Neoplasias da mama
Atualizado em 18 de julho de 2026 · 15 perguntas neste tema
O cancro da mama é a neoplasia maligna mais frequente na mulher e uma das áreas mais densamente representadas na PNA — tema de relevância A (alto rendimento), com as competências de diagnóstico, prevenção e gestão todas testáveis. As vinhetas típicas não pedem erudição: pedem que reconheças um nódulo suspeito, apliques o triplo diagnóstico (clínica + imagem + histologia) e não te deixes tranquilizar por uma imagem negativa perante uma massa clinicamente preocupante. Há três eixos que tens mesmo de dominar: (1) distinguir lesão benigna, lesão de risco e carcinoma, sabendo que o carcinoma lobular in situ é marcador de risco bilateral e não precursor obrigatório; (2) os subtipos moleculares (recetores hormonais, HER2, Ki-67), porque são eles que determinam toda a terapêutica sistémica; (3) o princípio de que a cirurgia conservadora com radioterapia tem sobrevivência equivalente à mastectomia e que a biópsia do gânglio sentinela substituiu o esvaziamento axilar sistemático. O contraste de toxicidade tamoxifeno vs inibidor da aromatase é, isoladamente, um dos pontos mais rentáveis de toda a oncologia mamária.
O princípio organizador: triplo diagnóstico
Toda a avaliação de uma queixa mamária assenta na concordância de três eixos: clínica, imagem e histologia. A regra de ouro é:
Se os três forem concordantes para benignidade, pode-se tranquilizar. Se um deles for suspeito, prossegue-se a investigação até haver histologia.
A armadilha mais testada é exatamente esta: uma mamografia e/ou ecografia normais NÃO excluem carcinoma perante um nódulo clinicamente suspeito. A sensibilidade da mamografia cai de forma marcada em mamas densas — e é justamente a mulher jovem, com mama densa, quem tem os carcinomas de pior biologia. Perante uma massa palpável dominante, persistente e dura, a imagem negativa obriga a biópsia, não a alta.
Avaliação clínica
História: idade (o fator de risco isolado mais poderoso), duração e variação da lesão com o ciclo, história menstrual e reprodutiva (menarca precoce, menopausa tardia, nuliparidade, primeira gravidez de termo tardia, ausência de amamentação — todos traduzindo maior exposição estrogénica cumulativa), terapêutica hormonal da menopausa, história familiar detalhada em ambos os lados (idade de diagnóstico, cancro do ovário, cancro da mama no homem, bilateralidade), irradiação torácica prévia (nomeadamente por linfoma de Hodgkin na adolescência — risco muito elevado), biópsias prévias com atipia e densidade mamária.
Sinais de alarme no exame objetivo:
- Nódulo duro, de contornos irregulares, fixo à pele ou ao plano profundo, indolor.
- Retração cutânea ou do mamilo, de instalação recente.
- Pele em casca de laranja, eritema difuso.
- Telorragia espontânea, unilateral e uniorificial (a secreção provocada, bilateral, multiorificial e leitosa aponta para causa fisiológica ou hiperprolactinemia — ver capítulo próprio).
- Lesão eczematiforme do mamilo persistente (Paget).
- Adenopatia axilar dura, fixa ou conglomerada.
A distinção entre dor e cancro merece nota: a mastalgia isolada, cíclica e bilateral raramente traduz malignidade. Uma vinheta com dor cíclica sem massa não deve levar-te a pedir biópsia.
Imagem
Mamografia
Exame de eleição na mulher acima dos 40 anos e na avaliação de qualquer massa nessa faixa etária, com duas incidências (crânio-caudal e oblíqua médio-lateral). Sinais de malignidade:
- Massa espiculada de alta densidade.
- Microcalcificações pleomórficas, finas e lineares/ramificadas, agrupadas ou com distribuição segmentar (marca do CDIS).
- Distorção arquitetural.
- Espessamento cutâneo, retração.
A tomossíntese (mamografia 3D) aumenta a deteção e reduz as chamadas de retorno, sobretudo em mama densa.
Classificação BI-RADS e a conduta que dela decorre
A categorização BI-RADS (ACR) não é um exercício académico — cada categoria tem uma conduta associada, e é isso que a PNA pergunta.
| BI-RADS | Significado | Risco de malignidade | Conduta |
|---|---|---|---|
| 0 | Incompleto | — | Necessita de estudo adicional (incidências, ecografia) ou comparação com exames anteriores |
| 1 | Negativo | ~0% | Rastreio de rotina |
| 2 | Achado benigno | ~0% | Rastreio de rotina |
| 3 | Provavelmente benigno | ≤2% | Vigilância imagiológica a curto prazo (6 meses), tipicamente durante 2 anos |
| 4 | Suspeito | >2% a <95% (4A: 2-10%; 4B: 10-50%; 4C: 50-95%) | Biópsia |
| 5 | Altamente sugestivo de malignidade | ≥95% | Biópsia (e planeamento terapêutico) |
| 6 | Malignidade já comprovada por biópsia — aplica-se só à lesão biopsada, não à restante mama | 100% | Tratamento definitivo |
Duas armadilhas: (1) BI-RADS 0 não é benigno — é incompleto; (2) um BI-RADS 3 perde valor se a doente tiver uma massa palpável suspeita — a clínica prevalece e passa-se a biópsia.
Ecografia
Primeira linha na mulher jovem (<40 anos), na grávida e na lactante, e complemento obrigatório da mamografia na caracterização de qualquer massa. Distingue de forma fiável quisto simples (anecogénico, parede fina, reforço acústico posterior) de massa sólida. Sinais ecográficos de suspeição: mais alta do que larga (orientação não paralela à pele), margens irregulares/anguladas, sombra acústica posterior, halo ecogénico. É também o método que avalia a axila e que guia a biópsia.
Ressonância magnética
Muito sensível mas pouco específica — falsos positivos geram biópsias desnecessárias, pelo que não é exame de rotina. Indicações consolidadas:
- Rastreio de mulheres de alto risco (portadoras de mutação em BRCA1/2 e outros genes de alta penetrância, irradiação torácica prévia na juventude, risco vitalício elevado).
- Carcinoma lobular invasivo, pela sua tendência multicêntrica e má visualização mamográfica.
- Avaliação pré-operatória selecionada: discrepância entre imagem e clínica, candidatas a conservadora com dúvida de extensão, mama muito densa.
- Avaliação da resposta à quimioterapia neoadjuvante.
- Adenopatia axilar metastática com primário oculto ("carcinoma de origem mamária desconhecida").
Histologia — a biópsia por agulha grossa é o padrão
Este é um ponto categórico e frequentemente testado:
A biópsia por agulha grossa (core biopsy), guiada por ecografia (ou estereotaxia para microcalcificações não visíveis em ecografia), é o padrão de diagnóstico. A citologia aspirativa por agulha fina (CAAF) não é adequada como método diagnóstico primário de uma massa mamária suspeita.
Porquê? Porque a CAAF fornece células isoladas: não distingue carcinoma in situ de invasivo (não avalia a membrana basal), não permite graduação fiável, tem taxa apreciável de amostras insuficientes e é operador-dependente. A core biopsy fornece um cilindro de tecido que permite: confirmar invasão, graduar, e sobretudo determinar RE, RP, HER2 e Ki-67 — sem os quais não se pode planear terapêutica sistémica, muito menos neoadjuvante.
A CAAF mantém dois papéis legítimos: esvaziamento de um quisto sintomático e confirmação de adenopatia axilar suspeita (onde só se pretende documentar presença de células malignas).
Quando a lesão é impalpável, a peça cirúrgica é obtida após marcação pré-operatória (arpão/fio metálico, semente radioativa ou marcador magnético) e faz-se radiografia da peça para confirmar que as microcalcificações-alvo foram removidas.
Concordância radiopatológica é obrigatória: se a core biopsy vier benigna mas a imagem for BI-RADS 5, o resultado é discordante e impõe repetição ou excisão cirúrgica. Nunca se aceita um resultado benigno que contradiz uma imagem francamente maligna.
Estadiamento e avaliação inicial
- Doença precoce e assintomática: não se justifica estadiamento sistémico extenso de rotina — o rendimento é baixo e os falsos positivos são frequentes. Avaliação analítica com hemograma, função hepática e renal, e fosfatase alcalina.
- Doença localmente avançada, ganglionar volumosa, inflamatória ou sintomas sugestivos: TC toracoabdominopélvica e cintigrafia óssea (ou PET-TC com FDG).
- Avaliação da axila pré-operatória: ecografia axilar e, se houver gânglio suspeito, citologia ou core biopsy desse gânglio. Um gânglio confirmado como positivo antes da cirurgia altera a estratégia (pondera-se terapêutica sistémica primária).
- Marcadores tumorais séricos (CA 15-3, CEA) não têm papel no diagnóstico nem no rastreio — armadilha frequente.
- Avaliação da fração de ejeção antes de antraciclinas ou anti-HER2, e aconselhamento sobre fertilidade antes de qualquer quimioterapia em mulher jovem.
Fatores de risco — organizar por mecanismo, não por lista
Decorar listas é ineficiente; percebe os quatro mecanismos e as vinhetas resolvem-se sozinhas.
1. Idade e sexo. O sexo feminino e a idade são os fatores dominantes — a incidência sobe de forma monótona com a idade, e é isso que fundamenta o desenho dos programas de rastreio.
2. Exposição estrogénica cumulativa. Quanto mais ciclos ovulatórios sem interrupção, maior o risco: menarca precoce, menopausa tardia, nuliparidade, primeira gravidez de termo em idade tardia, ausência de amamentação. A terapêutica hormonal da menopausa combinada (estrogénio + progestativo) aumenta o risco de forma dependente da duração; a formulação só com estrogénio tem efeito menor. A obesidade na pós-menopausa aumenta o risco (a aromatase do tecido adiposo torna-se a principal fonte de estrogénios). O álcool aumenta o risco de forma dose-dependente, e sem limiar seguro claramente definido.
3. Suscetibilidade genética e história familiar. Cerca de 5-10% dos casos são hereditários.
| Gene | Padrão | Nota |
|---|---|---|
| BRCA1 | Autossómico dominante, alta penetrância | Risco cumulativo de cancro da mama até aos 80 anos da ordem de 60-70%; ovário ~40%. Tumores tipicamente de alto grau e triplo negativos |
| BRCA2 | Autossómico dominante, alta penetrância | Risco de mama semelhante (≈45-70%); ovário mais baixo (~15%). Principal gene do cancro da mama no homem; risco de próstata e pâncreas |
| PALB2 | Penetrância moderada-alta | Risco a aproximar-se do de BRCA2 |
| TP53 | Síndrome de Li-Fraumeni | Cancro da mama muito precoce; evitar irradiação sempre que possível |
| PTEN | Síndrome de Cowden | Hamartomas, lesões mucocutâneas, cancro da tiroide |
| CDH1 | Cancro gástrico difuso hereditário | Carcinoma lobular da mama |
| ATM, CHEK2 | Penetrância moderada | Modificam vigilância, raramente cirurgia redutora |
4. Fatores mamários próprios. Densidade mamária elevada (risco aumentado e, simultaneamente, menor sensibilidade da mamografia — duplo problema), lesões de risco prévias (HDA, CLIS), carcinoma prévio na mama contralateral e irradiação torácica prévia, sobretudo entre os 10 e os 30 anos (linfoma de Hodgkin) — este último confere risco muito elevado e justifica rastreio precoce com RM.
Fatores protetores: paridade precoce, multiparidade, amamentação prolongada, atividade física regular, manutenção de peso saudável.
Prevenção primária
- Estilo de vida: limitar o álcool, manter peso adequado, atividade física regular, ponderar criteriosamente a duração da terapêutica hormonal da menopausa.
- Quimioprevenção — em mulheres com risco elevado (por exemplo, HDA, CLIS, risco calculado elevado), pode oferecer-se tamoxifeno (pré ou pós-menopausa) ou, na pós-menopausa, um inibidor da aromatase ou o raloxifeno. Reduzem sobretudo a incidência de tumores RE-positivos; a decisão pesa a redução de risco contra os efeitos adversos (ver secção de complicações). Não é intervenção de rotina — é decisão partilhada.
- Cirurgia de redução de risco — abordada na secção de gestão.
Rastreio populacional: o programa organizado em Portugal
O rastreio do cancro da mama é rastreio organizado de base populacional, com convocatória ativa, e assenta na mamografia. O racional é claro: existe uma fase pré-clínica longa e detetável (o sojourn time), o tratamento em estádio precoce é substancialmente mais eficaz, e o teste é aceitável e reprodutível.
Em Portugal, a Norma DGS n.º 012/2024, de 06/12/2024, define o rastreio de base populacional para mulheres assintomáticas dos 45 aos 74 anos, com tomossíntese como teste primário (e já não a mamografia digital 2D) e periodicidade escalonada por faixa etária: 45-49 anos, de 2 em 2 a 3 anos; 50-69 anos, de 2 em 2 anos; 70-74 anos, de 3 em 3 anos, com implementação faseada a partir de 2025. Não se trata de uma variação regional nem de uma tendência: é o desenho formal do programa, que substituiu o anterior 50-69 anos bienal e alinha Portugal com a Recomendação do Conselho da UE de 2022 (45-74 anos).
Recomendações internacionais divergentes — importa perceber a lógica da divergência:
| Entidade | Recomendação | Racional |
|---|---|---|
| Portugal (Norma DGS n.º 012/2024) e programas europeus de base populacional | Tomossíntese dos 45 aos 74 anos, com intervalo escalonado (2-3 anos aos 45-49; 2 anos aos 50-69; 3 anos aos 70-74) | Alarga o intervalo etário mantendo relação favorável benefício/dano; alinhado com a Recomendação do Conselho da UE de 2022 |
| USPSTF 2024 | Mamografia bienal dos 40 aos 74 anos (grau B) | Revisão de 2024 que antecipou o início dos 50 para os 40 anos, motivada pela subida da incidência em mulheres mais jovens e pela desigualdade de mortalidade |
| Sociedades radiológicas e várias sociedades oncológicas | Início aos 40 anos, por vezes anual | Prioriza a sensibilidade e a deteção precoce sobre o custo dos falsos positivos |
Danos do rastreio que tens de saber nomear: falsos positivos (com ansiedade e biópsias desnecessárias), sobrediagnóstico e sobretratamento (sobretudo de CDIS de baixo grau que nunca se tornaria clinicamente relevante), cancros de intervalo (surgem entre rondas, tipicamente de biologia mais agressiva) e exposição a radiação ionizante (dose baixa, risco muito pequeno).
O autoexame mamário sistemático não demonstrou reduzir a mortalidade e aumenta biópsias benignas — não é recomendado como estratégia de rastreio. O que se recomenda é consciência mamária: a mulher deve conhecer as suas mamas e procurar avaliação perante uma alteração nova.
Rastreio intensificado no alto risco
Este é o cenário que a PNA gosta: mulher de 30 anos com mãe e tia diagnosticadas antes dos 50 anos.
Quem referenciar para consulta de genética / teste BRCA:
- Cancro da mama diagnosticado em idade jovem (habitualmente ≤40-45 anos).
- Cancro da mama triplo negativo, sobretudo abaixo dos 60 anos.
- Cancro da mama bilateral ou dois primários na mesma pessoa.
- Cancro da mama no homem (qualquer idade).
- Cancro do ovário de alto grau (qualquer idade), na própria ou na família.
- Múltiplos familiares afetados no mesmo ramo, incluindo cancro do pâncreas ou da próstata metastático.
- Ascendência com efeito fundador conhecido (por exemplo, judaica Ashkenazi).
- Portador conhecido na família (teste dirigido à variante).
Vigilância em portadoras de mutação de alta penetrância (esquema típico):
- Autoconhecimento mamário e exame clínico periódico a partir dos ~25 anos.
- RM mamária anual a partir dos 25-30 anos — a RM é o exame central porque a mamografia tem sensibilidade insuficiente em mama densa jovem e porque os tumores BRCA1 crescem rapidamente entre rondas.
- Mamografia anual a acrescentar a partir dos ~30-35 anos (alternando com a RM de modo a haver um exame a cada 6 meses).
- Risco de cancro do ovário: discussão de salpingo-ooforectomia bilateral redutora de risco, tipicamente proposta após completar o projeto reprodutivo (habitualmente 35-40 anos em BRCA1, podendo ser mais tarde em BRCA2). A vigilância ovárica com CA 125 e ecografia transvaginal não é eficaz na redução da mortalidade — este é o ponto crucial e justifica a cirurgia.
- Mastectomia bilateral redutora de risco: reduz o risco de cancro da mama de forma muito marcada (>90%); é opção, não obrigação, e exige decisão informada.
Na mulher com irradiação torácica entre os 10 e os 30 anos, recomenda-se rastreio com RM + mamografia anuais a partir dos ~25 anos ou 8 anos após a radioterapia (o que ocorrer mais tarde).
O princípio fundador: conservadora + radioterapia ≡ mastectomia
O conceito mais importante de toda a cirurgia mamária moderna, demonstrado em ensaios aleatorizados com seguimento de 20 anos:
A cirurgia conservadora da mama (tumorectomia/quadrantectomia) seguida de radioterapia proporciona sobrevivência global equivalente à mastectomia no carcinoma em estádio inicial. A conservadora sem radioterapia aumenta de forma marcada a recidiva local e traduz-se também em maior mortalidade por cancro da mama: na meta-análise de dados individuais do EBCTCG, a radioterapia após conservadora reduziu a recidiva aos 10 anos (35,0% → 19,3%) e a mortalidade por cancro da mama aos 15 anos (25,2% → 21,4%) — daí a regra de uma morte evitada aos 15 anos por cada quatro recidivas evitadas aos 10 anos. A omissão da radioterapia só é aceitável, em decisão partilhada, no subgrupo de baixo risco (idosa, tumor pequeno, RE-positivo, axila negativa, sob hormonoterapia), onde o benefício absoluto é pequeno.
A consequência clínica: a conservadora é a opção preferencial sempre que for tecnicamente possível e a doente puder receber radioterapia. A mastectomia deixou de ser sinónimo de "tratamento mais seguro" — é apenas uma alternativa quando a conservadora não é viável.
Contraindicações à cirurgia conservadora:
- Absolutas: impossibilidade de obter margens livres após tentativas razoáveis de reexcisão; doença multicêntrica (focos em quadrantes diferentes); microcalcificações malignas difusas; contraindicação à radioterapia — nomeadamente gravidez (embora a cirurgia possa ser feita e a radioterapia adiada para o pós-parto no 3.º trimestre), irradiação torácica prévia da mesma mama, ou carcinoma inflamatório.
- Relativas: relação desfavorável entre volume tumoral e volume mamário (frequentemente resolúvel com neoadjuvante ou com técnicas oncoplásticas), doença do tecido conjuntivo ativa (esclerodermia, lúpus) que agrava a toxicidade da radioterapia, mutação em gene de alta penetrância (não proíbe, mas motiva discussão de mastectomia pelo risco de segundo primário).
Margens — regra memorizável:
| Situação | Margem adequada |
|---|---|
| Carcinoma invasivo com irradiação de toda a mama | "No ink on tumor" — basta ausência de tumor na tinta da margem (consenso SSO-ASTRO 2014) |
| CDIS puro com irradiação de toda a mama | 2 mm (consenso SSO-ASTRO-ASCO 2016) |
Margens mais largas do que estas não reduzem a recidiva e pioram o resultado estético — armadilha clássica de exame.
Mastectomia e reconstrução
Quando indicada, a mastectomia moderna já não é a mastectomia radical de Halsted (abandonada). As opções:
- Mastectomia radical modificada — remove glândula, complexo aréolo-mamilar e faz esvaziamento axilar, preservando os músculos peitorais.
- Mastectomia total (simples) — sem esvaziamento axilar.
- Mastectomia com preservação de pele (skin-sparing) — mantém o envelope cutâneo, otimizando a reconstrução imediata.
- Mastectomia com preservação do complexo aréolo-mamilar (nipple-sparing) — oncologicamente segura em casos selecionados (tumor não retroareolar, distância adequada ao mamilo, margem retroareolar negativa). É a técnica de eleição na cirurgia redutora de risco.
Reconstrução: imediata (melhor resultado estético e psicológico) ou diferida; com implante (expansor seguido de prótese) ou com tecido autólogo (retalho DIEP, retalho do grande dorsal, TRAM). A necessidade previsível de radioterapia favorece frequentemente o adiamento ou a escolha de tecido autólogo, porque a irradiação de um implante aumenta a contratura capsular.
Cirurgia redutora de risco em portadoras de mutação de alta penetrância: mastectomia bilateral com preservação do mamilo e reconstrução imediata, reduzindo o risco em mais de 90%. É decisão informada e nunca imposta; a alternativa é vigilância intensiva com RM.
Axila — a história do des-escalonamento
Este é o bloco que mais mudou nas últimas duas décadas e o mais provável de aparecer.
1. Biópsia do gânglio sentinela (BGS). O gânglio sentinela é o primeiro a receber a drenagem do tumor; se estiver livre, a probabilidade de doença nos restantes é muito baixa. Identifica-se com radioisótopo (tecnécio-99m), corante azul (azul patente) ou traçadores magnéticos, isolados ou combinados. A BGS substituiu o esvaziamento axilar sistemático no estadiamento da axila clinicamente negativa, com equivalência oncológica e muito menos linfedema.
- Indicação: carcinoma invasivo com axila clinicamente e ecograficamente negativa. Também no CDIS extenso quando se faz mastectomia (porque, se se encontrar invasão oculta, já não é possível fazer BGS depois).
- O des-escalonamento deu mais um passo — omitir a própria BGS. Nos ensaios SOUND (JAMA Oncol, 2023) e INSEMA (NEJM, 2025) a omissão de qualquer cirurgia axilar foi não-inferior à BGS em doentes selecionadas, com recidiva axilar <1%. A atualização da guideline ASCO de 2025 admite omitir a BGS em mulheres com mais de 50 anos, tumor <2 cm, axila clínica e ecograficamente negativa, RH-positivo/HER2-negativo, submetidas a cirurgia conservadora com irradiação de toda a mama — desde que a ausência de informação ganglionar não altere a decisão adjuvante.
- Contraindicação: axila clinicamente positiva confirmada por citologia/biópsia — nesse cenário a axila já está estadiada.
2. Quando é que um sentinela positivo já não obriga a esvaziamento?
- ACOSOG Z0011 — em doentes com tumor T1-T2, axila clinicamente negativa, submetidas a cirurgia conservadora com irradiação de toda a mama e com 1 ou 2 gânglios sentinela positivos, a omissão do esvaziamento axilar não comprometeu a sobrevivência nem o controlo locorregional. Mudou a prática de forma radical.
- SENOMAC (NEJM, 2024) — alargou este princípio: em doentes com 1-2 sentinelas positivos, incluindo doentes submetidas a mastectomia e tumores maiores, a omissão do esvaziamento axilar foi não-inferior, desde que se administre terapêutica adjuvante adequada (incluindo irradiação regional quando indicada). A tendência é clara: o esvaziamento axilar está a ser progressivamente substituído pela radioterapia regional e pela terapêutica sistémica.
3. Quando ainda se faz esvaziamento axilar (níveis I-II)? Doença axilar volumosa — ≥3 gânglios sentinela positivos (fora do critério Z0011/SENOMAC) ou doença ganglionar N2-N3, axila clinicamente positiva não candidata a des-escalonamento, doença residual axilar após neoadjuvante, e carcinoma inflamatório.
Radioterapia
- Após conservadora: irradiação de toda a mama é regra, com reforço (boost) no leito tumoral nos casos de maior risco. Reduz a recidiva local de forma marcada. Pode ser omitida, com decisão partilhada, na mulher idosa (habitualmente ≥65-70 anos) com tumor pequeno, RE-positivo, axila negativa e sob hormonoterapia — cenário em que o benefício absoluto é pequeno.
- Após mastectomia: indicada em T3-T4, margens positivas e envolvimento ganglionar (consensual em ≥4 gânglios; ponderada em 1-3).
- Irradiação regional (fossa supraclavicular, mamária interna) quando há doença ganglionar significativa.
- Os esquemas hipofracionados (menos frações, dose maior por fração) tornaram-se padrão na maioria dos cenários, com eficácia equivalente e melhor tolerância.
Terapêutica sistémica — a lógica por subtipo
A sequência (neoadjuvante vs adjuvante) não muda a sobrevivência quando a indicação é a mesma; muda a informação obtida e a cirurgia possível.
Indicações de terapêutica sistémica neoadjuvante (primária):
- Doença localmente avançada ou inoperável, e sempre no carcinoma inflamatório.
- Tumor grande em mama pequena, para converter uma mastectomia numa conservadora.
- Subtipos HER2-positivo e triplo negativo, mesmo em tumores operáveis de dimensão intermédia — porque permite avaliar a resposta.
A resposta patológica completa (pCR) — ausência de tumor invasivo residual na mama e na axila após neoadjuvante — é o conceito-chave: é um potente marcador prognóstico, sobretudo nos subtipos HER2-positivo e triplo negativo. Mais importante ainda, orienta a escalada terapêutica: quem não atinge pCR tem pior prognóstico e beneficia de terapêutica adjuvante adicional dirigida à doença residual (por exemplo, capecitabina no triplo negativo; trastuzumab entansina no HER2-positivo).
Hormonoterapia (tumores RE e/ou RP positivos)
| Estado menopáusico | Fármaco de eleição | Porquê |
|---|---|---|
| Pré-menopausa | Tamoxifeno (modulador seletivo do recetor de estrogénio) | Os inibidores da aromatase são ineficazes isoladamente na pré-menopausa: a fonte principal de estrogénios é o ovário, e o bloqueio periférico da aromatase desencadeia uma resposta compensatória com estimulação do eixo. Em risco elevado, associa-se supressão da função ovárica (agonista da GnRH ou ooforectomia) a tamoxifeno ou a um IA |
| Pós-menopausa | Inibidor da aromatase (anastrozol, letrozol, exemestano) | Na pós-menopausa os estrogénios provêm da conversão periférica de androgénios pela aromatase no tecido adiposo — o alvo certo. Modesta superioridade sobre o tamoxifeno |
Duração: mínimo de 5 anos; extensão até 7-10 anos em doentes com risco residual elevado (doença ganglionar, tumor volumoso), pesando a toxicidade cumulativa.
Decisão sobre quimioterapia em RE+/HER2−: as assinaturas genómicas (por exemplo, Oncotype DX, MammaPrint) estratificam o risco de recidiva à distância e identificam doentes que não beneficiam de quimioterapia, evitando sobretratamento. Um score genómico baixo em doença sem envolvimento ganglionar apoia hormonoterapia isolada.
Anti-HER2
Trastuzumab (anticorpo monoclonal anti-HER2) é o pilar, tipicamente por 1 ano, associado a quimioterapia. Nos casos de maior risco acrescenta-se pertuzumab (bloqueio duplo). Na doença residual após neoadjuvante, o trastuzumab entansina (T-DM1) melhora os resultados. Na doença avançada, o trastuzumab deruxtecano tem eficácia notável, incluindo em tumores HER2-low.
Quimioterapia
Esquemas baseados em antraciclinas (doxorrubicina, epirrubicina) e taxanos (paclitaxel, docetaxel), com ou sem ciclofosfamida. É o único tratamento sistémico com atividade no triplo negativo, onde se acrescenta carboplatina e, na doença de maior risco, pembrolizumab no contexto neoadjuvante e adjuvante.
Terapêuticas dirigidas adicionais
- Inibidores de CDK4/6 (palbociclib, ribociclib, abemaciclib) — padrão em primeira linha na doença avançada RE+/HER2−, em associação com hormonoterapia; abemaciclib e ribociclib têm também papel adjuvante na doença precoce de alto risco.
- Inibidores de PARP (olaparib, talazoparib) — exploram a letalidade sintética em tumores com mutação germinal em BRCA1/2, que já têm a reparação por recombinação homóloga deficiente. O ensaio OlympiA (NEJM, 2021) estabeleceu o olaparib adjuvante na doença precoce de alto risco com mutação germinal BRCA.
- Bifosfonatos/denosumab — na pós-menopausa, os bifosfonatos adjuvantes reduzem a recidiva óssea; ambos protegem o osso durante a hormonoterapia. Antes de iniciar: avaliação dentária com tratamento das lesões existentes e adiamento de procedimentos dentários invasivos enquanto durar o fármaco — é assim que se previne a osteonecrose da mandíbula, cuja incidência é substancialmente maior com as doses oncológicas do que com as doses de osteoporose; e doseamento de cálcio, vitamina D e função renal, com suplementação de cálcio e vitamina D obrigatória. O denosumab pode causar hipocalcémia grave, sobretudo na doença renal crónica — corrigir a hipocalcémia antes da primeira administração. O ácido zoledrónico exige ajuste pela clearance de creatinina e está contraindicado na insuficiência renal grave, situação em que se prefere o denosumab.
Tratamento do CDIS
Excisão com margem de 2 mm + radioterapia (que reduz a recidiva local, metade da qual seria invasiva), ou mastectomia se extenso/multicêntrico. Hormonoterapia se RE-positivo, para reduzir novos eventos ipsi e contralaterais. A BGS não se faz por rotina no CDIS tratado com conservadora — apenas quando se faz mastectomia ou perante forte suspeita de invasão oculta.
Referências
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15 perguntas sobre Neoplasias da mama
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