EndocrinológicaNeoplasias da cabeça e pescoço (incluindo tiroide)Publicado (Premium)

Neoplasias da cabeça e pescoço (incluindo tiroide)

Matriz PNA:D · DiagnósticoP · PrevençãoGD · Gestão

Atualizado em 18 de julho de 2026 · 15 perguntas neste tema

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Em resumo

As neoplasias da cabeça e pescoço reúnem, sob um rótulo anatómico comum, doenças biologicamente muito distintas: o carcinoma pavimentocelular das vias aerodigestivas superiores, os tumores das glândulas salivares e, sobretudo do ponto de vista cirúrgico-endócrino, os carcinomas da tiroide. Este capítulo tem relevância B na matriz da PNA e competências D (diagnóstico), P (prevenção) e GD (gestão/decisão), o que significa que as perguntas tendem a testar sequências de decisão e não factos isolados. Há quatro coisas que tens mesmo de dominar: a regra de que uma adenopatia cervical persistente num adulto com mais de 40 anos é metástase até prova em contrário — e que a abordagem correta é citologia aspirativa e procura do primário, nunca biópsia excisional às cegas; o estadiamento AJCC 8.ª edição do carcinoma diferenciado da tiroide, com o ponto de corte etário nos 55 anos; a tendência atual de des-escalada (lobectomia em vez de tiroidectomia total no baixo risco, omissão do radioiodo, supressão de TSH ajustada ao risco); e as complicações da tiroidectomia e do esvaziamento cervical, com destaque para a lesão bilateral do nervo laríngeo recorrente e o hematoma cervical compressivo. A quimiorradioterapia do carcinoma pavimentocelular está desenvolvida no capítulo de Medicina Neoplásica; a avaliação do nódulo tiroideu tem capítulo próprio. Aqui o eixo é a decisão cirúrgica e o componente tiroideu/endócrino.

A massa cervical no adulto: a regra que resolve metade das perguntas

Uma adenopatia cervical persistente num adulto com mais de 40 anos é uma metástase até prova em contrário. Persistente significa que não regrediu ao fim de algumas semanas, que não tem contexto infecioso claro, e que é firme ou fixa. Nesta faixa etária, a probabilidade pré-teste de neoplasia é elevada o suficiente para que a investigação seja conduzida como se de cancro se tratasse, e não como se de linfadenite se tratasse.

As características que aumentam a suspeita são: consistência dura ou pétrea, fixação aos planos profundos ou à pele, ausência de dor, dimensão superior a 2 cm, localização supraclavicular, e persistência para além de 3 a 4 semanas. Sintomas acompanhantes com valor localizador: disfonia (laringe), odinofagia com otalgia reflexa (orofaringe/hipofaringe — a otalgia é referida pelo vago e pelo glossofaríngeo e é sinal frequentemente subvalorizado), obstrução nasal unilateral com epistaxis (nasofaringe), lesão ulcerada não cicatrizada da cavidade oral.


A sequência correta — e o erro que compromete o doente

A sequência canónica é:

  1. História e exame objetivo completos, incluindo nasofibrolaringoscopia flexível no consultório. Este é o exame que muitos candidatos esquecem: é rápido, é de consultório, e visualiza nasofaringe, base da língua, valéculas, seios piriformes e laringe.
  2. Citologia aspirativa por agulha fina (CAAF), idealmente guiada por ecografia. É o primeiro gesto invasivo. Se revela carcinoma pavimentocelular, a questão passa a ser onde está o primário; se revela carcinoma papilar ou tecido tiroideu, o primário é a tiroide; se sugere linfoma, é necessária arquitetura ganglionar e a biópsia (core ou excisional) passa a estar indicada.
  3. Imagem transversal com contraste — tomografia computorizada ou ressonância magnética do pescoço, para mapear a extensão e sugerir o primário. PET-TC com FDG quando o primário permanece oculto.
  4. Panendoscopia sob anestesia geral com biópsias dirigidas, incluindo amigdalectomia diagnóstica ipsilateral e biópsia/ressecção da base da língua (amigdalectomia lingual, hoje frequentemente por cirurgia transoral robótica). Estes dois gestos não são supérfluos: a maioria dos primários ocultos que acabam por ser encontrados esconde-se precisamente no anel de Waldeyer — amígdala palatina e amígdala lingual —, onde a mucosa é criptada e a lesão pode medir poucos milímetros.

O erro grave a evitar: a biópsia excisional às cegas de um gânglio cervical. Há duas razões, e a PNA testa ambas. Primeiro, razão oncológica: abrir e retirar um gânglio metastático rompe a cápsula, dissemina células no campo cirúrgico e compromete os planos anatómicos de um futuro esvaziamento, com pior controlo regional. Segundo, razão reconstrutiva e de radioterapia: a cicatriz mal posicionada obriga a alargar campos de irradiação e pode inviabilizar a incisão planeada. A biópsia aberta de um gânglio cervical só se justifica quando a CAAF é repetidamente não diagnóstica e a suspeita é de linfoma; e, mesmo aí, deve ser feita pela equipa que virá a operar o doente, com a incisão colocada dentro do traçado do futuro esvaziamento.


Biomarcadores no gânglio: p16 e EBV

Quando a CAAF ou a biópsia revelam carcinoma pavimentocelular sem primário conhecido, a imuno-histoquímica para p16 (marcador substituto de infeção por HPV de alto risco) e a pesquisa de EBV (hibridação in situ para EBER) são passos de rotina, porque apontam o território a biopsiar: p16 positivo orienta para a orofaringe (amígdala e base da língua), EBV positivo para a nasofaringe. Um gânglio quístico no nível II num adulto não fumador é, até prova em contrário, metástase de carcinoma da orofaringe associado a HPV — e não um quisto branquial. Um «quisto branquial» de novo aparecimento num adulto acima dos 40 anos deve ser tratado como metástase quística até demonstração do contrário, um dos erros clássicos de raciocínio.


Diagnóstico do carcinoma da tiroide já suspeito

A avaliação do nódulo tiroideu (ecografia, sistemas de estratificação de risco, indicação de CAAF, classificação de Bethesda) é matéria do capítulo dedicado. Aqui interessa o que se faz quando já há carcinoma ou forte suspeita, com vista à decisão cirúrgica:

Ecografia cervical completa pré-operatória — obrigatória, e não apenas da tiroide: tem de mapear os compartimentos central e laterais, porque a deteção de gânglios suspeitos muda a extensão da cirurgia. Gânglios suspeitos: perda do hilo gordo, microcalcificações, degenerescência quística, vascularização periférica, forma arredondada. Gânglios laterais suspeitos devem ser confirmados por CAAF com doseamento de tiroglobulina no líquido de lavagem da agulha, que é mais sensível do que a citologia isolada.

Avaliação laríngea pré-operatória — laringoscopia para documentar a mobilidade das cordas vocais. Um doente pode ter paralisia recorrencial assintomática (compensada) e, se não a documentares antes, não conseguirás distinguir lesão prévia de lesão cirúrgica.

Doseamentos — TSH sempre. Calcitonina se houver suspeita de carcinoma medular (história familiar, citologia sugestiva, diarreia, flushing); o seu rastreio sistemático em todos os nódulos é praticado nalguns países europeus mas não é consensual. A tiroglobulina não tem qualquer papel diagnóstico pré-operatório — é marcador de seguimento, e apenas depois de tiroidectomia total. Testá-la antes da cirurgia é erro conceptual frequente.

Imagem transversal (TC com contraste) apenas em doença volumosa, com sintomas compressivos, extensão retroesternal ou suspeita de invasão da via aerodigestiva. Historicamente evitava-se o contraste iodado por atrasar o radioiodo; hoje aceita-se, porque a informação anatómica pesa mais e a carga de iodo se depura em algumas semanas.

Cintigrafia tiroideia não faz parte do estudo do carcinoma — o seu lugar é o nódulo com TSH suprimida, para identificar nódulos hiperfuncionantes, que são quase sempre benignos.


Diagnóstico do carcinoma medular

A suspeita levanta-se por calcitonina elevada. Valores muito elevados correlacionam-se com volume tumoral e com metastização; elevações ligeiras têm diagnóstico diferencial largo (insuficiência renal, inibidores da bomba de protões, tiroidite, hiperplasia de células C, tabagismo). O CEA acrescenta informação prognóstica e é útil quando o tumor desdiferencia e a calcitonina deixa de acompanhar a carga tumoral.

Uma vez confirmado o carcinoma medular, dois passos são obrigatórios antes de operar:

  1. Teste genético para mutações germinativas do RET em todos os doentes, mesmo sem história familiar, porque uma proporção significativa dos casos aparentemente esporádicos alberga mutação de novo. O resultado condiciona o rastreio da família.
  2. Exclusão de feocromocitoma por doseamento de metanefrinas plasmáticas livres ou metanefrinas fracionadas na urina de 24 horas, e exclusão de hiperparatiroidismo primário (cálcio, PTH). Este ponto é matéria de exame quase garantida: operar a tiroide de um doente com feocromocitoma não diagnosticado pode desencadear crise hipertensiva perioperatória fatal. Se houver feocromocitoma, opera-se primeiro a suprarrenal, após bloqueio alfa-adrenérgico adequado.

Diagnóstico do carcinoma anaplásico

Massa cervical dura, fixa, de crescimento em semanas, num doente tipicamente com mais de 60 anos, com disfonia, disfagia e estridor. A prioridade clínica é dupla: garantir a via aérea e obter tecido rapidamente. A CAAF pode ser insuficiente para distinguir de linfoma ou de carcinoma medular pouco diferenciado; frequentemente é necessária biópsia com agulha grossa ou biópsia cirúrgica incisional, com painel imuno-histoquímico. A pesquisa de mutação BRAF V600E deve ser pedida com urgência (idealmente com resultado em dias), porque condiciona a possibilidade de terapêutica dirigida.

Prevenção primária: o que realmente reduz incidência

No território da cabeça e pescoço, a prevenção primária é das mais eficazes de toda a oncologia, porque os principais fatores etiológicos são modificáveis ou vacináveis.

Tabaco e álcool continuam a responder pela maioria dos carcinomas pavimentocelulares da cavidade oral, laringe e hipofaringe. O efeito conjunto é multiplicativo, não aditivo — o consumidor de ambos tem risco muito superior à soma dos riscos isolados, porque o álcool atua como solvente que facilita a penetração dos carcinogénios do tabaco na mucosa e altera o metabolismo do acetaldeído. A cessação tabágica reduz o risco de forma progressiva ao longo de anos e, no doente já tratado, reduz o risco de segundo tumor primário — conceito de cancerização de campo: toda a mucosa exposta sofreu alterações genéticas, pelo que o doente curado de um tumor mantém risco elevado de outro, na ordem de alguns pontos percentuais por ano. Devem ser oferecidos apoio comportamental e farmacoterapia (terapêutica de substituição nicotínica, vareniclina, bupropiom), e o momento do diagnóstico oncológico é um dos mais eficazes para intervir.

Outros fatores: noz de areca/betel (cavidade oral), exposição ao pó de madeira (adenocarcinoma dos seios etmoidais, com relevância em medicina do trabalho), níquel, conservas salgadas e EBV (nasofaringe), higiene oral deficiente e próteses traumáticas, radiação ultravioleta (lábio inferior e pele da face).

Vacinação contra o HPV — é a intervenção preventiva com maior impacto esperado nas próximas décadas sobre o carcinoma da orofaringe. Em Portugal, a vacina nonavalente contra o HPV integra o Programa Nacional de Vacinação: introduzida em 2008 para as raparigas, alargada em 2020 aos rapazes nascidos a partir de 1 de janeiro de 2009 e, pela Norma DGS n.º 002/2026, de 08/04/2026, alargada de forma faseada a homens e mulheres não vacinados até aos 26 anos de idade (começando pela faixa dos 24 aos 26 anos). A extensão a ambos os sexos é relevante precisamente porque a carga de doença orofaríngea associada ao HPV é predominantemente masculina. O benefício orofaríngeo é ainda indireto e projetado — a redução da infeção oral persistente por HPV-16 é o mecanismo esperado —, e é honesto dizer ao doente que a evidência direta de redução de incidência de cancro da orofaringe está a acumular-se, ao contrário do que já está bem demonstrado para o colo do útero.


Prevenção no carcinoma da tiroide: o problema é o oposto

Aqui há uma inversão conceptual que a PNA gosta de explorar. Não existe rastreio populacional recomendado do carcinoma da tiroide, e a palpação sistemática do pescoço ou a ecografia de rastreio em assintomáticos são desaconselhadas. A razão é o sobrediagnóstico: a autópsia de adultos que morreram por outras causas revela microcarcinomas papilares numa fração muito elevada da população, lesões que nunca se manifestariam clinicamente. Programas de rastreio ecográfico intensivo — a experiência da Coreia do Sul é o exemplo citado na literatura — produziram um aumento marcado da incidência sem qualquer alteração da mortalidade, à custa de milhares de tiroidectomias e das suas complicações permanentes. É a definição clássica de sobrediagnóstico: detetar doença que não faria mal.

O corolário prático é a vigilância ativa de microcarcinomas papilares (habitualmente ≤1 cm, intratiroideus, sem gânglios, sem contacto com a traqueia ou o trajeto do recorrente, em doentes que aceitam e podem cumprir seguimento), estratégia validada em séries prospetivas japonesas e que, na atualização das guidelines da ATA de 2025, passou a ser recomendação formal no carcinoma papilar cT1aN0M0 em doentes selecionados. A vigilância ativa só é segura com regras de paragem explícitas: reavaliar por ecografia aos 6 meses e depois anualmente, e converter para cirurgia perante qualquer um dos seguintes — crescimento ≥3 mm no maior diâmetro, aparecimento de metástase ganglionar, desenvolvimento de extensão extratiroideia ou aproximação da cápsula posterior/trajeto do recorrente, ou impossibilidade de o doente manter o seguimento. Deve ser conduzida em centro com experiência e com via cirúrgica assegurada.

Fatores de risco identificáveis e o que fazer com eles:

FatorImplicação prática
Irradiação externa da cabeça e pescoço na infânciaRisco aumentado de carcinoma papilar, com latência de décadas; vigilância clínica e ecográfica dirigida
Exposição a iodo radioativo em acidente nuclear na infânciaRisco marcado (experiência de Chernobyl); profilaxia com iodeto de potássio tem de ser precoce e é mais benéfica quanto mais jovem o exposto
História familiar de carcinoma diferenciado em ≥2 familiares de 1.º grauAumenta o risco; sem protocolo de rastreio universalmente aceite
Síndromes hereditários (PTEN/Cowden, polipose adenomatosa familiar, complexo de Carney, Werner)Vigilância dirigida no contexto do síndrome
Mutação germinativa RETVer abaixo — é a única situação com prevenção cirúrgica estabelecida

Nota importante: a suplementação de iodo em populações deficitárias não aumenta a incidência global de cancro da tiroide, mas desvia o padrão histológico do folicular para o papilar — que tem melhor prognóstico. A deficiência de iodo é fator de risco para bócio e para carcinoma folicular.


Prevenção cirúrgica: tiroidectomia profilática nos portadores de RET

Este é o exemplo mais nítido de cirurgia oncológica preventiva em endocrinologia, e é matéria de exame de alto rendimento.

No MEN2A (carcinoma medular + feocromocitoma + hiperparatiroidismo primário) e no MEN2B (carcinoma medular + feocromocitoma + neuromas mucosos, ganglioneuromatose intestinal e hábito marfanoide, sem hiperparatiroidismo), a penetrância do carcinoma medular aproxima-se da totalidade dos portadores. Identificado um caso índice, o teste genético em cascata dos familiares de 1.º grau permite oferecer tiroidectomia total profilática à criança portadora, antes de o tumor surgir.

O momento da cirurgia é ditado pelo codão mutado, segundo a estratificação de risco da ATA (guidelines de carcinoma medular, 2015):

  • Risco altíssimo — mutação M918T, característica do MEN2B: tiroidectomia no primeiro ano de vida, idealmente nos primeiros meses, porque há casos documentados de metastização muito precoce.
  • Risco alto — codão C634 (típico do MEN2A) e A883F: tiroidectomia aos 5 anos de idade ou mais cedo, conforme os valores seriados de calcitonina sérica.
  • Risco moderado — restantes mutações: a cirurgia pode ser diferida e guiada pela calcitonina sérica seriada e pela ecografia, operando quando a calcitonina começa a subir; muitos destes doentes são operados na infância tardia ou na adolescência.

O MEN2B tem ainda uma janela de suspeita fenotípica: os neuromas mucosos dos lábios e da língua, os lábios espessados («lábios em tromba»), a alacrimia e a obstipação/megacólon por ganglioneuromatose podem estar presentes antes de qualquer sinal tiroideu. Reconhecer o fenótipo numa criança é, literalmente, o gesto que permite curar.

Em todos os portadores, a vigilância do feocromocitoma (metanefrinas anuais a partir da idade definida pelo codão) e, no MEN2A, do hiperparatiroidismo, mantém-se ao longo da vida — e precede sempre qualquer intervenção cirúrgica.


Prevenção terciária: o doente já tratado

Rastreio de segundo tumor primário no doente com carcinoma pavimentocelular: exame clínico e endoscópico regular, atenção a sintomas novos, e cessação tabágica agressiva. O risco é contínuo e não decresce com o tempo, ao contrário do risco de recorrência do tumor inicial.

Vigilância do hipotiroidismo após radioterapia cervical: a tiroide é irradiada incidentalmente em quase todos os campos cervicais e o hipotiroidismo tardio é frequente, podendo surgir anos depois. TSH periódica é obrigatória no seguimento e é uma das causas mais banais de fadiga mal atribuída à doença oncológica.

Vigilância de estenose carotídea e de segundos tumores induzidos por radiação em sobreviventes jovens irradiados.

Princípio geral: a decisão é de equipa multidisciplinar

Toda a decisão terapêutica em cabeça e pescoço deve passar por reunião multidisciplinar com cirurgia, otorrinolaringologia, endocrinologia, oncologia médica, radioterapia, anatomia patológica, medicina nuclear, nutrição e terapia da fala. Isto não é retórica administrativa: em vários tumores existe equivalência oncológica entre cirurgia e radioterapia, e a escolha faz-se pelo perfil de sequelas funcionais — voz, deglutição, ombro — e pelas preferências do doente.

O tratamento do carcinoma pavimentocelular (cirurgia vs (quimio)radioterapia, preservação de órgão, cisplatina concomitante, imunoterapia na doença recorrente/metastática) está desenvolvido no capítulo publicado de Medicina Neoplásica — remete para lá. Aqui foca-se a decisão cirúrgica e o carcinoma da tiroide.


Carcinoma diferenciado da tiroide: extensão da cirurgia

A pergunta central é lobectomia (hemitiroidectomia) ou tiroidectomia total. Nas últimas duas décadas o pêndulo des-escalou de forma clara.

Antes (guidelines ATA de 2009 e anteriores): tiroidectomia total para praticamente todo o carcinoma acima de 1 cm.

Agora (ATA 2025): a lobectomia é a estratégia cirúrgica preferida no tumor unilateral de baixo risco com menos de 2 cm, intratiroideu, sem extensão extratiroideia, cN0, M0 e sem irradiação cervical prévia. Nos tumores de 2 a 4 cm de baixo risco, a lobectomia pode ser a abordagem inicial, desde que o doente seja informado da possibilidade de totalização posterior caso a histologia definitiva revele fatores adversos. O racional é que a sobrevivência é equivalente e evitam-se, num doente de baixo risco, a hipocalcémia permanente, o risco bilateral de lesão recorrencial e a necessidade obrigatória de levotiroxina para toda a vida — cerca de 70 a 80% dos doentes submetidos a lobectomia mantêm função tiroideia suficiente sem suplementação (hipotiroidismo pós-hemitiroidectomia em cerca de 30%, com necessidade efetiva de levotiroxina em 20 a 30%; risco maior se a TSH pré-operatória estiver no limite superior ou houver tiroidite associada).

Indicações que mantêm a tiroidectomia total:

  • Tumor >4 cm
  • Extensão extratiroideia macroscópica (T3b/T4)
  • Metástases ganglionares clínicas ou metástases à distância
  • Histologia agressiva (células altas, hobnail, colunar, esclerosante difusa) ou doença multifocal bilateral clinicamente relevante
  • Irradiação cervical prévia
  • Intenção clara de administrar radioiodo ou necessidade de usar a tiroglobulina como marcador fiável
  • Doença bilateral ou bócio volumoso contralateral

O microcarcinoma papilar (≤1 cm) intratiroideu e cN0 é tratado por lobectomia, ou colocado em vigilância ativa em doentes selecionados.


Esvaziamento ganglionar: terapêutico versus profilático

Esta é uma das áreas de maior controvérsia e, por isso mesmo, muito testável.

Esvaziamento central (nível VI) terapêutico — consensual. Se há gânglios centrais clinicamente ou imagiologicamente comprovados, faz-se esvaziamento compartimental, não «berry picking» (remoção isolada dos gânglios visíveis), porque este último associa-se a recorrência elevada.

Esvaziamento central profilático (em doente cN0)controverso. Argumentos a favor: retira micrometástases presentes numa proporção substancial dos doentes, melhora a precisão do estadiamento e reduz a tiroglobulina pós-operatória e as reintervenções no compartimento central (que são tecnicamente difíceis e mais perigosas). Argumentos contra: não demonstrou benefício em sobrevivência e aumenta o hipoparatiroidismo transitório e a lesão recorrencial. A ATA 2025 endureceu a posição: recomenda formalmente contra o esvaziamento central profilático no carcinoma papilar pequeno (T1/T2) cN0 não invasivo, mantendo-o apenas como opção condicional em tumores T3/T4, em doença com gânglios laterais comprovados, ou quando a informação altera a decisão sobre radioiodo.

Esvaziamento lateral (níveis IIa–Vb)apenas terapêutico, isto é, só perante doença ganglionar comprovada por citologia. Nunca profilático no carcinoma diferenciado. É um esvaziamento seletivo e preservador das estruturas não invadidas: veia jugular interna, esternocleidomastoideu e nervo espinhal acessório.


Estratificação de risco e resposta dinâmica

Depois da cirurgia, o doente é classificado em quatro categorias de risco de recorrência (ATA 2025) — baixo (<10%), baixo-intermédio (10–15%), alto-intermédio (16–30%) e alto (>30%) —, com base em: extensão da ressecção, invasão vascular, número e dimensão dos gânglios metastáticos e presença de extensão extraganglionar, histologia, multifocalidade, e captação fora do leito tiroideu. O desdobramento da antiga categoria intermédia é clinicamente operativo: é o grupo alto-intermédio que passa a ter indicação mais clara para radioiodo. Note-se ainda que o N1a pesa menos do que o N1b e que a extensão extratiroideia apenas microscópica foi reclassificada como fator de menor risco.

O conceito mais importante — e o que distingue quem estudou de quem decorou — é o de resposta dinâmica ao tratamento. A estratificação inicial não é um destino: é reavaliada continuamente com base na tiroglobulina, nos anticorpos e na imagem. As quatro categorias são:

CategoriaDefinição resumidaConsequência
Resposta excelenteTiroglobulina indetetável, anticorpos negativos, imagem negativaReduz intensidade e frequência do seguimento; alivia a supressão de TSH
Resposta bioquímica incompletaTiroglobulina elevada ou em subida, sem doença identificável na imagemVigilância; muitos evoluem espontaneamente para excelente
Resposta estrutural incompletaDoença visível na imagemTratamento dirigido
Resposta indeterminadaAchados inespecíficos, tiroglobulina em valores baixos não nulosRepetir e observar

Este modelo permite des-escalar o seguimento na maioria e concentrar recursos na minoria com doença persistente.


Radioiodo: também des-escalado

O iodo-131 é captado pelo simportador sódio-iodo (NIS) das células foliculares — daí só funcionar em tumores diferenciados e nunca no medular ou no anaplásico. Requer estimulação da TSH, por suspensão da levotiroxina ou, preferencialmente, por TSH recombinante humana, e uma dieta pobre em iodo nas semanas prévias.

A mudança de paradigma:

  • Baixo risco — a omissão do radioiodo é hoje suportada por evidência de não inferioridade. O ensaio ESTIMABL2 (publicado no New England Journal of Medicine, 2022) mostrou que, em doentes de baixo risco submetidos a tiroidectomia total, a estratégia sem radioiodo não foi inferior à ablação com 1,1 GBq quanto a eventos aos 3 anos. O ensaio britânico IoN (Lancet, 2025) confirmou-o: sobrevivência livre de recorrência aos 5 anos de 97,9% sem ablação versus 96,3% com ablação, cumprindo o critério de não inferioridade em doentes pT1–pT2, N0/Nx sem características adversas. Anteriormente, os ensaios HiLo e ESTIMABL1 já tinham estabelecido que, quando se decide ablar, a atividade baixa (1,1 GBq) é equivalente à alta (3,7 GBq) — primeiro passo da mesma des-escalada.
  • Risco baixo-intermédio — o radioiodo adjuvante é geralmente dispensável, decidindo-se caso a caso.
  • Risco alto-intermédio — é aqui que a indicação para radioiodo se torna mais clara, ponderando invasão vascular extensa, histologia agressiva e carga ganglionar.
  • Alto risco — radioiodo adjuvante mantém-se recomendado.

Antes de administrar: excluir gravidez (teste obrigatório na mulher em idade fértil) e adiar a conceção 6 a 12 meses. A amamentação tem de ter cessado há pelo menos 6 semanas — a mama lactante concentra iodo pelo NIS — e não deve ser retomada após o tratamento, porque amamentar depois do I-131 irradia diretamente a tiroide do lactente. Após a alta, cumprir as precauções de radioproteção: evitar contacto próximo e prolongado com crianças pequenas e grávidas durante os dias definidos pela medicina nuclear, dormir sozinho e cuidados de higiene sanitária — condições que exigem planeamento social prévio e que são causa frequente de adiamento do tratamento. Hidratação abundante e estimulação salivar (rebuçados ácidos) reduzem a sialadenite e a xerostomia permanentes.


Supressão da TSH ajustada ao risco

A TSH é fator trófico para o tecido folicular, pelo que a levotiroxina é dada não só para substituir, mas para suprimir. A intensidade é hoje calibrada ao risco, porque a supressão profunda crónica causa fibrilhação auricular e perda de massa óssea, sobretudo na mulher pós-menopáusica.

A ATA 2025 deixou de definir alvos numéricos fixos de TSH. A orientação passou a ser qualitativa e guiada pela resposta ao tratamento:

  • Doença estrutural persistente ou alto risco → manter a TSH abaixo do intervalo de referência.
  • Baixo risco com resposta excelente → manter a TSH dentro do intervalo de referência.

A supressão completa (TSH indetetável) não é recomendada — não demonstrou benefício e associa-se a excesso de mortalidade cardiovascular. A intensidade da supressão é reavaliada ao longo do tempo em função da resposta dinâmica, podendo ser descontinuada quando a tiroglobulina é indetetável e a imagem é negativa, em vez de cumprir um período fixo de anos.


Tiroglobulina: as duas condições de validade

A tiroglobulina sérica é o marcador de seguimento do carcinoma diferenciado, mas só é interpretável se duas condições se verificarem:

  1. Só tem valor após tiroidectomia total (idealmente com ablação). Após lobectomia, o lobo remanescente produz tiroglobulina e o valor não é interpretável como marcador tumoral — o seguimento nesse caso faz-se sobretudo por ecografia. Este é um erro de raciocínio extremamente comum.
  2. É obrigatório dosear simultaneamente os anticorpos anti-tiroglobulina em cada colheita. Presentes numa minoria significativa dos doentes, interferem no doseamento e produzem tiroglobulina falsamente baixa ou indetetável, mascarando doença ativa. Quando os anticorpos estão presentes, a sua tendência ao longo do tempo funciona como marcador substituto: anticorpos que descem sugerem controlo; anticorpos que voltam a subir sugerem doença.

O doseamento pode ser feito sob levotiroxina (basal) ou após estimulação com TSH recombinante, sendo esta última mais sensível. A ecografia cervical é o complemento obrigatório.


Doença refratária ao iodo

Quando a doença metastática deixa de captar iodo ou progride apesar dele, entra-se no domínio dos inibidores multicinase — o lenvatinib e o sorafenib estão aprovados em primeira linha no carcinoma diferenciado refratário ao radioiodo, e o cabozantinib está aprovado em segunda linha, após progressão sob terapêutica prévia dirigida ao VEGFR (ensaio de fase 3 COSMIC-311; aprovação FDA em 2021 e Comissão Europeia em 2022). Em doença com alterações moleculares acionáveis (fusões NTRK ou RET), existem inibidores dirigidos. A decisão de iniciar tratamento sistémico pondera a cinética de progressão: doença metastática indolente e assintomática pode ser vigiada.


Carcinoma medular: tratamento

A cirurgia é a única modalidade curativa — não capta iodo, não responde à supressão de TSH. O padrão é tiroidectomia total com esvaziamento do compartimento central, acrescido de esvaziamento lateral terapêutico quando há doença lateral. Antes de operar: excluir feocromocitoma (repete-se aqui porque é o ponto mais penalizado) e hiperparatiroidismo.

No seguimento, calcitonina e CEA são doseados em série. O conceito de alto rendimento é o tempo de duplicação da calcitonina: duplicações rápidas (inferiores a cerca de 6 meses) associam-se a pior prognóstico e motivam procura ativa de doença estrutural; duplicações lentas ou ausentes permitem vigilância. Na doença avançada progressiva, o inibidor dirigido ao RET é o selpercatinib, que substituiu largamente os multicinase menos seletivos (vandetanib e cabozantinib, que se mantêm como alternativas). O pralsetinib não tem indicação no carcinoma medular: a extensão da indicação tiroideia foi retirada na União Europeia e a própria autorização europeia do fármaco foi revogada em outubro de 2024, tendo a indicação norte-americana para carcinoma medular RET-mutado sido igualmente retirada nesse ano.


Carcinoma anaplásico: emergência oncológica

A abordagem é simultânea, não sequencial:

  1. Via aérea — avaliação urgente; traqueostomia apenas quando necessária e ponderada, porque num tumor que invade a traqueia pode ser tecnicamente difícil e não melhora a sobrevivência global; a decisão integra os objetivos de cuidados.
  2. Tecido e molecular urgentes — histologia com painel imuno-histoquímico e BRAF V600E em dias.
  3. Tratamento — se BRAF V600E mutado, a combinação dabrafenib + trametinib produz respostas rápidas e, nalguns casos, permite converter doença irressecável em ressecável (estratégia neoadjuvante). Se ressecável à partida (IVA/IVB), cirurgia seguida de radioterapia ± quimioterapia. A imunoterapia tem papel emergente em combinação.
  4. Cuidados paliativos precoces e conversa honesta sobre objetivos — a sobrevivência mediana continua a medir-se em meses, e frequentemente menos de seis. Integrar paliação desde o diagnóstico não é resignação: é padrão de cuidado.

Cirurgia por doença benigna que aparece nestes doentes

Duas indicações cirúrgicas benignas que a PNA mistura com as oncológicas:

  • Doença de Graves — tiroidectomia total quando há bócio volumoso com compressão, oftalmopatia moderada a grave (o radioiodo pode agravá-la), suspeita de malignidade concomitante, desejo de gravidez a curto prazo, ou falência/intolerância aos antitiroideus. Exige eutiroidismo pré-operatório com antitiroideus e, classicamente, iodeto (solução de Lugol) nos dias que antecedem a cirurgia para reduzir a vascularização glandular e o risco de crise tirotóxica.
  • Bócio mergulhante (retroesternal) — indicação por sintomas compressivos (dispneia, disfagia, estridor posicional, síndrome da veia cava superior) ou crescimento progressivo. A maioria é abordável por cervicotomia; a esternotomia é necessária numa minoria. A prova de Pemberton (elevação dos braços que provoca pletora facial e ingurgitamento jugular) é o sinal clínico clássico.

Referências

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