EndocrinológicaNódulo da tiroidePublicado (Premium)

Nódulo da tiroide

Matriz PNA:MD · MecanismosD · DiagnósticoGD · Gestão

Atualizado em 18 de julho de 2026 · 16 perguntas neste tema

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Em resumo

O nódulo da tiroide é um dos problemas mais frequentes da prática clínica: está presente em mais de metade da população adulta quando se procura por ecografia, e a esmagadora maioria é benigna. Toda a abordagem existe para responder a uma única pergunta — identificar a minoria maligna sem submeter os restantes a cirurgia, morbilidade e substituição hormonal desnecessárias. É um tema de relevância A na matriz PNA (alto rendimento), e as perguntas testam sobretudo três coisas: a ordem correta dos exames (TSH antes da ecografia; cintigrafia apenas se a TSH estiver suprimida), a indicação de citologia aspirativa, que depende do padrão ecográfico e do tamanho em conjunto (nunca do tamanho isolado), e a leitura do sistema Bethesda, em particular das categorias indeterminadas III e IV. Domina também o ponto clássico de que a citologia não distingue adenoma folicular de carcinoma folicular, porque o critério de malignidade é a invasão capsular ou vascular, visível apenas na histologia da peça. O conceito de sobrediagnóstico do carcinoma papilar é a moldura que dá sentido a todo o algoritmo.

Porque é que aparecem nódulos — a nodularidade como fenómeno fisiológico exagerado

A tiroide não é um tecido homogéneo. Os folículos individuais diferem entre si na capacidade de captar iodo, na resposta à TSH e no ritmo replicativo — é a chamada heterogeneidade funcional intrínseca do tecido tiroideu. Quando a glândula é submetida a estímulo proliferativo prolongado, os clones de folículos com maior sensibilidade proliferam desproporcionadamente. Ao fim de anos, o resultado macroscópico é uma glândula com múltiplos nódulos de idade, tamanho e função diferentes — o bócio multinodular. É por isto que o bócio multinodular é essencialmente uma doença de acumulação temporal, típica de doentes mais velhos.

Os estímulos proliferativos relevantes:

  • TSH — o principal fator trófico. Qualquer situação de carência relativa de hormona (carência de iodo, defeitos da hormonogénese, bociogénicos alimentares) aumenta a TSH e estimula o crescimento. Isto explica a elevada prevalência de bócio nodular em regiões com aporte insuficiente de iodo.
  • Fatores de crescimento locais — IGF-1, EGF, VEGF e a angiogénese local determinam a expansão do nódulo independentemente da TSH.
  • Estrogénios — contribuem para a preponderância feminina.
  • Radiação ionizante cervical — sobretudo na infância, é o fator ambiental com maior peso, aumentando a incidência tanto de nódulos benignos como malignos, com uma latência de décadas.

Um ponto de raciocínio importante: a TSH sérica correlaciona-se positivamente com o risco de malignidade num nódulo. Um doente com TSH no limite superior do normal tem, em média, maior probabilidade de malignidade do que um com TSH no limite inferior — e um com TSH suprimida tem probabilidade muito baixa. Este gradiente é a base fisiopatológica do passo "TSH primeiro" no algoritmo.


Mecanismos das lesões benignas

Nódulo coloide/hiperplásico. Não é uma neoplasia verdadeira: é uma expansão policlonal de folículos com acumulação de coloide, sem cápsula própria bem definida. Tende a ser isoecogénico ou hiperecogénico, com áreas quísticas de degenerescência e, frequentemente, calcificações grosseiras ou o achado ecográfico tranquilizador do artefacto em cauda de cometa (cristais de coloide). Cresce lentamente e pode regredir espontaneamente.

Adenoma folicular. Neoplasia benigna verdadeira, monoclonal, com cápsula fibrosa completa. É indistinguível do carcinoma folicular na citologia, na ecografia e na clínica — a única diferença é a ausência de rutura da cápsula ou de invasão dos vasos.

Nódulo autónomo (adenoma tóxico). O mecanismo é elegante e é matéria de exame. Uma mutação somática ativadora — mais frequentemente no gene do recetor da TSH (TSHR), menos frequentemente na subunidade GNAS (Gsα) — provoca ativação constitutiva da via AMP cíclico. O folículo passa a captar iodo e a sintetizar hormona independentemente da TSH. O clone expande, produz hormona em excesso, a TSH hipofisária é suprimida por retrocontrolo negativo, e o restante parênquima — que depende da TSH — atrofia funcionalmente e deixa de captar. Daí a imagem cintigráfica clássica: um foco quente sobre um fundo silencioso.

O corolário essencial: a via do AMP cíclico ativada de forma constitutiva conduz a diferenciação e função, não a desdiferenciação oncogénica. Por isso o nódulo quente é praticamente sempre benigno e não se punciona — a citologia de um nódulo hiperfuncionante tende, aliás, a ser hipercelular e a ser mal interpretada como "neoplasia folicular", gerando cirurgias desnecessárias. Este é um dos erros de sequência mais penalizados em exame.

Quisto. A maioria resulta de degenerescência de um nódulo sólido preexistente (necrose central, hemorragia intranodular). Os quistos verdadeiramente simples/puros — anecogénicos, sem componente sólido — são praticamente sempre benignos. O que engana é o quisto complexo: um carcinoma papilar pode sofrer degenerescência quística, e a componente sólida excêntrica com vascularização é que carrega o risco.


Mecanismos da malignidade — as vias moleculares

O carcinoma diferenciado da tiroide organiza-se em torno de duas vias de sinalização que convergem na proliferação celular. Perceber esta dicotomia permite prever a histologia a partir da mutação e vice-versa.

Via MAPK (BRAF-like)Via PI3K/AKT e RAS (RAS-like)
Alteração típicaBRAF V600E, fusões RET/PTCmutações RAS (N/H/K), PAX8-PPARγ, alterações PTEN/PIK3CA
FenótipoCarcinoma papilar clássicoCarcinoma folicular, variante folicular do papilar, NIFTP, adenoma folicular
Padrão de crescimentoInfiltrativo, sem cápsulaEncapsulado, expansivo
Disseminação preferencialLinfática (gânglios cervicais)Hematogénea (osso, pulmão)
EcografiaMuito sugestiva (hipoecogénico, microcalcificações)Frequentemente iso/hiperecogénico e pouco suspeito
Comportamento na citologiaReconhecível (núcleos)Indeterminada (Bethesda III/IV)

Detalhes que rendem:

  • BRAF V600E é a alteração mais frequente do carcinoma papilar clássico. É altamente específica de malignidade — quando detetada numa citologia indeterminada, tem valor preditivo positivo muito elevado. A sua ausência, porém, não tranquiliza (baixa sensibilidade), porque uma proporção substancial dos papilares não a tem.
  • As fusões RET/PTC são caracteristicamente associadas ao carcinoma papilar pós-irradiação e ao carcinoma papilar da criança e do adolescente. Foram a assinatura molecular dominante nos carcinomas pós-Chernobyl.
  • As mutações RAS são o exemplo de marcador inespecífico: aparecem em adenomas foliculares benignos, em NIFTP e em carcinomas foliculares. Um RAS positivo numa citologia indeterminada não fecha o diagnóstico — é este o calcanhar de Aquiles dos testes moleculares.
  • PAX8-PPARγ é uma translocação associada ao carcinoma folicular.
  • Mutações do promotor de TERT e de TP53 marcam progressão e desdiferenciação; a associação BRAF + TERT confere pior prognóstico, e TP53 é característico do carcinoma anaplásico, frequentemente surgido por desdiferenciação de um carcinoma diferenciado preexistente.
  • O carcinoma medular segue uma via inteiramente distinta: mutações do proto-oncogene RETgerminais nas formas hereditárias (MEN2A, MEN2B, carcinoma medular familiar) e somáticas em cerca de metade dos esporádicos.

Porque é que a citologia não distingue adenoma de carcinoma folicular

Este é o ponto clássico do capítulo e merece ser percebido, não decorado.

O diagnóstico de carcinoma papilar assenta em alterações nucleares — cromatina em vidro despolido, contornos irregulares, fendas longitudinais, pseudoinclusões citoplasmáticas intranucleares. Estas alterações estão presentes em cada célula isolada e, por isso, sobrevivem à aspiração: basta ter células no vidro.

O diagnóstico de carcinoma folicular assenta num critério arquitetural e topográfico — demonstrar que células tumorais atravessam a cápsula ou estão dentro de um vaso da cápsula ou para além dela. Isto exige ver a relação espacial entre o tumor, a sua cápsula e o parênquima envolvente. A agulha fina destrói precisamente essa informação: aspira células soltas, não arquitetura.

Consequência prática inescapável: perante um aspirado com celularidade folicular abundante, escasso coloide e formação de microfolículos, o citopatologista só pode escrever "neoplasia folicular" (Bethesda IV) — designação da 3.ª edição do Bethesda (2023), que abandonou o antigo termo suspeita de neoplasia folicular. A resposta definitiva exige a peça cirúrgica — normalmente uma lobectomia diagnóstica, cujo exame histológico completo da cápsula responde à pergunta. E é também por isto que a biópsia extemporânea (exame intraoperatório) tem valor muito limitado nas lesões foliculares: não permite examinar toda a cápsula em tempo útil.

O mesmo raciocínio se aplica ao carcinoma de células oncocíticas (de Hürthle): a presença de células oncocíticas não é, por si, sinal de malignidade — o critério continua a ser a invasão.

O diagnóstico do nódulo da tiroide é um algoritmo sequencial, e a maioria dos erros de exame não é de conhecimento factual mas de ordem. Fixa a sequência: clínica → TSH → (cintigrafia só se TSH suprimida) → ecografia → citologia se indicada.


Passo 1 — História e exame objetivo

A clínica não faz o diagnóstico de malignidade, mas modifica a probabilidade pré-teste e, sobretudo, identifica os doentes que não podem ser tratados de forma conservadora.

Fatores de risco de malignidade na anamnese:

  • Irradiação cervical prévia, sobretudo na infância ou adolescência (o fator mais forte).
  • História familiar de carcinoma da tiroide, de carcinoma medular ou de MEN2; síndromes de polipose adenomatosa familiar (FAP) ou de Cowden.
  • Idades extremas: <20 anos e >60–70 anos.
  • Sexo masculino — os nódulos são muito menos frequentes no homem, mas quando existem têm maior probabilidade de ser malignos.
  • Crescimento rápido do nódulo (atenção: crescimento súbito e doloroso sugere hemorragia intranodular benigna — ver Complicações).
  • Exposição a radiação ambiental (acidentes nucleares).

Sinais de alarme no exame objetivo:

  • Nódulo duro, pétreo, fixo aos planos profundos ou à pele.
  • Adenopatia cervical palpável, sobretudo homolateral, dura, fixa. É o achado clínico com maior peso.
  • Disfonia por paralisia da corda vocal — traduz invasão do nervo laríngeo recorrente; é praticamente sinónimo de doença invasiva e obriga a laringoscopia para documentar objetivamente a mobilidade das cordas antes de qualquer cirurgia.
  • Disfagia, dispneia, estridor — sintomas compressivos.
  • Síndrome de Horner ou dor referida ao ouvido — invasão local.

Armadilha. A dor não é sinal de malignidade. O nódulo doloroso sugere hemorragia intranodular ou tiroidite subaguda; o carcinoma tiroideu é tipicamente indolor.


Passo 2 — TSH: o primeiro exame laboratorial, sempre

A TSH sérica é o único exame laboratorial obrigatório na avaliação inicial de qualquer nódulo. É pedida antes da ecografia porque o seu resultado pode desviar completamente o algoritmo.

Se a TSH estiver SUPRIMIDA (baixa): → pedir cintigrafia da tiroide (com ¹²³I ou ⁹⁹mTc-pertecnetato).

  • Se o nódulo for hiperfuncionante ("quente") e corresponder ao nódulo em causa → não se punciona. Segue-se para avaliação e tratamento da hiperfunção (ver capítulo de disfunção tiroideia).
  • Se o nódulo for frio apesar da TSH baixa → prossegue-se como se a TSH fosse normal.

Se a TSH estiver NORMAL ou ELEVADA:não há indicação para cintigrafia. Prossegue-se diretamente para a ecografia. Uma TSH elevada deve motivar avaliação de tiroidite de Hashimoto (anticorpos anti-TPO) e substituição se houver hipotiroidismo, mas não altera o algoritmo do nódulo.

Erros clássicos a evitar:

  • Pedir cintigrafia com TSH francamente normal e sem contexto de carência de iodo. É o erro de sequência mais penalizado: nessa situação a probabilidade de nódulo autónomo é baixa e a cintigrafia acrescenta irradiação sem informação útil. Ressalva importante: a ETA 2023 indica cintigrafia também quando a TSH está no limite inferior do normal e em áreas de carência de iodo (Portugal incluído), onde existem nódulos autónomos com TSH ainda dentro do intervalo de referência.
  • Puncionar antes de conhecer a TSH. Risco de puncionar um nódulo quente e obter uma citologia falsamente inquietante.

Outros doseamentos:

  • Tiroglobulinanão tem valor diagnóstico no nódulo. Sobe em quase todas as doenças tiroideias, é inespecífica. O seu papel é no seguimento pós-tiroidectomia por carcinoma diferenciado, como marcador de recidiva.
  • Anticorpos anti-TPO — úteis se a TSH estiver elevada, para documentar tiroidite autoimune. Não estratificam risco de malignidade.
  • Calcitonina — o doseamento é orientado pelo contexto clínico, não sistemático. A ETA 2023 propõe doseá-la no doente proposto para cirurgia ou termoablação, perante citologia indeterminada, ecografia suspeita ou história pessoal ou familiar de carcinoma medular / MEN2; a ATA 2015 não se pronuncia a favor nem contra o doseamento por rotina, invocando custo-efetividade e o problema dos falsos positivos. Consenso: doseá-la sempre que houver história familiar de carcinoma medular ou MEN2, citologia sugestiva, diarreia ou flushing inexplicados. Valores muito elevados são altamente sugestivos; valores ligeiramente elevados exigem confirmação e ponderação de causas (insuficiência renal, inibidores da bomba de protões, tabagismo, hiperplasia de células C).

Passo 3 — Ecografia com estratificação de risco padronizada

A ecografia cervical de alta resolução é o exame de imagem de eleição. Não é um exame binário — o seu produto é uma categoria de risco, e é essa categoria (e não a impressão subjetiva do observador) que determina a conduta.

Deve avaliar sempre: o nódulo (dimensões nos três eixos, composição, ecogenicidade, forma, margens, focos ecogénicos), o restante parênquima e, obrigatoriamente, os compartimentos ganglionares cervicais.

Características ecográficas SUSPEITAS

CaracterísticaPorquê é suspeita
Hipoecogenicidade acentuada (marcada)Alta celularidade, escasso coloide
Mais alto do que largo (relação anteroposterior/transversa >1 no plano transversal)Crescimento que desrespeita os planos teciduais
Margens irregulares, microlobuladas ou espiculadasPadrão infiltrativo
Microcalcificações (focos ecogénicos puntiformes, sem sombra)Corpos de psamoma — muito específicas de carcinoma papilar
Extensão extratiroideiaInvasão franca
Adenopatia cervical anormalMetastização linfática

Características TRANQUILIZADORAS

  • Quisto puro / espongiforme (>50% de microquistos) — risco muito baixo.
  • Iso ou hiperecogenicidade.
  • Artefacto em cauda de cometa (cristais de coloide).
  • Halo periférico fino e completo.

As calcificações NÃO são características tranquilizadoras. As calcificações grosseiras (macrocalcificações) e a calcificação periférica em casca de ovo traduzem degenerescência antiga, mas no ACR TI-RADS somam pontos1 ponto as macrocalcificações e 2 pontos as calcificações periféricas —, e as séries publicadas mostram taxas de malignidade da ordem de um quarto dos nódulos com calcificação periférica. Uma calcificação periférica interrompida, com componente sólido a extravasar, é francamente suspeita.

Como se lê uma adenopatia suspeita

Sinais ecográficos de gânglio metastático: perda do hilo gordo central, forma arredondada (eixo curto aumentado), microcalcificações, degenerescência quística, ecogenicidade aumentada (semelhante à tiroide) e vascularização periférica/caótica em vez de hilar. Uma adenopatia com estas características muda tudo — deve ser puncionada e o aspirado enviado para citologia e para doseamento de tiroglobulina no líquido de lavagem da agulha, que é muito sensível para metástase de carcinoma diferenciado.

Sistemas de estratificação

São vários e não se devem misturar — usa-se um só e reporta-se a categoria. Os dois mais frequentes:

ATA 2015 — padrões sonográficos:

PadrãoRisco estimado de malignidadeCorte para citologia
Alta suspeição~70–90%≥1 cm
Suspeição intermédia~10–20%≥1 cm
Baixa suspeição~5–10%≥1,5 cm
Muito baixa suspeição (espongiforme, quístico parcial)<3%≥2 cm (ou vigilância)
Benigno (quisto puro)<1%Não puncionar

ACR TI-RADS — sistema de pontos, somando composição + ecogenicidade + forma + margens + focos ecogénicos:

CategoriaPontosCitologiaVigilância ecográfica
TR1 benigno0nãonão
TR2 não suspeito2nãonão
TR3 ligeiramente suspeito3≥2,5 cm≥1,5 cm
TR4 moderadamente suspeito4–6≥1,5 cm≥1 cm
TR5 muito suspeito≥7≥1 cm≥0,5 cm

O EU-TIRADS da ETA segue lógica equivalente, com categorias 2 a 5.

O conceito que a PNA quer testar: a indicação de citologia resulta do cruzamento do padrão ecográfico com o tamanho — nunca do tamanho isolado. Um nódulo de 3 cm espongiforme pode não ter indicação de punção; um nódulo de 1,1 cm hipoecogénico, mais alto do que largo, com microcalcificações tem indicação clara. Enunciados que oferecem "puncionar todos os nódulos >1 cm" estão errados.

Nota importante sobre a vascularização. O Doppler perdeu peso nos sistemas atuais: a vascularização central intranodular foi durante anos considerada suspeita, mas demonstrou-se insuficientemente discriminativa e não entra nos critérios do ACR TI-RADS. A elastografia é adjuvante e não substitui a estratificação em escala de cinzentos.


Passo 4 — Citologia aspirativa por agulha fina (CAAF) guiada por ecografia

É o exame de maior acuidade para distinguir benigno de maligno e o pilar da decisão cirúrgica.

Deve ser sempre guiada por ecografia (e não por palpação): reduz a taxa de amostras não diagnósticas e garante que se punciona a componente correta — nos nódulos mistos, o componente sólido e vascularizado, não o líquido.

É um procedimento muito seguro: agulha fina (tipicamente 25–27 G), sem necessidade de suspender antiagregação em regra, com complicações limitadas a dor ligeira e hematoma. Não causa disseminação tumoral pelo trajeto de forma clinicamente relevante.

O sistema de Bethesda

O relatório citológico deve ser emitido numa das seis categorias de Bethesda. Esta tabela é dos conteúdos de maior rendimento do capítulo.

Cat.DesignaçãoRisco de malignidade (aprox.)Conduta habitual
INão diagnóstica / insatisfatória~5–20%Repetir a CAAF com guiamento ecográfico (idealmente ≥3 meses depois); se persistir não diagnóstica em nódulo sólido → considerar cirurgia diagnóstica ou vigilância estreita conforme o risco ecográfico
IIBenigna~2–7%Vigilância clínica e ecográfica; sem cirurgia
IIIAtipia de significado indeterminado (AUS)~13–30%Repetir CAAF, testes moleculares, ou lobectomia diagnóstica — decidir com o padrão ecográfico e a clínica
IVNeoplasia folicular~23–34%Testes moleculares ou lobectomia diagnóstica
VSuspeita de malignidade~67–83%Cirurgia (lobectomia ou tiroidectomia total conforme extensão e risco)
VIMaligna~97–99%Cirurgia

Pontos que exigem atenção:

  • Os intervalos de risco variam consoante os estudos contem ou não o NIFTP como maligno; a reclassificação do NIFTP em 2016 fez descer os riscos atribuídos sobretudo às categorias III e IV. Não decores um número único — decora a ordem de grandeza e a conduta.
  • Bethesda II (benigna) tem excelente valor preditivo negativo, mas não é infalível. Se a ecografia for de alta suspeição, uma citologia benigna deve ser reavaliada — repetir a punção — porque a discordância clínico-citológica é um cenário clássico de falso negativo.
  • Nomenclatura: a 3.ª edição do Bethesda (2023) abandonou o termo suspeita de neoplasia folicular (para evitar confusão com a categoria V, suspeita de malignidade), mantendo apenas neoplasia folicular; a antiga neoplasia de células de Hürthle passou a neoplasia folicular oncocítica.
  • Bethesda IV é o território do nódulo folicular. Como já se explicou, a citologia é estruturalmente incapaz de resolver esta questão: a resposta exige a peça.

Testes moleculares nas categorias indeterminadas (III e IV)

O objetivo é evitar a lobectomia diagnóstica em doentes que acabariam por ter lesão benigna. Existem duas filosofias:

  • Testes de "exclusão" (rule-out) — alta sensibilidade e alto valor preditivo negativo. Um resultado "benigno" permite vigiar em vez de operar. É o princípio dos classificadores de expressão génica.
  • Testes de "confirmação" (rule-in) — alta especificidade e alto valor preditivo positivo. Encontrar BRAF V600E confirma malignidade e permite planear diretamente a cirurgia adequada.

Os painéis atualmente usados (por exemplo, classificadores de expressão génica e painéis de sequenciação de nova geração) combinam as duas funções. Limitações reais: as mutações RAS não discriminam benigno de maligno; a performance dos testes depende da prevalência local de malignidade; a disponibilidade e o custo em Portugal são limitados, pelo que a lobectomia diagnóstica continua a ser a via mais frequente na prática nacional.


O que NÃO fazer no diagnóstico

  • Não pedir TC ou RM por rotina. Reservam-se para bócio mergulhante, avaliação de compressão traqueal/esofágica ou suspeita de invasão local. Atenção: a TC com contraste iodado administra uma carga de iodo que pode atrasar por semanas a meses um eventual tratamento com radioiodo — ponderar antes de pedir.
  • Não pedir cintigrafia com TSH claramente normal (exceto TSH no limite inferior do normal ou contexto de carência de iodo, em que a ETA 2023 a admite).
  • Não pedir PET-FDG para caracterizar um nódulo.
  • Não usar a tiroglobulina como marcador diagnóstico.
  • Não fazer biópsia por agulha grossa (core) como primeira linha — reserva-se para casos selecionados: citologia repetidamente não diagnóstica, suspeita de linfoma, de carcinoma anaplásico ou de tiroidite de Riedel, situações em que se precisa de arquitetura tecidual.
  • Não fazer rastreio ecográfico da tiroide em assintomáticos.
Nódulo da tiroide: a ordem correta da investigaçãoClínica → TSH → cintigrafia só se TSH suprimida → ecografia → citologia se indicadaNÓDULO DA TIROIDE1 · História e exame objetivoRisco: irradiação cervical (sobretudo na infância) · familiar de medular / MEN2Alarme: crescimento rápido · duro e fixo · adenopatia · disfonia (recorrente)A dor NÃO é sinal de malignidade2 · TSH — o primeiro exame laboratorial, semprePedida antes da ecografia: o resultado desvia o algoritmoTSH SUPRIMIDA (baixa)TSH normal ou elevadaCintigrafia (¹²³I ou ⁹⁹mTc)Só nesta situaçãoNódulo QUENTE (hiperfuncionante)praticamente sempre benignoNÃO puncionartratar a hiperfunçãoNódulo frio → seguir o ramo da direita3 · Ecografia com estratificaçãoSinais suspeitoshipoecogenicidade marcadamais alto do que largomargens irregularesMICROCALCIFICAÇÕES (psamoma)extensão extratiroideiaadenopatia cervical4 · Citologia aspirativa (CAAF)Indicação = PADRÃO ecográfico × TAMANHOnunca o tamanho isoladoBETHESDA I–VII repetir · II vigiar · III–IV molecularou lobectomia · V–VI cirurgia!A citologia NÃO distingueadenoma de carcinoma folicularO critério é a invasão capsularou vascular — só visível nahistologia da peça operatóriaCortes para CAAF (ATA 2015): alta e intermédia suspeição ≥1 cm · baixa ≥1,5 cm ·muito baixa ≥2 cm ou vigilância · quisto puro: não puncionar

A gestão decorre diretamente da categoria citológica cruzada com o padrão ecográfico, o estado funcional e os sintomas. A pergunta operacional é sempre a mesma: este doente ganha alguma coisa com a cirurgia?


Nódulo benigno (Bethesda II) — vigilância ativa, não cirurgia

A conduta padrão é não operar. Um nódulo com citologia benigna e ecografia não suspeita tem um risco residual de malignidade da ordem de poucos por cento e o balanço risco-benefício desaconselha claramente a cirurgia.

Como se vigia (o intervalo depende do risco ecográfico, não do tamanho):

  • Padrão ecográfico de alta suspeição com citologia benigna → repetir ecografia e citologia em cerca de 12 meses (discordância).
  • Padrão de suspeição baixa a intermédia → ecografia aos 12–24 meses.
  • Padrão muito baixa suspeição ou quisto puro → vigilância mais espaçada (≥24 meses) ou dispensável.

O que define "crescimento significativo" e motiva repetir a citologia: aumento ≥20% em pelo menos dois diâmetros com um mínimo de 2 mm, ou aumento >50% do volume. Este é o critério a citar. Pequenas oscilações de milímetros entre exames são variabilidade de medição, não progressão.

Se duas citologias forem benignas, o risco de falso negativo torna-se muito baixo e a vigilância pode ser aliviada ou suspensa.

Não se trata um nódulo benigno com levotiroxina. A terapêutica supressiva da TSH para encolher nódulos benignos, muito praticada no passado, foi abandonada: o efeito no volume é pequeno e inconsistente, exige supressão mantida e expõe o doente a fibrilhação auricular e perda de massa óssea, sobretudo na mulher pós-menopáusica e no idoso. É uma resposta errada em qualquer enunciado.


Nódulo hiperfuncionante (quente)

Não se punciona e não se trata como nódulo — trata-se como hipertiroidismo. As opções são o radioiodo (¹³¹I), tipicamente a primeira escolha no adenoma tóxico, a cirurgia (lobectomia) quando há bócio volumoso, sintomas compressivos, preferência do doente ou contraindicação ao radioiodo, e os antitiroideus como preparação ou controlo sintomático (não são solução definitiva porque a autonomia não remite). O detalhe destas opções pertence ao capítulo de disfunção tiroideia.


Categorias indeterminadas (Bethesda III e IV) — onde se decide de verdade

É o cenário clinicamente mais difícil e o mais testado.

Bethesda III (AUS) — três caminhos legítimos, escolhidos em função do risco ecográfico, da idade, da comorbilidade e da preferência do doente:

  1. Repetir a CAAF — a opção mais razoável em muitos casos, porque uma proporção significativa de repetições resulta numa categoria definida (benigna ou maligna).
  2. Teste molecular — quando disponível; um resultado de baixo risco permite vigiar.
  3. Lobectomia diagnóstica — se o padrão ecográfico for suspeito, se houver fatores de risco clínicos ou se a repetição voltar a ser indeterminada.

Bethesda IV (neoplasia folicular) — a repetição da citologia não ajuda, porque a limitação não é de amostragem mas conceptual (é preciso ver a cápsula). As opções são o teste molecular ou, mais frequentemente na prática portuguesa, a lobectomia diagnóstica.

Porquê lobectomia e não tiroidectomia total? Porque na maioria dos casos a lesão será benigna, e a lobectomia:

  • preserva a função tiroideia na maioria dos doentes (evitando levotiroxina vitalícia);
  • coloca em risco apenas um nervo laríngeo recorrente e duas paratiroides, reduzindo substancialmente o risco de hipoparatiroidismo definitivo;
  • se a histologia revelar carcinoma que exija cirurgia mais extensa, pode ser completada com totalização num segundo tempo.

A tiroidectomia total de entrada justifica-se se houver doença nodular bilateral significativa, se o doente tiver irradiação prévia ou síndrome familiar, se existir adenopatia ou suspeita de invasão, ou se a lesão for volumosa e a totalização for previsivelmente necessária.

Lembra o ponto da secção anterior: a biópsia extemporânea intraoperatória tem valor limitado na lesão folicular — não permite examinar toda a cápsula. Não é sensato basear a decisão de totalizar num exame extemporâneo de uma lesão folicular.


Citologia suspeita ou maligna (Bethesda V e VI)

A indicação é cirúrgica. A extensão (lobectomia versus tiroidectomia total), a necessidade de esvaziamento ganglionar, o estadiamento, a indicação de radioiodo e a estratégia de supressão da TSH pertencem ao capítulo de neoplasias da cabeça e pescoço deste lote e não se repetem aqui.

Registam-se apenas os princípios que se cruzam com a avaliação do nódulo:

  • Antes de operar, é obrigatória a ecografia de mapeamento dos compartimentos cervicais (central e laterais) — encontrar adenopatia muda a operação planeada.
  • Laringoscopia pré-operatória para documentar a mobilidade das cordas vocais, obrigatória se houver disfonia ou cirurgia cervical prévia.
  • Tendência atual: as ATA 2025 Guidelines for Adult Patients with Differentiated Thyroid Cancer recomendam a lobectomia como abordagem preferencial no carcinoma diferenciado unilateral ≤2 cm, sem extensão extratiroideia macroscópica nem metástases (cT1cN0M0), salvo indicação para remover o lobo contralateral, e admitem-na como opção preferível também nos tumores de 2–4 cm de baixo risco (cT2N0M0), com aconselhamento explícito sobre a possibilidade de totalização. A mudança face às ATA 2015 é de grau, não de limiar: já em 2015 (Recomendação 35B) a lobectomia era uma das duas opções aceitáveis nos tumores de 1–4 cm sem extensão extratiroideia e cN0 — as ATA 2025 deixaram de a apresentar como alternativa equivalente e passaram a recomendá-la. A tiroidectomia total reserva-se para doença bilateral, fatores de risco ou preferência informada do doente. Nota: as ATA 2025 excluíram deliberadamente a abordagem do nódulo do seu âmbito — para o nódulo mantêm-se como referência as ATA 2015, complementadas pela ETA 2023, e, à data de redação (2026), os cortes de CAAF apresentados neste capítulo continuam válidos. Nota de vigilância: a ATA tem em publicação guidelines dedicadas ao nódulo da tiroide, que substituem a componente nodular das ATA 2015 e introduzem um novo sistema de estratificação ecográfica (ATA SCAN), com revisão da estratificação de risco, dos intervalos de seguimento e do papel dos testes moleculares — convém confirmá-las antes de fixar os cortes de tamanho.

Vigilância ativa do microcarcinoma papilar

É o corolário terapêutico do conceito de sobrediagnóstico e um tema atual de alto rendimento.

Em microcarcinomas papilares (≤1 cm) selecionados, comprovadamente intratiroideus, sem adenopatia, sem extensão extratiroideia, sem características citológicas agressivas e não adjacentes à traqueia ou ao trajeto do nervo laríngeo recorrente, a vigilância ativa com ecografia seriada é uma alternativa legítima à cirurgia imediata. As séries japonesas de referência mostraram que a maioria destes tumores não cresce durante anos de seguimento, que uma minoria desenvolve metástases ganglionares e que a cirurgia diferida nos que progridem tem resultados oncológicos equivalentes à cirurgia imediata.

A vigilância ativa é menos favorável no doente jovem (<40 anos), em quem as séries japonesas mostram maior probabilidade de crescimento tumoral — não é uma contraindicação absoluta, mas exige decisão partilhada explícita. Verdadeiramente desaconselhantes são a localização de risco (adjacência à traqueia ou ao trajeto do recorrente), a adenopatia, a extensão extratiroideia, a intolerância psicológica à incerteza e a impossibilidade de cumprir o seguimento.


Indicações cirúrgicas no nódulo BENIGNO

Um nódulo benigno também se opera — mas por razões mecânicas ou funcionais, não oncológicas:

  • Sintomas compressivos — disfagia, dispneia, sensação de globus persistente, estridor, atribuíveis ao nódulo/bócio (e não a outra causa).
  • Bócio mergulhante (retroesternal), sobretudo com compressão traqueal documentada ou sinal de Pemberton positivo. Nesta situação o radioiodo é opção pouco atrativa pelo risco de edema e agravamento transitório da compressão, e porque a redução volumétrica é lenta e parcial.
  • Crescimento significativo documentado, sobretudo se acompanhado de alteração das características ecográficas.
  • Hiperfunção (nódulo tóxico) quando se opta pela via cirúrgica.
  • Preocupação estética significativa ou preferência informada do doente, quando as alternativas foram discutidas.
  • Impossibilidade de excluir malignidade — citologia repetidamente não diagnóstica em nódulo sólido de padrão suspeito.

A operação de eleição para doença unilateral é a lobectomia com istmectomia; a nodulectomia (enucleação) está abandonada por elevada taxa de recidiva e por dificultar reoperações. Doença bilateral sintomática justifica tiroidectomia total.


Técnicas ablativas percutâneas — a alternativa emergente

Para nódulos benignos sintomáticos (citologia benigna documentada, idealmente em duas colheitas), existem alternativas minimamente invasivas guiadas por ecografia:

  • Ablação por radiofrequência (RFA) — a mais estudada. Consegue reduções volumétricas substanciais, mantidas ao longo do tempo, em regime ambulatório e sob anestesia local.
  • Ablação por micro-ondas e laser.
  • Escleroterapia com etanol — indicada sobretudo nos nódulos predominantemente quísticos e recidivantes após aspiração simples, onde é muito eficaz.
  • HIFU (ultrassons focados de alta intensidade) — mais recente, menos disponível.

Vantagens sobre a cirurgia: preserva a função tiroideia (evita levotiroxina vitalícia), sem cicatriz cervical, risco muito menor de hipoparatiroidismo, recuperação rápida.

Limitações essenciais: não produz peça para histologia, pelo que exige certeza citológica prévia de benignidade; a redução é volumétrica e parcial (não é excisão); pode ser necessário mais do que um tempo; o risco principal, embora baixo, é a lesão térmica do nervo laríngeo recorrente; e é técnica dependente da experiência do operador. Não é opção para lesão maligna ou indeterminada.

A aspiração simples de um quisto alivia sintomas de imediato mas tem taxa de recidiva elevada — é por isso que se associa escleroterapia quando o quisto recidiva.


Síntese decisória

SituaçãoConduta
TSH suprimida + nódulo quenteTratar a hiperfunção; não puncionar
Bethesda II, ecografia não suspeitaVigilância ecográfica (12–24 meses)
Bethesda II, ecografia muito suspeitaRepetir CAAF a ~12 meses (discordância)
Bethesda IRepetir CAAF guiada
Bethesda IIIRepetir CAAF / molecular / lobectomia
Bethesda IVMolecular ou lobectomia diagnóstica (repetir não ajuda)
Bethesda V ou VICirurgia (ver capítulo de neoplasias da cabeça e pescoço)
Benigno + sintomas compressivosCirurgia ou RFA
Quisto benigno sintomático recidivanteAspiração + escleroterapia com etanol
Microcarcinoma papilar ≤1 cm de baixo riscoVigilância ativa em doente selecionado

Referências

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