Procedimentos em ginecologia
Atualizado em 17 de julho de 2026 · 7 perguntas neste tema
Os procedimentos ginecológicos organizam-se numa escada lógica que vai do menos invasivo ao mais invasivo, e que deve ser percorrida por ordem: a ecografia transvaginal antes da histeroscopia, a biópsia em ambulatório antes do bloco operatório, a via vaginal antes da via abdominal. Este capítulo cobre as indicações, a técnica em traço largo, as contraindicações e as complicações dos procedimentos diagnósticos (ecografia transvaginal, colposcopia, biópsia endometrial, histeroscopia, histerossalpingografia) e terapêuticos (conização, aspiração uterina, colocação de DIU, laparoscopia, histerectomia) mais cobrados na PNA. O fio condutor de toda a preparação é constante: excluir gravidez, ponderar profilaxia antibiótica e tromboembólica, obter consentimento informado e cumprir a lista de verificação cirúrgica da OMS.
Ecografia transvaginal
É o exame de primeira linha em praticamente toda a patologia pélvica: hemorragia uterina anormal, dor pélvica, massa anexial, infertilidade, suspeita de gravidez ectópica. A via transvaginal supera a abdominal em resolução por proximidade da sonda ao útero e anexos; a via abdominal complementa quando o útero é volumoso ou a massa se estende acima da pelve. Em doentes sem atividade sexual, a via transretal é alternativa aceitável.
A espessura endometrial é o parâmetro mais cobrado. Mede-se no plano sagital, do interface endométrio-miométrio anterior ao posterior, incluindo as duas camadas e excluindo líquido intracavitário.
Na hemorragia pós-menopausa, o limiar clássico de ≤4 mm tinha valor preditivo negativo elevado para carcinoma do endométrio. Este ponto mudou e é o mais atual do capítulo: a atualização ACOG de 2026 revê a recomendação anterior e passa a aconselhar ecografia transvaginal combinada com biópsia endometrial na maioria das doentes com hemorragia pós-menopausa. A razão é que o valor preditivo negativo do corte de 4 mm é inferior ao historicamente reportado, sobretudo em populações de maior risco, e um endométrio fino não exclui subtipos de alto grau (seroso, células claras), que podem surgir sobre endométrio atrófico. A ecografia isolada fica reservada a um cenário estreito: episódio único de hemorragia, endométrio completamente visualizado e ≤4 mm, ausência de fatores de risco relevantes e seguimento fiável assegurado. Hemorragia persistente ou recorrente exige amostragem independentemente da espessura.
Na mulher pré-menopáusica a espessura endometrial varia com o ciclo e não serve de critério de triagem oncológica.
Histerossonografia e histerossalpingografia
A histerossonografia (infusão de soro fisiológico na cavidade sob ecografia) distingue lesões focais (pólipo, mioma submucoso) de espessamento difuso, e é útil quando a ecografia simples é ambígua. Faz-se na fase folicular precoce, após o fim do fluxo.
A histerossalpingografia (HSG) avalia a permeabilidade tubária e o contorno da cavidade na investigação de infertilidade. Realiza-se na fase folicular, entre o fim da menstruação e a ovulação, precisamente para garantir que não há gravidez. Segundo a NICE NG257 (2026, que atualiza e substitui a CG156), oferece-se HSG a mulheres sem comorbilidade conhecida; onde houver diferenciação, a HyCoSy (histerossalpingografia com contraste ecográfico) é alternativa eficaz e evita irradiação. A laparoscopia com prova de azul reserva-se a quem tem comorbilidade suspeita (doença inflamatória pélvica prévia, gravidez ectópica anterior, endometriose), porque permite avaliar e tratar a patologia pélvica no mesmo tempo. A HSG tem ainda um provável efeito terapêutico de lavagem tubária, com aumento de gravidezes espontâneas nos meses seguintes, sobretudo com contraste oleoso.
Colposcopia
Indicada após rastreio positivo: no modelo da Norma DGS 09/2024, HPV de alto risco positivo com citologia reflexa alterada, HPV 16/18 positivo, ou citologia de alto grau. Não é exame de rastreio.
A técnica assenta em três tempos:
- Observação a fresco com filtro verde para vascularização.
- Ácido acético a 3-5%: coagula proteínas nucleares, e o epitélio com maior densidade nuclear (displásico) fica branco. O acetobranqueamento denso, de bordos nítidos e aparecimento rápido, sugere alto grau. Mosaico grosseiro, pontuado grosseiro e vasos atípicos são sinais de alto grau ou invasão.
- Lugol (teste de Schiller): o epitélio escamoso maduro tem glicogénio e cora castanho-escuro; o displásico não capta e fica amarelo-mostarda (iodo-negativo, Schiller positivo).
A avaliação obrigatória é da zona de transformação, classificada pela nomenclatura IFCPC 2011 em tipo 1 (totalmente ectocervical, visível na íntegra), tipo 2 (componente endocervical mas visível na íntegra) e tipo 3 (componente endocervical não visível na íntegra). A colposcopia diz-se inadequada quando a junção escamocolunar não é visualizável, situação típica na pós-menopausa, e nesse caso não se pode excluir lesão no canal: exige avaliação endocervical (curetagem ou escovado) ou excisão diagnóstica.
Termina com biópsia dirigida à área de maior gravidade colposcópica. A histologia, não a impressão colposcópica, decide.
Biópsia endometrial de ambulatório
A cânula de Pipelle aspira endométrio em consulta, sem dilatação nem anestesia, com sensibilidade elevada para carcinoma do endométrio quando a amostra é adequada.
Indicações principais:
- Hemorragia pós-menopausa (praticamente sempre, à luz da atualização ACOG 2026).
- Hemorragia uterina anormal ≥45 anos.
- Hemorragia uterina anormal <45 anos com fatores de risco: exposição a estrogénios sem oposição, obesidade, anovulação crónica/síndrome do ovário poliquístico, falência de tratamento médico, síndrome de Lynch.
- Espessamento endometrial ou células endometriais atípicas na citologia.
Limitação crucial: é uma amostragem cega. Uma Pipelle negativa não exclui lesão focal (pólipo, mioma, carcinoma focal). Perante persistência da hemorragia com biópsia negativa, sobe-se para histeroscopia, que permite ver e biopsar sob visão direta.
Histeroscopia
Padrão de referência da cavidade uterina. Diagnóstica em consulta por vaginoscopia (sem espéculo nem tenáculo, melhor tolerada); operatória em bloco com ressetoscópio.
Indicações operatórias: polipectomia, miomectomia de submucosos (tipos 0, 1 e 2 de FIGO 2011), sinequiólise na síndrome de Asherman, remoção de DIU retido com fios não visíveis, resseção de septo uterino, e amostragem dirigida.
Contraindicações: gravidez viável, infeção pélvica ativa e carcinoma do colo conhecido.
Faz-se de preferência na fase folicular, com endométrio fino e sem gravidez possível.
O fio condutor
Perante hemorragia uterina anormal, a sequência mental é: excluir gravidez → classificar por PALM-COEIN (FIGO 2011) → ecografia transvaginal → decidir amostragem pela idade e fatores de risco → histeroscopia se lesão focal ou biópsia inconclusiva com sintoma persistente.
Referências
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7 perguntas sobre Procedimentos em Ginecologia
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