Vulvovaginites e doenças sexualmente transmitidas
Atualizado em 14 de julho de 2026 · 11 perguntas neste tema
As vulvovaginites e as infeções sexualmente transmissíveis (IST) cobrem grande parte da queixa ginecológica de ambulatório. Domina o tripé das vulvovaginites: candidíase (corrimento branco grumoso, prurido, pH normal ≤4,5, tratamento com azóis, fluconazol 150 mg oral toma única), vaginose bacteriana (corrimento cinzento homogéneo, critérios de Amsel 3/4, whiff-test positivo, clue cells, score de Nugent ≥7, metronidazol; não é IST e não se trata o parceiro) e tricomoníase (corrimento amarelo-esverdeado, colo em framboesa, protozoário móvel, metronidazol; é IST, trata-se o parceiro e rastreiam-se outras IST). Nas cervicites/IST fixa o paradigma terapêutico atual (CDC 2021): gonorreia = ceftriaxona 500 mg IM dose única (já sem azitromicina de rotina e com abandono das quinolonas), clamídia = doxiciclina 100 mg 2×/dia, 7 dias (preferida à azitromicina). Reconhece a doença inflamatória pélvica (tratamento empírico com ceftriaxona + doxiciclina + metronidazol) e as úlceras genitais (herpes = dolorosa/vesículas; sífilis primária = cancro duro indolor, penicilina benzatínica). As IST são de notificação obrigatória em Portugal.
Mecanismos e fisiopatologia
A defesa natural da vagina assenta no ecossistema vaginal dominado por lactobacilos (sobretudo Lactobacillus crispatus e L. jensenii). Estes metabolizam o glicogénio do epitélio vaginal, estrogeno-dependente, produzindo ácido lático e peróxido de hidrogénio, o que mantém um pH ácido (3,8 a 4,5) hostil a agentes patogénicos. Qualquer perturbação deste equilíbrio (antibióticos, estrogénios baixos, duches vaginais, atividade sexual) predispõe à doença.
Candidíase vulvovaginal
Causada por leveduras, em 85 a 90% dos casos por Candida albicans e o restante por espécies não-albicans (sobretudo C. glabrata, mais resistente aos azóis). A Candida faz parte da flora comensal; a doença surge quando há proliferação, tipicamente favorecida por antibioterapia (que reduz os lactobacilos), gravidez e fase lútea (níveis estrogénicos altos aumentam o glicogénio), diabetes mal controlada, imunossupressão/corticoides e contracetivos com estrogénio. Caracteristicamente, o pH mantém-se normal (≤4,5), porque os lactobacilos não são deslocados. Não é uma IST no sentido clássico.
Vaginose bacteriana
Não é uma infeção inflamatória verdadeira mas sim uma disbiose: perda dos lactobacilos produtores de H₂O₂ e substituição por uma flora polimicrobiana anaeróbia (Gardnerella vaginalis, Atopobium vaginae, Prevotella, Mobiluncus, Mycoplasma hominis). A degradação de aminas (putrescina, cadaverina, trimetilamina) pelos anaeróbios produz o odor a peixe, que se intensifica com o pH alcalino do KOH (whiff-test) e do sémen. Como há pouca resposta inflamatória, há poucos leucócitos. O pH sobe (>4,5). A VB associa-se a maior risco de aquisição de IST/VIH, DIP, parto pré-termo e endometrite pós-parto.
Tricomoníase
Causada por Trichomonas vaginalis, um protozoário flagelado móvel, de transmissão exclusivamente sexual (é IST). O parasita adere ao epitélio escamoso, provoca resposta inflamatória intensa (muitos leucócitos) e microhemorragias no colo, dando o aspeto de colo em framboesa (colpitis macularis). Eleva o pH (>4,5) e frequentemente coexiste com VB.
| Agente | Natureza | pH | Inflamação |
|---|---|---|---|
| Candida albicans | Levedura (fungo) | ≤4,5 (normal) | Moderada, prurido |
| Vaginose bacteriana | Disbiose anaeróbia | >4,5 | Mínima |
| Trichomonas vaginalis | Protozoário flagelado | >4,5 | Intensa |
Cervicites e IST
- Chlamydia trachomatis: bactéria intracelular obrigatória; infeta o epitélio colunar do endocolo e uretra. Frequentemente assintomática, o que perpetua a transmissão e a progressão silenciosa para DIP.
- Neisseria gonorrhoeae: diplococo gram-negativo intracelular; cervicite/uretrite mais purulenta, com tendência para disseminação (infeção gonocócica disseminada, artrite).
- Herpes genital: HSV-2 (e cada vez mais HSV-1); permanece latente nos gânglios sagrados, com reativações recorrentes.
- Sífilis: Treponema pallidum, espiroqueta; a lesão primária (cancro duro) resulta da inoculação local, seguida de disseminação hematogénea nas fases secundária e terciária.
Avaliação e diagnóstico
A avaliação começa pela caracterização do corrimento (cor, consistência, odor), sintomas associados (prurido, ardor, dispareunia, disúria) e três testes simples de consultório: pH vaginal, whiff-test (teste das aminas com KOH a 10%) e exame microscópico a fresco (soro fisiológico e KOH).
Distinção das três vulvovaginites
| Candidíase | Vaginose bacteriana | Tricomoníase | |
|---|---|---|---|
| Corrimento | Branco, grumoso ("leite coalhado"), inodoro | Cinzento-esbranquiçado, fino, homogéneo, aderente | Amarelo-esverdeado, espumoso, abundante |
| Sintoma dominante | Prurido, ardor, dispareunia | Odor a peixe (poucas queixas) | Prurido, irritação, disúria |
| pH | ≤4,5 (normal) | >4,5 | >4,5 (5-6) |
| Whiff-test | Negativo | Positivo | Frequentemente positivo |
| Microscopia | Hifas/pseudohifas, blastósporos (KOH) | Clue cells, poucos leucócitos | Protozoários móveis, muitos leucócitos |
| Exame do colo | Normal, eritema vulvar | Normal | Colo em framboesa |
Vaginose bacteriana: critérios de Amsel e score de Nugent
O diagnóstico clínico faz-se pelos critérios de Amsel, sendo necessários 3 dos 4:
- Corrimento fino, homogéneo, branco-acinzentado, aderente às paredes.
- pH vaginal >4,5.
- Whiff-test positivo (odor a peixe ao adicionar KOH).
- Clue cells (células epiteliais recobertas por bactérias, bordo granuloso indistinto) em ≥20% das células no exame a fresco.
O score de Nugent é o padrão de referência laboratorial (coloração de Gram), quantificando morfotipos bacterianos de 0 a 10:
- 0 a 3: flora normal (predomínio de lactobacilos).
- 4 a 6: flora intermédia.
- 7 a 10: vaginose bacteriana.
Candidíase
Diagnóstico clínico apoiado pela microscopia com KOH (dissolve as células epiteliais e evidencia hifas/pseudohifas). Cultura reserva-se para casos recorrentes ou refratários (identificar espécies não-albicans). Classifica-se em não complicada (esporádica, ligeira-moderada, albicans, hospedeira imunocompetente) e complicada (recorrente ≥4 episódios/ano, grave, não-albicans, gravidez, diabetes, imunossupressão).
Tricomoníase
O exame a fresco tem sensibilidade limitada (~50-60%). O método preferido atual é o teste de amplificação de ácidos nucleicos (TAAN/NAAT), muito mais sensível. Sendo IST, o diagnóstico obriga a rastreio de outras IST (VIH, sífilis, clamídia, gonorreia).
Cervicite e IST
Perante corrimento endocervical mucopurulento, friabilidade do colo ou dor à mobilização, suspeitar de cervicite por clamídia/gonococo. O diagnóstico de eleição é o TAAN (NAAT) para C. trachomatis e N. gonorrhoeae, em amostra endocervical, vaginal (autocolheita válida) ou urina de 1.º jato. A cultura do gonococo mantém utilidade para antibiograma (vigilância de resistências). Nas úlceras genitais: serologia + PCR de T. pallidum e microscopia de campo escuro para sífilis; PCR/cultura para HSV. Sempre propor serologia VIH.
Prevenção, rastreio e notificação
Prevenção primária
A prevenção das IST assenta em medidas comportamentais e biomédicas:
- Preservativo (masculino ou feminino) de forma consistente e correta: reduz a transmissão de VIH, gonorreia, clamídia, tricomoníase e (parcialmente) herpes e sífilis.
- Redução do número de parceiros e comunicação sobre o estado serológico.
- Vacinação: HPV (prevenção de lesões e cancro do colo, vulva, vagina, ânus e orofaringe) e hepatite B.
- Profilaxia pré-exposição do VIH (PrEP) nas populações de maior risco.
- Doxi-PEP (doxiciclina 200 mg oral até 72 h após relação sexual sem proteção): recomendada pelo CDC (2024) em homens que têm sexo com homens e mulheres transgénero com IST bacteriana no último ano, para reduzir sífilis, clamídia e (em menor grau) gonorreia. Não recomendada por rotina noutras populações.
- Nas vulvovaginites não-IST: evitar duches vaginais, roupa muito justa/sintética, uso desnecessário de antibióticos; controlar a diabetes.
Rastreio de IST
O rastreio é dirigido a populações de risco e a grávidas:
| Infeção | Quem rastrear |
|---|---|
| Clamídia + gonorreia | Mulheres sexualmente ativas <25 anos anualmente; ≥25 anos com fatores de risco (novo/múltiplos parceiros); todas as grávidas de risco |
| Sífilis | Todas as grávidas (1.ª consulta pré-natal; repetir no 3.º trimestre e no parto se risco); populações de risco |
| VIH | Oferta universal na gravidez; rastreio de risco; sempre que se diagnostica outra IST |
| Hepatite B (AgHBs) | Todas as grávidas |
Rastreio do cancro do colo (contexto)
Embora não seja uma IST, o rastreio do colo é indissociável da infeção por HPV. As recomendações atuais em Portugal (DGS, Norma 09/2024, de 17/10/2024) assentam no teste de HPV de alto risco como método primário, no rastreio de base populacional dos 30 aos 69 anos, com intervalos de 5 anos enquanto negativo, substituindo a citologia isolada quinquenal. A citologia passa a ter papel de triagem dos casos HPV-positivos. As pessoas com útero dos 25-29 anos deixaram de ser rastreadas por rotina, sendo incluídas apenas perante condição de alto risco (Norma 10/2024).
Notificação obrigatória
Em Portugal, várias IST integram o sistema de doenças de declaração obrigatória (DDO): sífilis (incluindo congénita e sífilis na gravidez), infeção gonocócica, infeção por VIH/SIDA e hepatites virais B e C. A notificação (plataforma SINAVE) é fundamental para vigilância epidemiológica. O tratamento e a abordagem dos parceiros são componentes de saúde pública tão importantes como o tratamento do caso índice.
Conduta e abordagem terapêutica
Candidíase vulvovaginal
- Não complicada: fluconazol 150 mg oral em toma única ou um azol tópico (clotrimazol, miconazol) durante 1 a 7 dias. Igual eficácia; a escolha depende da preferência.
- Complicada/grave: fluconazol 150 mg oral repetido às 72 h (2 a 3 doses).
- Recorrente (≥4 episódios/ano): indução com fluconazol 150 mg a cada 72 h (3 doses), seguida de manutenção com fluconazol 150 mg semanal durante 6 meses.
- Não-albicans (ex.: C. glabrata), resistente aos azóis: ácido bórico 600 mg intravaginal 14 dias, ou nistatina tópica.
- Gravidez: apenas azóis tópicos 7 dias (fluconazol oral evitado, sobretudo no 1.º trimestre). Não se trata o parceiro (não é IST).
Vaginose bacteriana
- Metronidazol 500 mg oral 2×/dia, 7 dias (1.ª linha), ou metronidazol gel vaginal 0,75% 5 dias, ou clindamicina creme vaginal.
- Tratar grávidas sintomáticas. Não se trata o parceiro (não é IST).
- Evitar álcool durante e 24-48 h após o metronidazol (efeito tipo dissulfiram).
Tricomoníase
- Mulheres: metronidazol 500 mg oral 2×/dia durante 7 dias (o esquema multidose é superior à toma única de 2 g nas mulheres, segundo o CDC 2021).
- Homens: metronidazol 2 g oral em toma única.
- Tratar sempre o(s) parceiro(s) e abstinência até ambos completarem o tratamento e resolução dos sintomas. É IST: rastrear VIH, sífilis, clamídia e gonorreia.
Cervicite / clamídia / gonorreia (paradigma CDC 2021)
| Infeção | Tratamento atual | Notas |
|---|---|---|
| Gonorreia (não complicada) | Ceftriaxona 500 mg IM dose única (1 g se ≥150 kg) | Já não se associa azitromicina de rotina; se clamídia não excluída, juntar doxiciclina |
| Clamídia | Doxiciclina 100 mg oral 2×/dia, 7 dias | Preferida à azitromicina; azitromicina 1 g toma única é alternativa (ex.: gravidez, má adesão) |
Mudança de paradigma a fixar: abandono das quinolonas (ciprofloxacina) no tratamento da gonorreia por resistências generalizadas, e abandono da azitromicina de rotina na gonorreia (passou a monoterapia com ceftriaxona, com dose subida de 250 para 500 mg). Na gravidez a clamídia trata-se com azitromicina 1 g (doxiciclina contraindicada).
Doença inflamatória pélvica (DIP)
Tratamento empírico logo que preenchidos os critérios mínimos (ver secção Complicações), sem esperar culturas. Esquema ambulatório recomendado:
- Ceftriaxona 500 mg IM dose única + doxiciclina 100 mg oral 2×/dia, 14 dias + metronidazol 500 mg oral 2×/dia, 14 dias.
- Internamento e esquema endovenoso se: gravidez, doença grave/febre alta, abcesso tubo-ovárico, intolerância oral, falência do ambulatório ou dúvida diagnóstica (abdómen agudo).
Úlceras genitais
- Herpes genital: aciclovir, valaciclovir ou fanciclovir orais. Primeiro episódio 7-10 dias; recorrências (episódica) ou terapêutica supressiva diária se ≥6 episódios/ano.
- Sífilis primária/secundária/latente precoce: penicilina G benzatínica 2,4 milhões UI IM, dose única. Alergia à penicilina: doxiciclina 100 mg 2×/dia 14 dias (mas na grávida faz-se dessensibilização à penicilina, que é insubstituível). Vigiar a reação de Jarisch-Herxheimer.
Abordagem dos parceiros
Componente central das IST. Além de tratar/testar os parceiros dos últimos 60 dias, considera-se a terapêutica expedita do parceiro (EPT), ou seja, fornecer tratamento ao parceiro sem observação prévia, sobretudo na clamídia e gonorreia, quando não é possível garantir a sua avaliação clínica.
Referências
- Workowski KA, Bachmann LH, Chan PA, et al. Sexually Transmitted Infections Treatment Guidelines, 2021. MMWR Recomm Rep. 2021;70(4):1-187.
- Bachmann LH, Barbee LA, Chan P, et al. CDC Clinical Guidelines on the Use of Doxycycline Postexposure Prophylaxis for Bacterial Sexually Transmitted Infection Prevention, United States, 2024. MMWR Recomm Rep. 2024;73(2):1-8.
- World Health Organization. Guidelines for the management of symptomatic sexually transmitted infections. Genebra: WHO; 2021.
- American College of Obstetricians and Gynecologists. Vaginitis in Nonpregnant Patients. ACOG Practice Bulletin No. 215. Obstet Gynecol. 2020;135(1):e1-e17.
- Hoffman BL, Schorge JO, Halvorson LM, et al., editores. Williams Gynecology. 4.ª ed. Nova Iorque: McGraw-Hill; 2020.
- Berek JS, editor. Berek & Novak's Gynecology. 16.ª ed. Filadélfia: Wolters Kluwer; 2020.
- Direção-Geral da Saúde. Norma n.º 09/2024, de 17/10/2024. Programa de rastreio de base populacional do cancro do colo do útero (teste de HPV de alto risco como método primário, 30-69 anos, intervalo 5 anos). Lisboa: DGS.
- Direção-Geral da Saúde. Doenças de Declaração Obrigatória e sistema SINAVE (sífilis, infeção gonocócica, VIH/SIDA, hepatites B e C). Lisboa: DGS.
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