Epistaxe
Atualizado em 28 de setembro de 2026 · 10 perguntas neste tema
Epistaxe é a hemorragia com origem nas fossas nasais ou na nasofaringe. Pelo menos 60% das pessoas têm um episódio ao longo da vida, mas só uma pequena parte procura cuidados médicos. A distribuição por idades é bimodal, com um pico na criança com menos de 10 anos e outro no idoso, entre os 70 e os 79 anos.
Cerca de 90% das epistaxes são anteriores e nascem no plexo de Kiesselbach, a confluência dos territórios das duas carótidas no septo anteroinferior; a posterior, 5 a 10% do total, sangra de ramos da artéria esfenopalatina e é mais frequente no idoso, mas mesmo no idoso a anterior continua a ser a mais comum. Entre 70 e 80% dos episódios não têm causa demonstrável; os que a têm devem-se sobretudo a traumatismo, cirurgia, antitrombóticos, coagulopatia, telangiectasia hemorrágica hereditária ou tumor.
A abordagem começa por separar o doente que precisa de intervenção imediata, protege a via aérea e segue uma escada: compressão das asas do nariz com a cabeça para a frente, vasoconstritor tópico e cauterização do ponto visível, tamponamento quando o ponto não se vê, e laqueação endoscópica da artéria esfenopalatina ou embolização na hemorragia que não cede.
O que não se pode falhar: a compressão mal feita ou interrompida, a cabeça inclinada para trás, a suspensão ou reversão da anticoagulação por rotina numa hemorragia que as medidas locais controlam, a telangiectasia hemorrágica hereditária no doente com epistaxes bilaterais recorrentes e história familiar, e o angiofibroma nasofaríngeo juvenil no adolescente com obstrução nasal unilateral, que se diagnostica por imagem e não se biopsa.
Avaliação inicial
- Logo no primeiro contacto separa-se o doente que precisa de intervenção imediata (hemorragia ativa abundante, instabilidade, via aérea em risco) do que não precisa. Avaliar e tratar fazem-se em simultâneo.
- Via aérea, acesso venoso e ressuscitação quando há repercussão; o doente fica sentado ou semissentado, e quem o trata usa bata, luvas e viseira.
Anamnese
- Lado, duração, frequência, volume estimado e o que já se tentou.
- Fatores que agravam, a registar sempre: antiagregantes e anticoagulantes (com o motivo da prescrição), história pessoal ou familiar de hemorragias, uso de drogas intranasais, doença hepática ou renal, cirurgia ou traumatismo recentes.
- Epistaxes bilaterais recorrentes ou história familiar de epistaxes: procurar telangiectasia hemorrágica hereditária.
Exame objetivo
- Rinoscopia anterior depois de o doente assoar ou de se aspirarem os coágulos, com luz frontal, espéculo e aspiração. Um algodão com vasoconstritor e anestésico tópicos reduz a hemorragia e deixa ver melhor.
- Orofaringe: sangue a escorrer pela parede posterior sem ponto anterior aponta para origem posterior.
- Endoscopia nasal, pelo otorrinolaringologista:
- indicada na hemorragia recorrente apesar de tamponamento ou cauterização, e na epistaxe recorrente unilateral;
- opcional na hemorragia difícil de controlar ou quando se suspeita de doença não reconhecida (tumor);
- localiza o ponto posterior em mais de 80% dos casos e permite tratá-lo no mesmo tempo.
- Observar lábios, língua, mucosa oral e dedos à procura de telangiectasias.
Exames complementares
| exame | quando |
|---|---|
| Hemograma | hemorragia abundante ou recorrente, anemia clínica, internamento |
| Razão normalizada internacional | doente sob antagonista da vitamina K |
| Estudo da coagulação | só com história sugestiva de coagulopatia, doença hepática ou anticoagulação; não é de rotina |
| Tipagem e provas de compatibilidade | instabilidade ou transfusão provável |
| Tomografia ou ressonância com contraste | suspeita de tumor, traumatismo complexo |
| Angiografia | planear embolização; hemorragia grave depois de traumatismo craniano (pseudoaneurisma) |
- Na epistaxe anterior ligeira e isolada, sem fatores de risco, não se pede nenhum exame.
Diagnóstico diferencial
- Hemorragia digestiva alta ou hemoptise: a rinoscopia e a observação da orofaringe mostram a origem nasal do sangue deglutido ou aspirado.
- Angiofibroma nasofaríngeo juvenil: diagnostica-se por tomografia e ressonância (massa com captação intensa centrada no buraco esfenopalatino, alargamento da fossa pterigopalatina). Não se biopsa, pelo risco de hemorragia grave.
- Tumor maligno nasossinusal ou da nasofaringe: endoscopia, imagem e biópsia.
- Telangiectasia hemorrágica hereditária: diagnóstico clínico pelos critérios de Curaçao, descritos nos grupos especiais.
Primeiros socorros: compressão
- Doente sentado, com a cabeça inclinada para a frente, a cuspir o sangue em vez de o engolir.
- Compressão firme e contínua das asas do nariz, no terço inferior e mole, contra o septo; comprimir sobre os ossos próprios não serve.
- Durante pelo menos 5 minutos; na prática recomendam-se 10 a 15 minutos sem soltar, e repete-se se continuar a sangrar.
- A falha deve-se quase sempre a compressão mal colocada ou interrompida para espreitar.
- O gelo tem valor discutível e não substitui a compressão.
Ponto visível: tratamento direto
- Vasoconstritor tópico (por exemplo oximetazolina ou adrenalina em algodão), com anestésico tópico. Muitas vezes para a hemorragia e mostra o ponto.
- Cauterização, depois de anestesiar e só no ponto que sangra ou que se suspeita:
- química com nitrato de prata, primeiro em redor do ponto e depois sobre ele;
- elétrica bipolar, pelo otorrinolaringologista, um pouco mais eficaz; a monopolar não se usa na fossa nasal;
- de um só lado do septo de cada vez: a cauterização bilateral arrisca perfuração septal.
- Na epistaxe anterior com ponto visível, a cauterização controla mais de 90% dos casos e é preferível ao tamponamento.
- Depois, lubrificante ou pomada para humidificar a mucosa.
Ponto não visível: tamponamento anterior
- Quando a hemorragia não deixa identificar o ponto apesar da compressão.
- Tampões expansíveis, balões ou mecha impregnada. Reabsorvível no doente com suspeita de coagulopatia ou sob anticoagulantes ou antiagregantes, porque remover o tampão faz voltar a sangrar.
- O tampão não reabsorvível fica 24 a 72 horas; a hemorragia continua ou volta com o tampão colocado em até 40%.
- Antibiótico profilático: a evidência é fraca; é razoável quando o tampão anterior fica mais de 48 horas.
- Explica-se ao doente o tipo de tampão, quando e onde se tira, os cuidados e os sinais para voltar.
Ácido tranexâmico
- Tópico (a forma injetável aplicada em algodão): adjuvante na epistaxe anterior que não cede à compressão, também sob antiagregantes; reduz a recidiva nos primeiros dias, sem diferença ao fim de uma semana.
- Oral, 1,5 g três vezes por dia no esquema estudado: reduz a gravidade e a recidiva; reserva-se como adjuvante na epistaxe recorrente ou refratária. Contraindicado na doença tromboembólica prévia.
- Não é tratamento de rotina.
Tamponamento posterior
- Na hemorragia posterior que não cede ao tamponamento anterior, sobretudo quando não há otorrinolaringologista disponível.
- Balão nasofaríngeo próprio ou sonda de Foley 12 ou 14 inflada com 15 mL de água, puxada contra a coana, mais tamponamento anterior. Proteger a columela da necrose por pressão.
- Muito doloroso: internamento, monitorização da oximetria, analgesia e antibiótico. Fica pelo menos 48 horas.
Hemorragia que não cede
| opção | notas |
|---|---|
| Endoscopia com cauterização bipolar do ponto | localiza a maioria dos pontos posteriores; controlo imediato em cerca de 90% |
| Laqueação ou cauterização endoscópica da artéria esfenopalatina | procedimento cirúrgico de escolha; controla a hemorragia em quase 100% dos casos; complicações pouco frequentes (recidiva por anastomoses, infeção, sinéquias) |
| Embolização por radiologia de intervenção | eficaz em 82 a 97%; complicações: necrose cutânea, parestesias, acidente vascular cerebral; preferida quando o risco anestésico é alto ou a cirurgia falhou |
| Laqueação das etmoidais | fratura etmoidal ou lesão iatrogénica da etmoidal; adjuvante |
- Hemorragia que persiste ou recidiva apesar do tamponamento ou da cauterização: avaliar cedo para laqueação ou embolização.
Doente sob antitrombóticos
- Sem hemorragia que ameace a vida, começa-se pelas medidas locais, antes de transfundir, reverter ou suspender anticoagulantes ou antiagregantes.
- Sob antagonista da vitamina K com razão normalizada internacional na faixa terapêutica e hemorragia controlada, pode manter-se o anticoagulante.
- Nunca se suspende nem se reverte sem conhecer a indicação (válvula mecânica, fibrilhação auricular, tromboembolismo recente, stent coronário recente) e sem falar com quem a prescreveu ou com a hematologia.
- Reversão, transfusão de plaquetas ou antídoto só na hemorragia grave e incontrolável.
- O ácido acetilsalicílico de quem tem doença cardiovascular não se suspende por epistaxes recorrentes.
Tensão arterial
- A tensão elevada à chegada é frequente e em boa parte reativa à ansiedade e à dor; trata-se a dor e a ansiedade e reavalia-se.
- Se se mantiver acima de 180/120 mmHg em várias medições, baixa-se com fármaco oral, de forma gradual ao longo de 24 a 48 horas. A descida brusca não para a hemorragia e tem riscos próprios.
Referências
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- McGarry GW. Epistaxis. In: Watkinson JC, Clarke RW, editors. Scott-Brown's otorhinolaryngology head and neck surgery. 8th ed. Vol. 1. Boca Raton: CRC Press; 2018. p. 1169-81.
- Lechner M, Emanuel O, Chandrasekharan D, Michaels J, Moghul G, Mehta N, et al. Creating a protocol for the management of epistaxis in a tertiary care centre: a practical application of the British Rhinological Society multidisciplinary consensus recommendations on the hospital management of epistaxis. Otolaryngology (Sunnyvale). 2022;12(3):452.
- Beck R, Sorge M, Schneider A, Dietz A. Current approaches to epistaxis treatment in primary and secondary care. Dtsch Arztebl Int. 2018;115(1-2):12-22.
- Womack JP, Kropa J, Jimenez Stabile M. Epistaxis: outpatient management. Am Fam Physician. 2018;98(4):240-5.
- Faughnan ME, Mager JJ, Hetts SW, Palda VA, Lang-Robertson K, Buscarini E, et al. Second international guidelines for the diagnosis and management of hereditary hemorrhagic telangiectasia. Ann Intern Med. 2020;173(12):989-1001.
- Royal College of Emergency Medicine. Acute epistaxis [Internet]. London: RCEMLearning; [consultado em 2026 set 28]. Disponível em: https://www.rcemlearning.co.uk/reference/epistaxis/
10 perguntas sobre Epistaxis
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