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Endometriose

Matriz PNA:D · Diagnóstico

Atualizado em 15 de julho de 2026 · 7 perguntas neste tema

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Em resumo

A endometriose é uma doença crónica, inflamatória e estrogénio-dependente, definida pela presença de tecido semelhante ao endométrio fora da cavidade uterina, e afeta cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva. Apresenta-se tipicamente com dismenorreia progressiva, dispareunia profunda, disquezia, disúria cíclica, dor pélvica crónica e infertilidade, num quadro em que a extensão anatómica da doença se correlaciona mal com a intensidade dos sintomas. O atraso diagnóstico continua a ser da ordem dos anos, sobretudo porque a dor menstrual incapacitante é frequentemente normalizada. A ESHRE 2022 e a atualização da NICE NG73 de novembro de 2024 consolidaram a mudança de paradigma que interessa dominar para a PNA: a laparoscopia deixou de ser obrigatória para o diagnóstico e não deve atrasar o tratamento.

Suspeição clínica: os 4 D e a infertilidade

O diagnóstico começa e, muitas vezes, fica quase concluído com a história clínica. O atraso diagnóstico médio continua a rondar os 7 a 10 anos, sobretudo porque a dismenorreia incapacitante é normalizada pela doente e pelo clínico. A regra prática é simples: dismenorreia que falta às aulas ou ao trabalho não é normal.

Sintomas cardinais, os 4 D + infertilidade:

  • Dismenorreia: tipicamente progressiva ao longo dos anos, incapacitante, com má resposta a AINEs e a contracetivos, e frequentemente pré-menstrual (começa 1 a 2 dias antes do fluxo). A dismenorreia primária clássica, por contraste, começa com o fluxo, surge poucos anos após a menarca e responde bem a AINEs.
  • Dispareunia profunda: sugere envolvimento dos ligamentos uterossagrados, do fundo de saco de Douglas ou do septo retovaginal.
  • Disquezia: dor à defecação cíclica, perimenstrual; sugere doença profunda retossigmoide ou do septo retovaginal. Retorragias catameniais reforçam a suspeita.
  • Disúria cíclica, com ou sem hematúria catamenial: aponta para endometriose vesical.
  • Dor pélvica crónica (mais de 6 meses), que perde o caráter cíclico à medida que se instala sensibilização central.
  • Infertilidade: presente em 30 a 50% das doentes e, não raro, o único motivo de consulta.

Outros dados: fadiga crónica, dor lombar cíclica, sintomas intestinais que mimetizam síndrome do intestino irritável, e história familiar em familiar de primeiro grau, valorizada de forma expressa na atualização da NICE NG73 (novembro de 2024). Dor no ombro ou pneumotórax catamenial apontam para doença diafragmática ou torácica.

Exame objetivo

Deve incluir exame abdominal, inspeção com espéculo e toque bimanual, idealmente durante a menstruação, quando os achados são mais evidentes.

Achados sugestivos:

  • Nodularidade e dor à palpação dos ligamentos uterossagrados e do fundo de saco de Douglas (achado de maior valor).
  • Útero fixo, em retroversão, com mobilização dolorosa.
  • Massa anexial (endometrioma), tipicamente pouco móvel.
  • Lesões azuladas visíveis no fundo de saco vaginal posterior, na doença profunda com atingimento do septo.

Um exame objetivo normal não exclui endometriose, sobretudo na doença peritoneal superficial. É este o ponto que as perguntas gostam de testar.

Exames de imagem

Ecografia transvaginal

É o exame de primeira linha. A NICE NG73, na atualização de 2024, passou a recomendar que se ofereça ecografia transvaginal a todas as pessoas com suspeita de endometriose, incluindo em cuidados de saúde primários.

  • Endometrioma: quisto de conteúdo homogéneo em vidro despolido, ecos de baixo nível, sem fluxo interno ao Doppler. Sensibilidade e especificidade elevadas, superiores a 90% em mãos experientes.
  • Endometriose profunda: a deteção depende criticamente do operador experiente e de protocolo dedicado (avaliação dos compartimentos anterior e posterior, sinal do sliding sign para obliteração do Douglas, mapeamento do retossigmoide). Os critérios sonográficos seguem o consenso IDEA.
  • Adenomiose: útero globoso, assimetria das paredes, quistos miometriais, ilhas hiperecogénicas, linhas e gemas subendometriais, zona juncional irregular (critérios MUSA).
  • Endometriose peritoneal superficial: essencialmente não é vista na ecografia. Uma ecografia normal não exclui doença.

Na adolescente ou na mulher sem atividade sexual, a via transabdominal ou transretal são alternativas.

Ressonância magnética

Não é exame de rastreio. O papel é o mapeamento pré-operatório da doença profunda, sobretudo do septo retovaginal, do compartimento posterior, do envolvimento intestinal e ureteral, e a caracterização de massas anexiais duvidosas. O endometrioma mostra hipersinal em T1 (com persistência na supressão de gordura) e hipossinal em T2, o shading.

Mudança de paradigma: a laparoscopia deixou de ser obrigatória

Este é o ponto de maior rendimento para a PNA. A ESHRE 2022 e a NICE NG73 (2024) convergem:

  • O diagnóstico pode ser clínico e/ou imagiológico, sem confirmação cirúrgica.
  • A laparoscopia não deve ser exigida antes de iniciar tratamento e não deve atrasar o tratamento. O tratamento empírico (analgésico e hormonal) pode e deve ser iniciado com base na suspeita clínica, mesmo com imagem normal.
  • A laparoscopia fica reservada para: imagem negativa e/ou falência ou inadequação do tratamento empírico; necessidade de tratamento cirúrgico; ou dúvida diagnóstica relevante.
  • A histologia confirma, mas a sua ausência não exclui. Uma laparoscopia negativa também não exclui de forma absoluta, uma vez que lesões subtis podem escapar.

Corolário clínico: a doente com dismenorreia progressiva, dispareunia profunda e ecografia normal tem indicação para tratamento empírico, e não para laparoscopia diagnóstica.

Marcadores

Não existe marcador fiável. O CA 125 pode elevar-se, sobretudo na doença avançada e no endometrioma, mas tem baixa sensibilidade na doença ligeira e sobe em inúmeras situações benignas (miomas, DIP, gravidez, menstruação, ascite, doença hepática). Não serve para rastreio nem para diagnóstico, e não deve ser pedido com essa intenção. Pode ter utilidade pontual na caracterização de massa anexial suspeita, em conjunto com a imagem e com a idade.

Classificações

  • rASRM (I a IV): baseada em achados laparoscópicos e aderências; útil na descrição cirúrgica, mas correlaciona-se mal com a dor e subestima a doença profunda.
  • #Enzian (2021): descreve por compartimentos a doença profunda, a doença ovárica e a adenomiose; aplicável por ecografia, RM e cirurgia.
  • EFI (Endometriosis Fertility Index): combina o score rASRM, a história reprodutiva e a função tubo-ovárica; prediz a gravidez espontânea pós-cirúrgica.

Diagnóstico diferencial

Ginecológico: adenomiose (hemorragia menstrual abundante, útero globoso), doença inflamatória pélvica (febre, corrimento, dor à mobilização cervical, história de IST), síndrome de congestão pélvica (dor que agrava em ortostatismo prolongado, varizes pélvicas), quisto ovárico hemorrágico, torção anexial, malformação mülleriana obstrutiva na adolescente.

Não ginecológico: síndrome do intestino irritável (dor aliviada pela defecação, alteração do trânsito, sem padrão cíclico), cistite intersticial/síndrome de bexiga dolorosa, dor miofascial da parede abdominal (sinal de Carnett positivo), doença inflamatória intestinal.

Contexto português

A Lei n.º 32/2025, de 27 de março promove os direitos das pessoas com endometriose ou adenomiose, cria um regime de faltas justificadas ao trabalho e às aulas até três dias consecutivos por mês para dor incapacitante durante o período menstrual (mediante declaração médica, sem renovação mensal), e determina que a DGS elabore normas e orientações técnicas dirigidas ao reconhecimento de sintomas em cuidados de saúde primários, aos meios complementares validados e ao seguimento pós-diagnóstico.

Endometriose: clínica e diagnóstico (ESHRE 2022) Doença crónica, inflamatória e estrogénio-dependente — cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva BLOCO A — Suspeitar: os 4 D + infertilidade DISMENORREIA progressiva e incapacitante — pré-menstrual, refratária a AINEs DISPAREUNIA profunda — uterossagrados, Douglas, septo retovaginal DISQUEZIA — dor cíclica a defecar; retorragias catameniais DISÚRIA cíclica — com ou sem hematúria catamenial (doença vesical) INFERTILIDADE — em 30-50%; por vezes o único motivo de consulta Exame objetivo: nodularidade/dor dos uterossagrados (achado de maior valor), útero fixo em retroversão, massa anexial (endometrioma). Um exame normal NÃO exclui. Regra de ouro: a extensão da doença correlaciona-se MAL com a intensidade da dor. BLOCO B — Diagnóstico (ESHRE 2022) SUSPEITA CLÍNICA Os 4 D + infertilidade Dor pélvica crónica História familiar 1.º grau Exame objetivo dirigido Atraso diagnóstico: 7-10 anos ECOGRAFIA TRANSVAGINAL — exame de 1.ª linha Endometrioma: vidro despolido, sem fluxo interno Doença profunda: apenas com operador experiente Peritoneal superficial não se vê: exame normal NÃO exclui e/ou RM — mapeamento pré-operatório da doença profunda (septo retovaginal, intestino, ureter) Endometrioma: hipersinal em T1 + shading em T2 Mudança de paradigma (ESHRE 2022 / NICE NG73, nov. 2024) A LAPAROSCOPIA JÁ NÃO É OBRIGATÓRIA para o diagnóstico nem deve atrasar o tratamento: o diagnóstico pode ser clínico/imagiológico e o tratamento empírico iniciado mesmo com imagem normal. A histologia confirma, mas a sua ausência NÃO exclui. Laparoscopia reservada a: imagem negativa e/ou falência do tratamento empírico, indicação cirúrgica ou dúvida diagnóstica relevante. CA 125: pode subir na doença avançada e no endometrioma, mas NÃO serve para rastreio nem para diagnóstico (baixa sensibilidade na doença ligeira, muito inespecífico). Tratamento (síntese) 1.ª linha: AINEs + supressão hormonal — ACO contínuo, dienogest ou SIU-LNG. 2.ª linha: agonistas/antagonistas da GnRH com terapêutica add-back. Cirurgia (excisão): doença refratária e endometrioma sintomático. Erro frequente: a excisão do endometrioma REDUZ a reserva ovárica — evitar cistectomia de rotina antes de FIV. Na infertilidade, considerar FIV.
Esquema original InovaQB, baseado na guideline ESHRE 2022 de endometriose e na NICE NG73.

Referências

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  2. National Institute for Health and Care Excellence. Endometriosis: diagnosis and management. NICE guideline NG73. Londres: NICE; 2017 (atualizado em novembro de 2024).
  3. American College of Obstetricians and Gynecologists. Management of Endometriosis. ACOG Practice Bulletin n.º 114 (reafirmado); e ACOG Committee Opinion n.º 760: Dysmenorrhea and Endometriosis in the Adolescent. Obstet Gynecol. 2018;132(6):e249-58.
  4. Assembleia da República. Lei n.º 32/2025, de 27 de março. Promoção dos direitos das pessoas com endometriose ou com adenomiose e criação de um regime de faltas justificadas ao trabalho e às aulas. Diário da República, 1.ª série, n.º 61, de 27 de março de 2025.
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  6. Adamson GD, Pasta DJ. Endometriosis fertility index: the new, validated endometriosis staging system. Fertil Steril. 2010;94(5):1609-15.
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  9. Van den Bosch T, Dueholm M, Leone FPG, Valentin L, Rasmussen CK, Votino A, et al. Terms, definitions and measurements to describe sonographic features of myometrium and uterine masses: a consensus opinion from the MUSA group. Ultrasound Obstet Gynecol. 2015;46(3):284-98.
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  13. Sociedade Portuguesa de Ginecologia. Consenso sobre Endometriose. Lisboa: SPG; 2015. (Recomendações publicadas em: Endometriose: recomendações de consenso nacionais - clínica e diagnóstico. Acta Obstet Ginecol Port. 2016;10(2). Nota: consenso anterior à ESHRE 2022, assenta ainda na ESHRE 2014.)
  14. Hoffman BL, Schorge JO, Halvorson LM, Hamid CA, Corton MM, Schaffer JI, editores. Williams Gynecology. 4.ª ed. Nova Iorque: McGraw-Hill; 2020. Capítulo 10: Endometriosis.
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  17. Kobayashi H, Sumimoto K, Moniwa N, Imai M, Takakura K, Kuromaki T, et al. Risk of developing ovarian cancer among women with ovarian endometrioma: the Shizuoka Cohort Study. Int J Gynecol Cancer. 2007;17(1):37-43.

7 perguntas sobre Endometriose

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