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Diplopia

Matriz PNA:MD · MecanismosD · Diagnóstico

Atualizado em 28 de setembro de 2026 · 14 perguntas neste tema

Em resumo

Diplopia é ver duas imagens de um só objeto. É um sintoma, e a primeira pergunta faz-se à cabeceira, sem exames: a visão dupla persiste com um olho tapado ou desaparece ao tapar qualquer um deles? A monocular é um problema ótico do próprio olho, como a catarata, o astigmatismo ou o queratocone, e melhora com o estenopeico. A binocular traduz desalinhamento dos eixos visuais e obriga a localizar a lesão: no músculo e na órbita, na junção neuromuscular, nos nervos oculomotores ou no tronco cerebral.

A direção da separação aponta o músculo e o músculo aponta o nervo. A paralisia do III par dá ptose e olho desviado para baixo e para fora, e é a pupila que diz se há urgência: dilatada, é compressão, com o aneurisma da comunicante posterior à cabeça. A do IV par dá diplopia vertical, pior a descer escadas, e inclinação da cabeça para o lado oposto. A do VI par dá esotropia e diplopia horizontal, e pode ser apenas sinal de hipertensão intracraniana. A oftalmoplegia internuclear aponta para o fascículo longitudinal medial, na esclerose múltipla do jovem ou no enfarte do tronco do idoso; a miastenia imita qualquer paralisia, mas flutua, cansa e nunca mexe na pupila; a orbitopatia tiroideia e a fratura do pavimento da órbita limitam o olho por restrição, e não por fraqueza.

A confirmação vem do exame da motilidade, da pálpebra e da pupila, e depois da imagem, que hoje se pede com mais liberalidade do que antes, porque uma parte das paralisias tidas por microvasculares tem outra causa. O tratamento é o da causa, com oclusão ou prismas enquanto se espera a recuperação.

O que não se pode falhar é o III par com midríase, a diplopia súbita com outros sinais do tronco, o VI par com papiledema, a miastenia que começa a atingir a deglutição e a respiração, e a criança com uma fratura em alçapão e reflexo oculocardíaco. E a criança pequena com os olhos desalinhados não se queixa de diplopia: suprime a imagem do olho desviado e o preço é a ambliopia, que se procura por rastreio aos 2 anos.

As que não se podem falhar

situaçãopistaporque urge
Aneurisma da comunicante posteriorIII par com pupila dilatada, muitas vezes com dorpode preceder a rotura e a hemorragia subaracnoideia
Enfarte ou hemorragia do troncodiplopia súbita com vertigem, disartria, ataxia, défice motor ou sensitivojanela de reperfusão
Hipertensão intracranianaVI par, uni ou bilateral, com cefaleia e papiledemacausa estrutural e risco de perda visual
Arterite de células gigantesacima dos 50 anos, cefaleia, claudicação da mandíbula, sintomas sistémicosperda visual por neuropatia ótica isquémica
Miastenia com sintomas bulbaresdisfagia, disfonia, dispneiacrise miasténica
Fratura da órbita com encarceramentotraumatismo, elevação limitada, náuseas e bradicardia ao mover o olhofibrose do músculo; reflexo oculocardíaco
Neuropatia ótica na orbitopatia tiroideiaperda de acuidade, da visão das cores ou do campocegueira

Monocular

  • Astigmatismo não corrigido, catarata, queratocone e irregularidades da superfície da córnea, como o olho seco grave.
  • Subluxação do cristalino, por traumatismo ou por fraqueza da zónula, como na síndrome de Marfan; na homocistinúria o cristalino também se desloca.
  • Doença macular.
  • Se não melhora com o estenopeico e o exame é normal, pensar em causa funcional.

Terceiro par

  • Inerva o reto superior, o reto medial, o reto inferior, o oblíquo inferior e o elevador da pálpebra, e leva as fibras parassimpáticas do esfíncter da íris e do músculo ciliar.
  • A paralisia completa deixa o olho para baixo e para fora, pela ação não contrariada do reto lateral e do oblíquo superior, com ptose. Na forma completa só a abdução fica livre.
  • A pupila explica-se pela anatomia: as fibras parassimpáticas correm à superfície do nervo e são atingidas cedo por uma compressão externa, que dá midríase. A isquemia microvascular da diabetes e da hipertensão lesa o interior do nervo e poupa-as.
  • Pupila envolvida: sobretudo aneurisma, em particular da comunicante posterior; menos vezes tumor, traumatismo, herniação do uncus, lesão do seio cavernoso, apoplexia hipofisária.
  • Pupila poupada: sobretudo isquemia microvascular; raramente lesão do seio cavernoso ou arterite de células gigantes.
  • A regeneração aberrante (pálpebra que sobe ao olhar para baixo ou em adução, pupila que contrai ao olhar para baixo) segue-se a traumatismo ou compressão e nunca à isquemia microvascular. Sem paralisia prévia, faz pensar numa lesão parasselar que cresce devagar, como um aneurisma da carótida ou um meningioma do seio cavernoso.

Quarto par

  • Inerva apenas o oblíquo superior, que deprime o olho em adução e o roda para dentro (intorção).
  • A paralisia dá hipertropia do olho afetado e diplopia vertical ou oblíqua, pior a olhar para baixo e para o lado oposto: a ler e a descer escadas. As imagens podem parecer inclinadas.
  • O doente inclina a cabeça para o ombro oposto, porque assim o olho afetado deixa de precisar da intorção que o músculo já não faz.
  • É o nervo com o trajeto intracraniano mais longo e o único que sai pela face dorsal do tronco. Por isso é o que mais sofre no traumatismo craniano, mesmo ligeiro, e a lesão é muitas vezes bilateral.
  • Causas frequentes: traumatismo, enfarte microvascular, forma congénita descompensada, doença desmielinizante. Raras: tumor, hidrocefalia, aneurisma, arterite de células gigantes.

Sexto par

  • Inerva apenas o reto lateral. A paralisia dá esotropia e diplopia horizontal pior ao longe e a olhar para o lado afetado.
  • Sobe pelo clivus num trajeto longo e é esticado quando a pressão intracraniana sobe: é o falso sinal localizador, que indica pressão elevada e não lesão no território do nervo.
  • No adulto, as causas frequentes são a doença microvascular, o traumatismo e a forma idiopática; menos frequentes a hipertensão intracraniana, a massa do seio cavernoso, a esclerose múltipla, a sarcoidose, a meningite, o pós-punção lombar e a arterite de células gigantes.

Tronco e vias supranucleares

  • Oftalmoplegia internuclear: lesão do fascículo longitudinal medial, que liga o núcleo do VI par ao do III contralateral. No olhar lateral o olho do lado da lesão não aduz e o outro, em abdução, faz nistagmo. A convergência pode estar preservada. Na esclerose múltipla do jovem é em regra bilateral; no enfarte do tronco do idoso é em regra unilateral.
  • Síndrome do um e meio: lesão do fascículo e do centro do olhar horizontal do mesmo lado; o único movimento horizontal que resta é a abdução do olho do lado oposto.
  • Desvio oblíquo (skew): desvio vertical por lesão do tronco ou da fossa posterior, que não corresponde a nenhum nervo; acompanha-se muitas vezes de outros sinais neurológicos.

Junção neuromuscular

  • Na miastenia gravis, anticorpos contra o recetor da acetilcolina, ou contra a MuSK (cinase específica do músculo), reduzem a margem de segurança da transmissão. Com a repetição a transmissão falha: a ptose e a diplopia são flutuantes e fatigáveis, pioram ao fim do dia e melhoram com o repouso e com o frio.
  • Pode imitar a paralisia de qualquer nervo, a oftalmoplegia internuclear ou uma oftalmoplegia completa, mas a pupila é sempre normal: o esfíncter da íris é músculo liso com recetores muscarínicos, e não depende da placa motora nicotínica.
  • O botulismo também dá diplopia e ptose, mas com pupilas dilatadas, paralisia descendente e sinais autonómicos.

Músculo e órbita

  • Orbitopatia tiroideia: linfócitos T e fibroblastos ativados fazem aumentar os músculos extraoculares e a gordura da órbita, e os músculos acabam por fibrosar. A diplopia é por restrição: o músculo espessado não relaxa. Não há ptose; há retração palpebral, atraso da pálpebra no olhar para baixo e muitas vezes exoftalmia. É própria da doença de Graves, embora em cerca de 10% surja sem hipertiroidismo.
  • Fratura do pavimento da órbita: um impacto na órbita, por exemplo de um punho ou de uma bola, sobe a pressão dentro dela e parte o pavimento, que com a parede medial é a que mais vezes cede. O reto inferior ou a gordura em redor ficam presos no traço e a elevação fica limitada.
  • Inflamação idiopática da órbita (dor e exoftalmia) e tumores da órbita.

Passo a passo

  1. Tapar um olho. Monocular segue para o oftalmologista: refração, lâmpada de fenda, fundo.
  2. Binocular: há outros sinais neurológicos? Se sim, é tronco ou base do crânio e pede-se imagem urgente.
  3. Ver a pupila e a pálpebra: midríase aponta III par compressivo; ptose fatigável com pupila normal aponta miastenia; retração palpebral e exoftalmia apontam orbitopatia tiroideia.
  4. Encaixar o padrão num nervo, num músculo ou numa síndrome (tabela abaixo). Se não encaixa em nenhum nervo, pensar em miastenia, doença da órbita ou desvio oblíquo do tronco.
  5. Pedir os exames que a hipótese pede.

Padrões

padrãodesviopioroutros achadosaponta para
III par completoexotropia e hipotropiaem todas as direções exceto a abduçãoptose; pupila dilatada ou poupadaaneurisma ou isquemia
IV parhipertropia do olho afetadoolhar para baixo e para o lado oposto; cabeça inclinada para o lado afetadocabeça inclinada para o lado opostotraumatismo, isquemia, congénito
VI paresotropiaao longe, olhar para o lado afetadopapiledema?isquemia, hipertensão intracraniana
Oftalmoplegia internuclearfalha de adução no olhar lateralolhar para o lado opostonistagmo do olho que abduz; convergência pode ficaresclerose múltipla, enfarte
Miasteniaqualquer um, variávelcom o esforço e ao fim do diaptose fatigável, orbicular fraco, pupila normaljunção neuromuscular
Orbitopatia tiroideiarestrição, sobretudo da elevação e da abduçãoolhar para cima e para foraretração palpebral, exoftalmia, dução forçada positivaGraves
Fratura do pavimentorestrição da elevaçãoolhar para cimatraumatismo, hipostesia infraorbitária, enoftalmia, enfisemaencarceramento

Testes de cabeceira

  • Teste de oclusão e desoclusão e oclusão alternada: mostram e medem o desvio; com prismas quantificam-no.
  • Teste dos três passos para o desvio vertical: (1) que olho está mais alto em posição primária; (2) o desvio aumenta a olhar para a direita ou para a esquerda; (3) aumenta ao inclinar a cabeça para o ombro direito ou esquerdo. No IV par a hipertropia agrava no olhar para o lado oposto e na inclinação da cabeça para o mesmo lado do olho afetado, e é maior a olhar para baixo. Se os três passos não isolam um músculo, pensar em desvio oblíquo do tronco, miastenia ou doença da órbita.
  • Amplitude de fusão vertical com prismas: acima de 6 dioptrias prismáticas sugere IV par congénito descompensado; na paralisia adquirida é de 6 ou menos.
  • Duplo bastão de Maddox: mede a torção; mais de 10 graus somados nos dois olhos sugere paralisia bilateral do IV par.
  • Dução forçada: mover o olho anestesiado com uma pinça. Se não se move, é restrição (orbitopatia, fratura); se move, é fraqueza (nervo, junção).
  • Sacadas de adução lentas do lado da lesão revelam uma oftalmoplegia internuclear discreta com motilidade aparentemente completa.
  • Na miastenia:
    • olhar para cima mantido durante 1 minuto faz a ptose agravar;
    • sinal de Cogan: a pálpebra ptótica sobe num salto ao passar do olhar para baixo para a posição primária;
    • teste do gelo: gelo sobre a pálpebra ptótica durante 2 minutos; uma melhoria da ptose de 2 mm ou mais é positiva;
    • teste do repouso: olhos fechados durante 30 minutos no adulto, ou uma sesta de 1 a 2 horas na criança.

Imagem

A tendência é pedir imagem com mais liberalidade. Num estudo prospetivo de doentes com 50 anos ou mais e uma paralisia isolada do III, IV ou VI par, presumida microvascular, a ressonância e a avaliação encontraram outra causa em 16,5%.

situaçãoexame
III par, qualquer que seja a pupilaimagem imediata para excluir aneurisma e massa: angiografia por TC, a mais sensível para o aneurisma, ou por RM; ressonância com gadolínio para massa ou inflamação. Única exceção possível: pupila completamente poupada com todos os músculos do III par paralisados
III par com pupila dilatada e imagem não claramente negativaangiografia de cateter, acima dos 10 anos; se a imagem for negativa, ponderar punção lombar
IV parRM se houver outros sinais neurológicos, abaixo dos 45 anos sem traumatismo significativo, ou entre os 45 e os 55 sem fatores de risco vascular; TC das órbitas se houver suspeita de doença da órbita
VI parRM abaixo dos 45 anos (e punção lombar se normal), entre os 45 e os 55 sem fatores de risco vascular, com dor intensa ou outros sinais, com cancro conhecido, bilateral ou com papiledema
Qualquer paralisia presumida microvascular que não recupera em 3 meses, ou que ganha sinais novosRM
Oftalmoplegia internuclearRM do tronco
Orbitopatia tiroideiaTC ou RM das órbitas, que mostram os músculos espessados
Fratura do pavimentoTC das órbitas em cortes finos com reconstrução coronal

Análises

  • Suspeita microvascular: pressão arterial, glicemia em jejum e hemoglobina glicada.
  • Acima dos 50 anos com suspeita de arterite de células gigantes: velocidade de sedimentação, proteína C reativa e plaquetas no próprio dia.
  • Miastenia: anticorpos anti-recetor da acetilcolina, positivos em cerca de metade das formas oculares, pelo que um negativo não exclui; anti-MuSK num segundo passo, porque é raro nas formas oculares. A eletromiografia de fibra única é o exame mais sensível. TC do tórax à procura de timoma nos anti-recetor positivos, e função tiroideia em todos.
  • Orbitopatia: TSH, T4 livre e anticorpos anti-recetor da TSH.
Diplopia: monocular ou binocular, e os pares cranianos Primeira decisão, à cabeceira: tapar um olho de cada vez. A visão dupla persiste ou desaparece? Monocular Persiste com o outro olho tapado Causa ótica do próprio olho; melhora com estenopeico Catarata, astigmatismo, queratocone, subluxação Não é neurológica Binocular Desaparece ao tapar qualquer um dos olhos Desalinhamento dos eixos visuais Músculo, junção, nervo ou tronco cerebral É a que obriga a localizar a lesão Binocular, por par craniano Par Achados que o identificam III oculomotor Ptose, olho desviado para baixo e para fora, diplopia Midríase: compressão, aneurisma da comunicante posterior Emergência: angio-TC ou angio-RM imediata Pupila poupada: sugere isquemia microvascular, e faz-se imagem IV troclear Diplopia vertical; agrava a olhar para baixo, a descer escadas Cabeça inclinada para o lado oposto ao olho afetado VI abducente Esotropia e diplopia horizontal, pior ao longe e na abdução Falso sinal localizador de hipertensão intracraniana Por doença Miastenia gravis Diplopia e ptose flutuantes e fatigáveis Pupila sempre normal; pior ao fim do dia Orbitopatia tiroideia Restrição por músculo espessado, sem ptose Retração palpebral e exoftalmia associadas Fratura do pavimento da órbita Traumatismo; elevação do olho limitada Encarceramento do reto inferior Enfarte do tronco ou esclerose múltipla Início súbito, outros sinais neurológicos Oftalmoplegia internuclear A pupila no III par Dilatada: compressão até prova em contrário, com aneurisma à cabeça; é emergência Poupada: isquemia microvascular provável (diabetes, hipertensão arterial) A dor não separa isquemia de compressão; a imagem faz-se em todo o III par de novo.

Referências

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