GenitourináriaNeoplasias do rim, urotélio, bexiga, próstata e testículoPublicado (Premium)

Neoplasias do rim, urotélio, bexiga, próstata e testículo

Matriz PNA:MD · MecanismosD · DiagnósticoP · Prevenção

Atualizado em 18 de julho de 2026 · 21 perguntas neste tema

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Em resumo

Os tumores urológicos representam uma fatia enorme da atividade cirúrgica em Portugal e, no PNA, são testados sobretudo pela decisão operatória: que doente se opera, com que extensão e quando se vigia em vez de intervir. Este capítulo assume a perspetiva do urologista e percorre tumor a tumor o caminho que vai da apresentação clínica ao gesto cirúrgico. A epidemiologia detalhada, o estadiamento TNM e a terapêutica sistémica são tratados nos capítulos de oncologia médica.

Rim. O CCR de células claras deriva do túbulo contornado proximal e está ancorado na perda do gene supressor VHL (mutação somática, hipermetilação ou, na doença hereditária, mutação germinativa). Sem VHL funcional, o HIF-1α/HIF-2α escapa à degradação e acumula-se mesmo em normoxia, ativando transcricionalmente o VEGF, o PDGF e a anidrase carbónica IX. Daí três consequências examináveis: a hipervascularização que explica o realce arterial intenso na TC com contraste e o risco hemorrágico intraoperatório, a sensibilidade aos antiangiogénicos e a produção ectópica de hormonas (eritropoietina, PTHrP, renina) responsável pelas síndromes paraneoplásicas. A propensão para invadir a veia renal e a veia cava inferior sob a forma de trombo tumoral é uma característica quase idiossincrática deste tumor e condiciona diretamente o planeamento cirúrgico.

Urotélio. O modelo aceite é de duas vias moleculares divergentes. A via de baixo grau, dominada por mutações ativadoras de FGFR3 e do promotor de TERT, gera tumores papilares Ta que recidivam com muita frequência mas raramente progridem. A via de alto grau, com alterações de TP53 e RB1, gera carcinoma in situ e lesões T1 de alto grau que progridem para invasão do detrusor. Estas vias explicam o fenómeno do defeito de campo: todo o urotélio exposto aos carcinogéneos urinários está alterado, o que fundamenta a multifocalidade, a recidiva metacrónica e a necessidade de vigilância prolongada, vitalícia no alto risco. As aminas aromáticas e os produtos do fumo do tabaco são excretados na urina e concentrados na bexiga, onde o tempo de contacto com o urotélio é maior, o que ajuda a compreender por que a bexiga é o local preferencial.

Próstata. A fusão TMPRSS2-ERG, regulada por androgénios, é o evento genómico mais comum. A dependência do eixo androgénico para proliferação é a base de toda a terapêutica hormonal. O tumor cresce tipicamente na zona periférica, longe da uretra, o que explica por que é habitualmente assintomático enquanto localizado: a sintomatologia obstrutiva vem quase sempre da hiperplasia benigna concomitante, não do cancro.

Testículo. Quase todos os tumores germinativos pós-pubertários derivam da neoplasia germinativa in situ, com o ganho do isocromossoma 12p como marca citogenética. A drenagem linfática segue o trajeto embriológico do testículo até aos gânglios retroperitoneais para-aórticos, não aos inguinais. É esta a razão anatómica pela qual a via inguinal é obrigatória e a via escrotal é proibida: violar o escroto contamina um território linfático diferente.

Rim. Perante uma massa renal sólida, a TC abdominopélvica com contraste em quatro fases (sem contraste, corticomedular, nefrográfica e excretora) é o exame decisivo: quantifica o realce, avalia a gordura perirrenal, a veia renal e a cava, e caracteriza o rim contralateral. A RM é alternativa na insuficiência renal ou na dúvida sobre trombo venoso. Os quistos complexos classificam-se por Bosniak, sendo as categorias III e IV as que suscitam intervenção. A biopsia percutânea não é obrigatória antes de nefrectomia com imagem típica, mas está indicada antes de vigilância ativa, antes de ablação térmica e quando se suspeita de linfoma ou metástase. Não existe marcador sérico útil.

Urotélio e bexiga. A apresentação-chave é a hematúria macroscópica indolor e intermitente, que obriga sempre a investigação completa no adulto, mesmo que resolva espontaneamente. O trio diagnóstico é cistoscopia, citologia urinária (sensível para lesões de alto grau e CIS, pouco sensível para baixo grau) e uro-TC para excluir doença do trato superior. Confirmada a lesão, a RTU-V é simultaneamente diagnóstica, de estadiamento e terapêutica. Dois pontos determinam a qualidade do ato: a peça tem de conter músculo detrusor para permitir afirmar ausência de invasão, e a ressecção deve ser completa. Se faltar detrusor (exceto em TaG1/baixo grau e no CIS primário), se a ressecção for incompleta ou perante T1, impõe-se segunda RTU-V em 2 a 6 semanas. A cistoscopia com luz azul aumenta a deteção de CIS.

Próstata. A avaliação parte do PSA e do toque retal. Antes de biopsar, a RM multiparamétrica é hoje o passo padrão: se PI-RADS ≥3 combina-se biopsia dirigida e sistemática; se a RM for negativa e a suspeita clínica baixa (por exemplo densidade de PSA reduzida), pode omitir-se a biopsia por decisão partilhada. A via transperineal é preferida à transretal pelo menor risco infecioso. O resultado traduz-se em grau ISUP e em grupo de risco, que com a idade e a esperança de vida orientam entre vigilância ativa, prostatectomia radical e radioterapia.

Testículo. Massa indolor, dura, que não transilumina. A ecografia escrotal com sonda de alta frequência confirma. Os marcadores AFP, beta-hCG e LDH colhem-se antes e depois da orquidectomia, para estadiamento e cinética. AFP elevada exclui seminoma puro. O diagnóstico é feito pela orquidectomia radical inguinal com laqueação alta do cordão; biopsia escrotal ou orquidectomia transescrotal são erros a evitar.

Ângulo urológico: da apresentação ao gesto cirúrgico Quatro neoplasias genitourinárias lado a lado: o que remover, quanto remover e quando apenas vigiar. Tumor RIM UROTÉLIO / BEXIGA PRÓSTATA TESTÍCULO Apresen- tação Frequentemente incidentaloma em TC ou ecografia Hematúria INDOLOR, macroscópica e intermitente Assintomático quando localizado; nódulo ao toque retal Massa dura, INDOLOR, que não transilumina Homem 15-40 anos Diagnós- tico TC com contraste, 4 fases (realce) Quistos complexos: Bosniak III e IV Biopsia antes de vigilância/ablação Cistoscopia + citologia + uro-TC RTU-V: diagnóstica, estadiamento e terapêutica Peça com detrusor PSA em decisão PARTILHADA RM multiparamétrica ANTES da biopsia PI-RADS 3 ou mais: dirigida e sistemática Ecografia escrotal Marcadores AFP, beta-hCG e LDH antes e depois da cirurgia AFP elevada exclui seminoma puro Decisão cirúrgica cT1: nefrectomia PARCIAL (poupar nefrónios) Radical: tumor grande ou central Vigilância ativa no idoso frágil Não-músculo-invasivo: BCG intravesical no alto risco + vigilância cistoscópica seriada Músculo-invasivo: cistectomia radical Vigilância ativa no baixo risco Prostatectomia radical ou radioterapia Decidem: risco, idade, continência e potência ORQUIDECTOMIA RADICAL INGUINAL NUNCA transescrotal Criopreservação de esperma antes do tratamento ! Erros que decidem a pergunta Hematúria macroscópica indolor no adulto obriga a investigação completa, mesmo que resolva espontaneamente. Sem músculo detrusor na peça de RTU-V o estadiamento é insuficiente: impõe-se segunda RTU-V em 2 a 6 semanas. Não instilar BCG nas 2 semanas após RTU-V, nem com algaliação traumática, hematúria macroscópica ou ITU sintomática.

Não existe rastreio populacional organizado para o cancro do rim, da bexiga ou do testículo. A prevenção nestes três tumores é essencialmente primária e assenta na modificação de exposições.

Cessação tabágica é a medida isolada com maior impacto. O tabaco é o principal fator de risco modificável tanto do carcinoma urotelial (responsável por cerca de metade dos casos em homens) como do carcinoma de células renais. O risco decresce progressivamente após a cessação, embora não regresse ao do não fumador durante muitos anos, o que reforça a importância de aconselhar a paragem mesmo em doentes já tratados: continuar a fumar após uma RTU-V associa-se a mais recidivas. A exposição ocupacional a aminas aromáticas (indústria de corantes, borracha, couro, pintura, alumínio) justifica vigilância clínica em trabalhadores expostos e valorização de qualquer hematúria. Outros alvos modificáveis do CCR são a obesidade, a hipertensão arterial e a doença renal crónica terminal com quistos adquiridos, que exige vigilância imagiológica própria.

Testículo. O autoexame testicular é aconselhado a homens jovens, sobretudo com fatores de risco, como método de deteção precoce; não existe evidência de que um programa formal de rastreio reduza mortalidade, até porque a doença já tem prognóstico muito favorável. O fator de risco melhor estabelecido é a criptorquidia: a orquidopexia realizada precocemente na infância reduz o risco e, sobretudo, torna a gónada palpável e vigiável. Antecedentes de tumor contralateral, atrofia testicular e história familiar aumentam o risco.

Próstata. O rastreio é o único com discussão formal e obedece à lógica da decisão partilhada e informada. As guidelines EAU 2026 desaconselham o doseamento sistemático de PSA não informado e recomendam uma estratégia adaptada ao risco individual, oferecida a homens com esperança de vida de pelo menos 15 anos, tipicamente a partir dos 50 anos; aos 45 anos em homens com história familiar ou ascendência africana; e a partir dos 40 anos nos portadores de variantes patogénicas de BRCA2. A conversa tem de incluir o benefício em mortalidade específica e os danos: falsos positivos, complicações da biopsia e, sobretudo, sobrediagnóstico e sobretratamento de tumores indolentes. A Recomendação do Conselho da União Europeia de 2022 alargou o âmbito do rastreio oncológico à próstata, propondo aos Estados-Membros que avaliem programas por etapas, baseados em PSA seguido de RM, o que representa uma mudança de paradigma face à posição anterior.

Referências

  1. Bex A, Abu-Ghanem Y, Albiges L, et al. European Association of Urology Guidelines on Renal Cell Carcinoma: The 2025 Update. Eur Urol. 2025;87(6):683-696. Edição vigente: EAU Guidelines on Renal Cell Carcinoma. Arnhem: EAU Guidelines Office; 2026.
  2. Gontero P, Birtle A, Capoun O, et al. EAU Guidelines on Non-muscle-invasive Bladder Cancer (TaT1 and Carcinoma in Situ). Arnhem: EAU Guidelines Office; 2026.
  3. Alfred Witjes J, Bruins HM, Carrión A, et al. EAU-EANM-ESTRO-ESUR-ISUP-SIOG Guidelines on Muscle-invasive and Metastatic Bladder Cancer. Arnhem: EAU Guidelines Office; 2026.
  4. Cornford P, van den Bergh RCN, Briers E, et al. EAU-EANM-ESTRO-ESUR-ISUP-SIOG Guidelines on Prostate Cancer. Arnhem: EAU Guidelines Office; 2026.
  5. Patrikidou A, Cazzaniga W, Berney D, et al. European Association of Urology Guidelines on Testicular Cancer: Summary of the 2026 Guidelines. Eur Urol. 2026 (publicação online 27 de abril de 2026). PMID 42049597.
  6. Rouprêt M, Seisen T, Birtle AJ, et al. EAU Guidelines on Upper Urinary Tract Urothelial Carcinoma. Arnhem: EAU Guidelines Office; 2026.
  7. Council Recommendation of 9 December 2022 on strengthening prevention through early detection: a new EU approach on cancer screening. Official Journal of the European Union, C 473, 13.12.2022.
  8. Motzer RJ, Jonasch E, Agarwal N, et al. NCCN Clinical Practice Guidelines in Oncology: Kidney Cancer. Version 1.2026. National Comprehensive Cancer Network; 2026. Acedido em 18 de julho de 2026.

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