dia, ou valaciclovir 1 g duas vezes por dia, ou fanciclovir 250 mg três vezes por dia, durante 7 a 10 dias |
| Recorrência, terapêutica episódica | começar no pródromo ou no primeiro dia: valaciclovir 500 mg duas vezes por dia durante 3 dias, ou aciclovir 800 mg duas vezes por dia durante 5 dias |
| Recorrências frequentes, supressão | valaciclovir 500 mg por dia ou aciclovir 400 mg duas vezes por dia |
- Os antivíricos encurtam o episódio e a excreção, mas não eliminam o vírus latente nem mudam a história depois de parar.
- A supressão reduz as recorrências em 70 a 80% e reduz a transmissão ao parceiro.
- Analgesia, banhos mornos, e internamento para dor ou retenção urinária no primeiro episódio grave.
- O preservativo reduz a transmissão mas não a elimina.
Grávida
- O risco para o recém-nascido depende de quando a mãe se infetou: 30 a 50% com primoinfeção perto do parto, menos de 1% com herpes recorrente.
- Com história de herpes genital: supressão a partir das 36 semanas, com aciclovir 400 mg três vezes por dia ou valaciclovir 500 mg duas vezes por dia.
- Cesariana se houver lesões genitais ou pródromo típico no início do trabalho de parto.
- Não se fazem culturas de rotina na grávida sem lesões.
- Treponema pallidum, espiroqueta móvel que atravessa as mucosas íntegras; na mulher entra pela vulva, vagina ou colo.
- Dissemina-se pelo sangue logo no início e atravessa a placenta em qualquer altura da gravidez.
- Quem é infetado por uma infeção sexualmente transmissível tem mais risco de ter outra, e as úlceras facilitam a transmissão do VIH.
| fase | quando | manifestações |
|---|---|---|
| Primária | 10 a 60 dias depois do contágio | cancro duro: úlcera única, indolor, de base limpa e bordos endurecidos, com adenopatia; cura sozinho em 3 a 6 semanas |
| Secundária | 4 a 8 semanas depois do cancro | exantema das palmas e das plantas, adenopatias, febre, placas mucosas, alopecia em clareiras, condilomas planos nas pregas húmidas |
| Latente precoce | menos de 1 ano | sem sintomas, serologia positiva; pode recair |
| Latente tardia | mais de 1 ano | sem sintomas, menos contagiosa |
| Terciária | anos depois, em cerca de um terço das não tratadas | gomas, aortite, neurossífilis |
- A neurossífilis e as alterações oculares e auditivas podem aparecer em qualquer fase.
- Os condilomas planos confundem-se com os condilomas acuminados: são planos, de base larga, e cheios de treponemas.
- Lesão presente: pesquisa direta do treponema (microscopia de campo escuro ou amplificação de ácidos nucleicos).
- Serologia: dois tipos de teste, sempre.
- Não treponémicos (VDRL, RPR): servem para seguir a atividade e a resposta ao tratamento; têm falsos positivos.
- Treponémicos (FTA-ABS, TPPA, imunoensaios): confirmam, e ficam positivos para toda a vida.
- Na sífilis primária a serologia pode ainda ser negativa.
- Suspeita de neurossífilis: punção lombar, com VDRL no líquor.
Úlcera genital: diagnóstico diferencial
| Herpes | Sífilis primária | Cancroide | Linfogranuloma venéreo | |
|---|---|---|---|---|
| úlcera | várias, superficiais, depois de vesículas | única, de base limpa, endurecida | profunda, de bordo irregular, purulenta | pápula ou úlcera pequena e fugaz |
| dor | sim | não | sim | não |
| gânglios | dolorosos, bilaterais | indolores, firmes | dolorosos, supuram | dolorosos, supuram, unilaterais |
| agente | vírus herpes simplex | Treponema pallidum | Haemophilus ducreyi | Chlamydia trachomatis L1 a L3 |
| fase | esquema |
|---|---|
| Primária, secundária e latente precoce | penicilina G benzatínica 2,4 milhões de unidades intramuscular, dose única |
| Latente tardia ou de duração desconhecida | penicilina G benzatínica 2,4 milhões de unidades por semana, 3 semanas |
| Alergia à penicilina, fora da gravidez, precoce | doxiciclina 100 mg duas vezes por dia durante 14 dias |
| Alergia à penicilina, fora da gravidez, tardia ou de duração desconhecida | doxiciclina 100 mg duas vezes por dia durante 28 dias |
| Neurossífilis, sífilis ocular ou ótica | penicilina G cristalina 18 a 24 milhões de unidades por dia, endovenosa (em perfusão contínua ou dividida de 4 em 4 horas), durante 10 a 14 dias; alternativa penicilina G procaínica 2,4 milhões de unidades intramuscular por dia com probenecide 500 mg quatro vezes por dia, durante 10 a 14 dias |
- A azitromicina deixou de ser opção, pela resistência.
- Reação de Jarisch-Herxheimer: febre, arrepios, mialgias, cefaleia e taquicardia nas primeiras 24 horas depois do tratamento, pela destruição dos treponemas. Acontece em cerca de metade das sífilis primárias e em 90% das secundárias. Trata-se com sintomáticos e não é alergia.
- Seguimento com VDRL quantitativo aos 6 e aos 12 meses: resposta é a descida de 4 vezes no título.
- Testar e tratar os parceiros. Sífilis e sífilis congénita são de notificação obrigatória.
Grávida
- Rastreio com VDRL no primeiro trimestre e às 32 a 34 semanas.
- Sem tratamento, causa aborto, morte fetal e sífilis congénita.
- Só a penicilina trata o feto: a grávida alérgica é dessensibilizada e tratada com penicilina, sem alternativa.
- Vírus do papiloma humano (HPV) de baixo risco, tipos 6 e 11, responsáveis pela grande maioria das verrugas genitais.
- Os tipos de alto risco, 16 e 18 à cabeça, causam a neoplasia do colo; os de baixo risco raramente causam cancro.
- Transmite-se por contacto de pele e mucosas, também quando a infeção não se vê. A maioria das infeções é transitória.
- Lesões moles, carnudas, exofíticas, na vulva, vagina, colo, meato uretral, períneo e ânus; únicas ou múltiplas, muitas vezes simétricas de um lado e do outro da linha média.
- Poucos sintomas. Diagnóstico clínico; biópsia se a lesão for atípica, pigmentada, endurecida ou não responder.
- O diferencial importante são os condilomas planos da sífilis secundária.
| quem aplica | opções |
|---|---|
| A doente | imiquimod, podofilotoxina, sinecatequinas |
| O médico | crioterapia, ácido tricloroacético, excisão cirúrgica, laser |
- Lesões maiores do que 2 cm respondem melhor a crioterapia, cauterização ou laser.
- Na grávida não se usam os tratamentos aplicados pela doente.
- Resistem mais na grávida, na diabética, na fumadora e na imunodeprimida.
- A vacina contra o HPV previne-os; o rastreio do colo mantém-se igual.
Medidas gerais
- Preservativo masculino ou feminino, usado sempre: protege bem contra VIH, gonorreia, clamídia e tricomoníase, e menos contra herpes, HPV e sífilis, que passam por pele não coberta.
- Vacinas: HPV e hepatite B.
- Adiar o início da vida sexual e reduzir o número de parceiros.
Profilaxia de pré-exposição ao VIH (Norma DGS 001/2024)
- Para adolescentes e adultos a partir dos 16 anos com risco acrescido: relações sem preservativo consistente nos últimos 6 meses e parceiro com serologia desconhecida, parceiro com VIH sem carga viral indetetável garantida, infeção sexualmente transmissível, profilaxia pós-exposição recente com risco continuado, ou uso de substâncias durante o sexo. Também sexo transacional, drogas injetadas, e a mulher que quer engravidar de um parceiro com VIH não suprimido.
- Emtricitabina 200 mg com tenofovir disoproxil 245 mg, um comprimido por dia. Começa-se 7 dias antes da primeira exposição e para-se 7 dias depois da última.
- O esquema intermitente, só à volta das relações, está previsto apenas para homens cisgénero que têm sexo com homens. Na mulher, o esquema é diário.
- Antes de começar: teste de VIH de quarta geração e rastreio de sífilis, clamídia, gonorreia e hepatites. Não se prescreve com depuração da creatinina abaixo de 60 mL/min.
Profilaxia pós-exposição com doxiciclina
- Doxiciclina 200 mg até 72 horas depois de uma relação sem preservativo, no máximo uma vez por dia. Reduz a sífilis e a clamídia em mais de 70% e a gonorreia em cerca de 50%.
- Recomendada nos Estados Unidos, desde 2024, a homens que têm sexo com homens e mulheres transgénero com uma infeção bacteriana sexualmente transmissível no último ano.
- Na mulher cisgénero não mostrou benefício e não se recomenda.
Rastreio
- Clamídia e gonorreia anualmente nas mulheres sexualmente ativas com menos de 25 anos, e a partir dos 25 com parceiro novo, vários parceiros ou parceiro com infeção.
- Na grávida: sífilis, VIH e antigénio de superfície da hepatite B.
- Rastreio do colo do útero por teste de HPV, dos 30 aos 69 anos, de 5 em 5 anos (Norma DGS 009/2024).
Parceiros e notificação
- Testar e tratar os parceiros é tão importante como tratar a doente.
- Terapêutica expedita do parceiro: dar à doente o tratamento para o parceiro quando ele não vem à consulta, sobretudo na clamídia e na gonorreia.
- Em Portugal são de notificação obrigatória a infeção por Chlamydia trachomatis (incluindo o linfogranuloma venéreo), a gonorreia, a sífilis, a sífilis congénita, a infeção por VIH e as hepatites B e C.
Adolescente
- Maior risco de clamídia; a confidencialidade é o que permite o rastreio. A amplificação em urina ou zaragatoa vaginal autocolhida evita o exame ginecológico.
Violência sexual
- Tratamento empírico da mulher: ceftriaxona 500 mg intramuscular em dose única, com doxiciclina 100 mg duas vezes por dia e metronidazol 500 mg duas vezes por dia, ambos durante 7 dias.
- Profilaxia pós-exposição do VIH a decidir e começar o mais cedo possível, dentro de 72 horas.
- Vacina da hepatite B, e do HPV se não estiver vacinada, contraceção de emergência, e o apoio médico-legal.
Criança
- Corrimento na criança pré-púbere: pensar em higiene, corpo estranho e irritantes.
- Infeção sexualmente transmissível depois do período neonatal: investigar abuso sexual.
Referências
- Beckmann CRB, Herbert W, Laube D, Ling F, Smith R, editores. Vulvovaginitis. In: Beckmann and Ling's obstetrics and gynecology. 8.ª ed. Filadélfia: Wolters Kluwer; 2019. cap. 28.
- Beckmann CRB, Herbert W, Laube D, Ling F, Smith R, editores. Sexually transmitted infections. In: Beckmann and Ling's obstetrics and gynecology. 8.ª ed. Filadélfia: Wolters Kluwer; 2019. cap. 29.
- Lukehart SA. Syphilis. In: Loscalzo J, Fauci A, Kasper D, Hauser S, Longo D, Jameson JL, editores. Harrison's principles of internal medicine. 21.ª ed. Nova Iorque: McGraw Hill; 2022. cap. 182.
- Workowski KA, Bachmann LH, Chan PA, Johnston CM, Muzny CA, Park I, et al. Sexually transmitted infections treatment guidelines, 2021. MMWR Recomm Rep. 2021;70(4):1-187.
- Unemo M, Ross JDC, Serwin AB, Gomberg M, Cusini M, Jensen JS. 2020 European guideline for the diagnosis and treatment of gonorrhoea in adults. Int J STD AIDS. 2020. doi:10.1177/0956462420949126.
- Bachmann LH, Barbee LA, Chan P, Reno H, Workowski KA, Hoover K, et al. CDC clinical guidelines on the use of doxycycline postexposure prophylaxis for bacterial sexually transmitted infection prevention, United States, 2024. MMWR Recomm Rep. 2024;73(2):1-8.
- Direção-Geral da Saúde. Norma n.º 001/2024, de 22 de março: Profilaxia de pré-exposição ao VIH. Lisboa: DGS; 2024.
- Direção-Geral da Saúde. Norma n.º 009/2024, de 17 de outubro: Programa de rastreio de base populacional do cancro do colo do útero. Lisboa: DGS; 2024.
- Direção-Geral da Saúde. Programa nacional para a vigilância da gravidez de baixo risco. Lisboa: DGS; 2015.
- Despacho n.º 1150/2021, de 28 de janeiro. Doenças de notificação obrigatória. Diário da República, 2.ª série. 2021.
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