Epistaxe
Atualizado em 17 de julho de 2026 · 7 perguntas neste tema
A epistaxe é a hemorragia com origem na mucosa das fossas nasais e é uma das urgências otorrinolaringológicas mais frequentes, afetando até 60% da população ao longo da vida. A distinção topográfica entre epistaxe anterior e posterior é o eixo que organiza toda a abordagem, porque define a gravidade, o risco de compromisso da via aérea e a estratégia terapêutica. A maioria dos episódios é ligeira e autolimitada e cede com medidas simples de primeiros socorros, mas uma minoria, sobretudo no idoso hipocoagulado, exige controlo hemostático dirigido e correção da causa subjacente.
Prioridade: estabilizar antes de investigar
Perante epistaxe ativa, a avaliação e a intervenção são simultâneas. A primeira decisão é distinguir o episódio ligeiro e autolimitado da hemorragia abundante com potencial compromisso hemodinâmico ou da via aérea. Aplica-se a sequência ABC: proteger a via aérea (risco de aspiração de sangue deglutido, sobretudo na epistaxe posterior), avaliar respiração e circulação. Sinais de alarme incluem hemorragia persistente apesar de compressão adequada, hematemese ou melenas por sangue deglutido, palidez, taquicardia, hipotensão e alteração do estado de consciência.
Anamnese dirigida
A história orienta a localização e a causa:
- Lateralidade e exteriorização: hemorragia unilateral que sai pela narina sugere origem anterior; hemorragia bilateral ou que o doente refere "escorrer pela garganta" sugere origem posterior.
- Duração, frequência e volume estimado; número de episódios recentes e resposta a medidas prévias.
- Fator precipitante: trauma digital, traumatismo facial, esforço, cirurgia ou instrumentação recente, uso de cocaína.
- Antecedentes e fármacos: hipertensão arterial, doença hepática, discrasias hemorrágicas, história familiar de hemorragias (Rendu-Osler-Weber). Rever anticoagulação e antiagregação, incluindo adesão e dose, e uso de anti-inflamatórios não esteroides.
- Bandeiras vermelhas: epistaxe unilateral recorrente, obstrução nasal progressiva, adenopatia cervical, hipoacusia unilateral ou dor facial, que levantam a suspeita de neoplasia nasossinusal ou da nasofaringe.
Exame objetivo
O exame faz-se com o doente sentado, inclinado para a frente, com boa iluminação (idealmente frontal), aspirador e material de proteção. Passos:
- Rinoscopia anterior com espéculo, após o doente assoar o nariz para remover coágulos e, quando disponível, após vasoconstritor tópico (por exemplo oximetazolina ou lidocaína com adrenalina), que reduz a hemorragia e melhora a visualização. O objetivo é identificar o ponto hemorrágico, tipicamente no plexo de Kiesselbach.
- Inspeção da orofaringe: a presença de sangue a escorrer pela parede posterior, sem ponto anterior identificável, aponta para origem posterior.
- Endoscopia nasal (rígida ou flexível): indicada quando não se identifica ponto anterior, na suspeita de origem posterior, na epistaxe recorrente ou quando há suspeita de lesão estrutural ou tumoral. Permite localizar o vaso e, muitas vezes, tratá-lo no mesmo tempo.
Erro frequente: inclinar a cabeça do doente para trás durante o exame. Além de dificultar a visualização, favorece a deglutição de sangue, mascara o volume da hemorragia e aumenta o risco de náusea, vómito e aspiração.
Exames complementares
Não são necessários na epistaxe anterior ligeira e isolada. Ponderar de acordo com a gravidade e o contexto:
- Hemograma perante hemorragia abundante, recorrente ou anemia clínica.
- Estudo da coagulação (tempo de protrombina/INR, tempo de tromboplastina parcial ativada) no doente hipocoagulado, com doença hepática ou suspeita de discrasia. O INR é essencial para orientar a decisão de reversão da anticoagulação.
- Tipagem e provas de compatibilidade se houver instabilidade ou previsão de transfusão.
- Imagiologia (tomografia computorizada, eventualmente com contraste, ou angiografia): reservada para suspeita de neoplasia, trauma complexo, epistaxe posterior refratária ou planeamento de embolização. A ressonância magnética e a angiografia são úteis na caracterização de massas vascularizadas, como o angiofibroma nasofaríngeo juvenil, cuja biópsia deve ser evitada pelo risco hemorrágico.
Estratificação da gravidade
A síntese diagnóstica integra três eixos: topografia (anterior versus posterior), repercussão hemodinâmica (sinais vitais, palidez, resposta às medidas iniciais) e causa/fatores agravantes (hipertensão não controlada, hipocoagulação, doença hepática). É esta estratificação que determina a intensidade da abordagem terapêutica e o nível de cuidados: a epistaxe anterior ligeira resolve-se habitualmente em ambulatório, enquanto a epistaxe posterior, a hemorragia com instabilidade ou a que não cede às medidas de primeira linha exigem observação hospitalar e, frequentemente, otorrinolaringologia.
Nota clínica: no doente idoso, hipertenso e hipocoagulado com hemorragia abundante que escorre pela orofaringe, assumir epistaxe posterior e agir em conformidade, mesmo sem visualizar o ponto hemorrágico à rinoscopia anterior.
Princípio: abordagem escalonada
O tratamento da epistaxe segue uma escada terapêutica, do menos para o mais invasivo, ajustada à topografia e à gravidade. Em paralelo, corrige-se a causa (controlar a tensão arterial, rever a hipocoagulação) e estabiliza-se o doente quando a hemorragia é abundante. A Clinical Practice Guideline: Nosebleed (Epistaxis) da American Academy of Otolaryngology–Head and Neck Surgery (2020) estrutura esta abordagem e é a referência atual.
1. Primeiros socorros (compressão digital)
A primeira medida, e a que resolve a maioria dos casos, é a compressão digital firme e sustentada das asas do nariz (terço inferior/mole do nariz), com o doente sentado e com a cabeça inclinada para a frente, durante pelo menos 5 minutos sem interromper (na prática recomenda-se frequentemente 10 a 15 minutos). A aplicação de gelo na região frontonasal ou a sucção de gelo pode contribuir por vasoconstrição reflexa.
Erro frequente: inclinar a cabeça para trás. Isto leva à deglutição de sangue, com náusea, vómito e risco de aspiração, e impede a estimativa correta do volume perdido. A cabeça deve ir sempre para a frente, com o sangue a ser cuspido, não engolido. Outro erro comum é interromper a compressão a cada minuto para "ver se parou", o que impede a formação do coágulo; a maioria dos insucessos de primeiros socorros deve-se a compressão mal executada ou interrompida.
2. Vasoconstritor tópico e cauterização
Se a hemorragia persiste apesar da compressão adequada e o ponto anterior é visível:
- Aplicar vasoconstritor tópico (por exemplo oximetazolina) associado a anestésico local, que frequentemente detém a hemorragia e prepara o campo.
- Cauterização química com nitrato de prata do ponto hemorrágico anterior, aplicada de forma pontual sobre vaso identificado e seco. Não cauterizar ambos os lados do septo no mesmo tempo, pelo risco de perfuração septal por isquemia. A cauterização elétrica é alternativa quando disponível e realizada por operador diferenciado.
- O ácido tranexâmico tópico (antifibrinolítico, aplicado embebido em compressa ou tampão) é um adjuvante útil no controlo da epistaxe anterior, com evidência crescente como opção de primeira linha em contexto de urgência.
3. Tamponamento nasal
Quando não se identifica o ponto, a cauterização falha ou a hemorragia é difusa ou posterior:
- Tamponamento nasal anterior: com tampões expansíveis, compressas impregnadas ou material reabsorvível. Os tampões reabsorvíveis (celulose oxidada, gelatina) são preferíveis no doente com discrasia hemorrágica por não exigirem remoção traumática. O tampão mantém-se habitualmente 24 a 72 horas.
- Tamponamento posterior: reservado à epistaxe posterior que não cede ao tamponamento anterior. Pode usar-se sonda com balão (tipo Foley ou balão duplo) ou tamponamento clássico. É desconfortável, exige internamento e monitorização (risco de hipoxemia e do reflexo nasovagal/nasopulmonar), e por vezes analgesia e proteção da via aérea.
Nota clínica: ponderar profilaxia antibiótica nos tampões mantidos por vários dias, pelo risco (raro) de sinusite e de síndrome de choque tóxico; seguir o protocolo local.
4. Tratamento refratário: embolização e ligadura arterial
Se a hemorragia não cede ao tamponamento, sobretudo na epistaxe posterior:
- Ligadura/cauterização endoscópica da artéria esfenopalatina, o alvo cirúrgico de eleição na epistaxe posterior refratária, com elevadas taxas de sucesso. Podem também ser abordadas as artérias etmoidais quando a origem é superior.
- Embolização por radiologia de intervenção (habitualmente da artéria maxilar/esfenopalatina), alternativa eficaz, sobretudo no doente com risco cirúrgico elevado. Tem risco, embora baixo, de acidente vascular cerebral e de necrose de tecidos moles.
Medidas gerais e correção da causa (competência de gestão)
- Controlar a tensão arterial de forma gradual; a hipertensão sustentada perpetua a hemorragia.
- Rever a anticoagulação/antiagregação: ponderar reversão apenas quando clinicamente apropriado e no doente com hemorragia grave ou não controlada, ponderando sempre o risco trombótico subjacente. A decisão é individualizada e frequentemente partilhada com a especialidade que instituiu a hipocoagulação.
- Ressuscitação com fluidos e transfusão conforme a repercussão hemodinâmica e a hemoglobina.
- Educação do doente: evitar trauma digital e esforço, humidificar a mucosa (soro salino, pomada emoliente), não sonar com força nas horas seguintes, e indicações claras de quando recorrer novamente a cuidados de saúde.
Referências
- Tunkel DE, Anne S, Payne SC, et al. Clinical Practice Guideline: Nosebleed (Epistaxis). Otolaryngol Head Neck Surg. 2020;162(1_suppl):S1-S38.
- Faughnan ME, Mager JJ, Hetts SW, et al. Second International Guidelines for the Diagnosis and Management of Hereditary Hemorrhagic Telangiectasia. Ann Intern Med. 2020;173(12):989-1001.
- Womack JP, Kropa J, Jimenez Stabile M. Epistaxis: Outpatient Management. Am Fam Physician. 2018;98(4):240-245.
- Biadsee A, Gob A, Sowerby L. Anterior epistaxis. CMAJ. 2022;194(38):E1322.
- Beck R, Sorge M, Schneider A, Dietz A. Current Approaches to Epistaxis Treatment in Primary and Secondary Care. Dtsch Arztebl Int. 2018;115(1-2):12-22.
- Tabassom A, Dahlstrom JJ. Epistaxis. In: StatPearls. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2022.
7 perguntas sobre Epistaxis
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