Disfonia (rouquidão)
Atualizado em 28 de setembro de 2026 · 14 perguntas neste tema
Disfonia é qualquer alteração da qualidade, da altura, da intensidade ou do esforço da voz que prejudica a comunicação ou a qualidade de vida. É um sintoma e não um diagnóstico, e cerca de um terço das pessoas passa por ela ao longo da vida. A grande maioria das causas é benigna: laringite aguda viral, abuso vocal, refluxo laringofaríngeo, lesões benignas da margem da corda vocal (nódulos, pólipo, quisto, edema de Reinke), disfonia por tensão muscular e a voz do envelhecimento.
As causas que não se podem falhar são duas. O carcinoma epidermoide da laringe, ligado ao tabaco e ao álcool, dá rouquidão precoce quando nasce na glote e é então muito curável. A paralisia da corda vocal pode ser o primeiro sinal de um tumor no trajeto do nervo laríngeo recorrente, sobretudo à esquerda, onde o nervo desce ao tórax e contorna o arco aórtico.
A decisão central não é logo o diagnóstico, é se se pode esperar. A recomendação de 2018 da academia americana de otorrinolaringologia manda observar a laringe quando a disfonia não resolve nem melhora em 4 semanas, e logo, seja qual for a duração, quando se suspeita de causa grave: cirurgia recente da cabeça, do pescoço ou do tórax, intubação recente, massa cervical, dificuldade respiratória ou estridor, tabagismo, e o doente que vive da voz. A laringoscopia vem antes da imagem, antes da terapia da fala e antes do corticoide.
O tratamento é o da causa. Não se prescreve antibiótico por rotina, nem corticoide antes de ver a laringe, nem inibidor da bomba de protões só porque a rouquidão pode ser refluxo. A terapia da fala é a base das disfonias funcionais e dos nódulos, a cirurgia é para a suspeita de malignidade, as lesões benignas que não cedem ao tratamento conservador e a insuficiência glótica, e a toxina botulínica é para a disfonia espasmódica. Não há rastreio do cancro da laringe: a deteção precoce faz-se deixando de fumar e não desvalorizando a rouquidão que persiste.
Como nasce a voz
A voz nasce da vibração das cordas vocais quando o ar expirado atravessa a glote fechada. A corda tem camadas: epitélio pavimentoso, lâmina própria (a camada superficial é o espaço de Reinke, laxo, que deixa a mucosa deslizar e formar a onda mucosa) e, por baixo, o ligamento vocal e o músculo vocal. Para haver voz normal é preciso fecho glótico completo, mucosa flexível e massa e tensão simétricas nas duas cordas. Cada causa de disfonia falha num destes três pontos:
- Fuga de ar (paralisia, presbilaringe, lesão que impede o fecho): voz soprada, fraca, que cansa.
- Massa acrescentada ou mucosa rígida (nódulos, pólipo, edema, tumor, cicatriz): vibração irregular e voz áspera; o aumento de massa baixa a frequência e torna a voz mais grave.
- Tensão ou controlo anormais (tensão muscular, disfonia espasmódica): voz forçada, tensa, com quebras.
Toda a musculatura intrínseca da laringe é inervada pelo nervo laríngeo recorrente, exceto o cricotiroideu, que é do ramo externo do laríngeo superior e dá tensão à corda (os agudos). O recorrente direito nasce do vago à frente da artéria subclávia; o esquerdo nasce ao nível do arco da aorta e contorna-o, com um trajeto torácico longo, e é por isso o mais lesado.
As que não se podem falhar
Carcinoma epidermoide da laringe, também chamado espinocelular
- É a histologia dominante do cancro da laringe. O fator principal é o tabaco; o álcool soma-se ao risco e pesa mais na supraglote. Outros: exposição a níquel e a gás mostarda.
- Mais de metade nasce na glote, em fumadores, e dá rouquidão precoce, porque um tumor pequeno na corda já altera a vibração. A glote tem poucos linfáticos e muitos destes tumores não têm metástases ganglionares.
- A supraglote faz cerca de um terço: dá globus, sensação de corpo estranho, voz «de batata quente», odinofagia e otalgia referida, e a rouquidão só aparece quando atinge a corda. Tem drenagem linfática rica e bilateral, e apresenta-se muitas vezes tarde, com adenopatia cervical.
- A subglote é rara e dá rouquidão quando invade a glote ou o recorrente.
- Lesões precursoras: leucoplasia e eritroleucoplasia, que podem esconder displasia; o aspeto nem sempre corresponde à histologia, e por isso se biopsam.
Paralisia da corda vocal
- A esquerda é atingida mais do que a direita, numa proporção de pelo menos 60 para 40, pelo trajeto torácico do nervo.
- Causas: tumor (pulmão, sobretudo o do ápex, esófago, mediastino, tiroide, base do crânio), cirurgia (a tiroidectomia continua a ser a principal causa iatrogénica; também a via anterior da coluna cervical, a endarterectomia carotídea e a cirurgia cardíaca, torácica e esofágica), intubação e casos idiopáticos, alguns atribuídos a vírus. O aneurisma do arco da aorta pode comprimir o recorrente esquerdo (síndrome de Ortner). Causas centrais, como o enfarte bulbar lateral (síndrome de Wallenberg), vêm com outros défices.
- Unilateral: a corda imóvel não fecha a glote, e o doente tem voz soprada e fraca, falta de ar ao falar e engasga-se com líquidos.
- Bilateral: as cordas ficam perto da linha média e o problema passa a ser a via aérea, com estridor e dispneia, por vezes com a voz quase normal.
As causas frequentes
| causa | mecanismo e contexto | pista |
|---|---|---|
| Laringite aguda | inflamação viral, com infeção respiratória alta ou após esforço vocal | autolimitada |
| Refluxo laringofaríngeo | o ácido e a pepsina lesam a laringe posterior, cujo epitélio resiste menos do que o do esófago | rouquidão matinal, pigarro, globus, tosse; muitas vezes sem pirose |
| Nódulos vocais | trauma fonatório repetido (falar alto e muito, gritar, pigarrear); as duas cordas embatem uma na outra no ponto médio da porção membranosa | bilaterais, simétricos, menos de 3 mm; no adulto sobretudo mulheres jovens, na criança sobretudo rapazes |
| Pólipo | trauma fonatório, muitas vezes súbito (um grito); o tabaco contribui | em regra unilateral e maior de 3 mm; mais no homem, fumador, 30 a 50 anos |
| Quisto | glândula mucosa obstruída ou quisto epidermoide dentro da corda | unilateral; a estroboscopia mostra perda local da onda mucosa |
| Edema de Reinke | acumulação de líquido no espaço de Reinke, quase só em fumadores moderados a grandes | difuso, bilateral na maioria; voz grave, que se nota mais na mulher |
| Disfonia por tensão muscular | contração excessiva dos músculos da laringe e do pescoço, sem lesão estrutural | voz forçada, que cansa; laringe estruturalmente normal |
| Granuloma da aritenoide | lesão da mucosa sobre a apófise vocal por intubação, pigarro, tosse ou refluxo | dor e picada na laringe posterior, que pode irradiar ao ouvido |
| Disfonia espasmódica | distonia focal da laringe | forma adutora: voz tensa, estrangulada e entrecortada; a abdutora (cerca de 15%) dá quebras sopradas |
| Presbilaringe | atrofia muscular e rigidez da lâmina própria com a idade | cordas arqueadas; voz fraca e soprada; no homem a voz fica mais aguda |
| Hipotiroidismo | alteração da mucosa e do músculo | voz rouca e grave, fadiga vocal, fala lenta |
A regra temporal
| situação | conduta |
|---|---|
| Sinal de alarme, seja qual for a duração | laringoscopia sem esperar, ou referenciação a quem a faça |
| Disfonia que não resolve nem melhora em 4 semanas | laringoscopia, ou referenciação a quem a faça |
| Disfonia aguda, sem sinais de alarme, com causa evidente (infeção respiratória) | medidas gerais e reavaliação; a laringoscopia pode fazer-se a qualquer momento |
Laringoscopia, o exame que decide
- Laringoscopia indireta com espelho: rápida, na consulta, mas com imagem pequena e breve e má visão da comissura anterior.
- Nasofibrolaringoscopia flexível: o exame prático de primeira linha. Mostra a laringe em fonação e em respiração, a mobilidade das cordas e a via aérea, com menos reflexo de vómito. É a melhor forma de avaliar uma corda paralisada.
- Videolaringoestroboscopia: a luz estroboscópica mostra a onda mucosa, o fecho glótico e a simetria da vibração. É a mais sensível para lesões subtis da margem (quisto pequeno, sulco, cicatriz) e muda o diagnóstico em cerca de 30% dos casos face à luz contínua.
- Laringoscopia direta em suspensão, sob anestesia geral: para biópsia de lesão suspeita (leucoplasia, massa) e para cirurgia das lesões da margem.
A laringoscopia faz-se também antes da terapia da fala, e o resultado segue para o terapeuta: a terapia é dirigida à lesão que se viu.
Imagem, e a ordem que não se inverte
- Não se pede tomografia computorizada (TC) nem ressonância magnética (RM) antes de ver a laringe num doente cuja queixa principal é a voz. Começar pela imagem atrasa o diagnóstico e expõe à radiação sem resolver nada.
- Depois da laringoscopia, a imagem serve para:
- estadiar um tumor (TC ou RM do pescoço, TC do tórax);
- procurar a causa de uma paralisia sem cirurgia que a explique: TC da base do crânio até ao arco da aorta à esquerda, ou até à artéria subclávia à direita; RM se a lesão parecer alta, na base do crânio ou no tronco cerebral.
- Numa paralisia que surge logo a seguir a uma cirurgia de risco (tiroidectomia, por exemplo) não é preciso procurar outra causa.
Outros exames, conforme a suspeita
- Função tiroideia, se houver sintomas de hipotiroidismo.
- Estudo da deglutição (videofluoroscopia), se houver suspeita de aspiração.
- Eletromiografia laríngea, na paralisia, para distinguir de fixação da articulação cricoaritenoideia e ajudar no prognóstico.
- Serologias na paralisia idiopática só com suspeita clínica concreta; por rotina, o rendimento é nulo.
Diagnóstico diferencial das lesões da margem
| lesão | lateralidade | tamanho e aspeto |
|---|---|---|
| Nódulos | bilaterais, simétricos | menos de 3 mm, no ponto médio da porção membranosa |
| Pólipo | habitualmente unilateral | maior de 3 mm, hemorrágico ou gelatinoso |
| Quisto | unilateral | abaulamento amarelado; por vezes só a estroboscopia o sugere |
| Edema de Reinke | difuso, bilateral na maioria | cordas em «saco», cinzentas ou amareladas |
| Leucoplasia, carcinoma | uni ou bilateral | placa branca, lesão irregular ou infiltrativa; biópsia |
Tabaco e álcool
- Deixar de fumar é a medida de maior impacto: o tabaco é o fator principal do carcinoma da laringe e a causa do edema de Reinke, que volta se o doente continuar a fumar. Inclui aconselhamento breve, apoio comportamental e, quando indicado, fármacos de cessação.
- Reduzir o álcool, que soma risco ao do tabaco.
- Evitar fumos, poeiras e ar seco; o fumo passivo também aumenta o risco de cancro da laringe.
Higiene vocal
Previne nódulos, pólipos e disfonia por tensão muscular, e é o conselho que se dá a quase todos:
- hidratação adequada, e evitar os fármacos que secam a mucosa quando houver alternativa;
- não gritar nem falar por cima do ruído; usar amplificação em quem ensina ou fala para grupos;
- evitar pigarrear e a tosse forçada, que traumatizam as cordas;
- repouso vocal relativo durante uma laringite;
- evitar o excesso de cafeína, e as refeições tardias e grandes, que favorecem o refluxo.
No corticoide inalado, lavar a boca depois de inalar e usar câmara expansora reduz o depósito na laringe.
Não há rastreio
Não existe rastreio populacional do cancro da laringe: não há teste para aplicar a pessoas sem sintomas. A deteção precoce faz-se valorizando o sintoma que o tumor glótico dá cedo: a rouquidão que não passa em 4 semanas é observada, e a do fumador não se atribui a laringite sem ver as cordas.
Depois do diagnóstico
- A leucoplasia e a displasia da laringe biopsam-se e vigiam-se.
- No doente tratado por carcinoma da laringe, manter o tabaco e o álcool aumenta o risco de recidiva e de um segundo tumor, pela cancerização de campo das vias aerodigestivas; a cessação continua no seguimento.
- Depois de cirurgia dos nódulos, a terapia da fala previne a recidiva.
Referências
- Stachler RJ, Francis DO, Schwartz SR, Damask CC, Digoy GP, Krouse HJ, et al. Clinical practice guideline: hoarseness (dysphonia) (update). Otolaryngol Head Neck Surg. 2018;158(1 Suppl):S1-42.
- Johnson D. Dysphonia (hoarseness): AAO-HNSF releases updated clinical guideline for treatment. Am Fam Physician. 2018;98(10):606-7.
- Watkinson JC, Clarke RW, editors. Scott-Brown's otorhinolaryngology and head and neck surgery. 8th ed. Boca Raton: CRC Press; 2018. Vol. 1, cap. 3, Epidemiology of head and neck carcinoma; cap. 14, Tumours of the larynx; cap. 26, Benign neoplasms. Vol. 2, cap. 58, Anatomy of the larynx and tracheobronchial tree; cap. 62, Evaluation of the voice; cap. 63, Structural disorders of the vocal cords; cap. 78, Paralysis of the larynx.
- Brunicardi FC, Andersen DK, Billiar TR, Dunn DL, Hunter JG, Kao LS, et al., editors. Schwartz's principles of surgery. 11th ed. New York: McGraw-Hill; 2019. Cap. 38, Thyroid, parathyroid, and adrenal.
14 perguntas sobre Disfonia
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