Dismenorreia e dor pélvica crónica
Atualizado em 28 de setembro de 2026 · 11 perguntas neste tema
Dismenorreia é dor com a menstruação. Na primária não há lesão pélvica: a dor nasce da prostaglandina F2α libertada pelo endométrio que descama, que contrai o miométrio até à isquemia. Por depender de ciclos ovulatórios, começa 6 a 12 meses depois da menarca, acompanha o fluxo durante 2 a 3 dias, repete-se de ciclo para ciclo e tem exame normal. É a queixa ginecológica mais frequente da adolescente e da mulher jovem, e uma causa importante de faltas à escola e ao trabalho.
Trata-se sem exames. Os anti-inflamatórios não esteroides, começados antes da dor e tomados a horas certas, e a contraceção hormonal, de preferência em regime contínuo, são ambos de primeira linha; a escolha depende sobretudo de a mulher querer contraceção. A falta de resposta ao fim de 3 a 6 meses é o principal sinal de que a dismenorreia pode não ser primária.
Na secundária há uma causa: a endometriose na maioria, depois a adenomiose, os leiomiomas, a doença inflamatória pélvica, o dispositivo intrauterino de cobre e, na adolescente, as anomalias obstrutivas do trato genital. Suspeita-se quando a dor surge depois de anos de ciclos indolores, se agrava de ano para ano, extravasa a menstruação ou se acompanha de dispareunia profunda, hemorragia anómala ou infertilidade. A ecografia transvaginal é a primeira imagem, e a supressão hormonal começa sem esperar pelo diagnóstico.
A dor pélvica crónica dura 6 meses ou mais e não acontece só com a menstruação ou com o coito. É um sintoma, raramente com uma causa única: somam-se muitas vezes endometriose, síndrome do intestino irritável, síndrome da bexiga dolorosa, dor miofascial do pavimento pélvico e sensibilização central. Trata-se em paralelo e em equipa, com o objetivo de recuperar a função. O que não se pode falhar: teste de gravidez em qualquer dor pélvica em idade fértil, inspeção da vulva na adolescente com dor cíclica sem menstruação, opioides de fora e laparoscopia só como segunda linha.
- Dismenorreia primária: dor menstrual sem patologia pélvica identificável. Secundária: dor menstrual causada por uma doença pélvica ou por outra condição reconhecida.
- É a queixa ginecológica mais frequente. Nas adolescentes a prevalência varia entre 50 e 90%, e um terço a metade das mulheres com dismenorreia descreve dor moderada ou intensa.
- É a principal causa de faltas repetidas e curtas à escola nas adolescentes. Muitas mulheres consideram a dor inevitável, não procuram ajuda e automedicam-se em doses insuficientes ou tarde demais.
Fatores de risco
- Idade jovem: a incidência é máxima no fim da adolescência e no início dos 20 anos e diminui depois.
- Tabagismo, incluindo a exposição passiva ao fumo, e consumo de álcool.
- História familiar, fatores psicossociais e perturbações do humor.
- A paridade parece reduzi-la.
A cascata das prostaglandinas
- Depois da ovulação, a progesterona do corpo lúteo estabiliza as membranas lisossómicas do endométrio secretor e faz subir a síntese de prostaglandinas.
- Sem gravidez, o corpo lúteo regride e a progesterona cai. A queda liberta a fosfolipase A2, que solta ácido araquidónico das membranas celulares; a necrose do endométrio que descama fornece mais substrato.
- O ácido araquidónico entra na via da ciclo-oxigenase e dá prostaglandina F2α (PGF2α) e prostaglandina E2. A produção atinge o máximo no início da menstruação, e é daí que vem o pico da dor com o fluxo máximo.
- A PGF2α contrai intensamente o miométrio: o tónus de base ultrapassa 80 mmHg (o normal ronda os 20) e os picos de pressão intrauterina podem exceder 400 mmHg. Contrai também as artérias do miométrio. O resultado é isquemia, e a dor tem o carácter cólico e intermitente de um trabalho de parto.
- O fluido menstrual das mulheres com dismenorreia tem cerca do dobro da atividade de PGF2α das mulheres sem dor. Os leucotrienos também participam.
O que a cascata explica
- Exige ovulação: os primeiros ciclos depois da menarca são muitas vezes anovulatórios e indolores. É por isso que a dismenorreia primária começa 6 a 12 meses depois da menarca, e que a contraceção que suprime a ovulação a trata.
- Anti-inflamatórios antes da dor: inibem a síntese de prostaglandinas, não a ação das que já existem. Tomados depois de a dor instalar, chegam tarde.
- Sintomas sistémicos: a PGF2α contrai também a musculatura lisa do intestino e de outros órgãos, e daí as náuseas, os vómitos e a diarreia. Não são sinal de doença orgânica.
- Irradiação: as fibras aferentes viscerais do útero acompanham os nervos simpáticos e entram na medula entre T10 e L1, o que explica a dor suprapúbica com irradiação lombar e para as coxas.
- Dor cólica e suprapúbica, na linha média, que pode ser surda e estender-se aos quadrantes inferiores, à região lombar e à face anterior das coxas.
- Começa entre algumas horas antes e algumas horas depois do início do fluxo, atinge o máximo com o fluxo mais abundante e dura habitualmente 2 a 3 dias.
- É reprodutível de ciclo para ciclo e não se agrava ao longo dos anos; tende até a melhorar com a idade.
- Sintomas associados: náuseas, vómitos, diarreia, cansaço, cefaleia, tonturas e, raramente, síncope e febre. Durante a crise a doente pode estar pálida e suada, mas o abdómen é mole e o útero normal.
- Muitas doentes adotam a posição fetal e usam calor local para aliviar.
O diagnóstico é clínico. A pergunta que interessa é se há sinais de causa secundária.
História
- Idade da menarca, regularidade e duração dos ciclos, quantidade do fluxo e tempo entre a menarca e o início da dor.
- Tipo, localização e irradiação da dor, relação com o fluxo, evolução ao longo dos anos e grau de incapacidade (faltas à escola ou ao trabalho, desporto).
- Atividade sexual, dispareunia, contraceção, infeções sexualmente transmissíveis, cirurgias pélvicas e infertilidade.
- Sintomas intestinais e urinários, e dor fora da menstruação.
- Humor, ansiedade e violência sexual, perguntados em privado.
- Tratamentos tentados, com a dose e o momento em que foram tomados: muitas adolescentes tomam menos do que a dose recomendada, e só depois de a dor começar.
Sinais de alarme para causa secundária
| Na história | No exame ou na evolução |
|---|---|
| Dor intensa desde a menarca | Útero aumentado, irregular, fixo ou doloroso |
| Dor que se agrava de ano para ano | Nodularidade dos uterossagrados |
| Dor a meio do ciclo ou sem relação com o ciclo | Massa anexial |
| Hemorragia uterina anómala | Abaulamento do hímen ou vagina cega |
| Dispareunia, infertilidade | Falta de resposta ao fim de 3 a 6 meses de tratamento bem feito |
| História familiar de endometriose, anomalia renal ou outra malformação congénita |
Exame
- Exame abdominal em todas.
- Na adolescente que nunca teve relações sexuais e tem uma história típica, o exame pélvico não é necessário para começar o tratamento. Faz-se quando há suspeita de doença orgânica, de infeção ou de malformação, ou quando o tratamento falha.
- A inspeção dos genitais externos exclui uma anomalia do hímen.
Exames complementares
- Não há exame que confirme a dismenorreia primária, e nenhum é necessário para começar a tratar.
- A ecografia reserva-se para quando os sintomas persistem apesar de tratamento adequado ou quando o exame é anormal. Na adolescente sem exame pélvico possível, pode mostrar uma massa ou uma anomalia obstrutiva.
- Teste de gravidez perante qualquer dor pélvica atípica em idade fértil.
Há dois pilares de primeira linha, que podem associar-se. Nenhum anti-inflamatório se mostrou superior a outro em eficácia ou segurança.
Anti-inflamatórios não esteroides
Inibem a ciclo-oxigenase e cortam a produção de prostaglandinas. Reduzem a dor e as faltas à escola e ao trabalho, e diminuem também o fluxo.
| Fármaco | Dose inicial | Manutenção |
|---|---|---|
| Ibuprofeno | 800 mg | 400 a 800 mg de 8 em 8 horas (máximo 2400 mg por dia) |
| Naproxeno | 500 mg | 250 a 500 mg de 12 em 12 horas |
| Ácido mefenâmico | 500 mg | 250 mg de 6 em 6 horas |
- Começam 1 a 2 dias antes da data prevista da menstruação e mantêm-se a horas certas nos 2 a 3 primeiros dias de fluxo. Quem não consegue prever o ciclo começa aos primeiros sinais do fluxo ou da dor, com a dose inicial, e não em SOS.
- Tomam-se com alimentos, com boa hidratação, para reduzir os efeitos gastrointestinais e renais.
- Se um não resultar, experimenta-se outro. O paracetamol é alternativa quando os anti-inflamatórios estão contraindicados.
Contraceção hormonal
Suprime a ovulação e o crescimento do endométrio, e com isso reduz as prostaglandinas, a pressão intrauterina e o volume do fluxo. É de primeira linha em quem não planeia engravidar e não tem contraindicações, e os anti-inflamatórios podem manter-se em associação.
- Combinados (pílula, anel vaginal ou adesivo). O regime contínuo ou prolongado é superior ao cíclico no alívio da dor.
- Progestativos isolados: pílula de progestativo, implante, medroxiprogesterona injetável.
- Sistema intrauterino de levonorgestrel de 52 mg: reduz a dismenorreia primária e secundária, e é boa escolha quando coexiste hemorragia abundante.
- Antes de um combinado aplicam-se os critérios de elegibilidade da Organização Mundial da Saúde: a enxaqueca com aura, o tabagismo a partir dos 35 anos (contraindicação absoluta com 15 ou mais cigarros por dia) e o risco tromboembólico elevado afastam-no.
- Os agonistas da hormona libertadora de gonadotrofinas não se usam empiricamente na dismenorreia primária, pelo efeito na massa óssea.
Medidas complementares
- Calor local no hipogastro: alívio comparável ao do ibuprofeno em ensaios, e mais rápido quando associado a ele.
- Exercício físico regular.
- Estimulação elétrica nervosa transcutânea de alta frequência, acupressão e gengibre podem considerar-se em quem não pode ou não quer o tratamento convencional; a evidência é fraca.
O que não se faz
- Opioides, incluindo o tramadol: sem lugar na dismenorreia, com risco de dependência e de hiperalgesia.
- Cirurgia: a ablação dos nervos uterossagrados e a neurectomia pré-sagrada não têm evidência suficiente, e procedimentos irreversíveis não se consideram na adolescente.
Adolescente
- A dismenorreia primária é a regra, mas dor intensa desde a primeira menstruação faz pensar numa anomalia obstrutiva do trato genital (hímen imperfurado, septo vaginal transverso, anomalias müllerianas), que afetam 0,1 a 3,8% das jovens.
- No hímen imperfurado a menarca acontece na idade esperada mas o sangue não sai: há dor cíclica na região do útero, sem menstruação visível, e o introito tem uma membrana abaulada e azulada. O tratamento é a himenotomia. Pode confundir-se com um septo vaginal transverso.
- A obstrução prolongada favorece a endometriose por menstruação retrógrada.
- A endometriose também existe na adolescente: pelo menos dois terços das adolescentes com dor que não responde a anti-inflamatórios e a contraceção hormonal têm endometriose na laparoscopia.
- A educação sobre a dose e o momento da toma melhora a dor. A escola deve saber que a aluna pode precisar de tomar a medicação durante as aulas.
A dor tem uma causa estrutural ou inflamatória, fora do útero, na parede ou na cavidade. A endometriose é a causa mais frequente em todas as idades, incluindo a adolescência. A frequência da dismenorreia secundária aumenta com a idade, à medida que as causas se acumulam.
| Localização | Causas |
|---|---|
| Fora do útero | Endometriose, aderências, doença inflamatória pélvica, quistos do ovário, tumores |
| Na parede do útero | Adenomiose, leiomiomas intramurais |
| Na cavidade ou no colo | Leiomiomas submucosos, pólipos, dispositivo intrauterino de cobre, estenose cervical, anomalias obstrutivas |
Endometriose
Tecido semelhante ao endométrio, com glândulas e estroma, fora do útero. É dependente dos estrogénios e inflamatória: os implantes produzem estrogénio localmente por aromatase, e o estrogénio aumenta a produção de prostaglandinas. A dor depende mais da profundidade de invasão do que da extensão da doença, e a intensidade não acompanha o estadio. Na adolescente as lesões são sobretudo vermelhas ou transparentes, metabolicamente mais ativas e mais produtoras de prostaglandinas do que as lesões escuras da mulher adulta.
Adenomiose
Tecido endometrial ectópico dentro do miométrio. O útero aumenta de forma simétrica, amolece e fica doloroso, e a dor acompanha-se muitas vezes de fluxo abundante.
Outras
- Leiomiomas: a dor associa-se sobretudo a fluxo abundante ou a sensação de peso pélvico.
- Doença inflamatória pélvica: inflamação crónica, aderências e fibrose.
- Dispositivo intrauterino de cobre: associa-se a fluxo mais abundante e a mais dismenorreia.
- Anomalias obstrutivas: o sangue retido distende a vagina ou o útero, e a menstruação retrógrada favorece a endometriose.
- Começa em regra mais tarde do que a primária, depois de anos de ciclos indolores, e agrava-se com o tempo. A exceção é a anomalia obstrutiva, que dói desde a menarca.
- A dor dura mais do que o fluxo: pode começar antes, piorar durante e persistir depois. Surge também dor a meio do ciclo ou sem relação com ele.
- Os sintomas associados apontam a causa: fluxo abundante com dor sugere adenomiose, leiomiomas ou pólipos; peso pélvico ou aumento do perímetro abdominal sugerem miomas volumosos ou neoplasia; febre, arrepios e mal-estar sugerem infeção; infertilidade sugere endometriose ou sequelas de doença inflamatória pélvica.
- Na endometriose a dispareunia é profunda e associa-se ao envolvimento dos uterossagrados e do fundo de saco posterior; o atingimento do intestino dá disquézia e retorragias, e o da bexiga ou dos ureteres dá hematúria.
O que distingue as causas mais frequentes
| Causa | O que a sugere |
|---|---|
| Endometriose | Dismenorreia progressiva, dispareunia profunda, disquézia ou hematúria cíclicas, infertilidade. Útero fixo em retroversão, nódulos dolorosos no fundo de saco posterior ou nos uterossagrados; o exame é muitas vezes normal |
| Adenomiose | Fluxo abundante; útero aumentado de forma simétrica, mole e doloroso |
| Leiomiomas | Útero aumentado e irregular, de consistência elástica e firme; fluxo abundante |
| Doença inflamatória pélvica | Dor à mobilização do colo, anexos espessados e dolorosos, corrimento, febre |
| Dispositivo de cobre | Agravamento do fluxo e da dor depois da colocação |
| Anomalia obstrutiva | Adolescente com dor desde a menarca, amenorreia com dor cíclica, massa vaginal ou pélvica |
Exames
- Teste de gravidez em idade fértil.
- Pesquisa de Chlamydia trachomatis e Neisseria gonorrhoeae se houver suspeita de infeção.
- Ecografia pélvica, transvaginal sempre que possível, é a primeira imagem: vê miomas, endometriomas, adenomiose, anomalias obstrutivas e massas anexiais. Não vê a endometriose peritoneal superficial.
- Ressonância magnética quando a ecografia é inconclusiva ou se suspeita de endometriose profunda, de adenomiose ou de uma anomalia mülleriana.
- O CA 125 não serve para diagnosticar nem para excluir endometriose.
- A laparoscopia deixou de ser o primeiro passo do diagnóstico de endometriose: considera-se quando a imagem é negativa e o tratamento empírico falhou ou não é adequado, ou quando a suspeita continua alta com ecografia normal. Continua a ser a única forma de ver as lesões peritoneais superficiais, e permite tratar no mesmo tempo.
- A adenomiose só se confirma pela histologia, mas a ecografia e a ressonância têm sensibilidade semelhante para a sugerir.
- Trata-se a causa quando há diagnóstico: antibioterapia na doença inflamatória pélvica, troca do dispositivo de cobre por outro método, correção cirúrgica das anomalias obstrutivas para restabelecer a saída do sangue.
- Não se espera pelo diagnóstico para suprimir: a dismenorreia primária e a secundária respondem à mesma supressão hormonal, e a contraceção combinada é útil mesmo em quem vem a ter uma causa orgânica.
- Na endometriose, a primeira linha é hormonal (contraceção combinada, sobretudo contínua, ou progestativo, incluindo o sistema de levonorgestrel), com anti-inflamatórios para a dor. Na adolescente, quando a dor persiste apesar da cirurgia conservadora e da supressão, os agonistas da hormona libertadora de gonadotrofinas usam-se durante pelo menos 6 meses, com terapêutica de reposição desde o início para proteger o osso.
- Na adenomiose que ainda deseja engravidar, o tratamento é sintomático: analgésicos e modificação do ciclo com contraceção hormonal ou sistema de levonorgestrel.
- A cirurgia fica para quando o tratamento médico otimizado falha ou há uma lesão que o exija. A histerectomia trata bem a dismenorreia de origem uterina em quem não deseja mais filhos, e muito pior a dor não cíclica, que tem componentes miofasciais, neuropáticos, vesicais ou intestinais. Na adolescente não se fazem histerectomia nem ooforectomia.
- Dor intermitente ou constante no abdómen inferior ou na pelve, com 6 meses ou mais, que não ocorre exclusivamente com a menstruação nem com o coito e não se associa a gravidez.
- É um sintoma, não um diagnóstico. Na maioria das mulheres há mais do que um fator a contribuir, e na primeira consulta pode não ser possível identificar a causa.
- Afeta cerca de uma em cada seis mulheres adultas e surge nos cuidados primários tão frequentemente como a enxaqueca ou a lombalgia. Tem grande impacto no trabalho, nas relações e na saúde mental.
Porque a dor se torna crónica
A dor aguda reflete lesão e passa quando o tecido cicatriza. Na dor crónica, mediadores inflamatórios alteram as fibras periféricas e despertam fibras normalmente silenciosas; o bombardeamento persistente muda o sistema nervoso central, que amplifica o sinal (sensibilização central), e as vias descendentes deixam de o modular. A dor pode persistir depois de desaparecer a lesão, ou existir sem ela, e a sensibilidade visceral fica alterada (hiperalgesia visceral). A convergência de aferências de vários órgãos pélvicos na medula explica que endometriose, intestino irritável e bexiga dolorosa coexistam na mesma doente. A dor neuropática, por lesão do próprio nervo, é tipicamente em queimadura, em moinha ou em pontada.
Causas ginecológicas
| Causa | O que importa |
|---|---|
| Endometriose e adenomiose | Dor que varia claramente com o ciclo sugere uma doença dependente das hormonas |
| Doença inflamatória pélvica | 18 a 35% das mulheres que a tiveram desenvolvem dor pélvica crónica |
| Aderências | Doem sobretudo com a distensão dos órgãos. A lise de aderências finas não tem benefício; a de aderências densas e vascularizadas pode aliviar |
| Síndrome do ovário residual ou aprisionado | Tecido ovárico retido em aderências depois de ooforectomia ou de histerectomia |
| Congestão pélvica | Existência controversa, sem teste diagnóstico validado |
Causas não ginecológicas
- Síndrome do intestino irritável: sintomas presentes em cerca de metade das mulheres referenciadas à ginecologia por dor. Diagnostica-se pelos critérios de Roma IV: dor abdominal recorrente, em média pelo menos 1 dia por semana nos últimos 3 meses, associada a pelo menos 2 de: relação com a defecação, alteração da frequência das dejeções, alteração da forma das fezes; com início dos sintomas pelo menos 6 meses antes.
- Síndrome da bexiga dolorosa (cistite intersticial): dor, pressão ou desconforto sentidos na bexiga, com sintomas urinários baixos durante mais de 6 semanas, sem infeção nem outra causa. Tipicamente agrava com o enchimento e alivia com a micção; há urgência, polaquiúria e dispareunia. Tem sintomas sugestivos em 38 a 84% das mulheres com dor pélvica crónica em consulta hospitalar. Admite-se uma alteração da camada de glicosaminoglicanos que reveste o urotélio.
- Dor musculoesquelética e miofascial: pontos-gatilho na parede abdominal ou no pavimento pélvico (elevador do ânus, obturador interno, piriforme), articulações sacroilíacas e sínfise púbica, e alterações posturais. Podem ser causa primária ou consequência de outra dor.
- Encarceramento nervoso numa cicatriz ou numa fáscia (nervos ílio-hipogástrico, ilioinguinal, genitofemoral): dor muito localizada, em pontada, agravada por certos movimentos. Surge em 3,7% das mulheres depois de uma incisão de Pfannenstiel.
- Fatores psicológicos e sociais: depressão e perturbações do sono são frequentes, como causa ou como consequência. A história de abuso sexual na infância associa-se a dor pélvica crónica, sobretudo quando o abuso continua na vida adulta, através da depressão, da ansiedade e da somatização.
História
- Dar tempo: a doente precisa de contar a história e de sentir que é ouvida e acreditada. Perguntar o que ela pensa que causa a dor.
- Padrão da dor e relação com o ciclo, com o coito, com a defecação e com a micção, e efeito do movimento e da postura.
- Sintomas intestinais e urinários, humor, sono e funcionamento (faltas ao trabalho, atividades que evita).
- História médica, cirúrgica, menstrual, obstétrica e sexual; tratamentos já feitos e resposta.
- Violência sexual passada e atual, incluindo violência nas relações de intimidade, perguntada de forma direta e em privado.
- Um diário da dor durante 2 a 3 ciclos ajuda a ver o que a provoca e a relação com o ciclo.
Sinais de alarme
Pedem investigação e referenciação: hemorragia retal, sintomas intestinais novos depois dos 50 anos, dor nova depois da menopausa, massa pélvica, perda de peso excessiva, hemorragia vaginal irregular depois dos 40 anos, hemorragia pós-coital e ideação suicida.
Mulheres com distensão abdominal, saciedade precoce, dor pélvica ou urgência ou polaquiúria persistentes ou frequentes (mais de 12 vezes por mês) fazem CA 125; acima dos 50 anos, qualquer quadro novo de intestino irritável obriga ao mesmo.
Exame
- Pedir à doente que mostre onde dói: um dedo aponta dor localizada, a mão inteira aponta dor difusa.
- Sinal de Carnett: com a doente em decúbito dorsal a contrair os rectos (levantar a cabeça ou as pernas), a dor miofascial da parede aumenta e a visceral mantém-se ou diminui.
- Palpar a parede abdominal e o pavimento pélvico à procura de pontos-gatilho: elevador do ânus (pedindo uma contração como para travar a urina) e obturador interno (abdução e rotação interna da coxa contra resistência).
- Exame pélvico: dor focal, útero aumentado, distorcido ou fixo, massas, prolapso. Sacroilíacas e sínfise púbica.
Exames complementares
- Teste de gravidez em idade fértil.
- Rastreio de infeções sexualmente transmissíveis a todas as mulheres sexualmente ativas, e pesquisa de Chlamydia e gonococo se houver suspeita de doença inflamatória pélvica.
- Ecografia transvaginal para massas anexiais, endometriomas, miomas, hidrossalpinges e adenomiose. Ecografia e ressonância têm sensibilidade semelhante para a adenomiose; a ressonância não deteta bem os pequenos implantes de endometriose.
- Urina tipo II e urocultura perante sintomas urinários; cistoscopia quando o diagnóstico de bexiga dolorosa é duvidoso ou se suspeitam lesões de Hunner, mais frequentes acima dos 50 anos.
- Colonoscopia e referenciação à gastrenterologia quando há sinais de doença inflamatória intestinal ou de cancro colorretal.
- Laparoscopia diagnóstica: segunda linha, quando outras intervenções falharam ou a suspeita de endometriose ou de aderências a tratar cirurgicamente é alta. Tem risco de morte de cerca de 1 em 10 000 e de lesão do intestino, da bexiga ou de um vaso de cerca de 2,4 em 1000. Um terço a metade são negativas, e parte do que se encontra não é a causa da dor. Não vê o intestino irritável nem a adenomiose.
A abordagem é multidisciplinar e trata em paralelo os fatores identificados, físicos, psicológicos e sociais, em vez de esperar por uma causa única. Uma abordagem integrada desde o início dá mais alívio ao fim de um ano do que a sequência clássica de excluir causas orgânicas, fazer laparoscopia e só depois olhar para o resto. O objetivo realista é recuperar a função e a qualidade de vida, e não necessariamente abolir a dor.
| Componente | O que se faz |
|---|---|
| Dor cíclica | Ensaio de supressão hormonal de 3 a 6 meses antes de qualquer laparoscopia: contraceção combinada, progestativos, sistema de levonorgestrel ou agonistas da hormona libertadora de gonadotrofinas. Controla também a dor cíclica sem endometriose |
| Analgesia | Anti-inflamatórios a horas certas, com ou sem paracetamol, desde a primeira consulta, sem esperar por outras medidas |
| Miofascial e pavimento pélvico | Fisioterapia do pavimento pélvico; injeção de pontos-gatilho |
| Neuropática | Inibidores da recaptação da serotonina e da noradrenalina (duloxetina), gabapentina ou pregabalina; amitriptilina em dose baixa |
| Intestino irritável | Antiespasmódicos (mebeverina), ajuste alimentar orientado por diário, fibra ou laxante osmótico se predominar a obstipação |
| Bexiga dolorosa | Educação e evicção de irritantes (cafeína, álcool, alimentos ácidos, adoçantes artificiais); amitriptilina começada em 10 mg, hidroxizina, cimetidina ou pentosano polissulfato, este com aviso de risco de maculopatia; fulguração ou triancinolona nas lesões de Hunner |
| Psicológico e sexual | Terapia cognitivo-comportamental e terapia sexual; tratar a depressão e as perturbações do sono |
- A consulta de seguimento é periódica e marcada, e não só quando há dor, para não reforçar o comportamento de dor como forma de obter cuidados.
- Sem controlo adequado, referencia-se a uma consulta de dor pélvica ou a uma equipa de dor.
O que não se faz
- Opioides: não recomendados. Quem já os toma faz desmame lento.
- Adesiólise por rotina: não recomendada.
- Ablação laparoscópica dos nervos uterossagrados: ineficaz na dor pélvica crónica.
- Histerectomia só depois de excluídas as causas não ginecológicas; alivia bem a dor com origem no útero.
- Atraso diagnóstico: é comum em todas as idades, e maior nas adolescentes, que chegam a esperar mais de cinco anos pelo diagnóstico da dor pélvica. A dor menstrual desvalorizada pela própria, pela família e pelos profissionais é a principal razão.
- Cronificação: a dor menstrual não tratada pode evoluir para uma síndrome de dor crónica, que depois persiste apesar de supressão hormonal eficaz ou de cirurgia.
- Impacto: faltas à escola e ao trabalho, perturbação do sono, depressão e ansiedade, e disfunção sexual.
- Iatrogenia: cirurgias repetidas criam aderências e dor neuropática e, na endometriose, só a primeira cirurgia melhora a fertilidade. Uma laparoscopia negativa pode deixar a doente desiludida e afastá-la dos cuidados.
- Uma boa relação clínica na primeira consulta associa-se a melhor evolução.
Adolescente
A partir de 3 a 6 meses de dor faz-se a avaliação completa de dor pélvica crónica, com atenção às causas gastrointestinais, urológicas, musculoesqueléticas e psicossociais. Na adolescente com endometriose os sintomas não cíclicos, intestinais e urinários são frequentes.
Pós-menopausa
Dor pélvica de novo na pós-menopausa não é dismenorreia. Obriga a excluir neoplasia ginecológica ou colorretal; acima dos 50 anos, sintomas novos de intestino irritável pedem CA 125.
Violência
Na mulher que revela abuso pergunta-se também se ele continua. Em Portugal a violência doméstica é crime público.
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11 perguntas sobre Dismenorreia e dor pélvica crónica
Ler consolida, treinar é o que fixa. Cada pergunta tem justificação alínea a alínea, no formato da Prova Nacional de Acesso.
Criar conta e treinar