Leiomiomas uterinos e neoplasia do corpo uterino
Atualizado em 28 de setembro de 2026 · 14 perguntas neste tema
O corpo do útero dá origem a um tumor benigno muito frequente, o leiomioma, e a um conjunto de neoplasias malignas dominado pelo carcinoma do endométrio, com os sarcomas uterinos como raridade. Separam-se na clínica por uma pergunta simples: a hemorragia acontece antes ou depois da menopausa?
O leiomioma é um tumor clonal do músculo liso, dependente das hormonas ováricas, presente em até 80% dos úteros examinados com cuidado e mais precoce e sintomático nas mulheres negras. Na maioria não dá queixas. Quando dá, é hemorragia menstrual abundante, sobretudo nos miomas que fazem saliência para a cavidade (tipos 0 a 2 da classificação FIGO), ou sintomas de volume. O diagnóstico é ecográfico, e o tratamento decide-se pelos sintomas, pelo tipo de mioma e pelo desejo de engravidar: vigilância no mioma calado; sistema intrauterino de levonorgestrel, ácido tranexâmico ou os antagonistas orais da GnRH com terapêutica de reposição no tratamento médico; ressecção histeroscópica, miomectomia, embolização ou histerectomia quando é preciso intervir.
O carcinoma do endométrio é a neoplasia maligna mais frequente do aparelho genital feminino nos países de rendimento elevado. O tipo mais comum, endometrioide, nasce do estrogénio sem oposição de progesterona, e é isso que o liga à obesidade, à anovulação, à nuliparidade, ao tamoxifeno e ao estrogénio dado sem progestativo; o seu precursor é a hiperplasia com atipia. Anuncia-se cedo por hemorragia, e por isso cerca de três quartos são diagnosticados no estádio I. Toda a hemorragia depois da menopausa se investiga com ecografia transvaginal e biópsia do endométrio.
O tratamento é a histerectomia total com anexectomia bilateral e gânglio sentinela. A classificação molecular (mutação da polimerase épsilon, deficiência de reparação de emparelhamentos, perfil inespecífico e p53 anormal) faz-se em todos os tumores, entrou no estadiamento FIGO de 2023 e decide, com o estádio, o grupo de risco e a adjuvância: nada, braquiterapia vaginal, radioterapia pélvica ou quimioterapia com radioterapia. Na doença avançada com deficiência de reparação, a imunoterapia associada à quimioterapia é o tratamento de primeira linha. A deficiência de reparação obriga ainda a pensar na síndrome de Lynch, em que o endométrio é muitas vezes o primeiro cancro.
O que não se pode falhar: mulher com útero não leva estrogénio sem progestativo; a citologia do colo não exclui carcinoma do endométrio; uma massa uterina que cresce depois da menopausa é sarcoma até prova em contrário; e perante suspeita de sarcoma não se morcela.
- Leiomioma (mioma, fibroma): proliferação localizada de células de músculo liso do miométrio, rodeada por uma pseudocápsula de fibras musculares comprimidas. É o tumor benigno mais frequente do útero.
- A prevalência máxima é na quinta década: cerca de uma em quatro mulheres brancas e uma em duas mulheres negras. Quando o útero é examinado com cuidado na anatomia patológica, a prevalência chega a 80%.
- São mais frequentes, surgem mais cedo e dão mais sintomas nas mulheres negras.
- Vão do tamanho microscópico a massas que ocupam o abdómen. Quase sempre são múltiplos: o submucoso isolado é raro.
- São a indicação mais frequente de histerectomia (cerca de 30% das histerectomias), e motivam também miomectomias, ressecções histeroscópicas e embolizações.
- Crescem na idade reprodutiva, podem crescer depressa na gravidez e param de crescer, ou atrofiam, depois da menopausa.
- Cerca de 5% nascem no colo; raramente surgem fora do útero (ligamento largo, peritoneu).
Classificação FIGO
A classificação da Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia (FIGO) descreve a posição do mioma em relação ao endométrio e à serosa, e é ela que orienta a conduta.
| tipo | localização | grupo |
|---|---|---|
| 0 | pediculado, inteiramente dentro da cavidade | submucoso |
| 1 | menos de 50% na parede | submucoso |
| 2 | 50% ou mais na parede | submucoso |
| 3 | inteiramente na parede, encostado ao endométrio | intramural |
| 4 | inteiramente na parede, sem contacto com endométrio nem serosa | intramural |
| 5 | subseroso, 50% ou mais na parede | subseroso |
| 6 | subseroso, menos de 50% na parede | subseroso |
| 7 | subseroso pediculado | subseroso |
| 8 | outros: cervical, parasita, do ligamento largo | outro |
- O mioma que toca o endométrio e a serosa é híbrido e escreve-se com dois números separados por hífen: o primeiro descreve a relação com o endométrio e o segundo com a serosa (por exemplo, 2-5).
Origem
- Cada mioma é monoclonal: nasce de uma única célula de músculo liso, e cada nódulo surge de forma independente. Retirar um mioma não impede que apareçam outros.
- Estão implicadas translocações e deleções cromossómicas e fatores de crescimento peptídicos.
- Uma forma hereditária rara, por mutação germinal do gene da fumarato hidratase, junta miomas múltiplos e precoces, leiomiomas cutâneos dolorosos e carcinoma de células renais.
Dependência hormonal
- O estrogénio induz a expressão de recetores de progesterona no miométrio, e é a progesterona, ligada a esses recetores, que estimula a produção de fatores de crescimento e a proliferação. O estrogénio é permissivo; a progesterona é o motor.
- Isto explica que cresçam na idade reprodutiva e na gravidez, que regridam na menopausa e que tanto a supressão ovárica como os moduladores do recetor de progesterona os reduzam.
- O mioma é em grande parte matriz extracelular rica em colagénio. Por isso a supressão hormonal reduz o volume só em parte, e o volume volta quando o tratamento para.
Porque sangram
Três mecanismos aceites:
- alteração da contratilidade do miométrio sobre as pequenas artérias que irrigam o endométrio;
- endométrio sobre o mioma que não responde às fases do ciclo e descama de forma incompleta;
- necrose de pressão do endométrio sobre o mioma, que expõe superfícies vasculares.
É a proximidade à cavidade, e não o tamanho, que prediz a hemorragia: um submucoso pequeno sangra mais do que um subseroso grande.
Porque doem
A dor é pouco habitual e tem causa: necrose ou isquemia de um mioma que cresce depressa (degenerescência), torção de um subseroso pediculado, ou um submucoso pediculado a ser expulso pelo colo, com cólicas semelhantes às do trabalho de parto.
- A maioria é assintomática e descobre-se por acaso, no exame ginecológico ou numa ecografia.
- Hemorragia uterina abundante é o sintoma mais frequente: menstruações progressivamente mais abundantes e mais longas (perda acima de 80 mL por ciclo). Pode levar a anemia ferropénica crónica e, raramente, a hemorragia aguda grave.
- Sintomas de volume: pressão pélvica, massa palpável, polaquiúria, dificuldade na defecação. Miomas volumosos podem comprimir os ureteres no estreito superior e causar hidronefrose.
- Dismenorreia secundária.
- Dor aguda: degenerescência, torção de subseroso pediculado, ou prolapso de submucoso pelo colo.
- Infertilidade e complicações obstétricas, sobretudo com submucosos.
Exame físico
- Útero aumentado, de contorno irregular, duro, móvel e indolor, descrito em semanas de gestação equivalentes.
- Com vários miomas, o contorno fica bosselado.
- Um subseroso pediculado pode confundir-se com uma massa anexial sólida.
Imagem
- Ecografia pélvica, de preferência transvaginal: primeiro exame. Nódulos arredondados no miométrio, com sombra acústica; áreas quísticas hipoecogénicas sugerem degenerescência; confirma que os ovários estão separados da massa.
- Histerossonografia (ecografia com instilação de soro na cavidade) e histeroscopia: os melhores métodos para identificar e medir submucosos e pólipos. A histeroscopia permite ainda ressecá-los no mesmo tempo.
- Ressonância magnética: mapeia número, tamanho, posição e vascularização antes de miomectomia ou embolização; útil nos úteros muito volumosos que a ecografia não caracteriza; e é o exame quando há aspetos atípicos que fazem pensar em sarcoma.
Avaliação complementar
- Hemograma e ferritina na hemorragia abundante.
- Biópsia do endométrio quando há hemorragia irregular e o carcinoma é uma hipótese (acima dos 45 anos, ou mais nova com fatores de risco), independentemente de haver miomas.
- Teste de gravidez na idade reprodutiva.
Diagnóstico diferencial
| entidade | o que distingue |
|---|---|
| Adenomiose | útero globoso, uniformemente aumentado, amolecido e doloroso; dismenorreia marcada |
| Pólipo endometrial | lesão intracavitária de base endometrial na histerossonografia ou histeroscopia |
| Massa anexial sólida | separada do útero na ecografia; um subseroso pediculado pode imitá-la |
| Gravidez | teste de gravidez |
| Sarcoma uterino | crescimento rápido, sobretudo depois da menopausa; aspetos atípicos na ressonância |
| Carcinoma do endométrio | hemorragia irregular ou pós-menopausa; diagnóstico por biópsia |
A decisão pesa os sintomas, o tamanho, o número e o tipo FIGO dos miomas, o desejo de engravidar, a proximidade da menopausa e a preferência da doente.
Vigilância
- Mioma assintomático não se trata, seja qual for o tamanho, e não se opera para prevenir sarcoma. Vigia-se pelos sintomas e pelo tamanho, clinicamente ou com ecografia.
- Hemorragia que não perturba a vida da doente e não causa anemia também pode ser só vigiada.
- Anemia: corrigir com ferro.
Tratamento médico
Controla a hemorragia; só a supressão ovárica e os moduladores da progesterona reduzem o volume, e o efeito perde-se quando param.
| fármaco | papel | limitações |
|---|---|---|
| Sistema intrauterino de levonorgestrel | primeira linha na hemorragia com miomas menores de 3 cm que não deformam a cavidade | não reduz o volume; efeito pleno ao fim de cerca de 6 ciclos |
| Ácido tranexâmico (antifibrinolítico) e anti-inflamatórios não esteroides | reduzem o fluxo; úteis enquanto se planeia o tratamento definitivo | resultados variáveis nos miomas; não reduzem o volume |
| Contracetivo hormonal combinado, progestativo oral | controlo do fluxo | pouco eficazes se a cavidade estiver deformada |
| Agonistas da GnRH (hormona libertadora de gonadotrofinas) | reduzem o volume 40 a 60%; usados antes de cirurgia, para corrigir a anemia e facilitar a operação, ou como ponte até à menopausa | estimulação inicial antes da supressão; perda óssea e sintomas de hipoestrogenismo limitam-nos a 6 meses sem terapêutica de reposição; o mioma volta a crescer quando param |
| Antagonistas orais da GnRH com terapêutica de reposição | relugolix combinado com estradiol 1 mg e acetato de noretisterona 0,5 mg num só comprimido, uma vez por dia, ou linzagolix; sintomas moderados a graves na idade reprodutiva, em tratamento prolongado | suprimem de imediato, sem estimulação inicial; a reposição protege o osso e trata os sintomas vasomotores; com o relugolix combinado, densitometria ao fim de 1 ano e contraindicação na osteoporose e na doença tromboembólica |
| Acetato de ulipristal (modulador do recetor de progesterona) | só em tratamento intermitente, na mulher pré-menopáusica em quem a cirurgia e a embolização não são adequadas ou falharam | casos de lesão hepática grave, alguns com transplante; restrição pela agência europeia do medicamento em 2021; provas hepáticas antes e durante o tratamento |
- O relugolix combinado só dá contraceção ao fim de 1 mês: usa-se um método não hormonal no primeiro mês.
Tratamento cirúrgico e de intervenção
| opção | para quem | a reter |
|---|---|---|
| Miomectomia histeroscópica | submucosos, tipos 0 e 1, e tipo 2 selecionados | até 20% precisam de novo tratamento em 10 anos |
| Miomectomia (laparoscópica ou laparotómica) | quem quer preservar a fertilidade, ou tem infertilidade atribuível aos miomas | hemorragia intraoperatória, aderências, raramente histerectomia de urgência; em 20 anos, uma em cada quatro acaba histerectomizada, quase sempre por recorrência |
| Histerectomia | sintomas com o projeto reprodutivo concluído; tratamento definitivo | não se faz em miomas assintomáticos; discute-se a via, total ou subtotal, e só se retiram os ovários por vontade expressa da doente |
| Embolização das artérias uterinas | alternativa à cirurgia, preservando o útero | melhora hemorragia, pressão e dor em mais de 85%; síndrome pós-embolização (dor e febre) com internamento em 10 a 15%; expulsão de miomas necrosados até 30 dias; quando se quer engravidar prefere-se a miomectomia |
| Ultrassons focados guiados por ressonância | casos selecionados | necrose de coagulação do mioma; muitas vezes são precisas várias sessões |
- Contraindicações da miomectomia: gravidez em curso, doença anexial avançada, neoplasia maligna, ou quando retirar os miomas destruiria a função do útero.
- Antes de embolização ou miomectomia, avaliação por ecografia e, se precisa de mais detalhe, ressonância.
- Agonista da GnRH antes de histerectomia ou miomectomia quando o útero está aumentado ou deformado.
Morcelação
- Fragmentar o útero ou o mioma para o retirar por laparoscopia pode disseminar um sarcoma que ninguém suspeitava. Estima-se um sarcoma oculto em cerca de 1 em cada 225 a 580 mulheres operadas por miomas, e um leiomiossarcoma em 1 em cada 495 a 1100.
- Quando a morcelação está indicada, faz-se contida num saco; nunca se faz quando há suspeita de sarcoma, e a doente é informada do risco.
- Anemia ferropénica: instala-se devagar e é bem tolerada, pelo que a hemoglobina pode estar muito baixa com poucas queixas.
- Degenerescência: o mioma cresce mais do que o seu aporte de sangue. Pode ser hialina, quística, calcificada ou vermelha (hemorrágica, típica da gravidez). A quística vê-se na ecografia como áreas hipoecogénicas.
- Torção de um subseroso pediculado: dor aguda, diferencial da torção do anexo.
- Prolapso de um submucoso pediculado pelo colo: cólicas, hemorragia e risco de infeção.
- Compressão urinária: polaquiúria, hidroureter e hidronefrose.
- Complicações do tratamento: hemorragia e aderências na miomectomia; síndrome pós-embolização e infeção tardia depois da embolização; necessidade de nova intervenção depois de ressecção histeroscópica.
- Prognóstico: doença benigna, que regride na menopausa. A recorrência depois de tratamento conservador é frequente, porque os miomas são múltiplos e independentes.
Gravidez
- Com miomas pequenos a gravidez é habitualmente normal. Miomas grandes ou múltiplos associam-se a parto pré-termo, restrição do crescimento fetal, apresentação anómala, dor pélvica, distocia, cesariana e hemorragia pós-parto.
- Degenerescência vermelha: dor localizada sobre o mioma, porque ele cresce mais do que o aporte de sangue. Trata-se com repouso e analgesia; a miomectomia na gravidez é excecional e limita-se a miomas pediculados.
- Não se retiram miomas na cesariana: a hemorragia pode ser profusa e acabar em histerectomia.
- O mioma, por si, não é indicação de cesariana, exceto quando é prévio (segmento inferior ou colo) e obstrui o parto.
- Depois de uma miomectomia que entrou na cavidade recomenda-se cesariana, pelo risco de rutura uterina numa gravidez futura; nos outros casos decide-se caso a caso.
Pós-menopausa
- Sem estrogénio ovárico o mioma deixa de crescer. Mesmo a terapêutica hormonal da menopausa em dose baixa não explica o crescimento.
- Útero que cresce depois da menopausa faz pensar em sarcoma.
Infertilidade
- Os submucosos são os que comprometem a fertilidade, e é neles que a ressecção histeroscópica tem retorno. A miomectomia é a opção de quem quer engravidar.
- Proliferação excessiva de glândulas endometriais, com aumento da relação glândula-estroma. É o precursor mais frequente do adenocarcinoma endometrioide.
- A classificação da Organização Mundial da Saúde (OMS), revista em 2014, que substituiu as quatro categorias antigas (simples e complexa, com e sem atipia), tem só duas:
| hiperplasia sem atipia | hiperplasia atípica (neoplasia intraepitelial endometrioide) | |
|---|---|---|
| Natureza | resposta proliferativa ao estrogénio, sem alterações genéticas relevantes | lesão neoplásica, com muitas das alterações do carcinoma endometrioide (instabilidade de microssatélites, perda de PTEN, mutações de KRAS e de beta-catenina) |
| Carcinoma já presente na histerectomia | menos de 1% | cerca de 25 a 40% ou mais |
| Progressão para carcinoma | menos de 5% em 20 anos; a maioria regride | risco relativo de 14 a 45 |
- A atipia define-se pela citologia: perda de polaridade, núcleos aumentados com relação núcleo-citoplasma alta, cromatina densa e nucléolos proeminentes.
- O mecanismo central é a estimulação por estrogénio sem oposição de progesterona. A proliferação é normal na fase folicular; mantida sem progesterona durante 6 meses ou mais, passa a hiperplasia.
- As fontes de estrogénio são endógenas ou exógenas:
- ovário (estradiol e estrona);
- conversão periférica da androstenediona em estrona no tecido adiposo;
- tumores produtores de estrogénio, como o tumor de células da granulosa;
- estrogénio exógeno sem progestativo, em qualquer via.
- Os fatores de risco são os mesmos do carcinoma endometrioide: obesidade, anovulação crónica (síndrome do ovário poliquístico), nuliparidade, infertilidade, menopausa tardia, menarca precoce, tamoxifeno e estrogénio sem progestativo.
- O progestativo reverte a hiperplasia por três vias: converte o estradiol em estrogénios mais fracos, reduz os recetores de estrogénio das glândulas e decidualiza o estroma, tornando o endométrio atrófico.
- O sintoma é a hemorragia uterina anómala: irregular na perimenopausa, ou qualquer hemorragia depois da menopausa.
- Avalia-se o endométrio em toda a hemorragia anómala acima dos 45 anos, e antes dessa idade quando há fatores de risco (obesidade, anovulação crónica, hiperplasia prévia, tamoxifeno, estrogénio, história familiar de cancro do cólon, do endométrio ou da mama).
- Biópsia do endométrio por aspiração em consulta: exatidão de 90 a 98% em comparação com a curetagem ou a histerectomia.
- Histeroscopia com biópsia dirigida quando a biópsia em consulta não é possível (colo estenosado, intolerância) ou é inconclusiva, e quando a suspeita persiste.
- A ecografia transvaginal é complementar: mostra espessamento, pólipos e miomas.
- Pólipos endometriais: são hiperplasias focais, mais frequentes na perimenopausa. Menos de 5% têm transformação maligna, e o risco é maior depois da menopausa e sob tamoxifeno.
- Na hiperplasia atípica, antes de qualquer decisão, excluem-se carcinoma invasor e tumor do ovário coexistente.
Hiperplasia sem atipia
- Corrigir os fatores reversíveis: obesidade e terapêutica hormonal sem progestativo adequado.
- A vigilância com biópsias pode considerar-se, porque a maioria regride; mas o progestativo tem maior taxa de regressão.
- Sistema intrauterino de levonorgestrel em primeira linha: mais regressão e melhor perfil de hemorragia do que o progestativo oral. O progestativo oral contínuo é a alternativa.
- Tratamento durante pelo menos 6 meses; se tolerado e sem desejo de gravidez, o sistema intrauterino pode ficar até 5 anos, o que reduz a recidiva.
- Biópsias de 6 em 6 meses, e alta depois de duas biópsias consecutivas negativas.
- Histerectomia não é primeira linha. Está indicada quando há progressão para atipia, ausência de regressão ao fim de 12 meses, recidiva, hemorragia persistente, ou quando a doente recusa a vigilância. Na pós-menopausa junta-se a anexectomia bilateral.
Hiperplasia atípica
- Histerectomia total, de preferência laparoscópica, pelo risco de carcinoma já presente ou de progressão. Na pós-menopausa com anexectomia bilateral; na pré-menopausa a decisão sobre os ovários é individual.
- Não se faz histerectomia subtotal nem ablação do endométrio: a ablação não garante a destruição completa e as aderências impedem a vigilância.
- Quem quer engravidar: sistema intrauterino de levonorgestrel em primeira linha, progestativo oral como alternativa, com biópsias de 3 em 3 meses até duas consecutivas negativas. Histerectomia quando o projeto reprodutivo estiver concluído, pelo risco alto de recidiva.
| primeira linha | vigilância | histerectomia | |
|---|---|---|---|
| Sem atipia | SIU de levonorgestrel, pelo menos 6 meses | biópsia de 6 em 6 meses; alta com duas negativas | só se falhar, progredir, recidivar ou a doente recusar vigilância |
| Atípica | histerectomia total | biópsia de 3 em 3 meses se o útero ficar | sempre, quando não houver desejo de gravidez |
- Cerca de 97% dos cancros do corpo do útero nascem das glândulas do endométrio (carcinomas do endométrio); os restantes 3% são sarcomas.
- É a neoplasia maligna mais frequente do aparelho genital feminino nos países de rendimento elevado. Na Europa, cerca de 125 mil casos novos e 30 mil mortes em 2022, com incidência a subir pelo envelhecimento e pela obesidade.
- O risco ao longo da vida é de 2 a 3%.
- É uma doença sobretudo da mulher pós-menopáusica, mas uma parte surge antes, sobretudo na obesidade, na anovulação crónica e na síndrome de Lynch.
- Anuncia-se cedo por hemorragia: cerca de três quartos são diagnosticados no estádio I, com sobrevivência elevada.
Tipos histológicos
| tipo I | tipo II | |
|---|---|---|
| Histologia | endometrioide de baixo grau | seroso, células claras, carcinossarcoma, indiferenciado |
| Frequência | cerca de 80% | minoria |
| Estrogénio | dependente; nasce de hiperplasia | independente; nasce em endométrio atrófico |
| Doente | mais nova, obesa | idosa, magra |
| Prognóstico | bom | mau; disseminação peritoneal, como no ovário |
A divisão em dois tipos continua a explicar os fatores de risco, mas foi ultrapassada pela classificação molecular, que prevê melhor o prognóstico e já decide o tratamento.
Estrogénio sem oposição
O endometrioide nasce do estrogénio sem progesterona que o contrarie. Sem ovulação não há corpo lúteo, sem corpo lúteo não há progesterona, e o endométrio prolifera. É isto que une os fatores de risco:
| fator | risco relativo aproximado |
|---|---|
| Estrogénio da menopausa sem progestativo, em dose alta e prolongado | 10 a 20 |
| Tamoxifeno em dose cumulativa alta | 3 a 7 |
| Síndrome do ovário poliquístico ou tumor produtor de estrogénio | mais de 5 |
| Obesidade | 2 a 5 |
| Nuliparidade | 3 |
| Idade avançada, infertilidade, menopausa tardia | 2 a 3 |
| Menarca precoce | 1,5 a 2 |
- Obesidade: o tecido adiposo converte androstenediona em estrona.
- Tamoxifeno: antiestrogénio na mama, estrogénio fraco no endométrio. Cinco anos ou mais de tratamento associam-se a um risco de 1 a 2%.
- Síndrome de Lynch: mutação germinal num gene de reparação de emparelhamentos (MLH1, MSH2, MSH6, PMS2). O carcinoma do endométrio é muitas vezes o primeiro cancro da síndrome, antes do cólon.
- Fatores protetores: contracetivo oral combinado, progestativos, multiparidade.
Classificação molecular
A classificação molecular separa quatro grupos com comportamento diferente, qualquer que seja a histologia:
| grupo | o que é | prognóstico |
|---|---|---|
| POLE mutado | mutação patogénica do domínio exonuclease da polimerase épsilon; tumor ultramutado | excelente, mesmo com histologia de alto grau |
| MMRd (deficiência de reparação de emparelhamentos) | perda de MLH1, PMS2, MSH2 ou MSH6; instabilidade de microssatélites; esporádico (metilação do promotor de MLH1) ou Lynch | intermédio; responde à imunoterapia |
| NSMP (sem perfil molecular específico) | nenhum dos outros três; o recetor de estrogénio e o grau separam um subgrupo de bom prognóstico (baixo grau com recetor positivo) de outro de mau (alto grau ou recetor negativo) | intermédio, heterogéneo |
| p53 anormal | mutação de TP53; inclui quase todos os serosos | mau |
- Um tumor com mais de uma alteração classifica-se pela que o conduz: POLE mutado ganha a todas; MMRd com p53 anormal fica MMRd.
- Hemorragia uterina anómala é o sintoma cardinal: é a única queixa em 80 a 90% das mulheres com carcinoma.
- Depois da menopausa, qualquer hemorragia (definida como a que surge depois de 12 meses de amenorreia) é sinal de alarme. Antes da menopausa, hemorragia intermenstrual ou irregular.
- Na idosa com estenose do colo, o sangue fica retido: hematómetra ou piómetra, com corrimento purulento.
- Na doença avançada: dor ou pressão pélvica, aumento do útero, ascite e doença peritoneal, sobretudo no seroso.
- Entre 5 e 20% são assintomáticas e descobrem-se por acaso.
- O exame ginecológico é muitas vezes normal na doença inicial.
Hemorragia pós-menopausa
- Causas: pólipos (cerca de 38%), atrofia (cerca de 31%), carcinoma (cerca de 5 a 10%, e mais com a idade), hiperplasia (2%) e outras. O carcinoma é a causa que não se pode falhar.
- Ecografia transvaginal e biópsia do endométrio fazem-se logo na primeira avaliação, na maioria das doentes (atualização do Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas, 2026).
- A ecografia sozinha basta só num grupo restrito: episódio único de hemorragia, endométrio inteiramente visualizado com 4 mm ou menos, sem fatores de risco fortes, e a doente informada de que qualquer nova hemorragia obriga a reavaliação imediata. Com 4 mm ou menos, a probabilidade de carcinoma é de cerca de 1%, baixa mas não nula.
- Endométrio acima de 4 mm, mal visualizado, polipoide ou com líquido na cavidade: amostragem obrigatória.
- Na pré-menopausa a espessura do endométrio pouco vale, porque varia ao longo do ciclo.
Confirmação histológica
- Biópsia por aspiração em consulta é o primeiro método.
- Biópsia insuficiente numa mulher pós-menopáusica sem terapêutica hormonal é compatível com atrofia; mas se a suspeita clínica se mantiver, ou se a hemorragia persistir ou voltar, faz-se histeroscopia com biópsia dirigida, que vê pólipos e lesões focais que a aspiração às cegas falha.
- Uma biópsia normal com hemorragia recorrente obriga a repetir a avaliação.
Depois do diagnóstico
- Classificação molecular em todos, de preferência na biópsia: imuno-histoquímica das proteínas de reparação (com metilação do promotor de MLH1 quando falta MLH1), de p53 e do recetor de estrogénio, e pesquisa de mutação de POLE. Na doença avançada ou recidivada p53 anormal, serosa ou carcinossarcoma, pode pesquisar-se HER2.
- Grau histológico: G1 com 5% ou menos de padrão sólido, G2 com 6 a 50%, G3 com mais de 50%. Para o estadiamento de 2023, G1 e G2 são baixo grau e G3 é alto grau.
- Invasão do miométrio avaliada por ressonância ou por ecografia de especialista; a TC não serve para isso.
- Estudo de extensão por TC quando o tipo é de alto grau ou há suspeita de doença fora do útero.
- CA-125 pode estar elevado na doença avançada e serve para seguir a resposta.
Estadiamento FIGO 2023
O estadiamento é cirúrgico e anatomopatológico. A versão de 2023 junta à extensão anatómica o tipo histológico, a invasão do espaço linfovascular e o grupo molecular.
- Tipos não agressivos: endometrioide de baixo grau (G1 e G2).
- Tipos agressivos: endometrioide G3, seroso, células claras, carcinossarcoma, indiferenciado, misto, mesonefroide e mucinoso de tipo gastrointestinal.
- Invasão do espaço linfovascular: focal quando atinge menos de 5 vasos, substancial quando atinge 5 ou mais.
| estádio | definição |
|---|---|
| IA1 | não agressivo, limitado a um pólipo ou ao endométrio |
| IA2 | não agressivo, invasão de menos de metade do miométrio, sem invasão linfovascular ou só focal |
| IA3 | endometrioide de baixo grau do endométrio e do ovário em simultâneo, com critérios de bom prognóstico |
| IB | não agressivo, invasão de metade ou mais do miométrio, sem invasão linfovascular ou só focal |
| IC | agressivo, limitado a um pólipo ou ao endométrio |
| IIA | não agressivo, invasão do estroma do colo |
| IIB | não agressivo, invasão linfovascular substancial |
| IIC | agressivo, com qualquer invasão do miométrio |
| IIIA1 | ovário ou trompa (fora dos critérios de IA3) |
| IIIA2 | subserosa ou serosa do útero |
| IIIB1 | vagina ou paramétrios |
| IIIB2 | peritoneu pélvico |
| IIIC1 | gânglios pélvicos (i micrometástase, ii macrometástase) |
| IIIC2 | gânglios para-aórticos até aos vasos renais (i micrometástase, ii macrometástase) |
| IVA | mucosa da bexiga ou do intestino |
| IVB | peritoneu fora da pelve |
| IVC | metástases à distância, incluindo gânglios acima dos vasos renais, pulmão, fígado, cérebro e osso |
O estádio IA3 exige invasão de menos de metade do miométrio, ausência de invasão linfovascular substancial, ausência de outras metástases e tumor do ovário unilateral, limitado ao ovário e sem invasão nem rotura da cápsula.
O grupo molecular muda o estádio
Quando o grupo molecular é conhecido, escreve-se «m» a seguir ao estádio. Nos estádios I e II:
- POLE mutado passa a IAm POLEmut, qualquer que seja a invasão do miométrio, o colo ou a invasão linfovascular;
- p53 anormal com invasão do miométrio passa a IICm p53abn;
- MMRd e NSMP mantêm o estádio anatómico.
Nos estádios III e IV o grupo molecular regista-se, mas não muda o estádio.
Na população geral
- Não há rastreio do carcinoma do endométrio. A prevenção secundária é investigar toda a hemorragia pós-menopausa.
- Sob tamoxifeno, a mulher assintomática não faz ecografia nem biópsia de rotina, porque os achados são inespecíficos e levam a procedimentos desnecessários. Informa-se de que qualquer hemorragia ou corrimento com sangue se investiga.
- Mulher com útero não faz estrogénio sem progestativo na terapêutica hormonal da menopausa. Estrogénio isolado só na histerectomizada.
- O contracetivo oral combinado protege: cada 5 anos de uso reduz o risco em cerca de 24%, e a proteção dura mais de 30 anos depois de parar.
- Na anovulação crónica, como na síndrome do ovário poliquístico, o progestativo (cíclico, contínuo ou no sistema intrauterino) é prevenção do carcinoma e não só controlo do ciclo.
- Manter um peso saudável.
- A citologia do colo não rastreia o endométrio: só 30 a 40% das mulheres com carcinoma do endométrio têm citologia alterada.
Síndrome de Lynch
- Todos os carcinomas do endométrio se testam para deficiência de reparação por imuno-histoquímica, e não só os das mulheres jovens. Quando falta MLH1 (sozinho ou com PMS2), estuda-se a metilação do promotor: se estiver metilado, a causa é esporádica.
- Quem tem suspeita de Lynch, pelo tumor ou pela história familiar, é referenciada para consulta de genética.
- Portadoras:
- vigilância do endométrio a partir dos 30 anos, ajustada à mutação e à história familiar, com ecografia transvaginal anual e biópsia anual ou de 2 em 2 anos até à cirurgia;
- histerectomia com anexectomia bilateral redutora de risco, de preferência laparoscópica, quando o projeto reprodutivo estiver concluído: de preferência antes dos 40 anos nas mutações de MLH1, MSH2 e MSH6, e na menopausa nas mutações de PMS2;
- depois da anexectomia na pré-menopausa, propõe-se terapêutica hormonal de substituição.
Cirurgia da doença aparentemente confinada ao útero
- Histerectomia total com anexectomia bilateral e estadiamento ganglionar, de preferência por via minimamente invasiva, também no alto risco.
- Evita-se qualquer derrame de tumor no peritoneu, incluindo a rotura do útero e a morcelação, mesmo em saco.
- Gânglio sentinela em todas as doentes com doença aparentemente confinada ao útero, com verde de indocianina injetado no colo, e ultraestadiamento dos gânglios. Se não houver gânglio sentinela de um lado, faz-se linfadenectomia sistemática desse lado no risco alto-intermédio e alto.
- Omentectomia infracólica no seroso, no carcinossarcoma e no indiferenciado; nos outros tipos não é necessária.
- Preservação dos ovários: pode considerar-se abaixo dos 45 anos nos estádios IA1 ou IA2 de baixo risco molecular, com salpingectomia bilateral. Nunca na síndrome de Lynch nem nas portadoras de mutação de BRCA.
- Doente sem condições para a cirurgia padrão: histerectomia vaginal com anexectomia, ou radioterapia definitiva (radioterapia externa e braquiterapia intrauterina nos tumores de alto grau ou com invasão profunda; braquiterapia intrauterina isolada nos de baixo grau sem invasão profunda).
Grupos de risco e adjuvância (ESGO, ESTRO e ESP 2025)
As sociedades europeias de oncologia ginecológica, de radioterapia e oncologia e de patologia agrupam as doentes pelo estádio FIGO 2023 e pelo grupo molecular. O risco estimado de recidiva a 5 anos é inferior a 8% no baixo, de 8 a 14% no intermédio, de 15 a 24% no alto-intermédio e de 25% ou mais no alto.
| risco | quem | adjuvância |
|---|---|---|
| Baixo | IA (IA1, IA2, IA3) POLE mutado, MMRd ou NSMP de baixo grau com recetor de estrogénio positivo; IB, IC e II POLE mutado; IC MMRd | nenhuma |
| Intermédio | IB MMRd ou NSMP de baixo grau com recetor positivo; IIA NSMP de baixo grau com recetor positivo; IIC MMRd com invasão do miométrio, sem invasão do colo nem invasão linfovascular substancial | braquiterapia vaginal; nenhuma é opção, sobretudo abaixo dos 60 anos ou no baixo grau |
| Alto-intermédio | IIA MMRd; IIB MMRd ou NSMP de baixo grau com recetor positivo; IIC MMRd com invasão do colo ou invasão linfovascular substancial | radioterapia externa pélvica; braquiterapia vaginal como alternativa se os gânglios forem negativos; nenhuma em casos selecionados |
| Alto | IA2, IA3, IB e II NSMP de alto grau ou com recetor negativo; IA2, IA3 e IB (IICm) e II p53 anormal; III e IVA, exceto POLE mutado | radioterapia externa com quimioterapia concomitante e adjuvante, ou sequencial; quimioterapia com ou sem braquiterapia como alternativa |
| Incerto | IA1 e IC p53 anormal ou NSMP de alto grau ou recetor negativo; III e IVA POLE mutado | em regra sem adjuvância nos primeiros; nos segundos pode considerar-se reduzir o tratamento |
- Nos estádios III e IVA com MMRd, a quimioterapia associada a um inibidor de checkpoint imunitário (com ou sem radioterapia externa) deve considerar-se.
- O recetor de estrogénio conta-se positivo a partir de 10% das células.
Doença avançada e recidiva
- Cirurgia de citorredução nos estádios III e IV quando é possível retirar toda a doença visível com morbilidade aceitável; retiram-se só os gânglios suspeitos, sem linfadenectomia sistemática.
- Doença irressecável: radioterapia definitiva ou tratamento sistémico, conforme o grupo molecular.
- Recidiva na cúpula vaginal sem radioterapia prévia: radioterapia externa pélvica com braquiterapia.
- Oligometástases (1 a 5 lesões em até 3 regiões): tratamento local (cirurgia, radioterapia estereotáxica, ablação).
Tratamento sistémico de primeira linha
| situação | tratamento |
|---|---|
| MMRd | inibidor de checkpoint imunitário (dostarlimab, durvalumab ou pembrolizumab) com carboplatina e paclitaxel, seguido de manutenção com o inibidor |
| Sem deficiência de reparação, doença sintomática ou de crescimento rápido | carboplatina e paclitaxel em 6 ciclos; pode considerar-se juntar imunoterapia, e na manutenção imunoterapia com inibidor da PARP (durvalumab com olaparib) |
| Baixo grau, recetor de estrogénio positivo, pouco volume ou crescimento lento | hormonoterapia: progestativo (medroxiprogesterona ou megestrol); alternativas inibidor da aromatase ou tamoxifeno |
| HER2 fortemente positivo, sem imunoterapia possível | carboplatina e paclitaxel com trastuzumab |
- Segunda linha, depois de platina, sem imunoterapia prévia: MMRd faz inibidor de checkpoint em monoterapia; sem deficiência de reparação faz pembrolizumab com lenvatinib.
Preservação da fertilidade
Só para a mulher que quer engravidar e cumpre critérios estritos (recomendações europeias de oncologia ginecológica, reprodução humana e endoscopia, 2023):
- endometrioide G1, estádio IA sem invasão do miométrio na ressonância ou na ecografia de especialista, sem doença anexial nem metástases, com revisão da histologia por patologista experiente;
- não é adequada no tumor p53 anormal;
- tratamento: ressecção histeroscópica do tumor seguida de progestativo oral (acetato de megestrol 160 a 320 mg/dia ou medroxiprogesterona 400 a 600 mg/dia) e/ou sistema intrauterino de levonorgestrel;
- avaliação histológica por histeroscopia de 3 em 3 a 6 em 6 meses; a resposta completa deve surgir em 6 a 12 meses e nunca depois de 15; exige duas biópsias consecutivas negativas separadas por pelo menos 3 meses;
- sem resposta, com progressão, recidiva ou impossibilidade de engravidar: histerectomia;
- histerectomia depois de concluído o projeto reprodutivo.
Prognóstico
- Depende do estádio, do grupo molecular, do tipo histológico e grau, da profundidade de invasão do miométrio e da invasão linfovascular.
- Nos extremos: um G1 sem invasão do miométrio tem sobrevivência a 5 anos de cerca de 95%; um G3 com invasão profunda, de cerca de 20%.
- Por grupo molecular, POLE mutado tem o melhor prognóstico e p53 anormal o pior.
- A idade avançada associa-se, por si, a pior prognóstico.
Disseminação e recidiva
- Espalha-se primeiro pela cavidade, depois invade o miométrio e o colo e, por fim, os linfáticos. A disseminação hematogénea é mais frequente do que no cancro do colo ou do ovário. Os serosos disseminam-se pelo peritoneu, como o carcinoma do ovário.
- A recidiva vaginal tem melhor prognóstico do que a pélvica, e esta melhor do que a à distância (pulmão, abdómen, gânglios, fígado, cérebro, osso).
Complicações
- Do tratamento: linfedema depois da linfadenectomia, que o gânglio sentinela reduz; toxicidade vaginal, intestinal e urinária da radioterapia; menopausa cirúrgica na mulher jovem.
- Da doença: piómetra, anemia, tromboembolismo.
Seguimento
- Personalizado ao risco e ao tratamento. Ensina-se a doente a reconhecer os sinais de recidiva, sobretudo a hemorragia vaginal. Não há prova de que as consultas de seguimento melhorem a sobrevivência.
- A terapêutica hormonal da menopausa depois de um carcinoma de baixo risco pode discutir-se caso a caso.
- Mulher jovem que quer engravidar: preservação da fertilidade só no endometrioide G1 sem invasão do miométrio, depois de testar a deficiência de reparação (para identificar Lynch). As hipóteses de nado vivo caem com a idade e são mais altas abaixo dos 35 anos.
- Síndrome de Lynch: vigilância e cirurgia redutora de risco; os ovários não se preservam.
- Idosa ou com comorbilidades graves: a cirurgia minimamente invasiva raramente está contraindicada; se estiver, histerectomia vaginal ou radioterapia definitiva. Quando nenhum tratamento curativo é possível, sistema intrauterino de levonorgestrel, hormonoterapia ou radioterapia paliativa.
- Mulher sob tamoxifeno: não se vigia por ecografia se não tem sintomas; qualquer hemorragia investiga-se logo.
- Tumores malignos do miométrio ou do estroma do endométrio. Representam cerca de 3% dos cancros do corpo do útero.
- Principais tipos:
| tipo | características |
|---|---|
| Leiomiossarcoma | o mais frequente; do músculo liso; muito agressivo, com disseminação hematogénea |
| Sarcoma do estroma endometrial de baixo grau | indolente, com recetores hormonais; invasão do miométrio em línguas; sobrevivência longa mesmo com recidivas |
| Sarcoma do estroma endometrial de alto grau e sarcoma indiferenciado | agressivos |
| Adenossarcoma | componente epitelial benigno e estroma maligno |
- O carcinossarcoma (antigo tumor mülleriano misto maligno) é hoje classificado como carcinoma do endométrio de tipo agressivo e trata-se como tal.
- O leiomiossarcoma não resulta da transformação de um mioma: é uma neoplasia nova.
- Em mulheres operadas por miomas presumidos, estima-se um sarcoma oculto em cerca de 1 em cada 225 a 580, e um leiomiossarcoma em 1 em cada 495 a 1100.
- Massa uterina que cresce, sobretudo depois da menopausa, ou que cresce durante um tratamento que a devia encolher.
- Hemorragia pós-menopausa, dor pélvica com aumento do útero, corrimento vaginal anómalo.
- Muitas vezes descobre-se na peça operatória de uma cirurgia por mioma presumido.
- Nenhum exame exclui com segurança um sarcoma antes da cirurgia. O diagnóstico mais fiável é a peça de histerectomia.
- Aspetos atípicos na ecografia de um presumido mioma: ressonância pélvica (de preferência) ou ecografia de especialista em centro diferenciado.
- Com imagem suspeita e histerectomia não imediata, pode fazer-se biópsia guiada por imagem num centro especializado, sabendo que há falsos negativos.
- A biópsia do endométrio só apanha os tumores que chegam à cavidade.
- Estudo de extensão por TC toraco-abdomino-pélvica quando o sarcoma é confirmado, porque metastiza por via hematogénea.
- O diagnóstico anatomopatológico faz-se por patologista com experiência em tumores mesenquimatosos ginecológicos, com imuno-histoquímica e, quando preciso, estudo molecular.
- Estadiamento: próprio (FIGO 2009) para leiomiossarcoma e sarcoma do estroma endometrial; no estádio I separa-se o tumor de 5 cm ou menos (IA) do maior de 5 cm (IB).
- Diagnóstico diferencial principal: leiomioma, incluindo miomas degenerados, e o tumor de músculo liso de potencial maligno incerto.
- Histerectomia total com o útero intacto, de preferência por laparotomia; minimamente invasiva só quando a integridade do útero está garantida. Morcelação nunca quando há suspeita.
- Anexectomia bilateral na pós-menopausa. Na pré-menopausa, com estádio I, pode considerar-se preservar os ovários com salpingectomia.
- Sem linfadenectomia sistemática: retiram-se só os gânglios ou lesões suspeitas.
- Sarcoma descoberto depois de uma miomectomia: faz-se histerectomia.
Por tipo
| tipo | adjuvância | doença metastática |
|---|---|---|
| Leiomiossarcoma estádio I | vigilância; a quimioterapia não é padrão e a radioterapia não está indicada | quimioterapia com doxorrubicina (isolada ou com trabectedina ou dacarbazina), ou gemcitabina com docetaxel |
| Estroma endometrial de baixo grau | nenhuma no estádio I; hormonoterapia a considerar nos estádios II a IV com recetores positivos | hormonoterapia: progestativo (megestrol, medroxiprogesterona) ou inibidor da aromatase; tamoxifeno contraindicado |
| Estroma endometrial de alto grau e indiferenciado | não padrão no estádio I | doxorrubicina, isolada ou com ifosfamida |
- Prognóstico pior do que o do carcinoma do endométrio no mesmo estádio, com sobrevivência a 5 anos entre 29 e 76% conforme o tipo e o estádio.
- A agressividade depende do número de mitoses e do grau de atipia.
- A disseminação é sobretudo hematogénea, mais do que no carcinoma do endométrio.
- A morcelação de um sarcoma não suspeitado dissemina-o no peritoneu e piora o prognóstico.
- O sarcoma do estroma endometrial de baixo grau é a exceção: recidiva tarde, mas as doentes vivem muitos anos.
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