Peritonites
Atualizado em 18 de julho de 2026 · 10 perguntas neste tema
A peritonite é a inflamação da serosa peritoneal, quase sempre de causa infeciosa, e constitui uma das principais causas de sépsis com origem abdominal. Este capítulo foca a classificação (primária, secundária, terciária e associada à diálise peritoneal) e o tratamento da infeção intra-abdominal, e não a abordagem sindromática do abdómen agudo. A distinção entre estas categorias é decisiva porque determina se o doente precisa de controlo de foco cirúrgico ou apenas de antibioterapia dirigida.
O peritoneu tem uma superfície de troca comparável à da superfície corporal e comporta-se como uma membrana semipermeável de grande capacidade absortiva. Os estomas linfáticos do peritoneu diafragmático drenam líquido, partículas e bactérias para os linfáticos mediastínicos e para o canal torácico, o que explica a rapidez com que uma contaminação peritoneal se converte em bacteriemia e sépsis.
A agressão desencadeia três respostas sequenciais:
- Depuração: absorção diafragmática e opsonização pelo complemento e imunoglobulinas do líquido peritoneal.
- Resposta inflamatória: os macrófagos residentes e os mastócitos libertam TNF-alfa, IL-1 e IL-6, com vasodilatação, aumento da permeabilidade e influxo maciço de neutrófilos. O exsudado rico em proteína gera sequestro para o terceiro espaço, hipovolémia, íleo paralítico e distensão.
- Localização: a exsudação de fibrina, com deposição mediada pela inibição da fibrinólise peritoneal, cola ansas e epíploon em torno do foco. Esta fibrina é protetora ao limitar a difusão, mas simultaneamente encapsula bactérias e protege-as da fagocitose e do antibiótico, criando o abcesso. Hemoglobina, bílis, mecónio e bário funcionam como adjuvantes que agravam a infeção.
Na peritonite secundária o inóculo reflete a flora do segmento perfurado: escassa e sobretudo Gram-positiva no estômago e duodeno, progressivamente mais densa e anaeróbia em direção ao cólon. Existe sinergismo aeróbio-anaeróbio: as enterobactérias (Enterobacterales), sobretudo Escherichia coli, consomem oxigénio e baixam o potencial redox, permitindo a proliferação de Bacteroides fragilis, cuja cápsula polissacarídea é diretamente indutora de formação de abcesso. Daí o princípio de cobrir os dois compartimentos da flora.
Na PBE, o mecanismo dominante é a translocação bacteriana: o cirrótico tem sobrecrescimento bacteriano do intestino delgado, disbiose, aumento da permeabilidade da barreira intestinal e disfunção imunitária associada à cirrose, com passagem de bactérias aos gânglios mesentéricos e à circulação. A ascite com proteína total baixa (abaixo de 1 g/dL) tem escassa capacidade opsónica e não elimina o inóculo, resultando numa infeção tipicamente monomicrobiana por E. coli, Klebsiella ou Streptococcus pneumoniae, com peso crescente de Gram-positivos e de estirpes multirresistentes nos episódios nosocomiais.
A PBE precipita lesão renal aguda hepatorrenal por agravamento da vasodilatação esplâncnica mediada por citocinas e óxido nítrico, com queda do volume arterial eficaz, ativação do sistema renina-angiotensina-aldosterona e vasoconstrição renal intensa. É este mecanismo que justifica a expansão com albumina.
Na peritonite terciária, a falência da resposta local associa-se a imunodepressão adquirida do doente crítico e a pressão seletiva antibiótica, com emergência de Candida e de bacilos de Gram-negativo resistentes.
Peritonite secundária. A suspeita é clínica: dor abdominal intensa, defesa e contratura, dor à descompressão, íleo, febre e sinais de resposta inflamatória sistémica. Analiticamente, leucocitose com neutrofilia, proteína C reativa e procalcitonina elevadas, lactato para estratificação de gravidade, função renal e coagulação. Devem colher-se hemoculturas antes do antibiótico, sem atrasar a primeira dose no doente com choque. A radiografia em pé ou decúbito lateral pode mostrar pneumoperitoneu, mas a tomografia computorizada abdominopélvica com contraste é o exame de eleição por identificar o foco, a extensão da contaminação e coleções drenáveis. No doente instável, a decisão de operar é clínica e não deve aguardar imagem.
Peritonite bacteriana espontânea. O diagnóstico faz-se por paracentese diagnóstica, que deve ser realizada a todo o cirrótico com ascite admitido no hospital, com deterioração clínica, hemorragia digestiva, encefalopatia ou lesão renal aguda. O critério é a contagem de neutrófilos igual ou superior a 250/mm³ no líquido ascítico. Se a paracentese for traumática (líquido francamente hemático, com eritrócitos acima de 10 000/mm³), subtrai-se 1 neutrófilo à contagem de neutrófilos por cada 250 eritrócitos. As culturas devem ser inoculadas à cabeceira em frascos de hemocultura, com pelo menos 10 mL por frasco, o que aumenta muito o rendimento; ainda assim, cerca de 40% dos episódios são cultura-negativa (ascite neutrocítica cultura-negativa, tratada como PBE). A situação inversa, bacterascite (cultura positiva com menos de 250 neutrófilos), trata-se se houver sintomas ou repete-se a paracentese.
O ponto crítico do exame é distinguir PBE de peritonite secundária no cirrótico, porque esta última necessita de cirurgia. Sugerem origem secundária os critérios de Runyon: pelo menos dois de proteína total no líquido acima de 1 g/dL, glicose abaixo de 50 mg/dL e LDH acima do limite superior do soro. Reforçam a suspeita a flora polimicrobiana no exame direto ou na cultura, a presença de anaeróbios ou fungos e a ausência de descida dos neutrófilos na paracentese de controlo às 48 horas (esperada uma queda superior a 25%). Perante qualquer destes achados, impõe-se tomografia computorizada.
Diálise peritoneal. Suspeitar sempre perante efluente turvo, com ou sem dor. Segundo as recomendações da ISPD de 2022, o diagnóstico exige pelo menos dois de três critérios: clínica compatível; leucócitos no efluente acima de 100/µL com mais de 50% de neutrófilos, numa permanência de pelo menos 2 horas; e cultura do efluente positiva. O efluente turvo deve ser considerado peritonite até prova em contrário.
Peritonite terciária. Diagnostica-se pela persistência ou recidiva de sinais de infeção após controlo de foco e antibioterapia adequados, com confirmação por imagem ou reintervenção e culturas frequentemente com Candida ou flora multirresistente.
Os três pilares, comuns a todas as formas, são ressuscitação e suporte, antibioterapia precoce e adequada e controlo de foco quando existe foco cirúrgico.
Medidas iniciais. Fluidoterapia com cristaloide equilibrado, correção de desequilíbrios, analgesia, entubação nasogástrica se íleo ou vómitos, monitorização de diurese e lactatos. No choque séptico, o antibiótico deve ser administrado na primeira hora (Surviving Sepsis Campaign 2021), com vasopressor para pressão arterial média alvo de 65 mmHg.
Peritonite secundária. O controlo de foco é a intervenção que mais influencia o prognóstico e deve ser o mais precoce possível, idealmente nas primeiras horas no doente séptico. Consiste em drenar a coleção, desbridar tecido necrótico e eliminar a fonte de contaminação: apendicectomia, encerramento primário ou reparação com epíploon da úlcera perfurada, ressecção segmentar com ou sem anastomose, procedimento de Hartmann na diverticulite perfurada com peritonite fecal, com lavagem e aspiração da cavidade. Em coleções únicas, bem delimitadas e acessíveis, a drenagem percutânea guiada por imagem é preferível à cirurgia. A antibioterapia empírica deve cobrir enterobactérias e anaeróbios: na infeção comunitária de baixo risco, amoxicilina/ácido clavulânico ou uma cefalosporina associada a metronidazol; nos doentes de risco ou infeção associada a cuidados de saúde, piperacilina/tazobactam ou carbapenemo, ponderando cobertura de enterococos e de Candida. Após controlo de foco adequado, o ensaio STOP-IT (2015) apoia cursos curtos, da ordem dos 4 dias, em vez de tratamentos prolongados.
PBE. Antibiótico logo após a paracentese, sem aguardar cultura: cefotaxima por via endovenosa (habitualmente 2 g a cada 8 horas) ou ceftriaxona, durante cerca de 5 a 7 dias; nos episódios nosocomiais ou em meios com elevada resistência, escalar para carbapenemo com ou sem glicopéptido. Associar albumina endovenosa, 1,5 g/kg no dia do diagnóstico e 1 g/kg ao terceiro dia, com redução consistente da incidência de síndrome hepatorrenal e da mortalidade. Suspender diuréticos e suspender os betabloqueantes não seletivos se hipotensão (pressão arterial sistólica abaixo de 90 mmHg), lesão renal aguda ou hiponatrémia, e evitar aminoglicosídeos pela nefrotoxicidade. Repetir a paracentese às 48 horas se a resposta for duvidosa. Depois do episódio, iniciar profilaxia secundária com norfloxacina 400 mg por dia por tempo indefinido ou, quando a norfloxacina não estiver disponível ou for desaconselhada, ciprofloxacina 500 mg por dia ou cotrimoxazol e referenciar para avaliação de transplante hepático. A profilaxia primária considera-se na hemorragia digestiva alta (ceftriaxona ou norfloxacina) e na ascite com proteína total abaixo de 1,5 g/dL associada a doença hepática avançada.
Peritonite associada à diálise peritoneal. Antibiótico intraperitoneal empírico cobrindo Gram-positivos (vancomicina ou cefazolina) e Gram-negativos (ceftazidima ou aminoglicosídeo), ajustado à cultura, tipicamente 2 a 3 semanas. Remover o cateter na peritonite refratária (sem melhoria após cerca de 5 dias de terapêutica apropriada), recidivante, fúngica ou por micobactérias.
Peritonite terciária. Reavaliação por imagem, reintervenção ou drenagem, alargamento do espectro com cobertura antifúngica e de enterococos, e suporte de órgão. A laparostomia com abdómen aberto reserva-se para situações de contaminação não controlável ou risco de síndrome compartimental abdominal.
Referências
- Sartelli M, Chichom-Mefire A, Labricciosa FM, et al. The management of intra-abdominal infections from a global perspective: 2017 WSES guidelines for management of intra-abdominal infections. World J Emerg Surg. 2017;12:29. Sartelli M, Coccolini F, Kluger Y, et al. WSES/GAIS/SIS-E/WSIS/AAST global clinical pathways for patients with intra-abdominal infections. World J Emerg Surg. 2021;16:49.
- European Association for the Study of the Liver. EASL Clinical Practice Guidelines for the management of patients with decompensated cirrhosis. J Hepatol. 2018;69(2):406-460.
- Biggins SW, Angeli P, Garcia-Tsao G, et al. Diagnosis, evaluation, and management of ascites, spontaneous bacterial peritonitis and hepatorenal syndrome: 2021 practice guidance by the American Association for the Study of Liver Diseases. Hepatology. 2021;74(2):1014-1048.
- Li PK, Chow KM, Cho Y, et al. ISPD peritonitis guideline recommendations: 2022 update on prevention and treatment. Perit Dial Int. 2022;42(2):110-153.
- Mazuski JE, Tessier JM, May AK, et al. The Surgical Infection Society revised guidelines on the management of intra-abdominal infection. Surg Infect (Larchmt). 2017;18(1):1-76.
- Sawyer RG, Claridge JA, Nathens AB, et al. Trial of short-course antimicrobial therapy for intraabdominal infection (STOP-IT). N Engl J Med. 2015;372(21):1996-2005.
- Evans L, Rhodes A, Alhazzani W, et al. Surviving Sepsis Campaign: international guidelines for management of sepsis and septic shock 2021. Intensive Care Med. 2021;47(11):1181-1247.
- Brunicardi FC, Andersen DK, Billiar TR, et al., editores. Schwartz's Principles of Surgery. 11.ª ed. Nova Iorque: McGraw-Hill; 2019.
- Loscalzo J, Fauci AS, Kasper DL, et al., editores. Harrison's Principles of Internal Medicine. 21.ª ed. Nova Iorque: McGraw-Hill; 2022.
10 perguntas sobre Peritonites
Ler consolida, treinar é o que fixa. Cada pergunta tem justificação alínea a alínea, no formato da Prova Nacional de Acesso.
Criar conta e treinar