Músculo-esqueléticaArtropatias degenerativas e mecânicasPublicado (Premium)

Artropatias degenerativas e mecânicas

Matriz PNA:D · DiagnósticoGD · Gestão

Atualizado em 17 de julho de 2026 · 15 perguntas neste tema

Fazer perguntas deste tema
Em resumo

A osteoartrose é a artropatia mais frequente e a principal causa de dor articular crónica e incapacidade no adulto, sobretudo a partir da meia-idade. Resulta de uma falência do processo de reparação da cartilagem articular, com envolvimento de todo o órgão articular (osso subcondral, sinovial, ligamentos e musculatura periarticular). Este capítulo foca o padrão degenerativo/mecânico: como distingui-lo da doença inflamatória e como estruturar a abordagem, do exercício à artroplastia.

O diagnóstico da osteoartrose é essencialmente clínico, apoiado na radiografia quando necessário. Segundo a orientação da NICE (NG226, 2022), pode fazer-se um diagnóstico clínico sem exames de imagem em pessoas com mais de 45 anos, com dor articular relacionada com a atividade e rigidez matinal ausente ou inferior a 30 minutos. Nesse contexto, a radiografia não é obrigatória para confirmar.

Anamnese e exame objetivo:

  • Dor de padrão mecânico, agravada pela carga; nas fases avançadas pode surgir dor em repouso e noturna.
  • Crepitação à mobilização, limitação da amplitude, dor à palpação da interlinha e dor no fim do arco de movimento.
  • Tumefação óssea dura (osteófitos, nódulos), por oposição à tumefação mole e quente da sinovite inflamatória.
  • Podem ocorrer derrames articulares ligeiros e episódios de agudização, mas sem sinais inflamatórios sistémicos marcados.
  • Avaliar alinhamento (varo/valgo no joelho), marcha, força e atrofia muscular periarticular (ex.: quadricípite).

Radiografia simples (idealmente em carga nos membros inferiores) mostra os quatro sinais cardinais:

  • Redução assimétrica do espaço articular (perda focal de cartilagem no compartimento sobrecarregado, ao contrário da redução simétrica/concêntrica típica da artrite inflamatória).
  • Osteófitos marginais.
  • Esclerose do osso subcondral.
  • Quistos (geodes) subcondrais. A gravidade radiográfica costuma graduar-se pela classificação de Kellgren-Lawrence. Nota importante: a correlação clínico-radiográfica é fraca, pelo que alterações radiográficas marcadas podem coexistir com pouca dor e vice-versa.

Análises servem sobretudo para excluir diagnósticos alternativos: na OA, VS e PCR são normais ou apenas ligeiramente elevadas, e o fator reumatoide e os anticorpos anti-CCP são negativos (a positividade sugere artrite reumatoide). A artrocentese está indicada perante monoartrite aguda ou derrame para excluir artrite séptica ou artropatia por cristais (gota, condrocalcinose): na OA o líquido sinovial é não inflamatório (leucócitos tipicamente <2000/mm3). Elevação franca de reagentes de fase aguda ou rigidez matinal prolongada torna a OA improvável e obriga a reconsiderar doença inflamatória.

Osteoartrose vs artrite reumatoide Padrão degenerativo/mecânico contra padrão inflamatório — como distinguir. Característica Osteoartrose (OA) Artrite reumatoide (AR) Tipo de dor Mecânica: agrava com o uso Inflamatória: repouso/noturna Rigidez matinal Breve (<30 min) Prolongada (>60 min) Inflamação sistémica Ausente Presente (febre, astenia) Mão (articulações) IFD-Heberden, IFP-Bouchard MCF e IFP; poupa as IFD Padrão radiográfico Assimétrico, de carga Simétrico, erosivo VS / PCR Normais Elevadas FR / anti-CCP Negativos Positivos Líquido sinovial Não inflamatório Inflamatório Radiografia da OA — 4 sinais 1. Redução assimétrica do espaço 2. Osteófitos marginais 3. Esclerose do osso subcondral 4. Quistos (geodes) subcondrais Correlação clínico-radiográfica fraca. Abordagem escalonada Base: exercício + perda de peso AINE tópico (1ª escolha) AINE oral (dose mínima eficaz) Infiltração intra-articular Artroplastia (prótese) na doença avançada

A abordagem é multimodal, escalonada e personalizada, combinando medidas não farmacológicas (base do tratamento), farmacológicas e, na doença avançada, cirurgia. As orientações ACR/Arthritis Foundation 2019, OARSI 2019 e NICE NG226 (2022) convergem em colocar as intervenções não farmacológicas em primeira linha.

1. Medidas não farmacológicas (pilar de base):

  • Educação e autogestão da doença.
  • Exercício terapêutico (fortalecimento, aeróbio e amplitude), fortemente recomendado e transversal a todas as guidelines: melhora dor e função. É a intervenção com melhor relação benefício-risco.
  • Perda ponderal no excesso de peso/obesidade, sobretudo na OA do joelho e da anca: reduz carga e sintomas.
  • Fisioterapia, dispositivos de apoio (bengala/canadiana no lado contralateral), calçado adequado, e adaptação de atividades. Ortóteses e apoios para a rizartrose.

2. Terapêutica farmacológica (adjuvante, na dose eficaz mais baixa e pelo menor tempo):

  • AINE tópicos: primeira escolha farmacológica na OA do joelho e da mão, pelo perfil de segurança favorável.
  • AINE orais: eficazes na dor e rigidez, mas ponderar risco gastrintestinal, cardiovascular e renal; usar com gastroproteção quando indicado e evitar em doentes de alto risco. A NICE posiciona os AINE (preferencialmente tópicos) como opção central, sendo conservadora com o paracetamol (eficácia limitada, papel adjuvante).
  • Infiltrações intra-articulares de corticoide: úteis em agudizações com componente sintomático marcado, com alívio de curta duração; não alteram a progressão. O ácido hialurónico intra-articular tem benefício incerto e recomendações divergentes.
  • Duloxetina pode ter papel em dor crónica, sobretudo com componente de dor difusa. Os opioides devem ser evitados (benefício marginal, risco elevado).

3. Tratamento cirúrgico: Reservado para doença avançada e incapacitante, com dor refratária às medidas conservadoras e impacto funcional/qualidade de vida. A artroplastia (prótese) total da anca e do joelho é o procedimento definitivo, com excelentes resultados na dor e função. A referenciação deve basear-se nos sintomas e na incapacidade, e não apenas no grau radiográfico. A osteotomia pode ter lugar em doentes jovens com OA unicompartimental e desalinhamento. A artroscopia com lavagem/desbridamento não está recomendada como tratamento da OA do joelho.

Referências

  1. Kolasinski SL, Neogi T, Hochberg MC, et al. 2019 American College of Rheumatology/Arthritis Foundation Guideline for the Management of Osteoarthritis of the Hand, Hip, and Knee. Arthritis Rheumatol. 2020;72(2):220-233.
  2. Bannuru RR, Osani MC, Vaysbrot EE, et al. OARSI guidelines for the non-surgical management of knee, hip, and polyarticular osteoarthritis. Osteoarthritis Cartilage. 2019;27(11):1578-1589.
  3. National Institute for Health and Care Excellence. Osteoarthritis in over 16s: diagnosis and management. NICE guideline NG226. London: NICE; 2022.
  4. Kloppenburg M, Kroon FP, Blanco FJ, et al. 2018 update of the EULAR recommendations for the management of hand osteoarthritis. Ann Rheum Dis. 2019;78(1):16-24.
  5. Hunter DJ, Bierma-Zeinstra S. Osteoarthritis. Lancet. 2019;393(10182):1745-1759.
  6. Loeser RF, Goldring SR, Scanzello CR, Goldring MB. Osteoarthritis: a disease of the joint as an organ. Arthritis Rheum. 2012;64(6):1697-1707.

15 perguntas sobre Artropatias degenerativas e mecânicas

Ler consolida, treinar é o que fixa. Cada pergunta tem justificação alínea a alínea, no formato da Prova Nacional de Acesso.

Criar conta e treinar