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Hérnias

Matriz PNA:MD · MecanismosD · DiagnósticoGD · Gestão

Atualizado em 17 de julho de 2026 · 15 perguntas neste tema

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Em resumo

As hérnias da parede abdominal representam a protrusão de conteúdo intra-abdominal através de um defeito da parede, sendo a hérnia inguinal a mais frequente e uma das indicações cirúrgicas mais comuns em todo o mundo. O objetivo de estudo é distinguir os tipos anatómicos (sobretudo inguinal indireta vs direta e femoral), reconhecer precocemente o encarceramento e o estrangulamento e conhecer os princípios da reparação com rede. A femoral, apesar de menos comum, merece atenção especial pelo elevado risco de estrangulamento.

A anatomia do canal inguinal é a chave. O canal estende-se do anel inguinal profundo (interno) ao anel inguinal superficial (externo) e contém o cordão espermático no homem (ou o ligamento redondo na mulher). O triângulo de Hesselbach define a parede posterior e é limitado pelos vasos epigástricos inferiores (lateralmente), pela borda lateral do músculo reto abdominal (medialmente) e pelo ligamento inguinal (inferiormente).

Hérnia inguinal indireta

  • Emerge pelo anel inguinal interno, lateral aos vasos epigástricos inferiores.
  • Mecanismo congénito: persistência do conduto peritoneovaginal, pelo que segue o trajeto do cordão e pode descer até ao escroto.
  • É o tipo mais comum em ambos os sexos e em todas as idades.

Hérnia inguinal direta

  • Protrui diretamente pela parede posterior enfraquecida (fáscia transversalis), no triângulo de Hesselbach, medial aos vasos epigástricos.
  • Mecanismo adquirido, por enfraquecimento da parede; raramente desce ao escroto.

Hérnia femoral

  • Passa pelo canal femoral, abaixo do ligamento inguinal e medial à veia femoral.
  • O colo é estreito e rígido (limitado medialmente pelo ligamento lacunar), o que explica a maior propensão a encarceramento e estrangulamento.

Fisiopatologia do estrangulamento

A sequência progride de forma previsível: o conteúdo fica encarcerado no colo, ocorre compromisso do retorno venoso com edema, que agrava a compressão, evoluindo para compromisso arterial, isquemia, necrose e eventual perfuração. Uma variante importante é a hérnia de Richter, em que apenas parte da circunferência antimesentérica da ansa fica presa, podendo estrangular sem obstrução intestinal completa.

A nível tecidular, o desequilíbrio entre síntese e degradação do colagénio (atividade aumentada de metaloproteinases, alteração da razão colagénio tipo I/III) contribui para a fraqueza da parede, sobretudo nas hérnias diretas e recorrentes.

O diagnóstico é predominantemente clínico. A queixa típica é uma tumefação na região inguinal ou na parede abdominal, que surge ou aumenta com o esforço e a manobra de Valsalva e reduz em decúbito. O exame deve fazer-se com o doente de pé e deitado, avaliando a redutibilidade, a expansibilidade à tosse e a eventual descida escrotal (sugestiva de indireta).

Inguinal vs femoral (distinção de alto rendimento):

  • A hérnia inguinal localiza-se acima e medial ao tubérculo púbico.
  • A hérnia femoral localiza-se abaixo e lateral ao tubérculo púbico.

A distinção clínica entre indireta e direta é pouco fiável e sem grande impacto na decisão terapêutica, uma vez que a reparação é semelhante.

Sinais de alarme (encarceramento/estrangulamento):

  • Dor intensa e persistente sobre a tumefação.
  • Irredutibilidade de novo.
  • Sinais inflamatórios locais (eritema, calor, edema).
  • Sinais de obstrução intestinal: vómitos, distensão abdominal, paragem de emissão de gases e fezes.

Estes achados tornam muito provável o estrangulamento e impõem avaliação cirúrgica emergente.

Diagnóstico diferencial: adenopatia inguinal, lipoma, hidrocelo, varicocelo, aneurisma da artéria femoral, abcesso, testículo ectópico.

Imagem (reservada para dúvida diagnóstica, não é rotina):

  • Ecografia dinâmica (com Valsalva): primeira linha na dúvida clínica e na suspeita de hérnia oculta.
  • TC abdominopélvica: útil em doentes obesos, hérnias recorrentes ou complexas, e na suspeita de complicação (obstrução, estrangulamento).
  • RM: alternativa em casos selecionados, incluindo dor inguinal crónica sem massa evidente.

A classificação anatómica da European Hernia Society (EHS) é útil para padronizar o registo (tipo lateral/medial/femoral e dimensão do orifício).

Hérnias da parede abdominal Tipos anatómicos, escada de complicações e princípios de reparação 1 · Hérnias inguinais e femoral — a distinção pelos vasos epigástricos inferiores LATERAL Vasos epigástricos inferiores MEDIAL INDIRETA Anel inguinal interno · LATERAL aos vasos Congénita (conduto peritoneovaginal) Segue o cordão, pode descer ao escroto DIRETA Triângulo de Hesselbach · MEDIAL aos vasos Adquirida (fáscia transversalis fraca) Raramente desce ao escroto LIGAMENTO INGUINAL FEMORAL — abaixo do ligamento inguinal, medial à veia femoral (mais na mulher) Colo estreito e rígido → ALTO risco de encarceramento e estrangulamento 2 · Outras hérnias da parede abdominal Umbilical Anel umbilical; ligada a ascite/obesidade. Rede 2020 Epigástrica Linha alba, acima do umbigo (linha média). Incisional Através de cicatriz cirúrgica prévia. 3 · Escada das complicações: redutível → encarcerada → estrangulada REDUTÍVEL Conteúdo regressa à cavidade (espontânea ou por manobra). ENCARCERADA Irredutível, sem compromisso vascular obrigatório. ESTRANGULADA Compromisso vascular: isquemia → necrose, perfuração. EMERGÊNCIA cirúrgica ! Sinais de estrangulamento — dor intensa e persistente, irredutibilidade de novo, eritema e edema locais, e sinais de obstrução intestinal (vómitos, distensão, paragem de gases e fezes). Avaliação cirúrgica urgente. 4 · Princípios de reparação e quando operar Reparação SEM TENSÃO com rede/malha — padrão atual; reduz a taxa de recorrência. • Inguinal pouco sintomática no homem: vigilância ativa é aceitável (HerniaSurge 2018/2023). • Femoral: reparar SEMPRE, mesmo assintomática, pelo risco de estrangulamento — tem prioridade. • Lichtenstein (aberta) ou endolaparoscópica (TEP/TAPP; preferida nas bilaterais e recorrentes). • Estrangulada: cirurgia emergente, ressecar se necrose; evitar rede sintética em campo contaminado. • Criança: herniotomia com laqueação alta do saco, SEM rede.

O tratamento definitivo é cirúrgico. O princípio moderno é a reparação sem tensão (tension-free) com rede/malha, que reduz a taxa de recorrência face às técnicas de sutura simples.

Quando operar

  • Hérnia inguinal minimamente sintomática no homem: a vigilância ativa (watchful waiting) é uma opção aceitável segundo as guidelines internacionais HerniaSurge (2018, atualizadas em 2023), embora uma proporção elevada acabe por necessitar de cirurgia por surgimento de sintomas ao longo do tempo.
  • Hérnia sintomática: reparação eletiva.
  • Hérnia femoral: recomenda-se reparar sempre, mesmo quando assintomática, pelo elevado risco de estrangulamento; deve ter prioridade.
  • Estrangulamento/encarceramento com compromisso: cirurgia emergente.

Técnicas na hérnia inguinal

  • Lichtenstein (abordagem anterior aberta com rede): técnica de referência, exequível sob anestesia local.
  • Endolaparoscópica: TEP (totalmente extraperitoneal) e TAPP (transabdominal pré-peritoneal), com menor dor pós-operatória e retorno mais rápido à atividade; preferida nas hérnias bilaterais e nas recorrentes após abordagem anterior.

A escolha entre aberta e laparoscópica depende da experiência do cirurgião e das características do doente. A hérnia femoral repara-se habitualmente com rede por via pré-peritoneal.

Umbilical e epigástrica

As guidelines da European Hernia Society e Americas Hernia Society (2020) recomendam reparação com rede para reduzir a recorrência, mesmo em defeitos relativamente pequenos, com colocação preferencial pré-peritoneal (sublay).

Cirurgia urgente por estrangulamento

Redução e avaliação da viabilidade do conteúdo; ressecção intestinal se necrose. Em campo contaminado deve ponderar-se a reparação sem rede sintética (ou uso de material biológico), pelo risco de infeção da prótese.

A analgesia adequada, a mobilização precoce e a correção de fatores de risco (cessação tabágica, controlo da tosse e da obstipação) completam a abordagem.

Referências

  1. HerniaSurge Group. International guidelines for groin hernia management. Hernia. 2018;22(1):1-165.
  2. Stabilini C, van Veenendaal N, Aasvang EK, et al. Update of the international HerniaSurge guidelines for groin hernia management. BJS Open. 2023;7(5):zrad080.
  3. Henriksen NA, Montgomery A, Kaufmann R, et al. Guidelines for treatment of umbilical and epigastric hernias from the European Hernia Society and Americas Hernia Society. Br J Surg. 2020;107(3):171-190.
  4. Townsend CM, Beauchamp RD, Evers BM, Mattox KL. Sabiston Textbook of Surgery. 21st ed. Philadelphia: Elsevier; 2022.
  5. Brunicardi FC, Andersen DK, Billiar TR, et al. Schwartz's Principles of Surgery. 11th ed. New York: McGraw-Hill; 2019.

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