Patologia do pavimento pélvico, incontinência urinária e infeção do trato urinário
Atualizado em 27 de setembro de 2026 · 20 perguntas neste tema
O prolapso dos órgãos pélvicos, a incontinência urinária e a infeção urinária encontram-se muitas vezes na mesma mulher e partilham fatores: o parto vaginal, a idade, a menopausa com o hipoestrogenismo, a obesidade e o aumento crónico da pressão abdominal.
O prolapso é a descida da parede vaginal anterior (cistocelo), do útero ou da cúpula, ou da parede posterior (retocelo, enterocelo), por falha dos músculos elevadores do ânus, da fáscia endopélvica e dos ligamentos. Sente-se como peso ou bola vaginal, quantifica-se pelo POP-Q, com o hímen como referência, e trata-se a doente com sintomas e não o estadio: treino do pavimento pélvico, pessário ou cirurgia.
A incontinência de esforço é a perda com a tosse ou o esforço, sem urgência, por hipermobilidade uretral ou deficiência do esfíncter; a de urgência é a perda precedida de desejo súbito, no quadro da bexiga hiperativa, que só se rotula sem infeção; a mista junta as duas e trata-se primeiro a que predomina. A primeira linha é sempre conservadora: treino supervisionado do pavimento pélvico durante pelo menos 3 meses no esforço, treino vesical durante pelo menos 6 semanas na urgência. Depois vêm o sling médio-uretral ou a colposuspensão no esforço, e os antimuscarínicos ou o mirabegrom na urgência, com cuidado com a carga anticolinérgica na idosa.
A cistite não complicada da mulher diagnostica-se pela história e trata-se sem urocultura, com fosfomicina em dose única ou nitrofurantoína; as quinolonas não são empíricas em Portugal. A pielonefrite pede urocultura e um antibiótico que atinja o rim. A bacteriúria assintomática só se procura e trata na grávida, e na pós-menopausa com infeções recorrentes o estrogénio vaginal é a primeira medida preventiva.
- Descida de um ou mais órgãos pélvicos através do hiato urogenital, por perda do suporte dado pelos músculos elevadores do ânus, pela fáscia endopélvica e pelos ligamentos uterossagrados e cardinais.
- Descreve-se pelo compartimento, e o envolvimento de vários compartimentos é o mais comum.
| compartimento | o que desce | nome |
|---|---|---|
| Anterior | parede anterior com a bexiga; a uretra, se distal | cistocelo, uretrocelo |
| Apical | útero, ou cúpula depois de histerectomia | prolapso uterino, prolapso da cúpula; procidência quando o colo passa a vulva |
| Posterior | parede posterior com o reto; delgado no fundo de saco de Douglas | retocelo, enterocelo |
- Mais frequente com a idade. A maioria das mulheres com um defeito de suporte no exame não tem sintomas, e os achados do exame correlacionam-se mal com sintomas concretos.
Fatores de risco
- Parto vaginal e paridade, idade e menopausa.
- Aumento crónico da pressão abdominal: obesidade, obstipação com esforço, tosse crónica, cargas repetidas.
- Cirurgia pélvica prévia; a histerectomia predispõe ao prolapso da cúpula.
- Predisposição genética e doenças do tecido conjuntivo.
O suporte pélvico
- Os músculos elevadores do ânus, com tónus permanente, mantêm o hiato urogenital fechado; a fáscia endopélvica e os ligamentos uterossagrados e cardinais seguram as vísceras por cima.
- Cada uma destas estruturas pode falhar por traumatismo do parto, por aumento crónico da pressão abdominal, por fraqueza intrínseca do conjuntivo ou por atrofia da idade e da privação de estrogénios.
- A lesão do elevador no parto alarga o hiato; a fáscia e os ligamentos passam a suportar sozinhos a carga e acabam por ceder. A lesão pode ser anos anterior ao prolapso.
- Hoje sabe-se que não é só estiramento difuso: há roturas localizadas do conjuntivo que dão defeitos anatómicos identificáveis.
Os três níveis de suporte vaginal
| nível | estrutura | a falha dá |
|---|---|---|
| I, suspensão apical | ligamentos uterossagrados e cardinais | prolapso uterino ou da cúpula, enterocelo |
| II, fixação lateral | ligação da vagina às paredes laterais da pelve | cistocelo, retocelo |
| III, fusão distal | membrana perineal e corpo perineal | uretrocelo, defeito perineal |
- A parede anterior funciona como uma hamaca: bem tensa, a bexiga assenta nela; quando perde o suporte lateral cede, e a bexiga empurra a parede para baixo e para fora.
- O sintoma que se correlaciona com o prolapso é a sensação de peso, pressão ou bola vaginal, pior em pé e ao fim do dia.
- Queixas urinárias (incontinência ou dificuldade de esvaziamento), intestinais (defecação obstruída, incontinência fecal), dor lombar ou perineal, dificuldade nas relações sexuais.
- A necessidade de reduzir o prolapso com os dedos para urinar ou defecar denuncia cistocelo ou retocelo volumosos.
- Sinais do prolapso avançado exteriorizado: hipertrofia do colo, escoriação, ulceração e hemorragia.
- Um prolapso anterior ou apical grande pode acotovelar a uretra e disfarçar uma incontinência de esforço, que aparece quando o prolapso é reduzido.
- Complicações graves (obstrução ureteral, encarceramento, evisceração) são raras.
- O diagnóstico é clínico, pelo exame ginecológico. Não se pede imagem para documentar um prolapso que o exame já mostra.
- Se os sintomas não batem com o exame, repete-se com a doente de pé ou de cócoras, ou noutra altura.
Exame
- Em litotomia, com Valsalva, isolando cada parede com uma valva.
- Avaliar a contração dos músculos do pavimento pélvico e a atrofia vaginal (parede fina, seca, inflamada, vagina encurtada).
- Excluir massa pélvica ou outra patologia.
- Reduzir um prolapso avançado para procurar incontinência de esforço oculta.
POP-Q
Mede seis pontos da vagina, em centímetros, em relação ao hímen, que é o zero; o estadio é dado pela porção mais distal.
| estadio | porção mais distal |
|---|---|
| 0 | sem prolapso |
| I | mais de 1 cm acima do hímen |
| II | entre 1 cm acima e 1 cm abaixo do hímen |
| III | mais de 1 cm abaixo do hímen, sem eversão completa |
| IV | eversão completa |
Diagnóstico diferencial
- Divertículo uretral e abcesso da glândula de Skene, que imitam um cistouretrocelo e se identificam pela expressão da uretra ou por cistoscopia.
- Retocelo alto contra enterocelo: o toque retal ajuda, e muitas vezes o enterocelo só se confirma na cirurgia.
- Infeção urinária, que dá urgência.
- Perder peso quando o índice de massa corporal passa de 30 kg/m², evitar levantar pesos, tratar a obstipação e a tosse crónica.
- Na sala de partos, reconhecer e reparar bem as lacerações do períneo e do esfíncter anal.
- Não existe rastreio do prolapso: há procura ativa, porque muitas mulheres não trazem a queixa.
- O prolapso sem sintomas, ou com sintomas ligeiros, vigia-se. A escolha tem em conta os sintomas, o compartimento, a idade, as comorbilidades, o desejo de engravidar, a atividade sexual e a cirurgia prévia.
Medidas gerais
- Perder peso se o índice de massa corporal passa de 30 kg/m², evitar cargas, tratar a obstipação.
- Estrogénio vaginal na mulher com sintomas de atrofia urogenital; o anel vaginal com estrogénio serve a quem tem dificuldade em aplicar cremes ou óvulos.
Treino dos músculos do pavimento pélvico
- Supervisionado, durante pelo menos 16 semanas, como primeira opção no prolapso sintomático em estadio I ou II do POP-Q; se ajuda, mantém-se.
Pessário
- Pode ser primeira linha em quase todos os prolapsos, seja qual for o estadio ou o compartimento, sozinho ou com treino. Serve quem quer evitar ou adiar a cirurgia, quem tem risco operatório alto ou quem ainda quer engravidar.
- De suporte (anel, o mais usado) ou de ocupação de espaço (Gellhorn, cubo, donut) para os prolapsos mais volumosos. Pode ser preciso experimentar mais do que um.
- Tira-se pelo menos uma vez em cada 6 meses para evitar complicações; em quem não consegue cuidar dele, consulta de pessário de 6 em 6 meses. Estrogénio vaginal se há atrofia.
Cirurgia
Para quem não melhorou com o tratamento conservador ou não o quer.
| compartimento | opções |
|---|---|
| Anterior | colporrafia anterior sem rede |
| Posterior | colporrafia posterior sem rede |
| Uterino | histerectomia vaginal com ou sem fixação ao ligamento sacroespinhoso; histeropexia sacroespinhosa; operação de Manchester (não em quem quer ter filhos); histerossacropexia com rede |
| Cúpula | fixação ao ligamento sacroespinhoso com fios; sacrocolpopexia abdominal ou laparoscópica com rede |
| Vagina encerrável | colpocleise, na doente de risco operatório alto que não pretende relações com penetração |
- A rede transvaginal para o prolapso anterior ou posterior tem problemas de segurança sérios e só se usa em investigação.
- Não se faz cirurgia anti-incontinência preventiva em quem não tem incontinência; explica-se que pode aparecer incontinência depois de corrigir um prolapso anterior ou apical.
Da doença
- Úlcera da mucosa exteriorizada, hemorragia e infeção.
- Retenção urinária e resíduo elevado por acotovelamento uretral; nos prolapsos de estadio III ou IV, raramente hidronefrose, que se procura por ecografia renal.
- Defecação obstruída no retocelo.
Do tratamento
| tratamento | complicações |
|---|---|
| Pessário | corrimento, hemorragia, dificuldade em retirar, expulsão; esquecido, erosão e fístula |
| Cirurgia | recidiva; lesão da bexiga ou do ureter; dispareunia; incontinência de esforço de novo |
| Rede | exposição ou extrusão, dor crónica, dispareunia; a remoção completa pode não ser possível |
- Depois da cirurgia de prolapso, revisão aos 6 meses com exame vaginal e, se houve rede, procura de exposição.
- Jovem nulípara: pensar em doença do tecido conjuntivo. Se quer engravidar, treino e pessário; a cirurgia que conserva o útero é discutida em equipa, e a operação de Manchester não se faz a quem pode querer filhos.
- Idosa frágil: pessário, ou colpocleise se não pretende relações com penetração.
- Défice cognitivo ou físico: pessário com consulta de 6 em 6 meses, e o anel com estrogénio em vez de cremes.
- Perda involuntária de urina. Afeta a vida social, clínica e psicológica, e menos de metade das mulheres procura ajuda.
- A prevalência sobe no adulto jovem, tem um pico na meia-idade e volta a subir na idosa.
| tipo | o que é |
|---|---|
| De esforço | perda com a tosse, o riso, o espirro ou o esforço, sem urgência; a mais frequente na mulher jovem |
| De urgência | perda precedida de desejo súbito e difícil de adiar; mais frequente na idosa |
| Mista | as duas |
| Por extravasamento | bexiga que não esvazia, com perda contínua de pequenas quantidades |
| Extrauretral | fístula vesicovaginal, uretrovaginal ou ureterovaginal |
- Bexiga hiperativa: urgência, geralmente com frequência e noctúria, com ou sem incontinência, sem infeção nem outra doença que a explique.
Continência normal
- A bexiga enche a baixa pressão. Os recetores de estiramento do detrusor avisam o cérebro, que decide quando urinar; o detrusor contrai, a pressão vesical ultrapassa a uretral e o esfíncter externo, voluntário, relaxa.
- No esforço, a pressão abdominal transmite-se à bexiga e também à uretra, que é comprimida contra a camada de suporte suburetral (a fáscia endopélvica e a parede vaginal anterior).
Incontinência de esforço
- Hipermobilidade uretral: o suporte suburetral cede, o colo vesical desce e a pressão do esforço chega à bexiga mas não à uretra. É o mecanismo mais comum e o alvo do sling e da colposuspensão.
- Deficiência esfincteriana intrínseca: uretra fixa mas incompetente (hipoestrogenismo, cirurgia, radioterapia, lesão neurológica), com perda a esforços mínimos.
- Fatores: parto vaginal, idade, menopausa, obesidade, pressão abdominal crónica.
Incontinência de urgência
- Contrações involuntárias do detrusor durante o enchimento. A hiperatividade idiopática não tem causa orgânica identificável.
- O detrusor contrai por recetores muscarínicos M3, alvo dos antimuscarínicos, e relaxa por recetores adrenérgicos beta-3, alvo do mirabegrom; a toxina botulínica bloqueia a libertação de acetilcolina.
- Pode surgir depois de cirurgia da incontinência de esforço ou de dissecção pélvica extensa. Mais frequente na idosa e nas doenças neurológicas.
Outras
- Extravasamento: detrusor que não contrai (neuropatia, por exemplo diabética, fármacos) ou obstrução da saída (prolapso volumoso).
- Fístula: depois de parto, cirurgia pélvica ou radioterapia.
A pergunta que separa os tipos é o que precede a perda.
| esforço | urgência | extravasamento | |
|---|---|---|---|
| Sintomas associados | nenhum, por vezes peso pélvico | urgência, frequência, noctúria | plenitude, frequência |
| Quantidade | pequena, em jato | moderada a grande, esvaziamento completo | pequena, gotejamento, muitas vezes contínua |
| Duração | breve, com o esforço | segundos | contínua |
| Desencadeante | tosse, riso, espirro, exercício | qualquer, ou gatilhos como a chave na porta ou água a correr | qualquer |
| Posição | de pé ou sentada; rara deitada | qualquer | qualquer |
- Mista: as duas histórias, típica depois da menopausa.
- Perda contínua depois de parto, cirurgia pélvica ou radioterapia faz pensar em fístula.
Avaliação inicial
- História, que classifica em esforço, urgência ou mista e começa o tratamento por essa base; fármacos (diuréticos, sedativos, anticolinérgicos), ingestão de líquidos e cafeína, obstipação, tosse, neurologia.
- Exame: prolapso, atrofia, perda com a tosse e bexiga cheia, e toque para confirmar que a doente contrai o pavimento pélvico antes de lhe prescrever treino.
- Tira-teste urinária em todas: sangue, glicose, proteínas, leucócitos e nitritos. Com sintomas de infeção e tira positiva, urocultura e antibiótico.
- Diário miccional de pelo menos 3 dias, com dias de trabalho e de lazer: volumes, frequência, ingestão, episódios de perda.
- Resíduo pós-miccional, por ecografia vesical, se há sintomas de esvaziamento ou infeções recorrentes.
O que não é rotina
- Pad test, testes de mobilidade uretral (como o do cotonete), cistoscopia e imagem não fazem parte da avaliação inicial.
Urodinâmica
- Não se faz antes da primeira cirurgia se a incontinência de esforço, ou a mista com predomínio de esforço, está clara na história e se demonstra no exame.
- Faz-se antes da cirurgia se a mista tem predomínio de urgência ou o tipo não é claro, se há sintomas de esvaziamento, prolapso anterior ou apical, ou cirurgia anti-incontinência prévia.
- Também na bexiga hiperativa refratária em que se pondera tratamento invasivo.
Referenciação
Dor vesical ou uretral persistente, bexiga palpável depois de urinar, massa pélvica, incontinência fecal associada, suspeita de doença neurológica, dificuldade de esvaziamento, suspeita de fístula, cirurgia de continência ou oncológica pélvica prévia, radioterapia pélvica, e hematúria ou infeção recorrente sem explicação.
- Treino dos músculos do pavimento pélvico na gravidez, na mulher continente, reduz a incontinência no fim da gravidez e nos meses do pós-parto.
- Perder peso quando o índice de massa corporal passa de 30 kg/m².
- Tratar a obstipação e a tosse crónica, reduzir a cafeína, ajustar a ingestão de líquidos quando é excessiva ou escassa.
- Não há rastreio: pergunta-se, porque muitas mulheres não falam da perda de urina.
Na mista, o tratamento dirige-se ao sintoma que predomina. Os tratamentos resultam melhor combinados.
Medidas gerais, em todas
- Menos cafeína na bexiga hiperativa, líquidos ajustados, perda de peso se o índice de massa corporal passa de 30 kg/m².
- Pensos e dispositivos de contenção só como apoio ou quando o resto foi tentado; não são tratamento.
Incontinência de esforço
- Treino supervisionado dos músculos do pavimento pélvico durante pelo menos 3 meses, com pelo menos 8 contrações 3 vezes por dia. Se resulta, mantém-se; quando se para, a perda tende a voltar.
- A duloxetina não é primeira linha, nem se oferece por rotina em segunda; só para quem prefere fármaco a cirurgia ou não pode ser operada.
- Cirurgia, se o conservador falhou:
- sling médio-uretral retropúbico: implante permanente, cuja remoção completa pode não ser possível;
- colposuspensão de Burch, aberta ou laparoscópica;
- sling autólogo de fáscia dos retos.
- O sling e a colposuspensão têm resultados semelhantes, com sucesso de cerca de 85% aos 5 anos; o da colposuspensão desce com os anos.
- A via transobturadora fica para quando a retropúbica deve ser evitada, por exemplo por cirurgia pélvica prévia. A colporrafia anterior não trata a incontinência de esforço.
- Agentes de preenchimento uretral quando a cirurgia não serve: menos eficazes, com efeito que se perde e necessidade de repetir.
Incontinência de urgência e bexiga hiperativa
- Treino vesical durante pelo menos 6 semanas: aumentar aos poucos o intervalo entre micções.
- Estrogénio vaginal se há sintomas de atrofia urogenital.
- Fármacos, se o treino não chega (e em associação com ele):
| fármaco | dose | cuidados |
|---|---|---|
| Solifenacina | 5 mg por dia, até 10 mg | boca seca, obstipação, visão turva, retenção |
| Trospio | 20 mg de 12 em 12 horas | amina quaternária, que atravessa pouco a barreira hematoencefálica |
| Oxibutinina | a de libertação imediata não se dá à idosa com risco de deterioração física ou mental; existe em adesivo transdérmico | |
| Mirabegrom, agonista beta-3 | 50 mg por dia | sem efeito anticolinérgico; contraindicado na hipertensão grave não controlada (180/110 mm Hg ou mais) |
- Antes de um antimuscarínico, contar as outras doenças (défice cognitivo, mau esvaziamento) e os outros fármacos com efeito anticolinérgico; o efeito a longo prazo sobre a cognição é incerto.
- O benefício pode demorar 4 semanas: revê-se aí e, se não resulta, muda-se a dose ou o fármaco.
- Terceira linha, depois de falharem as medidas e os fármacos, e com urodinâmica:
- toxina botulínica A intradetrusor, 100 unidades de início, só se a doente aceita fazer autoalgaliação intermitente se ficar com retenção;
- neuromodulação sagrada percutânea, se a toxina não resultou ou a doente não aceita o risco de algaliação;
- estimulação percutânea do nervo tibial posterior, se não quer as anteriores.
Da doença
- Dermatite, infeções, isolamento social, depressão; na idosa, quedas nas idas noturnas à casa de banho.
Do tratamento
| tratamento | complicações |
|---|---|
| Antimuscarínicos | boca seca, obstipação, visão turva, retenção, alterações cognitivas |
| Mirabegrom | subida da pressão arterial |
| Toxina botulínica | retenção com necessidade de autoalgaliação, infeção urinária |
| Sling médio-uretral | exposição ou extrusão da rede, erosão para a uretra ou a bexiga, dor, retenção por excesso de correção, urgência de novo |
| Cirurgia em geral | até 10% precisa de nova cirurgia para curar a incontinência de esforço |
- Depois da cirurgia da incontinência de esforço, consulta nos 6 meses seguintes, com exame vaginal à procura de exposição da rede.
Idosa
- Antes de rotular, procurar o que é reversível: fármacos (diuréticos, sedativos, anticolinérgicos, opioides), obstipação, delírio, infeção, poliúria da diabetes, mobilidade reduzida que atrasa a chegada à casa de banho.
- Contar a carga anticolinérgica total; revisão dos fármacos da bexiga de 6 em 6 meses depois dos 75 anos (anual antes disso).
- A desmopressina para a noctúria evita-se depois dos 65 anos com doença cardiovascular ou hipertensão.
Gravidez e pós-parto
- A incontinência do pós-parto trata-se com treino do pavimento pélvico.
- Em quem ainda quer ter filhos, pesar a cirurgia contra o efeito de uma gravidez seguinte.
| termo | definição |
|---|---|
| Bacteriúria assintomática | bacteriúria significativa (mais de 10⁵ UFC/mL) numa amostra colhida em assepsia, sem sintomas |
| Cistite não complicada | episódio agudo, não recorrente, na mulher não grávida, não menopáusica e sem comorbilidades ou condições que aumentem o risco de falência ou complicação (antibiótico recente, diabetes, insuficiência de órgão, imunossupressão, obstrução, dispositivos) |
| Pielonefrite | infeção do parênquima renal e do sistema pielocalicial, habitualmente com febre e dor lombar |
| Cistite recorrente | pelo menos 3 episódios por ano, ou 2 nos últimos 6 meses |
| Recidiva | nova infeção pelo mesmo agente depois de tratamento adequado |
| Reinfeção | nova infeção por outro agente, ou pelo mesmo depois de urocultura intermédia negativa |
- Quase metade das mulheres tem pelo menos uma cistite na vida, e quase uma em cada três até aos 24 anos.
- Bacteriúria assintomática: menos de 5% das mulheres pré-menopáusicas, 9% das pós-menopáusicas, até 10% das diabéticas e até 50% das residentes em lares.
- Via ascendente: bactérias do períneo e da uretra distal sobem à bexiga. A via hematogénea é rara, fora da imunossupressão e da tuberculose.
- A uretra feminina curta, a proximidade do meato ao vestíbulo e ao ânus e a atividade sexual facilitam a entrada.
- Depois da menopausa, a falta de estrogénios reduz a resistência da uretra à infeção.
Agentes
- Escherichia coli, na grande maioria.
- Staphylococcus saprophyticus, sobretudo na cistite da mulher jovem.
- Klebsiella, Proteus, Enterococcus, Pseudomonas e Enterobacter mais nas alterações estruturais, na litíase e na algaliação.
Fatores de risco
| pré-menopausa | pós-menopausa |
|---|---|
| infeção prévia; relações sexuais frequentes ou recentes | atrofia vaginal |
| diafragma e espermicidas | esvaziamento vesical incompleto |
| diabetes, litíase, anomalias congénitas, algaliação | cistocelo, retocelo, uretrocelo ou prolapso uterino |
| parceiro novo; mãe com infeções recorrentes | infeções prévias; diabetes tipo 1 |
- Cistite: disúria, polaquiúria, urgência, noctúria, dor suprapúbica, hematúria, urina turva ou com cheiro forte. A febre é rara.
- Pielonefrite: febre, arrepios, dor lombar, náuseas e vómitos, com ou sem sintomas de cistite.
- Pielonefrite com resposta inflamatória sistémica é sépsis e trata-se no hospital.
- Disúria com corrimento vaginal aponta para vaginite ou cervicite e não para cistite.
Cistite não complicada
- Diagnostica-se pela história: disúria, polaquiúria ou urgência, sem corrimento vaginal. Com disúria e polaquiúria sem corrimento, a probabilidade de infeção chega a 96%.
- Não precisa de urocultura. A tira-teste ajuda quando a história é pouco clara: nitritos ou leucócitos positivos apoiam o diagnóstico; os nitritos só aparecem com enterobactérias.
- Tira negativa numa mulher com sintomas não exclui infeção: pede-se urocultura.
Quando se pede urocultura
- Grávida.
- Pielonefrite e suspeita de infeção sistémica.
- Infeção complicada ou recorrente, sintomas atípicos, risco de agente resistente.
- Sintomas que não passam ou voltam nas 4 semanas depois do tratamento.
Na mulher com sintomas de cistite, 10² UFC/mL já é significativo; o limiar de 10⁵ UFC/mL é o da bacteriúria assintomática. Várias espécies numa urocultura sugerem contaminação.
Pielonefrite
- Tira-teste, urocultura com antibiograma e, se há sépsis, hemoculturas.
- Ecografia renal para excluir obstrução ou outra doença urológica urgente.
Diagnóstico diferencial da disúria
- Cervicite por Chlamydia trachomatis ou Neisseria gonorrhoeae, sobretudo abaixo dos 25 anos.
- Vaginite por Candida ou Trichomonas, uretrite herpética.
- Cistite intersticial, irritação vulvar não infeciosa, atrofia urogenital.
- Hematúria que persiste depois da infeção tratada estuda-se, para excluir neoplasia urotelial.
Cistite recorrente
Confirma-se com urocultura e procuram-se fatores tratáveis: espermicidas e diafragma, resíduo pós-miccional, prolapso, atrofia. Depois, por esta ordem:
- Medidas gerais: beber mais água, trocar o espermicida por outro método contracetivo.
- Estrogénio vaginal, em creme ou óvulo, na pós-menopausa.
- Opções sem antibiótico, com evidência mais fraca: probióticos com lactobacilos, arando, D-manose, imunoestimulação oral, hipurato de metenamina duas vezes por dia.
- Profilaxia antibiótica, quando as medidas sem antibiótico falham:
- contínua em dose baixa: nitrofurantoína 50 ou 100 mg por dia, fosfomicina 3 g por semana ou trimetoprim 100 mg por dia; habitualmente durante 6 meses, e a recorrência volta muitas vezes ao nível anterior quando se para;
- pós-coital, quando as infeções se ligam às relações;
- autotratamento: a doente começa um curso curto aos primeiros sintomas.
Bacteriúria assintomática
- Só se procura na grávida, uma vez em cada trimestre, e antes de cirurgia urológica que atravessa a mucosa.
- Não se procura nem se trata na mulher sem fatores de risco, na pós-menopausa, na diabetes controlada, na idosa institucionalizada, na algaliada nem na mulher com infeções recorrentes, em que tratá-la faz mal.
Cistite não complicada
Norma da DGS 015/2011:
| fármaco | dose | duração |
|---|---|---|
| Nitrofurantoína | 100 mg de 6 em 6 horas | 5 a 7 dias |
| Fosfomicina | 3 g | dose única |
| Amoxicilina e ácido clavulânico, alternativa | 625 mg (500 e 125 mg) de 8 em 8 horas | 5 a 7 dias |
- A EAU (associação europeia de urologia) dá como primeira linha a fosfomicina 3 g em dose única, a nitrofurantoína (na formulação de monohidrato e macrocristais, 100 mg de 12 em 12 horas durante 5 dias) e o pivmecilinam 400 mg de 8 em 8 horas durante 3 a 5 dias; o cotrimoxazol só onde a resistência da E. coli é inferior a 20%.
- As quinolonas não são terapêutica empírica: a resistência dos agentes frequentes em Portugal ronda os 30%. Ficam para a contraindicação ou intolerância às outras opções.
- A nitrofurantoína usa-se com precaução na idosa e não serve com urina de pH acima de 7, como nas infeções por Proteus. Nem ela nem a fosfomicina se usam com depuração de creatinina abaixo de 10 mL/min ou em hemodiálise.
- A fosfomicina dá mais diarreia mas atua melhor sobre os Gram-positivos.
- Se a infeção recidiva depois do tratamento, muda-se de grupo de antibiótico e ajusta-se ao antibiograma.
Pielonefrite
- Casos ligeiros a moderados, sem comorbilidades nem obstrução, tratam-se em casa por via oral.
- Considera-se o internamento na grávida, nas comorbilidades, na obstrução urinária e nos casos graves; com sépsis, antibiótico precoce depois de urocultura e hemoculturas, no hospital.
| situação | esquema (Norma da DGS 015/2011) |
|---|---|
| Ligeira a moderada | ceftriaxona 1 g endovenosa ou intramuscular em toma única, seguida de cefuroxima-axetil 500 mg de 12 em 12 horas por via oral, 7 a 14 dias |
| Ligeira a moderada, com intolerância aos beta-lactâmicos | levofloxacina 750 mg por dia, 5 dias |
| Grave, com sépsis | ceftriaxona 2 g por dia, endovenosa ou intramuscular, no hospital |
| Grave, com intolerância aos beta-lactâmicos | gentamicina 5 mg/kg por dia endovenosa, depois antibiótico dirigido pelo antibiograma |
- Ajusta-se ao antibiograma e passa-se à via oral quando a doente melhora.
- Nitrofurantoína, fosfomicina oral e pivmecilinam não tratam a pielonefrite, porque não atingem concentração útil no tecido renal.
- Obstrução com infeção é uma urgência urológica: drena-se.
- A cistite é fator de risco para nova cistite e para pielonefrite.
- A pielonefrite pode evoluir para sépsis, abcesso renal ou, na diabetes, pielonefrite enfisematosa.
- Sem alterações anatómicas, as infeções recorrentes não levam a pielonefrite crónica nem a insuficiência renal; com obstrução ou litíase, a infeção acelera a lesão renal.
- A nitrofurantoína em profilaxia prolongada pode dar, raramente, toxicidade pulmonar e hepática e neuropatia periférica.
Grávida
- Bacteriúria assintomática: procura-se uma vez em cada trimestre e trata-se sempre, porque na grávida o tratamento reduz as complicações.
- Esquemas da Norma da DGS 015/2011, iguais para a bacteriúria assintomática e para a cistite na grávida:
| fármaco | dose | duração |
|---|---|---|
| Fosfomicina | 3 g | dose única |
| Amoxicilina e ácido clavulânico (evitar no primeiro trimestre) | 625 mg (500 e 125 mg) de 8 em 8 horas | 5 a 7 dias |
- A EAU aceita, na bacteriúria da grávida, um curso curto habitual ou a fosfomicina em dose única. Na cistite da grávida podem usar-se penicilinas, cefalosporinas, fosfomicina e nitrofurantoína (não no défice de glicose-6-fosfato desidrogenase nem no fim da gravidez); o trimetoprim evita-se no primeiro trimestre e as sulfonamidas no último. As quinolonas evitam-se na gravidez.
- A urocultura faz-se antes de tratar, e a tira-teste negativa não chega para excluir bacteriúria.
- Pielonefrite: considera-se o internamento; na forma grave, antibiótico parentérico (beta-lactâmico), passando à via oral depois da melhoria, com 7 a 10 dias no total.
Idosa
- A bacteriúria assintomática é frequente e não se trata, nem na algaliada. Na algaliada só se trata com sintomas sistémicos, pela urocultura, e a remoção ou troca da algália faz parte do tratamento.
- Uma urocultura positiva não explica, só por si, um delírio.
Referências
- Pelvic support defects, urinary incontinence, and urinary tract infection. In: Beckmann and Ling's obstetrics and gynecology. 8th ed. Philadelphia: Wolters Kluwer; 2019. cap. 30.
- Gupta K, Trautner BW. Urinary tract infections, pyelonephritis, and prostatitis. In: Loscalzo J, Fauci A, Kasper D, Hauser S, Longo D, Jameson JL, editors. Harrison's principles of internal medicine. 21st ed. New York: McGraw Hill; 2022. cap. 135.
- Direção-Geral da Saúde. Norma n.º 015/2011: Terapêutica de infeções do aparelho urinário (comunidade). Lisboa: DGS; 2011 (atualizada em 2014).
- European Association of Urology. EAU guidelines on urological infections. Arnhem: EAU; 2026.
- National Institute for Health and Care Excellence. Urinary incontinence and pelvic organ prolapse in women: management. NICE guideline NG123. London: NICE; 2019 (atualizada).
- Woodley SJ, Lawrenson P, Boyle R, Cody JD, Mørkved S, Kernohan A, et al. Pelvic floor muscle training for preventing and treating urinary and faecal incontinence in antenatal and postnatal women. Cochrane Database Syst Rev. 2020;5:CD007471.
- European Medicines Agency. Vesicare, trospio e (solifenacina, trospio e mirabegrom): resumos das características do medicamento.
20 perguntas sobre Patologia do pavimento pélvico, incontinência urinária e infeção do trato urinário
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