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Infertilidade

Matriz PNA:MD · MecanismosD · DiagnósticoP · PrevençãoGD · Gestão

Atualizado em 28 de setembro de 2026 · 15 perguntas neste tema

Em resumo

Infertilidade é a ausência de gravidez ao fim de 12 meses de relações sexuais regulares sem contraceção, ou ao fim de 6 meses quando a mulher tem mais de 35 anos. Atinge cerca de 15% dos casais em idade reprodutiva, e quase sempre é subfertilidade e não esterilidade: a probabilidade de conceber em cada ciclo, que num casal jovem saudável é de 20 a 25%, está reduzida mas não é nula.

É uma condição do casal. O fator masculino está presente em cerca de metade dos casos, isolado ou associado a um fator feminino, e por isso os dois investigam-se ao mesmo tempo. A idade da mulher é o fator prognóstico mais importante, porque o declínio da fertilidade depois dos 35 anos resulta da aneuploidia dos ovócitos, que nenhum exame de reserva corrige.

A investigação básica responde a quatro perguntas: há espermatozoides suficientes (espermograma pelos limites da OMS de 2021), há ovulação (ciclos regulares e progesterona na fase lútea média), as trompas estão permeáveis (histerossalpingografia ou histerossalpingo-sonografia) e a cavidade uterina é normal (ecografia transvaginal). Quando tudo é normal, a infertilidade diz-se inexplicada.

O tratamento dirige-se à causa: letrozol na anovulação da síndrome do ovário poliquístico, inseminação intrauterina com estimulação ovárica na infertilidade inexplicada e na endometriose mínima ou ligeira, fertilização in vitro na doença tubária grave e injeção intracitoplasmática de espermatozoide no fator masculino grave. Em Portugal, o SNS financia a fertilização in vitro até aos 40 anos e a inseminação até aos 42.

O que não se pode falhar: investigar só a mulher, deixar passar a clamídia que destrói as trompas em silêncio, prescrever testosterona a um homem que quer ter filhos, esquecer o cariótipo e a pré-mutação do FMR1 na insuficiência ovárica prematura e ignorar a gestação múltipla e a síndrome de hiperestimulação ovárica, que são as complicações do tratamento.

A conceção exige uma sequência: ovulação de um ovócito competente, espermatozoides competentes, encontro dos gâmetas numa trompa funcional, fecundação, transporte do embrião até à cavidade (cerca de 5 dias depois da fecundação) e implantação num endométrio secretor. Qualquer falha num passo reduz a fertilidade.

Anovulação

As perturbações da função menstrual são a causa feminina mais comum. Arrumam-se em três grupos, e é esta arrumação que decide o tratamento.

GrupoPerfil hormonalExemploResposta a indutores orais
HipogonadotróficoFSH, LH e estradiol baixosamenorreia hipotalâmica (stress, baixo peso, exercício intenso), hiperprolactinemianão: o eixo não responde à queda da retroação
Normogonadotróficogonadotrofinas normais, hiperandrogenismosíndrome do ovário poliquístico (SOP)sim: é aqui que o letrozol funciona
HipergonadotróficoFSH alta, estradiol baixoinsuficiência ovárica prematuranão: não há folículos para recrutar
  • A SOP é a causa mais comum de anovulação; disfunção tiroideia e hiperprolactinemia são as outras a procurar sempre.
  • A insuficiência ovárica prematura é a falência ovárica antes dos 40 anos. As causas conhecidas mais frequentes são cromossómicas (sobretudo a síndrome de Turner), a pré-mutação do FMR1 (portadoras do X frágil), a autoimunidade e a quimioterapia ou radioterapia; na maioria não se encontra causa.

Idade da mulher

  • O declínio é sobretudo qualitativo: os ovócitos ficam em paragem na prófase da primeira divisão meiótica durante décadas, e com a idade aumentam os erros de segregação e a aneuploidia.
  • Por isso a doação de ovócitos de uma dadora jovem restaura as taxas de gravidez em mulheres mais velhas: o fator limitante é o ovócito, não o útero.

Fator tubo-peritoneal

  • A doença inflamatória pélvica por Chlamydia trachomatis ou Neisseria gonorrhoeae é a causa paradigmática. Entre 10 e 40% das infeções cervicais não tratadas evoluem para doença inflamatória pélvica.
  • A inflamação destrói o epitélio ciliado, aglutina as fímbrias e deixa aderências: obstrução, hidrossalpinge ou, com a trompa permeável mas sem função, gravidez ectópica.
  • A infertilidade surge em cerca de 15% depois de um episódio de salpingite e em 75% depois de três ou mais. O risco de gravidez ectópica fica 7 a 10 vezes maior.
  • Outras causas de dano tubário: endometriose, apendicite, cirurgia pélvica ou tubária, gravidez ectópica prévia. Em até metade da infertilidade tubária não se identifica causa.
  • O líquido da hidrossalpinge reflui para a cavidade e prejudica a implantação, e é isso que justifica a salpingectomia antes da fertilização in vitro.

Endometriose

  • Encontra-se em 30 a 50% das mulheres inférteis sem queixas.
  • Na doença moderada a grave, as aderências e a distorção anatómica explicam a infertilidade, a que se somam alterações da foliculogénese, da fecundação e da implantação.
  • Na doença mínima ou ligeira não há distorção anatómica e o efeito na fertilidade é discutido: cerca de 60% destas mulheres concebem no ano seguinte sem tratamento.

Fator uterino

  • Miomas submucosos, pólipos endometriais, sinéquias intrauterinas e malformações müllerianas (septo, útero bicórneo, unicórneo ou didelfo).
  • Raramente bastam para causar infertilidade; associam-se mais a perda de gravidez.

Fator masculino

CategoriaProporção da infertilidade masculina
Doença testicular primária (varicocele, criptorquidia, genética, infeção, tóxicos)30 a 40%
Pós-testicular (obstrução, disfunção ejaculatória)10 a 20%
Hipotálamo-hipofisária1 a 2%
Inexplicada40 a 50%
  • A espermatogénese demora cerca de 70 dias: um espermograma reflete o que se passou há mais de 2 meses, e o efeito de um tratamento só se vê depois desse tempo.
  • Genética: síndrome de Klinefelter (47,XXY), inversões e translocações, microdeleções do cromossoma Y (que o cariótipo não deteta) e mutações do CFTR, que dão ausência bilateral congénita dos canais deferentes sem doença pulmonar.
  • Testosterona exógena e anabolizantes suprimem as gonadotrofinas, colapsam a testosterona intratesticular e dão oligospermia ou azoospermia, com LH baixa e testosterona sérica normal.
  • A infertilidade masculina pode ser a primeira manifestação de um tumor testicular ou hipofisário.

O casal investiga-se em paralelo, nunca em série: o espermograma pede-se na primeira consulta, ao mesmo tempo que a avaliação da mulher.

Espermograma

  • Colheita por masturbação, com o ejaculado completo (a primeira fração é a mais rica), depois de 2 a 7 dias de abstinência, analisada até 1 hora depois.
  • Um espermograma normal exclui fator masculino em mais de 90% dos casais.
  • Se estiver abaixo dos limites, repete-se ao fim de 3 meses, porque a variabilidade é grande e basta um episódio febril para alterar o resultado.
ParâmetroLimite inferior de referência (OMS, 6.ª edição, 2021)
Volume1,4 mL
Concentração16 milhões/mL
Número total39 milhões por ejaculado
Motilidade total42%
Motilidade progressiva30%
Vitalidade54%
Formas normais4%
  • São o percentil 5 de homens cujas parceiras engravidaram em 12 meses, e não pontos de corte: abaixo deles concebe-se, acima deles não há garantia.
  • Espermograma alterado: FSH, LH e testosterona. Testosterona baixa com FSH e LH altas é hipogonadismo primário; com FSH e LH baixas é secundário, e pede prolactina. LH baixa com testosterona normal e oligospermia sugere esteroides exógenos.
  • Azoospermia ou oligospermia grave: cariótipo, microdeleções do Y e CFTR (obrigatório se os deferentes não forem palpáveis, com estudo da parceira). A azoospermia obstrutiva tem testículos e FSH normais; a não obstrutiva tem testículos pequenos e FSH alta.
  • Não se pedem por rotina, com espermograma normal, anticorpos antiespermatozoide nem fragmentação do DNA espermático.

Ovulação

  • Ciclos regulares com sintomas cíclicos são prova presuntiva de ovulação.
  • Progesterona sérica na fase lútea média, cerca de 7 dias antes da menstruação esperada (e não no dia 21 se o ciclo não for de 28 dias): acima de 3 ng/mL indica que houve ovulação, e num ciclo ovulatório normal os valores vão de 6 a 25 ng/mL. Um valor baixo isolado repete-se, porque a secreção é pulsátil.
  • Os testes urinários de LH preveem a ovulação (a ovulação ocorre cerca de 24 horas depois do pico urinário) e servem para programar as relações, mas um pico pode falhar-se com um só teste por dia. A temperatura basal só identifica a ovulação a posteriori e é incómoda.
  • A biópsia de endométrio deixou de se fazer para avaliar a ovulação.
  • Anovulação: teste de gravidez, TSH, prolactina, FSH, LH, estradiol e, se houver hiperandrogenismo, testosterona total e sulfato de desidroepiandrosterona.

Trompas e peritoneu

  • Histerossalpingografia (HSG) ou histerossalpingo-sonografia com contraste: ambas válidas face à laparoscopia, em primeira linha. A HSG deteta cerca de 70% das alterações anatómicas do trato genital; hidrossalpinge aparece como trompa dilatada sem passagem de contraste para a pelve.
  • Antes de instrumentar o útero, rastreia-se a clamídia ou faz-se profilaxia antibiótica.
  • Laparoscopia com cromotubação (azul de metileno): padrão de referência, invasiva, e permite tratar no mesmo tempo. Reserva-se para suspeita de endometriose, aderências ou doença tubária na HSG, e não se faz por rotina na infertilidade inexplicada.

Útero

  • Ecografia transvaginal, de preferência tridimensional, para miomas e malformações; histerossonografia com soro para a cavidade.
  • Histeroscopia quando a imagem mostra lesão da cavidade, para confirmar e tratar; não se faz por rotina.

Reserva ovárica

  • AMH e contagem de folículos antrais na ecografia; FSH no 3.º dia do ciclo abaixo de 10 UI/L sugere reserva adequada, e AMH abaixo de 0,5 ng/mL sugere reserva diminuída.
  • Predizem a resposta à estimulação ovárica (dose de gonadotrofinas, má resposta, risco de hiperestimulação) e não predizem a fertilidade natural. Em mulheres com ciclos regulares não se pedem para explicar a infertilidade nem para prever a conceção espontânea.
  • A AMH baixa com contraceção hormonal.

Infertilidade inexplicada

  • Diagnóstico de exclusão: espermograma normal, ovulação documentada, cavidade normal e trompas permeáveis, com frequência de relações adequada.
  • Não acrescentam nada e não se pedem: teste pós-coital, biópsia de endométrio, estudo de trombofilia, vitamina D, anticorpos e estudo imunológico, testes genéticos, laparoscopia e histeroscopia de rotina.
Infertilidade: investigação do casal Definição 12 meses de relações regulares sem contraceção, sem gravidez. 6 meses se a mulher tiver mais de 35 anos. Investigar já se há causa evidente: amenorreia, doença tubária, azoospermia, quimioterapia. Investigação do casal, em paralelo, em quatro eixos (nunca a mulher primeiro) 1 · Fator masculino cerca de metade Espermograma, 1.º exame no homem Limites OMS 6.ª ed. (2021): 16 M/mL, motilidade total 42%, morfologia 4% Se alterado, repetir ao fim de 3 meses Azoospermia: cariótipo e microdeleções do Y 2 · Ovulação progesterona Ciclos regulares: quase sempre ovulatórios Progesterona na fase lútea média (cerca de 7 dias antes da menstruação) Acima de 3 ng/mL indica ovulação Ovário poliquístico: a causa mais comum 3 · Permeabilidade tubária imagem Histerossalpingografia ou sonografia em 1.ª linha, válidas face à laparoscopia Laparoscopia com azul de metileno se há suspeita de endometriose ou aderências Rastrear clamídia antes de instrumentar 4 · Cavidade uterina ecografia Ecografia transvaginal, 3D se possível Histerossonografia para a cavidade; histeroscopia para confirmar e tratar Reserva ovárica (AMH) prediz a resposta à estimulação, não a fertilidade natural Tratamento Ovário poliquístico: letrozol é a 1.ª linha na indução da ovulação (mais nados-vivos que o clomifeno). Inseminação com estimulação: 1.ª linha na inexplicada; exige trompa permeável. FIV/ICSI: ICSI no fator masculino grave, não na infertilidade inexplicada. A idade da mulher é o fator prognóstico mais importante (declínio marcado após os 35 anos). Prevenção: tratar clamídia, peso, tabaco e ácido fólico 400 µg/dia pré-concecional.
Esquema original InovaQB, baseado nos critérios OMS 6.ª ed. (2021), ASRM 2020 e nas guidelines ESHRE de infertilidade.

Clamídia e doença inflamatória pélvica

A clamídia é a principal causa evitável de infertilidade tubária, e é frequentemente assintomática ou com clínica subtil (corrimento, hemorragia intermenstrual, cervicite mucopurulenta).

  • Rastreio anual nas mulheres sexualmente ativas até aos 24 anos e nas mais velhas com fatores de risco (parceiros múltiplos ou novos, parceiro com outras parceiras ou com infeção sexualmente transmissível).
  • Tratar o parceiro e evitar a reinfeção: o maior fator de risco de doença inflamatória pélvica é um episódio prévio, e cada episódio aumenta o risco de dano tubário.
  • Diagnosticar e tratar cedo a doença inflamatória pélvica, com limiar clínico baixo.
  • Uso de preservativo.

Estilo de vida

  • Tabaco: reduz a fertilidade da mulher e do homem e piora o desfecho da gravidez; a cessação faz parte da primeira consulta, com o álcool e a cafeína.
  • Peso: o baixo peso e o excesso de peso associam-se a infertilidade na mulher, e a obesidade também no homem. Na SOP com excesso de peso, uma perda de 5 a 10% tem benefício clínico significativo.
  • Exercício extenuante e restrição alimentar dão amenorreia hipotalâmica.
  • Evitar o calor escrotal, os tóxicos e, sobretudo, a testosterona e os anabolizantes.

Adiamento da parentalidade

  • A idade da mulher é o fator que mais pesa, e informar sobre o declínio da fertilidade depois dos 35 anos é prevenção.
  • A criopreservação de ovócitos permite preservar a fertilidade antes de tratamentos gonadotóxicos.

Consulta pré-concecional

Ácido fólico 400 µg por dia antes de conceber, imunidade à rubéola verificada e vacinação antes da gravidez, e revisão dos fármacos teratogénicos (Norma DGS 001/2023).

Trata-se a causa quando existe e, quando não existe ou é ligeira, avança-se por degraus de complexidade crescente: expectativa, indução da ovulação ou inseminação com estimulação, e fertilização in vitro. O ritmo depende da idade: pode ser lento abaixo dos 30 anos e rápido acima dos 35.

Anovulação da SOP

  • Letrozol é a primeira linha farmacológica na mulher anovulatória com SOP sem outro fator de infertilidade: 2,5 mg por dia durante 5 dias no início da fase folicular, com aumento da dose no ciclo seguinte se não ovular. Inibe a aromatase, baixa o estrogénio, levanta a retroação negativa e aumenta a FSH endógena.
  • Comparado com o clomifeno, dá mais ovulação (61,7% contra 48,3% dos ciclos) e mais nados-vivos cumulativos (27,5% contra 19,1%), com tendência para menos gestação múltipla. Usa-se fora da indicação aprovada.
  • Metformina: isolada pode usar-se, informando que o letrozol é mais eficaz; associada ao clomifeno é opção de segunda linha, sobretudo na obesidade. Não substitui o letrozol nem a perda de peso.
  • Segunda linha: clomifeno (isolado ou com metformina), gonadotrofinas em dose baixa com monitorização ecográfica ou cirurgia ovárica laparoscópica.
  • Terceira linha: fertilização in vitro.
  • Perder peso antes de tratar, quando há excesso de peso.

Outras causas de anovulação

  • Hiperprolactinemia: agonista dopaminérgico.
  • Amenorreia hipotalâmica: corrigir o balanço energético e o exercício; se não bastar, GnRH pulsátil ou gonadotrofinas com LH. O letrozol e o clomifeno funcionam mal, porque exigem um eixo capaz de responder.
  • Disfunção tiroideia: corrigir antes de induzir.
  • Insuficiência ovárica prematura: a indução não resulta; a opção é a doação de ovócitos.

Fator tubo-peritoneal

  • Hidrossalpinge: salpingectomia (ou oclusão proximal) antes da fertilização in vitro.
  • Cirurgia tubária reconstrutiva só com endossalpinge saudável; na doença grave, fertilização in vitro.

Endometriose

  • Mínima ou ligeira: a laparoscopia operatória (excisão ou ablação), e não apenas diagnóstica, aumenta a taxa de gravidez evolutiva; a inseminação intrauterina com estimulação ovárica é preferível à expectativa e à inseminação sem estimulação.
  • Não se faz supressão hormonal para melhorar a fertilidade, nem antes nem depois da cirurgia: atrasa a conceção sem benefício. O agonista da GnRH prolongado antes da fertilização in vitro também não se recomenda.
  • Endometrioma: não se opera por rotina antes da fertilização in vitro, porque a cirurgia diminui a reserva ovárica sem aumentar os nados-vivos.
  • Doença moderada a grave: cirurgia conservadora nas sintomáticas, ou fertilização in vitro.

Fator uterino

  • Resseção histeroscópica de miomas submucosos, pólipos, sinéquias e septo.

Fator masculino

  • Suspender testosterona, anabolizantes e tóxicos, e reavaliar só depois de pelo menos 70 dias, o tempo de um ciclo de espermatogénese.
  • Hipogonadismo secundário: gonadotrofinas ou GnRH pulsátil, com boa resposta.
  • Varicocele palpável com espermograma alterado: ponderar correção.
  • Ligeiro: expectativa; moderado: inseminação intrauterina, isolada ou com estimulação da parceira; grave (menos de 10 milhões/mL): fertilização in vitro com injeção intracitoplasmática de espermatozoide (ICSI), ou esperma de dador.
  • Azoospermia obstrutiva: aspiração de espermatozoides do epidídimo; não obstrutiva: biópsia testicular para extração. Os espermatozoides recuperados usam-se em ICSI, depois de aconselhamento genético.

Infertilidade inexplicada

  • Em casais de bom prognóstico (mulher jovem, pouco tempo de infertilidade), a expectativa é razoável; os fatores de prognóstico são a idade, a duração, os tratamentos e as gravidezes anteriores.
  • Inseminação intrauterina com estimulação ovárica é a primeira linha; com gonadotrofinas, só em dose baixa e com monitorização.
  • A fertilização in vitro não se recomenda à frente da inseminação com estimulação, e a ICSI não se recomenda à frente da fertilização in vitro convencional.
  • A HSG com contraste oleoso tem efeito de lavagem tubária e é preferível ao aquoso.
  • Não se oferecem raspagem endometrial, antioxidantes, acupunctura nem inositol.

Técnicas de procriação medicamente assistida

  • Inseminação intrauterina (IIU): esperma lavado depositado na cavidade por cateter; exige pelo menos uma trompa permeável e 1 milhão ou mais de espermatozoides móveis.
  • Fertilização in vitro (FIV): estimulação com gonadotrofinas, análogo da GnRH (agonista ou antagonista) para evitar a ovulação prematura, desencadeamento da maturação final, punção folicular transvaginal, fecundação no laboratório (convencional ou por ICSI) e transferência de embriões. Suporte com progesterona depois da punção e, se houver gravidez, pelo menos até às 10 semanas.
  • Indicações de FIV: trompas ausentes ou obstruídas, laqueação, aderências graves, endometriose grave, fator masculino grave, falha de tratamentos menos complexos e infertilidade inexplicada que não resolveu.
  • Taxas de sucesso por ciclo de cerca de 48% abaixo dos 35 anos e 10% acima dos 40.
  • A doação de gâmetas resolve a insuficiência ovárica, a má reserva, a idade avançada e a azoospermia sem espermatozoides.

Procriação medicamente assistida em Portugal

  • Lei n.º 32/2006 e alterações, sob o Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida (CNPMA). Idade mínima de 18 anos; idade máxima de 50 anos na mulher, sem limite no homem.
  • SNS: financia a FIV e a ICSI até aos 40 anos e a indução da ovulação e a inseminação até aos 42 anos da mulher. Com material criopreservado por doença grave, o acesso no SNS vai até aos 50 anos.
  • A Lei n.º 17/2016 alargou o acesso a todas as mulheres, independentemente do diagnóstico de infertilidade, do estado civil e da orientação sexual.
  • Doação de gâmetas: voluntária e sem fins comerciais. Desde a Lei n.º 48/2019, que se seguiu ao acórdão do Tribunal Constitucional de 2018, deixou de ser anónima: quem nasceu de doação pode conhecer a identidade civil do dador a partir dos 18 anos.
  • Gestação de substituição (Lei n.º 90/2021): excecional e gratuita, só perante ausência de útero, lesão ou doença do útero ou outra situação que impeça de forma absoluta e definitiva a gravidez.
  • A lei obriga os centros a disponibilizar apoio psicológico.

Referências

  1. Casanova R, Chuang A, Goepfert AR, Hueppchen NA, Weiss PM, editores. Beckmann and Ling's obstetrics and gynecology. 8.ª ed. Filadélfia: Wolters Kluwer; 2019. Capítulo 42, Infertility; capítulo 29, Sexually transmitted infections.
  2. Hall JE. Infertility and contraception. In: Jameson JL, Fauci AS, Kasper DL, Hauser SL, Longo DL, Loscalzo J, editores. Harrison's principles of internal medicine. 20.ª ed. Nova Iorque: McGraw-Hill; 2018. Capítulo 389.
  3. Hall JE. Menstrual disorders and pelvic pain; The female reproductive system. In: Jameson JL, Fauci AS, Kasper DL, Hauser SL, Longo DL, Loscalzo J, editores. Harrison's principles of internal medicine. 20.ª ed. Nova Iorque: McGraw-Hill; 2018. Capítulos 385 e 386.
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  7. Legro RS, Brzyski RG, Diamond MP, Coutifaris C, Schlaff WD, Casson P, et al. Letrozole versus clomiphene for infertility in the polycystic ovary syndrome. N Engl J Med. 2014;371(2):119-29.
  8. Becker CM, Bokor A, Heikinheimo O, Horne A, Jansen F, Kiesel L, et al. ESHRE guideline: endometriosis. Hum Reprod Open. 2022;2022(2):hoac009.
  9. ESHRE, ASRM, CRE WHIRL and IMS Guideline Group on POI. Evidence-based guideline: premature ovarian insufficiency. Hum Reprod Open. 2024;2024(4):hoae065.
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  11. Royal College of Obstetricians and Gynaecologists. The management of ovarian hyperstimulation syndrome. Green-top Guideline n.º 5. Londres: RCOG; 2016.
  12. Practice Committee of the American Society for Reproductive Medicine. Testing and interpreting measures of ovarian reserve: a committee opinion. Fertil Steril. 2020;114(6):1151-7.
  13. Direção-Geral da Saúde. Organização dos cuidados de saúde na preconceção, gravidez e puerpério. Norma n.º 001/2023. Lisboa: DGS; 2023.
  14. Lei n.º 32/2006, de 26 de julho: procriação medicamente assistida, na redação dada pelas Leis n.º 17/2016, de 20 de junho, n.º 48/2019, de 8 de julho, e n.º 90/2021, de 16 de dezembro. Diário da República, 1.ª série.
  15. Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida. Perguntas frequentes: limites de idade e financiamento público. Lisboa: CNPMA; consultado em setembro de 2026. Disponível em: https://www.cnpma.org.pt/cidadaos/Paginas/faqs.aspx
  16. Tribunal Constitucional. Acórdão n.º 225/2018, de 24 de abril.

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