Emergências urológicas
Atualizado em 29 de setembro de 2026 · 20 perguntas neste tema
As emergências urológicas partilham uma janela de tempo curta, para lá da qual se perde um órgão, a função sexual ou a vida. Agrupam-se por mecanismo: isquemia de órgão (torção testicular, priapismo isquémico, parafimose), infeção necrosante ou sob pressão (gangrena de Fournier e obstrução urinária infetada), obstrução aguda (retenção urinária) e traumatismo.
A torção testicular atinge sobretudo o recém-nascido e o adolescente e apresenta-se como dor escrotal súbita, com testículo alto e horizontalizado e reflexo cremastérico ausente. O diagnóstico é clínico, a janela crítica é de 4 a 6 horas e um quadro típico vai ao bloco sem esperar pelo eco-Doppler, que tem falsos negativos. A torção do apêndice testicular e a epididimite, de instalação mais lenta, são os diferenciais principais.
O priapismo isquémico é uma ereção dolorosa de mais de 4 horas, com glande mole, e funciona como uma síndrome compartimental dos corpos cavernosos: confirma-se pela gasometria do sangue cavernoso e trata-se por aspiração e fenilefrina intracavernosa, com shunt se falharem. A parafimose reduz-se à mão depois de comprimir o edema.
Na gangrena de Fournier a necrose fascial ultrapassa muito a pele e a dor é desproporcionada; o diagnóstico é clínico e o tratamento junta antibiótico de largo espetro e desbridamento nas primeiras 24 horas. Na infeção a montante de um cálculo, o antibiótico não chega ao rim sem drenagem por duplo J ou nefrostomia.
A retenção urinária aguda, quase sempre por hiperplasia da próstata, resolve-se com algaliação, e depois vigia-se a diurese pós-obstrutiva e procura-se causa neurológica. O que não se pode falhar é a torção tomada por epididimite, o Fournier tomado por celulite e a sépsis obstrutiva tratada só com antibiótico.
- Torção testicular: rotação do cordão espermático que interrompe a irrigação do testículo e do epidídimo. É a causa de escroto agudo que não se pode falhar.
- Distribuição bimodal: período neonatal e puberdade, embora possa surgir noutras idades.
- Fatores de risco: deformidade em badalo de sino (fixação deficiente do testículo à parede escrotal), testículo não descido e tumor testicular.
- O escroto agudo tem três causas principais: torção testicular, torção do apêndice testicular (que ocorre numa faixa etária mais larga) e epididimite, esta com dois picos na criança, abaixo de 1 ano e entre os 12 e os 15 anos.
Torção
- A rotação do cordão oclui primeiro o retorno venoso e depois o fluxo arterial: congestão, edema e enfarte hemorrágico.
- Intravaginal no adolescente: o cordão roda dentro da túnica vaginal, que se insere alto e deixa o testículo pendente (badalo de sino).
- Extravaginal no recém-nascido: rodam em conjunto o cordão e a túnica vaginal, antes de esta aderir ao escroto.
- O defeito anatómico está presente do outro lado na maioria dos doentes: é por isso que se fixam os dois testículos.
Tempo e grau de torção
- A necrose depende do tempo, com uma janela crítica de cerca de 4 a 6 horas.
- O grau de rotação também conta: com rotação acima de 360° há atrofia grave com apenas 4 horas; na torção incompleta (180 a 360°) com sintomas até 12 horas não se descreveu atrofia; com rotação acima de 360° e mais de 24 horas, o testículo estava ausente ou atrófico em todos os casos.
Sinais clínicos
- O reflexo cremastérico (arco L1-L2) perde-se na torção: a ausência tem sensibilidade de 100% e especificidade de 66%.
- O testículo sobe e horizontaliza porque o cordão torcido encurta.
Torção do apêndice testicular
- Necrose de um remanescente embrionário milimétrico no polo superior. Não compromete a irrigação do testículo e a evolução é benigna.
Epididimite
- No adolescente e no adulto sexualmente ativo, sobretudo por Chlamydia trachomatis e Neisseria gonorrhoeae; no homem mais velho, por agentes urinários, associada a esvaziamento vesical incompleto.
- Na criança, a maioria não é bacteriana.
Torção testicular
- Dor escrotal súbita, num momento preciso, intensa e unilateral, com náuseas e vómitos; pode irradiar para a região inguinal ou para o abdómen.
- Testículo alto, horizontalizado e muito doloroso, escroto edemaciado e assimétrico, cremastérico ausente.
- Pode haver episódios prévios de dor que cederam sozinhos.
- A instalação é mais rápida do que na epididimite: horas (4 a 8) contra 24 a 48 horas.
Torção do apêndice testicular
- Dor mais gradual, localizada ao polo superior, com testículo em posição normal e cremastérico presente.
- Ponto azul visível através da pele do polo superior em apenas 10 a 23% dos casos.
Epididimite
- Dor e tumefação do epidídimo e do testículo instaladas em 1 a 2 dias, com febre, disúria e piúria; pode haver hidrocelo reativo.
- A ausência de queixas urinárias não a exclui.
Diagnóstico clínico
- O diagnóstico é clínico, pela história e pelo exame físico.
- O sinal de Prehn (alívio com a elevação do escroto) sugere epididimite, mas não exclui torção e não deve decidir nada.
- As escalas clínicas de risco ajudam na triagem, mas não confirmam nem excluem torção.
Eco-Doppler
- Mostra fluxo intratesticular reduzido ou ausente em relação ao lado contralateral e pode mostrar o cordão em redemoinho.
- Sensibilidade de 63,6 a 100% e especificidade de 97 a 100%.
- Falsos negativos: numa série de 208 rapazes com torção, 24% tinham vascularização normal ou aumentada (torção incompleta, destorção espontânea com hiperemia de reperfusão).
- Útil quando a clínica é equívoca; num quadro típico, não atrasa a cirurgia. Se não houver ecografia disponível de imediato, explora-se.
Diagnóstico diferencial
| Torção testicular | Torção do apêndice | Epididimite | |
|---|---|---|---|
| Início | súbito | gradual | ao longo de 1 a 2 dias |
| Cremastérico | ausente | presente | presente |
| Testículo | alto e horizontalizado | posição normal, dor no polo superior | epidídimo espessado e doloroso |
| Pista | náuseas e vómitos | ponto azul | febre, disúria, piúria |
| Doppler | fluxo reduzido ou ausente | fluxo preservado | hiperemia |
| Atitude | bloco operatório | anti-inflamatório e analgesia | antibiótico se houver infeção bacteriana |
- Outros: hérnia inguinal encarcerada, rotura testicular traumática, hemorragia num tumor, vasculite por IgA e orquite da parotidite.
- Na epididimite colhe-se urina para análise sumária e urocultura antes do antibiótico, e exsudado uretral se houver risco de infeção sexualmente transmissível.
Torção testicular
- Exploração cirúrgica urgente, tão cedo quanto possível: jejum, analgesia e bloco, sem esperar por exames num quadro típico.
- A exploração é urgente em todas as torções com menos de 24 horas; para lá das 24 horas é semieletiva.
- No bloco: destorção, tempo para o fluxo voltar e avaliação da viabilidade (Doppler intraoperatório ou abertura da túnica vaginal).
- Viável: orquidopexia com fio não absorvível ao dartos em três pontos (medial, lateral e inferior), verificando que o cordão não fica torcido.
- Claramente necrosado: orquidectomia, para evitar abcesso. Em caso de dúvida, prefere-se conservar.
- Fixação contralateral no mesmo tempo.
Destorção manual
- Pode tentar-se no serviço de urgência enquanto se aguarda o bloco, por rotação para fora (como abrir um livro), parando se a dor aumentar ou houver resistência.
- O sucesso traduz-se por alívio imediato de todos os sintomas.
- Não atrasa nem substitui a cirurgia.
Torção do apêndice testicular
- Tratamento conservador com anti-inflamatório e analgesia; explora-se se o diagnóstico for duvidoso ou a dor persistir.
Epididimite
- Na criança, o antibiótico só se justifica se a análise de urina e a urocultura mostrarem infeção bacteriana.
- No adolescente e no adulto com provável Chlamydia ou gonococo: ceftriaxona 500 mg intramuscular em dose única e doxiciclina 100 mg oral de 12 em 12 horas durante 10 dias.
- Por agentes entéricos, com a gonorreia excluída: levofloxacina 500 mg por dia durante 10 dias. Com risco dos dois, como no sexo anal insertivo: ceftriaxona 500 mg em dose única e levofloxacina 10 dias.
- Repouso, elevação do escroto e anti-inflamatório.
- Perda do testículo, por orquidectomia ou por atrofia progressiva, que pode surgir mesmo depois de uma destorção aparentemente bem-sucedida.
- Espermatogénese: numa série, a torção unilateral comprometeu-a seriamente em cerca de 50% dos doentes e de forma limítrofe em mais 20%; o espermograma é normal em apenas 5 a 50% no seguimento longo.
- Torção não diagnosticada e orquidectomia evitável estão entre as causas mais frequentes de litígio em urgência: registar a hora de início da dor e a hora da cirurgia.
Recém-nascido
- A torção perinatal é extravaginal e apresenta-se como massa escrotal firme, indolor, com pele descolorada; quando é pré-natal, o testículo está muitas vezes já necrosado.
- É bilateral em 11 a 21% dos casos perinatais e pode haver torção contralateral assíncrona.
- Exploração precoce, mas não emergente, dos dois testículos com fixação contralateral; na torção pré-natal, o momento depende dos achados clínicos.
Testículo não descido
- Também pode torcer: dor e massa inguinal num rapaz com escroto vazio desse lado.
- Priapismo: ereção persistente durante mais de 4 horas, sem relação com estímulo sexual.
- Isquémico (de baixo fluxo): o mais frequente e uma emergência.
- Não isquémico (de alto fluxo): raro, pós-traumático, não é emergência.
- A drepanocitose é a causa mais frequente na criança (63% dos casos) e a causa primária em 23% dos adultos.
- Outras causas: injeção intracavernosa de fármacos para a disfunção erétil (priapismo em 0,4 a 35% das séries), antipsicóticos de segunda geração, trazodona, alfabloqueantes, cocaína, neoplasias e nutrição parentérica.
Isquémico
- O retorno venoso fica bloqueado e a pressão intracavernosa sobe até parar a entrada de sangue arterial: é uma síndrome compartimental dos corpos cavernosos.
- A estase produz hipóxia, hipercapnia e acidose; o músculo liso cavernoso perde a capacidade de contrair, e a lesão evolui para edema, necrose e fibrose.
- Os corpos cavernosos estão rígidos e dolorosos; a glande e o corpo esponjoso, que não fazem parte do compartimento, ficam moles.
Não isquémico
- Fístula entre a artéria cavernosa e o corpo cavernoso, por traumatismo peniano ou perineal (tipicamente em cavalgadura).
- Não há isquemia: a ereção é parcial e indolor.
História e exame
- Duração da ereção, dor, fármacos (injeções intracavernosas, psicotrópicos), cocaína, drepanocitose e traumatismo perineal.
- Isquémico: pénis muito doloroso, corpos cavernosos rígidos, glande mole. Não isquémico: ereção parcial e indolor.
Gasometria do sangue cavernoso
Obtém-se logo na apresentação e é o exame que distingue:
| Isquémico | Arterial (não isquémico) | |
|---|---|---|
| pO2 | menos de 30 mm Hg | mais de 90 mm Hg |
| pCO2 | mais de 60 mm Hg | menos de 40 mm Hg |
| pH | menos de 7,25 | 7,40 |
- No isquémico o sangue é escuro; no não isquémico, vermelho-vivo.
Eco-Doppler
- Quando a gasometria é inconclusiva: fluxo cavernoso ausente no isquémico, fluxo turbulento e a fístula no não isquémico.
- Os exames para a causa (hemograma, pesquisa de hemoglobina S, toxicologia) não atrasam o tratamento.
Priapismo isquémico
Começa nas primeiras 4 a 6 horas, por passos. Medidas conservadoras (gelo, exercício, fármacos orais) não resultam e não podem atrasar o tratamento.
- Aspiração dos corpos cavernosos, sob bloqueio peniano, com agulha de grande calibre num dos lados (os corpos comunicam), com ou sem irrigação com soro fisiológico, até sair sangue vermelho.
- Fenilefrina intracavernosa se a ereção persistir: diluída a 100 a 500 µg/mL, 200 µg de 3 em 3 a 5 em 5 minutos, até 1 mg na primeira hora.
- Monitorizar pressão arterial e frequência cardíaca: hipertensão aguda, bradicardia reflexa e arritmia, sobretudo no doente com risco cardiovascular.
- Repetir aspiração e injeção antes de passar à cirurgia.
- Shunt cirúrgico se falharem após pelo menos 1 hora: primeiro distal (corpo cavernoso para a glande), com tunelização se necessário; o proximal fica para os casos refratários, com benefício pouco demonstrado.
- Prótese peniana a considerar no priapismo não tratado há mais de 36 horas ou refratário aos shunts, discutindo com o doente a colocação precoce ou diferida.
- Na ereção de 4 horas ou menos depois de uma injeção intracavernosa, a fenilefrina é o primeiro passo.
- A ressonância com gadolínio prediz a necrose do músculo liso cavernoso, mas não tem lugar na fase inicial, que não pode esperar.
Drepanocitose
- Hidratação, oxigénio e analgesia fazem-se em paralelo, nunca em vez da aspiração e da fenilefrina.
- A exsanguinotransfusão não é tratamento de primeira linha e pode ter complicações neurológicas graves.
Priapismo não isquémico
- Não é emergência: gelo e compressão perineal, e muitos resolvem sozinhos.
- Embolização arterial seletiva nos persistentes, com material temporário.
- A função erétil depende da duração do episódio.
- Numa série, o risco de disfunção erétil subiu de forma acentuada para lá das 20 horas; noutra, com seguimento médio de 66 meses, a duração acima de 48 horas associou-se a risco significativo.
- Acima de 36 horas a probabilidade de recuperar a função erétil é baixa, e intervir depois de 48 a 72 horas alivia a ereção e a dor, mas pouco muda na função.
- Complicações do tratamento: hematoma, infeção, fístula uretrocutânea nos shunts e, com a fenilefrina, hipertensão e arritmia.
- O prepúcio retraído e não reposto forma um anel constritor atrás da glande.
- O bloqueio começa linfático, passa a venoso e acaba arterial, num ciclo de edema que se agrava a si mesmo.
- Mais frequente em doentes internados, acamados ou confusos, que não referem dor, sobretudo depois de uma algaliação em que o prepúcio ficou retraído.
- Sem redução, evolui para necrose isquémica da glande.
- Redução manual urgente, com analgesia, bloqueio peniano ou sedação quando necessário.
- Primeiro, compressão firme da parte distal edemaciada durante alguns minutos; as ligaduras compressivas também resultam.
- Depois, com os dedos a puxar o anel para a frente, os polegares empurram a glande para trás.
- Se não reduzir: incisão dorsal do anel constritor; a circuncisão fica para depois de o edema resolver.
- A fimose sem parafimose não é uma emergência.
- Fasceíte necrosante polimicrobiana do períneo, da região perianal e dos genitais externos, que progride depressa e pode ser fatal.
- Mortalidade descrita até 67% nas séries.
- Fatores de risco: abcesso perirretal, diabetes, obesidade, alcoolismo crónico e imunossupressão.
- A origem é anorretal, urogenital ou cutânea; a flora é mista, com aeróbios e anaeróbios em sinergia.
- A infeção progride ao longo das fáscias de dartos, Colles e Scarpa, podendo subir à parede abdominal.
- A trombose séptica das perfurantes faz com que a necrose fascial ultrapasse muito o que se vê na pele: a dor é desproporcionada ao aspeto.
- Os testículos, com irrigação própria a partir do retroperitoneu, costumam ser poupados.
- O diagnóstico é clínico: dor perineal e escrotal desproporcionada, edema e eritema mal delimitados, crepitação, bolhas e necrose, exsudado fétido, zonas de anestesia cutânea e sinais de sépsis.
- Laboratório: leucocitose, proteína C reativa elevada, hiperlactacidemia, hiperglicemia e lesão renal aguda. Nenhum valor normal exclui.
- A tomografia mostra gás nos tecidos moles e coleções ao longo das fáscias profundas, mas só se faz se não atrasar o bloco.
- Diferencial: celulite, abcesso escrotal ou perianal, hérnia encarcerada, edema escrotal.
Três medidas em simultâneo, desde a apresentação:
Ressuscitação
- Fluidos, hemoculturas, vasopressor se necessário, controlo da glicemia.
Antibiótico de largo espetro, logo na apresentação
Ajustado depois às culturas e à evolução. Esquemas possíveis para a infeção mista:
| esquema | doses |
|---|---|
| piperacilina-tazobactam com vancomicina | 4,5 g de 6 em 6 a 8 em 8 horas; 15 mg/kg de 12 em 12 horas |
| meropenem | 1 g de 8 em 8 horas |
| imipenem-cilastatina | 1 g de 6 em 6 a 8 em 8 horas |
| ceftriaxona com metronidazol ou clindamicina | metronidazol 500 mg de 6 em 6 horas ou clindamicina 600 a 900 mg de 8 em 8 horas |
Desbridamento cirúrgico
- Desbridamento nas primeiras 24 horas após a apresentação, até tecido viável, e repetido as vezes necessárias.
- Pode ser preciso desviar as fezes (colostomia, se o esfíncter anal estiver lesado) ou a urina (cateter suprapúbico).
- A terapêutica por pressão negativa ajuda a cicatrização; os defeitos grandes exigem enxertos ou retalhos.
- Oxigénio hiperbárico e outras terapêuticas adjuvantes não se usam fora de ensaios.
- A mortalidade depende do atraso até ao desbridamento, da extensão da necrose, da idade e da disfunção de órgão.
- Os sobreviventes ficam muitas vezes com defeitos extensos a reconstruir, estomas temporários, linfedema genital, dor crónica e disfunção sexual.
- Surge em homens e em mulheres, mas a causa mais frequente é a hiperplasia benigna da próstata.
- Outras causas: estenose uretral, coágulos por hematúria, bexiga hipocontrátil (neuropatia diabética, esclerose múltipla, doença de Parkinson), infeção (prostatite aguda) e compressão medular.
- Desencadeantes frequentes no internamento: imobilidade, opioides, anticolinérgicos e obstipação.
- A pressão intravesical elevada pode transmitir-se ao trato superior e causar lesão renal aguda pós-renal.
- Impossibilidade de urinar, habitualmente dolorosa, com globo vesical palpável e maciço à percussão; confirma-se com ecografia vesical.
- Pode ser indolor com doses altas de opioides ou numa bexiga cronicamente descompensada, às vezes com incontinência por regurgitação.
- Procurar sempre causa neurológica: retenção com anestesia em sela é compressão medular ou síndrome da cauda equina, uma emergência neurocirúrgica.
- Na doença hepática grave, a ecografia vesical portátil pode confundir ascite com urina.
Algaliação
- Algaliar o mais depressa possível, com técnica assética.
- Na hiperplasia da próstata, algália de ponta curva (Tiemann) de 18 a 20 F, com a curva virada para cima; uma algália mais fina dobra na uretra prostática.
- Se a resistência surgir perto do meato, pensar em estenose uretral: aí serve uma algália fina, de 12 a 14 F.
- Se não passar: cateter suprapúbico, cerca de dois dedos acima da sínfise, guiado por ecografia ou por punção prévia.
- Na retenção por coágulos: algália de três vias e irrigação contínua por gravidade.
Depois de esvaziar
- Esvaziar de uma só vez: não há estudos que apoiem o esvaziamento fracionado, e a hematúria de descompressão (ex vacuo) surge em cerca de 10% e é quase sempre transitória.
- Diurese pós-obstrutiva: débito acima de 200 mL por hora durante 2 horas seguidas, ou acima de 3 L em 24 horas. É mais frequente depois de obstrução bilateral ou de retenção crónica; vigiar débito, peso e ionograma e repor com fluidos em volume inferior às perdas, salvo hipovolemia, hipotensão ou alterações eletrolíticas.
Tratar a causa
- Alfabloqueante (tamsulosina) antes da tentativa de remoção da algália, porque aumenta a probabilidade de voltar a urinar.
- Os inibidores da 5-alfa-redutase reduzem as retenções futuras, mas levam meses a atuar.
- Reduzir opioides e tratar a obstipação.
- Na tentativa sem algália, um resíduo pós-miccional acima de 200 mL ou a impossibilidade de urinar fazem prever nova retenção; as opções são nova algaliação por uns dias ou autoalgaliação intermitente, que tem menos infeções.
Lesão medular acima de T6
- A distensão vesical, que o doente pode não sentir, desencadeia disreflexia autonómica: hipertensão súbita, cefaleia, rubor e sudação acima da lesão, bradicardia.
- Tratamento: sentar o doente, aliviar roupa e dispositivos apertados e esvaziar a bexiga (algaliar ou desobstruir a algália); se a hipertensão persistir, anti-hipertensor de ação curta.
- Os nitratos estão contraindicados se o doente tomou um inibidor da 5-fosfodiesterase nas últimas 24 horas (sildenafil, vardenafil) ou 48 horas (tadalafil), pelo risco de hipotensão grave.
Mulher
- Mais rara; pensar em fármacos, prolapso, massa pélvica, causa neurológica ou pós-parto.
- Infeção a montante de uma obstrução ureteral, quase sempre por cálculo, mais raramente por tumor, coágulo ou compressão extrínseca: é pus sob pressão.
- A pressão elevada no sistema coletor favorece o refluxo para as veias e linfáticos, com bacteriemia, e reduz a chegada do antibiótico ao rim infetado: sem drenagem, o antibiótico falha.
- Pionefrose: acumulação de pus num rim hidronefrótico, com destruição do parênquima.
- Obstrução completa com infeção pode destruir o rim em dias.
- Febre, arrepios, dor lombar e sinais de sépsis num doente com cólica renal ou litíase conhecida.
- Urocultura e duas colheitas de hemoculturas antes do antibiótico.
- Imagem: a tomografia sem contraste identifica o cálculo (sensibilidade de 98% e especificidade de 97%) e a hidronefrose; a ecografia mostra a hidronefrose à cabeceira.
- A hidronefrose pode faltar na ecografia quando a obstrução tem menos de 48 horas ou o doente está desidratado.
- Antibiótico endovenoso de largo espetro na primeira hora de suspeita de sépsis e medidas de suporte, com cuidados intensivos se necessário.
- Descompressão urgente do sistema coletor: cateter ureteral (duplo J) ou nefrostomia percutânea, que têm a mesma eficácia e as mesmas complicações. A nefrostomia implica internamentos mais longos; o duplo J, mais sintomas incómodos.
- Colher nova urina para cultura depois da descompressão e ajustar o antibiótico ao antibiograma.
- O cálculo trata-se depois, quando a sépsis resolver.
Diabético: pielonefrite enfisematosa
- Infeção necrosante do rim por agentes produtores de gás, sobretudo Escherichia coli, quase só em diabéticos, muitas vezes com sépsis e cetoacidose.
- Tomografia com gás no parênquima.
- Suporte, antibiótico endovenoso (cefalosporina de terceira geração; evitar fluoroquinolonas pelas resistências) e alívio de qualquer obstrução.
- Gás limitado ao rim: muitas vezes basta nefrostomia percutânea. Extensão perirrenal extensa com sépsis: considerar nefrectomia.
Rim transplantado
- O enxerto é desnervado: a obstrução não dá cólica e revela-se por subida da creatinina, com ou sem menor diurese.
- Febre com dor à palpação do enxerto sugere pielonefrite do enxerto, que também obriga a procurar obstrução.
- A ecografia do enxerto mostra hidronefrose e coleções (urinoma, hematoma, linfocelo) e faz-se em qualquer disfunção inexplicada; havendo obstrução, drena-se cedo, porque é o único rim funcionante.
Fratura do pénis
- Rotura da túnica albugínea por torção do pénis em ereção.
- Estalido, dor, detumescência imediata e hematoma com desvio do pénis.
- A clínica basta; ecografia ou ressonância só nos casos duplos.
- Lesão uretral associada em até 10%: sangue no meato obriga a uretrografia retrógrada ou cistoscopia.
Rotura testicular
- Traumatismo fechado ou penetrante; a ecografia mostra perda do contorno e ecotextura heterogénea, com sensibilidade de até 93%.
Traumatismo renal
- Imagem se houver hematúria macroscópica, hematúria microscópica com hipotensão, ou mecanismo de desaceleração ou contusão do flanco.
- Tomografia com contraste e fase excretora tardia, que gradua a lesão (graus 1 a 5 da AAST, associação americana de cirurgia do trauma) e mostra extravasamento de urina.
- Fratura do pénis: exploração cirúrgica com sutura da albugínea e reparação da uretra se estiver lesada. Sem cirurgia, fica curvatura, nódulo fibroso e disfunção erétil.
- Rotura testicular: exploração com sutura da albugínea; orquidectomia quando não é reparável.
- Traumatismo renal: no doente estável, vigilância com repouso e monitorização hemodinâmica, também nas lesões de grau 4, com nova tomografia para confirmar que o extravasamento resolveu (se persistir, cateter ureteral ou nefrostomia). A angioembolização trata a hemorragia arterial ativa. A cirurgia é obrigatória na hemorragia com risco de vida, na avulsão do pedículo e no hematoma retroperitoneal pulsátil ou em expansão.
- No doente anticoagulado, a correção da coagulação acompanha a intervenção e nunca a adia.
Referências
- Brunicardi FC, Andersen DK, Billiar TR, et al., editores. Schwartz's Principles of Surgery. 11.ª ed. Nova Iorque: McGraw-Hill; 2019. Capítulo 40, Urology.
- Loscalzo J, Fauci A, Kasper D, et al., editores. Harrison's Principles of Internal Medicine. 21.ª ed. Nova Iorque: McGraw-Hill; 2022. Capítulos 313, 318 e 319.
- European Association of Urology. EAU Guidelines on Paediatric Urology: Acute Scrotum. Arnhem: EAU Guidelines Office; 2026.
- European Association of Urology. EAU Guidelines on Sexual and Reproductive Health: Priapism. Arnhem: EAU Guidelines Office; 2026.
- Bivalacqua TJ, Allen BK, Brock GB, et al. Acute ischemic priapism: an AUA/SMSNA guideline. J Urol. 2021;206(5):1114-21.
- European Association of Urology. EAU Pocket Guidelines on Urological Infections. Arnhem: EAU Guidelines Office; 2022.
- European Association of Urology. EAU Guidelines on Urolithiasis. Arnhem: EAU Guidelines Office; 2026.
- Workowski KA, Bachmann LH, Chan PA, et al. Sexually transmitted infections treatment guidelines, 2021. MMWR Recomm Rep. 2021;70(4):1-187.
- Halbgewachs C, Domes T. Postobstructive diuresis: pay close attention to urinary retention. Can Fam Physician. 2015;61(2):137-42.
- Kloner RA, Burnett AL, Miner M, et al. Princeton IV consensus guidelines: PDE5 inhibitors and cardiac health. J Sex Med. 2024;21(2):90-116.
20 perguntas sobre Emergências urológicas
Ler consolida, treinar é o que fixa. Cada pergunta tem justificação alínea a alínea, no formato da Prova Nacional de Acesso.
Criar conta e treinar